Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana

Um documentário sobre música – Anvil, Sacha Gervasi.

Outro – Lemmy, Greg Olliver e Wes Orshoski.

Um disco de 1970 – Barret, Syd Barret.

Um romance de 2000 relançado – A coisa não-Deus, Alexandre Soares Silva (Record, 208 págs.).

Um artigo – A crise dos museus, por Hal Foster (aqui, para assinantes).

Ciúme, telecatch, estelionato, jabá

Trechos de Pavões misteriosos, de André Barcinski (Três estrelas, 239 págs.), livro sobre a música pop brasileira no período 1974-1983.

Créditos (1) – “Na semana de lançamento do LP internacional de Água viva [em 1980], um disco parecido chegou às lojas. Não era da Som Livre, mas da Continental. Água viva – temas internacionais da novela (…) tinha um repertório idêntico ao do LP da Som Livre (…). Escondida no canto da capa, em fonte pequena, constava esta palavra: Covers (…). Hélio Costa Manso [diretor da Som Livre] (…) não teve dúvidas: aquilo só podia ser obra dos Carbonos (…). Muita gente chegava na loja e pedia o ‘disco da novela’ e saía de lá, feliz da vida, com a versão cover (…). Trinta e três anos depois do episódio (…) Beto Carezzato, baixista dos Carbonos, bate os olhos na capa (…) e diz: ‘É, acho que participamos desse estelionato!’.”

Créditos (2) – No fim dos anos 1970, auge do mercado de versões no Brasil, a indústria do disco virou um ringue de telecatch, onde vencia quem era mais esperto. E ninguém era mais esperto do que Carlos Imperial. Alguns anos antes, ele descobrira o lucrativo e inesperado filão das músicas de domínio público e passou a registrar várias em seu nome. Na biografia Dez! Nota dez: eu sou Carlos Imperial, o autor, Denilson Monteiro, conta que até a mãe de Imperial se indignou quando ele registrou Meu limão, meu limoeiro: ‘Carlos Eduardo, como você tem coragem de dizer que essa música é tua? Meu filho, eu cansei de te embalar cantando ela quando você era recém-nascido!’. Imperial respondia: ‘Comigo é assim: mulher e música, se não tiver dono, eu vou lá e apanho.’”

Critérios – “O jabá, ou jabaculê, era visto como uma coisa normal (…). Porém, de vez em quando, o olho grande de alguém provocava atritos. Quando André Midani soube quanto Chacrinha estava exigindo para apresentar Baby Consuelo e Pepeu Gomes em seu programa, resolveu ir à imprensa e protestar. (…). ‘Eu disse para André: pelo amor de Deus, não faça isso, vai acabar com a gente’, lembra [Marco] Mazzola, que trabalhava com Midani na Warner. ‘Dito e feito: quando cheguei à empresa, na segunda feira, o departamento de divulgação inteiro estava me esperando (…). As rádios cortaram todas as nossas músicas da programação. A gravadora levou uns quatro ou cinco anos para se levantar.’ (…) O filho de Chacrinha, Leleco Barbosa, disse à Folha de S.Paulo, em 2003, que o que havia não era ‘jabá’ (…): ‘A gravadora queria botar no programa o artista tal. Se papai gostasse, botava. Mas, como produzia shows com artistas, chacretes e calouros, a ‘caravana’, fazia uma troca (…). Era uma coisa mais que justa. Se o cara queria se lançar no programa, ia ao show em contrapartida.’”

Casting – “O carioca Sidney Magalhães era apenas mais um cantor de bares e restaurantes do Rio de Janeiro. Foi em uma churrascaria da Barra da Tijuca que o produtor musical Roberto Livi o viu pela primeira vez (…). Livi, um cantor argentino que gravara sucessos no Brasil na época da Jovem Guarda (…), tinha planos de criar um clone brasileiro de um grande astro pop do seu país, o cigano Sandro (…) O cantor (…) passou a se apresentar com a camisa aberta no peito, mangas bufantes, colares e uma vasta cabeleira cacheada (…). Livi decidia tudo: repertório, figurinos e até o que Magal deveria dizer em entrevistas (…). Quando o Fantástico produziu um clipe da música [Sandra Rosa Madalena], apresentou Magal como ‘descendente de ciganos’.”

Casting (2) – “Além de Simony, a CBS contratou [para integrar o Balão Mágico] um menino chamado Vimerson Benedito, de dez anos (…). Como Vimerson não era o nome mais apropriado para um pop star, a gravadora rapidamente arranjou-lhe um outro: Tob. O grupo se completou com Mike, de seis anos, filho do inglês Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador (…). Em abril de 1981, [Biggs] foi sequestrado por um grupo de mercenários britânicos que queria leva-lo de volta à Inglaterra e exigir uma recompensa do governo do país. Mike apareceu na TV fazendo um apelo emocionado pela libertação do pai. Os executivos da CBS ficaram impressionados com o carisma do menino e o contrataram.”

Apoio – “Desde Secos & molhados, nenhum disco de estreia no Brasil fizera tanto sucesso quanto Voo de coração [de Ritchie]. Quando foi gravar o segundo disco, E a vida continua, o cantor sentiu certa má vontade por parte da CBS (…). Não entendia como havia passado, em tão pouco tempo, de prioridade a estorvo. Até que leu uma entrevista de Tim Maia à revista Isto É, em que o ‘Síndico’ afirmava que Roberto Carlos, o maior nome da gravadora, havia ‘puxado o tapete’ de Ritchie (…). Claudio Condé, da CBS, nega: ‘Isto é viagem. O Roberto nunca teve esse tipo de ciúme.’ (…) Anos depois, quando fazia um show em Angra dos Reis, o cantor foi procurado por um homem, que se apresentou como radialista e lhe disse: ‘Há anos quero te contar isto. Quando você lançou A mulher invisível, aconteceu algo que eu nunca tinha presenciado em mais de trinta anos de carreira no rádio: eu ganhei um jabá da sua própria gravadora para não tocar a sua música!’.”

Fim de semana

Um livro – Pavões misteriosos, André Barcinski (Três estrelas, 239 págs.).

Um documentário – Kurt Cobain: montage of heck, Brett Morgen.

Um disco – The magic whip, Blur.

Um texto – Bernardo Carvalho e a poesia sob o jihadismo (aqui).

Outro – Elias Thomé Saliba e o humor sob o stalinismo (aqui).

Desastre literal

Com o deslocamento da cultura visual da TV para a expressão escrita da internet, os índices de leitura no país devem ter dado um salto na última década e meia. Em termos de qualidade, porém, como sabe quem alguma vez entrou numa caixa de comentários de grande portal, o cenário está mais para desastre.

As causas não são difíceis de achar, e não estão apenas nas escolas. Vejam a Jornada de Literatura de Passo Fundo, cuja edição 2015 acaba de ser cancelada. A opção de governos, empresas e entidades que poderiam ajudar foi clara: em nome de uma economia mesquinha (o filme “Qualquer Gato Vira-Lata 2” custou mais que o dobro do que custaria o evento), abre-se mão de um dos poucos modelos vitoriosos que temos na formação de leitores.

Os exemplos poderiam seguir ao infinito: da “Pátria Educadora” que deixou de comprar livros às goteiras da Biblioteca Nacional, do fascínio por celebridades ignorantes aos “guias de lazer” que dão dicas sobre brechós e passeios com o pet, desconhecendo a hipótese de alguém preferir ler num sábado ou domingo, o futuro está contratado no que valorizamos no presente.

Pensei nas consequências desse desprezo à atividade intelectual ao saber que Antonio Prata, colunista da Folha, foi processado por um texto obviamente satírico (http://goo.gl/751HQj). Também ao acompanhar a polêmica em torno de “A mulher no trem”, peça do grupo Os Fofos Encenam suspensa depois de protestos pelo uso de “blackface” – o expediente de pintar de negro o rosto dos atores, que foi típico no teatro e cinema racistas dos Estados Unidos.

Publicado na Folha de S.Paulo, 5/6/2015. Íntegra aqui.

Um treinamento para enfrentar a crítica literária

Stephen King em Sobre a escrita (Suma das Letras, 256 páginas, tradução de Michel Teixeira):

“Quando vejo imagens de câmeras escondidas mostrando babás da vida real que, de repente, começam a molestar e bater em crianças, sempre me lembro dos dias com Eula-Beulah (…). Era comum [ela] estar ao telefone, rindo com alguém, e gesticular para que eu me aproximasse. Ela me abraçava, me fazia cócegas até que eu risse e depois, ainda rindo, me dava um cascudo tão forte que eu desabava. Depois me fazia cócegas com os pés descalços até que nós dois ríssemos de novo.

Eula-Beulah era dada a peidos — daqueles barulhentos e fedidos. Às vezes, quando estava atacada, ela me jogava no sofá, colava a bunda coberta por uma saia de lã na minha cara e mandava ver. — Pou! — gritava ela, se divertindo. Era como ser soterrado por fogos de artifício de metano. Eu me lembro da escuridão, da sensação de estar sufocando, e me lembro de gargalhar. Porque, embora aquilo fosse, de certa forma, horrível, também era, de alguma forma, engraçado. De várias maneiras, Eula-Beulah estava me preparando para a crítica literária. Depois que uma babá de 90 quilos peida na sua cara e grita ‘Pou!’, o jornal The Village Voice fica bem menos aterrorizante.”

Fim de semana

Um disco de 2014 – Burn your fire for no witness, Angel Olsen.

Um ensaio de 2014 – Lorenzo Mammi sobre a música e o vinil, na Piauí (aqui).

Uma reportagem de 1983 – Tom Wolfe sobre a criação do Vale do Silício, na Esquire (aqui).

Uma série de fotos de 1880 a 1970 –  Porto Alegre (aqui).

Um filme – Take shelter, Jeff Nichols.

Olho por dente

Diferentemente da imagem que tem hoje, a Lei de Talião foi um avanço no direito penal. Ao menos no da Babilônia do Século 18 a.C.: antes do “olho por olho, dente por dente”, as punições tinham pouco a ver com a gravidade aos crimes. Se alguém roubasse um boi do vizinho, poderia ter a casa incendiada com o rebanho e a família dentro.

Dado o tipo de justiça que anda sendo praticada na Internet, uma versão 2015 do Talião não seria má ideia. Se há algo em falta nas redes sociais, é proporcionalidade. Nos dois sentidos do termo: para alguns notórios políticos e formadores de opinião, nada do que for dito constrangerá uma trajetória de venalidade orgulhosa.

Já para quem tem alguma vergonha na cara, mas erra como qualquer humano, as penas podem ganhar dimensões de Velho Testamento. É sobre esses indivíduos até então anônimos, ou no máximo conhecidos em nichos, que escreve o jornalista britânico Jon Ronson em seu novo livro.

Publicado na Folha de S.Paulo, 8-5-2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Anselm Kiefer, White Cube.

Um filme – O abutre, Dan Gilroy.

Um filme ok – The humbling, Barry Levinson.

Um disco extremo – Bestial burden, Pharmakon.

Um livro – Sobre a escrita, Stephen King (Suma das Letras, 256 págs.).

Conversa com um amigo morto

Michel Houellebecq em Submissão (Alfaguara, 256 págs., tradução de Rosa Freire d’Aguiar):

“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo — por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido. Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros (é estranho que uma condição tão simples, na aparência tão pouco discriminatória, na realidade o seja tanto, e que esse fato evidente, facilmente observável, tenha sido tão pouco explorado pelos filósofos de diversas vertentes: como os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes; porém, não é esta a impressão que dão, com alguns séculos de distância, e é frequente vermos se esfiapar, páginas a fio, que sentimos ditadas mais pelo espírito do tempo do que por uma individualidade própria, um ser incerto, cada vez mais fantasmático e anônimo). Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.”

Houellebecq, estômago e submissão

Em 1998, o filme “Nova York sitiada” antecipou parte do que aconteceria com o mundo a partir de 2001: 1) novo e descentralizado tipo de jihadismo, treinado pela CIA em sua origem, causa grande tragédia numa metrópole americana; 2) em pânico justificado, cidadãos exigem reação do governo; 3) Opta-se pelo caminho militar/policialesco, que estimula a intolerância étnica/religiosa e avança sobre direitos civis.

Tanta acuidade histórica, no entanto, não gerou uma obra esteticamente relevante. Talvez porque as boas ideias do roteiro, escrito pelo prêmio Pulitzer Lawrence Wright, precisassem ser traduzidas pelo esquematismo hollywoodiano de Bruce Willis e companhia. Uma coisa é o que se diz, outra é como se diz. Embora as duas dimensões se misturem em algum nível na arte, é na segunda que está a possibilidade de transcender o que já se sabe assistindo ao noticiário ou lendo os especialistas.

Publicado na Folha de S.Paulo, 24/4/15. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Sound and collor, Alabama Shakes.

Outro – Singles, Future Islands.

Um documentário com momentos – André Midani, Conspiração Filmes.

Um filme – Acima das nuvens, Olivier Assayas.

Um livro – Submissão, Michel Houellebecq (Alfaguara, 256 págs.).

Feriado

Um livro – So you’ve been publicly shamed, Jon Ronson (Riverhead Books, 304 págs.).

Um disco – Carrie and Lowell, Sufjan Stevens.

Uma série ok – The americans.

Um cachorro quente – Imbiss.

Um filme – Leviatã, Andrey Zvyagintsev.

Viagens invisíveis

Muito antes do Instagram e das poses de Francisco Cuoco na piscina de Caras, com um pouquinho mais de ênfase que a dos pensadores dedicados ao tema nas últimas décadas, o escritor e dramaturgo Thomas Bernhard definiu a fotografia como “mania sórdida”, uma “doença que acometeu toda a humanidade” e, em suma, “a maior desgraça do Século 20”.

Em certas circunstâncias, é difícil não ver na sátira do trecho – tirado do romance “Extinção”, de 1986 – algo de profético. Nas atuais viagens, por exemplo: se há algo que não está em falta no Século 21, ao menos quando falamos do turismo de classe média/alta no Ocidente, são imagens de metrópoles cada vez mais parecidas nos costumes, no comércio, nas atrações culturais.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/4/2015. Íntegra aqui.

O Big Bang da ansiedade

Um amigo costuma dizer que o verdadeiro Big Bang é nossa mãe. Entendo: o que somos pode ter tudo a ver com a expansão da matéria e o caráter ondulatório do universo, entre outras abstrações da astronomia, mas há mistérios igualmente profundos na genética para explicar como chegamos até aqui.

No caso de Scott Stossel, autor do recém-lançado Meus tempos de ansiedade (Companhia das Letras, 520 páginas), o enunciado do mistério é peculiar. Bisneto de um pró-reitor de Harvard que passou seus últimos anos em posição fetal, emitindo “sons inumanos” em casa ou num hospício, este jornalista americano bem sucedido, casado e pai de dois filhos conta que há 35 anos, 2 meses, 4 dias, 22 horas e 49 minutos tem medo de vomitar.

Publicado na Folha de S.Paulo, 16/1/2015. Íntegra aqui.

Feriado

Um filme – O ano mais violento, J.C. Chandor.

Outro – Foxcatcher, Bennett Miller.

Uma exposição em Paris – Pieter Hugo, Fundação Cartier-Bresson.

Um ensaio –  Fukuyama sobre o esgotamento do neoconservadorismo americano (aqui).

Um livro – Por escrito, Elvira Vigna (Companhia das Letras, 312 págs.).

Fim de semana

Um livro – Colapso, Jared Diamond (Record, 686 págs.).

Um ensaio – Antonio Xerxenesky sobre Michael Mann na Serrote.

Um filme ok – A teoria de tudo, James Marsh.

Uma exposição em Paris – Klimt, Pinacothèque.

Uma em Londres – desenhos de Goya, Courtauld Gallery.

Gritos de formiga

A “Audi magazine” fez uma enquete sobre a “conquista mais subestimada” de algumas áreas profissionais. Entre os entrevistados, o neurocientista Alysson Muotri citou o ato de lavar as mãos. Já o arquiteto Lourenço Gimenes, a invenção do elevador.

A resposta sobre a atividade literária é minha: aprender a desistir. Ou seja, identificar o momento em que o texto não pode mais ser melhorado em revisões obsessivas. Publicar um livro é assinar uma trégua com as próprias ambições e limites, incluindo aí talento e atração pela ruína hedonista.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 13-3-2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Marlene Dumas, Tate Modern.

Outra – Joshua Reynolds, Wallace Collection.

Um clube – Ronnie Scott’s.

Um livro – Meus tempos de ansiedade, Scott Stossel (Companhia das Letras, 520 págs.).

Um perfil – Angela Merkel na Piauí (aqui, para assinantes).

Feiura e destruição

Se há acusação que não pode ser feita ao historiador americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector e autor do recém lançado e-book “Cemitério da esperança” (Cesárea, tradução de Eduardo Heck de Sá), é a de ser um escritor morno.

Para ele, Brasília é um “asilo gigante” cheio de “inovações banais e contraproducentes”. Seu setor hoteleiro lembra um “centro corporativo barato no subúrbio de Dallas”. As criações de Oscar Niemeyer, que “nunca conseguiu dizer não a um tirano”, parecem “algo que Kim Il Sung teria patrocinado após um namorico com a Cientologia.”

Publicado na Folha de S.Paulo, 7/12/2014. Íntegra aqui.

Arte sem coraçãozinho

Há algo de errado quando uma obra de arte diz o mesmo que um anúncio publicitário. Pensei nisso ao ler uma reportagem de Ana Luiza Leal, da revista “Exame”, sobre mentiras na propaganda de marcas brasileiras e estrangeiras de sucesso (http://goo.gl/N2xUHD).

Os casos são até divertidos: da fábrica de sorvete que inventou um patrono italiano, imigrante que teria lutado bravamente ao chegar ao Brasil durante a Segunda Guerra, ao suco cujas frutas não são “colhidas fresquinhas” na “fazenda do senhor Francesco”, conforme o alegado, e sim compradas da empresa Brasil Citrus. Ao contrário dos sucos do Darth Vader, a marca em questão costuma publicar textos “do bem” em que “jovens cansados da mesmice” (seus fundadores) declaram ter como missão “mudar o mundo”.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 21/11/2014. Íntegra aqui.

Memória não afetiva

Muito já se especulou sobre como a overdose de dados na internet mudará o atual conceito de inteligência. Me interessa um outro efeito disso: se pensar é saber esquecer, como mostrou um personagem de Borges, sujeito sobre quem caiu a maldição de lembrar tudo o que viveu, sem conseguir dar hierarquia e sentido a nada, gostar esteticamente de algo também demanda um descarte contínuo de informações.

Ou a manutenção de certas memórias num lugar seguro. Livros costumam mudar (para melhor ou pior) longe de nós. Não tenho como manter a impressão original sobre “Os meninos da rua Paulo”, lido aos treze anos, ou “Os dragões não conhecem o paraíso”, lido aos vinte, porque não sei mais – ninguém sabe – pensar e sentir dentro dos limites de épocas passadas.

O máximo que posso dizer é que ambos continuam bons em 1986 e 1993. Assim como a novela “Vale Tudo” segue perfeita em 1988, e “Warriors, os selvagens da noite” é um dos filmes de gangue mais impactantes feitos para a plateia que estreou seu videocassete de classe média aos 14 anos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 7/11/14. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Do not harm, Henry Marsh (W&N, 288 págs.).

Outro – O sonâmbulo amador, José Luiz Passos (Alfaguara, 270 págs.).

Um filme – Boyhood, Richard Linklater.

Outro – Relatos selvagens, Damián Szifrón.

Uma reportagem – William Langewiesche sobre a queda do voo da Air France, na Piauí.

Fim de semana

Um livro – Falling out of time, David Grossman (Alfred A.Knopf, 208 págs.).

Outro – O homem-mulher, Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras, 183 págs.).

Um disco ok – Tough Love, Jessie Ware.

Um documentário animadão – Bombay beach, Alma Har’el.

Um japonês – Sanpo.

Fim de semana

Um livro – Jan Karski, Yannick Haenel (Record, 160 págs.).

Uma exposição em Porto Alegre – Moacyr Scliar no Santander.

Um peixe na Praia Grande – Caiçara.

Um filme médio – O juiz, David Dobkin

Um disco de 1971 – In my own time, Karen Dalton.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Turner.

Três em Gotemburgo – Vivian Maier, Gauguin/Van Gogh/Bernard, Gótico/Heavy metal,

Um filme ok – O último concerto, Yaron Zilberman

Outro – Mesmo se nada der certo, John Carney.

Um livro – The cat’s table, Michael Ondaatje (Alfred A. Knopf, 269 págs.).

Fim de semana

Um perfil – Delfim Netto na Piauí.

Outro – Al Pacino na New Yorker.

Um livro brasileiro de poemas – Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Paulo Scott (Companhia das Letras, 80 págs.).

Um de contos – Um homem burro morreu, Rafael Sperling (Oito e Meio, 127 págs.).

Um disco – I thought I was an alien, Soko.

O que não se pode fazer a um gato

Wislawa Szymborska em Poemas (Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien):

“Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no entanto mudou.

(…)

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

(…)

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sob o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

(…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.”

 

Fim de semana

Um documentário – Finding Vivian Maier, John Maloof e Charlie Siskel.

Um filme difícil – Welcome to New York, Abel Ferrara.

Um ensaio – Virginia Woolf e a intimidade, por Joshua Rotman (http://goo.gl/FrqOz3)

Uma peça em Londres – My night with Reg.

Dois restaurantes – Nopi, Yauatcha.

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Gilbert & George (White Cube).

Outra – Peter Hujar (Maureen Paley).

Mais três – Joseph Beuys, Henry Wessel, cartazes russos (Tate Modern).

Um livro – O que amar quer dizer, Matheu Lindon (Cosac Naify, 298 págs.).

Um filme okzinho – Magia ao luar, Woody Allen.

Autoficção e mamadeira

Muito se fala da chamada autoficção, ou da tendência de escritores contemporâneos a usar elementos de aparência autobiográfica em suas obras. A Cosac Naify lançou há pouco dois possíveis e ótimos exemplares da vertente: “Formas de voltar para casa”, de Alejandro Zambra, romance que se lê como memória, e “O que amar quer dizer”, de Mathieu Lindon, memória que se lê como romance.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 15/8. Íntegra aqui.

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