Michel Laub

Mês: novembro, 2014

Arte sem coraçãozinho

Há algo de errado quando uma obra de arte diz o mesmo que um anúncio publicitário. Pensei nisso ao ler uma reportagem de Ana Luiza Leal, da revista “Exame”, sobre mentiras na propaganda de marcas brasileiras e estrangeiras de sucesso (http://goo.gl/N2xUHD).

Os casos são até divertidos: da fábrica de sorvete que inventou um patrono italiano, imigrante que teria lutado bravamente ao chegar ao Brasil durante a Segunda Guerra, ao suco cujas frutas não são “colhidas fresquinhas” na “fazenda do senhor Francesco”, conforme o alegado, e sim compradas da empresa Brasil Citrus. Ao contrário dos sucos do Darth Vader, a marca em questão costuma publicar textos “do bem” em que “jovens cansados da mesmice” (seus fundadores) declaram ter como missão “mudar o mundo”.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 21/11/2014. Íntegra aqui.

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Egopress

Diário da queda ganhou o prêmio de ‘Melhor Romance Latino’ da revista francesa Transfuge e está entre os 15 finalistas do prêmio Jewish Quarterly – Wingate (Inglaterra). O livro também entrou na enquete dos melhores do ano do Financial Times, com indicação de Karl Ove Knausgaard (http://goo.gl/ym6tlf)

A maçã envenenada ficou em 2º lugar no Prêmio Jabuti, categoria romance.

– Um conto meu saiu na revista japonesa Waseda Bungaku.

– O Instituto Goethe, em parceria com o jornal Die Welt e a Folha de S.Paulo, pediu a autores alemães e brasileiros textos do ponto de vista de 2064. O meu (com links para os demais): http://goo.gl/FaJxlO Mais detalhes do projeto: http://goo.gl/0cu4zn

– Nesta quarta, 19/11, a partir de 16h, estarei numa das mesas do Encontros de Interrogação do Itaú Cultural, em São Paulo, junto com Bruna Beber, Lourenço Mutarelli, Joca Terron e Milton Hatoum.

Memória não afetiva

Muito já se especulou sobre como a overdose de dados na internet mudará o atual conceito de inteligência. Me interessa um outro efeito disso: se pensar é saber esquecer, como mostrou um personagem de Borges, sujeito sobre quem caiu a maldição de lembrar tudo o que viveu, sem conseguir dar hierarquia e sentido a nada, gostar esteticamente de algo também demanda um descarte contínuo de informações.

Ou a manutenção de certas memórias num lugar seguro. Livros costumam mudar (para melhor ou pior) longe de nós. Não tenho como manter a impressão original sobre “Os meninos da rua Paulo”, lido aos treze anos, ou “Os dragões não conhecem o paraíso”, lido aos vinte, porque não sei mais – ninguém sabe – pensar e sentir dentro dos limites de épocas passadas.

O máximo que posso dizer é que ambos continuam bons em 1986 e 1993. Assim como a novela “Vale Tudo” segue perfeita em 1988, e “Warriors, os selvagens da noite” é um dos filmes de gangue mais impactantes feitos para a plateia que estreou seu videocassete de classe média aos 14 anos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 7/11/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Do not harm, Henry Marsh (W&N, 288 págs.).

Outro – O sonâmbulo amador, José Luiz Passos (Alfaguara, 270 págs.).

Um filme – Boyhood, Richard Linklater.

Outro – Relatos selvagens, Damián Szifrón.

Uma reportagem – William Langewiesche sobre a queda do voo da Air France, na Piauí.

O radical

Trecho de abertura do perfil de Roberto Alvim que escrevi para a revista Piauí de novembro (Íntegra da matéria aqui, para assinantes):

Numa segunda feira de abril último, na saída do espetáculo de encerramento da temporada de Tríptico Samuel Beckett no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, entrei na van que transporta os espectadores do calçadão onde fica o teatro até um ponto menos deserto, onde é possível pegar um táxi. A temporada havia sido um sucesso, enchendo os 125 lugares do CCBB durante três   meses e reunindo de estudantes, artistas e plateias intelectualizadas a, bem, os meus companheiros de viagem. Um deles, um senhor com roupas, penteado e linguagem do típico frequentador do chamado teatrão – outro nome para espetáculos de tom digestivo e consumo rápido –, perguntou a uma senhora igualmente estereotipada o que ela havia achado da peça, baseada nas três obras derradeiras do escritor irlandês. “Bárbara”, ela respondeu. “Pena que eu não entendi nada.”

Um mês e meio depois, o diretor de Tríptico Beckett, Roberto Alvim, promove uma reunião com a equipe que trabalhará em seu novo projeto: a encenação de Terra de Ninguém, do inglês e prêmio Nobel Harold Pinter (1930–2008). O elenco é formado por Luis Melo, Edwin Luisi, Caco Ciocler e Pedro Henrique Moutinho. Enredo: quatro homens – dois de 60, um de 40 e um de 30 – se reúnem num fim de noite. Pouco se sabe sobre eles. São amigos? Amantes? Alguém fala a verdade ou é tudo um jogo cruel de aparências? Como é comum em Pinter, percebemos que acontece algo de errado, mas não identificamos o que seja. Um dos temas possíveis é a morte, aqui tratada de modo alusivo e sob diferentes pontos de vista – o da juventude, o da velhice, o de quem fez sucesso social e material, o de quem fracassou. Tudo é incerto no palco, até os nomes e as identidades dos personagens, que mudam e confundem o espectador. John Gielgud, o ator inglês lendário, que nos anos 70 integrou a primeira montagem da peça, declarou à época: “As pessoas ficam desesperadas para saber do que trata o texto. Acho que nem eu sei.” Já Pinter dizia que um personagem do qual não se conhece “a experiência passada, o comportamento presente ou as aspirações” é tão legítimo quanto um que, “alarmantemente”, oferece isso tudo.

Para Roberto Alvim, juízos do gênero são inevitáveis. “Toda obra de arte é enigma, e o enigma tem infinitas respostas”, ele diz, com sua característica alternância de ênfase, jargão, coloquialidade e às vezes ironia. “Isto é diferente de ser hermético, impenetrável, porque aí você desiste da obra. Um artista tem a obrigação de criar signos que induzam as pessoas a procurar seus múltiplos significados.” Na apresentação da equipe, após café, pães de queijo e uma rápida leitura em voz alta da peça, o diretor ouviu opiniões sobre o texto. Edwin Luisi contou que mesmo depois de quatro leituras continuava “confuso”. Houve um debate sobre o tom (pomposo ou poético) de algumas palavras. Sobre as pausas (dramáticas ou cômicas) entre elas. Sobre o tempo da ação (o que é presente e o que é passado) e o caráter dos homens em cena. A seguir, Alvim tomou a palavra: discorreu sobre o modernismo, a natureza do silêncio no autor inglês, a correspondência que trocou com ele, psicologia, política, literatura, física, história da arte e a impossibilidade de relatarmos com precisão a experiência. Anunciou que a abordagem do espetáculo seria “sensorial, não intelectual”. A intenção não era fazer “narrativa fechada”, e sim criar “instabilidade”, com o espectador convidado a “entrar num trem fantasma”.

Fim de semana

Um livro – Falling out of time, David Grossman (Alfred A.Knopf, 208 págs.).

Outro – O homem-mulher, Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras, 183 págs.).

Um disco ok – Tough Love, Jessie Ware.

Um documentário animadão – Bombay beach, Alma Har’el.

Um japonês – Sanpo.