Michel Laub

Mês: março, 2021

Egopress

Solução de dois Estados teve os direitos audiovisuais vendidos para a RT Features. O livro ganhou também uma reimpressão em fevereiro.

Diário da Queda está fazendo 10 anos em março de 2021. A versão em polonês, 11o idioma em que o romance é publicado, saiu recentemente pela editora Paúza.

– Neste domingo, 21/3, às 17h, estarei com Bruno Paes Manso numa das mesas da Flima Online. Mediação de Marcella Franco. Programação completa aqui.

Quebra-pedra, caipa e charadinhas

Qual é o papel da memória no gosto literário? Andei pensando nisso ao ler três textos publicados por conterrâneos meus em 2020. O primeiro é o poema que abre Canções de Atormentar, coletânea de Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.), cujo sabor remete a antigos verões no litoral gaúcho – passados tanto pela autora, que é de Pelotas/RS, quanto por mim, que nasci em Porto Alegre.

O poema se chama “laranjal” e fala de uma praia de lagoa no sul do estado. Os meus verões foram na beira-mar de Santa Terezinha, no litoral norte, mas não importa: as descrições fragmentadas de Angélica evocam o mesmo cenário de pequenas casas, vegetação árida, dias de calor e tédio preenchidos pela imaginação infantil e adolescente. Ali florescem expressões como “quebra-pedra”, “barba-de-pau” e “velha coroca”, que pontuam a linguagem local da descoberta do sexo (“eu tenho uma coisa para te contar./ e contei. e ela me disse que já sabia.”), da perplexidade com o mundo adulto/masculino (“qual é a de um cara num passat/ que nas ruas de barro da praia/ ultrapassa qualquer fusca?”) e de um certo confronto presente no resto do livro (a primeira das canções do título é a ladainha de um vendedor de “camareu”).

Como é praxe nesse tipo de abordagem, tudo é permeado pelo sentimento da perda. Que, no entanto, não conseguiria ser transmitido sem os atributos (sonoridade, subentendidos, ritmo) da forma poética: “em 78 construíram a casa./ isso dava ao meu pai doze anos/ para lavar o carro na rampa.”; “o cara do kung-fu lutava sozinho (…)/ um príncipe das artes marciais./ desapareceu./ hu. iá. hu/ iá. hu. iá”. A ideia da morte, em seu sentido literal ou metafórico, ligado ao que só existe hoje na nossa lembrança, ganha tradução num humor também dúbio, entre a crítica e o carinho, porque podemos ter saudades daquilo que nos dá tristeza: “puro junco, aranha,/ lagartixa, carro atolado./ quer saber o que é/ o fim da civilização?// ‘isto aqui até parece uma praia’/ me diz o rapaz que veio de são paulo/ ao ver as figueiras, a lagoa, a areia grossa// não lhe guardo rancor”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-2-21. Íntegra aqui.

Paus e pedras

Há formas e formas de fazer crítica literária. Quando o escritor norte-americano David Markson morreu, em 2010, um curioso descobriu que sua biblioteca foi parar nas prateleiras da Strand, livraria/sebo de Nova York, e pôde conferir as anotações que ele deixava nas páginas que lia. Sua maior vítima foi o também escritor americano Don DeLillo: numa cópia do romance Ruído Branco (1985), Markson registrou para a eternidade do folclore literário impressões como “que besteira”, “meu deus, a gravidade, a solenidade”, “isso é o recorde da chatice em todos os tempos” e “é para ser uma sátira, mas (…) uma sátira precisa ser divertida”.

À parte as picuinhas entre colegas, há algum sentido nos comentários. Pinçadas individualmente, algumas frases de DeLillo deixam o leitor desconcertado, na dúvida se está diante de sabedoria ou de pompa vazia, no limite da literatice: “Preparação que ele adquiriu num deserto, setecentos anos antes de nascer” (em Cosmópolis, 2003); “A realidade fica em pé, anda, fica de cócoras. Só que às vezes não faz nada disso” (em Ponto ômega, 2010); “Você sabe melhor quem é num dia de claridade forte depois de uma tempestade, quando a menor das folhas caindo é apunhalada pela autoconsciência” (em A artista do corpo, 2001).

E, no entanto, é possível ler esses trechos de modo dúbio, até irônico. DeLillo gosta de usar o discurso indireto livre, ou seja, uma narrativa em terceira pessoa grudada na consciência de cada personagem. Não é o autor, essa entidade supostamente neutra, que está fazendo aquelas reflexões daquele modo, e sim as criaturas por ele definidas nos limites de um texto de ficção – e elas têm direito a imprecisões, até a eventuais tolices, na subjetividade radical de quem só enxerga o próprio entorno (e, logo, a realidade concreta) em fragmentos por vezes contraditórios entre si.

O procedimento formal de DeLillo seria um mero exercício, talvez uma banalidade, se não estivesse a serviço de uma temática mais ampla. As dúvidas dos personagens integram uma grande pergunta que permeia toda a obra do autor. Considerado uma síntese ficcional da paranoia americana, em títulos que tratavam do assassinato de Kennedy (Libra, 1988) às conspirações que firmaram o domínio geopolítico do país em meio século de história (Submundo, 1997), o conjunto de seus romances e contos se tornou também uma reflexão filosófica, às vezes metafísica, que tenta definir o lugar humano numa sociedade pós-industrial, hipertecnológica.

Para tanto, o tom especulativo de sua prosa foi se radicalizando com as décadas, processo que chega ao ápice em The Silence (Scribner, 128 págs.). Trata-se de um romance cujo tamanho é inversamente proporcional à densidade. A história fala de um evento catastrófico ocorrido em 2022, um misterioso apagão que desliga televisores, celulares e sistemas informatizados de transporte, gerando o caos na vida de cinco personagens reunidos num jantar em Nova York.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-3-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um podcast – Wind of Change, Patrick Radden Keefe.

Um documentário simpático – Daguerréotypes, Agnés Varda.

Um disco – Carnage, Nick Cave.

Um artigo – Richard Brody sobre Claude Lanzman (aqui)

Um romance – Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.).

Fim de semana

Uma série – Doutor Castor, Marco Antônio Araújo.

Um documentário – Fassbinder, Annekatrin Hendel.

Um ensaio – Karl Ove Knausgaard sobre editores, na Piauí.

Uma memória – Abandonar um Gato, Haruki Murakami (aqui).

Uma série em podcast – Técnicos, Luciano Potter e Rafael Divério.

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