Michel Laub

Mês: setembro, 2022

Fim de semana

Um romance – Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry (Alfaguara, 388 págs.).

Um disco de 2017 – Soft Sounds from Another Planet, Japanese Breakfast.

Uma conversa de 1983 – Jorge O Mourão, Nelson Motta e Scarlet Moon (aqui).

Um perfil – Jorge O Mourão por Claudio Leal (aqui).

Uma reportagem – A extrema direita e o PDT, por Marie Declercq (aqui).

Fim de semana

Uma exposição – Cidades americanas, Pinacoteca/SP.

Um filme – Memória, Apichatpong Weerasethakul.

Um artigo – Wolfgang Tillmans e um mundo que termina (aqui).

Outro – Mishima sobre Tanizaki (aqui).

Um romance – Diorama, Carol Bensimon (Companhia das Letras, 288 págs.).

Mente literal x mente irônica

No dia em que escrevo, Salman Rushdie ainda se recupera das facadas que levou durante um evento em Chautauqua (EUA), mais de trinta anos depois de ter sido condenado à morte pelo Aiatolá Khomeini por causa do seu romance Os Versos Satânicos (1989). A história é conhecida: o escritor anglo-indiano passou quase uma década escondido, retornando à vida normal sem que o decreto religioso que o condenou por blasfêmia contra o islã fosse devidamente revogado.

O caso Rushdie tem um simbolismo que o tempo permite enxergar com mais clareza. Na época, seu calvário foi visto como exceção à regra de um mundo que se tornava mais tolerante, ao menos no Ocidente e suas periferias, com o fim da União Soviética e das ditaduras latinas – substituídas por regimes que prometiam laicismo, livre circulação de pessoas e mercadorias, redução da pobreza e respeito aos direitos humanos.

Na verdade, aquela foi uma pausa breve e artificial no que esse mundo sempre foi: um lugar instável e violento, inserido numa história que não tem sentido linear rumo ao progresso. A desigualdade, o consumismo, as mudanças tecnológicas que tornaram obsoleta uma massa imensa de trabalhadores, além da crise climática e dos desastres promovidos pelo unilateralismo norte-americano, foram campo fértil para o crescimento de aiatolás de todo gênero, o que hoje é senso comum na política dentro e fora das redes sociais.

Rushdie chamou o episódio dos Versos de “guerra entre a mente literal e a mente irônica”. E uma boa definição, que serve tanto para eventos de repercussão global quanto para a realidade próxima. As diferenças são de escala e intensidade, não de natureza. Entre tantos exemplos ocorridos entre autores brasileiros nos últimos tempos, Julián Fuks foi ameaçado de morte depois de escrever um texto em linguagem figurada no UOL, e João Paulo Cuenca virou réu em mais de 100 processos orquestrados por uma igreja – uma das aliadas do atual governo – depois de fazer uma piada no Twitter.

Início de trecho publicado no Valor Econômico, 16/9/2022. Íntegra aqui.

Gatos e guerras

Nunca entendi muito o culto a Haruki Murakami. Ou talvez tenha entendido: nos livros dele que li, todos sobre tipos solitários vagando entre referências de música, de cultura japonesa ou de ficção especulativa clássica, frases simples sobre coisas simples parecem querer evocar algo de cool – um toque de mistério existencial, digamos –, o que costuma ter lá seu apelo.

Em Abandonar um gato, publicado agora no Brasil pela Alfaguara (108 págs., tradução de Rita Kohl e ilustrações de Adriana Komura), o procedimento mostra seu poder e seus limites. Por um lado, a banalidade elevada está lá: “descer é muito mais difícil do que subir”; “os resultados engolem rapidamente as causas”; “se eu conseguisse enxergar através da palma das minhas mãos, não me surpreenderia”.

Por outro, a forma com que isso é espalhado no texto muda o efeito do conjunto. A exemplo do que ocorre com um Guimarães Rosa ou uma Clarice Lispector, cujas pílulas destacadas em redes sociais às vezes soam como demagogia ou autoajuda, é preciso olhar para o todo – o lugar-comum grudado à perspectiva de quem narra, o que pode dar sabor próprio e grandeza à soma dos fragmentos dessa voz.

Publicado no Valor Econômico, 20/8/2022. Íntegra aqui.

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