Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma fala – Caetano Galindo sobre T.S. Eliot (aqui).

Uma coleção em Berlim – Hamburger Bahnhof

Um exposição no Hamburger Bahnhof – Pauline Curnier Jardin.

Um texto – Juliana Cunha sobre Anna Kariênina (aqui).

Outro – Camila von Holdefer sobre J.M. Coetzee (aqui).

Fim de semana

Um romance – Correntes, Olga Tokarczuk (Todavia, 400 págs.).

Um lugar em Berlim – Haus den Statistik.

Outro – Savvy.

Uma exposição em Berlim – Arte apoiada pelo nazismo, no Deutsches Historisches Museum.

Um curta – November, Hito Steyerl (aqui).

Fim de semana

Um documentário – Woodstock 99, Garret Price.

Outro – Das War Thomas Bernhard (aqui).

Um livro – Discurso sobre a Metástase, André Santana (Todavia, 216 págs.).

Um texto – Sarah E. Bond e Joel Christensen contra o mito do herói (aqui).

Uma série de fotos – Nova York e o pós-pandemia (aqui).

Fim de Semana

Um disco – Happier Than Ever, Billie Eillish.

Um texto – Donna Ferguson sobre a biografia de WG Sebald (aqui).

Um livro – Susan Sontag: The Complete Rolling Stone Interview, Jonathan Cott (Yale University Press, 145 págs.).

Uma entrevista – Camila Rocha sobre a nova direita brasileira (aqui).

Um filme – As Estátuas Também Morrem, Chris Marker e Alain Resnais.

O julgamento do infinito

No final de 1912, a editora alemã Rowohlt Verlag publicou uma reunião de “poemas em prosa” chamada Contemplação, estreia na literatura de um jovem tcheco chamado Franz Kafka. A tiragem foi modesta, 800 exemplares, e a recepção um tanto morna, com exceção de uma resenha assinada por um compatriota e amigo, Max Brod. “Consigo facilmente imaginar alguém botando as mãos no livro e constatando que sua vida se alterou por inteiro dali por diante”, ele afirmou, num tom que tinha algo de profético para além da banalidade superlativa.

Brod foi um autor de algum sucesso, tendo publicado romances, contos, ensaios e memórias. Seu nome teria se apagado da história literária, contudo, não fosse a decisão célebre que tomou em 1924: desrespeitando a vontade de Kafka expressa pouco antes de morrer, ele se negou a queimar os manuscritos do amigo. Entre eles estavam textos inacabados, que depois de edições póstumas viraram O Processo e Carta ao Pai: obras que só conhecemos porque escaparam pela segunda vez da extinção em 1939, quando Brod fugiu do nazismo num périplo de trem e navio que o levou de Praga a Tel Aviv.

Se a história da fuga é aventuresca, seu final tardio traz uma nota burocrática: em 2016, a Suprema Corte israelense se debruçou sobre uma disputa pela guarda de parte dos papeis. Os litigantes eram as herdeiras da secretária de Brod, para quem ele deixou os direitos em testamento, o arquivo de Marbach, entidade pública alemã para onde elas queriam vender um lote do material, e a Biblioteca Nacional de Israel, interessada no legado de um autor marcado pelo antissemitismo na diáspora. Os detalhes do caso, incluindo as inevitáveis chicanas técnicas e morais dos envolvidos, são narrados no ótimo O Último Processo de Kafka (Arquipelago, 272 págs., tradução de Rodrigo Breunig).

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 2/7/2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Bolsonaro e os judeus, por Fábio Zuker e Pedro Beresin (aqui).

Uma entrevista – Rosa Freire Aguiar sobre Celso Furtado (aqui).

Uma conversa – Luís Augusto Fischer e Nelson Coelho de Castro (aqui).

Um disco lançado agora – Umbigos Modernos (1988), Nelson Coelho de Castro.

Um romance – O Riso dos Ratos, Joca Reiners Terron (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um disco – Convocations, Sufjan Stevens.

Um museu em Berlim – Humboldt Forum.

Um livro – A Vida dos Outros e a Minha, Claudia Cavalcanti (Cultura e Barbárie, 112 págs.).

Um texto – Leonardo Padura sobre Cuba (aqui)

Uma entrevista – Ana Penido e Suzeley Kalil sobre o Partido Militar (aqui).

Uma ofensa à morte

“Não faças poesia com o corpo”, escreve Carlos Drummond de Andrade num poema célebre de A Rosa do Povo (1945). “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”; “Não cantes tua cidade, deixa-a em paz”; “Não recomponhas/ tua sepultada e merencória infância”; “vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família/ desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.”

Os versos soam como um chega para lá em certa lírica derramada, uma defesa do rigor da forma contra o sentimentalismo flácido: “Penetra surdamente no reino das palavras/ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intacta./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.”

Penso em Drummond ao abrir o mais recente livro de Ana Martins Marques, sua conterrânea mineira e um dos nomes centrais da nova poesia no país. Em Risque esta palavra (Companhia das Letras, 120 págs.), há um pouco dessa ideia de que tudo começa e termina na linguagem. Num nível superficial de entendimento, claro, trata-se de uma obviedade. Mas na compreensão do que faz a raridade de um bom poema, aqui está a chave mestra: se a busca da palavra exata não é condição suficiente no processo, é o mais necessário dos passos. Identificar essa palavra, o lugar intransferível dela dentro de uma sintaxe igualmente intransferível, é obrigar o estado de dicionário a abrir suas “mil faces secretas sob a face neutra”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 16-7-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma distopia – O Último Gozo do Mundo, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um museu em Dresden – Albertinum.

Outro – Residenzschloss.

Um terceiro – Japanisches Palais.

Um filme – Shiva Baby, Emma Seligman.

Fim de semana

Um perfil – Júlio Lancellotti por Angélica Santa Cruz (aqui).

Um romance – O Deus das Avencas, Daniel Galera (Companhia das Letras, 177 págs.).

Uma exposição em Berlim – Loie Hollowell, König Galerie.

Outra – Marc Bauer, Berlinische Galerie.

Uma série média – Morte em Vermelho.

Como escrever sobre o horror

Como escrever sobre o horror? A pergunta atravessa Guerra Aérea e Literatura, livro que reúne palestras dadas pelo ficcionista alemão W.G. Sebald em Zurique, em 1997, tendo como tema os romances produzidos em seu país logo depois do fim do nazismo.

O conjunto forma um ensaio rigoroso, no qual o autor é implacável com a geração que lhe precedeu. Para ele, a literatura alemã dos anos 1940 e 1950 começa a fracassar em virtude de um constrangimento histórico: o sentimento de culpa e humilhação do povo que pouco tempo antes havia posto Hitler no poder. Afinal, o empenho em fazer um retrato honesto de ações como os bombardeios aliados no fim da guerra, que reduziram cidades a pó sem diferenciar alvos civis e militares, poderia se confundir com algum tipo de denúncia relativista – ou, mais grave, de lamento pela sorte do III Reich no conflito.

Mas Sebald vai além da hipótese psicológica. A originalidade de sua tese é relacionar o problema moral com o problema estético: identificar na prosa alemã do período um “gesto de defesa diante da recordação”, como se o “funcionamento continuado da linguagem normal” fosse incompatível com a autenticidade de textos sobre um passado recente e catastrófico. Clichês como “noite fatídica”, “labaredas do céu” e “o diabo estava à solta”, presentes nos testemunhos sobre os bombardeios, chegam à ficção em equivalentes cujo efeito seria “esconder e neutralizar os acontecimentos que extrapolam a capacidade de compreensão” – a saber, as “intermináveis e empoladas abstrações” na velha guarda de escritores que trataram do tema, o “sentimentalismo” e o “queixume” na nova.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 23-4-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Risque Esta Palavra, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um texto – Otavio Frias Filho sobre Janet Malcolm (aqui).

Outro – Emilio Fraia sobre Juan Carlos Onetti e Michel Leiris (aqui).

Uma série bem Fassbinder – Berlin Alexanderplatz.

Uma bem sala de roteiro – Mare of Easttown.

Riso e horror no espelho

Um dos melhores romances do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) fala de um sujeito chamado Reger, que há trinta anos cumpre o mesmo ritual: “a cada dois dias, com exceção das segundas”, postar-se por uma hora diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, numa sala de um museu em Viena. A história é hilária não pelo que (não) acontece, e sim pelo modo como é narrada por um amigo do protagonista, Atzbacher: sua voz imita a de Regel xingando os alvos mais diversos da cultura de sua época, num monólogo reiterativo e exuberante tipicamente bernhardiano (Old Masters, The University of Chicago Press, 156 págs., tradução para o inglês de Ewald Osers).

Numa análise rápida, dá para dizer que o livro fala de muitas coisas, mas não do próprio Homem de Barba Branca. A pintura é apenas um nome citado de passagem aqui e ali. A biografia e as questões formais que preocuparam Tintoretto são tópicos ignorados. Em vez disso, a apreciação estética no discurso de Reger/Atzenbacher tem um tom radicalmente generalizante: “Os historiadores da arte são os verdadeiros assassinos da arte”; “O negócio dos historiadores da arte é o mais vil dos negócios”; “Um historiador de arte tagarela, e só há historiadores da arte tagarelas, deve ser expulso do mundo da arte a chicotadas.” Na moral convicta dessa voz, que é a moral irônica de Bernhard, a hipocrisia e obtusidade do mundo moderno desvirtuariam uma espécie de ideal – a verdade que pode estar num livro, numa peça de música, numa tela.

O que Reger vê no museu, contudo, e sem comunicar isso a Atzbacher, que por sua vez não comunica ao leitor, talvez seja a representação possível dessa verdade. A obra de Tintoretto funciona no livro como referência quase subliminar, o ponto na comparação com o qual se degrada a cultura que Bernhard satiriza. Não sei por que Homem de Barba Branca foi usado como mote de Old Masters, mas a razão poderia ser até literal: afinal, o que mais chama a atenção no quadro pintado pelo italiano são os olhos do retratado. Por causa da severidade deles, da assertividade inegociável com que eles conduzem e fixam nossa atenção, esta imagem de 1545 jamais foi nem será passiva. Olhar para ela traz sempre um incômodo: nos tornamos também objeto de escrutínio, assim como a sociedade da qual fazemos parte, do mesmo modo que acontece – bingo – ao lermos romances como os de Thomas Bernhard.

Trecho inicial de texto sobre Bernhard, Gerhard Richter e o nazismo, publicado no Valor Econômico, 18.6.2021. Íntegra aqui.

Alemão aos oitoequarenta

Meu pai era de Berlim. Nasceu em 1930 e saiu pouco antes da Segunda Guerra, num daqueles últimos navios que serviram de fuga aos judeus. Durante uns bons 30 anos, ele manteve com a Alemanha uma relação desconfiada por motivos óbvios, e só foi se reconciliar com as próprias origens em algum ponto dos anos 1970 – quando a situação financeira lhe permitiu fazer a primeira das muitas viagens que faria à terra natal até morrer, em 2010.

Conto essa história porque em 1994 apresentei meu pai a um amigo de Hamburgo, e os dois conversaram no idioma que acabei não aprendendo na infância (um pouco, quem sabe, por causa dessa desconfiança familiar) e nem mais tarde (aí por preguiça mesmo). Esse amigo comentou depois: “Seu pai fala um alemão que não existe mais”. De fato: a exemplo da Berlim e do mundo dos anos 1930, certos detalhes do vocabulário e da prosódia usada na época viraram ruínas – persistindo apenas na memória de quem não teve contato com as mudanças na expressão oral corrente do país ao longo das décadas.

Gosto de pensar na língua como uma espécie de museu. Transportando o exemplo para o português, é nele que ainda estão gírias de época, antigos bordões de novelas, apelidos usados por casais que deixaram de se ver. No meu caso, e em vários sentidos, a Porto Alegre onde fui criado e de onde saí há quase vinte e cinco anos – a evocação de suas pessoas, lugares, fatos – sobrevive em determinadas expressões, determinadas sílabas de um sotaque que só à distância aprendi a identificar com clareza.

A imagem do museu, contudo, refere-se ao que essa instituição passou a ser em décadas recentes: não apenas um guardião do passado, mas um instrumento capaz de reinventar a história sobre a qual se debruça, discutindo suas repercussões na vida dos que foram e serão tocados por ela. É uma operação que também aponta para o futuro: é na língua que começam debates sobre certas heranças da barbárie – em termos como “mulato” ou “judiação” –, sobre vieses políticos – chamar alguém de “manifestante” ou “vândalo”, de “combatente” ou “terrorista” – a serem ou não reproduzidos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 4.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – O Último Processo de Kafka, Benjamin Balint (Arquipélago, 272 págs.).

Um capítulo de livro – Isabel Wilkerson sobre os EUA e o nazismo (aqui).

Um podcast – Lawrence da Arábia no História FM.

Uma exposição em Berlim – Gerhard Richter na Alte Nationalgalerie.

Outra – Gerhard Richter na Max Liebermann Haus.

Fim de semana

            Uma visita guiada – Alice Neel no Met (aqui)

            Um romance – O som do Rugido da Onça, Micheliny Verunschk (Companhia das Letras, 168 págs.).

            Uma releitura – Meu Tio o Iauretê, Guimarães Rosa.

            Um artigo – Marcos Nogueira sobre os cozinheiros dos ditadores, na Piauí.

            Um podcast – Michel Gherman sobre antissemitismo, no Afinidades Eletivas.

Fim de semana

Um texto – Adam Grant sobre a pré-depressão da pandemia (aqui)

Um vídeo – Triple Chaser, Forensic Architecture (aqui).

Um documentário – Alvorada, Anna Muylaert e Lô Politi

Um livro – Cinema e Política, Paulo Emilio Salles Gomes (Penguin, 152 págs.).

Uma série em podcast – Escritores/as e personagens, Itaú Cultural.

Fim de semana

Um disco – G_d’s Pee AT STATE’S END!, God Speed You! Black Emperor.

Outro – Kids, Noga Erez.

Um documentário ok – Marginal Alado, Felipe Novaes.

Um podcast – Caminhando com Leonardo Fróes, 451.

Um livro – O Ar que me Falta, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras, 200 págs.).

Brasileiros em Berlim

 “Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos jogos Olímpicos não deve viajar (…) no que as companhias aéreas chamam de ‘classe econômica’”. Assim começa Um Brasileiro em Berlim, reunião de crônicas que João Ubaldo Ribeiro publicou em 1990 no jornal Frankfurter Rundschau (Frankfurt/M, 164 págs., edição bilíngue). A frase soa carinhosamente anacrônica: mesmo que os voos internacionais tenham até piorado de lá para cá, reclamar desse tipo de coisa hoje seria um luxo, quase um alento em meio a pandemia, recessão e crise moral sem fim.

O tema do livro é a temporada que o escritor baiano passou como bolsista da DAAD, órgão governamental alemão de apoio às artes, na capital de um país recém unificado depois da queda do Muro. Ubaldo fala de praças, padarias, ciclistas. Do idioma impenetrável que os filhos aprendem sem esforço na escola, dos canibais da Amazônia no estereótipo do Brasil de então. O tom geral é o da frase de abertura, uma ironia hiperbólica e ao mesmo tempo leve, condizente com o “rés-do-chão” que Antonio Candido disse definir o gênero crônica – e que, acrescento eu, sempre paga algum tributo ao anti-intelectualismo. “Gostaria de ser profundo”, escreve João Ubaldo, um autor de formação bastante erudita. “Ou chato, que muitas vezes é sinônimo de profundo. Mas não sou profundo e aspiro a não ser chato.”

É curioso pensar em como um livro com a temática de Um Brasileiro… seria escrito hoje. A par da fluidez e sabor do texto, o que torna a leitura prazerosa no fim das contas, o imaginário de país que emerge dessas páginas –  a cada frase, na comparação constante com a vida da Alemanha – soa ainda mais datado do que se esperaria num conjunto de crônicas. A comédia das contradições da classe média brasileira, tom ao qual Ubaldo acena usando o microcosmo da própria família, foi substituída pela tragédia do ódio entre irmãos, amigos, vizinhos. A bagunça simpática do nosso suposto modo de ser virou uma nada suposta boçalidade. E os estereótipos, bem, esses dão até saudade do tempo dos canibais: a forma como o mundo passou a nos ver – um agrupamento suicida governado por um defensor da morte – é a descrição exata do nosso presente e futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 9-4-21, sobre a experiência de morar em Berlim segundo João Ubaldo, Bernardo Carvalho e eu mesmo. Íntegra aqui.

Dor e dinamite

Em 1985, a escritora e cartunista norte-americana Alison Bechdel publicou uma tira célebre em sua série Dykes to Watch Out For. Nela, uma personagem diz que só vê filmes que 1) têm pelo menos duas mulheres; 2) elas conversam uma com a outra; 3) sobre alguma coisa que não seja um homem. O que era um pouco piada, um pouco discurso a sério, virou referência em discussões de Internet sobre preconceito de gênero no imaginário contemporâneo. Afinal, a imensa maioria das histórias ficcionais de hoje – e não só as criadas por homens – acabaria reprovada em um dos três requisitos.

Mas há algo de simplificador, claro, nesse tipo de critério. Na arte existe ironia, contraste, incômodo proposital e tantos outros recursos que põem nuances no valor de face de uma narrativa. A denúncia de uma situação opressiva, por exemplo, pode ocorrer quando o opressor é uma figura totalizante, que assombra cada palavra dita ou pensada por sua vítima. É o caso de Vista Chinesa, novo romance de Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.), e do modo mais radical possível em se tratando da temática de gênero: o livro reproduz a elaboração de um estupro – e, logo, a presença irrecorrível do estuprador – na sensibilidade de uma arquiteta carioca.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26-3-21, sobre os novos livros de Tatiana Levy e Natércia Pontes. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Kathryn Schulz sobre animais e orientação (aqui).

Outro – Alvaro Costa e Silva sobre Asfalto Selvagem (aqui).

Um livro curioso – Of Walking in Ice, Werner Herzog (Penguin, 67 págs.).

Uma graphic novel – Guarda Lunar, Tom Gauld (Todavia, 96 págs.).

Uma reprise – Mephisto, István Szabó.

Quebra-pedra, caipa e charadinhas

Qual é o papel da memória no gosto literário? Andei pensando nisso ao ler três textos publicados por conterrâneos meus em 2020. O primeiro é o poema que abre Canções de Atormentar, coletânea de Angélica Freitas (Companhia das Letras, 106 págs.), cujo sabor remete a antigos verões no litoral gaúcho – passados tanto pela autora, que é de Pelotas/RS, quanto por mim, que nasci em Porto Alegre.

O poema se chama “laranjal” e fala de uma praia de lagoa no sul do estado. Os meus verões foram na beira-mar de Santa Terezinha, no litoral norte, mas não importa: as descrições fragmentadas de Angélica evocam o mesmo cenário de pequenas casas, vegetação árida, dias de calor e tédio preenchidos pela imaginação infantil e adolescente. Ali florescem expressões como “quebra-pedra”, “barba-de-pau” e “velha coroca”, que pontuam a linguagem local da descoberta do sexo (“eu tenho uma coisa para te contar./ e contei. e ela me disse que já sabia.”), da perplexidade com o mundo adulto/masculino (“qual é a de um cara num passat/ que nas ruas de barro da praia/ ultrapassa qualquer fusca?”) e de um certo confronto presente no resto do livro (a primeira das canções do título é a ladainha de um vendedor de “camareu”).

Como é praxe nesse tipo de abordagem, tudo é permeado pelo sentimento da perda. Que, no entanto, não conseguiria ser transmitido sem os atributos (sonoridade, subentendidos, ritmo) da forma poética: “em 78 construíram a casa./ isso dava ao meu pai doze anos/ para lavar o carro na rampa.”; “o cara do kung-fu lutava sozinho (…)/ um príncipe das artes marciais./ desapareceu./ hu. iá. hu/ iá. hu. iá”. A ideia da morte, em seu sentido literal ou metafórico, ligado ao que só existe hoje na nossa lembrança, ganha tradução num humor também dúbio, entre a crítica e o carinho, porque podemos ter saudades daquilo que nos dá tristeza: “puro junco, aranha,/ lagartixa, carro atolado./ quer saber o que é/ o fim da civilização?// ‘isto aqui até parece uma praia’/ me diz o rapaz que veio de são paulo/ ao ver as figueiras, a lagoa, a areia grossa// não lhe guardo rancor”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 12-2-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um podcast – Wind of Change, Patrick Radden Keefe.

Um documentário simpático – Daguerréotypes, Agnés Varda.

Um disco – Carnage, Nick Cave.

Um artigo – Richard Brody sobre Claude Lanzman (aqui)

Um romance – Vista Chinesa, Tatiana Salem Levy (Todavia, 112 págs.).

Fim de semana

Uma série – Doutor Castor, Marco Antônio Araújo.

Um documentário – Fassbinder, Annekatrin Hendel.

Um ensaio – Karl Ove Knausgaard sobre editores, na Piauí.

Uma memória – Abandonar um Gato, Haruki Murakami (aqui).

Uma série em podcast – Técnicos, Luciano Potter e Rafael Divério.

Fim de semana

Um documentário – Zappa, Alex Winter.

Um documentário em duas partes – Philip Roth Unleashed, Sarah Aspinall (aqui).

Um debate – Ciro Gomes x André Lara Resende (aqui).

Um romance – Os Tais Caquinhos, Natércia Pontes (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um ensaio – Colin Vanderburg sobre rock e cultura negra (aqui).

O Evangelho da recusa

Em 2009, o sul-africano J.M. Coetzee publicou Verão, último romance de um ciclo autobiográfico que tinha também Infância (1997) e Juventude (2002). É um dos grandes livros deste grande escritor ao mesmo tempo fácil e difícil, moderno e pós-moderno, composto por entrevistas com mulheres que teriam tido relacionamentos com o próprio Coetzee – aqui tornado personagem depois de sua hipotética morte na vida real.

As entrevistas se alternam com o que seriam fragmentos de ideias para romances encontradas no diário do morto. Num deles, o narrador anota, tratando a si mesmo na terceira pessoa: “Evitar pôr ênfase demais no interesse dele por Jesus e transformar isto aqui numa narrativa de conversão”. Em outro: “A desenvolver: sua própria teoria educacional, cultivada em casa, suas raízes em (a) Platão e (b) Freud”.

As duas passagens trazem uma pista para interpretar a estranha trilogia que ocupou Coetzee na década seguinte à de Verão: os romances A Infância de Jesus (2013) e A Vida Escolar de Jesus (2016), ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, e o mais recente A Morte de Jesus (The Death of Jesus, Viking, 2019). Lidos em sequência, os três contam a história provavelmente alegórica da formação de um menino (Davíd) junto a pais adotivos (Simón e Inés), num mundo de feição pós-apocalíptica onde não há memória do passado distante.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 11/12/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – Kathleen Meaney sobre arte africana e design (aqui).

Uma história – David Markson x Don DeLillo (a partir de 22:15, aqui).

Um romance curioso – The Silence, Don DeLillo (Scribner, 128 págs.).

Uma entrevista – Brizola, 1980 (aqui).

Um filme – Relatos do Mundo, Paul Greengrass.

A moral do monstro

“O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto. – Qual dos dois cansa primeiro?”. Assim começa 234, de Dalton Trevisan (Record, 128 págs), e poderia começar qualquer livro do autor – até porque muitos deles repetem os mesmos temas, ou tomam de empréstimo frases e tipos humanos usados em coletâneas anteriores, numa interminável variação do que parece ser um único conto desde os anos 1950.

Tudo se passa na província, na ampla acepção do termo, o que não se resume à Curitiba natal de Dalton. Como em tantos escritores que transformaram a geografia em matriz mitológica, o conceito de local aqui é tão “universal” quanto o da Dublin joyceana, do sul americano de Faulkner ou da Escola de Magia de Hogwarts: trata-se de um lugar que só existe na imaginação de quem o cria ou reinventa, e portanto – dado o milagre empático da boa literatura – na cabeça de quem lê.

Voltei a 234 semanas atrás, num desses acasos comuns a quem está procurando uma coisa na estante e acaba embarcando em outra. Fiquei com a impressão de que o livro, lançado em 1997, com o tempo se tornou um corpo ainda mais estranho dentro da cultura brasileira. Numa época tão marcada por uma ideia de ficção utilitária (lemos para aprender algo) ou edificante (exemplos que nos inspiram a enfrentar os problemas da vida), por conceitos como o de “gatilho narrativo” (coisas que não devemos ler porque nos lembram de traumas/medos/pudores), aqui está um autor cuja estética (e a ética) soa como o contrário disso (“o melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado”).

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/1/2020. Íntegra aqui.