Michel Laub

Categoria: Livros

Jerusalém, guerra, Auschwitz

Poemas de Yehuda Amichai em Terra e Paz (Bazar do Tempo, 184 págs., tradução de Moacir Amâncio):

JERUSALÉM ESTÁ CHEIA DE JUDEUS USADOS – Jerusalém está cheia de judeus usados pela história,/ judeus de segunda mão, com leves defeitos, mais baratos./ O olho olha todo o tempo para Sion. Todos os olhos/ dos vivos e dos mortos são quebrados como ovos/ na beira da bacia para fazer uma/ cidade gorda e crescente// Jerusalém está cheia de judeus cansados,/ eles sempre são chicoteados nos memoriais e nas festas/ como ursos que dançam de dor nas patas.// Do que Jerusalém precisa? Ela não precisa de prefeito,/ ela precisa de um domador de circo, com o chicote na mão,/ para treinar profecias e ensinar profetas a galopar/ ao seu redor e ensinar as pedras a montar/ uma estrutura ousada e perigosa no último número.// Depois elas saltam para baixo, na terra,/ ao som de palmas e guerras./ O olho volta-se para Sion e chora.

O DIÂMETRO DA BOMBA – O diâmetro da bomba media trinta centímetros/ e o diâmetro da destruição, cerca de sete metros,/ nele, quatro mortos e onze feridos./ Ao redor, num círculo mais largo/ de dor e tempo há dois hospitais/ e um cemitério. Mas a jovem mulher,/ enterrada no local de onde viera/ à distância de mais de cem quilômetros,/ aumentou muito o círculo/ e o homem solitário que chora pela morte da moça/ no litoral de um país distante/ inclui o mundo inteiro no círculo./ Não direi nada sobre o grito dos órfãos/ que chega ao trono divino,/ e de lá abre o círculo/ até o infinito e o nada de Deus.

DEPOIS DE AUSCHWITZ – Depois de Auschwitz não há teologia;/ das chaminés do Vaticano sai fumaça branca,/ sinal de que os cardeais elegeram o seu papa./ Dos crematórios de Auschwitz sobe uma fumaça negra,/ sinal de que Deus ainda não decidiu sobre a escolha/ do povo eleito. Depois de Auschwitz não há teologia:/ os números nos antebraços dos prisioneiros do extermínio/ são os números do telefone de Deus,/ números dos quais não há resposta,/ agora eles estão cortados, um por um.// Depois de Auschwitz há uma nova teologia:/ os judeus que morreram na Shoá/ tornaram-se semelhantes ao seu Deus/ que não tem forma nem corpo./ Eles não têm imagem nem corpo.

(Outras versões e traduções de Amichai, por Millôr Fernandes: https://tinyurl.com/y7mvqayx)

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Fim de semana

Uma edição – Poemas, T.S. Eliot (Companhia das Letras, 438 págs.).

Outra – Terra e Paz, Yehuda Amichai (Bazar do Tempo, 184 págs.).

Um disco de 1981 – La Folie, Stranglers.

Um filme – A Ilha dos Cachorros, Wes Anderson.

Outro – Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, Fernanda Pessoa.

Fim de semana

Uma releitura – Minha Razão de Viver, Samuel Wainer (Record, 282 págs.).

Um ensaio – Daniel Galera sobre literatura, filhos e o fim do mundo (aqui).

Uma série – Manhunt: Unabomber.

Uma série simpática – O Método Kominsky.

Um filme ruim – The Wife, Bjorn Rünge.

Fim de semana

Um livro – Como funciona o Fascismo, Jason Stanley (L&PM, 206 págs.).

Um disco – Piano & A Microfone, Prince.

Um filme – Roma, Alfonso Cuarón.

Uma exposição no IMS – Claudia Andujar.

Outra – Millôr.

Fim de semana

Um livro – Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo (Todavia, 184 págs.).

Outro – O Sonâmbulo Canta no Topo do Edifício em Chamas, Joca Terron (Pedra papel tesoura, 120 págs.).

Uma exposição em Fortaleza – Terra em Transe, Dragão do Mar.

Um filme médio – Bohemian Rhapsody, Bryan Singer.

Um documentário – Rolling Stones: Crossfire Hurricane, Brett Morgen.

Fim de semana

Um filme – A Balada de Buster Scruggs, irmãos Coen.

Outro – A Casa que Jack Construiu, Lars Von Trier.

Um podcast – Mauricio Stycer e Alexandra Moraes sobre Silvio Santos (aqui).

Um artigo – Saul Bellow e a autobiografia (aqui).

Um livro – Kafkianas, Elvira Vigna (Todavia, 128 págs.).

Fim de semana

Um livro – The Vegetarian, Han Kang (Portobello, 216 págs.).

Um artigo – Anne Applebaum sobre a democracia na Polônia e no mundo (aqui).

Uma exposição em Bruxelas – Beyond Klimt, Bozar

Uma em Londres – Chineses e Mao, Omer Tiroche.

Outra – Bob Dylan, Halcyon.

Fim de semana

Uma exposição – Mulheres na Pinacoteca.

Uma primeira temporada – Atlanta.

Um livro de contos – Sebastopol, Emilio Fraia (Alfaguara, 120 págs.).

Um de poemas – Bigorna, Yasmin Nigri (34, 116 págs.)

Uma releitura (sempre) – Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs.).

Fim de semana

Um perfil – Wolfgang Tillmans por Emily Witt (aqui).

Um site – Crônica brasileira no IMS (aqui).

Um best-seller que vale – O Carrasco do Amor, Irwin D.Yalom (Harper Collins Brasil, 336 págs.).

Um documentário – Active Measures, Jack Bryan.

Um filme – O Paciente, Sergio Rezende.

Fim de semana

Um romance A Vida Escolar de Jesus, J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 259 págs.).

Um ensaio – Contra os Filhos, Lina Meruane (Todavia, 176 págs.).

Um filme – You Were Never Really Here, Lynne Ramsay.

Um clipe – Suspirium, Thom Yorke (aqui).

Uma exposição – Bienal.

Fim de semana

Uma exposição – Irving Penn no IMS.

Um adaptação competente – De amor e Trevas, Natalie Portman.

Um disco de 2016 – Post Pop Depression, Iggy Pop.

Um ensaio – Carol Bensimon sobre o apartamento dos avôs (aqui)

Um relançamento – Fun Home, Alison Bechdel (Todavia, 234 págs.).

Fim de semana

Um livro – A Guerra: a Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil, Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias (Todavia, 344 págs.).

Um ensaio – Zadie Smith sobre Henry Taylor (aqui).

Um documentário ok – Robin Williams: Come Inside My Mind, Marina Zenovich.

Um filme simpático – England is Mine, Mark Gill.

Um disco simpático – Call the Comet, Johnny Marr.

Fim de semana

Um romance – Hoje Estarás Comigo no Paraíso, Bruno Vieira Amaral (Quetzal, 368 págs.).

Um artigo – Lendo David Foster Wallace em 2018 (aqui).

Um documentário – Como Fotografei os Yanomami, Otavio Cury.

Um documentário médio – Bergman – 100 anos, Jane Magnusson.

Uma adaptação bem média – O Som e a Fúria, James Franco.

Fim de semana

Uma releitura – Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq (Sulina, 142 págs.).

Um filme – A Morte de Stalin, Armando Iannucci.

Um filme médio – O Super Lobista, George Hickenlooper.

Um stand-up com ups and downs – Nanette.

Uma exposição – Histórias Afro-Atlânticas.

Fim de semana

Um livro – Garotas Mortas, Selva Almada (Todavia, 128 págs.).

Um conto – Writing Teacher, John Edgar Wideman (aqui).

Uma exposição – Jac Leirner, Fortes D’Aloia & Gabriel.

Outra – Powerpaola, Sala Aberta.

Um disco – Ofertório, Caetano Veloso e filhos.

Fim de semana

Um disco – Sparkle Hard, Stephen Malkmus & The Jicks.

Uma montagem – Eu Sou Essa Outra, Sesc Pinheiros.

Um filme pior que os anteriores da série – The Trip to Spain, Michael Winterbottom.

Uma HQ – Sem Volta, Charles Burns (Quadrinhos na Cia, 176 págs.).

Um artigo – Jenny Uglow e a pintura realista em Londres, Século 20 (aqui).

Cistos e borboletas

Georges Didi-Huberman em Que Emoção! Que Emoção? (Editora 34, 92 págs., tradução de Cecília Ciscato):

“Faz alguns anos, meu pai morreu. É claro que eu estava muito emocionado. Acho, porém, que essa tristeza era ainda ‘maior’ que a tristeza solitária e pessoal de perder meu pai. Na hora de ir ao necrotério ou de organizar o enterro, por exemplo, tive que tomar decisões e adotar certas atitudes, executar gestos que não diziam respeito apenas a mim mesmo. Tive, portanto, que agir em sociedade – a começar pelo meu comportamento diante do meu próprio filho, ou de minha irmã, ou dos amigos do meu pai –, a despeito de toda a solidão que houvesse em minhas emoções. (…). Esses gestos são como fósseis em movimento (…). Eles sobrevivem em nós, ainda que sejamos incapazes de observá-los em nós mesmos. Darwin sem dúvida tinha razão ao dizer que as emoções são gestos primitivos. Mas, na sua ideia de ‘primitivo’, ele via somente a natureza (daí a relação estabelecida entre os chimpanzés que grunhem e as crianças que choram). O sentido de ‘primitivo’ foi melhor entendido no âmbito das ciências humanas a partir do momento em que os etnólogos e os sociólogos falaram das emoções sob o ângulo de uma história cultural.”

“Diante dos diferentes ritos em que as emoções coletivas se manifestam – e os enterros são bons exemplos disso –, o grande etnólogo Marcel Mauss falou de uma ‘expressão obrigatória dos sentimentos’ (…) Uma emoção que se expressa segundo certas formas coletivas seria menos intensa e sincera que outra? (…) Não, responde Marcel Mauss (…). Trata-se de emoções verdadeiras, mas elas passam, elas precisam passar, por sinais corporais – gestos – reconhecíveis por todos: ‘Todas essas expressões dos sentimentos do indivíduo e do grupo – coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória – são mais do que simples manifestações, são signos de expressões inteligíveis. Numa palavra, são uma linguagem. Esses gritos são como frases e palavras. É preciso pronunciá-los, mas, se é preciso pronunciá-los, é porque todo o grupo pode entende-los (…).’ Uma emoção que não se dirija a absolutamente ninguém, uma emoção totalmente solitária e incompreendida, não será sequer uma moção – um movimento –, será somente uma espécie de cisto morto dentro de nós mesmos (…).”

“Um chinês chora, mas não chora pelas mesmas coisas, nem nos mesmos momentos; as diferenças culturais são consideráveis. (…) O que importa, como na frase de Marcel Mauss, é a maneira como transmitimos as emoções aos outros, por meio de gestos, de mímicas, e segundo certas regras. Nesse sentido, a emoção é algo totalmente adquirido. Basta comparar os rituais de luto, eles são muito diferentes de um canto a outro do planeta, e não são sempre ‘tristes’ no sentido como nós o entendemos. No Ocidente, após um enterro, acontece de as pessoas se reunirem para comer e até mesmo celebrar. Nos Bálcãs, quando se reúnem para comer após um enterro, as pessoas às vezes fazem verdadeiras festas, cantam, tocam músicas e dançam de um jeito que pode ser chocante para nós (…).”

“A filosofia opõe a essência e a aparência, dizemos que a aparência é sem importância e que a essência é coisa séria. Eu não concordo com essa hierarquia filosófica, acredito que aquilo que se manifesta é um objeto de estudo tão sério quanto possível. Talvez você me diga que, se eu me interessar somente pelas aparências, não serei um filósofo, e eu talvez aceite sua objeção. De qualquer forma, eu não sei o que ‘é’ a emoção, eu não busco nunca o que ela é em absoluto. Existem duas maneiras de dizer que uma coisa ‘é’. Você pode dizer ‘eu estou emocionado’. Se você diz isso, fatalmente estará falando de um breve momento, pois hoje à noite você estará menos emocionado e amanhã já não será mais a mesma emoção. Depois, há o grande ‘é’ dos filósofos (…), o ‘é’ geral. Sócrates é bom em geral? Aristóteles respondia a essa pergunta com precisão: ‘Eu não posso saber se Sócrates é bom enquanto ele estiver vivo’, pois de uma hora para outra ele pode se tornar mau (…).  Eu prefiro que Sócrates continue vivo, que a borboleta continue voando, mesmo que eu não possa pregá-la em um pedaço de cortiça para dizer que a borboleta ‘é’ – decididamente – azul. Prefiro não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber. Eu vejo [algo] aparecer e tento pôr meu olhar em palavras, em frases. Mas esse é um olhar tão frágil e furtivo quanto são as minhas frases (…). É inevitável que a borboleta desapareça, já que é livre para ir aonde quiser e não precisa de mim para viver sua liberdade. Ao menos eu terei apanhado em pleno voo, sem guardar apenas para mim, um pouco de sua beleza.”

Fim de semana

Uma reportagem – Allan de Abreu sobre o PCC, na Piauí.

Um livro de provocação – Manifesto Contrassexual, Paul B.Preciado (N-1, 224 págs.).

Um documentário médio/bom – The Reagan Show, Sierra Pettengill e Pacho Velez.

Um médio/médio – A Verdade sobre Marlon Brando, Stevan Riley.

Um disco – Deus é Mulher, Elza Soares.

Fim de semana

Um livro – Que emoção! Que emoção?, Georges Didi-Huberman (34, 72 págs.).

Um artigo – A relação entre liberalismo econômico e fascismo (aqui).

Uma exposição – Conflitos brasileiros, IMS.

Uma montagem irregular – Extinção, Denise Stocklos.

Uma série ok  – Bobby Kennedy para Presidente, Dawn Porter.

Solidão depois das migalhas

Natalia Ginzburg em Léxico Familiar, de 1963 (Companhia das Letras, 254 páginas, tradução de Homero Freitas de Andrade):

“O pós-guerra era um tempo em que todos pensavam ser poetas, e todos pensavam ser políticos; todos imaginavam que fosse possível e necessário antes fazer poesia de tudo, depois de tantos anos em que o mundo pareceu ter emudecido e petrificado, e a realidade fora olhada como que através de um vidro, numa vítrea, cristalina e muda imobilidade. Romancistas e poetas, nos anos do fascismo, tinham jejuado, por não existirem ao redor muitas palavras que fosse permitido usar; e os poucos que ainda tinham usado palavras escolheram-nas com todo o cuidado no magro patrimônio de migalhas que ainda restava. No tempo do fascismo, os poetas viram-se obrigados a exprimir somente o mundo árido, fechado e sibilino dos sonhos. Agora, havia de novo muitas palavras em circulação, e a realidade parecia de novo ao alcance da mão; por isso, esses antigos jejuadores puseram-se a vindimar com deleite. E a vindima foi geral, porque todos tiveram a ideia de participar dela; e determinou-se uma confusão de linguagem entre poesia e política, que apareceram misturadas. Mas depois aconteceu que a realidade se revelou complexa e secreta, indecifrável e obscura não menos que o mundo dos sonhos; e revelou-se ainda situada do outro lado do vidro, e a ilusão de ter quebrado esse vidro revelou-se efêmera. Assim, muitos logo se retraíram desanimados e desencorajados; e tornariam a mergulhar num jejum amargo e num silêncio profundo. Desse modo, o pós-guerra foi triste, cheio de desânimo após as alegres vindimas dos primeiros tempos. Muitos se apartaram e se isolaram novamente no mundo dos seus sonhos, ou num trabalho qualquer que desse para viver, um trabalho assumido ao acaso e depressa, e que parecia pequeno e cinzento depois de tanto clamor; de qualquer modo, todos esqueceram aquela breve, ilusória coparticipação na vida do próximo. Por muitos anos, decerto, ninguém praticou mais o próprio ofício, mas todos acreditaram que podiam e deviam praticar mil outros ao mesmo tempo; e muito tempo se passou antes que cada um retomasse sobre os ombros o próprio ofício e aceitasse seu peso e a fadiga cotidiana, e a solidão cotidiana, que é o único meio que temos de participar da vida do próximo, perdido e espremido numa solidão igual.”

Fim de semana

Um livro – Strangers in Their Own Land, Arlie Russell Hochschild (The New Press, 368 págs.).

Um livro de fotografia – Sleeping by the Mississippi, Alec Soth (Mack, 120 págs.).

Um livro de contos – Reserva Natural, Rodrigo Lacerda (Companhia das Letras, 184 págs.).

Um ensaio – Jonathan Franzen sobre aquecimento global na Serrote.

Um filme – O Cavalo de Turim, Béla Tarr.

Fim de semana

Uma exposição – Mira Schendel no MAM.

Um romance – A Tirania do Amor, Cristovão Tezza (Todavia, 176 págs.).

Um livro de contos – O Sol na Cabeça, Giovani Martins (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um documentário – Panteras Negras: a Vanguarda da Revolução, Stanley Nelson.

Um filme meio bobo – Baseado em Fatos Reais, Roman Polanski.

Fim de semana

Um romance – Léxico Particular, Natalia Ginzburg (Companhia das Letras, 254 págs.).

Um livro jurídico – Memória e Esquecimento na Internet, Sérgio Branco (Arquipélago, 208 págs.).

Um ensaio – Celso Rocha de Barros sobre democracia na Piauí.

Outro – Ricardo Teperman sobre rap e MPB na Serrote 25 (aqui).

Um filme – Aos Teus Olhos, Carolina Jabor.

Fim de semana

Um filme – Projeto Flórida, Sean Baker.

Um documentário – Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, Eduardo Ades e Marcus Fernando

Um livro – Marlene Dumas: the Image as Burden (Tate/D.A.P., 176 págs.).

Uma novela média – Pinball, 1973, Haruki Murakami.

Um ensaio de provocação – Literatura de Esquerda, Damián Tabarovsky (aqui).

Fim de semana

Um artigo – O fim do liberalismo racial nos EUA (aqui).

Uma reportagem – O desastre estratégico da intervenção no Rio (aqui).

Um livro – Citizen, Claudia Rankine (Graywolf Press, 174 págs.).

Uma exposição – Erwin Olaf no MIS.

Um disco – Beneath the Redwoods, Morrison Kincannon.

Notas sobre o fígado

Um livro bom pode demorar a se revelar, em dezenas ou centenas de páginas de aparência apenas competente. Já a ruindade literária é imediata: meia dúzia de frases são suficientes para percebermos o amadorismo de um texto.

Integrar júris de prêmios para escritores, como fiz algumas vezes nos últimos anos, é reafirmar essa norma com poucas exceções. Ali está o grosso da produção ficcional do país, em diversos níveis de acabamento. No extinto Talentos da Maturidade, do Santander – voltado para candidatos acima dos 60 anos, diletantes em sua quase totalidade –, não era incomum encontrar na categoria conto uma oração de agradecimento a Jeová ou uma carta de saudades a uma tia morta. Já no do Sesc, que reúne concorrentes inéditos com mais noção de caminho artístico e profissional, as principais fontes de emulação do cânone brasileiro – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Rubem Fonseca – e discursos emprestados de fontes não literárias – como o jornalismo e a autoajuda – ainda são um parâmetro seguro para a eliminação rápida de candidatos.

As coisas se tornam mais complexas em concursos de livros publicados. Em 2015, fui um dos dez jurados da etapa inicial do Prêmio São Paulo de Literatura, que distribuiu 400 mil reais em três categorias de autores cujos romances saíram em 2014. Um cachê de 4 500 reais foi pago para que eu avaliasse 215 títulos em pouco menos de dois meses, e a aparente impossibilidade da tarefa é desmentida pela norma da ruindade: uma triagem sem grande esforço fez sobrar sessenta deles. Dos sessenta, separei 25 ou 30, muitos dos quais eu já havia lido no ano anterior, para olhar mais de perto. Numa reunião, somam-se as notas de cada juiz, faz-se uma média, debate-se uma ou outra controvérsia e tem-se um ranking cujos primeiros colocados – dez não estreantes, sete estreantes com mais de 40 anos, quatro estreantes até 40 – viram finalistas. Na etapa seguinte, um outro júri, do qual não participei, decidiu os vencedores.

Trecho inicial de texto que publiquei na revista Piauí, edição de março. Íntegra para assinantes: https://goo.gl/3LmEH2

Fim de semana

Uma revista – Baiacu.

Um filme – O artista do Desastre, James Franco.

Outro – Get Out, Jordan Peele.

Um curta – Nelson Cavaquinho, Leon Hirszman (aqui).

Uma releitura Diário de um Ladrão, Jean Genet (Rio Gráfica, 260 págs.).

Licor de naufrágio

Spoiler, poema de Marcelo Montenegro em Forte Apache (Companhia das Letras, 116 páginas):

Lembro que você me contou

uma história incrível.

Embora não lembre a história,

sou capaz de soletrar,

inclusive, a brisa que,

por um microssegundo,

inflou a cortina da sala.

(Um pedacinho de uma tarde

dentre as trilhões de tardes

que existiram naquela tarde.)

Lembro as pausas,

a música dos seus braços,

o cabelo tirado do rosto

no momento exato.

(Um bombom de ternura

com licor de naufrágio.)

Fim de semana

Um filme – Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson.

Outro – Lady Bird, Greta Gerwig.

Mais outro – Eu, Tonya, Craig Gillespie.

Um filme ruim – Três Anúncios para um Crime, Martin McDonagh.

Um livro de poesia – Forte Apache, Marcelo Montenegro (Companhia das Letras, 120 págs.).

Invenções diabólicas contra idosos

Junichiro Tanizaki em Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin Companhia, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda):

“A maioria dos equipamentos modernos tende a favorecer os jovens e a produzir gradativamente uma era desumana para idosos. Vejam os leitores os semáforos, por exemplo: a partir do momento que tiverem de depender deles para atravessar cruzamentos, os idosos não poderão mais andar com confiança pelas ruas das cidades. Salvam-se apenas os velhos ricos que podem ser conduzidos de carro, mas eu mesmo fico com os nervos à flor da pele nas ocasiões em que tenho de ir a Osaka e, lá chegando, preciso atravessar uma rua. Para começar, o sinaleiro do tipo “Pare-Siga” é um foco de problemas: os instalados no meio da calçada são relativamente fáceis de ser visualizados, mas existem outros especialmente difíceis de ser detectados que ficam pisca-piscando luzes verdes e vermelhas em cantos inesperados, sem mencionar o perigo de confundi-los com os sinaleiros centrais em cruzamentos especialmente largos. E quando vi guardas ordenando o tráfego nas ruas de Kyoto, imaginei: este é o fim das cidades japonesas (…). Há quem preveja que, com o progresso da civilização, o sistema viário será transferido para o céu ou para baixo da terra, e que então as ruas voltarão a ser tranquilas como no passado. Mas é óbvio que se isso um dia acontecer, outros diabólicos inventos de tortura para idosos terão sido inventados. No final das contas, todos querem que idosos permaneçam quietos em seus lugares, e só nos resta ficar em casa ouvindo rádio, bebericando saquê e beliscando petiscos que nós mesmos preparamos.”