Michel Laub

Categoria: Outros

Fim de semana

Um disco – Ghosteen, Nick Cave.

Outro – Lúcio Maia.

Um artigo – George Packer sobre Roy Cohn e Trump (aqui)

Um vídeo antigo – Roy Cohn x Gore Vidal (aqui)

Um podcast – Thom Yorke sobre música numa ilha deserta (aqui).

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Fim de semana

Uma exposição – Alfons Mucha, Fiesp.

Um disco – Free, Iggy Pop.

Um espetáculo bem Zé Celso – Roda Viva.

Um livrinho – A Doença e o Tempo, Eduardo Jardim (Bazar do Tempo, 80 págs.).

Um documentário longo – Frank Sinatra, All or Nothing at All.

Fim de semana

Um artigo – a autobiografia de Prince (aqui).

Uma conversa – Sidarta Ribeiro e Bruno Torturra (aqui)

Um disco pop – Norman Fucking Rockwell, Lana Del Rey.

Uma edição – Francisco Alvim, 80 anos (Quelônio, 30 págs.).

Um romance – Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Otessa Moshfegh (Todavia, 240 págs.).

Fim de semana

Um filme – Era uma Vez em Hollywood, Quentin Tarantino.

Um filme com questões – Bacurau, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

Uma exposição no MAR/Rio – Rosana Paulino.

Outra – O Rio dos Navegantes.

Um livro – Cancún, Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 168 págs.).

Fim de semana

Uma exposição – Mulheres no Masp.

Um filme médio – Hotel Mumbai, Anthony Maras.

Uma série – Bandidos na TV.

Uma reportagem – Marie Declercq sobre os incels brasileiros (aqui).

Um romance – Marrom e Amarelo, Paulo Scott (Alfaguara, 158 págs.).

Fim de semana

Um filme – Dor e Glória, Pedro Almodóvar.

Um documentário – George Harrison: Living in the Material World, Martin Scorsese.

Uma série – Years and Years.

Uma entrevista – Henrique Vieira e a tolerância evangélica (aqui).

Um disco – High Highs to Low Lows, Lolo Zouaï.

Liberalismo, tempo e espaço

Ivan Krastev e Stephen Holmes, na Piauí, sobre a escalada do autoritarismo no leste europeu:

“Um dos problemas cruciais do comunismo era o fato de seu ideal ser uma sociedade que jamais existira e que ninguém tinha certeza de que, algum dia, viria a existir. Um dos problemas centrais das revoluções ocidentalizantes, por sua vez, é que o modelo que almejam imitar está em constante transformação. A utopia socialista pode ter sido algo inalcançável, mas ao menos ela possuía uma reconfortante imutabilidade. A democracia liberal ocidental, ao contrário, tem se mostrado mutante e mutável ao extremo. Como a normalidade ocidental é definida não por um ideal, e sim por uma realidade existente, cada mudança nas sociedades ocidentais produz uma nova imagem do que seja normal. Assim como as empresas de tecnologia insistem em que compremos seu modelo mais novo e tornam difícil a confiança no anterior, o Ocidente insistiu em que o único modelo político pós-nacional europeu que valia a pena era o mais recente.

O efeito perturbador de uma “normalidade” fugidia e cambiante pode ser mais bem ilustrado pelo modo como europeus do Leste reagiram às normas culturais em constante mutação nas sociedades ocidentais ao longo das últimas duas décadas. Aos olhos dos poloneses conservadores da época da Guerra Fria, as sociedades ocidentais eram normais porque, ao contrário do que ocorria nos sistemas comunistas, valorizavam a tradição e acreditavam em Deus. Então, de repente, descobriram que a ‘normalidade’ ocidental hoje significa secularismo, multiculturalismo e casamento gay. Será motivo de surpresa que os poloneses e seus vizinhos tenham se sentido ‘enganados’ quando descobriram que a sociedade que queriam imitar tinha desaparecido, levada pela correnteza veloz da modernização?

Se, imediatamente após os acontecimentos de 1989, a ‘normalidade’ era entendida em termos políticos (eleições livres, separação dos poderes, propriedade privada e direito de ir e vir), ao longo da última década passou a ser cada vez mais interpretada em termos culturais. Como consequência disso, a Europa do Leste está se tornando mais desconfiadas das normas, agora ofensivas, provenientes do Ocidente. Ironicamente (…), está começando a se ver como o último bastião dos valores genuinamente europeus.

Com o intuito de reconciliar a ideia do ‘normal’ (no sentido daquilo que é disseminado) com o que é norma obrigatória nos países que almejam imitar, os europeus orientais começaram a, consciente ou inconscientemente, ‘normalizar’ os países que tomam como modelo, argumentando que o que é disseminado no Leste prevalece também no Oeste, embora os ocidentais, hipócritas, finjam que suas sociedades são diferentes. Com frequência, os europeus orientais atenuam sua dissonância normativa – entre, digamos, pagar suborno para sobreviver no Leste e combater a corrupção para serem aceitos pelo Ocidente – concluindo que o Ocidente, na verdade, é tão corrupto quanto o Leste, só que os ocidentais simplesmente se recusam a admiti-lo, escondendo a verdade.

Jamais se pensou numa revolução liberal da normalidade como um salto no tempo – de um passado sombrio rumo a um futuro radiante. Em vez disso, a revolução era imaginada como um movimento através do espaço físico, como se todo o Leste Europeu fosse ser transferido para a Europa Ocidental, antes conhecida apenas de fotografias e filmes. Analogias explícitas foram traçadas entre a Reunificação da Alemanha, após a queda do Muro de Berlim, e a ideia de uma Europa unificada. No começo da década de 90, muitos europeus orientais de fato ardiam de inveja dos alemães orientais, incrivelmente sortudos. Da noite para o dia, haviam passado coletivamente para o Ocidente e, por milagre, acordado com passaportes alemães ocidentais nas mãos e com as carteiras cheias (pensavam alguns) de marcos ocidentais nos bolsos. Se a revolução de 1989 era uma migração regional rumo ao Ocidente, então a questão central era saber que países do Leste Europeu chegariam primeiro a seu destino comum.”

Fim de semana

Um depoimento – Arthur Nestrovski sobre João Gilberto (aqui).

Uma exposição no IMS – Sergio Larrain

Outra – Letizia Battaglia.

Uma reportagem – O racismo nas conversas de Reagan e Nixon (aqui).

Um romance – Serotonina, Michel Houellebecq (Alfaguara, 240 págs.).

Fim de semana

Um podcast – Canudos e Euclides da Cunha (aqui).

Um ensaio – Jean-Claude Bernardet e o câncer (aqui).

Um depoimento – Ian Patterson e a bibliofilia (aqui).

Um artigo – Shannon Palus e os avisos de gatilho (aqui).

Um filme – Nico, 1988, Susanna Nicchiarelli.

Fim de semana

Uma nova edição – Coração das Trevas, Joseph Conrad (Ubu, 224 págs.).

Uma fala/leitura – Susan Sontag sobre expressão pessoal e dor (aqui).

Um documentário – DeFalla – Sobre Amanhã, Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento (aqui).

Um filme ok – Rocket Man, Dexter Fletcher

Um disco de covers – California Son, Morrissey.

Fim de semana

Um ensaio – David Wallace-Wells e o fim do mundo (aqui).

Uma reportagem – William Langewiesche e o fim de um voo (aqui).

Um disco – Father of the Bride, Vampire Weekend.

Um documentário simpático – Alceu Valença na Embolada do Tempo, Paola Vieira.

Um filme médio – Us, Jordan Peele.

Fim de semana

Um documentário – Teenage, Matt Wolf.

Um filme inusitado – As Boas Maneiras, Juliana Rojas/Marco Dutra.

Um disco – Anima, Thom Yorke.

Um ensaio fotográfico – Frances F. Denny  e as bruxas (aqui).

Uma releitura – O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger (Todavia, 456 págs.).

O coro do Apocalipse

“Em apenas uma noite (…) demos um salto para uma realidade (…) acima do nosso saber e da nossa imaginação”, escreve a jornalista e prêmio Nobel de literatura Svetlana Aleksiévitch, referindo-se à explosão de um reator nuclear na usina de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986. “Nas altas esferas, decisões eram tomadas (…), os helicópteros subiam aos céus, uma enorme quantidade de caminhões militares se deslocava pelas estradas; embaixo, esperavam-se as ordens e (…) vivia-se de rumores, mas todos guardavam silêncio sobre o principal: o que de fato havia acontecido?”

A pergunta resume duas dificuldades que o acidente impôs à memória de quem sobreviveu. A primeira foi que, dada a censura imposta pelo governo soviético, que então controlava a Ucrânia e outras catorze repúblicas, demorou-se muito a ter informações confiáveis sobre o tamanho físico e simbólico do estrago. Chernobyl não foi apenas um dos maiores desastres do Século XX – também foi o início da queda de um império, a evidência de sua precariedade tecnológica e caos administrativo.

Em termos imediatos, a devastação estabeleceu cadeias de causa e efeito, responsabilidades individuais e difusas que não são estranhas às narrativas de guerras e catástrofes. Chernobyl, a boa série que recentemente fez sucesso no canal HBO, a par das discussões sobre a acuidade de sua reconstituição de época, foca nesse universo político e moral – os embates entre ideologia e conhecimento, o custo humano das grandes ideias diante da inflexibilidade da física, da química, da biologia.

Já Svetlana parece preocupada com outra dimensão. Seu Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 384 págs., tradução de Sonia Branco), que serviu de base para uma parte não creditada da série, dá conta da segunda dificuldade de quem relata o trauma daquele 26 de abril: o fato de que determinadas lembranças se situam ao mesmo tempo abaixo e acima do grande radar da história. Nesse registro impressionista, necessariamente singular, encontra-se a perplexidade do que a autora chamou de “ser humano no cosmo.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/6/2019. Íntegra aqui, para assinantes e cadastrados.

Fim de semana

Um livro – Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 384 págs.).

Uma reportagem – Como os algoritmos fazem os radicais de YouTube (aqui).

Uma exposição – Acervo em Transformação, MASP.

Um documentário sobre John Lennon – Só o Céu como Testemunha, Michael Epstein.

Um (não) documentário sobre Bob Dylan – Rolling Thunder Review, Martin Scorsese.

 

Fim de semana

Um relançamento – A Promessa/A Pane, Friedrich Dürrenmatt (Estação Liberdade, 224 págs.).

Uma série média – O Assassinato de Gianni Versace.

Um filme médio – 22 July, Paul Greengrass.

Um no máximo médio – Lords of Chaos, Jonas Akerlund.

Um documentário – Meet the Night Runners (aqui).

Fim de semana

Um romance – O Inferno dos Outros, David Grossman (Companhia das Letras, 208 págs.).

Uma reportagem – Rebecca Mead e a invasão do Airbnb em Barcelona (aqui).

Um disco – Remind me Tomorrow, Sharon Van Etten.

Um filme – The Mule, Clint Eastwood.

Um documentário – Andre the Giant, Jason Hehir.

Fim de semana

Uma série – Chernobyl.

Uma exposição – Leonilson, Fiesp.

Um livro – Entre Nós, diálogos com Philip Roth (Companhia das Letras, 176 págs.).

Um relato – Guinevere Turner e a infância num culto (aqui).

Um disco – Roberto Carlos por Nando Reis.

Fim de semana

Um filme – Border, Ali Abbassi.

Uma exposição no MASP – Tarsila do Amaral.

Outra – Djanira.

Um perfil – Dexter Filkins sobre John Bolton (aqui).

Uma montagem – Uísque e Vergonha, Juliana Frank/Michelle Ferreira/Nelson Baskerville.

Anticorpos contra a má fé

Ainda se faz grande jornalismo por aí, e na essência ele continua o mesmo. O que mudou foi o modo como as notícias são consumidas: na esteira da eleição de Trump, Bolsonaro e seus colegas populistas e autoritários mundo afora, já virou clichê falar da crise da informação diante do reinado da opinião e da propaganda.

É com algum sentido histórico, portanto, que lemos “Repórter”, as memórias do jornalista americano Seymour M. Hersh (Todavia, 384 págs, tradução de Antônio Xerxenesky). Em vários aspectos, trata-se de um documento sobre o que o autor chama de “era de ouro” – pré-redes sociais, em alguns casos pré-onipresença televisiva, quando as mentiras de governos, corporações e outras instâncias de poder eram combatidas com o simples relato dos fatos.

Antes de mais nada, o livro é um depoimento sobre a carpintaria e os dilemas éticos do ofício que tornou esse combate possível. Hersh fala de técnicas de apuração, das relações delicadas com fontes, da busca sempre acidentada por documentos e pessoas que confirmem histórias difíceis. Suas credenciais para a empreitada falam por si: entre outros furos, foi ele que revelou o massacre de civis por soldados em My Lai, durante a guerra do Vietnã, em 1968; a espionagem da CIA contra seus próprios cidadãos, sob a complacência dos governos Johnson e Nixon, nos anos 1960/1970; e as torturas sofridas por prisioneiros em Abu-Ghraib, na sequência da invasão do Iraque, em 2003.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 10/5/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma entrevista – Antunes Filho, 1998 (aqui).

Outra – Paulo Pachá sobre a Idade Média e o bolsonarismo (aqui).

Uma terceira – Henrique Carneiro sobre a história das drogas (aqui).

Um livro – Cat Person, Kristen Roupenian (Companhia das Letras, 256 págs.).

Um Filme – A Noite de Doze Anos, Álvaro Brechner.

Fim de semana

Uma exposição – Regina Parra, Anexo Millan.

Um documentário – Tunga, Miguel de Almeida.

Um relato – Colm Tóibín sobre o câncer (aqui).

Um ensaio – Joca Terron sobre John Frankenheimer e a meia-idade (aqui).

Um livro – Escrever Ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 394 págs.).

Sobre decoro e loucura

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”

Fim de semana

Um livro – Repórter, Seymour Hersh (Todavia, 382 págs.).

Outro – A Morte da Verdade, Michiku Kakutani (Intrínseca, 272 págs.).

Uma entrevista de 1973 – Hannah Arendt (aqui).

Uma de 1999 – Roberto Bolaño (aqui)

Uma exposição – Marc Ferrez, IMS.

Fim de semana

Um artigo – Janna Levin sobre a foto do buraco negro (aqui).

Um ensaio – César Aira sobre o gênero ensaio na Serrote 30.

Uma cinebio okzinha – Egon Schiele, Dieter Berner.

Uma adaptação okzinha – On Chesil Beach, Dominic Cooke.

Uma exposição – Marcia Ribeiro, Casa da Luz.

Fim de semana

Um disco – Westkust, Westkust.

Uma feira (para ryco) – SP Arte.

Um western – Rastro de Maldade, S. Craig Zahler.

Um filme farofa – The Dirt, Jeff Treimane.

Um livro – A Literatura Nazista na América, Roberto Bolaño (Companhia das Letras, 237 págs.).

Fim de semana

Uma exposição – Paul Klee, CCBB.

Uma reportagem – John Lee Anderson sobre Bolsonaro (aqui).

Um podcast – Paulo Henriques Britto sobre O Corvo (aqui).

Um ensaio – Lorenzo Mammì sobre Renoir, Proust e o nazismo (aqui).

Um filme – Culpa, Gustav Möller.

Fim de semana

Um filme – Imagem e Palavra, Jean-Luc Godard.

Outro – Can You Forgive Me?, Marielle Heller.

Uma série – After Life, Ricky Gervais.

Dois blocos de aço – Richard Serra, IMS.

Um livro – Verifique se o Mesmo, Nuno Ramos (Todavia, 304 págs.).

Os que não foram convidados

Dos anos 1930 aos 1960, o americano Joseph Mitchell renovou o jornalismo moderno ao escrever sobre pessoas comuns – ou bastante incomuns, mas anônimas – em longos perfis para a revista The New Yorker. Seu trabalho mais conhecido, O Segredo de Joe Gould (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), é composto por dois desses perfis. O primeiro, de 1942, trata de um mendigo formado em Harvard que dizia estar escrevendo a “História Oral” da humanidade, livro “onze vezes maior que a Bíblia” sobre “o que o povo tem a declarar sobre seus empregos, amores, comidas, pileques, problemas, tristezas”. No segundo, de 1964, Mitchell retoma os bastidores da reportagem para contar o fato mais importante da vida de Gould, descoberto só depois que a revista havia chegado às bancas.

O projeto da “História Oral”, como se sabe, acabou sendo realizado por outros anônimos do século seguinte: os bilhões de pessoas que passaram a depositar suas intimidades relevantes e irrelevantes nas redes sociais. Já o caminho indicado por Mitchell deu e dá frutos no melhor que o perfil jornalístico ainda tem a oferecer. Um exemplo recente, e curiosamente semelhante no caráter duplo da empreitada – duas grandes reportagens, a última a partir de informações que surgiram por causa da publicação da primeira –, é Ricardo e Vânia, livro de Chico Felitti escrito a partir de uma apuração em conjunto com sua mãe, Isabel Dias, e que acaba de sair pela Todavia.

Não se trata de uma comparação de estilo. O Segredo de Joe Gould e Ricardo e Vânia são textos de épocas diversas, com noções de originalidade e impacto literário diversas diante de públicos também diversos. Mitchell podia se dar ao luxo da lentidão, digamos assim, pois contava com um leitor disposto a destrinchar com paciência as sutilezas de sua prosa – o ritmo elegante que alterna descrições sumárias e detalhadas, drama contido e humor terno, punch lines espirituosos e longas aspas (hoje fora de uso porque soam inverossímeis) dos entrevistados. Felitti, por sua vez, escreve com mais urgência: há todo um diálogo entre a economia de atenção dos nossos dias e a quebra de seus parágrafos, por exemplo, cuja frequência alta torna a respiração do texto mais curta, familiar a um mundo em que a não-ficção precisa ser mais objetiva, ou gritar mais nas escolhas temáticas e de ponto de vista, para se destacar da infinita concorrência de narrativas ao redor.

Num nível menos formal, contudo, o que os dois livros têm em comum começa pelo respeito ao material humano que os compõe, algo visível no tempo que os autores dedicam a ouvir, fazer visitas, ir atrás de informações que parecem (e não são) meros detalhes. Há um sentido político nesse método, o de dar aos personagens a melhor chance de serem o que a pintora Sarah Berman enxergou em Joe Gould: uma espécie de “inconsciente” das sociedades que os abrigam a contragosto, a voz através da qual falam os que “nunca pertenceram a lugar nenhum”, os “magoados, amargos, loucos – gente que nunca recebeu seu quinhão (…), que nunca foi convidada.”

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 15/3/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.

Fim de semana

Uma releitura – O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Companhia das Letras, 158 págs.)

Um filme ruim – The Green Book, Peter Farrelly.

Outro – Velvet Buzzshow, Dan Gilroy.

Um disco – Crushing, Julia Jacklin.

Um podcast de 2018 – João Silvério Trevisan e a história LGBTQ no Brasil (aqui).

Fim de semana

Um livro – Ricardo e Vânia, Chico Felitti (Todavia, 191 págs.).

Um filme – Brexit: the Uncivil War, Toby Haynes.

Um disco – Besta Fera, Jards Macalé.

Um disco de 2007 – The Glenn Gould Trilogy: a Life.

Um podcast – Wanderley Mendonça e João Varella no Tutano.