Michel Laub

Mês: abril, 2015

Houellebecq, estômago e submissão

Em 1998, o filme “Nova York sitiada” antecipou parte do que aconteceria com o mundo a partir de 2001: 1) novo e descentralizado tipo de jihadismo, treinado pela CIA em sua origem, causa grande tragédia numa metrópole americana; 2) em pânico justificado, cidadãos exigem reação do governo; 3) Opta-se pelo caminho militar/policialesco, que estimula a intolerância étnica/religiosa e avança sobre direitos civis.

Tanta acuidade histórica, no entanto, não gerou uma obra esteticamente relevante. Talvez porque as boas ideias do roteiro, escrito pelo prêmio Pulitzer Lawrence Wright, precisassem ser traduzidas pelo esquematismo hollywoodiano de Bruce Willis e companhia. Uma coisa é o que se diz, outra é como se diz. Embora as duas dimensões se misturem em algum nível na arte, é na segunda que está a possibilidade de transcender o que já se sabe assistindo ao noticiário ou lendo os especialistas.

Publicado na Folha de S.Paulo, 24/4/15. Íntegra aqui.

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Fim de semana

Um disco – Sound and collor, Alabama Shakes.

Outro – Singles, Future Islands.

Um documentário com momentos – André Midani, Conspiração Filmes.

Um filme – Acima das nuvens, Olivier Assayas.

Um livro – Submissão, Michel Houellebecq (Alfaguara, 256 págs.).

Egopress

A maçã envenenada teve os direitos vendidos para o francês (Buchet Chastel) e para o inglês (Harvill Secker).

Diário da queda, cuja edição em paperback acaba de sair na Inglaterra pela Harvill/Vintage, com tradução da Margaret Jull Costa, ganhou o prêmio JQ Wingate (http://goo.gl/pncS1s).

Feriado

Um livro – So you’ve been publicly shamed, Jon Ronson (Riverhead Books, 304 págs.).

Um disco – Carrie and Lowell, Sufjan Stevens.

Uma série ok – The americans.

Um cachorro quente – Imbiss.

Um filme – Leviatã, Andrey Zvyagintsev.

Viagens invisíveis

Muito antes do Instagram e das poses de Francisco Cuoco na piscina de Caras, com um pouquinho mais de ênfase que a dos pensadores dedicados ao tema nas últimas décadas, o escritor e dramaturgo Thomas Bernhard definiu a fotografia como “mania sórdida”, uma “doença que acometeu toda a humanidade” e, em suma, “a maior desgraça do Século 20”.

Em certas circunstâncias, é difícil não ver na sátira do trecho – tirado do romance “Extinção”, de 1986 – algo de profético. Nas atuais viagens, por exemplo: se há algo que não está em falta no Século 21, ao menos quando falamos do turismo de classe média/alta no Ocidente, são imagens de metrópoles cada vez mais parecidas nos costumes, no comércio, nas atrações culturais.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/4/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Mapas para as estrelas, David Cronenberg.

Uma performance de 2010 – LDC Soundsystem na chuva (aqui).

Um livro de poemas – Rabo de baleia, Alice Sant’Anna (Cosac Naify, 64 págs.).

Outro – Escuta, Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras, 134 págs.).

Uma montagem que voltou a cartaz – Comunicação a uma academia, dir. Roberto Alvim.

O Big Bang da ansiedade

Um amigo costuma dizer que o verdadeiro Big Bang é nossa mãe. Entendo: o que somos pode ter tudo a ver com a expansão da matéria e o caráter ondulatório do universo, entre outras abstrações da astronomia, mas há mistérios igualmente profundos na genética para explicar como chegamos até aqui.

No caso de Scott Stossel, autor do recém-lançado Meus tempos de ansiedade (Companhia das Letras, 520 páginas), o enunciado do mistério é peculiar. Bisneto de um pró-reitor de Harvard que passou seus últimos anos em posição fetal, emitindo “sons inumanos” em casa ou num hospício, este jornalista americano bem sucedido, casado e pai de dois filhos conta que há 35 anos, 2 meses, 4 dias, 22 horas e 49 minutos tem medo de vomitar.

Publicado na Folha de S.Paulo, 16/1/2015. Íntegra aqui.

Feriado

Um filme – O ano mais violento, J.C. Chandor.

Outro – Foxcatcher, Bennett Miller.

Uma exposição em Paris – Pieter Hugo, Fundação Cartier-Bresson.

Um ensaio –  Fukuyama sobre o esgotamento do neoconservadorismo americano (aqui).

Um livro – Por escrito, Elvira Vigna (Companhia das Letras, 312 págs.).