Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (21)

por Michel Laub

Alberto Mussa, autor de O senhor do lado esquerdo“Não sei se são manias, no sentido estrito, mas há certas condições indispensáveis ao meu processo criativo. Primeiro, só escrevo em casa, principalmente na minha mesa, embora possa mudar de ambiente de vez em quando. Isso porque escrevo à mão e posso carregar meu caderno pautado para o quarto, a cozinha ou o banheiro. Se estou escrevendo, ando com ele pela casa, debaixo do braço, o dia todo. Este caderno, é claro, nunca sai do apartamento.  Antes, porém, de começar a escrever, tenho que fazer o projeto integral do livro, faço mapas, esquemas, lista das personagens, com suas características e principais intervenções na história. Só depois do livro todo estruturado é que começo a escrever. Talvez minha grande mania seja, durante essa fase de estruturação, a de contar, oralmente, a história do livro, para as pessoas próximas (que muitas vezes não têm nenhuma relação com o mundo literário). Só me sinto capaz de escrever quando a história amadurece a ponto de poder ser verbalizada.”

Ignácio de Loyola Brandão, autor de A altura e a largura do nada “Mania é fechar todas as portas de armários e a porta do estúdio. Arrumo a mesa. Deixo um dicionário analógico do lado direito. Um bloco de anotações também fica próximo. Nele anoto andamento, duvidas, problemas, palavras consultadas, sinônimos.

As vezes nem toco nele, mas preciso dele ali. Meus cadernos e cadernetinhas são todas Claire Fontaine, aquela que os estudantes franceses usam no dia a dia do liceu. Quando vou, compro. Quando vão, peço, me trazem. Quando salvo um texto, preciso escrever o nome do arquivo, se não esqueço no dia seguinte. Talvez seja o Alzheimer chegando, talvez seja praticidade.

Faço minhas crônicas para o Estado e para a Tribuna, de Araraquara. Faço crônicas eventuais para house organs. Tenho os livros institucionais. As cartas. Ah, não consigo começar nada sem limpar os e-mails. Nisso levo, às vezes, meia hora. Por isso começo cedo, cerca de 6 da manhã. Quando escrevo um romance, ou algo meu mais longo, começo às 5 e vou até mais ou menos 10”.

João Almino, autor de Cidade livre “Não tenho manias ou superstições para escrever e, sim, rotina. Há décadas descobri que sem disciplina seria difícil produzir. Escrevo diariamente durante duas ou três horas tão logo acordo, antes de tomar café ou fazer qualquer outra coisa. Se não tiver o que escrever, revejo o que escrevi. Posso escrever num jato e dedico muitíssimo mais tempo depois às revisões. Não ponho despertador, mas isso é em geral muito cedo. No começo tinha o hábito de andar com um caderninho no bolso para anotar ideias ao longo do dia. Hoje no máximo levo uma folhinha de papel em branco no bolso, onde raramente anoto uma ou outra ideia. Nunca escrevo ficção fora dessas horas da manhã. O resto do dia está dedicado a outras atividades. À noite, sempre que posso, leio e, apenas quando absolutamente necessário, vou a bibliotecas, aos sábados, para fazer alguma pesquisa.”

Juliana Frank, autora de Quenga de plástico“Tenho poucas manias. Escrever é uma delas. Eu crio manias em cima dessa mania. Só escrevo roteiro com fonte courier. E literatura, fonte verdana. Daí eu respiro, paro em frente a folha branca, ameaçadora, estendo as mãos e agito os dedos nervosamente pelos teclados. Enfim, sai uma primeira frase. Acredito que ganhei o caminho e me levanto da mesa, tomo um banho, porque só escrevo se eu estiver limpa e com a franja imperiosamente penteada. Quando acerto muito na produção, resolvo logo ir para o bar. Sento lá na mesa, toda entusiasmada, sei que faço parte da confraria. As vezes grito: hoje quem paga sou eu. Com todos à minha volta, amigos, desconhecidos, cachorros perdigueiros e mulheres de batons comunistas vermelhos, penso: tudo isso é muito chato. Começo a me coçar. Saco meu caderno do bolso e rabisco. Em poucos minutos estou no táxi. Num tom de urgência, peço uma caneta pro motorista e reclamo que a minha já não presta mais. Saio batendo a porta do carro e as vezes esqueço de pagar. Sento em frente ao computador e recomeço de onde parei, com as devidas anotações. No começo, é proibido falar com os outros e atender telefone. Mas, assim que eu tenho a história já posso ligar pros meus amigos do bar e convidá-los para terminarem a noite na minha casa. E é assim, no meio da festa, que eu me divido entre o texto e os acontecimentos reais. Todos vão embora e eu continuo. Horas e horas mexendo e remexendo. Se eu tenho a história, posso escrever na banheiro, em casamentos e funerais, a menos que o padre não fale muito. Quer dizer, escrever é muito difícil. Porque é difícil começar, tomar coragem. Mais difícil é parar. A melhor parte é olhar o feito, e depois dormir, vinte das vinte e quatro horas do dia. E acordar com um semblante melhor do que o dos gatos.”

Paloma Vidal, autora de Algum lugar“Eu preciso criar um espaço – ritual, nenhum. Mas esse espaço, o que é? Qualquer lugar, qualquer hora, qualquer caneta e papel. Esse desleixo foram meus filhos que me deram, um sem-frescura que eu fico tentando domar explicando que é “o meu trabalho”, que aqui, onde não há, eles têm que imaginar uma porta, que agora está fechada e eu estou do outro lado, fazendo “as minhas coisas”.  É uma espécie, então, de espaço imaginário, que pode acontecer – e como é bom quando acontece! – aqui em casa, na sala de espera da fonoaudióloga do Antonio (Lia, obrigada, tão amável com o seu cafezinho pontual), numa reunião de departamento da universidade…”

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