Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (18)

por Michel Laub

Chico Mattoso, autor de Nunca vai embora “Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo. Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar, primeiro num escritório alugado, mais recentemente em bibliotecas e cafés. Quando engreno num conto ou romance, tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias — uma vez, num ônibus, escrevi dois longos parágrafos numa embalagem de Novalgina. Resolvo muita coisa nesses momentos, quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral, que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo. Parece que o mundo se organiza. E minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador.”

Eucanaã Ferraz, autor de Cinemateca “Escrevo poemas em cadernos, agendas, folhas soltas. Sempre papel. A lápis ou a caneta, escrevo, rabisco, anoto, faço setas; quando há versos ou estrofes que se interpõem, numero, ponho asteriscos; e lá vão ficando as idas e vindas. Quando o rascunho se faz difícil de entender pelo excesso de riscos (mesmo a lápis, não uso borracha, ainda que haja uma na ponta oposta ao grafite), reescrevo todo o poema em outra folha, na qual recomeço a mexer, cortar, acrescentar etc. O resultado mais próximo do final chega, por vezes, ainda nesses primeiros passos. Depois, vou para o computador. Preciso ver o poema mais limpo, mais próximo da cara que ele teria numa hipotética publicação. A digitação costuma dar vez a outras mudanças. Depois, imprimo, faço uma pausa – de tempo indeterminado – e volto a reler. Outra vez diante do papel, costumo fazer novas mudanças, cortes, acréscimos. A duração de tal processo é imprevisível.

Tenho, além disso, um hábito que me parece particular ou, pelo menos, não me parece ser uma prática comum a todos que escrevem poesia. Durante todo o tempo da escrita, leio e releio em voz baixa, sussurrando. Preciso ouvir o poema. Então, vou lendo os versos para mim naquela altura mínima, como se testasse o ritmo. Talvez o volume baixo da voz tenha a ver com o fato de eu considerar o poema, sempre, uma voz baixa, uma maneira de inserção sutil no mundo, uma presença oblíqua, estranha, quase invisível. Nunca me impus essa prática. E, curiosamente, só após alguns anos tomei consciência dela, que não chega a ser um método, sendo talvez um instrumento, ou menos, mera idiossincrasia.”

Julián Fuks, autor de Procura do romance “Em dias bons, quando já esgotei todo o arsenal possível de procrastinações, cruzo a casa vazia e me entrego ao derradeiro ritual. Estou agora no sofá, ainda a uns quantos metros da tela branca, que me espreita com paciência e atenção, e me ponho a ler um poema qualquer, de um livro sorteado ao léu, Bandeira, Borges, Brossa, Cabral. Não é preciso que o entenda, ou que me encante, ou me enterneça; essencial é que me deixe imergir em seu silêncio, silêncio que é pura iminência, silêncio que é a ausência das palavras que virão. Sento-me então ante a tela, abro o dicionário em outra janela, mas não o consulto ainda. Escrevo apenas, mesquinhamente, em dias bons.”

Ramon Mello, autor de Vinis mofados “Escrevo no meu conjugado, em Copacabana, na companhia dos meus gatos Borges e Silêncio. Quando se trata de escrever poemas, fico à disposição. Não há hora certa para a escrita, no entanto as madrugadas são generosas para a concentração. Gosto de escrever primeiro no papel, pode ser até um guardanapo. Muitas vezes um poema surge a partir da leitura de um livro, é uma euforia. Em seguida, passo o poema para o computador, vou trabalhando devagar. Quando estou a escrever prosa, vou direto para o micro e trabalho a ideia sem descanso. Depois envio o texto para ser lido por amigos com senso crítico apurado. A cada livro vou redescobrindo o meu processo de criação.”

Tony Monti, autor de eXato acidente “Não tenho manias para escrever, mas tenho algumas tendências. Gosto de escrever de manhã. É quando meu cérebro parece mais ativo. Há (raras) épocas em que começo cedo e fico em frente ao computador até escurecer. Costumo escrever os textos mais longos fora de casa, como se eu fosse ao escritório para cumprir um turno fixo de trabalho. Procuro, em geral, bibliotecas, mas às vezes vou a bares e cafés. Escrevo e apago. Insisto por uma, duas horas. Faço intervalos para comer, caminhar e olhar o mundo. Talvez haja uma recompensa inconsciente em expor em ambiente público minha dificuldade de encontrar as palavras e as ideias, como se fosse importante que as outras pessoas aprovassem o esforço. A recompensa consciente é que, para amenizar a solidão característica do trabalho do escritor, na biblioteca é possível desfrutar daquela estranha convivência silenciosa entre os que estudam. Além disso, nos intervalos que às vezes se estendem pelo dia todo, posso encontrar um conhecido e conversar.”