Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana + quarentena (33)

Um documentário – Narciso em férias, Ricardo Calil e Renato Terra.

Um filme – Estou pensando em acabar com tudo, Charlie Kaufman.

Uma página de poesia – Arcas de Babel (aqui)

Uma série de imagens – Quem te fala é uma morta, Juliana Bernardino (aqui).

Um video – Pedro França sobre gifs (aqui).

Fim de semana + quarentena (32)

Uma reprise – O Sétimo Selo, Bergman.

Outra – The Mosquito Coast, Peter Weir.

Uma releitura – Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 336 págs.).

Um artigo – Os truques dos romances de ideias, por Sianne Ngai (aqui).

Outro – Como o sensacionalismo influenciou a religião, por Fabio Marton (aqui).

Fim de semana + quarentena (31)

Uma história – Israel x Emirados Árabes no The Daily.

Um artigo – Henry Kissinger por Thomas Meaney (aqui).

Um doc a favor – Axé, Chico Kertész.

Um disco de 2018 – Record, Tracey Thorn.

Uma nova edição – Herdando uma Biblioteca, Miguel Sanches Neto (Ateliê, 192 págs.).

‘Por que você está chorando?’

Toda vez que surge um tabu na arte, surge também uma transgressão. Sempre penso nisso quando ouço críticos implicando com o uso do off (ou do voice over) no cinema. Segundo a teoria, a voz acima ou fora da cena é uma espécie de muleta, um atalho vulgar para roteiristas/diretores que deveriam preferir a sofisticação dos recursos visuais – ou então a dramaturgia das falas dos atores, que só funcionaria acompanhada pela expressividade dos seus gestos.

Uma das minhas graphic novels preferidas, Fun Home, da americana Alison Bechdel (Todavia, 234 págs, tradução de André Conti), pode ser lida como uma resposta a esse clichê. A trama, sobre a relação tumultuada da autora com o pai e a própria sexualidade, é dividida entre os desenhos e longas e frequentes legendas externas aos balões de diálogo, o que no universo dos quadrinhos equivaleria ao off/voice over de um filme.

Bechdel sabe, no entanto, que a questão não é o uso do recurso xis ou ípsilon em si. Uma legenda pode ser apenas reiteração ou oferecer ao leitor uma nova camada de sentido. Em Fun Home há uma variação constante entre gravidade e leveza, muitas vezes na mesma cena. Quando o desenho flagra a banalidade do cotidiano, por exemplo, o texto a colore com citações de alta literatura. Quando o texto descreve momentos trágicos, o traço sugere uma ironia carinhosa em cima de personagens doces.

Fun Home é uma das referências que me vieram à cabeça ao ler Bezimena, de Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs., tradução de Claudio R. Martini). À semelhança do livro de Bechdel, a história parte de um componente biográfico sombrio, exposto pela autora num posfácio. Em 1988, aos 15 anos, na cidade sérvia de Aleksinac, durante a ascensão do nacionalismo que desaguaria na Guerra da Bósnia (1992-1995), ela sofreu uma tentativa de estupro com a conivência (ou o auxílio ativo) de uma colega de escola.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (30)

Um perfil – Lorenzo Mammì por Rafael Cariello, na Piauí.

Um podcast – Agora, agora e mais agora, no Público.

Um vídeo – Lygia Clark por vários artistas (aqui).

Uma reprise de 2016 – Hypernormalisation, Adam Curtis (aqui).

Um livro de 1994 – Afirma Pereira, Antonio Tabucchi (Cosac Naify, 160 págs.).

A terra e os ossos

A palavra exata sempre foi uma arma política. Uma batalha de opinião pública começa a ser vencida quando definimos alguém como militante ou terrorista. O mesmo se dá com a memória coletiva: existem disputas sobre como chamar o processo industrial de extermínio dos judeus na Segunda Guerra (Holocausto ou Shoá), sobre o nome do horror na Ruanda de 1994 (o equivalente local para “massacre” ou “massacre absoluto”), sobre a aplicação do termo “genocídio” ao que ocorreu com os armênios em 1915 ou segue ocorrendo com os povos indígenas brasileiros.

É claro que só esse debate não previne a violência. Mas sua pertinência reafirma o poder da linguagem – e, logo, da ficção – no diálogo entre verdade histórica e sensibilidade individual, condição para um futuro que aprenda com os crimes políticos do passado. Dá para ler Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia, 264 págs.), sob essa chave: o impacto do romance, que expõe as feridas da herança escravocrata na trajetória de duas irmãs no sertão baiano, num enredo que inclui um trauma de infância, misticismo afro-brasileiro, disputa de terras e luta sindical, é antes de mais nada um feito narrativo, estético.

O livro saiu no ano passado, depois de ganhar o prêmio Leya de literatura (que contempla textos inéditos) e ser publicado com sucesso em Portugal. Nascido em Salvador, em 1979, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, Itamar foi apresentado na imprensa brasileira como a raridade sociológica que de fato representa: um autor negro em meio a uma literatura majoritariamente produzida por nomes da classe média branca, que falam de temas ligados ao seu entorno – ou que, quando se propõem a sair dele, com frequência o fazem com um olhar próximo do exotismo e/ou paternalismo.

O triunfo de Torto Arado, porém, não existiria sem um manejo formal do tema para além do que já se sabe via noticiário ou militância. Esse é sempre um ponto delicado quando se faz ficção a quente, sobre algo que está no centro do debate do dia-a-dia. Enquanto algumas frases poderiam estar num post genérico sobre a situação dos quilombolas no Brasil (“passaram a entender por que ainda sofriam preconceito no posto de saúde, no mercado”), em outras a especificidade faz o livro ganhar força: “Morreu depois de comer uma sariema no desespero da fome; a ave tinha comido uma cascavel e sua carne estava impregnada do veneno.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (29)

Um livro – A Fonte da Autoestima, Toni Morrison (Companhia das Letras, 456 págs.).

Um podcast – James Baldwin no Open Source.

Uma série de fotos – A infância de J.M. Coetzee (aqui).

Uma entrevista – Emicida (aqui).

Outra – Deise Ventura sobre Bolsonaro e genocídio (aqui).

Fim de semana + quarentena (28)

Uma antologia – Poesia +, Edimilson de Almeida Ferreira (Ed 34, 382 págs.).

Um artigo – Trótski no meio das árvores (aqui).

Uma reprise – Arca Russa, Alexandr Sokurov.

Uma conversa sobre Internet – Fernanda Bruno e Sergio Amadeu no Tecnopolítica.

Outra – Vera Magalhães, Patrícia Campos Melo, Marlos Ápyus e Pablo Ortellado (aqui)

Fim de semana + quarentena (27)

Um romance – Dept. of Speculation, Jenny Offill (Knopf, 192 págs.).

Uma reprise – O Apocalipse de um Cineasta, Eleanor Coppola.

Um vídeo de 1995 – Why I Never Became a Dancer, Tracey Emin (aqui).

Uma conversa de 2016 – Nick Pileggi, Irwin Winkler and Edward McDonald sobre Goodfellas (aqui).

Um debate – Caetano Galindo e Antônio Xerxenesky sobre Ulisses (aqui).

Sobre oficinas literárias

1.

Há um romance de Agatha Christie, cujo nome não direi para não estragar a surpresa dos interessados, cuja história é contada pelo próprio assassino. Reli-o na quarentena, mais de três décadas depois de sofrer o impacto de seu desfecho pela primeira vez, e foi curioso voltar a algo tão decisivo na minha vida de leitor (e, logo, de escritor): a descoberta do narrador inconfiável.

Claro que Agatha Christie não inventou nada. É provável que ela conhecesse alguns dos mestres modernos no uso do expediente, como Henry James ou Ford Madox Ford (no Brasil, o grande exemplo ainda é o do Machado de “Dom Casmurro”). Mas não importa. Diluído ou não, o achado de reproduzir ficcionalmente o que parece uma obviedade do nosso dia-a-dia – a possibilidade de desconfiarmos de interlocutores – me abriu a porta para uma das riquezas da literatura: a de ampliar os sentidos do discurso, fazendo avançar inteligência e sensibilidade por meio da nuance, da ironia no sentido amplo do termo.

2.

Uma segunda descoberta de adolescência, igualmente óbvia, mas não tanto, surgiu na leitura de “O Cobrador”, de Rubem Fonseca: a força que a ficção ganha ao nos pôr na cabeça de personagens radicalmente diferentes de nós. Uma coisa é nos identificarmos com os tipos edificantes, mesmo em seu eventual anti-heroísmo, dos romances juvenis. Outra é ler uma história contada por um pistoleiro (“Encontro no Amazonas”), um pedófilo (“Pierrô da Caverna”), um estuprador (o conto título do livro).

As ações de criaturas assim nos causam repulsa, sem dúvida, mas existe um efeito ambíguo no modo como elas chegam a nós. O bom uso da primeira pessoa nos faz grudar na perspectiva de quem fala, o que nos obriga a acompanhar ativamente – se essa é a expressão certa – a lógica interna dessa psicologia. A ambivalência é como um teste para os nossos limites éticos, nosso pudor em ter contato com o que preferíamos não saber. Sendo otimista quanto a um possível papel social da ficção, que surge a partir da consciência individual de cada leitor, é como se o jogo de aderência e distância daquilo que é narrado fizesse avançar a compreensão que temos do mundo e de nós mesmos, nos tornando seres mais complexos – e, nos termos desse mesmo otimismo, seres melhores.

3.

A primeira pessoa é apenas um dos exemplos de como a técnica literária pode ser uma questão moral. É ingênuo separar a forma de um texto e os efeitos possíveis de sua recepção, acreditando na inspiração ignorante das ferramentas que a expressam na página. Felizmente, a maioria dos que começam a escrever hoje sabe que não vai a lugar nenhum sem conhecer a carpintaria do ofício. Esse aprendizado pode ser feito em anos de leitura solitária, mas há como apressar o processo.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 24/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (26)

Uma entrevista – Thomas Chatterton Williams sobre cultura do cancelamento (aqui).

Um disco – Folklore, Taylor Swift.

Uma série documental – Em Nome de Deus.

Uma série documental ok – Nova York contra a Máfia.

Um festival online – Penguin 10 anos.

Assim é se parece

“Nosso mundo (…) simplifica as discussões sobre moralidade, mas dificulta a verdadeira moral.” “O discurso sobre justiça chama muito mais a atenção do público do que os próprios fatos que exigem justiça”. “As eleições de 2016 (…) [mostraram] que as piores coisas da Internet estavam agora moldando, e não mais refletindo, as piores coisas da vida off-line.”

São frases de Falso Espelho, da jornalista e ensaísta Jia Tolentino (Todavia, 368 págs., tradução de Carol Bensimon), coletânea de ensaios que pode ser lida como uma variante híbrida de autobiografia: cada fato pessoal descrito, como participar de um reality show em Porto Rico ou frequentar uma igreja em Houston, diz algo sobre a cultura de nossa época. Assim como os fenômenos culturais analisados – de livros e filmes a hábitos de consumo, padrões estéticos femininos, drogas, linguagem – são transformados pelos filtros bastante particulares da autora.

No conjunto, Jia parece se guiar por uma citação que faz da filósofa italiana Adriana Cavarero, tão óbvia quanto verdadeira: “A identidade não é o que possuímos de forma inata e então revelamos, e sim algo que compreendemos por meio das narrativas que nos são fornecidas por outras pessoas.” Como essas versões alheias refletem um tempo que borrou as fronteiras entre aparência e essência, é lógico que o “eu” tenha se tornado também precário, feito de paradoxos que numa existência ética geram um autoexame constante.

Jia tem 32 anos, nasceu no Canadá e foi criada nos Estados Unidos. Seus pais eram imigrantes filipinos que a matricularam em escolas privadas de qualidade, o que ajudou uma trajetória brilhante em publicações como o site Jezebel e a revista The New Yorker. O autoexame em Falso Espelho se baseia, em parte, nessa questão de origem: a autora com frequência oscila entre a expressão de uma voz de privilégio – afinal, ela encarna o tipo que David Foster Wallace chamava de “obscenamente bem-educado” num contexto de miséria global – e a de quem consegue ver o problema de fora – como mulher, como não-branca, como participante da vida intelectual num período marcado pela barbárie.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 11/7/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (25)

Um romance – Torto Arado, Itamar Vieira Júnior (Todavia, 264 págs.).

Um podcast – Romance Versus Realism, TLS.

Uma trilha de 1974 – Space is the Place, Sun Ra.

Um artigo – Anne Applebaum sobre homofobia nas eleições polonesas (aqui).

Um documentário médio – Mapplethorpe: Look at the pictures, Fenton Bailey e Randy Barbato.

Fim de semana + quarentena (24)

Uma série – Jeffrey Epstein: Filthy Rich.

Um filme – Mapplethorpe, Ondi Timoner.

Um documentário – Andy Irons: Kissed by God, Steve Jones e Todd Jones.

Uma palestra – Jorge Coli sobre pintura e realismo no Brasil (aqui).

Uma graphic novel – Bezimena, Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs.).

Fim de semana + quarentena (23)

Um perfil de 2019 – Alan Dershowitz por Connie Bruck (aqui)

Um ensaio fotográfico – Glastonbury por Martin Parr (aqui).

Um livrinho – As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla (Planeta, 96 págs.)

Um curta – Luis Humberto: o Olhar Possível, Mariana Costa e Rafael Lobo.

Um documentário – Nomad, Werner Herzog.

Cem dias entre os tubarões e o tédio

Numa entrevista ao podcast da revista Quatro Cinco Um, que foi ao ar em abril, Amyr Klink relata a Paulo Werneck um experimento que fez durante a quarentena: tentar simular em terra a atmosfera que viveu ao cruzar o Oceano Atlântico a remo, em 1984. Com o velho barco da travessia pendurado numa estrutura geodésica no quintal de casa, em Paraty, o navegador achou que seria divertido lembrar por uma noite do balanço físico e da sensação de confinamento naquela “célula habitável” de 88 cm de altura, menos de um metro de largura e 2,20m de comprimento na qual dormiu, comeu e trabalhou por cem dias.

“Quase fiquei louco lá dentro”, diz Amyr, que desceu do barco em menos de seis horas. Não por claustrofobia ou solidão, problemas que ele evidentemente não tem, e sim pela angústia de estar “parado”, conceito familiar a todos os que atravessamos esses também cem dias em que o mundo deixou de ter novidades – ou, pior, nos sufoca com um excesso de notícias trágicas cujo conjunto causa um efeito de anestesia, ou então uma ansiedade tão difusa que não encontramos chão para enfrentá-la.

Na travessia de 1984, ao contrário, os eventos que se sucederam – tempestades, perrengues com equipamentos, sprays de baleia, arco-íris de lua – apontavam para um sentido narrativo no tempo e no espaço. “É mais fácil enfrentar tubarões do que o tédio?”, pergunta Werneck. A resposta do entrevistado, que lidou bem com as aflições psicológicas durante o percurso, não deixa dúvida: “Eu sentia que estava construindo uma obra, indo para algum lugar, e essa sensação é muito gratificante”.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26/6/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (20)

Um livro – Falso Espelho, Jia Tolentino (Todavia, 368 págs.).

Um artigo – Paulo Pachá e Thiago Krause sobre a derrubada de estátuas (aqui).

Um filmete – Sul do Brasil, 1942 (aqui).

Um documentário sobre Black Alien – Mr. Niteroi, Ton Gadioli (aqui).

Uma entrevista sobre Renato Russo – Carlos Trilha (aqui).

Fim de semana + quarentena (19)

Uma entrevista – Deborah Danovski sobre o fim do mundo (aqui).

Outra – Silvio Almeida sobre racismo (aqui).

Um podcast – Baldwin x Faulkner, no History of Literature.

Outro – Frantz Fanon, no History of Ideas.

Um romance – As Sobras de Ontem, Marcelo Vicintin (Companhia das Letras, 214 págs.).

Fim de semana + quarentena (18)

Um ensaio de 1977 – Why look at Animals?, John Berger.

Uma reportagem – A CNN brasileira, por Fabio Victor (aqui)

Uma performance – Flaming Lips (aqui).

Um documentário sobre música – Whitney, Kevin McDonald.

Uma série sobre cinema – Five Came Back.

Vida x obra, de novo

Volto a Nelson Rodrigues para refazer a antiga pergunta sobre como lidar com artistas ambivalentes, cuja obra confirma, reflete ou desmente uma atitude política e moral condenável na vida civil. É um assunto em voga no Brasil há alguns anos, com a tendência de se tornar incontornável à medida que o governo atual escancara – se alguém ainda não havia percebido – sua natureza anti-humana.

O projeto da barbárie brasileira foi e vem sendo apoiado por artistas de todo tipo, dos conhecidos (Regina Duarte) aos obscuros (Theo Becker), dos que tiveram relevância em sua área em algum período (Roger Moreira, Roberto Alvim) aos eternos candidatos a algo mais que a nulidade (Marcio Garcia, Mario Frias). Como o futuro julgará os atos políticos de todos eles me parece claro, se ainda restar alguma decência entre nós. Como julgará seus legados como atores, músicos, diretores teatrais e assim por diante é outra história.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/5/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (17)

Uma coletânea – As Ideias Fora do Lugar, Roberto Schwarz (Penguin, 152 págs.).

Uma entrevista – Paulo Henriques Britto sobre Elizabeth Bishop (aqui).

Um documentário – Quincy, Rashida Jones e Alan Hicks.

Outro – Sabotage: o maestro do Canão, Ivan 13P (aqui).

Uma série de fotos – SP na pandemia, por Karime Xavier (aqui).

Beleza na tragédia

“Deus prefere os suicidas.” “O povo não entende o perdão e prefere o tiro.” “A opinião pública é uma doente mental.” “Como é antigo, senil e mumificado o passado recente”.

O estilo não deixa dúvidas: estamos no mundo de Nelson Rodrigues. Algo nele se comunica com o que vivemos em 2020, como costuma ocorrer com grandes obras em relação a qualquer tempo. Por isso aproveito a quarentena para reler um livro que traz beleza em sua tragédia, humor em seu desalento, num paradoxo adequado a um momento tanto de horror quanto de reflexão: A Menina Sem Estrela, a autobiografia do dramaturgo, romancista e cronista pernambucano de nascimento, carioca em sua essência.

Como muita coisa na vida de Nelson, o livro surgiu de um acaso. Em 1967, conta Ruy Castro no prefácio da edição que a Companhia das Letras lançou nos anos 1990 (há uma mais recente, da Agir), o autor foi convidado pelo jornal Correio da Manhã para escrever suas memórias numa série de crônicas. Ele tinha então 55 anos, seu romance “O Casamento” recém havia sido proibido, e o jornal onde escrevia sobre futebol – o Globo, que manteve sua coluna em paralelo à série do Correio – apoiara a censura.

Um pouco por desforra, um pouco para aumentar a renda que pagava o tratamento caro de sua filha cega – a menina do título da coletânea –, Nelson aceitou o convite e publicou 80 pequenas joias que também trazem lembranças “do futuro e de várias alucinações”. O impacto delas no leitor de agora, claro, não precisa incluir afinidades de opinião: A Menina Sem Estrela corrobora uma visão às vezes obtusa, reacionária em termos de política e de costumes, que podemos condenar sem risco de anacronismo.

Como o efeito de tudo que escreveu, no entanto, o próprio Nelson sempre foi contraditório. É como se a exuberância de seu estilo, baseado numa sucessão de hipérboles, metáforas e adjetivos passionais, encharcados de fascínio e espanto, a cada momento dissesse o contrário do seu valor de face: há um profundo amor pela falibilidade humana, pelo gesto instintivo e efêmero, no que parece apenas a nostalgia de um passado mítico (onde ainda existem a castidade, o “pudor de véspera”, o luto “desgrenhado e siciliano” de viúvas em enterros). Não há como ler Nelson Rodrigues e não ser tocado por uma sensibilidade libertária: sua fé da “alma imortal” é também uma denúncia da nossa hipocrisia cotidiana, dos pequenos e grandes despotismos que governam nossa vida na política, no trabalho, na família.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 30/4/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (13)

Um texto – Kim Stanley Robinson sobre o corona e o futuro (aqui).

Outro – Nuno Ramos sobre o corona e a raiva (aqui).

Um romance – O que ela sussurra, Noemi Jaffe (Companhia das Letras, 160 págs.).

Um doc com umas cenas – Neville d’Almeida, Mario Abbade.

Um doc em 3 partes – Aldir Blanc, dois para cá, dois para lá (aqui).

Fim de semana + quarentena (9)

Uma entrevista – Ricardo Abramovay sobre o corona e o futuro (aqui).

Outra – Heloísa Starling sobre a gripe espanhola em BH (aqui).

Um livro difícil – Tortura, Henri Alleg (Todavia, 80 págs.).

Um documentário meio difícil – Honeyland, Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov.

Um disco – Gorecki Symphony number 3, Lisa Gerrard.

Fim de semana + quarentena (5)

Uma entrevista – Atila Iamarino sobre a pandemia (aqui)

Um artigo – Amanda Hess sobre celebridades e a pandemia (aqui)

Um romance – Esboço, Rachel Cusk (Todavia, 192 págs.).

Uma palestra – Sergio Augusto de Andrade sobre arte e sexo (aqui).

Uma conversa antiga dando uns descontos – Jorge Mautner e Julio Bressane (aqui).

Silêncio e crime

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”

Fim de semana + quarentena (2)

Uma entrevista – Richard J. Evans sobre doenças e cultura (aqui).

Outra – Raull Santiago sobre o coronavírus nas favelas (aqui).

Um filme inevitável – Contágio, Steven Soderbergh.

Um livro sobre mais ou menos esse tema – Dez Drogas, Thomas Hager (Todavia, 336 págs.)

Uma releitura idem – Morte em Veneza/Tonio Kröger, Thomas Mann (Nova Fronteira, 162 págs.).

Fim de semana + quarentena (1)

Uma peça – Praça dos Heróis, Thomas Bernhard (Temporal, 121 págs.)

Uma piada – What did Jack do?, David Lynch.

Um filme melhor do que parece – Um lindo dia na Vizinhança, Marielle Heller.

Um pior do que parece – Motherless Brooklyn, Edward Norton.

Um documentário – Get me Roger Stone, Daniel DiMauro, Moran Pehme, Dylan Bank.

Delicadeza contra o horror

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.

Pobreza, wi-fi, água limpa

Numa das boas cenas de Fome de Poder (2016), filme de resto médio sobre a trajetória do empresário americano Ray Crock (Michael Keaton), o protagonista sintetiza o conceito que faria sua então pequena rede de lanchonetes se tornar um império tão culturalmente simbólico quanto a Ford e a Disney: “McDonald’s é família”. Folheando Dignity, livro de textos e fotos de Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.), é difícil não pensar no quanto a frase tem de profético, a partir de sua ambiguidade involuntária, em relação ao modo como se vive hoje nos Estados Unidos.

Arnade percorreu bairros degradados de cidades como Nova York, Bakersfield (Califórnia) e Gary (Indiana) para documentar o dia-a-dia de viciados, prostitutas, gente que foi para a pobreza por variados motivos pessoais e públicos, da mudança estrutural do mercado de trabalho à crise dos opióides. Boa parte das entrevistas ocorreu, justamente, no McDonald’s. O local que Crock imaginou como uma espécie de templo do otimismo do pós-guerra, onde a classe média celebraria os valores do consumo e da eficiência como motores de prosperidade e inclusão, no Século XXI virou cenário de outro tipo de acolhimento: trata-se de um dos poucos espaços públicos americanos que não se constrange em abraçar quem ficou para trás no rali capitalista.

Ao preço de uma das comidas mais baratas do país, é ali que relatos sobre abandono, abuso e crime convergem para um arremedo de vida comunitária. No estacionamento há carros com os pertences de quem não consegue mais pagar o aluguel. Cada loja oferece wi fi grátis, aquecimento, mesas onde grupos de desempregados passam horas conversando. Mães dão banho nos filhos usando a água limpa nos banheiros. À diferença de albergues e instalações religiosas ou bancadas por governos, ninguém incomoda os frequentadores com normas e discursos morais.

Arnade trabalhou duas décadas no Citibank, em Wall Street, e sua própria história de mobilidade expõe os requisitos para quem quer sentar no que ele chama de “primeira fila” da sociedade: um lar estruturado, uma educação de alto nível, a inteligência emocional para fazer escolhas certas durante os anos de aprendizado que o tiraram de San Antonio, pequena cidade operária da Flórida, para o sucesso num dos setores mais competitivos da economia. A partir de 2011, no entanto, e na esteira do que viu acontecer ao seu redor depois da quebradeira de 2008, um desconforto pessoal e ideológico o fez entrar em contato com a realidade do “fundão”.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 6/3/2020. Íntegra aqui.