Michel Laub

Mês: julho, 2020

Sobre oficinas literárias

1.

Há um romance de Agatha Christie, cujo nome não direi para não estragar a surpresa dos interessados, cuja história é contada pelo próprio assassino. Reli-o na quarentena, mais de três décadas depois de sofrer o impacto de seu desfecho pela primeira vez, e foi curioso voltar a algo tão decisivo na minha vida de leitor (e, logo, de escritor): a descoberta do narrador inconfiável.

Claro que Agatha Christie não inventou nada. É provável que ela conhecesse alguns dos mestres modernos no uso do expediente, como Henry James ou Ford Madox Ford (no Brasil, o grande exemplo ainda é o do Machado de “Dom Casmurro”). Mas não importa. Diluído ou não, o achado de reproduzir ficcionalmente o que parece uma obviedade do nosso dia-a-dia – a possibilidade de desconfiarmos de interlocutores – me abriu a porta para uma das riquezas da literatura: a de ampliar os sentidos do discurso, fazendo avançar inteligência e sensibilidade por meio da nuance, da ironia no sentido amplo do termo.

2.

Uma segunda descoberta de adolescência, igualmente óbvia, mas não tanto, surgiu na leitura de “O Cobrador”, de Rubem Fonseca: a força que a ficção ganha ao nos pôr na cabeça de personagens radicalmente diferentes de nós. Uma coisa é nos identificarmos com os tipos edificantes, mesmo em seu eventual anti-heroísmo, dos romances juvenis. Outra é ler uma história contada por um pistoleiro (“Encontro no Amazonas”), um pedófilo (“Pierrô da Caverna”), um estuprador (o conto título do livro).

As ações de criaturas assim nos causam repulsa, sem dúvida, mas existe um efeito ambíguo no modo como elas chegam a nós. O bom uso da primeira pessoa nos faz grudar na perspectiva de quem fala, o que nos obriga a acompanhar ativamente – se essa é a expressão certa – a lógica interna dessa psicologia. A ambivalência é como um teste para os nossos limites éticos, nosso pudor em ter contato com o que preferíamos não saber. Sendo otimista quanto a um possível papel social da ficção, que surge a partir da consciência individual de cada leitor, é como se o jogo de aderência e distância daquilo que é narrado fizesse avançar a compreensão que temos do mundo e de nós mesmos, nos tornando seres mais complexos – e, nos termos desse mesmo otimismo, seres melhores.

3.

A primeira pessoa é apenas um dos exemplos de como a técnica literária pode ser uma questão moral. É ingênuo separar a forma de um texto e os efeitos possíveis de sua recepção, acreditando na inspiração ignorante das ferramentas que a expressam na página. Felizmente, a maioria dos que começam a escrever hoje sabe que não vai a lugar nenhum sem conhecer a carpintaria do ofício. Esse aprendizado pode ser feito em anos de leitura solitária, mas há como apressar o processo.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 24/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (26)

Uma entrevista – Thomas Chatterton Williams sobre cultura do cancelamento (aqui).

Um disco – Folklore, Taylor Swift.

Uma série documental – Em Nome de Deus.

Uma série documental ok – Nova York contra a Máfia.

Um festival online – Penguin 10 anos.

Assim é se parece

“Nosso mundo (…) simplifica as discussões sobre moralidade, mas dificulta a verdadeira moral.” “O discurso sobre justiça chama muito mais a atenção do público do que os próprios fatos que exigem justiça”. “As eleições de 2016 (…) [mostraram] que as piores coisas da Internet estavam agora moldando, e não mais refletindo, as piores coisas da vida off-line.”

São frases de Falso Espelho, da jornalista e ensaísta Jia Tolentino (Todavia, 368 págs., tradução de Carol Bensimon), coletânea de ensaios que pode ser lida como uma variante híbrida de autobiografia: cada fato pessoal descrito, como participar de um reality show em Porto Rico ou frequentar uma igreja em Houston, diz algo sobre a cultura de nossa época. Assim como os fenômenos culturais analisados – de livros e filmes a hábitos de consumo, padrões estéticos femininos, drogas, linguagem – são transformados pelos filtros bastante particulares da autora.

No conjunto, Jia parece se guiar por uma citação que faz da filósofa italiana Adriana Cavarero, tão óbvia quanto verdadeira: “A identidade não é o que possuímos de forma inata e então revelamos, e sim algo que compreendemos por meio das narrativas que nos são fornecidas por outras pessoas.” Como essas versões alheias refletem um tempo que borrou as fronteiras entre aparência e essência, é lógico que o “eu” tenha se tornado também precário, feito de paradoxos que numa existência ética geram um autoexame constante.

Jia tem 32 anos, nasceu no Canadá e foi criada nos Estados Unidos. Seus pais eram imigrantes filipinos que a matricularam em escolas privadas de qualidade, o que ajudou uma trajetória brilhante em publicações como o site Jezebel e a revista The New Yorker. O autoexame em Falso Espelho se baseia, em parte, nessa questão de origem: a autora com frequência oscila entre a expressão de uma voz de privilégio – afinal, ela encarna o tipo que David Foster Wallace chamava de “obscenamente bem-educado” num contexto de miséria global – e a de quem consegue ver o problema de fora – como mulher, como não-branca, como participante da vida intelectual num período marcado pela barbárie.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 11/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (25)

Um romance – Torto Arado, Itamar Vieira Júnior (Todavia, 264 págs.).

Um podcast – Romance Versus Realism, TLS.

Uma trilha de 1974 – Space is the Place, Sun Ra.

Um artigo – Anne Applebaum sobre homofobia nas eleições polonesas (aqui).

Um documentário médio – Mapplethorpe: Look at the pictures, Fenton Bailey e Randy Barbato.

Fim de semana + quarentena (24)

Uma série – Jeffrey Epstein: Filthy Rich.

Um filme – Mapplethorpe, Ondi Timoner.

Um documentário – Andy Irons: Kissed by God, Steve Jones e Todd Jones.

Uma palestra – Jorge Coli sobre pintura e realismo no Brasil (aqui).

Uma graphic novel – Bezimena, Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs.).

Fim de semana + quarentena (23)

Um perfil de 2019 – Alan Dershowitz por Connie Bruck (aqui)

Um ensaio fotográfico – Glastonbury por Martin Parr (aqui).

Um livrinho – As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla (Planeta, 96 págs.)

Um curta – Luis Humberto: o Olhar Possível, Mariana Costa e Rafael Lobo.

Um documentário – Nomad, Werner Herzog.

Egopress

– Nesta sexta, 3/7, às 18h, participo de uma das mesas do Festival de Finos Filmes, no FB do MIS/SP, com Christiane Jatahy, Silvana Bahia e Rita Mattar. Programação completa: www.shorturl.at/qzJUX

– Vídeo do debate que participei no fórum sobre imagem digital e memória no site do IMS: www.shorturl.at/benGN

– Texto que publiquei sobre a quarentena, o Brasil atual e a literatura no site da Fundação Passa Porta, de Bruxelas. Ao final, em vídeo, um debate do qual participei durante uma residência na Fundação, em outubro/novembro de 2018.  www.shorturl.at/qtAU9

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