Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (20)

por Michel Laub

Adriana Lunardi, autora de A vendedora de fósforos “Passo dias e dias sem sair de casa. Preciso de isolamento. Preciso saber que tenho horas pela frente, sem nenhum compromisso agendado. Preciso de silêncio. No último livro, havia duas obras no meu edifício. Quando vi, estava de pijama, num final de tarde, esmurrando a porta do vizinho. Tive de alugar o quarto de uma amiga. Preciso da minha biblioteca por perto, serendipity só acontece durante a escrita. Preciso de cadernetas para anotar uma ideia que vá ser útil lá na frente ou para me dar recados sobre as personagens. Não gosto de escrever com o estômago cheio. No máximo, tenho um copo d’água por perto. No início de um novo livro, tiro pó da escrivaninha e seleciono alguns títulos para ficarem à mão. Desinstalo o jogo de xadrez do computador, pois já passei doze horas seguidas jogando em vez de escrever. Uso caixas de roupas, aquelas que vêm com elástico, para guardar as versões impressas e anotadas. Reescrevo mais do que escrevo. Só paro quando começo a destruir.”

Carlos Henrique Schroeder, autor de As certezas e as palavras“Eu tenho dois amuletos: são dois lápis. Chacoalho insistentemente dois lápis, em qualquer pausa de escrita, por isso sempre carrego dois lápis sem ponta comigo. Uso esses lápis até eles se partirem, aí substituo por outros. Sim, eu sou louco, eu sei. Anexo uma foto dos meus dois últimos livros. E como acredito que somos a soma das nossas referências, também gosto de escrever de frente para minha estante de livros, para no caso de qualquer bloqueio, uma simples olhadela na lombada dos livros me alivia.”

Marcelo Benvenutti, autor de Arquivo morto“Quando vou escrever sempre sai tudo de uma vez só. Quase sempre rola de dar um tempo e se possível, e for dia, caminhar sem nenhum destino por uma meia hora. Escrevo em silêncio no escritório onde trabalho antes do meio-dia, pois a fome acelera o pensamento, mas também não é o padrão. Outras vezes tampo o cérebro nos fones de ouvido e deixo rolar algo que funcione como um paredão. Já foi Sabbath, Beethoven, Supergrass, tem sido Oasis, mas pode rolar Neil Young, então me alieno de vez do que rola à volta e escrevo. Café ajuda, mas vinho, na dose certa, é bem melhor. Não chapa a ponto de escrever muita bobagem, poesia quase sempre, e deixa a cabeça se libertar de certas amarras. Já escrevi tomando cerveja, mas, admito, tenho que limpar quase tudo depois. Vira igual festa de guri, lata de ceva e bagana pra todo lado. Sem falar na dor de cabeça; certa vez vi uma entrevista de um físico, português, não é piada, e ele disse ter ideias libertadoras de suas experiências quando está de ressaca. A ressaca limpa a mente do que nos atrapalha. Só resta o que nos interessa. Mas isso foi antes de eu ser pai. Agora escrevo quando o Lorenzo deixa. Por exemplo, ele está acordado, 3 e meia da manhã, e eu me pilho a escrever sobre minhas manhas pra escrever escutando o Axl Rose desafinar no show do Guns’N Roses ao vivo pela internet. Pode? Pode. O escritor também é um ser que se adapta ao habitat. Foda é o habitat se adaptar. Mas o habitat, afinal, que se dane, não é?”

Menalton Braff, autor de Tapete de silêncio“Não tenho manias e meus costumes são bastante simples. Escrevo de manhã, umas duas horas, e à noite, outro tanto. Escrevo diretamente no computador, o que me exige um canto da casa em que me espalho com minhas coisas. Trabalho todos os dias, quando estou em um romance e produzo muito lentamente. Gosto de estar sozinho, em silêncio, sem qualquer desconforto físico. Quando me envolvo com algum conto, o processo é mais nervoso, mais rápido, porque o conto como ideia já está inteiro na mente, e o trabalho é apenas a transformar a matéria em palavras. Entre um romance e outro ou entre esse e um conto, escrevo todos os dias, nem que seja um depoimento como este aqui. Não produzo muito, mas produzo diariamente. Durante a escrita do romance Bolero de Ravel tive minha primeira experiência de escrever ouvindo música: o Bolero de Ravel.”

Tony Belloto, autor de No buraco“Desde que saí do armário e assumi que sim, eu era um escritor, e lá se vão quase vinte anos, meu “processo” de escrita sofreu grandes transformações. Na primeira fase eu emburacava e virava noites, numa demonstração de inexperiência, que me custou dias perdidos, terrores noturnos e quase um colapso nervoso. A segunda fase, inspirada em Hemingway, foi a de levantar cedo (antes de o sol, aquele que também se levanta, nascer) e escrever até o meio da manhã, com a cabeça descansada e despoluída, e depois atravessar o dia e a noite em distrações mundanas até chegar a hora de escrever de novo, na manhã seguinte. Para um músico de rock, casado e com filhos pequenos, não preciso dizer que o método foi um fracasso total. Como acordar antes de o sol nascer se meia hora atrás eu ainda estava no palco, tocando? E ao nascer do sol o caçula acordou, cheio de gás, gritando “papai”? Hoje em dia acho que alcancei uma espécie de equilíbrio, e escrevo nos dias da semana em que não faço shows. Escrevo por umas duas horas de manhã, paro para almoçar, durmo um pouco depois do almoço, e retomo o trabalho lá pelas 16:00hs. Escrevo até às 18:00hs, por aí, e depois pratico algum exercício físico, única forma de despoluir minha mente das obsessões e manias que um livro desperta. Nos fins de semana, quando viajo com a banda pra tocar, releio e reviso o que escrevi durante a semana. Minha única “mania”, quando escrevo, é, seguindo o conselho de García Márquez, sempre parar a narrativa num lugar em que eu saiba pra onde ela vai, no dia seguinte.”