Michel Laub

Mês: agosto, 2019

Fim de semana

Um filme – Dor e Glória, Pedro Almodóvar.

Um documentário – George Harrison: Living in the Material World, Martin Scorsese.

Uma série – Years and Years.

Uma entrevista – Henrique Vieira e a tolerância evangélica (aqui).

Um disco – High Highs to Low Lows, Lolo Zouaï.

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Liberalismo, tempo e espaço

Ivan Krastev e Stephen Holmes, na Piauí, sobre a escalada do autoritarismo no leste europeu:

“Um dos problemas cruciais do comunismo era o fato de seu ideal ser uma sociedade que jamais existira e que ninguém tinha certeza de que, algum dia, viria a existir. Um dos problemas centrais das revoluções ocidentalizantes, por sua vez, é que o modelo que almejam imitar está em constante transformação. A utopia socialista pode ter sido algo inalcançável, mas ao menos ela possuía uma reconfortante imutabilidade. A democracia liberal ocidental, ao contrário, tem se mostrado mutante e mutável ao extremo. Como a normalidade ocidental é definida não por um ideal, e sim por uma realidade existente, cada mudança nas sociedades ocidentais produz uma nova imagem do que seja normal. Assim como as empresas de tecnologia insistem em que compremos seu modelo mais novo e tornam difícil a confiança no anterior, o Ocidente insistiu em que o único modelo político pós-nacional europeu que valia a pena era o mais recente.

O efeito perturbador de uma “normalidade” fugidia e cambiante pode ser mais bem ilustrado pelo modo como europeus do Leste reagiram às normas culturais em constante mutação nas sociedades ocidentais ao longo das últimas duas décadas. Aos olhos dos poloneses conservadores da época da Guerra Fria, as sociedades ocidentais eram normais porque, ao contrário do que ocorria nos sistemas comunistas, valorizavam a tradição e acreditavam em Deus. Então, de repente, descobriram que a ‘normalidade’ ocidental hoje significa secularismo, multiculturalismo e casamento gay. Será motivo de surpresa que os poloneses e seus vizinhos tenham se sentido ‘enganados’ quando descobriram que a sociedade que queriam imitar tinha desaparecido, levada pela correnteza veloz da modernização?

Se, imediatamente após os acontecimentos de 1989, a ‘normalidade’ era entendida em termos políticos (eleições livres, separação dos poderes, propriedade privada e direito de ir e vir), ao longo da última década passou a ser cada vez mais interpretada em termos culturais. Como consequência disso, a Europa do Leste está se tornando mais desconfiadas das normas, agora ofensivas, provenientes do Ocidente. Ironicamente (…), está começando a se ver como o último bastião dos valores genuinamente europeus.

Com o intuito de reconciliar a ideia do ‘normal’ (no sentido daquilo que é disseminado) com o que é norma obrigatória nos países que almejam imitar, os europeus orientais começaram a, consciente ou inconscientemente, ‘normalizar’ os países que tomam como modelo, argumentando que o que é disseminado no Leste prevalece também no Oeste, embora os ocidentais, hipócritas, finjam que suas sociedades são diferentes. Com frequência, os europeus orientais atenuam sua dissonância normativa – entre, digamos, pagar suborno para sobreviver no Leste e combater a corrupção para serem aceitos pelo Ocidente – concluindo que o Ocidente, na verdade, é tão corrupto quanto o Leste, só que os ocidentais simplesmente se recusam a admiti-lo, escondendo a verdade.

Jamais se pensou numa revolução liberal da normalidade como um salto no tempo – de um passado sombrio rumo a um futuro radiante. Em vez disso, a revolução era imaginada como um movimento através do espaço físico, como se todo o Leste Europeu fosse ser transferido para a Europa Ocidental, antes conhecida apenas de fotografias e filmes. Analogias explícitas foram traçadas entre a Reunificação da Alemanha, após a queda do Muro de Berlim, e a ideia de uma Europa unificada. No começo da década de 90, muitos europeus orientais de fato ardiam de inveja dos alemães orientais, incrivelmente sortudos. Da noite para o dia, haviam passado coletivamente para o Ocidente e, por milagre, acordado com passaportes alemães ocidentais nas mãos e com as carteiras cheias (pensavam alguns) de marcos ocidentais nos bolsos. Se a revolução de 1989 era uma migração regional rumo ao Ocidente, então a questão central era saber que países do Leste Europeu chegariam primeiro a seu destino comum.”

Fim de semana

Um depoimento – Arthur Nestrovski sobre João Gilberto (aqui).

Uma exposição no IMS – Sergio Larrain

Outra – Letizia Battaglia.

Uma reportagem – O racismo nas conversas de Reagan e Nixon (aqui).

Um romance – Serotonina, Michel Houellebecq (Alfaguara, 240 págs.).

Conrad no espelho

Talvez Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857–1924), cuja nova edição brasileira acaba de sair pela Ubu (224 págs., tradução de Paulo Schiller), ainda possa ser lido como mero romance de aventura. Afinal, algumas convenções do gênero – a descrição de ambientes exóticos, a narrativa que acumula peripécias – são honradas com brilho em suas páginas.

Mas é difícil não ver nos dilemas da história, inseridos numa prosa ao mesmo tempo rigorosa e exuberante, simbólica e documental, escrita por um autor de origem polonesa no inglês que só mais velho ele dominou por completo, uma tentativa de atingir os céus ingratos da alta ficção.

Ao longo do Século XX, a crítica parece ter entendido o jogo proposto por Conrad. A interpretação mais comum da trama, sobre a viagem de um marinheiro chamado Marlow para encontrar um sujeito chamado Kurtz, funcionário de uma companhia belga de extração de marfim no Congo, é a de uma espécie de testemunho histórico: a denúncia de um sistema de poder – o colonialismo – que torna tênue ou faz desaparecer a fronteira entre civilização e barbárie.

Há trechos em profusão para confirmar a tese. Considerada elusiva, elíptica, a ponto de não nomear nem o Congo e nem a Bélgica, a linguagem de Conrad é direta o suficiente ao descrever a ganância dos europeus na colônia (“a palavra ‘marfim’ ecoava no ar, sussurrada, suspirada […], como o cheiro de um cadáver”) ou na metrópole (um “sepulcro branqueado” com “pessoas correndo pelas ruas para surrupiar um pouco de dinheiro umas das outras”).

Igualmente direto é o diagnóstico sobre a justificação dessa ganância. O que às vezes chega a sínteses do próprio colonialismo: “A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la daqueles que têm uma pele diferente ou o nariz mais achatado que o nosso, não é uma coisa bonita quando vista muito de perto. O que a redime é (…) uma crença desprendida na ideia – alguma coisa que criamos para que diante dela nos curvemos e lhe ofereçamos um sacrifício.”

Por outro lado, a leitura à revelia de supostas intenções do narrador – ou do autor – é parte da fortuna crítica de um clássico. No caso de Conrad, e ao longo das últimas décadas, ela acabou jogando em seu colo uma discussão que faria pouco sentido em 1902. Se a citada definição de colonialismo desconstrói as teses racialistas da virada do Século XIX para o XX, por exemplo, nossa sensibilidade atual não pode deixar de ver em outros trechos o avesso disso – o etnocentrismo de quem considera africanos “selvagens”, repara no “rosto negro insolente” de um ajudante, não vê em nenhum deles um personagem de relevo (e sim “sombras negras de doença e fome, espalhadas confusamente na penumbra esverdeada”). Há racismo no livro?

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/8/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.