Michel Laub

Mês: março, 2020

Fim de semana + quarentena (5)

Uma entrevista – Atila Iamarino sobre a pandemia (aqui)

Um artigo – Amanda Hess sobre celebridades e a pandemia (aqui)

Um romance – Esboço, Rachel Cusk (Todavia, 192 págs.).

Uma palestra – Sergio Augusto de Andrade sobre arte e sexo (aqui).

Uma conversa antiga dando uns descontos – Jorge Mautner e Julio Bressane (aqui).

Fim de semana + quarentena (4)

Um artigo – Como a pandemia pode terminar, por Ed Young (aqui)

Outro – As epidemias e a história brasileira, por Ian Read (aqui).

Uma releitura – Aids e suas Metáforas, Susan Sontag (Companhia das Letras, 112 págs.).

Um documentário sobre Miles Davis – The Birth of Cool, Stanley Nelson.

Um (médio) sobre Lil Peep – Everybody’s Everything, Sebastian Jones e Ramez Silyan.

Fim de semana + quarentena (3)

Um ensaio fotográfico – Cidades vazias, New York Times (aqui).

Um curso rápido e grátis – Nietzsche por Maria Lúcia Cacciola (app Casa do Saber).

Um disco de 2019 – All About Eve, PJ Harvey.

Um filme de 2019 – 1917, Sam Mendes.

Um de 1993 – And the Band Played On, Roger Spottiswoode.

Silêncio e crime

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”

Fim de semana + quarentena (2)

Uma entrevista – Richard J. Evans sobre doenças e cultura (aqui).

Outra – Raull Santiago sobre o coronavírus nas favelas (aqui).

Um filme inevitável – Contágio, Steven Soderbergh.

Um livro sobre mais ou menos esse tema – Dez Drogas, Thomas Hager (Todavia, 336 págs.)

Uma releitura idem – Morte em Veneza/Tonio Kröger, Thomas Mann (Nova Fronteira, 162 págs.).

Fim de semana + quarentena (1)

Uma peça – Praça dos Heróis, Thomas Bernhard (Temporal, 121 págs.)

Uma piada – What did Jack do?, David Lynch.

Um filme melhor do que parece – Um lindo dia na Vizinhança, Marielle Heller.

Um pior do que parece – Motherless Brooklyn, Edward Norton.

Um documentário – Get me Roger Stone, Daniel DiMauro, Moran Pehme, Dylan Bank.

Delicadeza contra o horror

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.

Pobreza, wi-fi, água limpa

Numa das boas cenas de Fome de Poder (2016), filme de resto médio sobre a trajetória do empresário americano Ray Crock (Michael Keaton), o protagonista sintetiza o conceito que faria sua então pequena rede de lanchonetes se tornar um império tão culturalmente simbólico quanto a Ford e a Disney: “McDonald’s é família”. Folheando Dignity, livro de textos e fotos de Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.), é difícil não pensar no quanto a frase tem de profético, a partir de sua ambiguidade involuntária, em relação ao modo como se vive hoje nos Estados Unidos.

Arnade percorreu bairros degradados de cidades como Nova York, Bakersfield (Califórnia) e Gary (Indiana) para documentar o dia-a-dia de viciados, prostitutas, gente que foi para a pobreza por variados motivos pessoais e públicos, da mudança estrutural do mercado de trabalho à crise dos opióides. Boa parte das entrevistas ocorreu, justamente, no McDonald’s. O local que Crock imaginou como uma espécie de templo do otimismo do pós-guerra, onde a classe média celebraria os valores do consumo e da eficiência como motores de prosperidade e inclusão, no Século XXI virou cenário de outro tipo de acolhimento: trata-se de um dos poucos espaços públicos americanos que não se constrange em abraçar quem ficou para trás no rali capitalista.

Ao preço de uma das comidas mais baratas do país, é ali que relatos sobre abandono, abuso e crime convergem para um arremedo de vida comunitária. No estacionamento há carros com os pertences de quem não consegue mais pagar o aluguel. Cada loja oferece wi fi grátis, aquecimento, mesas onde grupos de desempregados passam horas conversando. Mães dão banho nos filhos usando a água limpa nos banheiros. À diferença de albergues e instalações religiosas ou bancadas por governos, ninguém incomoda os frequentadores com normas e discursos morais.

Arnade trabalhou duas décadas no Citibank, em Wall Street, e sua própria história de mobilidade expõe os requisitos para quem quer sentar no que ele chama de “primeira fila” da sociedade: um lar estruturado, uma educação de alto nível, a inteligência emocional para fazer escolhas certas durante os anos de aprendizado que o tiraram de San Antonio, pequena cidade operária da Flórida, para o sucesso num dos setores mais competitivos da economia. A partir de 2011, no entanto, e na esteira do que viu acontecer ao seu redor depois da quebradeira de 2008, um desconforto pessoal e ideológico o fez entrar em contato com a realidade do “fundão”.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 6/3/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Uma Vida Oculta, Terrence Malick.

Um documentário – Miss Americana, Lana Wilson.

Um disco estranho – Mummer Love, Patti Smith.

Uma entrevista de 1989 – Décio Pignatari (aqui).

Um livro – Uma História da Tatuagem no Brasil, Silvana Jeha (Veneta, 354 págs.).

Olhos fechados, olhos abertos

Dormir pode ser um ato de resistência?  Essa é uma das conclusões que se pode tirar de 24/7, livro que o professor e ensaísta americano Jonathan Crary publicou em 2013. Lançado no Brasil pela Cosac Naify (144 págs, tradução de Joaquim Toledo Jr.), trata-se de um estudo erudito, apocalíptico e, sob alguns aspectos, premonitório daquilo que era menos possível enxergar na época do que é hoje, ao menos para o leigo: um mundo onde a tecnologia se tornou capaz de mapear cada um de nossos atos e emoções. O que, por sua vez, permite a quem domina tais meios uniformizar a vida social em níveis nunca antes pensados.

Crary identifica nas horas que passamos de olhos fechados um tempo alheio a esse controle. Conforme ele mostra em exemplos sinistros, incluindo tentativas de criar um soldado eficaz na vigília ou cidades com luz solar eterna, é lógico que o “escândalo do sono” – sua falta de valor sob uma perspectiva produtivista – seja combatido por empresas, indústria farmacêutica, indústria militar e similares. A ideia de um sistema em que trabalhadores/consumidores funcionem durante todas as horas do dia, todos os dias da semana (daí o título do livro), tem parentesco óbvio com distopias que se tornaram populares na literatura e no cinema do Século XX.

(…)

É curioso pensar em 24/7 ao ler Sonhos no Terceiro Reich (1966), da jornalista alemã Charlotte Beradt, que só agora sai no Brasil (Três Estrelas, 182 págs., tradução de Silvia Bittencourt). Resultado de uma pesquisa secreta conduzida entre 1933 e 1939, esse ensaio/reportagem analisa relatos oníricos que, em sua aparência fragmentária e ilógica, registram a consolidação do nazismo na subjetividade de cidadãos comuns alemães.

Assim, um médico sonha com um decreto que extingue as paredes nos apartamentos. Um funcionário público, com uma “voz suave” que o acorda no meio da noite dizendo ser do “Serviço de Controle de Telefonemas”. Uma mulher, com a proibição das palavras “lord” (“por precaução, devo ter sonhado em inglês”) e “eu”.

Na luta para encontrar uma “forma de expressão para o inexprimível”, os narradores também são premonitórios à sua maneira. A distopia presente em suas histórias, a partir das quais “o eco do dia ressoa de forma terrivelmente alta, terrivelmente baixa, radicalmente simplificada ou exagerada”, viraria realidade quase literal em poucos anos: na lição de Hannah Arendt, influência clara do livro junto com a psicanálise, uma das diferenças entre o totalitarismo do Século XX e tiranias anteriores – por mais sangrentas que elas fossem – foi, justamente, o apagamento das fronteiras entre experiência íntima e pública.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 24/11/2019. Íntegra aqui.

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