Michel Laub

Mês: junho, 2020

Cem dias entre os tubarões e o tédio

Numa entrevista ao podcast da revista Quatro Cinco Um, que foi ao ar em abril, Amyr Klink relata a Paulo Werneck um experimento que fez durante a quarentena: tentar simular em terra a atmosfera que viveu ao cruzar o Oceano Atlântico a remo, em 1984. Com o velho barco da travessia pendurado numa estrutura geodésica no quintal de casa, em Paraty, o navegador achou que seria divertido lembrar por uma noite do balanço físico e da sensação de confinamento naquela “célula habitável” de 88 cm de altura, menos de um metro de largura e 2,20m de comprimento na qual dormiu, comeu e trabalhou por cem dias.

“Quase fiquei louco lá dentro”, diz Amyr, que desceu do barco em menos de seis horas. Não por claustrofobia ou solidão, problemas que ele evidentemente não tem, e sim pela angústia de estar “parado”, conceito familiar a todos os que atravessamos esses também cem dias em que o mundo deixou de ter novidades – ou, pior, nos sufoca com um excesso de notícias trágicas cujo conjunto causa um efeito de anestesia, ou então uma ansiedade tão difusa que não encontramos chão para enfrentá-la.

Na travessia de 1984, ao contrário, os eventos que se sucederam – tempestades, perrengues com equipamentos, sprays de baleia, arco-íris de lua – apontavam para um sentido narrativo no tempo e no espaço. “É mais fácil enfrentar tubarões do que o tédio?”, pergunta Werneck. A resposta do entrevistado, que lidou bem com as aflições psicológicas durante o percurso, não deixa dúvida: “Eu sentia que estava construindo uma obra, indo para algum lugar, e essa sensação é muito gratificante”.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26/6/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (22)

Uma entrevista – Angela Davis sobre os protestos nos EUA (aqui).

Um texto – Mark Bray sobre antifascismo e história (aqui).

Uma série – Olhos que Condenam.

Uma reprise – Malcolm X, Spike Lee.

Um documentário – Geraldinos, Renato Martins e Pedro Asbeg (aqui).

 

Fim de semana + quarentena (21)

Um documentário – Bully, Coward, Victim, Ivi Meerpol.

Uma entrevista – Ivi Meerpol sobre Roy Cohn (aqui).

Um texto – Michael Ignatieff sobre Raphael Lemkin e o genocídio (aqui).

Um disco – Consummation, Katie Von Schleicher.

Um audiolivro – Cem Dias entre o Céu e o Mar, Amyr Klink.

Fim de semana + quarentena (20)

Um livro – Falso Espelho, Jia Tolentino (Todavia, 368 págs.).

Um artigo – Paulo Pachá e Thiago Krause sobre a derrubada de estátuas (aqui).

Um filmete – Sul do Brasil, 1942 (aqui).

Um documentário sobre Black Alien – Mr. Niteroi, Ton Gadioli (aqui).

Uma entrevista sobre Renato Russo – Carlos Trilha (aqui).

Fim de semana + quarentena (19)

Uma entrevista – Deborah Danovski sobre o fim do mundo (aqui).

Outra – Silvio Almeida sobre racismo (aqui).

Um podcast – Baldwin x Faulkner, no History of Literature.

Outro – Frantz Fanon, no History of Ideas.

Um romance – As Sobras de Ontem, Marcelo Vicintin (Companhia das Letras, 214 págs.).

Fim de semana + quarentena (18)

Um ensaio de 1977 – Why look at Animals?, John Berger.

Uma reportagem – A CNN brasileira, por Fabio Victor (aqui)

Uma performance – Flaming Lips (aqui).

Um documentário sobre música – Whitney, Kevin McDonald.

Uma série sobre cinema – Five Came Back.

Vida x obra, de novo

Volto a Nelson Rodrigues para refazer a antiga pergunta sobre como lidar com artistas ambivalentes, cuja obra confirma, reflete ou desmente uma atitude política e moral condenável na vida civil. É um assunto em voga no Brasil há alguns anos, com a tendência de se tornar incontornável à medida que o governo atual escancara – se alguém ainda não havia percebido – sua natureza anti-humana.

O projeto da barbárie brasileira foi e vem sendo apoiado por artistas de todo tipo, dos conhecidos (Regina Duarte) aos obscuros (Theo Becker), dos que tiveram relevância em sua área em algum período (Roger Moreira, Roberto Alvim) aos eternos candidatos a algo mais que a nulidade (Marcio Garcia, Mario Frias). Como o futuro julgará os atos políticos de todos eles me parece claro, se ainda restar alguma decência entre nós. Como julgará seus legados como atores, músicos, diretores teatrais e assim por diante é outra história.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/5/2020. Íntegra aqui.

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