Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (4)

por Michel Laub

Antonio Xerxenesky, autor de Areia nos dentes – “É raro que eu escreva ficção sem estar bebendo. Bebendo (gerúndio), não bêbado (odeio muito), que fique claro. Cada conto ou pedaço de romance precisa encontrar sua bebida adequada. A do Areia nos Dentes foi (óbvio) tequila. Camino Real, sete dólares no free shop, para ser específico. Isso explica porque quase só escrevo de noite, já que não é do meu feitio beber de dia (ref. Ética). Isso também explica porque prefiro revisar durante o dia, quando a sobriedade e a lucidez imperam e a bebida oficial é o café preto.”

Daniel Galera, autor de Cordilheira – “Eu gosto de escrever com uma janela do lado, dando para qualquer tipo de vista aberta. Prefiro também começar a escrever quando não tenho mais nada pra fazer naquele dia. Se for de manhã, funciona melhor quando sei que não há compromissos ou cosias a resolver até o dia seguinte. Gosto de ler enquanto escrevo. Às vezes levanto da mesa e vou folhear um livro que gosto. Roupas: Indiferente. Música: prefiro não ouvir, mas se ouvir tem que ser algo meio de fundo, como gravações antigas de blues em volume baixo ou ambient music de bandas como Stars of the Lid. Outros hábitos: café e uma dose de single malt. Duas doses podem funcionar às vezes. A terceira dose arruina a sessão.”

Marcelino Freire, autor de Rasif – “Não tenho hora para escrever. Sempre estou atrasado. Paro em frente ao computador só quando a frase não pode mais esperar. Guardo a coisa até estourar. Algo que ouvi na rua, algum som que catei na TV. A partir dessa primeira faísca é que vou contando/cantando a história, sem saber aonde ele vai dar, às cegas. Não acendo incensos. Para não afastar os fantasmas. Não posso ouvir música. Tenho de estar em silêncio. Todo concentrado para a palavra – uma vez que ela, repito, é o meu guia. Neste escuro, neste abismo e maravilha! Quando pego o ritmo, a voz do personagem. Quando sei que não mais o perderei de vista. Dou um breque. Uma paradinha e pego uma cerveja. Uma só, para não ficar bêbado. Não consigo escrever embriagado. Tudo em mim tem de estar ligado . Sóbrio e afinado. Para ouvir, sem intermediários e sem atrapalhos, o que eu tenho a dizer. Sempre cercado de dicionários. Palavras de todo tipo. Essa é minha ladainha. O resto, amigo, sai na purpurina. E tenho dito.”

Rodrigo Levino, autor de Dias estranhos – “Eu sou eu e minha rede. Não consigo escrever sentado, acho impraticável para dizer a verdade. Digo, sentado como se imagina alguém sentado. Gosto/só consigo escrever bem mezzo deitado mezzo sentado numa rede de balanço ou, a depender das circunstâncias, na cama. Apóio os braços em cima de algo – montanha de travesseiros ou bordas da rede – e faço da cama/rede uma poltrona onde posso esticar as pernas e, no caso da rede, praticar o balanço, sendo o dedão do pé ou o cotovelo as forças propulsoras. Prefiro escrever à noite, com poucos intervalos, tomando café. Todo início é um parto, fico dias escolhendo a primeira frase/cena. Quanto mais janelas abertas, melhor. Já escrevi bêbado, eu tinha dezoito anos.”

Sérgio Rodrigues, autor de Elza, a garota – “Sou avesso a superstições e rituais. Escrevo sempre no computador, Word, Times New Roman, corpo 12, mas isso não tem nada de mais. O que tento fazer é criar uma atmosfera confortável, tipo bermuda-e-camiseta ou bermuda só, e de distração mínima – o que significa basicamente deixar o telefone na secretária eletrônica e resistir à tentação de conferir emails e navegar na internet. Já tive fases de escrever só noite adentro, depois que a casa inteira dormia, e em nome de um certo espírito dionisíaco ficar bebendo uísque ou, nas raras ocasiões em que o inverno carioca merecia este nome, conhaque (ainda acho o conhaque uma bebida profundamente literária, não me pergunte por quê). Mas ultimamente tenho virado cada vez mais um trabalhador diurno e sóbrio. Seja como for, escrever é quase sempre um trabalho meio doloroso. Gosto mesmo é do que vem depois: editar o material bruto, cortar, montar os pedaços em outra ordem, preencher lacunas. Isso é tão prazeroso e envolvente que nessa hora nem faz diferença se o telefone toca ou os emails pipocam.”

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