Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (6)

por Michel Laub

André Sant’Anna, autor de O paraíso é bem bacana “O meu problema na hora de escrever é arrumar uma desculpa para adiar a hora de começar a escrever. Antes, eu fumava uns cigarros – ‘só um cigarrinho antes de começar’ –, aí as idéias iam fluindo. Ou: ‘Vou tomar uma lá na padaria pra botar as idéias em ordem’. Felizmente, parei de fumar. Infelizmente, fui obrigado a parar de beber. Então, tenho assistir às piores porcarias na televisão, antes de ir para o computador.”

Bernardo Ajzenberg, autor de Olhos secos – “Frequentemente uso um poderoso tapa-ouvidos quando escrevo. Ele me ajuda. É uma forma de dar mais atenção à bagunça explosiva que vem de dentro da cabeça, sem intermediações e sem perder nenhum detalhe dela.”

Carlos André Moreira, autor de Tudo o que fizemos – “Como me dedico a escrever no que sobra de tempo da carreira de jornalista, meu horário é o que eu conseguir separar para sentar em frente ao computador – que fica no quarto, não tenho um gabinete especial em casa. Mas já notei que rendo melhor madrugada adentro e não durante o dia. Escrevo – e também trabalho como tradutor – depois de fazer uma xícara de café, trazê-la para a escrivaninha e colocá-la ao lado do monitor (onde podem ser vistos também alguns carrinhos Hot Wheels que tenho há muitos anos e que gosto que decorem o ambiente). A escrivaninha é uma bagunça, com pilhas de livros e CDs de rock em volta – na primeira meia hora, ouço música quando estou escrevendo. Depois desligo e continuo só com o som ou silêncio da vizinhança.”

Fabrício Carpinejar, autor de Canalha! – “Não consigo escrever sem camisa. É como desrespeitar a imaginação. Eu me sinto travado. Meu melhor período é de manhã. Na tarde, leio outros livros. Na noite, reviso meus originais. Eu me sustento com café. Fico isolado no fundo do pátio, num bunker, artefando a linguagem. Sou disciplinado. Na hora de algum bloqueio, faço faxina da grossa, com detergente e enceradeira. Volto cansado ao computador, sem vontade de mentir. Rabisco caderninhos, mas são os apontamentos que nunca leio. Adivinho o que escrevi lá. Os filhos não me atrapalham, podem conversar e perguntar que mantenho a costura da pele.”

João Gilberto Noll, autor de Acenos e afagos – “Gosto de escrever de manhã cedo. Me parece que é  meu melhor impulso venha desse horário. É a cabeça mais vazia,  muito mais propícia para um arranque em direção a um certo inconsciente.”

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