Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (13)

por Michel Laub

Carlos de Brito e Mello, autor de A passagem tensa dos corpos – “Antes de um livro começar, passo bastante tempo produzindo notas à mão: ainda não estão lá personagens ou acontecimentos, mas um conjunto sem ordem nem hierarquia de palavras, frases isoladas, vozes sem origem, idéias avulsas. Anoto, onde quer que eu vá, em dezenas de pedacinhos variados de papel, incluindo impressos de extrato bancário, talões de estacionamento, bulas de remédio e as margens dos livros que, no período, esteja lendo. A narrativa começa a partir dessa coleção, despertada, sem que eu possa prever, por um ponto de dor sem o qual a escrita não teria, para mim, muito sentido. Nessa hora, vou para o computador e escrevo, sempre que possível, pela manhã. É trabalho pesado, inspirado ou não. Se tudo vai bem, não paro para almoçar. Se vai mal, almoço com raiva, decepcionado. Prefiro luz natural ou, se necessário, de abajur, amarelada, mortiça, suficiente apenas para que eu consiga ler minhas anotações ou para consultar o dicionário e a gramática, que ficam ao lado. Prefiro silêncio, mas, aqui em casa, em dia de lavar roupa, gosto do barulho produzido pela máquina e pela esfregação. Levanto-me durante o processo. Ando pela casa. Durante o dia, bebo água. Se escrevo à noite, bebo álcool apenas para aquele primeiro torpor. Demoro antes de começar uma frase. Escrevo comentários sobre o trabalho no corpo do próprio texto: ‘melhorar isso’; ‘o narrador não pode agir assim’; ‘idiota!’. Trabalhar com sono costuma ser um desastre. Ter janela por perto é uma delícia.”

Bruna Beber, autora de Balés – “Costumo fazer as primeiras anotações em papéis soltos, blocos e cadernos, sem preferência de papel ou marca. Uso o que estiver mais perto, caneta, lápis, lapiseira, canetinha. Mas nunca em público, jamais saio de casa pra escrever. É particular. Depois, organizo esses recados brutos que deixei pra mim mesma no computador, leio, releio, leio em voz alta e em silêncio, semifinalizo e guardo. Novamente sem humanos por perto (bicho pode), com uma roupa confortável, ouvindo música com letra ou sem letra, mas na maior parte do tempo em silêncio. Quando implico com algum parágrafo ou verso anoto e guardo em lugares onde só eu tenho acesso, e convivo com aquele incômodo até conseguir resolvê-lo. Volto ao computador e mexo até me agradar completamente, ou 90%, e isso pode demorar meses ou nunca terminar. Às vezes parece que escrever é uma atividade sem final, pela inebriância das infinitas possibilidades. E aí quando tenho finalmente um resultado digitado que me agrada, escrevo tudo à mão em papéis. A letra no papel me dá sensação de que um texto está mais vivo. É uma ilusão genuína. Leio e releio novamente em voz alta até convencer também os meus ouvidos. Às vezes também gravo e ouço. E normalmente volto todas as etapas, em repetição. E não há tortura nenhuma nisso, é tão bom.”

João Silvério Trevisan, autor de Ana em veneza “Para escrever Ana em Veneza, joguei búzios, I Ching e fiz mapa solar dos personagens (figuras q existiram, na verdade). Enquanto trabalhava na minha mesa, eu tinha diante de mim um varalzinho com as fotos de Alberto Nepomuceno e Júlia Mann, assim como um desenho q fiz da escrava Ana, numa rede, em Veneza. Antes de começar a trabalhar, impreterivelmente, eu saudava os seus orixás. Era delicado demais me apropriar de pessoas que existiram para torná-las minhas personagens. Me permiti essas licenças poéticas. Mas isso foi só no caso de Ana em veneza.

Livia Garcia-Roza, autora de Era outra vez – “Os ruídos e barulhos do cotidiano não atrapalham a minha escrita, pelo contrário, tenho o hábito de capturar pequenos dizeres e acontecimentos e utilizá-los como matéria para a minha literatura. Escrevo sempre durante o dia, a lápis, em blocos e cadernos. Mas se alguma idéia me ocorre entre a vigília e o sono, levanto para anotá-la. Só passo o texto para o computador quando ele se encontra minimamente estruturado.”

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