Michel Laub

Mês: maio, 2010

O que fazer quando sua irmã conta uma história constrangedora de infância para a moça que você quer impressionar no restaurante

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O que fazer quando você precisa tomar suas pílulas e o atendimento da farmácia está devagar

O que fazer quando usam seu dinheiro para comprar uma mesa cara

Fim de semana

Uma exposição: cartazes russos no Tomie Ohtake.

Um filme: As melhores coisas do mundo, Laís Bodanzky.

Um lugar para tomar vacina: Purpurina quase Girassol.

Um lugar para tomar gim: Alberta #3.

Uma peça: Meninas da loja, dir. Fernanda D’Umbra.

Uma música: Morte dos sentimentos (Laub), de Cabrapreta/Mojo (aqui).

Música e vídeo do dia

(via Bressane + Daniel Galera):

‘Verão’, de J.M.Coetzee: trechos (2)

Outra das mulheres que dão depoimentos sobre o personagem John Coetzee:

“Uma noite, John chegou num estado de excitação que não era normal. Estava com um pequeno toca-fitas e pôs um cassete, um quinteto para cordas de Schubert. Não era o que se pudesse chamar de música sexy, nem eu estava muito no clima, mas ele queria fazer amor e, especificamente – perdoe se sou explícita –, queria que a gente coordenasse nossas atividades com a música, com o movimento lento.

Bom, o movimento lento em questão pode ser muito bonito, mas eu achava que estava longe de ser excitante. Some-se a isso que eu não conseguia esquecer a imagem da caixa do cassete: Franz Schubert parecendo não um deus da música, mas um funcionário vienense com gripe.

Não sei se você lembra do movimento lento, mas tem uma longa ária de violino com a viola pulsando por baixo, e dava para sentir John tentando manter o mesmo ritmo. A coisa toda me parecia forçada, ridícula. De alguma forma o meu distanciamento passou para John. ‘Esvazie e mente’, ele sussurrou para mim. ‘Sinta através da música.’

Bom, não tem nada mais irritante do que dizerem o que você tem de sentir. Eu me afastei dele e esse pequeno experimento erótico desmoronou na hora.

Depois, ele tentou se explicar. Queria me provar alguma coisa sobre a história do sentimento, ele disse. Sentimentos tinham histórias naturais próprias. Eles surgiam no tempo, floresciam por um momento ou não conseguiam florescer, depois morriam ou murchavam. Os sentimentos dos tipos que floresceram na época de Schubert estavam mortos, em sua maioria. O único jeito que nos restava para reexperimentar esses sentimentos era por meio da música da época. Porque a música era o traçado, a inscrição do sentimento.

Tudo bem, eu disse, mas por que nós temos de trepar ouvindo a música?

Porque acontece que o movimento lento do quinteto é sobre trepar, ele respondeu. Se em vez de resistir, eu tivesse deixado a música fluir em mim e me animar, eu teria experimentado vislumbres de alguma coisa bem rara: como era fazer amor na Áustria pós-Bonaparte.

‘Como era para o homem pós-Bonaparte ou como era para a mulher pós-Bonaparte?’, eu perguntei. ‘Para o senhor Schubert ou para a senhora Schubert?’

Isso o deixou realmente chateado. Ele não gostava que brincassem com suas teorias favoritas.

‘Música não tem nada a ver com trepar’, continuei. ‘Música tem a ver com as preliminares. Tem a ver com a corte. Você canta para a donzela antes de ir para a cama com ela, não enquanto está na cama com ela. Você canta para seduzir a moça, para ganhar seu coração (…). Se não está contente comigo na cama, talvez seja porque você não conquistou meu coração’.

Eu devia ter parado por aí, mas não parei, fui em frente: ‘O erro que nós dois cometemos’, eu disse, ‘foi que nós pulamos as preliminares (…). Sexo é melhor quando tem antes uma boa e longa corte. Mais satisfatório emocionalmente. Mais satisfatório eroticamente também. Se você está querendo melhorar a sua vida sexual, não vai conseguir isso me fazendo trepar no ritmo da música.’

Eu estava bem preparada para ele reagir, para discutir a questão do sexo musical, mas ele não mordeu a isca. Em vez disso, ficou com uma cara amarrada, derrotada, e virou de costas para mim (…).

Então, lá estávamos. Eu tinha tomado a ofensiva, não podia voltar atrás. ‘Volte para casa e treine a sua corte’, eu disse ‘Vá. Vá embora. Leve o seu Schubert com você. Volte quando souber fazer melhor as coisas.’

Foi cruel, mas ele mereceu, por não revidar.

‘Certo – eu vou’, ele disse, com uma voz amuada. ‘Tenho mesmo coisas para fazer’. E começou a vestir a roupa.

Coisas para fazer! Eu peguei o objeto mais à mão, que por acaso era um pratinho de barro cozido bem bonito, marrom com a borda pintada de amarelo (…). Por um instante eu ainda consegui enxergar o lado cômico da coisa: a amante de madeixas escuras e seios nus exibindo seu temperamento centro-europeu xingando aos berros e atirando a louça. Aí, joguei o prato.

Bateu no pescoço dele e caiu no chão sem quebrar. Ele encolheu os ombros e virou com um olhar perplexo para mim. ‘Vá!’, eu gritei, talvez tenha berrado mesmo, e gesticulei para ele. Chrissie acordou e começou a chorar.

Estranho dizer que não senti nenhum remorso depois. Ao contrário, fiquei animada, excitada, orgulhosa de mim mesma. Direto do coração!, eu disse para mim mesma. Meu primeiro prato!

‘Verão’, de J.M.Coetzee: trechos (1)

Uma das ex-namoradas do personagem John Coetzee, falando de sua literatura e desmentindo o post anterior (ou seja, não desmentindo):

“Achava John inteligente, achava que era culto, tinha admiração por ele sob vários aspectos. Como escritor, ele sabia o que estava fazendo, tinha um certo estilo, e estilo é o começo da distinção. Mas ele não tinha nenhuma sensibilidade especial que eu pudesse detectar, nenhum insight original sobre a condição humana. Ele era apenas um homem, um homem do seu tempo, talentoso, talvez até dotado, mas, francamente, nenhum gigante (…).

Não me lembro de todos [os livros]. Depois de Desonra eu perdi o interesse. No geral, eu diria que o trabalho dele é desprovido de ambição. O controle dos elementos é muito estrito. Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma a sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura. Muito impassível, muito organizado, eu diria. Muito fácil. Muito desprovido de paixão. Isso é tudo.”

‘Verão’, de J.M.Coetzee

Deve haver algum tipo de vaidade por trás de um romance que se diz autobiográfico, cujo protagonista tem o mesmo nome, profissão e trajetória do autor, e que se empenha em mostrar este personagem como figura desprovida de qualquer encanto – intelectual, sexual, afetivo. Mas um dos méritos de J.M.Coetzee em Verão (Companhia das Letras, 275 págs.) é não deixar que isso apareça da forma como esperamos – o truque de se autodepreciar para, por meio das entrelinhas do texto, angariar algum tipo de simpatia. Ao contrário: a impressão, reforçada por um desfecho de grande brutalidade psicológica, é que o livro se propõe mesmo a ser uma imolação, uma confissão pública dos erros e do desconforto social que marcaram a história de Coetzee antes de ele se tornar um dos maiores escritores vivos, senão o maior.

A dimensão mais interessante da narrativa, porém, é literária: o fato de que a personalidade deste homem desleixado e desanimado, e contraditoriamente seguro e decidido, com um tipo de teimosia moral que acaba se impondo – primeiro no campo das idéias, depois no dos sentimentos –, é a exata ilustração do estilo de Coetzee. Aquele que, sem se importar em parecer monocórdio, frio e linear à primeira vista, sem perder energia tentando encantar de imediato com imagens, melodia e vocabulário, permite-o se concentrar no imenso arsenal reflexivo que cerca suas preocupações éticas, políticas, históricas e emocionais. O resultado de livros como Desonra, A vida dos animais, Infância, Juventude, Homem lento e o próprio Verão é fruto direto deste ritmo, que convence aos poucos e com segurança, deixando ao final uma sensação quase totalizante de verdade, experiência e sabedoria.

Fim de semana (estendido)

Um show – Camera Obscura, Studio SP.

Um livro de fotografiaBrasília, imagens de Marcel Gautherot (IMS, 192 págs.).

Uma pizza – Bonde Paulista.

Um documentário okOs Estados Unidos versus John Lennon, David Leaf e John Scheinfeld.

Um filme meio preguiçosoTudo pode dar certo, Woody Allen.

Aulinha do dia

Egopress

Estarei em Campinas para duas conversas com escritores esta semana, sempre às 20h: terça, no auditório do IEL (Unicamp), com Rodrigo Lacerda, e quarta, no teatro do SESC, com Marcelo Mirisola.

Cinema brasileiro: competência e proximidade

Há uma cena em Fale com ela, de Pedro Almodóvar, em que um personagem ouve Caetano Veloso cantando Cucurrucucu Paloma e diz: “Este Caetano me ha puesto los pelos de punta”. Vi o filme há muitos anos, lembro que a sala inteira riu do comentário, assim como imagino que qualquer espectador brasileiro faria. Minha dúvida é se a graça se deve ao trabalho do ator, como se ele conscientemente pusesse um acento irônico nas palavras, num ponto entre o melodrama e o escracho, ou se é por causa da língua espanhola mesmo – se ela não traz em si um sinal duplo, pelo menos aos ouvidos de quem espera e está acostumado a associá-la a esse registro, ou a esse clichê.

Um amigo costuma dizer que, mesmo com a melhora óbvia dos últimos anos, ainda falta ao cinema brasileiro competência para o básico, que é fazer o espectador acreditar nas cenas. Um dos exemplos citados por ele é o delegado de Meu nome não é Johnny, filme de resto ok, que seria um típico “delegado de cinema brasileiro”. Entendo o que ele quer dizer – em relação ao vocabulário do personagem, sua roupa, sua barba –, mas fico em dúvida se esse tipo de reserva não tem mais a ver com nossa proximidade do objeto que com critérios supostamente universais de análise.

Quer dizer, o que no cinema estrangeiro em geral parece verossímil não seria, na verdade, fruto da nossa menor familiaridade com os elementos em cena – a língua, os cenários, as referências, mesmo os valores? Afinal, a maioria de nós só sabe o que é um “delegado americano” por meio das imagens de delegados do cinema americano, então é muito mais fácil acreditar em algo que simplesmente siga essa galeria prévia de tipos – forjada mais pela indústria, com seus próprios modelos de diálogo, ritmo e mise-en-scène, que pela habilidade do diretor em questão.

Isso tudo é apenas uma das obviedades a levar em conta quando falamos da tese, muito em voga por causa do Oscar para O segredo dos seus olhos, de que não há um único filme brasileiro no nível dos argentinos. Ou dos orientais. Ou seja lá de que país. A outra é quantitativa mesmo: o cinema de fora que chega aqui é uma seleção do melhor entre um número bem maior – e bem menos relevante – de produções. Quando falamos de “cinema brasileiro” num tempo determinado – uma década, digamos –, o ideal seria pensarmos nos dez ou quinze filmes que, com qualidades e defeitos diversos, marcaram alguma presença no período. Essa é, de fato, a produção de uma cinematografia. Talentos isolados e gosto à parte, o vexame nacional é tão grande assim na comparação?

Fim de semana

Um livroVerão, J.M.Coetzee (Companhia das Letras, 280 págs.).

Um filmeOs famosos e os duendes da morte, Esmir Filho.

Um discoCongratulations, MGMT

Um restaurante em Porto Alegre – Don Nicola.

Uma alegria absoluta em Porto Alegre – Douglas, Borges, Mestre Jonas.

Música do dia

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (11)

Alexandre Soares Silva, autor de A coisa não-deus – “Escrevo com caneta, em folhas soltas. Me obrigo a escrever pelo menos uma linha por dia. Geralmente acabo escrevendo um parágrafo ou dois – num muito bom dia, uma página e meia. Se gosto do que escrevi no dia, fico andando em círculos pelo quarto, de puro contentamento, fazendo gestos absurdos. Idéias e frases surgem no meio da noite e tenho que acordar pra anotar. Gosto de escrever de madrugada, porque só consigo pensar quando todo mundo está dormindo. A sensação quando todo mundo está dormindo – três, quatro da manhã – é a de que todo mundo morreu faz tempo, e finalmente posso dizer a verdade, pensar a verdade.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

Cristóvão Tezza, autor de O filho eterno – “Se o livro já vai a meio, nada me perturba muito; reservo três horas da manhã para ele e toco em frente. Mas começar um livro novo é sempre torturante. O primeiro sintoma é uma síndrome de arrumação do escritório, que vai obsessiva ao último clipe perdido na última gaveta, até finalmente criar coragem e começar a olhar para a página em branco.”

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

Paulo Scott, autor de Voláteis “Embora seja um neurótico sem salvação, penso que não tenho grandes manias (diretas e decisivas) relacionadas ao momento de escrever. Gosto de escrever em casa, no meu desktop Dell de dois mil e três, que fica sobre uma mesa enorme que mandei fazer em noventa e sete e que batizei carinhosamente de Frankenstein e que vem me acompanhando deste então. Preciso de silêncio e que a mesa esteja sem aquelas pilhas de documentos e jornais e revistas que preciso ler com urgência, mas que acabo não lendo. Gosto de poder olhar as nuvens enquanto penso (e a parede à frente não pode ter quadro algum, nada que distraia, gosto de parede branca, vazia). Quase sempre digo pra mim mesmo que estou fazendo aquilo antes de tudo por prazer – claro, há muita angústia e pressão na exigência de produzir com qualidade, por isso, talvez, tenha de lembrar a mim mesmo que é preciso o mínimo de prazer. Há coisa de meses, não sei precisar, tenho desligado a internet, o que nem sempre é possível. Às vezes preciso de trilha sonora; o jazz prevalece, mas escuto muito os discos do Júpiter Maçã, Avalanches, King Crimson, Tom Waits, Julio Reny, Constantina, Radiohead. Gosto de selecionar uma faixa e deixá-la repetindo; sei que é estranho, mas, quando estou disperso demais, é o que mais ajuda a me concentrar.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (10)

Clarah Averbuck, autora de Vida de gato“Sempre melhor sozinha e no silêncio. Às vezes levanto da cama depois de posicionada pra dormir entre travesseiros e edredons porque nos momentos de solidão e silêncio é que as ideias começam a se organizar. Quando tenho algum texto para entregar com prazo vou mentalmente trabalhando nele por aí, na feira, no supermercado, no ônibus. Quando chega a hora de escrever já está praticamente pronto. Outros vêm de supetão mesmo. São os que eu mais gosto;  respostas rápidas a inspirações momentâneas ou sentimentos fortes causados por algum outro texto. Sempre os melhores. cummings, como diz meu marido – ou ex-marido, nem eu sei mais, já que vivo no dia da marmota. No dia da marmota não tem texto.”

Douglas Diegues, autor de El astronauta paraguayo – “Para escrever um texto en português selvátiko ou portunhol selvagem tengo necessidades que son manías ou vice-versa. Eis algumas: 1) Estar solo, com las puertas bien trankadas, en un kuarto, escritório, sala kualker.  Con las puertas del kuarto bién trankadas, la imaginacione vagabundea mejor. 2) Estar com las baterias bem carregadas; se estiver medio sonolento, cansado, com dificuldade de concentracione, non vou além dum soneto salvaje. 3) Escrever una primeira vbersione a lápis y después digitar el resultado (cortando ou aumentando) numa vieja notebook sempre ayuda mais que escrever diretamente en la vieja notebook. 4) Tener la sensacione de estar escondido, camuflado, klandestino, nel momento de la escritura, ayjuda bastante; me es impossible escrever em publico, sozinho ou acompanhado, tipo mesa de bar, restaurante, café, choperia, etc.  5) Escrever sentado em apyká, assento guaranitiko de madeira, tipo banquinho, que non es lá muito confortable, para mantener la mente mais desperta, pues que el conforto me dá um sono desenfrenado. 6) Intensa concentracione; sem concentracione nunka me ha salido algo que preste. 7) Escribir com lágrimas paraguaias sinceramente sinceras. 8 ) Saber distinguir que una cosa es poner el guevo y otra es kacarejar. 9) Leer el texto em voz alta com autocrítika afiada como la navalha del niño alien travesti nazi de monopatin rojo.”

Joca Reiners Terron, autor de Do fundo do poço se vê a lua – “Em geral, eu não escrevo. Vivo prorrogando a escritura. Alguém já disse – talvez Donald Barthelme, mas não tenho certeza – que escrever um livro é ganhar o campeonato mundial de natação e não saber nadar quando cair na piscina de novo. Cada livro é um aprendizado, exige a invenção de novos métodos. Agora mesmo, que terminei um romance e preciso começar outro, não sei o que fazer. Ando da sala pro quarto, do quarto pra sala, meio deprimido. Deve ter alguma ética própria nisso, nesse sufoco. Às vezes acho que estou me afogando.”

Raimundo Carrero, autor de O amor não tem bons sentimentos – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida – “Gosto de começar a escrever bem cedo, de manhã. Como não gosto de café, tomo coca-cola, pois cada um tem a cafeína que merece. Num bom dia, posso escrever até cinco, seis horas seguidas, sem levantar da cadeira. Num mau dia, não só não sai nada como começo a achar todos os meus livros anteriores um horror. Então o jeito é sair do escritório e ler, até que algum outro escritor me dê vontade e coragem de escrever novamente. Quando fico mais de uma semana sem escrever nada, deprimo. Quando estou embalado em alguma coisa, todos os problemas parecem menos graves.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (9)

Alexandre Rodrigues, autor de Veja se você responde essa pergunta – “Nunca escrevo antes das 3 da manhã. Pode ser que tente, mas praticamente nunca algo vai acontecer antes deste horário. Para abrir os trabalhos, costumo ler pequenos trechos de três ou quatro livros por vez. Preciso de silêncio absoluto. Diante do meu prédio tem um bueiro solto. Os carros passam em cima e fazem um ‘ramplam’. Já pensei em subornar um funcionário da prefeitura para dar um jeito. Ou eu mesmo dar um jeito. Não admito música no ambiente. Antes de começar, alimento os gatos, troco a água e limpo a areia para não haver interrupção. Em todos os contos de Veja…, exceto um, estava chapado. Não apologizo e nem recomendo, mas o fato é que funcionou. Dificilmente bebo, jamais fico bêbado. Reviso o que escrevi logo ao acordar, depois deixo o texto por mais algumas horas. E mesmo que não consiga escrever nada, quando estou escrevendo espero o dia amanhecer antes de dormir. Uso sempre a mesma fonte e corpo 11. Às vezes faço experiências para mudar. Essa semana tentei de novo ouvir música. Apenas uma música, a mesma, tocando no repeat. Uma música brega dos anos 70 que nem arranhou a parada de sucessos. Tentei ver se a vontade de me livrar daquela música ruim acelerava as coisas. Não deu certo. 
E não posso garantir que não estou mentindo.”

Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite – “Até pelo ofício de jornalista, que nos obriga a redigir em ambentes movimentados e não raro barulhentos, em geral não preciso de muita preparação quando vou escrever ficção. O fundamental é que haja café em profusão e – ainda mais relevante – que não ninguém fite a tela enquanto digito. Prefiro escrever pela manhã, quando a mente ainda está vazia. E na maior parte das vezes, quando me sento para trabalhar, já tenho algumas anotações sobre o conto a ser criado: observações sobre enredo ou personagem, frases soltas, em alguns casos o final da história.”

Mariana Ianelli, autora de Almádema ­– “Escrevo sempre de madrugada, a luz do escritório apagada, uma luminária e dois abajures acesos. Basicamente, o ambiente é este: janelas fechadas, uma fruta, um chazinho, os cadernos de anotação e os papéis na mesa, uma boa caneta, ninguém por perto além dos gatos.”

Santiago Nazarian, autor de O prédio, o tédio e o menino cego – “Antes de tudo, não consigo escrever com ninguém na minha casa, mas isso é tranquilo porque moro sozinho e não costumo receber hóspedes. Televisão ligada também não dá. Um sonzinho já pode ajudar a dar clima. MSN ligado é ok. Tenho escrito mais de manhã, logo ao acordar, tomando café, coca-cola, café, coca-cola, até um ponto em que estou tão pilhado de cafeína que não consigo mais pensar, daí saio pra academia.”

Sergio Sant’Anna, autor de O voo da madrugada – “Escrevendo, a cada dia, tenho a sensação  de buscar o impossível”.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (8)

Adriana Lisboa, autora de Rakushisha – “Minha cabeça não funciona para escrever de noite. Também não sei escrever bebendo, fumando, nada disso – a imagem romântica do(a) escritor(a) notívago e drogado/embriagado não poderia ser mais distante de mim. A cabeça tem que estar completamente desanuviada e concentrada. De manhã ou de tarde, eu escrevo quando posso, e se consigo espremer umas duas horas do dia para dedicar à escrita, é uma maravilha.”

Heitor Ferraz, autor de Coisas imediatas – “Sempre tenho ótimas ideias quando ando. Mas como nunca levo caderneta, elas se perdem. Escrevi os meus melhores textos, quase todos em prosa. Mas ficaram esquecidos na calçada. Em casa, gosto de escrever no computador, depois que aposentei a máquina de escrever. Um cinzeiro, meu maço de Marlboro, e alguns livros para avançar, deliberadamente, no alheio. Durante um tempo, escrevia de madrugada. Agora, não tem mais hora – escrevo bem menos. E quando trabalhava em firma, gostava de escrever na firma, um olho no computador e no outro na porta, para mudar rapidamente de tela, caso o chefe desse uma incerta na sala.”

Marcelo Mirisola, autor de Memórias da sauna finlandesa – “Nenhuma superstição. Apenas trabalho. Sou como o motorista de ônibus que engata a primeira marcha, a segunda, e segue – aos trancos e barrancos – até o ponto final. Só isso.”

Wilson Bueno, autor de A copista de Kafka – “Sou mais um ‘reescritor’ do que um escritor propriamente dito, tamanha a obsessiva e exaustiva e neurótica reescritura que faço dos meus textos. Copio Clarice (Lispector),  e essas coisas são extremamente contagiosas: quando da máquina datilográfica, dava 7 espaços do começo da lauda até o início do texto a ser iniciado. Hoje faço o mesmo no computador. Isso é sagrado – toc, toc, toc na madeira mais próxima. 7 sagrados espaços 1/5 ( no word).

Só escrevo de madrugada, geralmente começo à 1 hora da manhã e vou até quando der. Prometo a mim mesmo, quando envolvido com algum projeto (ficcional), mesmo extenso, só escrever, no máximo, 2 páginas de 31 linhas, em rigorosas Garamond 14, com zoom em 94%, espaço 1/5 – isso aí também é outra obsessão.

Se for além das duas páginas, muito que bem, epifanias… Se não consigo ultrapassá-las chego a ficar 3, 4, 10 dias longe do projeto, angustiado, culpado e horrorosamente com medo de mim mesmo, um impotente, alguém que, embora com mais de 15 livros publicados, nunca escreveu uma linha…

Um belo dia retomo, e se chego às duas páginas (ou mais), de novo, sigo no ritmo diário, ou madrugueiro – de modo constante, até novo nó, claro…

Quando dou o texto por ‘concluído’ (as 2 laudas ou mais) aí é que começa a glória e o êxtase de escrever. Sem angústia, puro gozo, releio, na cama, se frio (e sempre faz frio em Curitiba) embrulhado em cobertores e lareira acesa, crepitando (tem que estar crepitando, hehehehehe), os papéis A-4 sobre uma velha prancheta de papelão que me acompanha seguramente há uns 20 anos.

Se um dia eu perder a prancheta, acho que não escrevo mais, tem que ser ela, somente ela, não mais que ela…. Aí leio como se fosse outra pessoa, um estranho face àquele texto e desce, então, a caneta Mont Blanc, esferográfica (tem que ser ela, só ela, apenas ela, exclusivamente ela, presente de um velho amigo e que está junto comigo aí uns 15 anos) sobre o texto, praticamente o desfigurando, de primeira.

Volto ao computador, corrijo o texto no word, imprimo como se fosse a versão definitiva. Volto à cama, ao quarto, à prancheta, à Mont Blanc, à lareira, ao estrangeiro que lerá aquele texto que não me pertence. Não precisa dizer que a caneta desce de novo impiedosa desfigurando o texto, só que um pouquinho menos…

Isso até começarem a passar os primeiros carros por minha rua de arrabalde, o dia clareando atrás das cortinas e então, só me dou o direito a um sono reparador, e sem culpa, se o texto que voltou da impressora (seguramente a trigésima nona versão…) prescindir da rigorosa (e implacável) Mont Blanc. Tem que ser um texto sem mácula, nem que depois, na releitura total do projeto, eu o desfigure de novo e aí recomeça a sanha… Não vou dormir, mesmo se ao digitar, bati um ponto vírgula onde deveria ser uma vírgula ou uma letra encavalou na outra… TEXTO SEM MÁCULA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ô ofício, ô vida. Tem gente que chama isso de profissão. Também, a exemplo de Clarice, que conheci na juventude, chamo a isso de ‘missão’, ‘mediunidade’. Não escrevo, corro  atrás de mim mesmo.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (7)

João Batista Melo, autor de Um pouco mais de swing – “Nos meus primeiro livros, eu tinha um ritual curioso: eu somente conseguia escrever com caneta e em folhas de papel jornal (aquele amarelado, que hoje nem sei se ainda se encontra nas papelarias). Se fosse um papel branquinho, eu travava.  Se eu sentasse diante do computador, mais bloqueado eu ficava. Até que comecei a escrever meu primeiro romance. Lá pela página 100 do manuscrito, naturalmente redigido numa caligrafia hieroglífica, pensei: depois eu vou ter de passar tudo isso a limpo e, ainda por cima, entender o que eu escrevi meses atrás? Então, o ritual foi extinto, e as idéias passaram a fluir normalmente diante do teclado e do monitor. Mas um outro ritual, que vinha da mesma época, permaneceu. O cinema tem uma influência muito grande no meu trabalho e eu levo isso aos detalhes: eu escrevo sempre ouvindo trilhas sonoras instrumentais de filmes. Não adianta colocar um jazz, uma música clássica, uma MPB. Não funciona. Tem de ser trilha de filme. Mas suspeito que esses rituais acabam sendo tentativas de manter sob controle meu maior problema: a indisciplina. O trabalho no qual obtenho minha sobrevivência (que, claro, não é a literatura) ocupa os meus dias quase inteiros. A maior parte do tempo que sobra dedico à minha família. O que resta é disputado entre escrever, ler, ver um filme, encontrar com amigos, não fazer nada, etc. E nos raros momentos em que consigo me obrigar a me sentar para escrever, preciso o tempo todo fiscalizar minhas mãos para que o mouse não abra a internet, vá organizar pastas de arquivos ou fique simplesmente brincando com a setinha do cursor na tela.”

Marcelo Carneiro da Cunha, autor de Nem pensar “A única condição para eu poder escrever é ter um computador com um teclado razoavelmente compreensível e uma cadeira que não acabe com a minha cervical e lombar ao mesmo tempo. Escrevo com qualquer roupa, mas alguma e, apesar de poder escrever a qualquer hora, escrevo à tarde. Não gosto de idéia de unir escrita a uma superstição, tipo vestir uma certa roupa, usar um certo papel, uma certa luz, ou o que seja. Prefiro associar o sucesso na solução de um problema criativo que nos persegue a uma combinação de coisas meio explicáveis e meio inexplicáveis que ocorrem dentro da nossa cabeça, e mais nada. A internet é a pior coisa que inventaram, porque a gente sabe que ali SEMPRE tem alguma coisa acontecendo, e se remover para escrever vira algo muito difícil. Gosto de ouvir música enquanto escrevo, sempre rock contemporâneo. Fico pensando o que aconteceria comigo se eu escutasse, sei lá, MPB. Será que eu iria escrever como o Chico Buarque?”

Manoela Sawitski, autora de Suíte dama da noite – “Isso vai mudando com o tempo. Lembro que no primeiro romance, achava que precisava de café e cigarro, se fosse de dia, e cigarro e um pouco de vinho à noite. Quando terminei estava com gastrite. Aí entrei numas de reduzir o café e tentar fumar cachimbo. Era ridículo, mas ninguém via. E vá conseguir manter o cachimbo aceso e pensar ao mesmo tempo?! Fracassei. A roupa só tem que ser confortável, porque não me sento direito, fico fazendo contorcionismos com as pernas. Arial 12, entre linhas 1,5: sempre. Já escrevi com música, no silêncio, com obra no vizinho, televisão ligada na sala. Acho que só sou completamente incapaz se alguém assistir Faustão ou BBB perto de mim. Agora, sempre fico um pouco inquieta até engrenar. Ligo computador, penso que está tudo certo, que já vai acontecer, e de repente tenho certeza que preciso pegar um copo de água. Volto e lembro que não escovei os dentes ou me esqueci de tomar a vitamina. Depois acho que é melhor prender os cabelos. Ou soltar. Vou me enlouquecendo até que canso e sento pra escrever bem comportada. Também gosto muito de caminhar. Andando o pensamento vai fluindo e se encadeando, é impressionante. Volto correndo, doida pra passar tudo pro papel. Mas aí acho que preciso tomar banho primeiro, claro.”   

Tatiana Salem Levy, autora de A chave da casa – “Sou obsessiva com o silêncio e a solidão. Não suporto escrever onde haja outras pessoas. Só de saber que há alguém em casa fico nervosa e não consigo produzir. Barulho é pior ainda: um vizinho pisando no meu teto já pode me fazer perder uma boa página… Quanto ao horário, prefiro escrever de manhã. Superstições, tenho muitas, mas não para escrever.”

(Ver série completa de depoimentos).

Fim de semana

Um discoForgiveness rock record, Broken social scene.

Outro discoThis is happening, LCD soundsystem.

Uma reportagem na Piauí – Daniela Pinheiro sobre a África do Sul (edição de abril).

Outra reportagem na Piauí/New Yorker – Grigory Perelman e a conjectura de Poincaré (aqui).

Uma exposição – Andy Warhol na Estação Pinacoteca.

Um filme mais ou menosAlice no país das maravilhas, Tim Burton.

Entulho, fuligem e nuvens na escuridão

Ainda Ballard em Milagres da vida, sobre a volta à Inglaterra depois da guerra:

“A cidade de Southampton, que me recebeu quando desci pela prancha de desembarque com minha mala na mão, sofrera pesados bombardeios, e consistia sobretudo de montões de entulho, com poucos sinais de habitação humana. Grandes partes de Londres e da região de Midlands não passavam de vastos terrenos baldios arrasados pelas bombas aéreas, e os poucos edifícios que continuavam em pé estavam arruinados e desmantelados (…). Caía uma garoa incessante, o céu era cinzento como pedra. Uma fuligem negra pairava sobre as ruas, vinda de centenas de milhares de chaminés. Tudo era sujo e encardido, até o interior dos ônibus e dos vagões de trem.

Vendo os ingleses ao meu redor, era impossível acreditar que essas mesmas criaturas tinham ganhado a guerra (…). Estavam exaustos, e pouco esperavam do futuro. Tudo era racionado – a comida, a roupa, a gasolina – ou simplesmente impossível de se obter. As pessoas andavam nas ruas como um rebanho, formando filas para tudo. Os talões de racionamento e os cupons para roupas tinham importância suprema, e todos contavam e recontavam e se preocupavam com eles ininterruptamente, apesar de não haver quase nada nas lojas para se comprar. Sair em busca de algumas lâmpadas era uma caçada que podia levar um dia inteiro. Tudo era extremamente mal projetado – a casa dos meus avós, uma mansão de três andares, tinha apenas um ou dois pequenos aquecedores elétricos e uma lareira a carvão. A maior parte da casa era gelada, e dormíamos embaixo de enormes edredons, como expedicionários perdidos no Ártico enfiados no seu equipamento de sobrevivência, com o ar gélido nos deixando o rosto amortecido, e a respiração formando nuvens bem visíveis na escuridão.”

Areia, arame enferrujado e insetos em torno do arroz

J.G. Ballard e a comida de um campo de prisioneiros ingleses nos arredores de Shangai, durante a Segunda Guerra, na autobiografia Milagres da vida (Companhia das Letras, 248 págs.):

“Durante todos os nossos anos de internação, nenhuma só vez vimos leite, manteiga, margarina, ovos ou açúcar. Nossas refeições consistiam de congee (arroz fervido até virar papa), uma sopa de legumes que continha um ou dois cubinhos minúsculos de carne de cavalo com muita cartilagem, um pão preto extremamente duro, que devia ser feito com cereais varridos do chão do depósito, cheio de areia grossa e pedacinhos de arame enferrujado, e batata-doce cinza, uma ração para o gado que eu adorava. Mais tarde passamos a comer trigo quebrado, outra ração para o gado de que passei a gostar muito (…). Nos últimos dezoito meses da guerra nossas rações diminuíram. Um dia, quando nos sentamos à mesa de armar no nosso quarto, empurrando para a beirada do prato o que minha mãe chamava de “gorgulhos”, meu pai decidiu que a partir daquele dia deveríamos comê-los, pois precisávamos de proteína. Eram carunchos brancos, ou larvas, palavra que minha mãe preferia evitar. Meus pais deviam ficar muito irritados quando eu contava os insetos antes de engolir, com satisfação, uma colherada inteira – em geral minha contagem ia até cem, formando um perímetro duplo em volta do prato de arroz.”