Michel Laub

Mês: junho, 2014

Inconsciente, segredo e poder

Michel Foucault, cuja morte faz 30 anos este mês, em diálogo com Gilles Deleuze (em Microfísica do poder, Paz e terra, 431 págs., tradução de Roberto Machado):

“Foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração; mas talvez ainda não se saiba o que é o poder. E Marx e Freud talvez não sejam suficientes para nos ajudar a conhecer essa coisa tão enigmática, ao mesmo tempo visível e invisível, presente e oculta, investida em toda parte (…). A teoria do Estado, a análise tradicional dos aparelhos de Estado sem dúvida não esgotam o campo de exercício de funcionamento do poder (…). Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder… Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de ‘classe dirigente’ nem é muito clara nem muito elaborada. ‘Dominar’, ‘dirigir’, ‘governar’, ‘grupo no poder’, ‘aparelho de Estado’ etc. é todo um conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, frequentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e uns de outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui (…). Se discursos como, por exemplo, os dos detentos ou dos médicos de prisões são lutas, é porque eles confiscam, ao menos por um momento, o poder de falar da prisão, atualmente monopolizado pela administração e seus compadres reformadores. O discurso de luta não se opõe ao inconsciente: ele se opõe ao segredo. Isso dá a impressão de ser muito menos. E se fosse muito mais? Existe uma série de equívocos a respeito do ‘oculto’, do ‘recalcado’, do ‘não dito’ que permite ‘psicanalisar’ a baixo preço o que deve ser objeto de uma luta. O segredo é talvez mais difícil de revelar que o inconsciente.”

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Fim de semana

Um filme – O lobo atrás da porta, Fernando Coimbra.

Um filme radical – Avanti Popoplo, Michael Wahrmann

Uma experiência radical depois dos jogos – Dogão xédar.

Um livro – F, Antonio Xerxenesky (Rocco, 240 págs.).

Uma instalação – Macalândia, Itaú Cultural.

 

Fim de semana

Uma entrevista sobre a Copa – Juca Kfouri no Roda Viva (http://goo.gl/ASeykC).

Um programa – Extraordinários, Sport TV.

Um documentário – Junho, João Wainer.

Uma exposição – Fabiano Rodrigues, Galeria Logo.

Uma história – A volta de Bill Waterson ao desenho (http://goo.gl/UJ53uT).

Alegria

João Cabral de Melo Neto tinha dores de cabeça constantes e, num poema célebre a respeito, chamou a Aspirina de “o mais prático dos sóis”. Como cada um toma o remédio que precisa e tem o talento que lhe cabe, me resta escrever um texto cheio de citações pedantes sobre o Labirin.

Trata-se do nome comercial do dicloridrato de betaistina, usado para aliviar sintomas de labirintite. Que, por sua vez, é o nome genérico para vários possíveis e específicos problemas do labirinto, órgão interno do ouvido. Tenho tido crises do gênero nos últimos anos, menos ou mais intensas, com diagnóstico até hoje não definitivo. A mais recente e pior delas, da qual já melhorei uns 83%, começou com dias longos de tontura, náuseas, zumbido e dificuldade de equilíbrio.

Publicado na Folha de S.Paulo, 6/6/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um relato – Tostão sobre a final de 1970 (http://goo.gl/EX5jnr).

Um filme – Praia do futuro, Karim Aïnouz.

Um telefilme médio – The normal heart, Ryan Murphy.

Um joelho de porco em Jaraguá do Sul – Parque Malwee.

Um disco antigo – A taste of DNA, DNA.

Egopress

– Nesta quinta, 5/6, às 19h30, estarei na feira do livro de Jaraguá do Sul/SC, organizada por Carlos Henrique Schroeder. Programação completa: http://www.feiradolivro.org/2014/

A maçã envenenada é semifinalista do prêmio Portugal Telecom de Literatura. Demais indicados em romance, conto, crônica e poesia: http://goo.gl/f7riKW

Guerra, homens e animais

Trechos de Guerra aérea e literatura, de W.G. Sebald (Companhia das Letras, 131 páginas), livro que trata do modo como escritores alemães descreveram os bombardeios aliados no fim da Segunda Guerra:

“Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição de uma colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia. Nesses termos, a manutenção da ordem pequeno-burguesa de seguir tomando café nas sacadas de Hamburgo, no final de julho de 1943, tem algo de assustador, absurdo e escandaloso, mais ou menos como os bichos de Grandville, que, vestidos como seres humanos e munidos de talheres, se alimentam de um companheiro da mesma espécie. Por outro lado, a rotina cotidiana que desconsidera as rupturas catastróficas – desde assar um bolo para compor a mesa do café até a persistência dos ritos culturais mais elevados – é o meio mais eficiente e natural de preservar o chamado bom senso. Nesse contexto se insere também o papel desempenhado pela música na evolução e na derrocada do Reich alemão. Sempre que se queira esconjurar a seriedade do momento, convocava-se a grande orquestra, e o regime se locupletava do gesto afirmativo do final sinfônico. Nada mudou quando os tapetes de bombas foram estendidos sobre as cidades alemãs. Alexandre Kluge se recorda da transmissão de Aida pela Rádio Roma na noite anterior ao ataque a Halberstadt. ‘Estamos sentados no quarto do meu pai diante do aparelho de madeira marrom com visor iluminado que indica as emissoras estrangeiras. E ouvimos a música secreta que vem de longe, distorcida, sobreposta ao relato de algo sério que nosso pai resume para nós em alemão. À uma hora os amantes são estrangulados na cripta’. Um sobrevivente conta que, às vésperas do ataque arrasador a Darmstadt, ele ‘ouvira no rádio alguns cantos do mundo sensual do rococó na música encantadora de Strauss.’”

“Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico [de Berlim]. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas.’ (…) Agora encontram-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada dos visitantes (…). Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens (…) rompem com os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror (…) também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso (…). As descrições (…), que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’.”