Michel Laub

Mês: abril, 2019

Fim de semana

Uma exposição – Regina Parra, Anexo Millan.

Um documentário – Tunga, Miguel de Almeida.

Um relato – Colm Tóibín sobre o câncer (aqui).

Um ensaio – Joca Terron sobre John Frankenheimer e a meia-idade (aqui).

Um livro – Escrever Ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 394 págs.).

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Sobre decoro e loucura

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”

Fim de semana

Um livro – Repórter, Seymour Hersh (Todavia, 382 págs.).

Outro – A Morte da Verdade, Michiku Kakutani (Intrínseca, 272 págs.).

Uma entrevista de 1973 – Hannah Arendt (aqui).

Uma de 1999 – Roberto Bolaño (aqui)

Uma exposição – Marc Ferrez, IMS.

A beleza e os ratos

Na época em que começou a escrever História Universal da Infâmia, reunião de falsas biografias de piratas, assassinos e outras figuras aventurescas que viraria um livro de contos em 1935, Jorge Luis Borges (1899–1986) publicava sátiras sobre figuras do mundo das letras de Buenos Aires no jornal Crítica. Os dois registros – a lenda de ação e o humor intelectualizado – parecem diversos, mas podem ser vistos como complementares de um mesmo projeto.

Como é fácil perceber na ficção posterior do autor argentino, há muito de irônico na justaposição frequente de ambos: a mescla entre o fascínio com a guerra, o crime e os duelos de um universo masculino ancestral e um certo enfado com a erudição de narradores (ou personagens) que nunca viverão algo tão solene – antes, estão presos a um jogo de simulacros onde a paródia livresca é o verdadeiro cenário.

O grande tema de Borges, portanto, acaba sendo o das relações entre arte e vida. Algo semelhante dá para dizer de Roberto Bolaño (1953–2003), autor chileno que se viu alçado a estrela da ficção latino americana e mundial só depois de sua morte. A diferença é que o sentido político da abordagem em Borges só aparecia em negativo, digamos. Seus textos foram acusados de esteticismo e alienação, como se refletissem o apoio velado (ou nem tanto) que deu a dois períodos ditatoriais de seu pais (1966–1973 e 1976–1981) sob a justificativa do antiperonismo.

Já Bolaño nunca foi ambíguo nessa área. Numa entrevista a Javier Campos em 2002, ele se diz “contra a poesia dirigida, a poesia do povo, a poesia da palavra de ordem, a poesia do partido”. Mas acrescenta, definindo o tipo de engajamento que marcaria a sua obra: “Acredito que de alguma forma a beleza, a beleza inútil sempre está – e essa é precisamente sua soberania, sua elegância extrema – ao lado dos despossuídos, dos enfermos, dos perdedores.”

Trecho de texto que escrevi para o Valor Econômico, 12/4/2019. Íntegra para assinantes e cadastrados aqui.

Fim de semana

Um artigo – Janna Levin sobre a foto do buraco negro (aqui).

Um ensaio – César Aira sobre o gênero ensaio na Serrote 30.

Uma cinebio okzinha – Egon Schiele, Dieter Berner.

Uma adaptação okzinha – On Chesil Beach, Dominic Cooke.

Uma exposição – Marcia Ribeiro, Casa da Luz.

Fim de semana

Um disco – Westkust, Westkust.

Uma feira (para ryco) – SP Arte.

Um western – Rastro de Maldade, S. Craig Zahler.

Um filme farofa – The Dirt, Jeff Treimane.

Um livro – A Literatura Nazista na América, Roberto Bolaño (Companhia das Letras, 237 págs.).