Michel Laub

Categoria: Escritores e manias

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (22)

Antonio Prata, autor de Meio intelectual, meio de esquerda“Havendo silêncio e Coca Zero, escrevo em qualquer lugar. O ideal é que seja logo cedo, com a cabeça fresca, mas nem sempre é possível. (Se você vive da escrita, acaba sendo agente literário, secretário e office boy de si mesmo, o que obriga a dedicar boa parte do dia a negociar valores, preencher formulários, ler contratos, emitir notas, frequentar papelarias e  agências dos correios. Curioso paradoxo: quanto mais escritor você se torna, menos tempo tem para escrever.) Além de silêncio, Coca Zero & cuca fresca, uma impressora é muito bem vinda. Não sei por que fenômenos óticos ou metafísicos, palavras repetidas, frases truncadas e erros ortográficos se escondem na tela do computador, mas revelam-se na pagina impressa. Para escrever uma crônica, portanto, consumo uma pequena floresta em celulose. Sem impressora o processo é mais lento, mas flui. Impossível mesmo é escrever com barulho ou sem Coca Zero. Aí, não tem jeito.”

Evandro Affonso Ferreira, autor de Minha mãe se matou sem dizer adeus “Escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias e cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim.”

Francisco Alvim, autor de O metro nenhum “Escrevo quando minhas resistências ao ato de escrever falecem.”

Luiz Bras, autor de Paraíso líquido“Perdi completamente o hábito de escrever em cadernos ou bloquinhos. Escrevo sempre direto no computador, e jamais longe de casa. Nas viagens eu gosto de ler, ouvir música, andar, ler mais um pouco, conversar, beber, ler mais um pouco, dormir, ir ao cinema… Uso pouco o iPad e a web. Meu escritório é amplo porque durante a escritura de um conto ou de um romance preciso sempre de muito espaço para as revistas, os livros, as graphic novels, os mangás, as gravuras, os recortes de jornal… Costumo trabalhar com seis ou sete publicações abertas. Também tenho à mão uma coleção de documentários em DVD, sobre ciência e tecnologia. Não conseguiria escrever nem um miniconto longe desse material de consulta. Minha filha já se ofereceu pra passar todo esse acervo, item por item, pra meu laptop. Eu disse que seria perda de tempo. Desconfio que em cinco ou dez anos ele já estará em meu cérebro, armazenado numa prótese neurológica japonesa.”

Lygia Fagundes Telles, autora de Invenção e memória“Gosto de escrever ouvindo música sem palavras, música clássica. As personagens já exigem muito do escritor, o tempo é delas, então não dá para fazer mais nada além de ouvi-las.”

Rubens Figueiredo, autor de Passageiro do fim do dia“A verdade é que, comigo, não há nada que pareça ritual. Nem mesmo encontro na memória algum gesto ou método que eu repita. A rigor, nem lembro direito como foi que escrevi meus livros! Parece que, quando as ideias se definem um pouco melhor, eu simplesmente sento e escrevo, como posso, como dá. Talvez o que mais se aproxime de uma mania é o fato de eu ficar reescrevendo tudo mil vezes. E mesmo depois de tudo pronto e o livro publicado, eu achar que tenho de reescrever. Mas talvez seja injusto com os verdadeiros maníacos chamar isso de mania.”

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Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (21)

Alberto Mussa, autor de O senhor do lado esquerdo“Não sei se são manias, no sentido estrito, mas há certas condições indispensáveis ao meu processo criativo. Primeiro, só escrevo em casa, principalmente na minha mesa, embora possa mudar de ambiente de vez em quando. Isso porque escrevo à mão e posso carregar meu caderno pautado para o quarto, a cozinha ou o banheiro. Se estou escrevendo, ando com ele pela casa, debaixo do braço, o dia todo. Este caderno, é claro, nunca sai do apartamento.  Antes, porém, de começar a escrever, tenho que fazer o projeto integral do livro, faço mapas, esquemas, lista das personagens, com suas características e principais intervenções na história. Só depois do livro todo estruturado é que começo a escrever. Talvez minha grande mania seja, durante essa fase de estruturação, a de contar, oralmente, a história do livro, para as pessoas próximas (que muitas vezes não têm nenhuma relação com o mundo literário). Só me sinto capaz de escrever quando a história amadurece a ponto de poder ser verbalizada.”

Ignácio de Loyola Brandão, autor de A altura e a largura do nada “Mania é fechar todas as portas de armários e a porta do estúdio. Arrumo a mesa. Deixo um dicionário analógico do lado direito. Um bloco de anotações também fica próximo. Nele anoto andamento, duvidas, problemas, palavras consultadas, sinônimos.

As vezes nem toco nele, mas preciso dele ali. Meus cadernos e cadernetinhas são todas Claire Fontaine, aquela que os estudantes franceses usam no dia a dia do liceu. Quando vou, compro. Quando vão, peço, me trazem. Quando salvo um texto, preciso escrever o nome do arquivo, se não esqueço no dia seguinte. Talvez seja o Alzheimer chegando, talvez seja praticidade.

Faço minhas crônicas para o Estado e para a Tribuna, de Araraquara. Faço crônicas eventuais para house organs. Tenho os livros institucionais. As cartas. Ah, não consigo começar nada sem limpar os e-mails. Nisso levo, às vezes, meia hora. Por isso começo cedo, cerca de 6 da manhã. Quando escrevo um romance, ou algo meu mais longo, começo às 5 e vou até mais ou menos 10”.

João Almino, autor de Cidade livre “Não tenho manias ou superstições para escrever e, sim, rotina. Há décadas descobri que sem disciplina seria difícil produzir. Escrevo diariamente durante duas ou três horas tão logo acordo, antes de tomar café ou fazer qualquer outra coisa. Se não tiver o que escrever, revejo o que escrevi. Posso escrever num jato e dedico muitíssimo mais tempo depois às revisões. Não ponho despertador, mas isso é em geral muito cedo. No começo tinha o hábito de andar com um caderninho no bolso para anotar ideias ao longo do dia. Hoje no máximo levo uma folhinha de papel em branco no bolso, onde raramente anoto uma ou outra ideia. Nunca escrevo ficção fora dessas horas da manhã. O resto do dia está dedicado a outras atividades. À noite, sempre que posso, leio e, apenas quando absolutamente necessário, vou a bibliotecas, aos sábados, para fazer alguma pesquisa.”

Juliana Frank, autora de Quenga de plástico“Tenho poucas manias. Escrever é uma delas. Eu crio manias em cima dessa mania. Só escrevo roteiro com fonte courier. E literatura, fonte verdana. Daí eu respiro, paro em frente a folha branca, ameaçadora, estendo as mãos e agito os dedos nervosamente pelos teclados. Enfim, sai uma primeira frase. Acredito que ganhei o caminho e me levanto da mesa, tomo um banho, porque só escrevo se eu estiver limpa e com a franja imperiosamente penteada. Quando acerto muito na produção, resolvo logo ir para o bar. Sento lá na mesa, toda entusiasmada, sei que faço parte da confraria. As vezes grito: hoje quem paga sou eu. Com todos à minha volta, amigos, desconhecidos, cachorros perdigueiros e mulheres de batons comunistas vermelhos, penso: tudo isso é muito chato. Começo a me coçar. Saco meu caderno do bolso e rabisco. Em poucos minutos estou no táxi. Num tom de urgência, peço uma caneta pro motorista e reclamo que a minha já não presta mais. Saio batendo a porta do carro e as vezes esqueço de pagar. Sento em frente ao computador e recomeço de onde parei, com as devidas anotações. No começo, é proibido falar com os outros e atender telefone. Mas, assim que eu tenho a história já posso ligar pros meus amigos do bar e convidá-los para terminarem a noite na minha casa. E é assim, no meio da festa, que eu me divido entre o texto e os acontecimentos reais. Todos vão embora e eu continuo. Horas e horas mexendo e remexendo. Se eu tenho a história, posso escrever na banheiro, em casamentos e funerais, a menos que o padre não fale muito. Quer dizer, escrever é muito difícil. Porque é difícil começar, tomar coragem. Mais difícil é parar. A melhor parte é olhar o feito, e depois dormir, vinte das vinte e quatro horas do dia. E acordar com um semblante melhor do que o dos gatos.”

Paloma Vidal, autora de Algum lugar“Eu preciso criar um espaço – ritual, nenhum. Mas esse espaço, o que é? Qualquer lugar, qualquer hora, qualquer caneta e papel. Esse desleixo foram meus filhos que me deram, um sem-frescura que eu fico tentando domar explicando que é “o meu trabalho”, que aqui, onde não há, eles têm que imaginar uma porta, que agora está fechada e eu estou do outro lado, fazendo “as minhas coisas”.  É uma espécie, então, de espaço imaginário, que pode acontecer – e como é bom quando acontece! – aqui em casa, na sala de espera da fonoaudióloga do Antonio (Lia, obrigada, tão amável com o seu cafezinho pontual), numa reunião de departamento da universidade…”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (20)

Adriana Lunardi, autora de A vendedora de fósforos “Passo dias e dias sem sair de casa. Preciso de isolamento. Preciso saber que tenho horas pela frente, sem nenhum compromisso agendado. Preciso de silêncio. No último livro, havia duas obras no meu edifício. Quando vi, estava de pijama, num final de tarde, esmurrando a porta do vizinho. Tive de alugar o quarto de uma amiga. Preciso da minha biblioteca por perto, serendipity só acontece durante a escrita. Preciso de cadernetas para anotar uma ideia que vá ser útil lá na frente ou para me dar recados sobre as personagens. Não gosto de escrever com o estômago cheio. No máximo, tenho um copo d’água por perto. No início de um novo livro, tiro pó da escrivaninha e seleciono alguns títulos para ficarem à mão. Desinstalo o jogo de xadrez do computador, pois já passei doze horas seguidas jogando em vez de escrever. Uso caixas de roupas, aquelas que vêm com elástico, para guardar as versões impressas e anotadas. Reescrevo mais do que escrevo. Só paro quando começo a destruir.”

Carlos Henrique Schroeder, autor de As certezas e as palavras“Eu tenho dois amuletos: são dois lápis. Chacoalho insistentemente dois lápis, em qualquer pausa de escrita, por isso sempre carrego dois lápis sem ponta comigo. Uso esses lápis até eles se partirem, aí substituo por outros. Sim, eu sou louco, eu sei. Anexo uma foto dos meus dois últimos livros. E como acredito que somos a soma das nossas referências, também gosto de escrever de frente para minha estante de livros, para no caso de qualquer bloqueio, uma simples olhadela na lombada dos livros me alivia.”

Marcelo Benvenutti, autor de Arquivo morto“Quando vou escrever sempre sai tudo de uma vez só. Quase sempre rola de dar um tempo e se possível, e for dia, caminhar sem nenhum destino por uma meia hora. Escrevo em silêncio no escritório onde trabalho antes do meio-dia, pois a fome acelera o pensamento, mas também não é o padrão. Outras vezes tampo o cérebro nos fones de ouvido e deixo rolar algo que funcione como um paredão. Já foi Sabbath, Beethoven, Supergrass, tem sido Oasis, mas pode rolar Neil Young, então me alieno de vez do que rola à volta e escrevo. Café ajuda, mas vinho, na dose certa, é bem melhor. Não chapa a ponto de escrever muita bobagem, poesia quase sempre, e deixa a cabeça se libertar de certas amarras. Já escrevi tomando cerveja, mas, admito, tenho que limpar quase tudo depois. Vira igual festa de guri, lata de ceva e bagana pra todo lado. Sem falar na dor de cabeça; certa vez vi uma entrevista de um físico, português, não é piada, e ele disse ter ideias libertadoras de suas experiências quando está de ressaca. A ressaca limpa a mente do que nos atrapalha. Só resta o que nos interessa. Mas isso foi antes de eu ser pai. Agora escrevo quando o Lorenzo deixa. Por exemplo, ele está acordado, 3 e meia da manhã, e eu me pilho a escrever sobre minhas manhas pra escrever escutando o Axl Rose desafinar no show do Guns’N Roses ao vivo pela internet. Pode? Pode. O escritor também é um ser que se adapta ao habitat. Foda é o habitat se adaptar. Mas o habitat, afinal, que se dane, não é?”

Menalton Braff, autor de Tapete de silêncio“Não tenho manias e meus costumes são bastante simples. Escrevo de manhã, umas duas horas, e à noite, outro tanto. Escrevo diretamente no computador, o que me exige um canto da casa em que me espalho com minhas coisas. Trabalho todos os dias, quando estou em um romance e produzo muito lentamente. Gosto de estar sozinho, em silêncio, sem qualquer desconforto físico. Quando me envolvo com algum conto, o processo é mais nervoso, mais rápido, porque o conto como ideia já está inteiro na mente, e o trabalho é apenas a transformar a matéria em palavras. Entre um romance e outro ou entre esse e um conto, escrevo todos os dias, nem que seja um depoimento como este aqui. Não produzo muito, mas produzo diariamente. Durante a escrita do romance Bolero de Ravel tive minha primeira experiência de escrever ouvindo música: o Bolero de Ravel.”

Tony Belloto, autor de No buraco“Desde que saí do armário e assumi que sim, eu era um escritor, e lá se vão quase vinte anos, meu “processo” de escrita sofreu grandes transformações. Na primeira fase eu emburacava e virava noites, numa demonstração de inexperiência, que me custou dias perdidos, terrores noturnos e quase um colapso nervoso. A segunda fase, inspirada em Hemingway, foi a de levantar cedo (antes de o sol, aquele que também se levanta, nascer) e escrever até o meio da manhã, com a cabeça descansada e despoluída, e depois atravessar o dia e a noite em distrações mundanas até chegar a hora de escrever de novo, na manhã seguinte. Para um músico de rock, casado e com filhos pequenos, não preciso dizer que o método foi um fracasso total. Como acordar antes de o sol nascer se meia hora atrás eu ainda estava no palco, tocando? E ao nascer do sol o caçula acordou, cheio de gás, gritando “papai”? Hoje em dia acho que alcancei uma espécie de equilíbrio, e escrevo nos dias da semana em que não faço shows. Escrevo por umas duas horas de manhã, paro para almoçar, durmo um pouco depois do almoço, e retomo o trabalho lá pelas 16:00hs. Escrevo até às 18:00hs, por aí, e depois pratico algum exercício físico, única forma de despoluir minha mente das obsessões e manias que um livro desperta. Nos fins de semana, quando viajo com a banda pra tocar, releio e reviso o que escrevi durante a semana. Minha única “mania”, quando escrevo, é, seguindo o conselho de García Márquez, sempre parar a narrativa num lugar em que eu saiba pra onde ela vai, no dia seguinte.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (19)

Armando Freitas Filho, autor de Lar, “Escrever o pensamento à mão./ Reescrever passando a limpo/ passando o pente grosso, riscar/ rabiscar na entrelinha, copiar/ segurando a cabeça, pelos cabelos/ batendo à máquina, passando o pente / fino furioso, corrigindo, suando/ e ouvindo o tempo da respiração./ Depois, digitar sem dor, apagando/ absolutamente o erro, errar.”

Maria José Silveira, autora de Com esse ódio e esse amor“Gosto de me considerar uma profissional da escrita. Desde 2002, quando meu primeiro romance foi publicado, escrever é a minha profissão. Então, levanto, tomo café, leio o jornal e vou trabalhar em meu computador até por volta das 13 horas. Adoro escrever e depois trabalhar o texto, reescrevendo quantas vezes achar necessário. À tarde, gosto de caminhar e voltar com novas ideias ou com a solução para algum problema. Quando estou escrevendo um romance – processo extremamente envolvente que me deixa muito focada em tudo que possa servir a ele – faço anotações durante o dia e mesmo à noite, entre a vigília e o sono. Mas escrever mesmo, só de manhã. E talvez a minha única quase-mania seja considerar janeiro – o novo ano se descortinando à frente – o momento ideal para começar a escrever um novo romance. Outra coisa: não escrevo com música ligada, nem com gente por perto. Fora isso, nada me incomoda: fico perfeitamente concentrada e levo susto quando o telefone toca. Assim, por exemplo, meu marido pode me ligar no meio da manhã e me perguntar, “Tudo bem?”, e eu responder, “Não sei: acabo de invadir o Nordeste”, ou “Estou no meio de uma discussão”, ou dizer “Estou ótima”, relendo a frase que por fim chegou à sua forma. São momentos preciosos do meu dia e desse trabalho que não troco por nenhum outro.”

Marcelo Ferroni, autor de Método prático da guerrilha “Quando começo a pensar em um romance, primeiro escrevo à mão cenas aleatórias em caderninhos sem pauta, e posso completar vários cadernos dessa forma. Depois passo para o computador, onde escrevo o mesmo livro quatro ou cinco vezes, até me parecer que ficou bom. Isso pode levar uns cinco anos. Sobre ambiente e horários, perdi minhas preferências por força das circunstâncias. Antes precisava de algum silêncio; agora, com dois guris que choram e gritam, me acostumei a escrever ao som de Carros 2 (Relâmpago McQueen para Francesco Bernoulli: Vai comer poeira!). Antes precisava de um tempo de concentração para entrar no texto, agora começo a escrever no meio de uma conversa. Gostava de escrever de manhã, agora escrevo majoritariamente à noite, a partir das 21h, 22h. Mas não escrevo em trânsito (aeroportos, cafés); escrevo de preferência em casa, numa ponta da sala (perdi o escritório para o mais novo), e às vezes na casa de familiares ou em hotéis, desde que eu me estabeleça ali por alguns dias.”

Nick Farewell, autor de Mr. Blues & Lady Jazz“Sou metódico. Deve ser por causa do meu passado engenheiro. Começo a escrever quando já sei o começo, meio e fim. Os meus esboços ou esqueletos se assemelham a um complexo desenho técnico. Quase um método Allan Poe. Escrevo direto no computador ou à mão. Gosto de escrever à mão quando a velocidade da escrita diminui. Curiosamente, eu me obrigo a frequentar os lugares ou cenários que poderiam ser do livro. Vou coletando e ouvindo histórias que posteriormente podem entrar para a narrativa. Muitas vezes eu acabo entrando até involuntariamente. Recentemente viajei para escrever o novo romance, e na casa de um casal de amigos onde me hospedei acabei me vendo envolvido na briga de casais que era o tema central do livro. O mais engraçado é que, mesmo depois de terminar, não é raro as histórias ficarem se repetindo na vida real. Penso à exaustão, deixo decantar por um tempo (muitas vezes por muito tempo) na tentativa do incorporar o inconsciente. Só depois escrevo.”

Ronaldo Correia de Brito, autor de Galiléia “Habituei-me a escrever olhando o quintal de casa, através de uma janela. Durante vinte e nove anos contemplei a paisagem de árvores e flores tropicais. Quando mudei para um apartamento, supus que nunca mais escreveria. Os edifícios substituíram mangueiras, coqueiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros e bananeiras. Mas os livros continuavam em volta. O costume de levantar-me em intervalos regulares, tomar um café e um copo d’água podia repetir-se. O novo escritório conservava móveis, quadros, fotografias e minha ordem silenciosa. Não consigo escrever fora desse lugar inventado por mim: a mesa de tampo de vidro, a cadeira de couro trazida do Ceará, o computador, agendas, dicionários, cadernos de anotações e a estante fabricada com tábuas de amarelo vinhático. Eis o meu espaço sagrado. Fora dele, apenas escuto, observo, anoto e vivo.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (18)

Chico Mattoso, autor de Nunca vai embora “Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo. Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar, primeiro num escritório alugado, mais recentemente em bibliotecas e cafés. Quando engreno num conto ou romance, tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias — uma vez, num ônibus, escrevi dois longos parágrafos numa embalagem de Novalgina. Resolvo muita coisa nesses momentos, quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral, que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo. Parece que o mundo se organiza. E minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador.”

Eucanaã Ferraz, autor de Cinemateca “Escrevo poemas em cadernos, agendas, folhas soltas. Sempre papel. A lápis ou a caneta, escrevo, rabisco, anoto, faço setas; quando há versos ou estrofes que se interpõem, numero, ponho asteriscos; e lá vão ficando as idas e vindas. Quando o rascunho se faz difícil de entender pelo excesso de riscos (mesmo a lápis, não uso borracha, ainda que haja uma na ponta oposta ao grafite), reescrevo todo o poema em outra folha, na qual recomeço a mexer, cortar, acrescentar etc. O resultado mais próximo do final chega, por vezes, ainda nesses primeiros passos. Depois, vou para o computador. Preciso ver o poema mais limpo, mais próximo da cara que ele teria numa hipotética publicação. A digitação costuma dar vez a outras mudanças. Depois, imprimo, faço uma pausa – de tempo indeterminado – e volto a reler. Outra vez diante do papel, costumo fazer novas mudanças, cortes, acréscimos. A duração de tal processo é imprevisível.

Tenho, além disso, um hábito que me parece particular ou, pelo menos, não me parece ser uma prática comum a todos que escrevem poesia. Durante todo o tempo da escrita, leio e releio em voz baixa, sussurrando. Preciso ouvir o poema. Então, vou lendo os versos para mim naquela altura mínima, como se testasse o ritmo. Talvez o volume baixo da voz tenha a ver com o fato de eu considerar o poema, sempre, uma voz baixa, uma maneira de inserção sutil no mundo, uma presença oblíqua, estranha, quase invisível. Nunca me impus essa prática. E, curiosamente, só após alguns anos tomei consciência dela, que não chega a ser um método, sendo talvez um instrumento, ou menos, mera idiossincrasia.”

Julián Fuks, autor de Procura do romance “Em dias bons, quando já esgotei todo o arsenal possível de procrastinações, cruzo a casa vazia e me entrego ao derradeiro ritual. Estou agora no sofá, ainda a uns quantos metros da tela branca, que me espreita com paciência e atenção, e me ponho a ler um poema qualquer, de um livro sorteado ao léu, Bandeira, Borges, Brossa, Cabral. Não é preciso que o entenda, ou que me encante, ou me enterneça; essencial é que me deixe imergir em seu silêncio, silêncio que é pura iminência, silêncio que é a ausência das palavras que virão. Sento-me então ante a tela, abro o dicionário em outra janela, mas não o consulto ainda. Escrevo apenas, mesquinhamente, em dias bons.”

Ramon Mello, autor de Vinis mofados “Escrevo no meu conjugado, em Copacabana, na companhia dos meus gatos Borges e Silêncio. Quando se trata de escrever poemas, fico à disposição. Não há hora certa para a escrita, no entanto as madrugadas são generosas para a concentração. Gosto de escrever primeiro no papel, pode ser até um guardanapo. Muitas vezes um poema surge a partir da leitura de um livro, é uma euforia. Em seguida, passo o poema para o computador, vou trabalhando devagar. Quando estou a escrever prosa, vou direto para o micro e trabalho a ideia sem descanso. Depois envio o texto para ser lido por amigos com senso crítico apurado. A cada livro vou redescobrindo o meu processo de criação.”

Tony Monti, autor de eXato acidente “Não tenho manias para escrever, mas tenho algumas tendências. Gosto de escrever de manhã. É quando meu cérebro parece mais ativo. Há (raras) épocas em que começo cedo e fico em frente ao computador até escurecer. Costumo escrever os textos mais longos fora de casa, como se eu fosse ao escritório para cumprir um turno fixo de trabalho. Procuro, em geral, bibliotecas, mas às vezes vou a bares e cafés. Escrevo e apago. Insisto por uma, duas horas. Faço intervalos para comer, caminhar e olhar o mundo. Talvez haja uma recompensa inconsciente em expor em ambiente público minha dificuldade de encontrar as palavras e as ideias, como se fosse importante que as outras pessoas aprovassem o esforço. A recompensa consciente é que, para amenizar a solidão característica do trabalho do escritor, na biblioteca é possível desfrutar daquela estranha convivência silenciosa entre os que estudam. Além disso, nos intervalos que às vezes se estendem pelo dia todo, posso encontrar um conhecido e conversar.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (17)

Ademir Assunção, autor de Adorável criatura Frankenstein “Não tenho nenhuma mania ou superstição para escrever, apenas dois processos bem diferentes. Poesia acontece de um jeito mais anárquico. Ao longo do tempo percebi que os melhores versos surgem quando eles querem. Não adianta forçar a barra. Mas como tenho alguma familiaridade com a prática zen, procuro me manter concentradamente distraído ou distraidamente concentrado o tempo todo. Os versos vão surgindo sem hora marcada e em qualquer lugar, no trânsito, no metrô, no banho, em conversas com amigos ou mesmo desconhecidos, às vezes até em sonhos. Vivo fazendo listas também de palavras antipoéticas que gostaria de usar em poemas. Por exemplo: moquifo, cafofo, bangue bangue, espelunca, mísseis. Tenho dezenas de cadernetas com retalhos de versos e palavras que depois vou trabalhando, ajustando à minha linguagem. Não sou de reescrever. Sou de escrever. Trabalho muito as cadências sonoras, os ritmos, a pulsação – e a minha medida é a própria pulsação sanguinea. Com a prosa é diferente. Quando estou escrevendo uma história curta ou uma narrativa mais longa, consigo me disciplinar. Aí, escrevo diariamente, quase sempre de madrugada. Mas até hoje não tenho a menor ideia de como os livros surgem. Quando começo uma narrativa, nunca sei como ela vai terminar. Vou escrevendo e tudo começa a acontecer. Não planejo os capítulos, não tenho escaninhos, nada disso. É como se fosse uma massa altamente condensada que, de repente, explode e vai se expandindo. Escrevendo prosa eu me divirto. Poesia é mais cansativo. Prazeroso, mas cansativo.”

Carol Teixeira, autora de Verdades e mentiras “Escrevo muito na minha cabeça. Crio contos inteiros enquanto estou no supermercado, sala de espera da psicóloga, no trânsito infernal de SP ou voltando de alguma noite, bêbada. Daí anoto as ideias de forma fragmentada num dos vários mini Moleskines que tenho ou no bloco de notas do iphone (uma vez escrevi um conto inteiro no iphone, sentada no salão, enquanto pintavam meu cabelo). Tenho medo de escrever, sempre. Nunca é algo tranquilo pra mim. Então as melhores coisas surgem quando estou distraída. Como tenho pânico de perder ideias, felizmente esses lapsos de criatividade raramente são perdidos. Quando decido sentar pra escrever de forma mais disciplinada em casa, preciso de muito silêncio, estar muito confortável, desconectada da internet e sóbria. E de preferência de dia (o que é curioso considerando que sou uma das pessoas mais boêmias e insones que conheço). Entro numa espécie de universo paralelo. E quando acabo um conto me sinto a pessoa mais feliz do mundo todo.”

Juliano Garcia Pessanha, autor de Certeza do agora “Tenho escrito pouco por inúmeras razões. Mas quando escrevo faço isso no quarto e tomo muita água pois já não fumo mais. Quando eu era fumante pensava que seria impossível escrever sem pitar. Escrevo sempre com caneta bic preta. Essa é uma regra que ainda sigo e data de 1984, época em que comecei a redigir diários. Escrevo no máximo uma página por vez, por empreitada. Na sessão seguinte copio tudo novamente para poder seguir. Não consigo seguir se não copio o que veio antes. É aflitivo e sofrido, em geral fico sem camisa e com taquicardia. O telefone é um problema terrível, nunca sei se desligo ele da tomada ou se interrompo a escrita para falar com alguém. Se é algum amigo, ele é obrigado a escutar o que estou escrevendo. Mas faz algum tempo que ando de mal com a escrita. Acho que sigo escrevendo dentro de mim, mas me falta energia para anotar… Ando um tanto entristecido com minhas próprias zonas matriciais.”

Lorena Martins, autora de Água para viagem “Escrevo geralmente em casa, em silêncio, sem dia nem horário pré-estabelecidos. A poesia acontece. muitas vezes após um filme, uma leitura, uma foto, uma pintura. Às vezes com vinho, outras com chá; ou simplesmente com uma insônia desejada. E então é um mundo de cadernos, blocos, papeis soltos, pastas, emails. Escrevo quase sempre à mão, e em seguida passo o poema para o computador. Aí é hora de trabalhá-lo, lapidá-lo. Salvo todas as versões no meu email. O que finalmente permanecer, se impuser, em algum momento vai para uma pasta “de poemas” que sempre temo perder  – por isso não me desfaço das cópias no email, que me parece mais seguro. É um processo meio caótico, mas no fim das contas o que eu quero está lá, em algum lugar.”

Rodrigo Garcia Lopes, autor de Nômada “Costumo escrever todos os dias. Na mente estamos, de certa forma, escrevendo o tempo todo, não é? Quando é um romance policial-histórico, como o que passei os últimos cinco anos escrevendo, é como se vivesse dentro do livro. Literalmente. Leituras, anotações, insights, frases ouvidas, tudo pode vir junto com a escrita. Música é ótimo, principalmente instrumental. Clássica, jazz… Já para escrever poesia não tem hora. Com o advento do computador, comecei a escrever direto na tela. Nos últimos anos retomei o hábito das cadernetas. Minha favorita é a velha Moleskine. Gosto de escrever na praia, olhando o mar ou a fumaça. Ajuda a me concentrar naquele pedaço de papel que tenho à minha frente, lutando contra a areia e o vento (e muitas vezes perdendo o poema). Na prosa, as manhãs para se reler o capítulo da noite anterior também ajuda a centrar o foco e dar o impulso para a próxima cena. Poesia já pode pintar a qualquer hora do dia. Embora um mesmo poema possa levar anos para ser concluído, um ou outro nascem prontos. Quando isso ocorre, é a felicidade.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (16)

Angélica Freitas, autora de Rilke shake “Quando era repórter, escrevia os poemas no computador, entre uma matéria e outra. Muitas vezes escrevi direto no blog. Depois passei um tempo viajando e comecei a escrever em cadernos. Gosto de cadernos do tipo composition book, com ou sem pauta, depende da safra. Sempre compro cadernos quando viajo. Adoro terminar um caderno, mas a primeira página me intimida. Por isso, costumo começar na segunda ou na terceira. Para mim, o ideal é escrever todos os dias, de manhã cedo, tomando café. Gosto de escrever e me esquecer dos poemas. Se me lembrar deles depois, pode ser um bom sinal. Minha caneta favorita ainda é a Bic.”

Marcia Tiburi, autora de Magnólia “Escrevo literatura para não enlouquecer. Pode parecer exagero, coisa de escritor. Só eu sei quando o morcego branco pousa em meu ombro e muda de cor várias vezes até escorrer aquele filete de sangue ao andar de baixo enquanto parece saltar sobre mim. Para me proteger tenho a minha santa cujo nome não conto para qualquer um, um copo de vinho do porto, água ou café que nem sempre bebo, fotos das minhas irmãs, São Jorge, flores num vaso, os livros do dia a dia ao meu redor, a ordem musical do espaço vazio, a companhia dos meus mortos e dos mortos de outros. Quando, depois de dias, a imaginação ameaça cortar-me em mil pedaços, sei que é a hora de sentar e demorar sem medo no silêncio que ampara a perdição dos narradores.”

Marcio Renato dos Santos, autor de Minda-Au “Escrevo o tempo todo, principalmente quando não estou diante do computador. Caminhar. Sinto necessidade de seguir pelas ruas, todo dia, até na chuva – e em Curitiba chove. São seis, sete quilômetros de onde moro até um parque, e retorno. No trajeto, 90 ou 100 minutos, faço literatura. Penso nas personagens, na trama, na linguagem, elaboro cenas, frases, diálogos. Volto. Moro no quarto andar. Sigo pelos degraus. Abro a porta, fecho e vou até o escritório. O computador está ligado, sento na cadeira, pronto. Começo a escrever, e todo o plano anterior, da caminhada, se desfaz. O que sai é outra prosa. Daí, tenho café, que me acalma, água com gás pra me estimular. Escrevo, reescrevo. Sigo, se for em silêncio, melhor. Mas se houver som, dança de tamancos no andar de cima, solo de tuba, no de baixo, sai do mesmo jeito. Sai. De manhã ou à noite. Também no horário do almoço, entre os turnos do trabalho. E trabalho a fazer textos, oito horas todo dia. Descanso do trabalho a escrever ficção, a reescrever. Sonho com meus textos. Minda-Au, publicado pela Record em 2010, surgiu das madrugadas. Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul, o segundo livro, do ano passado, é fruto da insônia. O terceiro, 934, que saiu pela Tulipas Negras, e teve toda a tiragem distribuída dia 25 de fevereiro em Curitiba, durante a Quadra Cultural 2012, é do mundo dos sonhos. Escrevo durante as férias, com caneta em cadernos. Se viajo, uso as máquinas do hotel. Tenho de escrever. Se não? Dá vontade de derrubar postes, atropelar carros com meus sapatos ou arrancar paralelepípedos e atirar por aí. Mas não. Escrevo, escrevo e escrevo assim, sem manias, de qualquer jeito, e o texto acontece.”

Paulo Roberto Pires, autor de Se um de nós dois morrer “É de se supor que um sujeito que leva onze anos entre a publicação de uma novela e um romance não tenha qualquer ritual para escrever – já que, também como se pode imaginar, não há exatamente um rotina de trabalho. Ou que, ao contrário,  tenha todas as manias  possíveis e imagináveis – o que faz dos preparativos para a escrita uma rotina que eventualmente não deixa tempo para a escrita. Queria ser Bartleby para não escolher nada, mas aqui tenho que marcar as duas opções. Quando acho algo para trabalhar, um fiapo de ideia, e em geral é fiapo mesmo, vem o ritual particular: fico me alimentado de leituras, as mais diversas, quase sempre de não-ficção, que só na minha cabeça podem nutrir aquela sugestão para ficção. Não é pesquisa, é vagabundagem mesmo – que inclui muita caminhada na praia matutando as conexões possíveis e impossíveis entre essas leituras e, eventualmente, a forma de uma frase. Escrever, propriamente, escrevo em qualquer lugar – quem trabalhou ou trabalha em redação consegue se isolar sem silêncio ou carneirinhos em volta – e, ultimamente, em caderninhos que sempre colecionei e, sabe-se lá porque, pouco usava. Neles, misturo tudo: lista de tarefas do dia, contas, compromissos de trabalho, ideias, citações copiadas e até trechos quase prontos. Um dia, sem muito aviso, tudo isso vai se juntar a arquivos de Word e emails. E aí começa o trabalho.”

Ronaldo Cagiano, autor de Dicionário de pequenas solidões “Desde os remotos tempos de minha adolescência, quando esbocei meus primeiros textos de prosa ou poesia, não me flagrei escravo de nenhum método ou mania; não recordo de estipular qualquer disciplina, horário, obrigação, nem mesmo um sistema de orientação para meu processo criativo que resultem numa condição pré-estabelecida para que as coisas funcionem. Nau sem rumo e sem ritmo, vou em busca do desconhecido, do insondável e sempre há um porto para atracar. E aí, uma palavra, uma ideia, um insight, um pequeno acontecimento ou flagrante quotidiano, algo remoto no inconsciente ou na memória, ou mesmo uma conversa entreouvida do acaso num cenário doméstico ou urbano, são capazes de me fornecerem algumas pegadas,  provocando em mim a necessidade de escrever uma história ou construir um poema. São essas nuances que acabam deflagrando a centelha inicial, que culmina numa frase jogada a esmo num pequeno bloco de anotações que sempre carrego, ou num fluxo hemorrágico de palavras que migram logo para a tela branca do computador. Muitas vezes, esse impulso inicial não se converte necessária ou imediatamente num texto. E isso pode ficar hibernado certo tempo até ganhar corpo, identidade e fluidez narrativa.  Escrevo em qualquer situação, tempo e lugar: durante o trabalho (sou bancário, e uma das formas de exorcizar essa vida bovina confinada em currais de vidro é a literatura);  durante meus deslocamentos diários (a pé, de metrô, de ônibus),  assistindo a um filme, num café ou numa livraria;  ou ainda enquanto durmo, quando faíscam no sono e nos sonhos mundos e situações que me sopram nos ouvidos e então tenho a necessidade de levantar e anotar para não perder a ideia. A literatura surge do imprevisivel e as histórias e seus personagens é que me conduzem e ditam as regras. Depois, vem o acabamento, o crucial processo de leitura, releitura, autocrítica, estilete.”

Ver depoimentos anteriores.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (15)

Amilcar Bettega Barbosa, autor de Os lados do círculo – “Minhas manias são para não escrever. Faço de tudo para fugir do momento de escrever. Sou o rei da procrastinação, principalmente quando se trata da escrita. Posso ficar semanas, meses até, sem escrever. Aí, de repente, num só dia sou capaz de escrever uma página. E me sinto o cara mais feliz do mundo. Talvez algumas manias para escrever me ajudassem na disciplina, coisa que absolutamente não tenho. O que tenho são preferências, mas não posso dizer que são condições para escrever, longe disso. Por exemplo : gosto de uma mesa limpa e organizada, mas normalmente ela é uma bagunça; gosto de um incenso queimando, mas quase sempre esqueço de comprar; gosto de escrever de manhã, mas faço quando dá. Ultimamente comecei a escrever em lugares públicos, tipo cafés e bibliotecas. As únicas coisas que não mudam nunca são: 1) escrevo sempre à mão, em cadernos (de preferência com folhas sem linhas) e com caneta tipo roller ball de tinta preta; e 2) não consigo escrever de noite.”

Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de Céu de origamis – “Escrevo no meu escritório, fora de casa, sozinho, durante o dia. Preciso de isolamento e silêncio. Trabalho diretamente no computador, quando muito me sirvo de um borrador onde registro a lápis uma ideia repentina ou uma palavra solta. Quando um bloqueio persiste, saio andando pelo centro da cidade.”

Paulo Henriques Britto, autor de Paraísos artificiais – “Não tenho hora certa para escrever, não tenho nenhum ritual; escrevo de manhã ou de noite, com música ou sem. Poesia escrevo primeiro a caneta num caderno, e depois, quando o poema chega a ser concluído (um em cada vinte dos que inicio, mais ou menos), passo para o computador e imprimo uma cópia. Prosa escrevo direto no computador, e também só imprimo quando dou por pronto.”

Reinaldo Moraes, autor de Pornopopéia – “Escrevo de qualquer jeito, sem música, secundado por uma xícara de café bem forte, se for de manhã, ou por um cigarrinho de artista e uma loirinha gelada (nenhuma daquelas 3 ninfetas, infelizmente), se já for mais de 6 da tarde. Prefiro não escrever minhas coisas à tarde, período do dia que utilizo mais para sestas e leituras. Mas, se estiver no pique, escrevo, sem problemas. Funciono melhor de manhã, às vezes com o sol raiando, e à noite, entre 7 e 1/2 noite – mas não de madrugada. Obviamente, solidão e silêncio são bem-vindos. De resto, é cadeira e mesa para apoiar o notebook, e uma janela ao alcance do olhar que se abra para uma paisagem não excessivamente confinada e opressiva.”

Simone Campos, autora de Amostragem completa – “Eu não dirijo, então escrevo muito em transportes públicos (ou bancos de carona). A letra é ininteligível, primeiro porque ônibus balança muito e segundo porque tenho paranoia de alguém ver o que estou escrevendo. O toque de glamour fica por conta do material empregado, geralmente canetas Lakubo ou Bic 4 cores sobre cadernos Paperblanks. Neles, além de literatura, também copio citações, faço esquemas, defino personagens e tramas… os cadernos acabam rapidinho. Depois passo os textos para o computador. Como agora sou assalariada, acabo entrando pela madrugada e chegando atrasada no trabalho; ou escrevendo no horário de almoço; ou, ainda, no fim de semana. Antes, quando fazia traduções em casa, eu não tinha horário para escrever: agora tenho estado nesse esquema ou-vai-ou-racha. Funciona.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (14)

André de Leones, autor de Como desaparecer completamente – “Escrevo à mão, em uns cadernos chamados Tilibra Opus (que estão sumindo do mercado e isso tem me causado um certo desespero). Não valho nada sem uma boa noite de sono. Então, nunca tive isso de escrever madrugada adentro. Barulho não me incomoda. Escrevo durante todo o dia, com muitas interrupções. Paro e assisto a algum filme ou série ou jogo de futebol ou de tênis. Respondo e-mails, vou ao Twitter, blogo. Aliás, com tantas interrupções, é incrível que eu consiga produzir. Adoro escrever em quartos de hotéis. Sinto como se estivesse em outra dimensão quando me tranco em lugares assim. Talvez esteja, não sei. Não consigo trabalhar quando bebo. Também crio uma espécie de trilha-sonora para o que estiver escrevendo. Uma seleção de músicas que ajude a ritmar a narrativa em progresso.”

Edney Silvestre, autor de Se eu fechar os olhos agora – “Gostaria de entender que processo é esse, que permite – ou às vezes não permite – que eu escreva. É uma parte incontrolável, ou deveria dizer descontrolada,  de mim que se manifesta quando e onde bem entende. Quartos de hotel, aeroportos, delegacias, ônibus, aviões, já me aconteceu nos mais inusitados lugares. Em uma calçada de Copacabana, em frente a um hotel, enquanto esperava um candidato à presidência decidir se descia ou não para falar conosco, repórteres, talvez tenha sido o mais esquisito de todos. O texto, ou a revelação sobre um personagem, vem. Se dou sorte de ter um papel e caneta por perto, ou se estou diante de um computador, digito, manuscrevo, registro. Caso contrário, sou obrigado a aguardar por uma nova ‘visita’. E, sobre o candidato: ele não desceu para falar com a imprensa. Nem ganhou a eleição.”

Elvira Vigna, autora de Nada a dizer – “Igual ao Tezza, também arrumo tudo. Aí tem uma hora que não tem mais jeito e começo o ritual de sair da minha ‘zona de conforto’. Vou para local isolado e desconhecido. Hotel vagabundo na minha própria cidade, outra cidade. Em geral, algo a ver com o cenário do que vou escrever. Escrevo com fome, com vontade de fazer xixi, frio, com o computador (mal) equilibrado no colo. Escrevo em geral na primeira pessoa. Acho que é por isso. Para o ‘eu’ não ser tão eu.”

Luiz Antonio de Assis Brasil, autor de Música perdida – “Escrevo por acaso, isto é, nunca pensei em ser escritor. Tudo foi acontecendo e eu me fui acostumando. Hoje já não posso me conceber julgando processos, que era o destino que minha família me dissera para cumprir. Escrevo no meu melhor à tardinha: já não é mais tarde, e ainda não é noite. Mas se eu me empolgo, posso entrar noite a dentro, desde que tenha começado à tardinha. Antes eu escrevia melhor pela manhã, cedo. Depois descobri que sofria de deficiência de um produto químico no sangue. Corrigi isso e hoje me acordo tarde, isto é, pelas 7, quando tenho de sair correndo para a Universidade. Uma pequena mania: não termino uma cena, ou capítulo, no mesmo dia em que estive trabalhando nele. Deixo correr uma noite e aí, no dia seguinte, descansado, escrevo o final. E enfim: só sei escrever romances. Fico paralisado ante o conto e a poesia. Poesia e conto são para quem sabe.”

Natércia Pontes, autora de As mulerez – “É uma espécie de cigana que recebo, acho. Um espírita me contou. E tem de ser no silêncio absoluto, madrugadão mesmo. Britadeira, vozes, alarmes e telefones são meus maiores inimigos. Música sem letra, geralmente clássica. Às vezes vinho, às vezes água. Tenho mania de escrever no caderninho algumas palavras-chave e imagens. Depois passo pro word, depois imprimo, reviso, gravo e escuto o texto para identificar alguns tropeços sonoros. Vou até o fim. Ultimamente tenho deixado alguns trabalhos pela metade, marinando. Tem funcionado. É muito bom ver o texto escrito, mas cansativo. (Ah, e gosto de ter uma flor por perto. Deve ser por causa da cigana.)”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (13)

Carlos de Brito e Mello, autor de A passagem tensa dos corpos – “Antes de um livro começar, passo bastante tempo produzindo notas à mão: ainda não estão lá personagens ou acontecimentos, mas um conjunto sem ordem nem hierarquia de palavras, frases isoladas, vozes sem origem, idéias avulsas. Anoto, onde quer que eu vá, em dezenas de pedacinhos variados de papel, incluindo impressos de extrato bancário, talões de estacionamento, bulas de remédio e as margens dos livros que, no período, esteja lendo. A narrativa começa a partir dessa coleção, despertada, sem que eu possa prever, por um ponto de dor sem o qual a escrita não teria, para mim, muito sentido. Nessa hora, vou para o computador e escrevo, sempre que possível, pela manhã. É trabalho pesado, inspirado ou não. Se tudo vai bem, não paro para almoçar. Se vai mal, almoço com raiva, decepcionado. Prefiro luz natural ou, se necessário, de abajur, amarelada, mortiça, suficiente apenas para que eu consiga ler minhas anotações ou para consultar o dicionário e a gramática, que ficam ao lado. Prefiro silêncio, mas, aqui em casa, em dia de lavar roupa, gosto do barulho produzido pela máquina e pela esfregação. Levanto-me durante o processo. Ando pela casa. Durante o dia, bebo água. Se escrevo à noite, bebo álcool apenas para aquele primeiro torpor. Demoro antes de começar uma frase. Escrevo comentários sobre o trabalho no corpo do próprio texto: ‘melhorar isso’; ‘o narrador não pode agir assim’; ‘idiota!’. Trabalhar com sono costuma ser um desastre. Ter janela por perto é uma delícia.”

Bruna Beber, autora de Balés – “Costumo fazer as primeiras anotações em papéis soltos, blocos e cadernos, sem preferência de papel ou marca. Uso o que estiver mais perto, caneta, lápis, lapiseira, canetinha. Mas nunca em público, jamais saio de casa pra escrever. É particular. Depois, organizo esses recados brutos que deixei pra mim mesma no computador, leio, releio, leio em voz alta e em silêncio, semifinalizo e guardo. Novamente sem humanos por perto (bicho pode), com uma roupa confortável, ouvindo música com letra ou sem letra, mas na maior parte do tempo em silêncio. Quando implico com algum parágrafo ou verso anoto e guardo em lugares onde só eu tenho acesso, e convivo com aquele incômodo até conseguir resolvê-lo. Volto ao computador e mexo até me agradar completamente, ou 90%, e isso pode demorar meses ou nunca terminar. Às vezes parece que escrever é uma atividade sem final, pela inebriância das infinitas possibilidades. E aí quando tenho finalmente um resultado digitado que me agrada, escrevo tudo à mão em papéis. A letra no papel me dá sensação de que um texto está mais vivo. É uma ilusão genuína. Leio e releio novamente em voz alta até convencer também os meus ouvidos. Às vezes também gravo e ouço. E normalmente volto todas as etapas, em repetição. E não há tortura nenhuma nisso, é tão bom.”

João Silvério Trevisan, autor de Ana em veneza “Para escrever Ana em Veneza, joguei búzios, I Ching e fiz mapa solar dos personagens (figuras q existiram, na verdade). Enquanto trabalhava na minha mesa, eu tinha diante de mim um varalzinho com as fotos de Alberto Nepomuceno e Júlia Mann, assim como um desenho q fiz da escrava Ana, numa rede, em Veneza. Antes de começar a trabalhar, impreterivelmente, eu saudava os seus orixás. Era delicado demais me apropriar de pessoas que existiram para torná-las minhas personagens. Me permiti essas licenças poéticas. Mas isso foi só no caso de Ana em veneza.

Livia Garcia-Roza, autora de Era outra vez – “Os ruídos e barulhos do cotidiano não atrapalham a minha escrita, pelo contrário, tenho o hábito de capturar pequenos dizeres e acontecimentos e utilizá-los como matéria para a minha literatura. Escrevo sempre durante o dia, a lápis, em blocos e cadernos. Mas se alguma idéia me ocorre entre a vigília e o sono, levanto para anotá-la. Só passo o texto para o computador quando ele se encontra minimamente estruturado.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (12)

Alexandre Barbosa de Souza, autor de Azul escuro – “Faz muito tempo que os poetas são banidos. Segundo uma lei da época em que eu era registrado, e colaborava com o sindicado dos trabalhadores de editora, quem trabalha com leitura e computador teria, a cada hora de trabalho, direito a cerca de dez minutos de descanso dos olhos. Começo às sete e vou até às seis, nesse tempo costumo traduzir no máximo dez laudas – o que me dá um pouco menos de um maço de cigarros, três cafés antes do almoço, dois depois. É aí, na lavanderia vintage, de ouvido no rádio da obra do lado, que se passam os poemas, anotações, leituras extra-mais-valia!”

Eduardo Sterzi, autor de Aleijão – “Minha escrita se divide basicamente em dois registros, cada um com suas manias específicas. Poesia: costumo escrever à mão, em folhas A4 já usadas do outro lado, quase sempre despojos de algum concurso literário do qual fui jurado. Para assinalar que este texto do verso não está valendo, risco a folha de cima a baixo, com um único traço tenuemente oblíquo. As primeiras anotações, porém, costumam ser feitas em qualquer pedaço de papel que eu tenha à mão, mas com alguma predileção por guardanapos, papéis higiênicos e bordas rasgadas de páginas de revistas ou jornais. Contudo, já anotei expressões ou versos inteiros, a serem desenvolvidos posteriormente, em extratos bancários, bulas e caixas de remédio e mesmo, com alguma dificuldade, em sacos plásticos. Gosto que minha poesia tenha sua origem nessa materialidade algo bruta e reles, em meio aos restos disso que podemos chamar, não sem ironia, de ‘nossa civilização’. Crítica: tudo começa em anotações normalmente realizadas em folhas A4 (também recicladas) dobradas ao meio para caberem dentro dos livros que estou lendo. Ultimamente, também tenho feito muitas anotações na rua, enquanto caminho, em pequenos cadernos (costumo ter canetas específicas para cada caderno: no meu atual caderninho amarelo Tamoio, só uso hidrográficas Stabilo de ponta média vermelha, verde ou cinza). Todas essas notas são depois transcritas num arquivo .doc (e não .docx) de nome idêntico ao do texto que tenho de escrever, mas seguido da palavra ‘materiais’ entre colchetes (por exemplo, se o arquivo principal se chamar ‘CURTIUS Num instante de perigo’, o arquivo-base será ‘CURTIUS Num instante de perigo [materiais]’). A versão inicial do texto, ainda muito rudimentar, resultará da montagem desses materiais. Desde meados deste ano, só tenho escrito textos críticos na fonte Garamond corpo 12. A entrelinha tem de ser simples. O zoom deve estar em 210%. Preciso também que o Houaiss eletrônico esteja aberto numa janela à direita das janelas do Word – e que ninguém esteja olhando por cima do meu ombro (se estiver sentado ao meu lado, sem problemas). Manias finais: costumo levantar e caminhar pela casa quando um texto empaca, e lavo as mãos seguidamente enquanto estou escrevendo – mesmo que o computador esteja limpo e minhas mãos impolutas.”

Leandro Sarmatz, autor de Uma fome – “Se houvesse, como no sexo, uma excentricidade indiana chamada ‘escrita tântrica’, eu seria uma espécie de Sting. Porque eu protelo o momento enquanto posso – talvez esteja aí, suspeito, o motivo para ter eu demorado tanto a publicar um livro de ficção. Enquanto escrevo, também costumo zanzar pela casa quando acho que estou ‘chegando lá’: de novo a estratégia retentiva. De resto, prefiro escrever bem cedo (6h da manhã) ou muito tarde (até as 6h da manhã). Se estou diante do computador tarde da noite, tomo uma dose – sem água, por favor – de malte antes de encerrar os trabalhos e ir para a cama. Durante o dia, chá preto ou café. De resto, leio muito enquanto escrevo, e quase sempre as mesmas coisas: umas páginas de Bellow, alguma poesia, o Houaiss.”

Luís Henrique Pellanda, autor de O macaco ornamental – “Acordo e escrevo cedo, de preferência, no mesmo local em que trabalho, o escritório que montei em meu apartamento, no Centro de Curitiba. Antes de redigir meus contos, tenho o hábito de estruturá-los à mão, do começo ao fim, em blocos de papel barato e letra inadvertidamente cifrada, herança, vício ou defeito da minha época de repórter de rua. Só depois que planejo toda uma narrativa, sento ao computador, os esquemas rabiscados ao alcance do olho. Bebo água, e muita. Durante um dia de trabalho — quando consigo tirar um dia para isso, algo raro —, tomo várias xícaras de café. Durante o processo, um exagero: o que escrevo vira o assunto da casa. E um perigo: esqueço de comer, invariavelmente. Mas a fome não me atrapalha. Ouvir música, por outro lado, bloqueia minha escrita. Como sou músico, é difícil me concentrar noutra coisa quando há música, boa ou ruim, por perto. Prefiro o silêncio, claro. De qualquer forma, morando a duas quadras da Boca Maldita, no coração de uma cidade grande e às vezes histérica, me contento e consolo com uma quietude apenas relativa. Preciso, muitas vezes, escrever com as janelas fechadas e, dependendo do barulho que se faça lá fora, de propaganda política a brigas entre flanelinhas, com as persianas também, no escuro da manhã. Se estiver quente — e o calor curitibano é camarada —, um ventilador debaixo da mesa resolve. Se estiver frio e úmido, paciência. Superstições, quem me dera tê-las e escrever protegido da própria vaidade, colares de figas e conchas no pescoço, pingentes de ferradura, crucifixo numa orelha, incenso na outra, e a tela do computador interditada à burrice. “

Ver depoimentos anteriores.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (11)

Alexandre Soares Silva, autor de A coisa não-deus – “Escrevo com caneta, em folhas soltas. Me obrigo a escrever pelo menos uma linha por dia. Geralmente acabo escrevendo um parágrafo ou dois – num muito bom dia, uma página e meia. Se gosto do que escrevi no dia, fico andando em círculos pelo quarto, de puro contentamento, fazendo gestos absurdos. Idéias e frases surgem no meio da noite e tenho que acordar pra anotar. Gosto de escrever de madrugada, porque só consigo pensar quando todo mundo está dormindo. A sensação quando todo mundo está dormindo – três, quatro da manhã – é a de que todo mundo morreu faz tempo, e finalmente posso dizer a verdade, pensar a verdade.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

Cristóvão Tezza, autor de O filho eterno – “Se o livro já vai a meio, nada me perturba muito; reservo três horas da manhã para ele e toco em frente. Mas começar um livro novo é sempre torturante. O primeiro sintoma é uma síndrome de arrumação do escritório, que vai obsessiva ao último clipe perdido na última gaveta, até finalmente criar coragem e começar a olhar para a página em branco.”

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

Paulo Scott, autor de Voláteis “Embora seja um neurótico sem salvação, penso que não tenho grandes manias (diretas e decisivas) relacionadas ao momento de escrever. Gosto de escrever em casa, no meu desktop Dell de dois mil e três, que fica sobre uma mesa enorme que mandei fazer em noventa e sete e que batizei carinhosamente de Frankenstein e que vem me acompanhando deste então. Preciso de silêncio e que a mesa esteja sem aquelas pilhas de documentos e jornais e revistas que preciso ler com urgência, mas que acabo não lendo. Gosto de poder olhar as nuvens enquanto penso (e a parede à frente não pode ter quadro algum, nada que distraia, gosto de parede branca, vazia). Quase sempre digo pra mim mesmo que estou fazendo aquilo antes de tudo por prazer – claro, há muita angústia e pressão na exigência de produzir com qualidade, por isso, talvez, tenha de lembrar a mim mesmo que é preciso o mínimo de prazer. Há coisa de meses, não sei precisar, tenho desligado a internet, o que nem sempre é possível. Às vezes preciso de trilha sonora; o jazz prevalece, mas escuto muito os discos do Júpiter Maçã, Avalanches, King Crimson, Tom Waits, Julio Reny, Constantina, Radiohead. Gosto de selecionar uma faixa e deixá-la repetindo; sei que é estranho, mas, quando estou disperso demais, é o que mais ajuda a me concentrar.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (10)

Clarah Averbuck, autora de Vida de gato“Sempre melhor sozinha e no silêncio. Às vezes levanto da cama depois de posicionada pra dormir entre travesseiros e edredons porque nos momentos de solidão e silêncio é que as ideias começam a se organizar. Quando tenho algum texto para entregar com prazo vou mentalmente trabalhando nele por aí, na feira, no supermercado, no ônibus. Quando chega a hora de escrever já está praticamente pronto. Outros vêm de supetão mesmo. São os que eu mais gosto;  respostas rápidas a inspirações momentâneas ou sentimentos fortes causados por algum outro texto. Sempre os melhores. cummings, como diz meu marido – ou ex-marido, nem eu sei mais, já que vivo no dia da marmota. No dia da marmota não tem texto.”

Douglas Diegues, autor de El astronauta paraguayo – “Para escrever um texto en português selvátiko ou portunhol selvagem tengo necessidades que son manías ou vice-versa. Eis algumas: 1) Estar solo, com las puertas bien trankadas, en un kuarto, escritório, sala kualker.  Con las puertas del kuarto bién trankadas, la imaginacione vagabundea mejor. 2) Estar com las baterias bem carregadas; se estiver medio sonolento, cansado, com dificuldade de concentracione, non vou além dum soneto salvaje. 3) Escrever una primeira vbersione a lápis y después digitar el resultado (cortando ou aumentando) numa vieja notebook sempre ayuda mais que escrever diretamente en la vieja notebook. 4) Tener la sensacione de estar escondido, camuflado, klandestino, nel momento de la escritura, ayjuda bastante; me es impossible escrever em publico, sozinho ou acompanhado, tipo mesa de bar, restaurante, café, choperia, etc.  5) Escrever sentado em apyká, assento guaranitiko de madeira, tipo banquinho, que non es lá muito confortable, para mantener la mente mais desperta, pues que el conforto me dá um sono desenfrenado. 6) Intensa concentracione; sem concentracione nunka me ha salido algo que preste. 7) Escribir com lágrimas paraguaias sinceramente sinceras. 8 ) Saber distinguir que una cosa es poner el guevo y otra es kacarejar. 9) Leer el texto em voz alta com autocrítika afiada como la navalha del niño alien travesti nazi de monopatin rojo.”

Joca Reiners Terron, autor de Do fundo do poço se vê a lua – “Em geral, eu não escrevo. Vivo prorrogando a escritura. Alguém já disse – talvez Donald Barthelme, mas não tenho certeza – que escrever um livro é ganhar o campeonato mundial de natação e não saber nadar quando cair na piscina de novo. Cada livro é um aprendizado, exige a invenção de novos métodos. Agora mesmo, que terminei um romance e preciso começar outro, não sei o que fazer. Ando da sala pro quarto, do quarto pra sala, meio deprimido. Deve ter alguma ética própria nisso, nesse sufoco. Às vezes acho que estou me afogando.”

Raimundo Carrero, autor de O amor não tem bons sentimentos – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida – “Gosto de começar a escrever bem cedo, de manhã. Como não gosto de café, tomo coca-cola, pois cada um tem a cafeína que merece. Num bom dia, posso escrever até cinco, seis horas seguidas, sem levantar da cadeira. Num mau dia, não só não sai nada como começo a achar todos os meus livros anteriores um horror. Então o jeito é sair do escritório e ler, até que algum outro escritor me dê vontade e coragem de escrever novamente. Quando fico mais de uma semana sem escrever nada, deprimo. Quando estou embalado em alguma coisa, todos os problemas parecem menos graves.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (9)

Alexandre Rodrigues, autor de Veja se você responde essa pergunta – “Nunca escrevo antes das 3 da manhã. Pode ser que tente, mas praticamente nunca algo vai acontecer antes deste horário. Para abrir os trabalhos, costumo ler pequenos trechos de três ou quatro livros por vez. Preciso de silêncio absoluto. Diante do meu prédio tem um bueiro solto. Os carros passam em cima e fazem um ‘ramplam’. Já pensei em subornar um funcionário da prefeitura para dar um jeito. Ou eu mesmo dar um jeito. Não admito música no ambiente. Antes de começar, alimento os gatos, troco a água e limpo a areia para não haver interrupção. Em todos os contos de Veja…, exceto um, estava chapado. Não apologizo e nem recomendo, mas o fato é que funcionou. Dificilmente bebo, jamais fico bêbado. Reviso o que escrevi logo ao acordar, depois deixo o texto por mais algumas horas. E mesmo que não consiga escrever nada, quando estou escrevendo espero o dia amanhecer antes de dormir. Uso sempre a mesma fonte e corpo 11. Às vezes faço experiências para mudar. Essa semana tentei de novo ouvir música. Apenas uma música, a mesma, tocando no repeat. Uma música brega dos anos 70 que nem arranhou a parada de sucessos. Tentei ver se a vontade de me livrar daquela música ruim acelerava as coisas. Não deu certo. 
E não posso garantir que não estou mentindo.”

Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite – “Até pelo ofício de jornalista, que nos obriga a redigir em ambentes movimentados e não raro barulhentos, em geral não preciso de muita preparação quando vou escrever ficção. O fundamental é que haja café em profusão e – ainda mais relevante – que não ninguém fite a tela enquanto digito. Prefiro escrever pela manhã, quando a mente ainda está vazia. E na maior parte das vezes, quando me sento para trabalhar, já tenho algumas anotações sobre o conto a ser criado: observações sobre enredo ou personagem, frases soltas, em alguns casos o final da história.”

Mariana Ianelli, autora de Almádema ­– “Escrevo sempre de madrugada, a luz do escritório apagada, uma luminária e dois abajures acesos. Basicamente, o ambiente é este: janelas fechadas, uma fruta, um chazinho, os cadernos de anotação e os papéis na mesa, uma boa caneta, ninguém por perto além dos gatos.”

Santiago Nazarian, autor de O prédio, o tédio e o menino cego – “Antes de tudo, não consigo escrever com ninguém na minha casa, mas isso é tranquilo porque moro sozinho e não costumo receber hóspedes. Televisão ligada também não dá. Um sonzinho já pode ajudar a dar clima. MSN ligado é ok. Tenho escrito mais de manhã, logo ao acordar, tomando café, coca-cola, café, coca-cola, até um ponto em que estou tão pilhado de cafeína que não consigo mais pensar, daí saio pra academia.”

Sergio Sant’Anna, autor de O voo da madrugada – “Escrevendo, a cada dia, tenho a sensação  de buscar o impossível”.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (8)

Adriana Lisboa, autora de Rakushisha – “Minha cabeça não funciona para escrever de noite. Também não sei escrever bebendo, fumando, nada disso – a imagem romântica do(a) escritor(a) notívago e drogado/embriagado não poderia ser mais distante de mim. A cabeça tem que estar completamente desanuviada e concentrada. De manhã ou de tarde, eu escrevo quando posso, e se consigo espremer umas duas horas do dia para dedicar à escrita, é uma maravilha.”

Heitor Ferraz, autor de Coisas imediatas – “Sempre tenho ótimas ideias quando ando. Mas como nunca levo caderneta, elas se perdem. Escrevi os meus melhores textos, quase todos em prosa. Mas ficaram esquecidos na calçada. Em casa, gosto de escrever no computador, depois que aposentei a máquina de escrever. Um cinzeiro, meu maço de Marlboro, e alguns livros para avançar, deliberadamente, no alheio. Durante um tempo, escrevia de madrugada. Agora, não tem mais hora – escrevo bem menos. E quando trabalhava em firma, gostava de escrever na firma, um olho no computador e no outro na porta, para mudar rapidamente de tela, caso o chefe desse uma incerta na sala.”

Marcelo Mirisola, autor de Memórias da sauna finlandesa – “Nenhuma superstição. Apenas trabalho. Sou como o motorista de ônibus que engata a primeira marcha, a segunda, e segue – aos trancos e barrancos – até o ponto final. Só isso.”

Wilson Bueno, autor de A copista de Kafka – “Sou mais um ‘reescritor’ do que um escritor propriamente dito, tamanha a obsessiva e exaustiva e neurótica reescritura que faço dos meus textos. Copio Clarice (Lispector),  e essas coisas são extremamente contagiosas: quando da máquina datilográfica, dava 7 espaços do começo da lauda até o início do texto a ser iniciado. Hoje faço o mesmo no computador. Isso é sagrado – toc, toc, toc na madeira mais próxima. 7 sagrados espaços 1/5 ( no word).

Só escrevo de madrugada, geralmente começo à 1 hora da manhã e vou até quando der. Prometo a mim mesmo, quando envolvido com algum projeto (ficcional), mesmo extenso, só escrever, no máximo, 2 páginas de 31 linhas, em rigorosas Garamond 14, com zoom em 94%, espaço 1/5 – isso aí também é outra obsessão.

Se for além das duas páginas, muito que bem, epifanias… Se não consigo ultrapassá-las chego a ficar 3, 4, 10 dias longe do projeto, angustiado, culpado e horrorosamente com medo de mim mesmo, um impotente, alguém que, embora com mais de 15 livros publicados, nunca escreveu uma linha…

Um belo dia retomo, e se chego às duas páginas (ou mais), de novo, sigo no ritmo diário, ou madrugueiro – de modo constante, até novo nó, claro…

Quando dou o texto por ‘concluído’ (as 2 laudas ou mais) aí é que começa a glória e o êxtase de escrever. Sem angústia, puro gozo, releio, na cama, se frio (e sempre faz frio em Curitiba) embrulhado em cobertores e lareira acesa, crepitando (tem que estar crepitando, hehehehehe), os papéis A-4 sobre uma velha prancheta de papelão que me acompanha seguramente há uns 20 anos.

Se um dia eu perder a prancheta, acho que não escrevo mais, tem que ser ela, somente ela, não mais que ela…. Aí leio como se fosse outra pessoa, um estranho face àquele texto e desce, então, a caneta Mont Blanc, esferográfica (tem que ser ela, só ela, apenas ela, exclusivamente ela, presente de um velho amigo e que está junto comigo aí uns 15 anos) sobre o texto, praticamente o desfigurando, de primeira.

Volto ao computador, corrijo o texto no word, imprimo como se fosse a versão definitiva. Volto à cama, ao quarto, à prancheta, à Mont Blanc, à lareira, ao estrangeiro que lerá aquele texto que não me pertence. Não precisa dizer que a caneta desce de novo impiedosa desfigurando o texto, só que um pouquinho menos…

Isso até começarem a passar os primeiros carros por minha rua de arrabalde, o dia clareando atrás das cortinas e então, só me dou o direito a um sono reparador, e sem culpa, se o texto que voltou da impressora (seguramente a trigésima nona versão…) prescindir da rigorosa (e implacável) Mont Blanc. Tem que ser um texto sem mácula, nem que depois, na releitura total do projeto, eu o desfigure de novo e aí recomeça a sanha… Não vou dormir, mesmo se ao digitar, bati um ponto vírgula onde deveria ser uma vírgula ou uma letra encavalou na outra… TEXTO SEM MÁCULA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ô ofício, ô vida. Tem gente que chama isso de profissão. Também, a exemplo de Clarice, que conheci na juventude, chamo a isso de ‘missão’, ‘mediunidade’. Não escrevo, corro  atrás de mim mesmo.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (7)

João Batista Melo, autor de Um pouco mais de swing – “Nos meus primeiro livros, eu tinha um ritual curioso: eu somente conseguia escrever com caneta e em folhas de papel jornal (aquele amarelado, que hoje nem sei se ainda se encontra nas papelarias). Se fosse um papel branquinho, eu travava.  Se eu sentasse diante do computador, mais bloqueado eu ficava. Até que comecei a escrever meu primeiro romance. Lá pela página 100 do manuscrito, naturalmente redigido numa caligrafia hieroglífica, pensei: depois eu vou ter de passar tudo isso a limpo e, ainda por cima, entender o que eu escrevi meses atrás? Então, o ritual foi extinto, e as idéias passaram a fluir normalmente diante do teclado e do monitor. Mas um outro ritual, que vinha da mesma época, permaneceu. O cinema tem uma influência muito grande no meu trabalho e eu levo isso aos detalhes: eu escrevo sempre ouvindo trilhas sonoras instrumentais de filmes. Não adianta colocar um jazz, uma música clássica, uma MPB. Não funciona. Tem de ser trilha de filme. Mas suspeito que esses rituais acabam sendo tentativas de manter sob controle meu maior problema: a indisciplina. O trabalho no qual obtenho minha sobrevivência (que, claro, não é a literatura) ocupa os meus dias quase inteiros. A maior parte do tempo que sobra dedico à minha família. O que resta é disputado entre escrever, ler, ver um filme, encontrar com amigos, não fazer nada, etc. E nos raros momentos em que consigo me obrigar a me sentar para escrever, preciso o tempo todo fiscalizar minhas mãos para que o mouse não abra a internet, vá organizar pastas de arquivos ou fique simplesmente brincando com a setinha do cursor na tela.”

Marcelo Carneiro da Cunha, autor de Nem pensar “A única condição para eu poder escrever é ter um computador com um teclado razoavelmente compreensível e uma cadeira que não acabe com a minha cervical e lombar ao mesmo tempo. Escrevo com qualquer roupa, mas alguma e, apesar de poder escrever a qualquer hora, escrevo à tarde. Não gosto de idéia de unir escrita a uma superstição, tipo vestir uma certa roupa, usar um certo papel, uma certa luz, ou o que seja. Prefiro associar o sucesso na solução de um problema criativo que nos persegue a uma combinação de coisas meio explicáveis e meio inexplicáveis que ocorrem dentro da nossa cabeça, e mais nada. A internet é a pior coisa que inventaram, porque a gente sabe que ali SEMPRE tem alguma coisa acontecendo, e se remover para escrever vira algo muito difícil. Gosto de ouvir música enquanto escrevo, sempre rock contemporâneo. Fico pensando o que aconteceria comigo se eu escutasse, sei lá, MPB. Será que eu iria escrever como o Chico Buarque?”

Manoela Sawitski, autora de Suíte dama da noite – “Isso vai mudando com o tempo. Lembro que no primeiro romance, achava que precisava de café e cigarro, se fosse de dia, e cigarro e um pouco de vinho à noite. Quando terminei estava com gastrite. Aí entrei numas de reduzir o café e tentar fumar cachimbo. Era ridículo, mas ninguém via. E vá conseguir manter o cachimbo aceso e pensar ao mesmo tempo?! Fracassei. A roupa só tem que ser confortável, porque não me sento direito, fico fazendo contorcionismos com as pernas. Arial 12, entre linhas 1,5: sempre. Já escrevi com música, no silêncio, com obra no vizinho, televisão ligada na sala. Acho que só sou completamente incapaz se alguém assistir Faustão ou BBB perto de mim. Agora, sempre fico um pouco inquieta até engrenar. Ligo computador, penso que está tudo certo, que já vai acontecer, e de repente tenho certeza que preciso pegar um copo de água. Volto e lembro que não escovei os dentes ou me esqueci de tomar a vitamina. Depois acho que é melhor prender os cabelos. Ou soltar. Vou me enlouquecendo até que canso e sento pra escrever bem comportada. Também gosto muito de caminhar. Andando o pensamento vai fluindo e se encadeando, é impressionante. Volto correndo, doida pra passar tudo pro papel. Mas aí acho que preciso tomar banho primeiro, claro.”   

Tatiana Salem Levy, autora de A chave da casa – “Sou obsessiva com o silêncio e a solidão. Não suporto escrever onde haja outras pessoas. Só de saber que há alguém em casa fico nervosa e não consigo produzir. Barulho é pior ainda: um vizinho pisando no meu teto já pode me fazer perder uma boa página… Quanto ao horário, prefiro escrever de manhã. Superstições, tenho muitas, mas não para escrever.”

(Ver série completa de depoimentos).

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (6)

André Sant’Anna, autor de O paraíso é bem bacana “O meu problema na hora de escrever é arrumar uma desculpa para adiar a hora de começar a escrever. Antes, eu fumava uns cigarros – ‘só um cigarrinho antes de começar’ –, aí as idéias iam fluindo. Ou: ‘Vou tomar uma lá na padaria pra botar as idéias em ordem’. Felizmente, parei de fumar. Infelizmente, fui obrigado a parar de beber. Então, tenho assistir às piores porcarias na televisão, antes de ir para o computador.”

Bernardo Ajzenberg, autor de Olhos secos – “Frequentemente uso um poderoso tapa-ouvidos quando escrevo. Ele me ajuda. É uma forma de dar mais atenção à bagunça explosiva que vem de dentro da cabeça, sem intermediações e sem perder nenhum detalhe dela.”

Carlos André Moreira, autor de Tudo o que fizemos – “Como me dedico a escrever no que sobra de tempo da carreira de jornalista, meu horário é o que eu conseguir separar para sentar em frente ao computador – que fica no quarto, não tenho um gabinete especial em casa. Mas já notei que rendo melhor madrugada adentro e não durante o dia. Escrevo – e também trabalho como tradutor – depois de fazer uma xícara de café, trazê-la para a escrivaninha e colocá-la ao lado do monitor (onde podem ser vistos também alguns carrinhos Hot Wheels que tenho há muitos anos e que gosto que decorem o ambiente). A escrivaninha é uma bagunça, com pilhas de livros e CDs de rock em volta – na primeira meia hora, ouço música quando estou escrevendo. Depois desligo e continuo só com o som ou silêncio da vizinhança.”

Fabrício Carpinejar, autor de Canalha! – “Não consigo escrever sem camisa. É como desrespeitar a imaginação. Eu me sinto travado. Meu melhor período é de manhã. Na tarde, leio outros livros. Na noite, reviso meus originais. Eu me sustento com café. Fico isolado no fundo do pátio, num bunker, artefando a linguagem. Sou disciplinado. Na hora de algum bloqueio, faço faxina da grossa, com detergente e enceradeira. Volto cansado ao computador, sem vontade de mentir. Rabisco caderninhos, mas são os apontamentos que nunca leio. Adivinho o que escrevi lá. Os filhos não me atrapalham, podem conversar e perguntar que mantenho a costura da pele.”

João Gilberto Noll, autor de Acenos e afagos – “Gosto de escrever de manhã cedo. Me parece que é  meu melhor impulso venha desse horário. É a cabeça mais vazia,  muito mais propícia para um arranque em direção a um certo inconsciente.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (5)

Carol Bensimon, autora de Sinuca embaixo d´água – “Quando quero criar uma cena, costumo pensar na trilha que estaria tocando caso a cena fosse a de um filme, e então saio para caminhar escutando essas músicas. Tomo notas e, quando sinto que já sei bastante sobre a cena, sento para escrevê-la. Nessa hora, é indispensável o chimarrão. Quase nunca escrevo sem estar tomando chimarrão. É o que segura minha vontade de ser fumante.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? – “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em  que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

Emilio Fraia, autor (com Vanessa Barbara) de O verão do Chibo – “Não consigo continuar nenhum texto se o fim da última linha de cada parágrafo não estiver alinhado o mais à direita possível na página – costumo inserir palavras ou frases para as linhas ficarem o mais à direita possível no arquivo, mesmo sabendo que a diagramação no livro (jornal ou revista) vai ser diferente depois. Durante um tempo eu só conseguia escrever se no Word o papel estivesse configurado para tamanho Letter (alguns dizem TOC). Voltei a escrever num caderninho. Letra cada vez menor. Se tudo vai mal, saio para andar ou leio trecho de algum livro (sempre que possível, Onetti). Escrever antes de escrever (cabeça) e escrever na hora de escrever (papel) são entidades distintas e complementares. Ler em voz alta: fundamento da vida na Terra.”

Luiz Paulo Faccioli, autor de Trocando em miúdos – “Escrever para mim é uma intimidade. Preciso de silêncio, conforto, concentração e isolamento. Se alguém estiver presente, mesmo sem saber o que estou escrevendo, sinto como se eu praticasse sexo em público. Sou mais produtivo à tarde e no começo da noite. De manhã sou preguiçoso, à noite tenho sono.” 

Vanessa Barbara, autora (com Emilio Fraia) de O verão do Chibo – “Gosto de escrever de madrugada (porque ninguém me interrompe) e costumo mudar a fonte de tipo e tamanho na hora de reler. É para ter uma ‘visão diferente’ do texto. Às vezes também releio em pé, meio de lado – é uma mania absolutamente idiota que nunca serve pra nada. Gosto de escrever de pijama ou com a roupa mais larga possível, que eu chamo de pijama social duplo.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (4)

Antonio Xerxenesky, autor de Areia nos dentes – “É raro que eu escreva ficção sem estar bebendo. Bebendo (gerúndio), não bêbado (odeio muito), que fique claro. Cada conto ou pedaço de romance precisa encontrar sua bebida adequada. A do Areia nos Dentes foi (óbvio) tequila. Camino Real, sete dólares no free shop, para ser específico. Isso explica porque quase só escrevo de noite, já que não é do meu feitio beber de dia (ref. Ética). Isso também explica porque prefiro revisar durante o dia, quando a sobriedade e a lucidez imperam e a bebida oficial é o café preto.”

Daniel Galera, autor de Cordilheira – “Eu gosto de escrever com uma janela do lado, dando para qualquer tipo de vista aberta. Prefiro também começar a escrever quando não tenho mais nada pra fazer naquele dia. Se for de manhã, funciona melhor quando sei que não há compromissos ou cosias a resolver até o dia seguinte. Gosto de ler enquanto escrevo. Às vezes levanto da mesa e vou folhear um livro que gosto. Roupas: Indiferente. Música: prefiro não ouvir, mas se ouvir tem que ser algo meio de fundo, como gravações antigas de blues em volume baixo ou ambient music de bandas como Stars of the Lid. Outros hábitos: café e uma dose de single malt. Duas doses podem funcionar às vezes. A terceira dose arruina a sessão.”

Marcelino Freire, autor de Rasif – “Não tenho hora para escrever. Sempre estou atrasado. Paro em frente ao computador só quando a frase não pode mais esperar. Guardo a coisa até estourar. Algo que ouvi na rua, algum som que catei na TV. A partir dessa primeira faísca é que vou contando/cantando a história, sem saber aonde ele vai dar, às cegas. Não acendo incensos. Para não afastar os fantasmas. Não posso ouvir música. Tenho de estar em silêncio. Todo concentrado para a palavra – uma vez que ela, repito, é o meu guia. Neste escuro, neste abismo e maravilha! Quando pego o ritmo, a voz do personagem. Quando sei que não mais o perderei de vista. Dou um breque. Uma paradinha e pego uma cerveja. Uma só, para não ficar bêbado. Não consigo escrever embriagado. Tudo em mim tem de estar ligado . Sóbrio e afinado. Para ouvir, sem intermediários e sem atrapalhos, o que eu tenho a dizer. Sempre cercado de dicionários. Palavras de todo tipo. Essa é minha ladainha. O resto, amigo, sai na purpurina. E tenho dito.”

Rodrigo Levino, autor de Dias estranhos – “Eu sou eu e minha rede. Não consigo escrever sentado, acho impraticável para dizer a verdade. Digo, sentado como se imagina alguém sentado. Gosto/só consigo escrever bem mezzo deitado mezzo sentado numa rede de balanço ou, a depender das circunstâncias, na cama. Apóio os braços em cima de algo – montanha de travesseiros ou bordas da rede – e faço da cama/rede uma poltrona onde posso esticar as pernas e, no caso da rede, praticar o balanço, sendo o dedão do pé ou o cotovelo as forças propulsoras. Prefiro escrever à noite, com poucos intervalos, tomando café. Todo início é um parto, fico dias escolhendo a primeira frase/cena. Quanto mais janelas abertas, melhor. Já escrevi bêbado, eu tinha dezoito anos.”

Sérgio Rodrigues, autor de Elza, a garota – “Sou avesso a superstições e rituais. Escrevo sempre no computador, Word, Times New Roman, corpo 12, mas isso não tem nada de mais. O que tento fazer é criar uma atmosfera confortável, tipo bermuda-e-camiseta ou bermuda só, e de distração mínima – o que significa basicamente deixar o telefone na secretária eletrônica e resistir à tentação de conferir emails e navegar na internet. Já tive fases de escrever só noite adentro, depois que a casa inteira dormia, e em nome de um certo espírito dionisíaco ficar bebendo uísque ou, nas raras ocasiões em que o inverno carioca merecia este nome, conhaque (ainda acho o conhaque uma bebida profundamente literária, não me pergunte por quê). Mas ultimamente tenho virado cada vez mais um trabalhador diurno e sóbrio. Seja como for, escrever é quase sempre um trabalho meio doloroso. Gosto mesmo é do que vem depois: editar o material bruto, cortar, montar os pedaços em outra ordem, preencher lacunas. Isso é tão prazeroso e envolvente que nessa hora nem faz diferença se o telefone toca ou os emails pipocam.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (3)

Cardoso, autor de Cavernas e concubinas – “Em matéria de métodos, manias e superstições relativas ao ato de A Escrita, confesso que já fui bastante FRESCO nessa vida. Houve época em que achava ADEQUADO o uso de muletas mentais (ref. cit. apetrechos), tais quais CHAPÉU PANAMÁ e MÁSCARA DE BORRACHA – essa não resistiu ao verão cataclísmico de 1999 – e o consumo de DRINKS variados (destaque para minha receita particular de CHOCONHAQUE, preparado com Nescau e vodca). Também passei uns bons seis anos acreditando que, sem uma JANELA pela qual pudesse FITAR o horizonte, nada de importante poderia ser feito, mas desde que me mudei para um prédio sem vista entendi que tudo não passou de MELINDRE infundado, e que nada disso fazia a MENOR diferença para o que ou como eu escrevia. Algo que pode, entretanto, ser citado para que não pareça que sou totalmente REGULAR é o fato de eu necessitar de muita PLACIDEZ quando escrevo, motivo pelo qual SEMPRE escrevo de madrugada e, de preferência, SOZINHO. Uma outra pessoa na sala, mesmo completamente IMÓVEL me tira totalmente a concentração. Ao mesmo tempo, por mais contraditório que seja, necessito de alguma espécie de MOVIMENTO no ambiente, por isso escrevo sempre sentado de frente para uma televisão ligada, quase sempre sem volume. De tempos em tempos, troco de canal.”

Carola Saavedra, autora de Flores azuis – “No início eu era muito metódica para escrever, tinha que ser na parte da manhã, a mesa arrumada, livros e anotações por perto, porta fechada, música de fundo, xícara de café, etc. Hoje em dia as coisas são mais complexas, escrevo quando dá, do jeito que dá. De todo aquele ritual, acho que restou apenas a xícara de café.”

Ivana Arruda Leite, autora de Alameda Santos“Pra falar a verdade, eu detesto escrever. O meu barato é reescrever, mexer no que já está escrito. O começo de um livro é sempre um sacrifício sem fim. Até porque eu sou do tipo que já tem a história pronta na cabeça antes de escrevê-la. Daí a preguiça. Pra eu me obrigar a ficar umas horinhas na frente do computador é só na base do prêmio e castigo. Eu fico me prometendo coisas. Se eu escrever mais uma hora, eu posso ficar duas no twitter. Ou jogando no computador. Se eu não escrever um capítulo hoje, eu não vou poder sair pra beber. Nesta fase, eu só escrevo de manhã e no meu trabalho. Trabalho de prisioneiro mesmo. Eu só relaxo depois da primeira versão concluída. Aí sim o prazer da escrita aparece e eu escrevo freneticamente de dia, de noite, em qualquer lugar. Se o editor não arranca o livro da minha mão eu mexo nele pro resto da vida.”

Luiz Ruffato, autor de Estive em Lisboa e lembrei de você – “Acordo, de segunda a sexta, invariavelmente, quando não estou viajando, às 6 da manhã, tomo café, leio o jornal, e às 7 começo a trabalhar. Sigo até meio-dia e meia, quando almoço. Não tenho superstições ou manias. Só escrevo em minha casa, em São Paulo, sempre diretamente no computador. As tardes dedico-as a responder mensagens, ir ao banco, resolver questões domésticas. À noite leio e às 10 já estou recolhido à cama.”

Marçal Aquino, autor de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios“Escrevo literatura exclusivamente a mão, em cadernos tipo universitário, com caneta macia. Gosto da frase do Kureishi: ‘Escrevo com pau duro e caneta de ponta mole, e não o contrário’. Acho que é por aí. Se houver música, será instrumental, que letras atrapalham nessa hora. O ideal é que eu esteja sozinho e disponha do tempo que precisar, nem que seja uma ilusão.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (2)

Edward Pimenta, autor de O homem que não gostava de beijos – “Só escrevo quando todos dormem. Levanto da cadeira várias vezes e vou à geladeira para renovar o copo de coca light. Fumo um Marlboro cremoso quando boto o ponto final. Word for Windows, espaço duplo, arial. Se não for assim, não consigo levar a sério o que sai na tela.”

Índigo, autora de A maldição da moleira “Acordo, tomo café e já vou para o computador. Sem pentear cabelo e sem tirar o pijama, senão estraga tudo. Escrevo até as 10:30h no máximo. Daí não escrevo mais. Só no dia seguinte. A exceção a isso é se eu  dormir depois do almoço, ou no meio da tarde e, ao acordar, for direto para o computador. Basicamente eu só consigo começar a escrever em estado de sonolência. Acordo junto com o texto.

Fora isso: só consigo escrever se estiver sem sapatos, anéis, pulseiras e maquiagem. O texto tem que estar em Times New Roman, 12, espaço 1,5. Não consigo escrever se tiver gente por perto. Não escrevo com música. Não consigo escrever no papel, só no computador.”

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro – “Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.”

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Nelson de Oliveira, autor de Poeira: demônios e maldições – “Eu não tenho nenhum ritual interessante… Quem é que escrevia pelado, o Rimbaud? O Truman Capote? O Fernando Sabino? Mas tenho uma leve mania, não sei se posso chamar assim. Eu preciso escrever todos os dias. É uma de minhas mais fortes necessidades. No entanto, escrever demais é algo mental e fisicamente insuportável. Trinta minutos é o tempo ideal. Menos do que isso, não fico saciado. Mais, começo a ficar empapuçado. Então, posso dizer que sou um prosador homeopático.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (1)

Andréa del Fuego, autora de Nego fogo – “Escrevo esgotando músicas, escolho uma faixa e a ouço até que o texto termine e nunca mais consiga ouvi-la outra vez.”

Daniel Pellizzari, autor de Dedo negro com unha – “Gosto muito de escrever nu, especialmente num cômodo com ar-condicionado. Já percebi que a presença de uma janela com vista interessante, especialmente em lugares altos (ref. Estou Suspenso Nas Nuvens A Mirar os Mortais), aumenta a produtividade em 42%. Silêncio brutal concedido por protetores auriculares: sim. Mas minha principal mania atual é sentar no trono do digitador e ficar listando mentalmente motivos para não escrever. Funciona muito.”

Fabrício Corsaletti, autor de Esquimó – “Só consigo escrever prosa de ficção de manhã. Das seis às oito e meia, no máximo. É nesse horário que minha cabeça funciona melhor, que eu consigo me concentrar mais. Ou me defender menos. Porque tenho a impressão de que às seis horas — isto é, mal-saído do sono —, sentado de frente pro laptop, já tendo tomado uma caneca de café sem açúcar e comido uma ou duas fatias de pão com manteiga, há pouca resistência entre o meu cérebro, minhas mãos e o teclado. É quando as frases saem mais facilmente. Não que não me dê trabalho; dá, claro. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas acho que o maior esforço que eu faço é o de me disciplinar pra criar essas manhãs quase perfeitas — sem sono, sem ressaca e sem culpa. Por isso, quando estou escrevendo um conto (também escrevi um romance seguindo essa mesma regra), na noite anterior organizo minha mesa, deixando sobre ela apenas o laptop e alguma eventual anotação sobre o texto a ser escrito, ponho a água pro café na leiteira, o pó dentro do coador e durmo cedo, em geral antes das dez. No dia seguinte perco o mínimo de tempo preparando meu café da manhã. Dez minutos depois de acordar já estou escrevendo. Consigo dois ou três parágrafos por dia.

Com poesia é outra história. O poema se impõe independentemente do lugar ou da hora. O negócio é estar sempre atento pra perceber quando ele está ali, querendo se transformar em palavras.”

José Castello, autor de Ribamar – “Assim que abro a página em branco do computador, escrevo sempre no alto a palavra ‘NADA’. Sem isso, não consigo começar. Tenho a sensação de que ela me dá um chão. Fica mais claro que não tenho compromisso com nada, ou ninguém, e que posso avançar em qualquer direção.

Tenho sempre ao meu lado dois ‘amuletos’. Um pequeno elefante de bronze que herdei de meu pai. E um Quixote e um Sacho de madeira, dessas esculturas para turistas, que comprei em Sevilha, em minha primeira viagem à Europa, quando tinha 15 anos. O Quixote está com a perna quebrada e emendada com fita durex, mas não me afasto dele.

Preciso estar sozinho no escritório. Gente ao meu lado, seja quem for, me atrapalha – o que é espantoso, eu sei, para um cara que, como eu, trabalhou durante duas décadas em imensas redações.

Sim, gosto de ouvir música clássica. Nesse exato momento, por exemplo, ouço os Caprichos, do Paganini.”

Ronaldo Bressane, autor de Céu de lúcifer – “Para escrever o meu novo romance, comprei uma cortina: percebi que a luminosidade e a vista do nono andar me dispersavam. Outra coisa que me atrapalha demais é a internet, então corto a conexão. Pela primeira vez na vida, tenho preferido as manhãs às madrugadas. Alterno café e coca-cola com gelo. E a cada dia uso um dos chapéus da minha coleção. Me dá a impressão de ser outra pessoa. É meio bobo, mas tem funcionado.”