Michel Laub

Mês: fevereiro, 2010

Fim de semana

Um livroImperium, de Ryszard Kapuscinski (Vintage, 352 págs.).

Uma peçaIn on it, dir. Enrique Diaz.

Um discoIRM, Charlotte Gainsbourg.

Um lugar para fazer calor profundo e tomar choque – Clínica Ortopédica Rebouças.

Um filme mais ou menosEducação, de Lone Scherfig.

Um filme excepcionalVício frenético, de Werner Herzog.

Três opiniões sobre artes

João Cabral de Melo Neto numa entrevista à Gazeta Mercantil, 1997 – “Não gosto de música, nunca gostei. Sou completamente surdo para a música: quando vou a um concerto a minha vontade é dormir.”

 Thomas Bernhard em Extinção (Companhia das Letras, 476 págs.) – “Fotografar é uma paixão abjeta que se apoderou de todos os continentes e todas as camadas sociais, uma doença de que foi acometida toda a humanidade e da qual não pode mais ser curada. O inventor da arte fotográfica é o inventor da mais desumana de todas as artes. A ele devemos a definitiva deformação da natureza e do ser humano que nela vive, reduzidos à careta perversa de um e de outro (…). A fotografia é a maior desgraça do século xx.”

Alexandre Soares Silva em seu formspring  “Não entendo teatro. Não entendo a reação das pessoas no teatro. Um ator diz algo que, se você visse pela televisão e estivesse sozinho em casa, você mal sorriria, e no teatro você dá uma gargalhada (…). Nunca vou me esquecer da gargalhada que o meu vizinho de cadeira deu em A Morte do Caixeiro Viajante, quando Marco Nanini abriu a geladeira e disse: ‘General Electric é uma merda!’”

Filmes em cartaz

Invictus – A única vez nas últimas décadas em que, não se tratando de cinema oficialesco, alguém mostra o ufanismo de maneira positiva. Politicamente se justifica, e a trama sobre esporte como instrumento de integração racial na África do Sul tem seu interesse para quem nunca ouviu falar a respeito, mas o resultado é frio, sem grandes sobressaltos para o bem e para o mal. A impressão é que os elogios da crítica se devem menos a qualidades estéticas – as tão aclamadas sequências de rugby são inferiores, por exemplo, às de futebol americano na versão sem cortes de Um domingo qualquer – do que a uma simpatia prévia, e também justificada, por Clint Eastwood, Morgan Freeman e Nelson Mandela.

Um homem sério – Imagino que não exista nada mais divertido para os irmãos Coen que escrever e filmar a cena onde um personagem é apresentado. A obra inteira dos dois poderia ser defendida apenas por esses momentos, e no filme eles estão muito bem representados pelas primeiras vezes em que aparecem o amante, o professor de hebraico, o advogado de imóveis, o terceiro rabino. E ainda há todo o resto: uma quintessência do melhor humor judaico baseado na perspectiva iminente de uma tragédia, aqui temperada pelo mote de sempre dos Coen, a hora em que o protagonista resolve pegar um dinheiro que não é seu ou ter um caso com a mulher de um amigo ou vizinho. É curioso como a dupla continua sendo definida – ou acusada – pelo suposto cinismo. Com um desfecho que remete ao deus punitivo do antigo testamento, Um homem sério é mais um dos exemplos que, de Blood simple a Fargo, de O homem que não estava lá a Onde os fracos não têm vez, provam justamente o contrário.

A mulher ideal segundo Edward Bunker

Trecho de Educação de um bandido (Barracuda, 380 págs.):

“Dirigimos até Pasadena, onde assistimos a Frank Sinatra interpretar um comediante da época da Lei Seca, Joe E. Lewis, em Chorei por você (…). Parei de acompanhar o filme enquanto pensava no corpo de Sandy ao meu lado. Eu fazia o jogo da espera (…), certo de seu desprezo por um homem  que ela pudesse controlar pelo desejo sexual. Agora ela estava pronta para ser minha mulher. A ideia era inebriante. Era a fêmea perfeita (…), formada nas ruas mas educada. O fato de ela ter sido garota de programa era ótimo para mim. Não me servia uma garota certinha que, se eu fosse para a cadeia, entrasse na sala de visitas para chorar na vidraça. Eu queria uma parceira que pudesse seduzir o agente de fianças, e o fizesse, para me tirar.”

O que fazer quando se está no pavilhão de isolamento de um hospício

Patrick McGrath em Spider (Companhia das Letras, 240 páginas):

“Mesmo quando um homem não tem nada que possa considerar seu ele dá um jeito de adquirir alguns bens; depois arranja um meio de esconder suas coisas dos atendentes. O que se faz (…) é amarrar a ponta de um barbante no passador do cinto e a outra na boca de um pé de meia, deixando depois a meia pendurada por dentro da calça. A bolsa serve para guardar tabaco, material de costura, lápis e papel, mais barbante (…). Os homens se apegam a suas meias”.

Fim de semana

Um livro Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll (Cosacnaify, 168 págs.).

Uma reportagem – João Moreira Salles sobre o matemático Artur na Piauí de janeiro.

Um ensaio – Tony Judt sobre Edward Said na Piauí de fevereiro.

Um discoWilco (The Album).

Um restaurante na Vila Guilherme – Mocotó.

Um filmeChérie, de Stephen Frears.

Hello