Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (12)

por Michel Laub

Alexandre Barbosa de Souza, autor de Azul escuro – “Faz muito tempo que os poetas são banidos. Segundo uma lei da época em que eu era registrado, e colaborava com o sindicado dos trabalhadores de editora, quem trabalha com leitura e computador teria, a cada hora de trabalho, direito a cerca de dez minutos de descanso dos olhos. Começo às sete e vou até às seis, nesse tempo costumo traduzir no máximo dez laudas – o que me dá um pouco menos de um maço de cigarros, três cafés antes do almoço, dois depois. É aí, na lavanderia vintage, de ouvido no rádio da obra do lado, que se passam os poemas, anotações, leituras extra-mais-valia!”

Eduardo Sterzi, autor de Aleijão – “Minha escrita se divide basicamente em dois registros, cada um com suas manias específicas. Poesia: costumo escrever à mão, em folhas A4 já usadas do outro lado, quase sempre despojos de algum concurso literário do qual fui jurado. Para assinalar que este texto do verso não está valendo, risco a folha de cima a baixo, com um único traço tenuemente oblíquo. As primeiras anotações, porém, costumam ser feitas em qualquer pedaço de papel que eu tenha à mão, mas com alguma predileção por guardanapos, papéis higiênicos e bordas rasgadas de páginas de revistas ou jornais. Contudo, já anotei expressões ou versos inteiros, a serem desenvolvidos posteriormente, em extratos bancários, bulas e caixas de remédio e mesmo, com alguma dificuldade, em sacos plásticos. Gosto que minha poesia tenha sua origem nessa materialidade algo bruta e reles, em meio aos restos disso que podemos chamar, não sem ironia, de ‘nossa civilização’. Crítica: tudo começa em anotações normalmente realizadas em folhas A4 (também recicladas) dobradas ao meio para caberem dentro dos livros que estou lendo. Ultimamente, também tenho feito muitas anotações na rua, enquanto caminho, em pequenos cadernos (costumo ter canetas específicas para cada caderno: no meu atual caderninho amarelo Tamoio, só uso hidrográficas Stabilo de ponta média vermelha, verde ou cinza). Todas essas notas são depois transcritas num arquivo .doc (e não .docx) de nome idêntico ao do texto que tenho de escrever, mas seguido da palavra ‘materiais’ entre colchetes (por exemplo, se o arquivo principal se chamar ‘CURTIUS Num instante de perigo’, o arquivo-base será ‘CURTIUS Num instante de perigo [materiais]’). A versão inicial do texto, ainda muito rudimentar, resultará da montagem desses materiais. Desde meados deste ano, só tenho escrito textos críticos na fonte Garamond corpo 12. A entrelinha tem de ser simples. O zoom deve estar em 210%. Preciso também que o Houaiss eletrônico esteja aberto numa janela à direita das janelas do Word – e que ninguém esteja olhando por cima do meu ombro (se estiver sentado ao meu lado, sem problemas). Manias finais: costumo levantar e caminhar pela casa quando um texto empaca, e lavo as mãos seguidamente enquanto estou escrevendo – mesmo que o computador esteja limpo e minhas mãos impolutas.”

Leandro Sarmatz, autor de Uma fome – “Se houvesse, como no sexo, uma excentricidade indiana chamada ‘escrita tântrica’, eu seria uma espécie de Sting. Porque eu protelo o momento enquanto posso – talvez esteja aí, suspeito, o motivo para ter eu demorado tanto a publicar um livro de ficção. Enquanto escrevo, também costumo zanzar pela casa quando acho que estou ‘chegando lá’: de novo a estratégia retentiva. De resto, prefiro escrever bem cedo (6h da manhã) ou muito tarde (até as 6h da manhã). Se estou diante do computador tarde da noite, tomo uma dose – sem água, por favor – de malte antes de encerrar os trabalhos e ir para a cama. Durante o dia, chá preto ou café. De resto, leio muito enquanto escrevo, e quase sempre as mesmas coisas: umas páginas de Bellow, alguma poesia, o Houaiss.”

Luís Henrique Pellanda, autor de O macaco ornamental – “Acordo e escrevo cedo, de preferência, no mesmo local em que trabalho, o escritório que montei em meu apartamento, no Centro de Curitiba. Antes de redigir meus contos, tenho o hábito de estruturá-los à mão, do começo ao fim, em blocos de papel barato e letra inadvertidamente cifrada, herança, vício ou defeito da minha época de repórter de rua. Só depois que planejo toda uma narrativa, sento ao computador, os esquemas rabiscados ao alcance do olho. Bebo água, e muita. Durante um dia de trabalho — quando consigo tirar um dia para isso, algo raro —, tomo várias xícaras de café. Durante o processo, um exagero: o que escrevo vira o assunto da casa. E um perigo: esqueço de comer, invariavelmente. Mas a fome não me atrapalha. Ouvir música, por outro lado, bloqueia minha escrita. Como sou músico, é difícil me concentrar noutra coisa quando há música, boa ou ruim, por perto. Prefiro o silêncio, claro. De qualquer forma, morando a duas quadras da Boca Maldita, no coração de uma cidade grande e às vezes histérica, me contento e consolo com uma quietude apenas relativa. Preciso, muitas vezes, escrever com as janelas fechadas e, dependendo do barulho que se faça lá fora, de propaganda política a brigas entre flanelinhas, com as persianas também, no escuro da manhã. Se estiver quente — e o calor curitibano é camarada —, um ventilador debaixo da mesa resolve. Se estiver frio e úmido, paciência. Superstições, quem me dera tê-las e escrever protegido da própria vaidade, colares de figas e conchas no pescoço, pingentes de ferradura, crucifixo numa orelha, incenso na outra, e a tela do computador interditada à burrice. “

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