Michel Laub

Categoria: Livros

Brasileiros em Berlim

 “Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos jogos Olímpicos não deve viajar (…) no que as companhias aéreas chamam de ‘classe econômica’”. Assim começa Um Brasileiro em Berlim, reunião de crônicas que João Ubaldo Ribeiro publicou em 1990 no jornal Frankfurter Rundschau (Frankfurt/M, 164 págs., edição bilíngue). A frase soa carinhosamente anacrônica: mesmo que os voos internacionais tenham até piorado de lá para cá, reclamar desse tipo de coisa hoje seria um luxo, quase um alento em meio a pandemia, recessão e crise moral sem fim.

O tema do livro é a temporada que o escritor baiano passou como bolsista da DAAD, órgão governamental alemão de apoio às artes, na capital de um país recém unificado depois da queda do Muro. Ubaldo fala de praças, padarias, ciclistas. Do idioma impenetrável que os filhos aprendem sem esforço na escola, dos canibais da Amazônia no estereótipo do Brasil de então. O tom geral é o da frase de abertura, uma ironia hiperbólica e ao mesmo tempo leve, condizente com o “rés-do-chão” que Antonio Candido disse definir o gênero crônica – e que, acrescento eu, sempre paga algum tributo ao anti-intelectualismo. “Gostaria de ser profundo”, escreve João Ubaldo, um autor de formação bastante erudita. “Ou chato, que muitas vezes é sinônimo de profundo. Mas não sou profundo e aspiro a não ser chato.”

É curioso pensar em como um livro com a temática de Um Brasileiro… seria escrito hoje. A par da fluidez e sabor do texto, o que torna a leitura prazerosa no fim das contas, o imaginário de país que emerge dessas páginas –  a cada frase, na comparação constante com a vida da Alemanha – soa ainda mais datado do que se esperaria num conjunto de crônicas. A comédia das contradições da classe média brasileira, tom ao qual Ubaldo acena usando o microcosmo da própria família, foi substituída pela tragédia do ódio entre irmãos, amigos, vizinhos. A bagunça simpática do nosso suposto modo de ser virou uma nada suposta boçalidade. E os estereótipos, bem, esses dão até saudade do tempo dos canibais: a forma como o mundo passou a nos ver – um agrupamento suicida governado por um defensor da morte – é a descrição exata do nosso presente e futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9-4-21, sobre a experiência de morar em Berlim segundo João Ubaldo, Bernardo Carvalho e eu mesmo. Íntegra aqui.

Dor e dinamite

Em 1985, a escritora e cartunista norte-americana Alison Bechdel publicou uma tira célebre em sua série Dykes to Watch Out For. Nela, uma personagem diz que só vê filmes que 1) têm pelo menos duas mulheres; 2) elas conversam uma com a outra; 3) sobre alguma coisa que não seja um homem. O que era um pouco piada, um pouco discurso a sério, virou referência em discussões de Internet sobre preconceito de gênero no imaginário contemporâneo. Afinal, a imensa maioria das histórias ficcionais de hoje – e não só as criadas por homens – acabaria reprovada em um dos três requisitos.

Mas há algo de simplificador, claro, nesse tipo de critério. Na arte existe ironia, contraste, incômodo proposital e tantos outros recursos que põem nuances no valor de face de uma narrativa. A denúncia de uma situação opressiva, por exemplo, pode ocorrer quando o opressor é uma figura totalizante, que assombra cada palavra dita ou pensada por sua vítima. É o caso de Vista Chinesa, novo romance de Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.), e do modo mais radical possível em se tratando da temática de gênero: o livro reproduz a elaboração de um estupro – e, logo, a presença irrecorrível do estuprador – na sensibilidade de uma arquiteta carioca.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26-3-21, sobre os novos livros de Tatiana Levy e Natércia Pontes. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Kathryn Schulz sobre animais e orientação (aqui).

Outro – Alvaro Costa e Silva sobre Asfalto Selvagem (aqui).

Um livro curioso – Walking in Ice, Werner Herzog (Penguin, 67 págs.).

Uma graphic novel – Guarda Lunar, Tom Gauld (Todavia, 96 págs.).

Uma reprise – Mephisto, István Szabó.

Quebra-pedra, caipa e charadinhas

Qual é o papel da memória no gosto literário? Andei pensando nisso ao ler três textos publicados por conterrâneos meus em 2020. O primeiro é o poema que abre Canções de Atormentar, coletânea de Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.), cujo sabor remete a antigos verões no litoral gaúcho – passados tanto pela autora, que é de Pelotas/RS, quanto por mim, que nasci em Porto Alegre.

O poema se chama “laranjal” e fala de uma praia de lagoa no sul do estado. Os meus verões foram na beira-mar de Santa Terezinha, no litoral norte, mas não importa: as descrições fragmentadas de Angélica evocam o mesmo cenário de pequenas casas, vegetação árida, dias de calor e tédio preenchidos pela imaginação infantil e adolescente. Ali florescem expressões como “quebra-pedra”, “barba-de-pau” e “velha coroca”, que pontuam a linguagem local da descoberta do sexo (“eu tenho uma coisa para te contar./ e contei. e ela me disse que já sabia.”), da perplexidade com o mundo adulto/masculino (“qual é a de um cara num passat/ que nas ruas de barro da praia/ ultrapassa qualquer fusca?”) e de um certo confronto presente no resto do livro (a primeira das canções do título é a ladainha de um vendedor de “camareu”).

Como é praxe nesse tipo de abordagem, tudo é permeado pelo sentimento da perda. Que, no entanto, não conseguiria ser transmitido sem os atributos (sonoridade, subentendidos, ritmo) da forma poética: “em 78 construíram a casa./ isso dava ao meu pai doze anos/ para lavar o carro na rampa.”; “o cara do kung-fu lutava sozinho (…)/ um príncipe das artes marciais./ desapareceu./ hu. iá. hu/ iá. hu. iá”. A ideia da morte, em seu sentido literal ou metafórico, ligado ao que só existe hoje na nossa lembrança, ganha tradução num humor também dúbio, entre a crítica e o carinho, porque podemos ter saudades daquilo que nos dá tristeza: “puro junco, aranha,/ lagartixa, carro atolado./ quer saber o que é/ o fim da civilização?// ‘isto aqui até parece uma praia’/ me diz o rapaz que veio de são paulo/ ao ver as figueiras, a lagoa, a areia grossa// não lhe guardo rancor”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-2-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um podcast – Wind of Change, Patrick Radden Keefe.

Um documentário simpático – Daguerréotypes, Agnés Varda.

Um disco – Carnage, Nick Cave.

Um artigo – Richard Brody sobre Claude Lanzman (aqui)

Um romance – Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.).

Fim de semana

Uma série – Doutor Castor, Marco Antônio Araújo.

Um documentário – Fassbinder, Annekatrin Hendel.

Um ensaio – Karl Ove Knausgaard sobre editores, na Piauí.

Uma memória – Abandonar um Gato, Haruki Murakami (aqui).

Uma série em podcast – Técnicos, Luciano Potter e Rafael Divério.

Fim de semana

Um documentário – Zappa, Alex Winter.

Um documentário em duas partes – Philip Roth Unleashed, Sarah Aspinall (aqui).

Um debate – Ciro Gomes x André Lara Resende (aqui).

Um romance – Os Tais Caquinhos, Natércia Pontes (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um ensaio – Colin Vanderburg sobre rock e cultura negra (aqui).

O Evangelho da recusa

Em 2009, o sul-africano J.M. Coetzee publicou Verão, último romance de um ciclo autobiográfico que tinha também Infância (1997) e Juventude (2002). É um dos grandes livros deste grande escritor ao mesmo tempo fácil e difícil, moderno e pós-moderno, composto por entrevistas com mulheres que teriam tido relacionamentos com o próprio Coetzee – aqui tornado personagem depois de sua hipotética morte na vida real.

As entrevistas se alternam com o que seriam fragmentos de ideias para romances encontradas no diário do morto. Num deles, o narrador anota, tratando a si mesmo na terceira pessoa: “Evitar pôr ênfase demais no interesse dele por Jesus e transformar isto aqui numa narrativa de conversão”. Em outro: “A desenvolver: sua própria teoria educacional, cultivada em casa, suas raízes em (a) Platão e (b) Freud”.

As duas passagens trazem uma pista para interpretar a estranha trilogia que ocupou Coetzee na década seguinte à de Verão: os romances A Infância de Jesus (2013) e A Vida Escolar de Jesus (2016), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, e o mais recente A Morte de Jesus (The Death of Jesus, Viking, 2019). Lidos em sequência, os três contam a história provavelmente alegórica da formação de um menino (Davíd) junto a pais adotivos (Simón e Inés), num mundo de feição pós-apocalíptica onde não há memória do passado distante.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 11/12/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – Kathleen Meaney sobre arte africana e design (aqui).

Uma história – David Markson x Don DeLillo (a partir de 22:15, aqui).

Um romance curioso – The Silence, Don DeLillo (Scribner, 128 págs.).

Uma entrevista – Brizola, 1980 (aqui).

Um filme – Relatos do Mundo, Paul Greengrass.

A moral do monstro

“O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto. – Qual dos dois cansa primeiro?”. Assim começa 234, de Dalton Trevisan (Record, 128 págs), e poderia começar qualquer livro do autor – até porque muitos deles repetem os mesmos temas, ou tomam de empréstimo frases e tipos humanos usados em coletâneas anteriores, numa interminável variação do que parece ser um único conto desde os anos 1950.

Tudo se passa na província, na ampla acepção do termo, o que não se resume à Curitiba natal de Dalton. Como em tantos escritores que transformaram a geografia em matriz mitológica, o conceito de local aqui é tão “universal” quanto o da Dublin joyceana, do sul americano de Faulkner ou da Escola de Magia de Hogwarts: trata-se de um lugar que só existe na imaginação de quem o cria ou reinventa, e portanto – dado o milagre empático da boa literatura – na cabeça de quem lê.

Voltei a 234 semanas atrás, num desses acasos comuns a quem está procurando uma coisa na estante e acaba embarcando em outra. Fiquei com a impressão de que o livro, lançado em 1997, com o tempo se tornou um corpo ainda mais estranho dentro da cultura brasileira. Numa época tão marcada por uma ideia de ficção utilitária (lemos para aprender algo) ou edificante (exemplos que nos inspiram a enfrentar os problemas da vida), por conceitos como o de “gatilho narrativo” (coisas que não devemos ler porque nos lembram de traumas/medos/pudores), aqui está um autor cuja estética (e a ética) soa como o contrário disso (“o melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado”).

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/1/2020. Íntegra aqui.

O jogo do futuro

Numa passagem de O Filho Eterno, romance autobiográfico sobre o pai de um portador da Síndrome de Down (Record, 222 págs.), o narrador de Cristovão Tezza conta como enxergou um ponto de maturidade possível numa criança que parecia viver um presente contínuo e circular. “O menino sente muita dificuldade para aceitar mudanças de rotina”, diz ele, que trata a si mesmo na terceira pessoa. “O pai terá de obrigá-lo a assistir a algo novo (…) até que descubra que a novidade pode ser interessante.”

Nesse universo repetitivo e por vezes árduo, o filho acaba descobrindo um estímulo inusitado no futebol. Torcer pelo Athletico-PR traz vantagens, entre elas a chance de socializar com outros torcedores e um esboço de aprendizado de leitura – ele consegue reconhecer nomes de times, digitá-los para baixar os hinos em mp3. A maior mudança, contudo, vem da relação que o esporte tem com o tempo, uma abstração que para o personagem era inatingível até aquele momento: “As partidas (…) já não são mais eventos avulsos, sem relação entre si; pela noção de torneio, finalmente a ideia de calendário entra na sua cabeça; como na Bíblia, o mundo se divide entre partes que se sucedem até a Batalha Final”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 16/10/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Meu Anjo da Guarda tem Medo do Escuro, Charles Simic (Todavia, 112 págs.).

Um documentário – Professor Polvo, James Reed e Pippa Ehrlich.

Um filme de 2013 – Museum Hours, Jem Cohen.

Uma entrevista – Mayrton Bahia (aqui).

Um disco – Tocar em Flores Pelado, Gabrre.

Algo que não foi feito ainda

Numa entrevista de Caetano Veloso ao programa Roda Viva, em 1996, Eduardo Gianetti da Fonseca faz uma pergunta cujo preâmbulo é uma tentativa de síntese da obra do compositor, cantor e escritor baiano. Por um lado, diz o economista, há nessa obra a defesa de parâmetros civilizados na convivência pública brasileira – no trânsito, na política, na organização econômica. Por outro, a celebração de um “coração iorubá”, uma “alma selvagem” feita de “espontaneidade” e “alegria de viver”. A fala é um elogio à busca por um “trópico utópico”, mas traz a desconfiança de que as esferas da ordem e da alegria não possam conviver na vida civil: “Eu temo que a civilização entristeça a alma humana. À medida que o Brasil se civiliza, nós vamos perder aos poucos (…) essa vitalidade emocional, essa coisa fantástica que ainda está viva”.

Nos anos 1990, Caetano deu duas respostas importantes ao dilema. A primeira foi no próprio Roda Viva, ao afirmar que nossa “riqueza no modo de ser” permite evitar o caminho da mera adesão cultural, buscando incorporar os “dados universais da civilização” para fazer deles “algo que não foi feito ainda.” A segunda, que elaborou mais longamente a proposta, foi o livro “Verdade Tropical” (1997). Um de seus capítulos, “Narciso em Férias”, acaba de ganhar uma edição à parte (Companhia das Letras, 168 págs.), aproveitando a estreia de um documentário homônimo dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 13/11/2020. Íntegra aqui.

Ordem à bala

Num ensaio publicado na Folha de S.Paulo em maio, no auge da confluência trágica entre Covid e desgoverno federal, o escritor e artista visual Nuno Ramos especula sobre qual movimento estético brasileiro teria dado conta – como registro ou previsão – da falência moral a que assistimos no presente.

“Se algo em nossa cultura pegou o bolsonarismo e adjacências terá sido o cinema marginal, 50 anos atrás, na virada das décadas de 60 e 70”, escreve ele. Diante da “falta de horizonte explicitamente político”, do “consumo como dejeto”, as personagens desses filmes “giram e giram numa loquacidade sem fim” porque o “chão coletivo” dissolveu-se debaixo delas com o AI-5 paralelo ao milagre econômico. “Gritam o próprio nome para que não derretam à nossa frente. Presas num autocircuito de gestos, vestuário, frases, alcançam uma continuidade que lhes falta historicamente.”

Lembrei de Nuno Ramos já nos primeiros capítulos de “A República das Milícias”, de Bruno Paes Manso (Todavia, 304 págs.), quando o autor retrata o ambiente do bairro carioca de Rio das Pedras: um lugar onde lojas de hambúrguer artesanal e sushi, cabelereiros “black e de madame”, ofertas de kits com churrasqueiras e máquinas de chope se espremem entre “anúncios de instalação de TV a cabo pela rádio pirata transmitida por alto-falantes pendurados nos postes”. Aqui também não há perspectiva histórica, e tudo grita num misto de ausência de Estado – motoristas de Uber não se arriscam a entrar lá – com oportunidade miúda, via salve-se quem puder.

Como no cinema marginal, no entanto, onde a “violência como forma genérica do filme” se confunde com uma degradação da ordem aparente, na “constante cacofonia” apontada por Bruno também há um sinal duplo: um componente autoritário que age por trás do caos, dando ao visitante a sensação de que “olhos invisíveis” o seguem o tempo todo. Rio das Pedras consolidou e exportou o modelo de controle miliciano que hoje se espalha pela capital fluminense. A mentalidade que o sustenta deve algo à que movia os grupos de extermínio nos anos 1950-1980, ou os justiceiros que seguiram agindo na Nova República: a noção de que a violência direcionada contra alvos específicos – bandidos avulsos cujos atos são covardes e imprevisíveis – pode gerar paz social.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/11/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – The Death of Jesus, JM Coetzee (Vintage, 199 págs.).

Uma releitura – 234, Dalton Trevisan (Record, 128 págs.).

Um artigo – Rebecca Mead sobre Artemisa Gentileschi (aqui)

Um filme – Babenco, Barbara Paz.

Um disco – Vida Amorosa que Segue, Lulina.

Fim de semana

Um livro – A República das Milícias, Bruno Paes Manso (Todavia, 298 págs.).

Uma releitura – Narciso em Férias, Caetano Veloso (Companhia das Letras, 168 págs.).

Um artigo – Casey Cep sobre Faulkner e racismo (aqui).

Uma entrevista – Benjamin Teitelbaum sobre direita e tradicionalismo (aqui).

Um filme datado – On the Rocks, Sofia Coppola.

Fim de semana

Um livro – A Cruzada das Crianças, Marcel Schwob (34, 73 págs.).

Outro – Discurso sobre o Colonialismo, Aimée Césaire (Veneta, 132 págs.).

Uma série média – O Gambito da Rainha.

Uma série divertida – Pretend it’s a City.

Um filme meio ruim – Kung Fu Master, Agnès Varda.

Fim de semana + quarentena (36)

Uma série – História da Alimentação no Brasil, Eugênio Puppo.

Um podcast – Praia dos Ossos, Branca Vianna e Flora Thomson-Deveaux.

Um disco – Every Bad, Porridge Radio.

Um texto – Paulo Scott sobre André Penteado e a Revolução Farroupilha (aqui).

Um posfácio – Thomas Pynchon na nova edição de 1984 (Companhia das Letras, 408 págs.).

Fim de semana + quarentena (35)

Uma reprise – Heat, Michael Mann.

Outra – Wag the dog, Barry Levinson.

Um vídeo – Sordid Scandal, Amalia Ulman (aqui).

Um texto – JP Cuenca sobre a nostalgia dos blogs (aqui).

Um livro – Canções de Atormentar, Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.).

Fim de semana + quarentena (34)

Uma coletânea – [para o meu coração num domingo], Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 338 págs.).

Um texto de 1906 – Mario de Lima Barbosa sobre Machado de Assis (aqui).

Uma entrevista – Newton Bignotto sobre ideias, facções e o Brasil (aqui).

Um filme – Dark Waters, Todd Haynes.

Um documentário com uns problemas – O Dilema das Redes, Jeff Orlowski.

Fim de semana + quarentena (33)

Um documentário – Narciso em férias, Ricardo Calil e Renato Terra.

Um filme – Estou pensando em acabar com tudo, Charlie Kaufman.

Uma página de poesia – Arcas de Babel (aqui)

Uma série de imagens – Quem te fala é uma morta, Juliana Bernardino (aqui).

Um video – Pedro França sobre gifs (aqui).

Fim de semana + quarentena (32)

Uma reprise – O Sétimo Selo, Bergman.

Outra – The Mosquito Coast, Peter Weir.

Uma releitura – Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 336 págs.).

Um artigo – Os truques dos romances de ideias, por Sianne Ngai (aqui).

Outro – Como o sensacionalismo influenciou a religião, por Fabio Marton (aqui).

Fim de semana + quarentena (31)

Uma história – Israel x Emirados Árabes no The Daily.

Um artigo – Henry Kissinger por Thomas Meaney (aqui).

Um doc a favor – Axé, Chico Kertész.

Um disco de 2018 – Record, Tracey Thorn.

Uma nova edição – Herdando uma Biblioteca, Miguel Sanches Neto (Ateliê, 192 págs.).

‘Por que você está chorando?’

Toda vez que surge um tabu na arte, surge também uma transgressão. Sempre penso nisso quando ouço críticos implicando com o uso do off (ou do voice over) no cinema. Segundo a teoria, a voz acima ou fora da cena é uma espécie de muleta, um atalho vulgar para roteiristas/diretores que deveriam preferir a sofisticação dos recursos visuais – ou então a dramaturgia das falas dos atores, que só funcionaria acompanhada pela expressividade dos seus gestos.

Uma das minhas graphic novels preferidas, Fun Home, da americana Alison Bechdel (Todavia, 234 págs, tradução de André Conti), pode ser lida como uma resposta a esse clichê. A trama, sobre a relação tumultuada da autora com o pai e a própria sexualidade, é dividida entre os desenhos e longas e frequentes legendas externas aos balões de diálogo, o que no universo dos quadrinhos equivaleria ao off/voice over de um filme.

Bechdel sabe, no entanto, que a questão não é o uso do recurso xis ou ípsilon em si. Uma legenda pode ser apenas reiteração ou oferecer ao leitor uma nova camada de sentido. Em Fun Home há uma variação constante entre gravidade e leveza, muitas vezes na mesma cena. Quando o desenho flagra a banalidade do cotidiano, por exemplo, o texto a colore com citações de alta literatura. Quando o texto descreve momentos trágicos, o traço sugere uma ironia carinhosa em cima de personagens doces.

Fun Home é uma das referências que me vieram à cabeça ao ler Bezimena, de Nina Bunjevac (Zarabatana, 224 págs., tradução de Claudio R. Martini). À semelhança do livro de Bechdel, a história parte de um componente biográfico sombrio, exposto pela autora num posfácio. Em 1988, aos 15 anos, na cidade sérvia de Aleksinac, durante a ascensão do nacionalismo que desaguaria na Guerra da Bósnia (1992-1995), ela sofreu uma tentativa de estupro com a conivência (ou o auxílio ativo) de uma colega de escola.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (30)

Um perfil – Lorenzo Mammì por Rafael Cariello, na Piauí.

Um podcast – Agora, agora e mais agora, no Público.

Um vídeo – Lygia Clark por vários artistas (aqui).

Uma reprise de 2016 – Hypernormalisation, Adam Curtis (aqui).

Um livro de 1994 – Afirma Pereira, Antonio Tabucchi (Cosac Naify, 160 págs.).

A terra e os ossos

A palavra exata sempre foi uma arma política. Uma batalha de opinião pública começa a ser vencida quando definimos alguém como militante ou terrorista. O mesmo se dá com a memória coletiva: existem disputas sobre como chamar o processo industrial de extermínio dos judeus na Segunda Guerra (Holocausto ou Shoá), sobre o nome do horror na Ruanda de 1994 (o equivalente local para “massacre” ou “massacre absoluto”), sobre a aplicação do termo “genocídio” ao que ocorreu com os armênios em 1915 ou segue ocorrendo com os povos indígenas brasileiros.

É claro que só esse debate não previne a violência. Mas sua pertinência reafirma o poder da linguagem – e, logo, da ficção – no diálogo entre verdade histórica e sensibilidade individual, condição para um futuro que aprenda com os crimes políticos do passado. Dá para ler Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia, 264 págs.), sob essa chave: o impacto do romance, que expõe as feridas da herança escravocrata na trajetória de duas irmãs no sertão baiano, num enredo que inclui um trauma de infância, misticismo afro-brasileiro, disputa de terras e luta sindical, é antes de mais nada um feito narrativo, estético.

O livro saiu no ano passado, depois de ganhar o prêmio Leya de literatura (que contempla textos inéditos) e ser publicado com sucesso em Portugal. Nascido em Salvador, em 1979, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, Itamar foi apresentado na imprensa brasileira como a raridade sociológica que de fato representa: um autor negro em meio a uma literatura majoritariamente produzida por nomes da classe média branca, que falam de temas ligados ao seu entorno – ou que, quando se propõem a sair dele, com frequência o fazem com um olhar próximo do exotismo e/ou paternalismo.

O triunfo de Torto Arado, porém, não existiria sem um manejo formal do tema para além do que já se sabe via noticiário ou militância. Esse é sempre um ponto delicado quando se faz ficção a quente, sobre algo que está no centro do debate do dia-a-dia. Enquanto algumas frases poderiam estar num post genérico sobre a situação dos quilombolas no Brasil (“passaram a entender por que ainda sofriam preconceito no posto de saúde, no mercado”), em outras a especificidade faz o livro ganhar força: “Morreu depois de comer uma sariema no desespero da fome; a ave tinha comido uma cascavel e sua carne estava impregnada do veneno.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/8/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (29)

Um livro – A Fonte da Autoestima, Toni Morrison (Companhia das Letras, 456 págs.).

Um podcast – James Baldwin no Open Source.

Uma série de fotos – A infância de J.M. Coetzee (aqui).

Uma entrevista – Emicida (aqui).

Outra – Deise Ventura sobre Bolsonaro e genocídio (aqui).

Fim de semana + quarentena (28)

Uma antologia – Poesia +, Edimilson de Almeida Ferreira (Ed 34, 382 págs.).

Um artigo – Trótski no meio das árvores (aqui).

Uma reprise – Arca Russa, Alexandr Sokurov.

Uma conversa sobre Internet – Fernanda Bruno e Sergio Amadeu no Tecnopolítica.

Outra – Vera Magalhães, Patrícia Campos Melo, Marlos Ápyus e Pablo Ortellado (aqui)

Fim de semana + quarentena (27)

Um romance – Dept. of Speculation, Jenny Offill (Knopf, 192 págs.).

Uma reprise – O Apocalipse de um Cineasta, Eleanor Coppola.

Um vídeo de 1995 – Why I Never Became a Dancer, Tracey Emin (aqui).

Uma conversa de 2016 – Nick Pileggi, Irwin Winkler and Edward McDonald sobre Goodfellas (aqui).

Um debate – Caetano Galindo e Antônio Xerxenesky sobre Ulisses (aqui).

Sobre oficinas literárias

1.

Há um romance de Agatha Christie, cujo nome não direi para não estragar a surpresa dos interessados, cuja história é contada pelo próprio assassino. Reli-o na quarentena, mais de três décadas depois de sofrer o impacto de seu desfecho pela primeira vez, e foi curioso voltar a algo tão decisivo na minha vida de leitor (e, logo, de escritor): a descoberta do narrador inconfiável.

Claro que Agatha Christie não inventou nada. É provável que ela conhecesse alguns dos mestres modernos no uso do expediente, como Henry James ou Ford Madox Ford (no Brasil, o grande exemplo ainda é o do Machado de “Dom Casmurro”). Mas não importa. Diluído ou não, o achado de reproduzir ficcionalmente o que parece uma obviedade do nosso dia-a-dia – a possibilidade de desconfiarmos de interlocutores – me abriu a porta para uma das riquezas da literatura: a de ampliar os sentidos do discurso, fazendo avançar inteligência e sensibilidade por meio da nuance, da ironia no sentido amplo do termo.

2.

Uma segunda descoberta de adolescência, igualmente óbvia, mas não tanto, surgiu na leitura de “O Cobrador”, de Rubem Fonseca: a força que a ficção ganha ao nos pôr na cabeça de personagens radicalmente diferentes de nós. Uma coisa é nos identificarmos com os tipos edificantes, mesmo em seu eventual anti-heroísmo, dos romances juvenis. Outra é ler uma história contada por um pistoleiro (“Encontro no Amazonas”), um pedófilo (“Pierrô da Caverna”), um estuprador (o conto título do livro).

As ações de criaturas assim nos causam repulsa, sem dúvida, mas existe um efeito ambíguo no modo como elas chegam a nós. O bom uso da primeira pessoa nos faz grudar na perspectiva de quem fala, o que nos obriga a acompanhar ativamente – se essa é a expressão certa – a lógica interna dessa psicologia. A ambivalência é como um teste para os nossos limites éticos, nosso pudor em ter contato com o que preferíamos não saber. Sendo otimista quanto a um possível papel social da ficção, que surge a partir da consciência individual de cada leitor, é como se o jogo de aderência e distância daquilo que é narrado fizesse avançar a compreensão que temos do mundo e de nós mesmos, nos tornando seres mais complexos – e, nos termos desse mesmo otimismo, seres melhores.

3.

A primeira pessoa é apenas um dos exemplos de como a técnica literária pode ser uma questão moral. É ingênuo separar a forma de um texto e os efeitos possíveis de sua recepção, acreditando na inspiração ignorante das ferramentas que a expressam na página. Felizmente, a maioria dos que começam a escrever hoje sabe que não vai a lugar nenhum sem conhecer a carpintaria do ofício. Esse aprendizado pode ser feito em anos de leitura solitária, mas há como apressar o processo.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 24/7/2020. Íntegra aqui.