Michel Laub

Mês: outubro, 2015

O Rei de Jerusalém em alto-mar

Joseph Conrad em A linha de sombra (Hemus, 165 págs., tradução de Maria Antonia Von Acker):

“Havia momentos em que eu sentia não só que iria enlouquecer, mas que já tinha enlouquecido; de modo que não ousava abrir a boca por medo de me trair com algum grito insano. Felizmente só tinha ordens a dar, e uma ordem tem uma influência estabilizadora sobre aquele que a deve dar. Além do mais, o marinheiro, o oficial de quarto dentro de mim, estava suficientemente são. Eu era como um carpinteiro louco fazendo uma caixa. Por mais que ele estivesse convencido de ser o Rei de Jerusalém, uma caixa que ele fizesse seria uma caixa sã.”

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Fim de semana

Um filme – Love & Mercy, Bill Pohlad.

Um documentário de 2011 – Page one: inside the New York Times, Andrew Rossi.

Uma reportagem – Vida, morte e pós-morte de um anônimo em NY (aqui).

Uma palestra – Gilberto Vasconcellos sobre Câmara Cascudo (aqui).

Um disco – Fading Frontier, Deerhunter.

Cobras, gatos, netos

Francisco Alvim em O metro nenhum (Companhia das Letras, 89 págs.):

COBRA – a que continua viva/ depois de morta/ é a que pica mais forte// Por isso é mister/ esconder o pau/ (e não mostrá-lo/ como pensa o vulgo)// Assim nunca saberá/ a cobra/ de onde baixa o porrete/ eternidade afora

PIORA – Adotou um gatinho/ que ia visitar toda semana/ no asilo/ de gatinhos velhinhos/ Quis procurar o dono do cavalo/ cabisbaixo/ fincado nas quatro patas/ que via todo dia na beira/ do trilho/ quando passava no/ trem/ Uma vez quase desceu de sua sala/ para falar com o mendigo da praça/ dono de um cachorro/ mais estropiado do que o/ admissível/ cujo sofrimento era o dele/ cachorro/ e o dela

HISTÓRIAS DE NETO – São muito chatas/ Mas esta vale a pena/ A babá/ mocinha tinha treze catorze anos/ resistiu quanto pôde/ mas acabou que/ confessou tudo/ Só que o tudo era outra coisa/ muito pouco/ quase nada/ cinco reais um lençol um quilo de arroz/ o Cartier, negou/ Ele três aninhos só ouvindo/ e/ de repente:/ (nunca vi criança tão inteligente)/ Mas que perigo/ podiam ter roubado/ a minha chupeta

Fim de semana

Uma reportagem – Consuelo Dieguez sobre o BNDES na Piauí.

Um relato – Oliver Sacks sobre os últimos anos de Spalding Gray, idem.

Um documentário médio – Life itself, Steve James.

Outro – Keith Richards: under the influence, Morgan Neville.

Um livro – O oitavo selo, Heloisa Seixas (Cosac Naify, 192 págs.).

O universo é um eufemismo

Mathieu Lindon em O que amar quer dizer (Cosac Naify, 287 págs., tradução de Marília Garcia):

“Tenho tendência a dizer ‘Menti’ em vez de ‘Me enganei’, ‘Posso roubar seu lápis por um minuto?’ em vez de ‘Me empresta?’, porque é assim que gosto de brincar com a língua, como meu irmão adolescente dizia que era preciso ‘comer os remédios’, que é o que todo mundo faz, só que ninguém diz dessa forma. Gosto de injetar um pouco de inadequação, de brutalidade na linguagem porque não consigo evitar que, seja qual for a situação, mesmo a mais delicada, a brutalidade e a inadequação sejam sempre a melhor maneira de descrevê-la. O universo inteiro não passa de um eufemismo.”

Feriado

Um documentário – Amy, Asif Kapadia.

Outro –Who Is Harry Nilsson (And Why Is Everybody Talkin’ About Him)?, John Scheinfeld.

Um filme estranho – Jauja, Lisandro Alonso.

Um romance brasileiro – O ano em que vivi de literatura, Paulo Scott (Foz, 251 págs.).

Outro – Enquanto Deus não está olhando, Débora Ferraz (Record, 366 págs.).

Egopress

Nesta sexta, 9/10, às 20h, estarei com a Clara Averbuck numa das mesas da Feira do Livro de São Luís/MA. Programação completa aqui.

Fim de semana

Uma coletânea de poesia – O Livro das semelhanças, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um romance – Pssica, Edyr Augusto (Boitempo, 94 págs.).

Um filme – A pele de vênus, Roman Polanski.

Um filme médio – Love, Gaspar Noé.

Um disco – B’lieve I’m goin down…, Kurt Vile.