“Deus prefere os suicidas.” “O povo não entende o perdão e prefere o tiro.” “A opinião pública é uma doente mental.” “Como é antigo, senil e mumificado o passado recente”.
O estilo não deixa dúvidas: estamos no mundo de Nelson Rodrigues. Algo nele se comunica com o que vivemos em 2020, como costuma ocorrer com grandes obras em relação a qualquer tempo. Por isso aproveito a quarentena para reler um livro que traz beleza em sua tragédia, humor em seu desalento, num paradoxo adequado a um momento tanto de horror quanto de reflexão: A Menina Sem Estrela, a autobiografia do dramaturgo, romancista e cronista pernambucano de nascimento, carioca em sua essência.
Como muita coisa na vida de Nelson, o livro surgiu de um acaso. Em 1967, conta Ruy Castro no prefácio da edição que a Companhia das Letras lançou nos anos 1990 (há uma mais recente, da Agir), o autor foi convidado pelo jornal Correio da Manhã para escrever suas memórias numa série de crônicas. Ele tinha então 55 anos, seu romance “O Casamento” recém havia sido proibido, e o jornal onde escrevia sobre futebol – o Globo, que manteve sua coluna em paralelo à série do Correio – apoiara a censura.
Um pouco por desforra, um pouco para aumentar a renda que pagava o tratamento caro de sua filha cega – a menina do título da coletânea –, Nelson aceitou o convite e publicou 80 pequenas joias que também trazem lembranças “do futuro e de várias alucinações”. O impacto delas no leitor de agora, claro, não precisa incluir afinidades de opinião: A Menina Sem Estrela corrobora uma visão às vezes obtusa, reacionária em termos de política e de costumes, que podemos condenar sem risco de anacronismo.
Como o efeito de tudo que escreveu, no entanto, o próprio Nelson sempre foi contraditório. É como se a exuberância de seu estilo, baseado numa sucessão de hipérboles, metáforas e adjetivos passionais, encharcados de fascínio e espanto, a cada momento dissesse o contrário do seu valor de face: há um profundo amor pela falibilidade humana, pelo gesto instintivo e efêmero, no que parece apenas a nostalgia de um passado mítico (onde ainda existem a castidade, o “pudor de véspera”, o luto “desgrenhado e siciliano” de viúvas em enterros). Não há como ler Nelson Rodrigues e não ser tocado por uma sensibilidade libertária: sua fé da “alma imortal” é também uma denúncia da nossa hipocrisia cotidiana, dos pequenos e grandes despotismos que governam nossa vida na política, no trabalho, na família.
Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 30/4/2020. Íntegra aqui.
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