Michel Laub

Mês: outubro, 2021

Fim de semana

Um disco – Síntese do Lance, Jards Macalé e João Donato.

Outro – Meu Coco, Caetano Veloso.

Uma exposição em Berlim – Suely Torres, Donnerstag Gallery.

Um doc pior do que o tema – The Most Beautiful Boy in the World, Kristina Lindström e Kristian Petri.

Um filme – Adults in the Room, Costa-Gavras.

Um Brasil que morreu

Entrevistas de escritores costumam ter alguma dose de mentira. Sendo essa a prática do metiê, é até esperado que manipulemos o discurso para tornar mais interessante a imagem dos nossos livros, tanto para os outros – leitores, crítica – quanto para nós mesmos – porque é preciso renovar o estímulo e seguir numa luta por vezes inglória.

Ler as entrevistas de Sérgio Sant’Anna, ao menos as que estão reunidas no recém-lançado O Conto não Existe (Cepe, 195 págs., organização de André Nigri e Gustavo Pacheco), causa outra impressão. É possível que ela seja falsa também – quem vai saber? –, mas não importa: o fato de eu sempre ter encontrado verdades na obra deste autor clássico da ficção brasileira do fim do século 20, e que seguiu tendo momentos de vigor até sua morte por covid ano passado, como que contamina o julgamento daquilo que ele disse fora dela.  

Trecho inicial de texto sobre Sérgio e André Sant’Anna, publicado no Valor Econômico, 24-9-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário – The Velvet Underground, Todd Haynes.

Um livro – O Conto não Existe, Sérgio Sant’Anna (Cepe, 228 págs.).

Um trecho – Diários de Patricia Highsmith (aqui).

Um podcast – Juliana de Albuquerque e Isadora Sinay sobre Philip Roth (aqui).

Uma série – Succession.

Didê, cunete, tchatchatchá

“Para escrever, talvez seja necessário que a língua materna seja odiosa, mas de maneira tal que uma criação sintática trace aí uma espécie de língua estrangeira.”

A frase, de Gilles Deleuze, serve como epígrafe ao posfácio de Caia Maria Coelho para Neca + 20 poemas travessos, de Amara Moira (Editora O Sexo da Palavra, 64 págs., com ilustrações de Lino Arruda). Ela define a sensação que temos ao ler estes textos escritos em pajubá, o socioleto das travestis brasileiras. Neles se fala em “didê”, “cunete”, “necometragem do lixo”. De um mundo onde “quanto mais necão, mais lei aliás”, e “pele na pele é tia, faço a recheada não.”

O pajubá foi historicamente criado como defesa, um disfarce que ajudou na sobrevivência de uma das populações mais discriminadas e agredidas do país. Nele se misturam e recriam construções gramaticais do português de diferentes regiões, termos importados, vocabulário dos terreiros iorubás. Mas o que poderia ser mera negação – o estrangeirismo deleuziano criado a partir (e como devolução) do ódio – floresceu num registro musical vívido, de apelo tragicômico a quem ouve, o que é uma forma de empatia: “Tem umas que engana, até parece ocó, malão e tudo, aí cê vai na pira dela te tchacatchá, já arrebitando o edi, mas é piscar e, jesus, ela atacou.”

Neca não é bem uma história, e sim o monólogo de uma travesti prostituta que aguarda clientes numa calçada, dirigindo-se a uma colega iniciante. O assunto é a batalha diária da personagem, que se equilibra entre ameaças as mais variadas – violência, polícia, doenças – fazendo desabafos (“vontade de dar elza horrores só pra compensar, celular, carteira, o que for”), observações sobre os tipos com os quais se depara (“conheeeço. Edivaldo, edivaldo, cê não me engana nada”), dando conselhos ternos em meio ao sarcasmo e a tristeza (“Tô morta, gata. Cê fica? Então aqüenda uma taba odara pra esse frio e pra não estressar com as mariconas”).

Início de texto publicado no Valor Econômico, 8-10-21. Integra aqui.

Fim de semana

Uma história – Dawn Dorland x Sonya Larson (aqui).

Um livro – Neca, Amara Moira (O Sexo da Palavra, 64 págs.).

Um lugar em Berlim – HKW.

Outro – DAAD Galerie.

Um filme – Cuatreros, Albertina Carri.

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