Michel Laub

Categoria: Outros

Fim de semana

Um texto – Bolsonaro e os judeus, por Fábio Zuker e Pedro Beresin (aqui).

Uma entrevista – Rosa Freire Aguiar sobre Celso Furtado (aqui).

Uma conversa – Luís Augusto Fischer e Nelson Coelho de Castro (aqui).

Um disco lançado agora – Umbigos Modernos (1988), Nelson Coelho de Castro.

Um romance – O Riso dos Ratos, Joca Reiners Terron (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um disco – Convocations, Sufjan Stevens.

Um museu em Berlim – Humboldt Forum.

Um livro – A Vida dos Outros e a Minha, Claudia Cavalcanti (Cultura e Barbárie, 112 págs.).

Um texto – Leonardo Padura sobre Cuba (aqui)

Uma entrevista – Ana Penido e Suzeley Kalil sobre o Partido Militar (aqui).

Fim de semana

Uma distopia – O Último Gozo do Mundo, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um museu em Dresden – Albertinum.

Outro – Residenzschloss.

Um terceiro – Japanisches Palais.

Um filme – Shiva Baby, Emma Seligman.

Fim de semana

Um perfil – Júlio Lancellotti por Angélica Santa Cruz (aqui).

Um romance – O Deus das Avencas, Daniel Galera (Companhia das Letras, 177 págs.).

Uma exposição em Berlim – Loie Hollowell, König Galerie.

Outra – Marc Bauer, Berlinische Galerie.

Uma série média – Morte em Vermelho.

Fim de semana

Um livro – Risque Esta Palavra, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um texto – Otavio Frias Filho sobre Janet Malcolm (aqui).

Outro – Emilio Fraia sobre Juan Carlos Onetti e Michel Leiris (aqui).

Uma série bem Fassbinder – Berlin Alexanderplatz.

Uma bem sala de roteiro – Mare of Easttown.

Riso e horror no espelho

Um dos melhores romances do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) fala de um sujeito chamado Reger, que há trinta anos cumpre o mesmo ritual: “a cada dois dias, com exceção das segundas”, postar-se por uma hora diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, numa sala de um museu em Viena. A história é hilária não pelo que (não) acontece, e sim pelo modo como é narrada por um amigo do protagonista, Atzbacher: sua voz imita a de Regel xingando os alvos mais diversos da cultura de sua época, num monólogo reiterativo e exuberante tipicamente bernhardiano (Old Masters, The University of Chicago Press, 156 págs., tradução para o inglês de Ewald Osers).

Numa análise rápida, dá para dizer que o livro fala de muitas coisas, mas não do próprio Homem de Barba Branca. A pintura é apenas um nome citado de passagem aqui e ali. A biografia e as questões formais que preocuparam Tintoretto são tópicos ignorados. Em vez disso, a apreciação estética no discurso de Reger/Atzenbacher tem um tom radicalmente generalizante: “Os historiadores da arte são os verdadeiros assassinos da arte”; “O negócio dos historiadores da arte é o mais vil dos negócios”; “Um historiador de arte tagarela, e só há historiadores da arte tagarelas, deve ser expulso do mundo da arte a chicotadas.” Na moral convicta dessa voz, que é a moral irônica de Bernhard, a hipocrisia e obtusidade do mundo moderno desvirtuariam uma espécie de ideal – a verdade que pode estar num livro, numa peça de música, numa tela.

O que Reger vê no museu, contudo, e sem comunicar isso a Atzbacher, que por sua vez não comunica ao leitor, talvez seja a representação possível dessa verdade. A obra de Tintoretto funciona no livro como referência quase subliminar, o ponto na comparação com o qual se degrada a cultura que Bernhard satiriza. Não sei por que Homem de Barba Branca foi usado como mote de Old Masters, mas a razão poderia ser até literal: afinal, o que mais chama a atenção no quadro pintado pelo italiano são os olhos do retratado. Por causa da severidade deles, da assertividade inegociável com que eles conduzem e fixam nossa atenção, esta imagem de 1545 jamais foi nem será passiva. Olhar para ela traz sempre um incômodo: nos tornamos também objeto de escrutínio, assim como a sociedade da qual fazemos parte, do mesmo modo que acontece – bingo – ao lermos romances como os de Thomas Bernhard.

Trecho inicial de texto sobre Bernhard, Gerhard Richter e o nazismo, publicado no Valor Econômico, 18.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série – Babylon Berlin.

Uma exposição em Berlim – Yael Bartana no Museu Judaico.

Uma entrevista – Marcos Nobre sobre Bolsonaro 2022 (aqui).

Um programa – Netanyahu x Israel, no The Daily.

Um filme de 1988 – Chocolat, Claire Denis.

Alemão aos oitoequarenta

Meu pai era de Berlim. Nasceu em 1930 e saiu pouco antes da Segunda Guerra, num daqueles últimos navios que serviram de fuga aos judeus. Durante uns bons 30 anos, ele manteve com a Alemanha uma relação desconfiada por motivos óbvios, e só foi se reconciliar com as próprias origens em algum ponto dos anos 1970 – quando a situação financeira lhe permitiu fazer a primeira das muitas viagens que faria à terra natal até morrer, em 2010.

Conto essa história porque em 1994 apresentei meu pai a um amigo de Hamburgo, e os dois conversaram no idioma que acabei não aprendendo na infância (um pouco, quem sabe, por causa dessa desconfiança familiar) e nem mais tarde (aí por preguiça mesmo). Esse amigo comentou depois: “Seu pai fala um alemão que não existe mais”. De fato: a exemplo da Berlim e do mundo dos anos 1930, certos detalhes do vocabulário e da prosódia usada na época viraram ruínas – persistindo apenas na memória de quem não teve contato com as mudanças na expressão oral corrente do país ao longo das décadas.

Gosto de pensar na língua como uma espécie de museu. Transportando o exemplo para o português, é nele que ainda estão gírias de época, antigos bordões de novelas, apelidos usados por casais que deixaram de se ver. No meu caso, e em vários sentidos, a Porto Alegre onde fui criado e de onde saí há quase vinte e cinco anos – a evocação de suas pessoas, lugares, fatos – sobrevive em determinadas expressões, determinadas sílabas de um sotaque que só à distância aprendi a identificar com clareza.

A imagem do museu, contudo, refere-se ao que essa instituição passou a ser em décadas recentes: não apenas um guardião do passado, mas um instrumento capaz de reinventar a história sobre a qual se debruça, discutindo suas repercussões na vida dos que foram e serão tocados por ela. É uma operação que também aponta para o futuro: é na língua que começam debates sobre certas heranças da barbárie – em termos como “mulato” ou “judiação” –, sobre vieses políticos – chamar alguém de “manifestante” ou “vândalo”, de “combatente” ou “terrorista” – a serem ou não reproduzidos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 4.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – O Último Processo de Kafka, Benjamin Balint (Arquipélago, 272 págs.).

Um capítulo de livro – Isabel Wilkerson sobre os EUA e o nazismo (aqui).

Um podcast – Lawrence da Arábia no História FM.

Uma exposição em Berlim – Gerhard Richter na Alte Nationalgalerie.

Outra – Gerhard Richter na Max Liebermann Haus.

Arquitetura, inteligência e desastre

Entrevista que fiz com Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) para a revista Bravo, edição de setembro de 2003:

O que a arquitetura pode fazer diante do caos contemporâneo?

Se você pensar na África e em outros lugares, o problema é muito mais social que arquitetônico, evidentemente. Só que eu digo que a arquitetura pode resolver os problemas como forma de abrir a discussão. Essa questão encerra o conflito básico dos dias de hoje, a inteligência contra a estupidez, contra a “rota do desastre”. Há muito engano quando se diz que a arquitetura pretende fazer isso ou aquilo. Na verdade, ela vem, desde a origem do homem, numa posição de resolver problemas. Ocorre que os “problemas” não existem previamente: eles são criados. O homem acrescenta a ideia de desejo às suas necessidades básicas, e a arquitetura é o sucesso da realização de desejos. O que nós estamos vendo no mundo de hoje é a degenerescência, mas ela só pode surgir a partir do que é bom. Há a especulação imobiliária, que é negativa, mas ela parte do edifício vertical, uma maravilha de êxito humano, do ponto de vista da mecânica dos fluidos, sólidos etc. É maravilhoso você poder abrir uma torneirinha no 15º andar em Copacabana e lavar roupa, enquanto suas crianças tomam banho de mar a um quarteirão de distância.

A existência do caos se deve ao progresso, no bom sentido?

Sim, são os contratempos que o homem sempre enfrentou entre êxito e degenerescência. Claro que pode ser o desastre final, como no caso da energia atômica, coisas assim. Temos de ser cuidadosos. Mas pode -se ainda ter esperança de algum consenso pra corrigir esta rota do desastre. A ideia da ecologia, por exemplo, gera a noção de futuro, porque é uma ideia popular de consciência sobre a natureza. Nós não estamos aqui para nenhuma missão extraordinária que não seja possibilitar a permanência do ser humano no universo.

O conceito de arquitetura como algo que deva resolver os problemas está errado? A arquitetura deve se preocupar em planejar algo novo ou trabalhar sobre o que já existe?

O conceito está certo. É tudo o que temos. A arquitetura navega no âmbito da política. A ideia de uma justa urbanização, de organização dos homens nesse desejo da cidade contemporânea, não pode ser concretizada se não for planejando, experimentando, acertando e errando para fazer algo que possa ser exitoso. O que já existe deve ser tomado como experiência. É o caso dessa história de “reviver” os centros. Mas por que eles devem ser “revividos”, se ali está a matriz, a base? O centro deveria ser a suprema experiência do êxito. E de fato é, porque ali estão concentradas as melhores instalações de água, esgoto, telefonia, transporte etc. O centro é abandonado por uma rejeição da própria cidade — que, ao surgir, é democrática. Se você deitar numa calçada do centro por 15 minutos, ninguém vai importuná-lo. Tente fazer isso num bairro rico, e um jagunço logo estará no seu encalço. A cidade é um desenho que existe na cabeça do homem antes de sua concretização. Portanto, ela pode ser justamente projetada. Essa expectativa de êxito da técnica, da ciência e das artes a um tempo só, e isso é arquitetura, é perfeitamente plausível. Tanto que há exemplos banais de mais ou menos êxito. Para ficarmos em São Paulo, na avenida Paulista a melhor quadra é a do (centro comercial) Conjunto Nacional. É a única em que você não encontra automóvel saindo na calçada — eles saem pela rua secundária. É bastante simples, uma questão de disposição espacial. O Conjunto Nacional é misto, ficaram escritórios e habitações, e ali há comércio e metrô. Então, é possível. Mas é preciso um grande consenso. O urbanismo é menos coisa feita do que associação de homens.

Quem está pensando a arquitetura hoje?

O mundo inteiro. A ideia de revitalização das áreas centrais é mundial, e também pode se degenerar por causa da visão ideológica de certos valores de nossa existência. Por exemplo, a cultura. Fazendo uma caricatura, a cultura ficou como uma ideia de vaguidão específica. Fazem- se centros culturais, e ninguém sabe o que eles são. E ao mesmo tempo é uma batalha conseguir uma sede adequada para um corpo de baile da cidade, para a orquestra sinfônica. Esses centros não são genéricos, são especificamente dirigidos a uma parte da população. Pegar a sede de um banco, por exemplo, e transformar em centro cultural é absurdo. Era melhor que o banco continuasse banco, e que você construísse o adequado centro cultural. Você deixa de inventar para construir de forma indevida. Não dá pra generalizar tudo: antigos armazéns industriais podem virar ótimos pavilhões artísticos etc. Só que também não se deve generalizar para o outro lado, no sentido de que esses projetos sejam sempre “bons”.

Você fala de motivação ideológica. Existem a esquerda e a direita na arquitetura?

O que talvez mais caracterize essa separação é a exclusão: alimentar a ideia de bairros exclusivamente assim ou assado; você desenvolver de modo exacerbado, como elemento de exclusão, a ideia da insegurança ou da violência, como se ela pudesse ser resolvida apenas pela repressão. A cidade é feita com casas. Só a exclusão da moradia simples, popular, das áreas centrais já é um absurdo. O prédio Copan, em São Paulo, é um exemplo lindo de uma perspectiva de novos espaços realizados no centro da cidade. Há apartamentos de 50 m2, de 100 m2. Não é o pequeno que caracteriza a pobreza: você pode ser sozinho e viver muito bem num apartamento de 50 m2. Pode ser o primeiro violoncelista da Orquestra Sinfônica e ir a pé para o trabalho. Ter a coragem de ver na pobreza aspectos invejáveis de liberdade, por exemplo, de independência em relação à propriedade. A propriedade pode ser, hoje, um grande absurdo. A ideia de comprar um pedaço do território do planeta é um pouco absurda. Você vive na cidade. A parte pública deveria ser muito mais a sua casa do que esse espaçozinho, cuja imagem querem vender ao pobre como algo ideal, um índice de felicidade que deve ser perseguido.

Quais são os inimigos dessa vida pública? O que impede as pessoas de aproveitar mais a vida fora de casa?

Tenho impressão de que é a falta de curiosidade para saber como funcionam as coisas do mundo. A conversa, o bar, o botequim, o cinema, o teatro, o jornalismo são as principais riquezas que a cidade tem a oferecer — ela mesma como a grande universidade do conhecimento.

Como a arquitetura entra aí?

A arquitetura deseja construir essa cidade que é tecnicamente rigorosa, para que o prédio não caia e o sistema de transporte funcione, mas que não quer subordinar a vida de ninguém a nenhuma disciplina. Muito pelo contrário. Essa excelência técnica é para possibilitar uma espacialidade que torne possível a imprevisibilidade da vida, da liberdade de cada um.

A relação entre arquitetura e Estado tem funcionado?

Em geral, muito pouco.

E com a iniciativa privada?

Não gosto de dividir as coisas entre Estado e iniciativa privada. Esses cortes são esquizofrênicos, porque é impossível abolir o privado, e improvável que o mundo ande apenas pelas iniciativas privadas. Essa iniciativa surge por sedução de projetos que não são dessa esfera — na telefonia, na comunicação etc. Ninguém “privado” inventou o transporte; a ideia é pública. Essa divisão, do modo como é explorada hoje, para cristalizar ideologicamente, é tola.

Da época em que você começou a dar aula até hoje, como a ideia do que seria bom para a cidade evoluiu na universidade?

Houve até uma sadia atualização, e no mundo inteiro. Essa questão é muito interessante para nós, da América. Na Europa, de modo geral, passou-se por um processo de reconsideração urgente da questão porque eles estavam reconstruindo cidades bombardeadas. E nós, que não tivemos guerra, tivemos e temos que construir cidades na natureza, que não existiam e não existem. É um contraponto que nos dá uma importância muito grande no plano do conhecimento universal. O prestígio que a arquitetura brasileira tem no mundo talvez venha muito daí, da manifestação que expusemos da consciência de fundar cidades na natureza. E não é só Brasília: há Maringá, Londrina, Belo Horizonte. Elas não são maravilhas por si só, mas, como tentativas, são. Porque são experimentações, e são melhores que as outras, mesmo que já estejam ficando degeneradas. A visão de que tínhamos e teremos como fundar cidades, da maneira como queremos, fora das construções coloniais, é belíssima. E também a de São Paulo como algo que tem de ser feito e refeito sobre si mesma é interessante.

E como deveria ser a cidade do futuro?

É impossível saber, mas, como exercício, eu diria que o parâmetro seria a tranquilidade das pessoas. A aflição liquida com a liberdade e a capacidade criativa do homem. Por que se põe a população pobre na periferia? Para que ela não tenha tempo para nada. O tempo livre ela gasta em transporte, no cuidado com a saúde dos filhos etc. A cidade feliz apaziguaria esses problemas, que são frutos de uma mecânica. O transporte público, por exemplo, é fundamental. O automóvel teria de ser abolido como transporte principal. Você pode imaginar um pronto-socorro sobre rodas, mas não o transporte de cada um. Ele é uma estupidez. E o homem que assiste à própria estupidez é um homem que tende rapidamente à degenerescência. O transporte público será um prazer para o homem, que poderá ler o seu jornal, que poderá até perder o próximo trem, porque haverá vários em intervalos pequenos, poderá tomar uma cerveja com um amigo. Isso faz um novo cidadão. Um homem senhor de seus tempos de vida, de seus minutos. Não será mais questão de perguntar “o que você fez nos últimos dez anos”, e sim “o que você fez nos últimos dez minutos”.

Fim de semana

            Uma visita guiada – Alice Neel no Met (aqui)

            Um romance – O som do Rugido da Onça, Micheliny Verunschk (Companhia das Letras, 168 págs.).

            Uma releitura – Meu Tio o Iauretê, Guimarães Rosa.

            Um artigo – Marcos Nogueira sobre os cozinheiros dos ditadores, na Piauí.

            Um podcast – Michel Gherman sobre antissemitismo, no Afinidades Eletivas.

Fim de semana

Um texto – Arthur Nestrovski sobre a OSESP na Pandemia (aqui).

Uma reportagem – O Humboldt Forum e a arte colonial (aqui).

Um artigo que se desmente – Por que aprender alemão não é tão difícil (aqui)

Um filme médio – Suprema, Mimi Leder.

Uma reprise – Fausto, Alexandr Sokurov.

Fim de semana

Um debate – Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Eduardo Escorel sobre Shoah (aqui).

Outro – Ariella Azoulay e Lilia Schwarcz sobre fotografia (aqui).

Um disco ­– As the Love Continues, Mogwai

Um filme – Nomadland, Chloé Zaho.

Um filme legalzinho – Father, Florian Zeller.

Fim de semana

Um texto – Adam Grant sobre a pré-depressão da pandemia (aqui)

Um vídeo – Triple Chaser, Forensic Architecture (aqui).

Um documentário – Alvorada, Anna Muylaert e Lô Politi

Um livro – Cinema e Política, Paulo Emilio Salles Gomes (Penguin, 152 págs.).

Uma série em podcast – Escritores/as e personagens, Itaú Cultural.

Fim de semana

Um disco – G_d’s Pee AT STATE’S END!, God Speed You! Black Emperor.

Outro – Kids, Noga Erez.

Um documentário ok – Marginal Alado, Felipe Novaes.

Um podcast – Caminhando com Leonardo Fróes, 451.

Um livro – O Ar que me Falta, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras, 200 págs.).

Fim de semana

Um texto – Kathryn Schulz sobre animais e orientação (aqui).

Outro – Alvaro Costa e Silva sobre Asfalto Selvagem (aqui).

Um livro curioso – Of Walking in Ice, Werner Herzog (Penguin, 67 págs.).

Uma graphic novel – Guarda Lunar, Tom Gauld (Todavia, 96 págs.).

Uma reprise – Mephisto, István Szabó.

Fim de semana

Um podcast – Wind of Change, Patrick Radden Keefe.

Um documentário simpático – Daguerréotypes, Agnés Varda.

Um disco – Carnage, Nick Cave.

Um artigo – Richard Brody sobre Claude Lanzman (aqui)

Um romance – Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.).

Fim de semana

Uma série – Doutor Castor, Marco Antônio Araújo.

Um documentário – Fassbinder, Annekatrin Hendel.

Um ensaio – Karl Ove Knausgaard sobre editores, na Piauí.

Uma memória – Abandonar um Gato, Haruki Murakami (aqui).

Uma série em podcast – Técnicos, Luciano Potter e Rafael Divério.

Fim de semana

Um documentário – Zappa, Alex Winter.

Um documentário em duas partes – Philip Roth Unleashed, Sarah Aspinall (aqui).

Um debate – Ciro Gomes x André Lara Resende (aqui).

Um romance – Os Tais Caquinhos, Natércia Pontes (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um ensaio – Colin Vanderburg sobre rock e cultura negra (aqui).

Fim de semana

Um artigo – Kathleen Meaney sobre arte africana e design (aqui).

Uma história – David Markson x Don DeLillo (a partir de 22:15, aqui).

Um romance curioso – The Silence, Don DeLillo (Scribner, 128 págs.).

Uma entrevista – Brizola, 1980 (aqui).

Um filme – Relatos do Mundo, Paul Greengrass.

O jogo do futuro

Numa passagem de O Filho Eterno, romance autobiográfico sobre o pai de um portador da Síndrome de Down (Record, 222 págs.), o narrador de Cristovão Tezza conta como enxergou um ponto de maturidade possível numa criança que parecia viver um presente contínuo e circular. “O menino sente muita dificuldade para aceitar mudanças de rotina”, diz ele, que trata a si mesmo na terceira pessoa. “O pai terá de obrigá-lo a assistir a algo novo (…) até que descubra que a novidade pode ser interessante.”

Nesse universo repetitivo e por vezes árduo, o filho acaba descobrindo um estímulo inusitado no futebol. Torcer pelo Athletico-PR traz vantagens, entre elas a chance de socializar com outros torcedores e um esboço de aprendizado de leitura – ele consegue reconhecer nomes de times, digitá-los para baixar os hinos em mp3. A maior mudança, contudo, vem da relação que o esporte tem com o tempo, uma abstração que para o personagem era inatingível até aquele momento: “As partidas (…) já não são mais eventos avulsos, sem relação entre si; pela noção de torneio, finalmente a ideia de calendário entra na sua cabeça; como na Bíblia, o mundo se divide entre partes que se sucedem até a Batalha Final”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 16/10/2020. Íntegra aqui.

Algo que não foi feito ainda

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro “Verdade Tropical” (1997). Um de seus capítulos, “Narciso em Férias”, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 13/11/2020. Íntegra aqui.

Ordem à bala

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – The Death of Jesus, JM Coetzee (Vintage, 199 págs.).

Uma releitura – 234, Dalton Trevisan (Record, 128 págs.).

Um artigo – Rebecca Mead sobre Artemisa Gentileschi (aqui)

Um filme – Babenco, Barbara Paz.

Um disco – Vida Amorosa que Segue, Lulina.

Fim de semana

Um livro – A República das Milícias, Bruno Paes Manso (Todavia, 298 págs.).

Uma releitura – Narciso em Férias, Caetano Veloso (Companhia das Letras, 168 págs.).

Um artigo – Casey Cep sobre Faulkner e racismo (aqui).

Uma entrevista – Benjamin Teitelbaum sobre direita e tradicionalismo (aqui).

Um filme datado – On the Rocks, Sofia Coppola.

Fim de semana

Um livro – A Cruzada das Crianças, Marcel Schwob (34, 73 págs.).

Outro – Discurso sobre o Colonialismo, Aimée Césaire (Veneta, 132 págs.).

Uma série média – O Gambito da Rainha.

Uma série divertida – Pretend it’s a City.

Um filme meio ruim – Kung Fu Master, Agnès Varda.

Fim de semana

Um disco – Cleo, Charlotte dos Santos.

Um podcast – Retrato Narrado, Carol Pires.

Um romance – O Avesso da Pele, Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 192 págs.).

Um filme – Mank, David Fischer.

Uma exposição que fechou – Anna Mazzei, Jaqueline Martins.

Fim de semana + quarentena (36)

Uma série – História da Alimentação no Brasil, Eugênio Puppo.

Um podcast – Praia dos Ossos, Branca Vianna e Flora Thomson-Deveaux.

Um disco – Every Bad, Porridge Radio.

Um texto – Paulo Scott sobre André Penteado e a Revolução Farroupilha (aqui).

Um posfácio – Thomas Pynchon na nova edição de 1984 (Companhia das Letras, 408 págs.).

Fim de semana + quarentena (35)

Uma reprise – Heat, Michael Mann.

Outra – Wag the dog, Barry Levinson.

Um vídeo – Sordid Scandal, Amalia Ulman (aqui).

Um texto – JP Cuenca sobre a nostalgia dos blogs (aqui).

Um livro – Canções de Atormentar, Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.).

Fim de semana + quarentena (34)

Uma coletânea – [para o meu coração num domingo], Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 338 págs.).

Um texto de 1906 – Mario de Lima Barbosa sobre Machado de Assis (aqui).

Uma entrevista – Newton Bignotto sobre ideias, facções e o Brasil (aqui).

Um filme – Dark Waters, Todd Haynes.

Um documentário com uns problemas – O Dilema das Redes, Jeff Orlowski.