Michel Laub

Mês: fevereiro, 2009

Fim de semana

 

Um filme okO casamento de Rachel, de Jonathan Demme.

 

Um livro okAmuleto, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras, 136 págs.).

 

Uma exposição okEspanhas, fotografias de Leonardo Kossoy na Caixa Cultural Paulista.

 

Um drink para ficar ok – Don Julio.

 

Um show – Júpiter Maçã e Thunderbird no Berlin.

Filmes em cartaz

 

O lutador, de Darren Aronofsky – sobre a essência de ser white trash: trailers, anabolizantes, bronzeamento artificial, cabelos longos, strippers, Guns and Roses. O cinema tem o costume de tratar esse universo com desprezo, condescendência ou como num freak show, ou seja, com um grau maior ou menor de distanciamento. Aronofsky fez o contrário: filmou a história de um astro decadente de luta livre muito de perto, tanto em termos físicos – fazendo questão de dar closes nas cicatrizes, rugas e músculos flácidos de Mickey Rourke – quanto psicológicos –  buscando entender seus motivos, a tragédia e a comédia de sua luta inglória, que por causa dessa generosidade acaba sendo muito mais doce do que sórdida.

 

A dúvida, de John Patrick Shanley, e O leitor, de Stephen Daldry – Duas histórias sobre dilemas éticos que giram em torno de temas meio surrados – pedofilia e nazismo, respectivamente. A diferença, como sempre, é o que se faz a partir da premissa: enquanto Shanley povoa seu filme com situações e personagens corretos, mas não muito interessantes, e manipula o espectador ao fazê-lo torcer para um dos lados até a trama sofrer uma reviravolta um tanto quanto abrupta, Daldry se abstém de fazer jogos morais num terreno tão minado quanto o da culpa alemã no pós-guerra. Mesmo assim, não sufoca o que pode haver de ambíguo e humano neste drama sui generis, incluindo aí a relação entre Kate Winslet e um garoto de 16 anos – sobre a qual, pelo menos para os leitores masculinos do blog, não é preciso fazer nenhum comentário.

Feriado

 

Uma caixa de CDs – Motown 50.

 

Um filmeO lutador, de Darren Aronofsky.

 

Um conto que se passa no carnavalFevereiro ou março, de Rubem Fonseca.

 

Um restaurante para comer sushi de agulhão – Dô, na Padre Carvalho.

 

Um lugar para tomar antitetânica – Emílio Ribas, sala de vacinas.

 

Uma exposição – Pure Evil na galeria Choque Cultural.

Auto-ajuda para quem está num filme de máfia dirigido por Martin Scorsese

 

1. Se você não for italiano e receber algum convite esquisito feito por italianos, para algo como uma cerimônia de iniciação entre italianos ou um encontro no deserto com italianos, não vá.

 

2. Se começar a tocar um riff ou solo de guitarra dos anos 1960, largue tudo e saia correndo.

 

3. Se por algum acaso, numa loja de conveniência ou até dentro de um porta-malas, você enxergar, ouvir a voz ou intuir a presença da mãe do diretor, sinto informar que há más notícias no horizonte.

 

4. Não use roupão.

 

5. Não presenteie ninguém com jóias ou casacos de pele.

 

6. Não faça malabarismos num programa de TV nem deixe a babá do seu filho falar ao telefone.

 

7. Por mais tentador que seja, e sei bem que é, não mande surrar os antigos pretendentes da sua mulher.

 

8. Por mais tentador que seja, e nem precisamos perder tempo discutindo a respeito, não case com esta mulher.

 

9. Se você for cozinheiro: use a mesma quantidade de recheio em cada muffin. Se for garçom: cuide com quem vai fazer piadinhas. Se for carteiro: envelopes com logotipo de escolas municipais não devem chegar ao seu destino. Se vender perucas: tudo bem pular na piscina diante das câmeras, o problema é não pagar os credores em dia.

 

10. E sobretudo: se você estiver em meio a um flashback, com uns dez ou doze anos de idade, relativamente conformado em engraxar sapatos ou apanhar do seu pai sem motivo, em hipótese alguma estimule qualquer tipo de contato, amizade ou negócio com Joe Pesci.

Sam Mendes e os alvos fáceis

 

Em 1999, Sam Mendes lançou Beleza americana, uma crítica ao modo de vida dos subúrbios dos Estados Unidos. Na época fiquei em dúvida se aqueles clichês todos – a social climber consumista, a chefe de torcida burra, o militar enrustido – eram ironia ou só clichês mesmo. Acabei me conformando com a primeira alternativa, provavelmente influenciado por vários dos outros atrativos do filme: o humor, o personagem de Kevin Spacey, a narrativa circular, a banheira com flores e leite.

 

Dez anos depois, o diretor volta ao mesmo tema em Foi apenas um sonho. Novamente não fica claro se a crítica à classe média alta, desta vez ambientada nos anos 1950, tem algo de irônico ou é só o que aparenta – um ataque meio fácil, que virou lugar-comum no cinema tanto quanto a defesa de valores como a família e o trabalho o era há algumas décadas. Desta vez, porém, os atrativos para ajudar o filme não são tantos assim. Há a boa reconstituição de época, os figurinos, os drinks refrescantes. E há Kate Winslet, uma atriz capaz de dar vida e charme sexual a qualquer papel. Mas há muito pouco humor, e até cinematograficamente Mendes deixa a desejar – na marcação das cenas internas, na ênfase das falas, na atmosfera reconhecível das peças de Tennessee Williams ou Eugene O’Neill, com aquela opressão psicologizante no interior da vida conjugal/familiar, o registro da história é um tanto quanto teatral, protocolar.

 

O maior problema, porém, é o ponto de vista mesmo: a impressão é que em nenhum momento o roteiro, baseado num romance que Richard Yates lançou em 1961, trata criticamente a idealização que o casal de protagonistas tem da vida em Paris, ou do meio artístico, ou da liberdade que estaria impedida de florescer pelo conformismo conservador. Basta comparar a forma como ambos são mostrados e a forma como aparecem os demais personagens, todos idiotas provincianos ou, pior, candidatos a morrer ou ir parar no hospício por enxergar o suposto absurdo da vida com conforto material. É verdade que essa ingenuidade romântica era comum na época em que se passa a história. Mas também é verdade que, meio século depois, e com dezenas de filmes já tendo batido na mesma tecla – incluindo o próprio Beleza americana –, talvez esteja na hora de Sam Mendes escolher outros alvos.

Ausência de bons modos

 

Ano passado publiquei esta resenha sobre Viagem ao fundo da sala, de Tibor Fischer (Rocco, 255 págs.). É um romance cujo humor dificilmente pode ser resumido em um trecho ou outro, já que seu efeito se apóia mais no acúmulo do que em piadas isoladas. Página a página, parágrafo a parágrafo se sucedem histórias narradas por personagens que se deliciam em pisar na cabeça dos outros e depois rir muito a respeito. Guardadas as diferenças de temas e linguagem, o texto de Fischer lembra a anarquia e a crueldade dos romances de Martin Amis dos anos 1980, especialmente Money e London Fields. Mais que uma tentativa de choque barato, e sem que obviamente se endosse o que está sendo dito, tal ausência de bons modos tem seu valor por ir contra as inesgotáveis suscetibilidades étnicas, sociais, religiosas e sexuais que dão o tom da crítica literária hoje: 

 

“Ele havia sido criado num orfanato e seduzido pelo técnico de natação aos doze anos.

– Que coisa horrível – eu disse, solidária.

– Não – corrigiu Sergio. – Foi fantástico. Ele me amava e deu muitos presentes.”

 

Ou:

 

“Depois Rutger aparecia como um tratador de porcos, enquanto uma mulher idosa, que evidentemente desconhecia os benefícios da ginástica, de uma boa dieta ou da cirurgia plástica, transava com o porco. O bicho tinha uma expressão de decepção com a vida”.

 

Ou, ainda sobre Rutger e sua passagem pela indústria pornô: 

 

“A primeira parte, de mais ou menos três minutos, tinha só duas cenas com ele. Rutger interpretava o namorado de uma esteticista que observava, escandalizado, ela ser estuprada pelo entregador de pizza. Esse primeiro clipe ilustrava amplamente por que Rutger estava tentando uma carreira nesse ramo do cinema. Ele tinha um antitalento para representar. Ele sugava o talento dos demais atores. Sua tarefa ali era olhar, mas ele parecia exatamente o que era, alguém tentando parecer um namorado escandalizado. Mais tarde, Janos explicou que Rutger só conseguiu aquele papel porque pagou ao diretor e comprou a pizza.”

Fim de semana

 

Uma atriz – Kate Winslet.

 

Um filme mais ou menos com Kate WinsletFoi apenas um sonho, de Sam Mendes.

 

Um filme muito bom com Kate WinsletO leitor, de Stephen Daldry.

 

Um restaurante chinês na Pompéia – Hi Pin Shan.

 

Um livroA literatura em perigo, de Tzvetan Todorov (Difel, 96 págs.).

 

Uma músicaSubcode, Jah Wobble e Bill Laswell.

 

Uma exposição – Mondrian e Arthur Luiz Piza no Gabinete Raquel Arnaud.

Evanildo Bechara na floresta virgem

  

Não tenho opinião sobre a reforma ortográfica. Na verdade, o assunto me interessa pouco. Ortografia é convenção  e, se dizem que a mudança vai trazer benefícios, acredito. Só não me peçam para ler o acordo e endossar frases como “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Prestígio internacional se ganha quando um país enriquece. A literatura de língua inglesa é a mais lida porque os Estados Unidos são a primeira economia do mundo, e não consta que alguém tenha sentido necessidade de uniformizar a maneira como se escreve center ou theater nos cinco continentes. 

 

Nessa discussão que logo será esquecida, apenas duas coisas a lamentar. A primeira é a volta dos termos gramaticais a esta altura da vida, eu que cheguei até aqui sem saber (ou tendo esquecido, tanto faz) o que é um ditongo, um advérbio, um vocativo. A segunda é abrir o Estadão todos os domingos e dar de cara com a coluna de Evanildo Bechara. Espécie de representante oficial do Brasil no acordo, responsável por determinar o que é válido ou não na língua, o que está de acordo ou não com a forma como se fala contemporaneamente, ele escreve com a seguinte clareza e modéstia: “Isso é o mesmo que dizer que, pela regra geral, bem sempre se separa do hífen do segundo elemento, qualquer que seja o seu inicial, o que o aproxima dos integrantes do grupo 5º da Base XV, justificando nossa decisão didática de reuni-lo ao grupo 5º da Base XV nos dois livrinhos que escrevemos sobre a reforma para a editora Nova Fronteira”.

 

Além do plural majestático, há termos como “utentes” e metáforas como “floresta virgem na investigação acadêmica” para definir e esclarecer itens assim: “O cuidado na redação de ‘certos compostos’ e ‘em certa medida’ revela a falta de estudos preliminares na área da lexicologia diacrônica e sincrônica do português para determinar o afastamento da ‘noção de composição’ dos termos listados, em oposição a outros tranqüila e confiantemente arrolados como evidentes compostos”.

 

Este blog ainda não adotou a nova ortografia. Quando o fizer, prometo que será sem muito alarde. Assim fica tudo ok com as prescrições democráticas do professor Bechara, incluindo a democrática vírgula entre sujeito e verbo da primeira frase de sua primeira coluna, no dia 25/1: “Qualquer discussão, crítica ou indagação que envolva as novas normas de escrita propostas pelo acordo ortográfico aprovado no ano passado pelas esferas governamentais para entrar em vigor a 1º de janeiro deste 2009, exige conhecimento mais largo do assunto”.

Música do dia

 

Cover do Travis para The weight, que está na trilha do muito subestimado Igby goes down (2002):

 

 

E aqui, o original com a The Band, num show de 1970:

 

Joyce, Kafka, Faulkner e o Brasil

 

Foi Carlos Heitor Cony que disse, se não estou enganado, que o romance do Século 20 podia ser resumido na obra de três autores: o Joyce de Ulisses, que contou uma história linear por meio de uma linguagem revolucionária; o Kafka de A Metamorfose, que contou uma história revolucionária por meio de uma linguagem linear; e o Faulkner de O Som e a Fúria, que fez uma espécie de junção desses opostos, contando uma história revolucionária por meio de uma linguagem também revolucionária. 

 

É uma boutade, claro, até porque O som e a fúria está cheio de ressonâncias bíblicas, e o tom burocrático de Kafka é uma inovação formal universalmente reconhecida. Mas exercícios do gênero são sempre interessantes, e fiquei pensando se poderíamos montar um esquema parecido na literatura brasileira. De início, talvez desse para contrapor Machado de Assis, que usou uma linguagem clássica para explorar de forma inédita a psicologia de seus personagens, ou seja, optou por uma forma tradicional como meio de obter um conteúdo moderno, e Guimarães Rosa, que fez o contrário – contou uma aventura (ou história de formação) típica em Grande Sertão: Veredas, só que usando uma linguagem totalmente fora dos padrões de sua época. Quanto à síntese, o nosso Faulkner de apartamento, sem muita convicção pensei em… Clarice Lispector. 

 

Num debate em que essa história foi citada, um escritor amigo lembrou que o contraponto possível a Machado seria Oswald de Andrade, e que Guimarães é que poderia virar a tal síntese, porque seu romance e seus contos remetem a uma tradição um pouco diversa da então presente na literatura brasileira. Seria verdade se a arquitetura de Serafim Ponte Grande, por exemplo, já não estivesse em Memórias Póstumas (e em antecessores estrangeiros). E, acrescento contra minha própria impressão inicial, se uma das maiores contribuições de Machado não fosse justamente de forma: a concisão na prosa que teve influência numa linhagem que vai de Graciliano Ramos a Dalton Trevisan, culminando na maior parte da ficção contemporânea.

Fim de semana

 

Um capítulo de livro – o ensaio de Raymond Carver sobre influências em Call if you need me (Vintage, 300 págs.).

 

Uma história dentro de um livro – o perfil de Adolpho Bloch em Os irmãos Karamabloch, de Arnaldo Bloch (Companhia das Letras, 344 págs.)

 

Uma obsessão dentro de um livro – as referências a Adolpho Bloch em A menina sem estrela, de Nelson Rodrigues (Companhia das Letras, 280 págs.).

 

Uma cena de filme – a do Bolero de Ravel em Ninho Vazio, de Daniel Burman.

 

Uma ilustração numa revista – as gravuras de Nara Amelia no número de aniversário da Norte.

 

Um trecho de música apropriado para estes dias – o início de Beatle George, de Júpiter Maçã.

Dois choros latinos

 

Primeiro, o narrado em O despenhadeiro, de Fernando Vallejo (Alfaguara, 169 págs.):

 

“O telefone tocou e atendi: era Carlos dando-me a notícia de que Darío tinha acabado de morrer. Nesse instante entendi que tinham-se cortado os meus últimos vínculos com os vivos. O táxi ia se afastando, afastando, afastando, deixando tudo para trás, um passado perdido, uma vida desperdiçada, um país aos pedaços, um mundo enlouquecido, sem que se pudesse ver nada pela frente, nem dos lados, nada, nem atrás, nada, e indo em direção ao nada, em direção ao sem sentido, e sobre a paisagem invisível e sobre aquilo que se chama da alma, de coração, chorava: chorava gordas lágrimas, a chuva.”

 

Depois, o do personagem Olho no conto O Olho Silva, de Roberto Bolaño, que faz parte do livro Putas assassinas (Companhia das Letras, 219 págs.):

 

“Naquela noite, quando voltou ao hotel, sem conseguir parar de chorar por seus filhos mortos, pelos meninos castrados que ele não tinha conhecido, por sua juventude perdida, por todos os jovens que já não eram tão jovens e pelos jovens que morreram jovens, pelos que lutaram por Salvador Allende e pelos que tiveram medo de lutar por Salvador Allende, ligou para seu amigo francês (…) e pediu que lhe mandasse uma passagem de avião e dinheiro (…). Seu amigo francês respondeu que sim, que claro, que mandaria logo, e também perguntou que barulho é este? você está chorando?, e o Olho respondeu que sim, que não sabia o que estava acontecendo, que passava horas chorando. Seu amigo francês disse que se acalmasse. E o Olho riu sem parar de chorar, disse que era isso que faria e desligou o telefone. E continuou chorando sem parar.”

Brian Jonestown Massacre, ‘Going to hell’

Um argumento contra Benjamin Button

 

Jean-Luc Godard uma vez resumiu o western, que volta e meia fala de homens tirados da aposentadoria para uma última missão violenta, na frase “só mais uma vez”. Que também serviria, diga-se, para boa parte dos policiais ou filmes de boxe da linha Rocky. Numa vertente semelhante – “esta é sua última chance” –, para aqueles dramas em que o advogado, o jornalista ou o detetive está na sarjeta antes de trabalhar no caso que mudará sua vida.

 

Dá para seguir com exemplos em vários gêneros: metade da graça do terror vem da inutilidade da advertência “não abra esta porta, menina”; metade dos problemas dos filmes envolvendo a CIA e o FBI seriam evitados com a regra “nunca confie em chefes burocratas”; e, parafraseando o New York Times, uma definição para as centenas de produções anuais de Bollywood não seria muito diferente de “príncipe encontra princesa, há elefantes, and let’s dance”.

 

Embora O curioso caso de Benjamin Button seja um filme sobre o tempo, e esse é o rótulo que o legitima para concorrer ao Oscar, sua essência é um pouco menos solene. Ela também pode ser resumida numa frase: “Vamos ver como funciona”. Ou seja: cria-se um argumento esperto – um homem que nasce velho e morre bebê –, e a partir daí roteiro e direção se divertem imaginando situações que se adaptem a ele. Algumas funcionam, algumas não.

 

O problema desse tipo de filme é que, para o bem e para o mal, sua estrutura sempre estará engessada por um truque. Como a premissa é suficientemente interessante, nunca se poderá dizer que o resultado final seja um fracasso; por outro lado, é muito difícil que a premissa não seja maior que as cenas que a ilustram. Uma semana depois de ver Benjamin Button, pouquíssimas delas – talvez só a da batalha em alto mar – ainda estão na memória. E nenhuma tem metade do vigor que David Fincher mostrou em Zodíaco ou Clube da luta (ver post anterior).

 

O conto que deu origem a Benjamin Button é de Scott Fitzgerald. De alguma forma seu tema faz sentido na obra do escritor, que gostava de falar da melancolia inerente à perda da juventude. O texto evoca um pouco desse sentimento por uma via cronológica oposta, o que não chega a salvá-lo de certa banalidade, mas ao menos é uma tentativa de se justificar literariamente para além da mera curiosidade com a trama. No filme não há nem isso: em seus episódios sem ligação orgânica entre si, que servem apenas para acompanharmos as mudanças na maquiagem de Brad Pitt, a reflexão possível sobre o tempo diz respeito à duração excessiva da história. São 166 minutos para girar em torno de algo, o argumento, que entendemos logo nos primeiros minutos – isso na hipótese rara de já não o conhecermos muito antes de entrar no cinema.

Filmes que enganam o público, mas ainda assim são bons

 

Por enganar entenda-se aquele lamentável expediente de esclarecer, lá pelo último quarto da história, que tudo o que você viu até aqui é 1) um sonho; 2) fruto da imaginação de um psicopata ou esquizofrênico; 3) algum tipo de conspiração cognitiva que, metalingüisticamente falando, é uma referência ao dom de iludir intrínseco à sétima arte, sabe assim?

 

Clube da Luta – Para quem sempre teve vontade de mostrar as gengivas ensangüentadas para um colega de trabalho durante uma apresentação de Power Point. O filme é presa fácil para qualquer crítico que queira subir na vida acusando-o de fascismo – afinal, ele prega que a saída contra a opressão da sociedade moderna é a porrada –, mas numa reprise de meio de semana, num horário particularmente desleixado do Telecine, é uma alegria contar com o cansaço irônico das falas de Edward Norton e o frenesi pop da direção de David Fincher.

 

Uma mente brilhante – Porque, pelo menos à distância, poucas coisas podem ser tão divertidas quanto a mania, a obsessão e a paranóia. A última peça que vi de Zé Celso, por exemplo, valia só pelas menções a Silvio Santos e ao governador José Serra em meio a uma trama passada na Araraquara dos anos 1950. Mais ou menos o equivalente ao colega de quarto imaginário, ao agente da CIA imaginário e, está na cara, à esposa e ao Nobel imaginários do matemático Russell Crowe.

 

Vanilla Sky – Ok, este não chega a ser propriamente bom, mas é simpático assistir às tentativas de Cameron Crowe – uma espécie de Nick Hornby mais sentimental – de explicar o mundo a partir das letras de suas canções preferidas, das capas de seus discos de estimação ou de diálogos transportados de alguma fusão tardia entre Breakfast Club e Hal Hartley. E com um detalhe: em alguns momentos, especialmente quando entram em cena Cameron Diaz e o homem da Internet, tudo de repente se transforma num filme de David Lynch, em que somos assaltados pela percepção de que algo muito ruim está muito próximo de acontecer. De fato acontece: Tom Cruise não morre e nem chega a sofrer muito dentro daquela máscara branca.