Michel Laub

Mês: novembro, 2019

Fim de semana

Um romance – A Ordem do Dia, Éric Vuillard (Tusquets, 142 págs.).

Um artigo – Charlotte Beradt e os sonhos durante o nazismo (aqui.).

Outro – Daniel Galera sobre animais e crueldade (aqui).

Um filme – Parasita, Bong Joon-Ho.

Um vídeo – Bastidores de Os Bons Companheiros (aqui).

Apocalipse agora, depois e antes

“Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer esse mundo”, disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro numa entrevista a Eliane Brum publicada no El Pais, em 2014, citando ideias do pensador alemão Günther Anders. “Nós estamos virando o contrário (…). A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensá-la.”

Viveiros de Castro talvez não esteja se referindo à literatura “stricto senso”, mas poderia estar. Se o triunfalismo do discurso técnico nos aprisiona em parâmetros utilitários e amorais, algo que tanto pode nos salvar quanto destruir, a ficção tem o poder de ampliar esses limites – com perguntas inesperadas, eventualmente indigestas, que levam a respostas salvadoras ao menos no campo da sensibilidade. É o que faz um romance como A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (Todavia, 116 páginas), ao introduzir nuances do fator humano – no fim das contas, o único importante quando se fala de progresso – numa discussão sobre o futuro.

Situado por volta de 2030, depois de uma catástrofe que extinguiu a Amazônia, o livro é em parte narrado por um funcionário do governo mexicano a quem coube trazer ao seu país, como exilados políticos, os cinquenta últimos remanescentes da etnia indígena kaajapukugi. A tarefa lhe foi passada pelo sertanista Boaventura, primeiro a ter contato com esse povo então isolado, cujos costumes ele conheceu nos anos 1980 e registrou – é a segunda voz do romance – num depoimento em vídeo pouco antes de morrer.

A Morte… remete a Viveiros de Castro não só pela imaginação oceânica de Terron, capaz de pensar nos efeitos de muitas das bombas armadas por nossas escolhas políticas e culturais das últimas décadas, mas por juntar ao tradicional formato da distopia – a descrição de um futuro terrível a partir de elementos reconhecíveis da realidade próxima – uma ideia cara ao antropólogo: a de que o apocalipse também pode ser um evento do presente e do passado.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 22/11/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – O Irlandês, Martin Scorsese.

Um filme médio de 1988 – Tucker, Francis Ford Coppola.

Um documentário – Fyre Festival, Chris Smith.

Uma série – Euphoria.

Um livro – Os Vendedores de Cigarro da Praça Três Cruzes, Joseph Zieman (Três Estrelas, 210 págs.).

Sonhos, imaginação, futuro

Qual a função de um sonho? Para chefes militares do passado, podia ser escolher estratégias de batalha. Para Kekulé, foi visualizar a estrutura do benzeno. Para Elias Howe, perceber que uma pequena mudança no uso da agulha permitiria inventar a máquina de costura. Para Paul McCartney, ouvir pela primeira vez os acordes de Yesterday.

Em O Oráculo da Noite (Companhia das Letras, 459 págs.), Sidarta Ribeiro conta essas e outras histórias dentro de uma grande história científica e cultural do que acontece quando estamos de olhos fechados, esse “modo de consciência off-line” que estaria na origem – por exemplo – da criação dos deuses e da religião.

Escrito por um dos cientistas brasileiros de maior prestígio hoje, trata-se de um apanhado longo e erudito que passa por diferentes épocas e culturas, dos primeiros mamíferos aos ocidentais pós-neurociência, dos sumérios, egípcios e babilônios aos ciborgues da era da informática, usando a experiência pessoal na pesquisa de ponta e ferramentas de áreas como biologia, antropologia, psicanálise e literatura.

O oráculo do título tem pouco de esotérico. Sidarta relaciona mecanismos de fixação e reestruturação da memória – que ocorrem em fases diferentes do sono – com aspectos importantes de nossa evolução como espécie. Enredos oníricos, remetam eles a episódios que ocorreram de fato ou a sentidos que parecem incoerentes, funcionariam como simulações preparatórias para situações que enfrentaremos acordados. Ou seja, uma mistura de consolidação do conhecimento e, se o sonho certo conseguir ser interpretado do modo certo, profecia que interfere no futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8/11/2019, sobre os livros O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, e Sapiens, de Yuval Noah Harari. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição no IMS – Harun Farocki.

Outra – Susan Meiselas.

Um filme – Divertida Mente, Pete Docter.

Uma remontagem – Os Sete Afluentes do Rio Ota, Monique Gardenberg.

Um romance – A Morte e o Meteoro, Joca Reiners Terron (Todavia, 120 págs.).

Egopress

– Nesta terça, 5/11/, às 19h30, na FFLCH/USP, estarei com a Noemi Jaffe numa das mesas do seminário “O escritor como historiador do seu tempo”. Programação completa: shorturl.at/jkF56

– O número de novembro da revista italiana The Passenger, dedicado ao Brasil, tem um texto meu sobre literatura e diversidade: https://iperborea.com/titolo/543/

– Artigo de Emily Baker, da Universidade de Cambridge, sobre Diário da Queda: shorturl.at/gwFS6

– Podcast de Antônio Fagundes sobre livros, com recomendação do Tribunal da Quinta-Feira: shorturl.at/fmwzX

– Vídeo da série Livro de Cabeceira, em que falo de Menina Sem Estrela, do Nelson Rodrigues: shorturl.at/sARW8

Fim de semana

Um livro – O Oráculo da Noite, Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras, 460 págs.).

Um filme – Meu Nome é Dolemite, Craig Brewer.

Um filme ok – A Lavanderia, Steven Soderbergh.

Uma exposição – Cildo Meirelles, Sesc Pompeia.

Um disco – Ode to Joy, Wilco.

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