Michel Laub

Mês: fevereiro, 2021

Fim de semana

Um documentário – Zappa, Alex Winter.

Um documentário em duas partes – Philip Roth Unleashed, Sarah Aspinall (aqui).

Um debate – Ciro Gomes x André Lara Resende (aqui).

Um romance – Os Tais Caquinhos, Natércia Pontes (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um ensaio – Colin Vanderburg sobre rock e cultura negra (aqui).

O Evangelho da recusa

Em 2009, o sul-africano J.M. Coetzee publicou Verão, último romance de um ciclo autobiográfico que tinha também Infância (1997) e Juventude (2002). É um dos grandes livros deste grande escritor ao mesmo tempo fácil e difícil, moderno e pós-moderno, composto por entrevistas com mulheres que teriam tido relacionamentos com o próprio Coetzee – aqui tornado personagem depois de sua hipotética morte na vida real.

As entrevistas se alternam com o que seriam fragmentos de ideias para romances encontradas no diário do morto. Num deles, o narrador anota, tratando a si mesmo na terceira pessoa: “Evitar pôr ênfase demais no interesse dele por Jesus e transformar isto aqui numa narrativa de conversão”. Em outro: “A desenvolver: sua própria teoria educacional, cultivada em casa, suas raízes em (a) Platão e (b) Freud”.

As duas passagens trazem uma pista para interpretar a estranha trilogia que ocupou Coetzee na década seguinte à de Verão: os romances A Infância de Jesus (2013) e A Vida Escolar de Jesus (2016), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, e o mais recente A Morte de Jesus (The Death of Jesus, Viking, 2019). Lidos em sequência, os três contam a história provavelmente alegórica da formação de um menino (Davíd) junto a pais adotivos (Simón e Inés), num mundo de feição pós-apocalíptica onde não há memória do passado distante.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 11/12/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – Kathleen Meaney sobre arte africana e design (aqui).

Uma história – David Markson x Don DeLillo (a partir de 22:15, aqui).

Um romance curioso – The Silence, Don DeLillo (Scribner, 128 págs.).

Uma entrevista – Brizola, 1980 (aqui).

Um filme – Relatos do Mundo, Paul Greengrass.

A moral do monstro

“O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto. – Qual dos dois cansa primeiro?”. Assim começa 234, de Dalton Trevisan (Record, 128 págs), e poderia começar qualquer livro do autor – até porque muitos deles repetem os mesmos temas, ou tomam de empréstimo frases e tipos humanos usados em coletâneas anteriores, numa interminável variação do que parece ser um único conto desde os anos 1950.

Tudo se passa na província, na ampla acepção do termo, o que não se resume à Curitiba natal de Dalton. Como em tantos escritores que transformaram a geografia em matriz mitológica, o conceito de local aqui é tão “universal” quanto o da Dublin joyceana, do sul americano de Faulkner ou da Escola de Magia de Hogwarts: trata-se de um lugar que só existe na imaginação de quem o cria ou reinventa, e portanto – dado o milagre empático da boa literatura – na cabeça de quem lê.

Voltei a 234 semanas atrás, num desses acasos comuns a quem está procurando uma coisa na estante e acaba embarcando em outra. Fiquei com a impressão de que o livro, lançado em 1997, com o tempo se tornou um corpo ainda mais estranho dentro da cultura brasileira. Numa época tão marcada por uma ideia de ficção utilitária (lemos para aprender algo) ou edificante (exemplos que nos inspiram a enfrentar os problemas da vida), por conceitos como o de “gatilho narrativo” (coisas que não devemos ler porque nos lembram de traumas/medos/pudores), aqui está um autor cuja estética (e a ética) soa como o contrário disso (“o melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado”).

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/1/2020. Íntegra aqui.

O jogo do futuro

Numa passagem de O Filho Eterno, romance autobiográfico sobre o pai de um portador da Síndrome de Down (Record, 222 págs.), o narrador de Cristovão Tezza conta como enxergou um ponto de maturidade possível numa criança que parecia viver um presente contínuo e circular. “O menino sente muita dificuldade para aceitar mudanças de rotina”, diz ele, que trata a si mesmo na terceira pessoa. “O pai terá de obrigá-lo a assistir a algo novo (…) até que descubra que a novidade pode ser interessante.”

Nesse universo repetitivo e por vezes árduo, o filho acaba descobrindo um estímulo inusitado no futebol. Torcer pelo Athletico-PR traz vantagens, entre elas a chance de socializar com outros torcedores e um esboço de aprendizado de leitura – ele consegue reconhecer nomes de times, digitá-los para baixar os hinos em mp3. A maior mudança, contudo, vem da relação que o esporte tem com o tempo, uma abstração que para o personagem era inatingível até aquele momento: “As partidas (…) já não são mais eventos avulsos, sem relação entre si; pela noção de torneio, finalmente a ideia de calendário entra na sua cabeça; como na Bíblia, o mundo se divide entre partes que se sucedem até a Batalha Final”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 16/10/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Meu Anjo da Guarda tem Medo do Escuro, Charles Simic (Todavia, 112 págs.).

Um documentário – Professor Polvo, James Reed e Pippa Ehrlich.

Um filme de 2013 – Museum Hours, Jem Cohen.

Uma entrevista – Mayrton Bahia (aqui).

Um disco – Tocar em Flores Pelado, Gabrre.

Algo que não foi feito ainda

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro Verdade Tropical (1997). Um de seus capítulos, Narciso em Férias, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Texto e filme falam do célebre episódio da prisão de Caetano em 1968, logo depois do AI-5, e dos 54 dias que ele passou na cadeia. Se Verdade Tropical é um panorama do que seria a originalidade brasileira então proposta por sua obra, Narciso em Férias é o ponto do livro em que a ideia de civilização é descrita como que em negativo, numa espécie de grau zero onde a princípio não há nem tristeza –  apenas a brutalidade dos militares, da elite que os apoiou e ajudou a moldar as trevas que vemos até hoje por aqui.

O país que emerge daqueles 54 dias é uma distopia tanto no nível institucional –um périplo kafkiano num não-lugar jurídico e político, onde ninguém conseguia explicar o motivo, o objetivo e o prazo da prisão – quanto no do indivíduo. A cadeia inicia como experiência de aniquilação do corpo: no livro há trechos sobre como a violência do regime interfere no sono, na alimentação, na libido. A vitalidade emocional e a riqueza no modo de ser se desidratam junto com a máquina biológica “reduzida ao imediato”, incapaz até de chorar e de se masturbar nos primeiros dias numa solitária da Polícia do Exército do Rio – como se a humanidade presente nas secreções produzidas pelos dois atos tivesse sido abortada literal e simbolicamente.

E, no entanto, há um percurso curioso em Narciso…. Com a transferência do cantor para um quartel da brigada paraquedista, onde já havia uma comunicação melhor com outros presos e com a vida exterior, personificada em visitas íntimas da então companheira Dedé, o livro se torna (mais) uma reinvenção de Caetano: não dos dados universais da civilização, e sim do horror oferecido pela barbárie. A história é contada décadas depois, claro, mas o seu presente continua existindo sob o registro inimitável de quem a fixa na página. É um feito artístico, antes de tudo: existem muitos relatos bons sobre cadeia, e nenhum oferece o sabor específico deste – a atenção a estes detalhes, a evocação desta paisagem afetiva e linguística. Nela, um pão duro é “um pão um tanto duro e sem manteiga”; uma voz calma é também “compreensiva, humaníssima, doce mesmo”; um devaneio amoroso é um “enternecimento” a desequilibrar a “letargia que era a minha proteção”.

Nessa literatura entre a digressão proustiana e a retórica barroca, a glória da frase é ser a um só tempo derramada e aguda, intuitiva e observacional. É assim que o autor narra como cantou sob a mira de uma metralhadora, como criou superstições envolvendo baratas e velhas joias do cancioneiro nacional. Ou então como, muitos anos depois de liberto, passou a ter uma estranha saudade dos dias de melhora física e mental no quartel dos paraquedistas: “Acho que naqueles momentos rememorados eu estava ganhando peso, lentamente salvando minha vida, como na infância (…). Entendi por que tantas vezes somos nostálgicos de fases da meninice que foram vividas na infelicidade: o som fanhoso de uma música sem interesse ouvida entre pessoas desprezíveis num crepúsculo sem cor pode, na lembrança, nos remeter a sensações (…) indizivelmente prazerosas (…), portas abertas para o sentimento perene dentro de mim da doçura de ser.”

Um dos efeitos da prosa de Narciso… é o de nos fazer enxergar de outra forma o que já tínhamos visto tantas vezes: o modo como esse calor humano, a aceitação do corpo como filtro principal e generoso da vida, se faz presente na poesia do autor. Um episódio contado no livro é exemplar nesse sentido. Um dia, ao folhear uma revista Manchete, Caetano encontrou entre fotos de mulheres seminuas as primeiras imagens da Terra vista do espaço – ou seja, da grandeza de um mundo que também era o seu naquela cela de poucos metros quadrados. A expressão disso numa letra escrita anos depois, pontuada pelo que o livro define como “traço baiano” de “deslumbramento respeitoso pelo sexo”, nunca deixa a beleza da metáfora se descolar de uma carnalidade palpável, ambas a serviço do gozo que contrasta com a melancolia do confinamento: “As tais fotografias/ Em que apareces inteira/ Porém lá não estavas nua/ E sim coberta de nuvens (…)/ Eu estou apaixonado por uma menina, Terra (…)/ Terra para o pé, firmeza/ Terra para a mão, carícia”.

Ainda na proposta de Gianetti, daria para enxergar a grande dialética civilização versus alegria no aspecto mais epidérmico da visão de mundo de Caetano: as relações entre a subjetividade física, reduzida ao nível básico dos sentidos (e às vezes da fisiologia), nada disso ainda constrangido pelas restrições e exigências da norma social, e os mitos culturais criados a partir daí. Nas décadas seguintes à prisão, e quem sabe sob influência dela, foi o que essa poesia não cansou de mostrar. Em imagens que depois de Narciso… talvez possamos ver como mais literais do que pareciam, aí estão a fala, o ouvido e o tato em Língua; a fome e a sede em Podres Poderes; a cegueira de tanto ver em O estrangeiro; o cuspe e o mijo no Leblon de Fora da Ordem e de Haiti.

Salvo engano, foi nos mesmos anos 1990 do Roda Viva e de Verdade Tropical que o compositor cunhou uma de suas frases célebres: “O Brasil vai dar certo porque eu quero que dê certo”. Isso pode ser um programa político ou uma voz do corpo – daquilo que sempre podemos fazer individualmente, com o otimismo da ação que nos cabe, para que melhore a nossa sensação de estar no mundo (e, logo, o mundo). É assim que se sobrevive a um regime autoritário. Que se reedita um livro numa época que parece perdida para a leitura. Que se canta ao lado dos filhos numa live cheia de beleza e esperança, como fez Caetano em julho último, em plena quarentena e durante um dos governos mais infames de nossa história.

Talvez não faça mais sentido discutir o que o Brasil fará ao se tornar civilizado, porque esse dia pode nunca vir. Mais ainda podemos celebrar nossa autonomia, a alegria de ter um corpo que deseja e sonha. Narciso… é um modo de nos lembrar a respeito: na chave pequena e imensa da literatura, aí está algo que não tinha sido feito ainda.

Publicado no Valor Econômico, 13/11/2020 (original aqui).

Ordem à bala

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.

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