Michel Laub

Mês: maio, 2015

Fim de semana

Um filme – Mad Max 4, George Miller.

Um personagem do filme – o guitarrista.

Um artigo – Adam Gopnik sobre remuneração no mercado de arte (aqui).

Outro – Eliane Brum e o debate sobre blackface no teatro (aqui).

Um disco – Estratosférica, Gal Costa.

Anúncios

Um clássico das coisas

Num “Roda Viva” recente, Amyr Klink parecia tão entusiasmado ao falar de viagens quanto ao falar sobre design. Faz sentido. A aventura de enfrentar tempestades em alto mar ou conversar com os pinguins na Antártica começa na escolha dos materiais do barco, no projeto que determinará uma jornada estilo Arca de Noé ou Titanic.

É mais comum achar que vivemos cercados de ideias erradas do que de objetos errados. E talvez a verdade seja o oposto, ao menos do ponto de vista mesquinho do dia-a-dia. Dá para evitar discutir a reforma fiscal no buffet por quilo, mas não nos livramos de sentar em cadeiras desconfortáveis, de lidar com embalagens que exigem um plano de engenharia para serem abertas.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 22/05/2015. Íntegra aqui.

Um treinamento para enfrentar a crítica literária

Stephen King em Sobre a escrita (Suma das Letras, 256 páginas, tradução de Michel Teixeira):

“Quando vejo imagens de câmeras escondidas mostrando babás da vida real que, de repente, começam a molestar e bater em crianças, sempre me lembro dos dias com Eula-Beulah (…). Era comum [ela] estar ao telefone, rindo com alguém, e gesticular para que eu me aproximasse. Ela me abraçava, me fazia cócegas até que eu risse e depois, ainda rindo, me dava um cascudo tão forte que eu desabava. Depois me fazia cócegas com os pés descalços até que nós dois ríssemos de novo.

Eula-Beulah era dada a peidos — daqueles barulhentos e fedidos. Às vezes, quando estava atacada, ela me jogava no sofá, colava a bunda coberta por uma saia de lã na minha cara e mandava ver. — Pou! — gritava ela, se divertindo. Era como ser soterrado por fogos de artifício de metano. Eu me lembro da escuridão, da sensação de estar sufocando, e me lembro de gargalhar. Porque, embora aquilo fosse, de certa forma, horrível, também era, de alguma forma, engraçado. De várias maneiras, Eula-Beulah estava me preparando para a crítica literária. Depois que uma babá de 90 quilos peida na sua cara e grita ‘Pou!’, o jornal The Village Voice fica bem menos aterrorizante.”

Fim de semana

Um disco de 2014 – Burn your fire for no witness, Angel Olsen.

Um ensaio de 2014 – Lorenzo Mammi sobre a música e o vinil, na Piauí (aqui).

Uma reportagem de 1983 – Tom Wolfe sobre a criação do Vale do Silício, na Esquire (aqui).

Uma série de fotos de 1880 a 1970 –  Porto Alegre (aqui).

Um filme – Take shelter, Jeff Nichols.

Olho por dente

Diferentemente da imagem que tem hoje, a Lei de Talião foi um avanço no direito penal. Ao menos no da Babilônia do Século 18 a.C.: antes do “olho por olho, dente por dente”, as punições tinham pouco a ver com a gravidade aos crimes. Se alguém roubasse um boi do vizinho, poderia ter a casa incendiada com o rebanho e a família dentro.

Dado o tipo de justiça que anda sendo praticada na Internet, uma versão 2015 do Talião não seria má ideia. Se há algo em falta nas redes sociais, é proporcionalidade. Nos dois sentidos do termo: para alguns notórios políticos e formadores de opinião, nada do que for dito constrangerá uma trajetória de venalidade orgulhosa.

Já para quem tem alguma vergonha na cara, mas erra como qualquer humano, as penas podem ganhar dimensões de Velho Testamento. É sobre esses indivíduos até então anônimos, ou no máximo conhecidos em nichos, que escreve o jornalista britânico Jon Ronson em seu novo livro.

Publicado na Folha de S.Paulo, 8-5-2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Anselm Kiefer, White Cube.

Um filme – O abutre, Dan Gilroy.

Um filme ok – The humbling, Barry Levinson.

Um disco extremo – Bestial burden, Pharmakon.

Um livro – Sobre a escrita, Stephen King (Suma das Letras, 256 págs.).

Conversa com um amigo morto

Michel Houellebecq em Submissão (Alfaguara, 256 págs., tradução de Rosa Freire d’Aguiar):

“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo — por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido. Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros (é estranho que uma condição tão simples, na aparência tão pouco discriminatória, na realidade o seja tanto, e que esse fato evidente, facilmente observável, tenha sido tão pouco explorado pelos filósofos de diversas vertentes: como os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes; porém, não é esta a impressão que dão, com alguns séculos de distância, e é frequente vermos se esfiapar, páginas a fio, que sentimos ditadas mais pelo espírito do tempo do que por uma individualidade própria, um ser incerto, cada vez mais fantasmático e anônimo). Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.”