Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (17)

por Michel Laub

Ademir Assunção, autor de Adorável criatura Frankenstein “Não tenho nenhuma mania ou superstição para escrever, apenas dois processos bem diferentes. Poesia acontece de um jeito mais anárquico. Ao longo do tempo percebi que os melhores versos surgem quando eles querem. Não adianta forçar a barra. Mas como tenho alguma familiaridade com a prática zen, procuro me manter concentradamente distraído ou distraidamente concentrado o tempo todo. Os versos vão surgindo sem hora marcada e em qualquer lugar, no trânsito, no metrô, no banho, em conversas com amigos ou mesmo desconhecidos, às vezes até em sonhos. Vivo fazendo listas também de palavras antipoéticas que gostaria de usar em poemas. Por exemplo: moquifo, cafofo, bangue bangue, espelunca, mísseis. Tenho dezenas de cadernetas com retalhos de versos e palavras que depois vou trabalhando, ajustando à minha linguagem. Não sou de reescrever. Sou de escrever. Trabalho muito as cadências sonoras, os ritmos, a pulsação – e a minha medida é a própria pulsação sanguinea. Com a prosa é diferente. Quando estou escrevendo uma história curta ou uma narrativa mais longa, consigo me disciplinar. Aí, escrevo diariamente, quase sempre de madrugada. Mas até hoje não tenho a menor ideia de como os livros surgem. Quando começo uma narrativa, nunca sei como ela vai terminar. Vou escrevendo e tudo começa a acontecer. Não planejo os capítulos, não tenho escaninhos, nada disso. É como se fosse uma massa altamente condensada que, de repente, explode e vai se expandindo. Escrevendo prosa eu me divirto. Poesia é mais cansativo. Prazeroso, mas cansativo.”

Carol Teixeira, autora de Verdades e mentiras “Escrevo muito na minha cabeça. Crio contos inteiros enquanto estou no supermercado, sala de espera da psicóloga, no trânsito infernal de SP ou voltando de alguma noite, bêbada. Daí anoto as ideias de forma fragmentada num dos vários mini Moleskines que tenho ou no bloco de notas do iphone (uma vez escrevi um conto inteiro no iphone, sentada no salão, enquanto pintavam meu cabelo). Tenho medo de escrever, sempre. Nunca é algo tranquilo pra mim. Então as melhores coisas surgem quando estou distraída. Como tenho pânico de perder ideias, felizmente esses lapsos de criatividade raramente são perdidos. Quando decido sentar pra escrever de forma mais disciplinada em casa, preciso de muito silêncio, estar muito confortável, desconectada da internet e sóbria. E de preferência de dia (o que é curioso considerando que sou uma das pessoas mais boêmias e insones que conheço). Entro numa espécie de universo paralelo. E quando acabo um conto me sinto a pessoa mais feliz do mundo todo.”

Juliano Garcia Pessanha, autor de Certeza do agora “Tenho escrito pouco por inúmeras razões. Mas quando escrevo faço isso no quarto e tomo muita água pois já não fumo mais. Quando eu era fumante pensava que seria impossível escrever sem pitar. Escrevo sempre com caneta bic preta. Essa é uma regra que ainda sigo e data de 1984, época em que comecei a redigir diários. Escrevo no máximo uma página por vez, por empreitada. Na sessão seguinte copio tudo novamente para poder seguir. Não consigo seguir se não copio o que veio antes. É aflitivo e sofrido, em geral fico sem camisa e com taquicardia. O telefone é um problema terrível, nunca sei se desligo ele da tomada ou se interrompo a escrita para falar com alguém. Se é algum amigo, ele é obrigado a escutar o que estou escrevendo. Mas faz algum tempo que ando de mal com a escrita. Acho que sigo escrevendo dentro de mim, mas me falta energia para anotar… Ando um tanto entristecido com minhas próprias zonas matriciais.”

Lorena Martins, autora de Água para viagem “Escrevo geralmente em casa, em silêncio, sem dia nem horário pré-estabelecidos. A poesia acontece. muitas vezes após um filme, uma leitura, uma foto, uma pintura. Às vezes com vinho, outras com chá; ou simplesmente com uma insônia desejada. E então é um mundo de cadernos, blocos, papeis soltos, pastas, emails. Escrevo quase sempre à mão, e em seguida passo o poema para o computador. Aí é hora de trabalhá-lo, lapidá-lo. Salvo todas as versões no meu email. O que finalmente permanecer, se impuser, em algum momento vai para uma pasta “de poemas” que sempre temo perder  – por isso não me desfaço das cópias no email, que me parece mais seguro. É um processo meio caótico, mas no fim das contas o que eu quero está lá, em algum lugar.”

Rodrigo Garcia Lopes, autor de Nômada “Costumo escrever todos os dias. Na mente estamos, de certa forma, escrevendo o tempo todo, não é? Quando é um romance policial-histórico, como o que passei os últimos cinco anos escrevendo, é como se vivesse dentro do livro. Literalmente. Leituras, anotações, insights, frases ouvidas, tudo pode vir junto com a escrita. Música é ótimo, principalmente instrumental. Clássica, jazz… Já para escrever poesia não tem hora. Com o advento do computador, comecei a escrever direto na tela. Nos últimos anos retomei o hábito das cadernetas. Minha favorita é a velha Moleskine. Gosto de escrever na praia, olhando o mar ou a fumaça. Ajuda a me concentrar naquele pedaço de papel que tenho à minha frente, lutando contra a areia e o vento (e muitas vezes perdendo o poema). Na prosa, as manhãs para se reler o capítulo da noite anterior também ajuda a centrar o foco e dar o impulso para a próxima cena. Poesia já pode pintar a qualquer hora do dia. Embora um mesmo poema possa levar anos para ser concluído, um ou outro nascem prontos. Quando isso ocorre, é a felicidade.”