Michel Laub

Mês: dezembro, 2010

Feliz 2011

O blog volta a ser atualizado em fevereiro. Até lá, continuo no twitter (@michellaub).

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Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (15)

Amilcar Bettega Barbosa, autor de Os lados do círculo – “Minhas manias são para não escrever. Faço de tudo para fugir do momento de escrever. Sou o rei da procrastinação, principalmente quando se trata da escrita. Posso ficar semanas, meses até, sem escrever. Aí, de repente, num só dia sou capaz de escrever uma página. E me sinto o cara mais feliz do mundo. Talvez algumas manias para escrever me ajudassem na disciplina, coisa que absolutamente não tenho. O que tenho são preferências, mas não posso dizer que são condições para escrever, longe disso. Por exemplo : gosto de uma mesa limpa e organizada, mas normalmente ela é uma bagunça; gosto de um incenso queimando, mas quase sempre esqueço de comprar; gosto de escrever de manhã, mas faço quando dá. Ultimamente comecei a escrever em lugares públicos, tipo cafés e bibliotecas. As únicas coisas que não mudam nunca são: 1) escrevo sempre à mão, em cadernos (de preferência com folhas sem linhas) e com caneta tipo roller ball de tinta preta; e 2) não consigo escrever de noite.”

Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de Céu de origamis – “Escrevo no meu escritório, fora de casa, sozinho, durante o dia. Preciso de isolamento e silêncio. Trabalho diretamente no computador, quando muito me sirvo de um borrador onde registro a lápis uma ideia repentina ou uma palavra solta. Quando um bloqueio persiste, saio andando pelo centro da cidade.”

Paulo Henriques Britto, autor de Paraísos artificiais – “Não tenho hora certa para escrever, não tenho nenhum ritual; escrevo de manhã ou de noite, com música ou sem. Poesia escrevo primeiro a caneta num caderno, e depois, quando o poema chega a ser concluído (um em cada vinte dos que inicio, mais ou menos), passo para o computador e imprimo uma cópia. Prosa escrevo direto no computador, e também só imprimo quando dou por pronto.”

Reinaldo Moraes, autor de Pornopopéia – “Escrevo de qualquer jeito, sem música, secundado por uma xícara de café bem forte, se for de manhã, ou por um cigarrinho de artista e uma loirinha gelada (nenhuma daquelas 3 ninfetas, infelizmente), se já for mais de 6 da tarde. Prefiro não escrever minhas coisas à tarde, período do dia que utilizo mais para sestas e leituras. Mas, se estiver no pique, escrevo, sem problemas. Funciono melhor de manhã, às vezes com o sol raiando, e à noite, entre 7 e 1/2 noite – mas não de madrugada. Obviamente, solidão e silêncio são bem-vindos. De resto, é cadeira e mesa para apoiar o notebook, e uma janela ao alcance do olhar que se abra para uma paisagem não excessivamente confinada e opressiva.”

Simone Campos, autora de Amostragem completa – “Eu não dirijo, então escrevo muito em transportes públicos (ou bancos de carona). A letra é ininteligível, primeiro porque ônibus balança muito e segundo porque tenho paranoia de alguém ver o que estou escrevendo. O toque de glamour fica por conta do material empregado, geralmente canetas Lakubo ou Bic 4 cores sobre cadernos Paperblanks. Neles, além de literatura, também copio citações, faço esquemas, defino personagens e tramas… os cadernos acabam rapidinho. Depois passo os textos para o computador. Como agora sou assalariada, acabo entrando pela madrugada e chegando atrasada no trabalho; ou escrevendo no horário de almoço; ou, ainda, no fim de semana. Antes, quando fazia traduções em casa, eu não tinha horário para escrever: agora tenho estado nesse esquema ou-vai-ou-racha. Funciona.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (14)

André de Leones, autor de Como desaparecer completamente – “Escrevo à mão, em uns cadernos chamados Tilibra Opus (que estão sumindo do mercado e isso tem me causado um certo desespero). Não valho nada sem uma boa noite de sono. Então, nunca tive isso de escrever madrugada adentro. Barulho não me incomoda. Escrevo durante todo o dia, com muitas interrupções. Paro e assisto a algum filme ou série ou jogo de futebol ou de tênis. Respondo e-mails, vou ao Twitter, blogo. Aliás, com tantas interrupções, é incrível que eu consiga produzir. Adoro escrever em quartos de hotéis. Sinto como se estivesse em outra dimensão quando me tranco em lugares assim. Talvez esteja, não sei. Não consigo trabalhar quando bebo. Também crio uma espécie de trilha-sonora para o que estiver escrevendo. Uma seleção de músicas que ajude a ritmar a narrativa em progresso.”

Edney Silvestre, autor de Se eu fechar os olhos agora – “Gostaria de entender que processo é esse, que permite – ou às vezes não permite – que eu escreva. É uma parte incontrolável, ou deveria dizer descontrolada,  de mim que se manifesta quando e onde bem entende. Quartos de hotel, aeroportos, delegacias, ônibus, aviões, já me aconteceu nos mais inusitados lugares. Em uma calçada de Copacabana, em frente a um hotel, enquanto esperava um candidato à presidência decidir se descia ou não para falar conosco, repórteres, talvez tenha sido o mais esquisito de todos. O texto, ou a revelação sobre um personagem, vem. Se dou sorte de ter um papel e caneta por perto, ou se estou diante de um computador, digito, manuscrevo, registro. Caso contrário, sou obrigado a aguardar por uma nova ‘visita’. E, sobre o candidato: ele não desceu para falar com a imprensa. Nem ganhou a eleição.”

Elvira Vigna, autora de Nada a dizer – “Igual ao Tezza, também arrumo tudo. Aí tem uma hora que não tem mais jeito e começo o ritual de sair da minha ‘zona de conforto’. Vou para local isolado e desconhecido. Hotel vagabundo na minha própria cidade, outra cidade. Em geral, algo a ver com o cenário do que vou escrever. Escrevo com fome, com vontade de fazer xixi, frio, com o computador (mal) equilibrado no colo. Escrevo em geral na primeira pessoa. Acho que é por isso. Para o ‘eu’ não ser tão eu.”

Luiz Antonio de Assis Brasil, autor de Música perdida – “Escrevo por acaso, isto é, nunca pensei em ser escritor. Tudo foi acontecendo e eu me fui acostumando. Hoje já não posso me conceber julgando processos, que era o destino que minha família me dissera para cumprir. Escrevo no meu melhor à tardinha: já não é mais tarde, e ainda não é noite. Mas se eu me empolgo, posso entrar noite a dentro, desde que tenha começado à tardinha. Antes eu escrevia melhor pela manhã, cedo. Depois descobri que sofria de deficiência de um produto químico no sangue. Corrigi isso e hoje me acordo tarde, isto é, pelas 7, quando tenho de sair correndo para a Universidade. Uma pequena mania: não termino uma cena, ou capítulo, no mesmo dia em que estive trabalhando nele. Deixo correr uma noite e aí, no dia seguinte, descansado, escrevo o final. E enfim: só sei escrever romances. Fico paralisado ante o conto e a poesia. Poesia e conto são para quem sabe.”

Natércia Pontes, autora de As mulerez – “É uma espécie de cigana que recebo, acho. Um espírita me contou. E tem de ser no silêncio absoluto, madrugadão mesmo. Britadeira, vozes, alarmes e telefones são meus maiores inimigos. Música sem letra, geralmente clássica. Às vezes vinho, às vezes água. Tenho mania de escrever no caderninho algumas palavras-chave e imagens. Depois passo pro word, depois imprimo, reviso, gravo e escuto o texto para identificar alguns tropeços sonoros. Vou até o fim. Ultimamente tenho deixado alguns trabalhos pela metade, marinando. Tem funcionado. É muito bom ver o texto escrito, mas cansativo. (Ah, e gosto de ter uma flor por perto. Deve ser por causa da cigana.)”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (13)

Carlos de Brito e Mello, autor de A passagem tensa dos corpos – “Antes de um livro começar, passo bastante tempo produzindo notas à mão: ainda não estão lá personagens ou acontecimentos, mas um conjunto sem ordem nem hierarquia de palavras, frases isoladas, vozes sem origem, idéias avulsas. Anoto, onde quer que eu vá, em dezenas de pedacinhos variados de papel, incluindo impressos de extrato bancário, talões de estacionamento, bulas de remédio e as margens dos livros que, no período, esteja lendo. A narrativa começa a partir dessa coleção, despertada, sem que eu possa prever, por um ponto de dor sem o qual a escrita não teria, para mim, muito sentido. Nessa hora, vou para o computador e escrevo, sempre que possível, pela manhã. É trabalho pesado, inspirado ou não. Se tudo vai bem, não paro para almoçar. Se vai mal, almoço com raiva, decepcionado. Prefiro luz natural ou, se necessário, de abajur, amarelada, mortiça, suficiente apenas para que eu consiga ler minhas anotações ou para consultar o dicionário e a gramática, que ficam ao lado. Prefiro silêncio, mas, aqui em casa, em dia de lavar roupa, gosto do barulho produzido pela máquina e pela esfregação. Levanto-me durante o processo. Ando pela casa. Durante o dia, bebo água. Se escrevo à noite, bebo álcool apenas para aquele primeiro torpor. Demoro antes de começar uma frase. Escrevo comentários sobre o trabalho no corpo do próprio texto: ‘melhorar isso’; ‘o narrador não pode agir assim’; ‘idiota!’. Trabalhar com sono costuma ser um desastre. Ter janela por perto é uma delícia.”

Bruna Beber, autora de Balés – “Costumo fazer as primeiras anotações em papéis soltos, blocos e cadernos, sem preferência de papel ou marca. Uso o que estiver mais perto, caneta, lápis, lapiseira, canetinha. Mas nunca em público, jamais saio de casa pra escrever. É particular. Depois, organizo esses recados brutos que deixei pra mim mesma no computador, leio, releio, leio em voz alta e em silêncio, semifinalizo e guardo. Novamente sem humanos por perto (bicho pode), com uma roupa confortável, ouvindo música com letra ou sem letra, mas na maior parte do tempo em silêncio. Quando implico com algum parágrafo ou verso anoto e guardo em lugares onde só eu tenho acesso, e convivo com aquele incômodo até conseguir resolvê-lo. Volto ao computador e mexo até me agradar completamente, ou 90%, e isso pode demorar meses ou nunca terminar. Às vezes parece que escrever é uma atividade sem final, pela inebriância das infinitas possibilidades. E aí quando tenho finalmente um resultado digitado que me agrada, escrevo tudo à mão em papéis. A letra no papel me dá sensação de que um texto está mais vivo. É uma ilusão genuína. Leio e releio novamente em voz alta até convencer também os meus ouvidos. Às vezes também gravo e ouço. E normalmente volto todas as etapas, em repetição. E não há tortura nenhuma nisso, é tão bom.”

João Silvério Trevisan, autor de Ana em veneza “Para escrever Ana em Veneza, joguei búzios, I Ching e fiz mapa solar dos personagens (figuras q existiram, na verdade). Enquanto trabalhava na minha mesa, eu tinha diante de mim um varalzinho com as fotos de Alberto Nepomuceno e Júlia Mann, assim como um desenho q fiz da escrava Ana, numa rede, em Veneza. Antes de começar a trabalhar, impreterivelmente, eu saudava os seus orixás. Era delicado demais me apropriar de pessoas que existiram para torná-las minhas personagens. Me permiti essas licenças poéticas. Mas isso foi só no caso de Ana em veneza.

Livia Garcia-Roza, autora de Era outra vez – “Os ruídos e barulhos do cotidiano não atrapalham a minha escrita, pelo contrário, tenho o hábito de capturar pequenos dizeres e acontecimentos e utilizá-los como matéria para a minha literatura. Escrevo sempre durante o dia, a lápis, em blocos e cadernos. Mas se alguma idéia me ocorre entre a vigília e o sono, levanto para anotá-la. Só passo o texto para o computador quando ele se encontra minimamente estruturado.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (12)

Alexandre Barbosa de Souza, autor de Azul escuro – “Faz muito tempo que os poetas são banidos. Segundo uma lei da época em que eu era registrado, e colaborava com o sindicado dos trabalhadores de editora, quem trabalha com leitura e computador teria, a cada hora de trabalho, direito a cerca de dez minutos de descanso dos olhos. Começo às sete e vou até às seis, nesse tempo costumo traduzir no máximo dez laudas – o que me dá um pouco menos de um maço de cigarros, três cafés antes do almoço, dois depois. É aí, na lavanderia vintage, de ouvido no rádio da obra do lado, que se passam os poemas, anotações, leituras extra-mais-valia!”

Eduardo Sterzi, autor de Aleijão – “Minha escrita se divide basicamente em dois registros, cada um com suas manias específicas. Poesia: costumo escrever à mão, em folhas A4 já usadas do outro lado, quase sempre despojos de algum concurso literário do qual fui jurado. Para assinalar que este texto do verso não está valendo, risco a folha de cima a baixo, com um único traço tenuemente oblíquo. As primeiras anotações, porém, costumam ser feitas em qualquer pedaço de papel que eu tenha à mão, mas com alguma predileção por guardanapos, papéis higiênicos e bordas rasgadas de páginas de revistas ou jornais. Contudo, já anotei expressões ou versos inteiros, a serem desenvolvidos posteriormente, em extratos bancários, bulas e caixas de remédio e mesmo, com alguma dificuldade, em sacos plásticos. Gosto que minha poesia tenha sua origem nessa materialidade algo bruta e reles, em meio aos restos disso que podemos chamar, não sem ironia, de ‘nossa civilização’. Crítica: tudo começa em anotações normalmente realizadas em folhas A4 (também recicladas) dobradas ao meio para caberem dentro dos livros que estou lendo. Ultimamente, também tenho feito muitas anotações na rua, enquanto caminho, em pequenos cadernos (costumo ter canetas específicas para cada caderno: no meu atual caderninho amarelo Tamoio, só uso hidrográficas Stabilo de ponta média vermelha, verde ou cinza). Todas essas notas são depois transcritas num arquivo .doc (e não .docx) de nome idêntico ao do texto que tenho de escrever, mas seguido da palavra ‘materiais’ entre colchetes (por exemplo, se o arquivo principal se chamar ‘CURTIUS Num instante de perigo’, o arquivo-base será ‘CURTIUS Num instante de perigo [materiais]’). A versão inicial do texto, ainda muito rudimentar, resultará da montagem desses materiais. Desde meados deste ano, só tenho escrito textos críticos na fonte Garamond corpo 12. A entrelinha tem de ser simples. O zoom deve estar em 210%. Preciso também que o Houaiss eletrônico esteja aberto numa janela à direita das janelas do Word – e que ninguém esteja olhando por cima do meu ombro (se estiver sentado ao meu lado, sem problemas). Manias finais: costumo levantar e caminhar pela casa quando um texto empaca, e lavo as mãos seguidamente enquanto estou escrevendo – mesmo que o computador esteja limpo e minhas mãos impolutas.”

Leandro Sarmatz, autor de Uma fome – “Se houvesse, como no sexo, uma excentricidade indiana chamada ‘escrita tântrica’, eu seria uma espécie de Sting. Porque eu protelo o momento enquanto posso – talvez esteja aí, suspeito, o motivo para ter eu demorado tanto a publicar um livro de ficção. Enquanto escrevo, também costumo zanzar pela casa quando acho que estou ‘chegando lá’: de novo a estratégia retentiva. De resto, prefiro escrever bem cedo (6h da manhã) ou muito tarde (até as 6h da manhã). Se estou diante do computador tarde da noite, tomo uma dose – sem água, por favor – de malte antes de encerrar os trabalhos e ir para a cama. Durante o dia, chá preto ou café. De resto, leio muito enquanto escrevo, e quase sempre as mesmas coisas: umas páginas de Bellow, alguma poesia, o Houaiss.”

Luís Henrique Pellanda, autor de O macaco ornamental – “Acordo e escrevo cedo, de preferência, no mesmo local em que trabalho, o escritório que montei em meu apartamento, no Centro de Curitiba. Antes de redigir meus contos, tenho o hábito de estruturá-los à mão, do começo ao fim, em blocos de papel barato e letra inadvertidamente cifrada, herança, vício ou defeito da minha época de repórter de rua. Só depois que planejo toda uma narrativa, sento ao computador, os esquemas rabiscados ao alcance do olho. Bebo água, e muita. Durante um dia de trabalho — quando consigo tirar um dia para isso, algo raro —, tomo várias xícaras de café. Durante o processo, um exagero: o que escrevo vira o assunto da casa. E um perigo: esqueço de comer, invariavelmente. Mas a fome não me atrapalha. Ouvir música, por outro lado, bloqueia minha escrita. Como sou músico, é difícil me concentrar noutra coisa quando há música, boa ou ruim, por perto. Prefiro o silêncio, claro. De qualquer forma, morando a duas quadras da Boca Maldita, no coração de uma cidade grande e às vezes histérica, me contento e consolo com uma quietude apenas relativa. Preciso, muitas vezes, escrever com as janelas fechadas e, dependendo do barulho que se faça lá fora, de propaganda política a brigas entre flanelinhas, com as persianas também, no escuro da manhã. Se estiver quente — e o calor curitibano é camarada —, um ventilador debaixo da mesa resolve. Se estiver frio e úmido, paciência. Superstições, quem me dera tê-las e escrever protegido da própria vaidade, colares de figas e conchas no pescoço, pingentes de ferradura, crucifixo numa orelha, incenso na outra, e a tela do computador interditada à burrice. “

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