Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (1)

por Michel Laub

Andréa del Fuego, autora de Nego fogo – “Escrevo esgotando músicas, escolho uma faixa e a ouço até que o texto termine e nunca mais consiga ouvi-la outra vez.”

Daniel Pellizzari, autor de Dedo negro com unha – “Gosto muito de escrever nu, especialmente num cômodo com ar-condicionado. Já percebi que a presença de uma janela com vista interessante, especialmente em lugares altos (ref. Estou Suspenso Nas Nuvens A Mirar os Mortais), aumenta a produtividade em 42%. Silêncio brutal concedido por protetores auriculares: sim. Mas minha principal mania atual é sentar no trono do digitador e ficar listando mentalmente motivos para não escrever. Funciona muito.”

Fabrício Corsaletti, autor de Esquimó – “Só consigo escrever prosa de ficção de manhã. Das seis às oito e meia, no máximo. É nesse horário que minha cabeça funciona melhor, que eu consigo me concentrar mais. Ou me defender menos. Porque tenho a impressão de que às seis horas — isto é, mal-saído do sono —, sentado de frente pro laptop, já tendo tomado uma caneca de café sem açúcar e comido uma ou duas fatias de pão com manteiga, há pouca resistência entre o meu cérebro, minhas mãos e o teclado. É quando as frases saem mais facilmente. Não que não me dê trabalho; dá, claro. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas acho que o maior esforço que eu faço é o de me disciplinar pra criar essas manhãs quase perfeitas — sem sono, sem ressaca e sem culpa. Por isso, quando estou escrevendo um conto (também escrevi um romance seguindo essa mesma regra), na noite anterior organizo minha mesa, deixando sobre ela apenas o laptop e alguma eventual anotação sobre o texto a ser escrito, ponho a água pro café na leiteira, o pó dentro do coador e durmo cedo, em geral antes das dez. No dia seguinte perco o mínimo de tempo preparando meu café da manhã. Dez minutos depois de acordar já estou escrevendo. Consigo dois ou três parágrafos por dia.

Com poesia é outra história. O poema se impõe independentemente do lugar ou da hora. O negócio é estar sempre atento pra perceber quando ele está ali, querendo se transformar em palavras.”

José Castello, autor de Ribamar – “Assim que abro a página em branco do computador, escrevo sempre no alto a palavra ‘NADA’. Sem isso, não consigo começar. Tenho a sensação de que ela me dá um chão. Fica mais claro que não tenho compromisso com nada, ou ninguém, e que posso avançar em qualquer direção.

Tenho sempre ao meu lado dois ‘amuletos’. Um pequeno elefante de bronze que herdei de meu pai. E um Quixote e um Sacho de madeira, dessas esculturas para turistas, que comprei em Sevilha, em minha primeira viagem à Europa, quando tinha 15 anos. O Quixote está com a perna quebrada e emendada com fita durex, mas não me afasto dele.

Preciso estar sozinho no escritório. Gente ao meu lado, seja quem for, me atrapalha – o que é espantoso, eu sei, para um cara que, como eu, trabalhou durante duas décadas em imensas redações.

Sim, gosto de ouvir música clássica. Nesse exato momento, por exemplo, ouço os Caprichos, do Paganini.”

Ronaldo Bressane, autor de Céu de lúcifer – “Para escrever o meu novo romance, comprei uma cortina: percebi que a luminosidade e a vista do nono andar me dispersavam. Outra coisa que me atrapalha demais é a internet, então corto a conexão. Pela primeira vez na vida, tenho preferido as manhãs às madrugadas. Alterno café e coca-cola com gelo. E a cada dia uso um dos chapéus da minha coleção. Me dá a impressão de ser outra pessoa. É meio bobo, mas tem funcionado.”

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