Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana

Um filme – Borg Vs McEnroe, Janus Metz Pedersen.

Outro – Gabriel e a Montanha, Fellipe Barbosa.

Um livro – O Palácio da Memória, Nate DiMeo (Todavia, 253 págs.).

Outro – A Glória e seu Cortejo de Horrores, Fernanda Torres (Companhia das Letras, 216 págs.).

Um texto – Marcel Cohen sobre coincidências na Piauí.

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Fim de semana

Um artigo – Hermano Vianna sobre inteligência artificial (aqui).

Outro – Joan Acocella sobre Lutero (aqui).

Um filme – Churchill, Jonathan Teplitzky.

Um filme ok – O Formidável, Michel Hazanavicius.

Um livro – A vítima tem sempre razão?, Francisco Bosco (Todavia, 208 págs.).

Um campo aparado cercado por bosques

Trechos de Imunidade, de Eula Biss (Todavia, 206 págs., tradução de Pedro Maia Soares):

“‘Toxicologia intuitiva’ é o termo que [Paul] Slovic usa para a forma como a maioria das pessoas avalia o risco dos produtos químicos. Sua pesquisa revela que essa abordagem é distinta dos métodos utilizados pelos toxicologistas, e tende a produzir resultados diferentes. Para os toxicologistas, ‘a dose faz o veneno’. Qualquer substância em excesso pode ser tóxica. A água, por exemplo, em doses muito elevadas é letal para os seres humanos, e o excesso de hidratação matou um corredor na maratona de Boston de 2002. Mas a maioria prefere pensar nas substâncias químicas como seguras ou perigosas, independentemente da dose. E expandimos essa ideia, na medida em que consideramos prejudicial qualquer exposição a produtos químicos, por mais breve ou limitada que seja.”

“Ao explorar essa ideia, Slovic sugere que pessoas que não são toxicologistas podem aplicar uma ‘lei do contágio’ à toxidade. Assim como a breve exposição a um vírus microscópico pode resultar em doença para o resto da vida, supomos que a exposição a qualquer quantidade de um produto químico nocivo contaminará nossos corpos para sempre. ‘Ser contaminado tem claramente um caráter de tudo ou nada, como estar vivo ou grávida.’”

“Um dos apelos da medicina alternativa é que ela oferece não apenas uma filosofia ou tratamento alternativo, mas também uma linguagem alternativa (…). Por mais verdadeira que seja, a ideia de que nosso remédio é tão defeituoso quanto nós não é reconfortante. E quando conforto é o que queremos, um dos mais poderosos tônicos que a medicina alternativa oferece é a palavra ‘natural’. Ela implica um remédio não perturbado pelas limitações humanas (…), que passou a significar para nós (…) ‘puro’, ‘seguro’ e ‘benigno’. Mas o uso de natural como sinônimo de ‘bom’ é quase certamente um produto de nossa profunda alienação do mundo natural.”

“Permitir que as crianças desenvolvam ‘naturalmente’ a imunidade a doenças contagiosas, sem vacinação, é uma ideia bastante atraente para alguns de nós. Grande parte dessa atração depende da crença de que as vacinas são inerentemente antinaturais. Mas as vacinas pertencem àquele lugar de transição entre os seres humanos e a natureza – um campo aparado (…) cercado por bosques. A vacinação é uma espécie de domesticação de uma coisa selvagem, na medida em que envolve nossa capacidade de atrelar um vírus e domá-lo como um cavalo, mas sua ação depende da resposta natural do corpo (…). O aspecto mais antinatural da vacinação é que, quando tudo corre bem, ela não provoca doença nem produz um mal.”

Fim de semana

Um livro – Imunidade, Eula Biss (Todavia, 206 págs.).

Uma exposição de madrugada – The Clock, IMS.

Um filme ok – Blade Runner 2049.

Um filme melhor – Blade Runner 1.

Um disco – Campos Neutrais, Vitor Ramil.

Faulkner e os caipiras de São Paulo e Minas

Paulo Henriques Britto sobre as dificuldades da tradução que fez de O Som e a Fúria, no posfácio da nova edição do romance (Companhia das Letras, 373 págs.):

“Como todas as personagens negras são também pessoas de pouca ou nenhuma instrução formal, seu dialeto pode ser diferenciado do falar das personagens brancas através do uso de marcas que caracterizem o português subpadrão. Em muitos casos, bastou o artifício de marcar o plural apenas no primeiro elemento de um sintagma, uma característica da fala dos brasileiros desprovidos de escolaridade que atravessa todas as fronteiras dialetais: ‘eles vai dizer’, ‘me meter na vida dos branco’ etc. Outros recursos foram empregados, como o uso de indicativo em lugar de subjuntivo (‘quer que eu levanto a persiana um pouquinho?’). Foram evitadas, porém, as marcas fonéticas, tão comuns no inglês, por vários motivos. O primeiro é que, no Brasil, as distorções de pronúncia são tradicionalmente usadas para criar efeito burlesco, com intenção cômica – e na figura digna de Disley [personagem negra do livro] nada há que justifique tal coisa. Outro problema associado (…) é que, em muitos casos, não se pode assinalar uma pronúncia de uma palavra desviante da norma culta brasileira sem ao mesmo tempo criar uma associação com um determinado dialeto geográfico. Não há um modelo de pronúncia subpadrão genericamente brasileiro, que não evoque nenhuma região em particular; e muitos leitores se sentiriam incomodados se Disley e seus descendentes falassem como caipiras de São Paulo ou de Minas Gerais, ou como a gente simples do interior da Bahia ou de Pernambuco. Por fim, se marcássemos fortemente todas as falas em black english, seriamos obrigados, por uma questão de coerência, a fazer o mesmo com muitas das dicções de personagens brancas – afinal, a de Jason também contém marcas fonéticas. Mas nesse caso estaríamos frustrando nosso propósito original, que era distinguir as falas dos negros dos brancos (…).

Por definição, o sabor específico do inglês sulista, branco ou negro, que constitui a matéria-prima da prosa de Faulkner, é algo que não pode existir fora do inglês – mais ainda, fora do inglês norte-americano. As associações que se fazem entre uma determinada expressão, forma sintática ou pronúncia, de um lado, e uma região geográfica e um momento histórico, de outro, são restritas ao universo mental dos falantes daquele idioma, e seria tão inviável reproduzi-as numa língua estrangeira quanto seria recriar os efeitos de instrumentação de uma peça sinfônica numa transcrição para piano (…). Mas se a obra conseguiu o reconhecimento internacional que hoje tem, e se ela fascinou tantos leitores em versões traduzidas para os mais variados idiomas, é porque há nela muito além de uma utilização brilhante de variantes dialetais.”

Fim de semana

Uma exposição – Robert Frank no IMS.

Outra – Kohei Nawa na Japan House.

Um posfácio – Paulo Henriques Britto na nova edição de O Som e a Fúria (Companhia das Letras, 376 págs.).

Uma peça – Ala dos Criados, Mauricio Kartum.

Um disco – Pleasure, Feist.

Fim de semana

Um livro – Sobre Gatos, Doris Lessing (Autêntica, 192 págs.).

Um ensaio – Antonio Engelke sobre identitarismo, na Piauí.

Um vídeo – Rock Grande do Sul 30 anos depois (aqui).

Um filme médio – Norman, Joseph Cedar.

Um filme ruim – O Círculo, James Ponsoldt.

Fim de semana

Um romance – O Vendido, Paul Beatty (Todavia, 320 págs.).

Um ensaio de provocação – Teoria King Kong, Virginie Despentes (N-1 Edições, 128 págs.).

Um filme simpático – O Filme da Minha Vida, Selton Mello.

Outro – The Invention of Lying, Ricky Gervais.

Um artigo – Fake news na época da invenção do rádio (aqui).

Fim de semana

Um filme – Bingo, o Rei das Manhãs, Daniel Rezende.

Um filme pretensioso – De Canção em Canção, Terrence Malick.

Um livro – As Perguntas, Antonio Xerxenesky (Companhia das Letras, 184 págs.).

Um projeto – Sesc 24 de maio.

Um depoimento – Ruy Castro sobre alcoolismo (aqui).

Relevo e silêncio

Orelha que escrevi para A Cena Interior, de Marcel Cohen (Ed 34, 152 págs.), publicada com pequenas modificações:

Qual era o perfume preferido dos oficiais da Gestapo? Muito provavelmente, escreve Marcel Cohen neste livro breve e perturbador, um certo Couro da Rússia. Originado da Ucrânia, extraído de um galho de bétula que deixava um rastro “violento” e “inebriante”, a fragrância sugeria o contrário das suaves águas de colônia fabricadas à beira do Reno, símbolos da civilização liberal que morreu com a República de Weimar.

Dos perfumes, Cohen parte para digressões sobre roupas, paisagens, comida, fiapos de conversas contadas por testemunhas em cidades e épocas diferentes. São evocações do que a memória só consegue reconstituir – ou reinventar – em fragmentos: a biografia e os traços pessoais dos pais, tios, avós e da irmã ainda bebê que foram mandados a campos de concentração em 1943.

O resgate inclui a breve convivência de todos com o autor, que tinha cinco anos quando foi salvo da prisão e da morte porque havia ido brincar no parque com a babá. Como um espelho feito de ausência e silêncio, o registro de quem sobreviveu por acaso teve repercussões. Não apenas no trauma individual, sobre o qual A Cena Interior fala de modo discreto e enviesado, mas também em questões éticas de quem se propõe a contar por escrito uma história assim. Como ordenar os fatos e atribuir juízos de valor a eles?, Cohen se pergunta na introdução. “Seria inaceitável acrescentar às monstruosidades passadas a injustiça de sugerir que os materiais eram magros demais, que a personalidade dos mortos era pouco distinta ou (…) ‘original’ para justificar um livro.”

O impasse acaba resolvido de forma engenhosa, mesmo que o tom do texto busque uma neutralidade que, sabemos, é utópica em qualquer relato – seja ele de jornalismo, de testemunho ou de autoficção. Por meio do fragmento, do detalhe de aparência insignificante, do gosto por coincidências e associações inusitadas, além de um cuidado quase documental com os trechos mais impactantes da tragédia, a aproximação afetiva entre narrador e objeto se dá evitando na medida do possível a arbitrariedade – ou o autoritarismo – das articulações de ritmo, tom, pathos e demais artifícios – ou “mentiras” – que formam o tecido romanesco tradicional.

Paradoxalmente, é o sabor e a força dessa narrativa cheia de arestas e fios soltos que devolve aos seus personagens aquilo que lhes foi retirado pela brutalidade nazista: o relevo humano. Que não é feito da grandeza das peripécias, e sim dos pequenos hábitos, dos rituais íntimos que não servem para nada, da dignidade que independe dos humores sombrios da história do Século XX. Já definido como “escritor de voz baixa”, Cohen obtém aqui um efeito oposto: faz a vida gritar em sua imperfeição aleatória, seu presente universal garantido pelo registro da convenção literária. Trata-se do melhor antídoto contra a dissolução da experiência na frieza das estatísticas.

 

Fim de semana

Uma HQ – Aqui, Richard McGuire (Companhia das Letras, 304 págs.).

Uma peça – Marte, você está aí?, Silvia Gomez.

Um filme – O Apartamento, Asghar Farhadi.

Outro – Afterimage, Andzrej Wajda.

Um vídeo – Charlottesville na Vice/HBO (aqui).

Fim de semana

Um filme – Wizard of Lies, Barry Levinnson.

Outro – Dunkirk, Christopher Nolan.

Uma exposição no Masp – Toulouse Lautrec.

Outra (com vidros que refletem) – Miguel Rio Branco.

Um obituário – Maria Emilia Bender sobre Elvira Vigna na Piauí.

Fim de semana

Um documentário – Metallica: Some Kind of Monster, Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Um filme ruim – O Contador, Gavin O’Connor.

Uma série de culinária – Anthony Bourdain.

Uma peça – Jó ou a Tortura pelos Amigos, Fabrice Hadjaj (É Realizações, 80 págs.).

Uma releitura – O Instante Contínuo, Geoff Dyer (Companhia das Letras, 304 págs.).

Faulkner: poesia e violência

Trechos de Luz em Agosto (Cosac Naify, 440 páginas, tradução de Celso Mauro Paciornik):

“A carroça se arrasta penosamente na direção dela na aura vagarosa e palpável de sonolência e poeira vermelha em que as patas persistentes das mulas se movem como num sonho, pontuadas pelo retinir esparso de arreios e o balouço ágil de orelhas de lebre”.

“Era um trem expresso e nem sempre parava em Jefferson. Ficou ali parado apenas o tempo suficiente para vomitar os dois cães: mil ricas toneladas de intrincadas e curiosas cintilações metálicas se precipitando com estrépito num silêncio quase chocante repleto de murmúrios humanos.”

“Uma parte do maquinário seria abandonada, já que peças novas sempre poderiam ser compradas a prestação – engrenagens gastas, emperradas, petrificadas, projetando-se dos montículos de tijolo quebrado e tufos de mato com uma aparência assombrosa, e caldeiras destruídas por dentro alçando as chaminés ferrugentas e inativas com um ar teimoso, frustrado e estúpido sobre uma paisagem postulada de tocos de silenciosa e profunda desolação, não arada, não semeada, esvaindo-se lentamente em ravinas vermelhas cunhadas debaixo das chuvas longas e mansas do outono e da fúria galopante dos equinócios primaveris.”

“Nesse período ele a veria de longe de vez em quando durante o dia nas dependências traseiras, onde ela se movimentava articulada sob as roupas limpas e austeras que usava, aquela opulência apodrecida pronta para transbordar em putrefação a um toque, como algo crescendo num pântano, sem olhar uma vez sequer para a cabana ou para ele. E quando pensava naquela outra personalidade que parecia existir em algum lugar da própria escuridão física, parecia-lhe que o que agora via à luz do dia era o fantasma de alguém a quem a irmã noturna havia assassinado e que agora perambulava a esmo pelos cenários da antiga paz, privado até do poder de se lamentar.”

“E quando Hightower se aproxima, o cheiro de carne flácida e sem banho e de roupas muito usadas – aquele odor de obstinado sedentarismo, de banhas lavadas sem muita frequência – é quase avassalador. Entrando, Byron pensa como já pensou antes: ‘É o seu direito. Pode não ser o meu jeito, mas é o seu jeito e o seu direito.’ E lembra que uma vez lhe pareceu ter encontrado uma resposta, como que por inspiração, por adivinhação: ‘É o odor da bondade. Claro que cheiraria mal para nós que somos maus e pecadores.’”

“É bem possível que tivesse a impressão de estar parado justo e firme como uma rocha e sem pressa nem ódio enquanto por todos os lados a sordidez da fraqueza humana se agitava num longo suspiro de terror diante do verdadeiro representante do Trono furioso e vingador. Talvez não tenham sido suas mãos que atingiram o rosto do jovem a quem ele alimentara e abrigara e vestira desde criança, e talvez quando o rosto se esquivou do golpe e se endireitou de novo não fosse o rosto daquela criança. Mas isso não poderia surpreendê-lo, pois não era com aquele rosto de criança que ele se preocupava; era com o rosto de Satã.”

“Começou a dizer e repetir para si mesmo Eu não como desde que não como desde tentando se lembrar de quantos dias haviam se passado desde a sexta-feira em Jefferson, no restaurante onde ele jantara, até algum tempo depois, naquele repouso mudo à espera de que os homens comessem e saíssem para o campo, o nome do dia da semana lhe pareceu mais importante que a comida. Porque quando os homens finalmente saíram e ele desceu, emergiu, na invariável claridade baça e foi para a porta da cozinha, não pediu comida. Pretendia pedir. Podia sentir as palavras rudes se armando em sua mente, logo atrás da boca. E então a mulher magra, coriácea, veio até a porta e olhou-o e dava para ver choque e reconhecimento e medo em seus olhos enquanto pensava Ela me conhece. Ela ficou sabendo também ouviu a própria boca falar com toda a calma: ‘Pode me dizer que dia é hoje? Só quero saber que dia é hoje’”

“Comeu algo de uma tigela invisível, com dedos invisíveis: comida invisível. Não se preocupou com o que seria. Nem soube que havia imaginado ou provado até a mandíbula parar subitamente no meio da mastigação e o pensamento voar para vintecinco anos antes na rua, para além de todas as esquinas imperceptíveis de amargas derrotas e mais amargas vitórias, e oito quilômetros além de uma esquina onde costumava esperar nos terríveis primeiros tempos de amor, por alguém cujo nome esquecera; oito quilômetros ainda mais além ele foi Saberei num minuto. Comi isso antes, em algum lugar. Num minuto saberei memória conectando sabendo eu vejo eu vejo eu mais do que vejo ouço eu ouço eu vejo minha cabeça curvar eu ouço a voz dogmática monótona que acho que jamais deixará de continuar e continuar para sempre e espiando eu vejo o projétil indomável a barba rente limpa eles também curvados e eu pensando Como ele pode estar tão sem fome e eu sentindo minha boca e língua gotejando o sal quente da espera meus olhos provando o vapor quente do prato ‘É ervilha’, disse em voz alta. ‘Santo Deus. Ervilhas silvestres cozidas com melaço.’”

“Na densa obscuridade carregada de perfume demulherrrosada atrás da cortina ele se acocorava, espumandorrosa, auscultando suas entranhas, esperando com atônito fatalismo o que estava para lhe acontecer. Então aconteceu. Ele disse para si mesmo com total e passiva rendição: ‘Bom, aqui estou’. Quando a cortina foi aberta ele não olhou para cima. Quando mãos o arrastaram violentamente de seu vômito, não resistiu. Pendia flácido das mãos, olhando com uma idiotia de olhos vidrados e queixo caído para um rosto não mais rosa e branco suave, emoldurado agora por cabelos selvagens e desgrenhados cujas tranças acetinadas antes o faziam pensar em doces. ‘Seu ratinho!’, sibilou a voz fina, enfurecida; ‘seu ratinho! Me espionando! Seu negrinho maldito!’”

“Ele correu diretamente para a cozinha e para a porta, já atirando, quase antes de ter podido ver a mesa virada e apoiada de lado no canto do recinto, e as mãos reluzentes e cintilantes do homem agachado atrás dela apoiadas na borda superior. Grimm esvaziou a câmara da automática na mesa. Mais tarde alguém cobriu todos os cinco tiros com um lenço dobrado (…). Quando os outros chegaram à cozinha, viram a mesa agora afastada para o lado e Grimm inclinado sobre o corpo. Quando se aproximaram para ver o que ele pretendia, viram que o homem ainda não estava morto, e quando perceberam o que Grimm estava fazendo um dos homens soltou um grito abafado e cambaleou para trás até a parede e começou a vomitar. Então Grimm também saltou para trás, atirando para trás a ensanguentada faca de açougueiro. ‘Agora você vai deixar mulheres brancas em paz, mesmo no inferno’, disse.”

“Então lhe parece que uma maldita torrente final dentro dele irrompe e se precipita para longe. Ele parece observá-la, sentindo perder contato com a terra, cada vez mais leve, esvaziando, flutuando. ‘Estou morrendo’, pensa. ‘Devia rezar. Devia tentar rezar,’ Mas não o faz. Não tenta. ‘Com todo o ar, todo o céu, cheio dos gritos perdidos e ignorados de todos os seres que já viveram, lamentando-se ainda como crianças perdidas entre as frias e terríveis estrelas… Eu queria tão pouco. Pedi tão pouco. Pareceria que…’ A roda segue rodando. Gira agora, diminuindo, sem progresso, como se girada por aquela torrente final que irrompera dele, deixando seu corpo vazio e mais leve que uma folha de árvore esquecida e ainda mais trivial que destroços de um naufrágio jazendo gastos e imóveis sobre o parapeito da janela que não tem solidez sob mãos que não têm peso; de modo que pode ser agora Agora É como se eles tivessem esperado até ele poder encontrar alguma coisa para palpitar, para serem reafirmados em triunfo e desejo, para este último resto de honra e orgulho e vida. Ele ouve acima do seu coração o estrondo crescer, múltiplo, retumbante. Como um longo suspiro de vento nas árvores ele começa, então surgem de repente, acompanhados agora por uma nuvem de poeira espectral. Passam em disparada, curvados para frente sobre as selas, brandindo as armas, embaixo de fitas agitadas de lanças inclinadas e impetuosas; com alvoroço e uma gritaria inaudível passam como uma onda cuja crista é recortada pelas cabeças selvagens de cavalos e os braços brandidos por homens como a cratera de um mundo em explosão.”

Gelo, poeira e um amigo

Conto de Lucia Berlin em Manual da Faxineira (Companhia das Letras, 532 páginas, tradução de Sonia Moreira):

“Quando fresco, parece caviar, faz um barulho de cacos de vidro, de alguém mordendo gelo.

Eu mordia gelo quando a limonada acabava, balançando com a minha avó no balanço da varanda. Ficávamos olhando lá para baixo, para o grupo de presidiários acorrentados que estava pavimentando a Upson Street. Um capataz derramava o macadame; os prisioneiros o calcavam com batidas fortes e ritmadas. As correntes retiniam; o macadame fazia barulho de aplausos.

Nós três dizíamos essa palavra com frequência. Minha mãe porque odiava o lugar onde morávamos, sujo e miserável, e agora pelo menos teríamos uma rua de macadame. Minha avó apenas porque queria muito que as coisas ficassem limpas – o macadame iria segurar a poeira. A poeira vermelha texana que o vento soprava para dentro de casa com resíduos cinza da fundição, formando dunas no piso encerado do hall, na mesa de mogno.

Eu dizia macadame em voz alta, para mim mesma, porque parecia um nome para um amigo.”

Fim de semana

Uma releitura – Luz em Agosto, William Faulkner (Cosac Naify, 440 págs.).

Outra – William Faulkner na Paris Review (aqui).

Um artigo – JM Coetzee e a religião (aqui).

Um filme – David Brent: Life on The Road, Ricky Gervais.

Uma nova temporada – Twin Peaks.

A via expressa da ficção

Yuval Noah Harari em Sapiens (L&PM, 459 págs., tradução de Janaína Marcantonio):

“A característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem (…). Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos.

Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?

A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente (…). Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida, e apenas com parentes próximos. Lobos e chimpanzés cooperam de forma muito mais versátil que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente (…). Dois católicos que nunca se cruzaram podem, no entanto, lutar juntos em uma cruzada ou levantar fundos para construir um hospital porque ambos acreditam que Deus encarnou em um corpo humano e foi crucificado para redimir nossos pecados (…). Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia. (…). Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos. As pessoas entendem facilmente que os ‘primitivos’ consolidam sua ordem social acreditando em deuses e espíritos se reunindo a cada lua cheia para dançar juntos em volta da fogueira. Mas não conseguimos avaliar que nossas instituições modernas funcionam exatamente sobre a mesma base (…).

Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se esses mitos – contando-se histórias diferentes (…). Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética.”

Fim de semana

Um documentário – Testemunha 4, Marcelo Grabowsky.

Outro – Laerte-se, Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum.

Um livro simpático – Romancista Como Vocação, Haruki Murakami (Alfaguara, 166 págs.).

Uma série ruim, mas boa – Designated Survivor.

Uma ruim e ruim – Billions

Fim de semana

Um livro – Manual da Faxineira, Lucia Berlin (Companhia das Letras, 536 págs.).

Um livro meio datado – A Segunda Profissão Mais Antiga do Mundo, Paulo Francis (Três Estrelas, 408 págs.).

Uma exposição datada – Yoko Ono no Tomie Ohtake.

Um disco – Slowdive, Slowdive.

Um filme médio – Stefan Zweig: Adeus à Europa, Maria Schrader.

Fim de semana

Um romance – Noite Dentro da Noite, Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 464 págs.).

Um perfil – Thomas Pynchon por Natália Portinari na Piauí.

Um artigo – Albert Speer Jr. e a Copa do Catar (aqui).

Uma exposição em SP – A Gentil Carioca Jaqueline Martins.

Um filme – Animais Noturnos, Tom Ford.

Uma animação – Anomalisa, Charlie Kaufman.

Fim de semana

Um disco – Stereoscope, Christina Vantzou.

Um filme – Vermelho Russo, Charly Braun.

Um filme médio – The Founder, John Lee Hancock.

Um livro – A Idade Viril, Michel Leiris (Cosac Naify, 208 págs.).

Um ensaio – Ben Lerner sobre poesia na Serrote.

Fim de semana

Um filme – Toni Erdmann, Maren Ade.

Outro – Miss Sloane, John Madden.

Um documentário – Era o Hotel Cambridge, Eliane Caffé.

Uma série média – OJ.

Outra – 13 Reasons Why.

Um livro – Meu Menino Vadio, Luiz Fernando Vianna (Intrínseca, 208 págs.).

Fim de semana

Um livro – Sapiens, Yoval Noah Harari (L&PM, 521 págs.).

Outro – Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis (Boitempo, 244 págs.).

Um filme – Negação, Mick Jackson.

Outro – Hell or High Water, David Mackenzie.

Um documentário – I’m Not Your Negro, Raoul Peck.

Um disco – Goldberg Variations, Beatrice Rana.

Links

– O futuro sombrio da manipulação de notícias: https://goo.gl/mt3WHI

– Fake News ao longo da história, por Robert Darnton: https://goo.gl/CVLCqI

– O mercado de Fake News no Brasil, por Fabio Victor: https://goo.gl/RzXyHC

– Artistas, arquitetos e direitos humanos na construção de museus nos Emirados Árabes: https://goo.gl/1Mv70b

– Alejandro Chacoff sobre Reagan e Trump (e filosofia política, e infância nos EUA dos 1980): https://goo.gl/ZCyxmc

– O que alguns integrantes do ISIS acham de Trump: https://goo.gl/G6taSW

– Sobre decidir escrever ficção numa língua que não é a sua: https://goo.gl/ZBYyMU

– Utopias ontem e hoje: https://goo.gl/kgeyFW

– O passado e o futuro do PCC: https://goo.gl/mV40Bg

– Nate Silver e a impossibilidade de prever o imprevisível: https://goo.gl/mV40Bg

– 4h de podcast sobre um movimento messiânico em Munster, 1534: https://goo.gl/btTb9K

– Ideologia e cálculo na ascensão de Putin na Rússia e no Ocidente: https://goo.gl/zKgEXL

– Lenin e a literatura russa: https://goo.gl/aQx3Pv

– William Buckley Jr entrevista Carlos Lacerda, 1967: https://goo.gl/H5bI9h

– 200 discos clássicos (ou quase) da música brasileira para ouvir online: https://goo.gl/ExEEj2

Os intelectuais e a pós-verdade, anos 1920-1930

Ainda Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (ver post anterior), que foi publicado em 1951. O termo ralé é usado no livro para definir os ‘refugos’ de todas as classes sociais que não acreditavam num modelo de democracia representativa posterior à Primeira Guerra:

“É desconcertante a atração que os movimentos totalitários exerceram sobre a elite, enquanto e onde não houvessem tomado o poder, porque as doutrinas patentemente vulgares, arbitrárias e dogmáticas do totalitarismo são mais visíveis para o espectador que está de fora. Essas doutrinas discrepavam tanto dos padrões intelectuais, culturais e morais geralmente aceitos que se podia concluir que somente um defeito básico, inerente do caráter do intelectual (…), explicava o prazer com que a elite aceitava as ‘ideias’ da ralé. O que os porta-vozes do humanismo e do liberalismo geralmente esquecem, no seu amargo desapontamento e no seu desconhecimento das experiências mais gerais da época, é que, numa atmosfera em que todos os valores e proposições tradicionais haviam se evaporado – e no século XIX as ideologias se haviam refutado umas às outras e esgotado o seu apelo vital –, era de certa forma mais fácil aceitar proposições patentemente absurdas do que as antigas verdades que haviam virado banalidades, exatamente porque não se esperava que ninguém levasse a sério os absurdos. A vulgaridade, com seu cínico repúdio dos padrões respeitados e das teorias aceitas, trazia em si um franco reconhecimento do que havia de pior e um desprezo por toda simulação que facilmente passava por bravura e novo estilo de vida. No crescente triunfo das atitudes e convicções da ralé – que não eram mais que as atitudes e convicções da burguesia despidas de fingimento – aqueles que tradicionalmente odiavam a burguesia e tinham voluntariamente abandonado a sociedade respeitável viam apenas a falta de hipocrisia e de respeitabilidade, não o seu conteúdo.

Desde que a burguesia afirmava ser a guardiã das tradições ocidentais e confundia todas as questões morais exibindo em público virtudes que não só não incorporava na vida privada e nos negócios, mas que realmente desprezava, parecia revolucionário admitir a crueldade, o descaso pelos valores humanos e a amoralidade geral, porque isso pelo menos destruía a duplicidade sobre a qual a sociedade existente parecia repousar. Como era tentador assumir atitudes extremas na meia-luz hipócrita dos duplos padrões de moral, colocar publicamente no rosto a máscara da crueldade quando todos fingiam ser bondosos e ostentar a maldade num mundo que nem sequer era de maldade, mas de mesquinhez! A elite intelectual dos anos 20, que pouco sabia da antiga relação entre a ralé e a burguesia, estava convencida de que o velho jogo de épater le bourgeois podia ser jogado com perfeição, se o primeiro lance fosse chocar a sociedade com a caricatura irônica da sua própria conduta.

Naquela época, ninguém podia imaginar que a verdadeira vítima dessa ironia seria a elite e não a burguesia. A avant-garde ignorava que estava investindo não contra paredes, mas contra portas abertas; o sucesso unânime desmentiria a sua pretensão de ser uma minoria revolucionária, e demonstraria que ela buscava apenas exprimir um novo espírito de massa, que era o espírito do seu tempo. A esse respeito, foi particularmente significativa a acolhida que a Ópera dos Três Vinténs de Brecht teve na Alemanha de antes de Hitler. A peça mostrava bandidos como respeitáveis negociantes e respeitáveis negociantes como bandidos. A ironia não atingiu o alvo, pois os respeitáveis negociantes da plateia enxergaram naquilo uma visão profunda das coisas do mundo, e a ralé tomou a peça como a aprovação artística do banditismo. O tema musical da peça, Antes vem a comida, depois vem a moral, recebeu o aplauso delirante de todos, embora de cada um por motivos diferentes. A ralé aplaudiu porque levou a sério a afirmação; a burguesia aplaudiu porque fora lograda durante tanto tempo por sua própria hipocrisia que se cansara do esforço e via profunda sabedoria na expressão da banalidade de sua vida; a elite aplaudia porque desmascarar a hipocrisia era um elevado e maravilhoso divertimento. O efeito da obra foi exatamente o oposto do que Brecht pretendia. A burguesia já não se chocava com coisa alguma; acolhia com prazer a denúncia da sua filosofia, cuja popularidade provava que sempre estivera certa, de sorte que o único resultado político da ‘revolução’ de Brecht foi encorajar todo o mundo a arrancar a máscara incômoda da hipocrisia e aceitar abertamente os padrões da ralé.

Cerca de dez anos mais tarde, na França, o Bagatelles pour um massacre, no qual Céline propunha que se massacrassem todos os judeus, provocou reação igualmente ambígua. André Gide expressou publicamente o seu deleite nas páginas da Nouvelle Revue Française, naturalmente não porque quisesse matar os judeus da França, mas porque exultava com a brutal confissão desse desejo e com a fascinante contradição entre a grosseria de Céline e a polidez hipócrita que cercava a questão judaica em todos os círculos respeitáveis. O desejo da elite de desmascarar a hipocrisia era tão irresistível que nem mesmo a perseguição muito real que Hitler promoveu contra os judeus chegou a prejudicar essa exultação – e a perseguição já estava em pleno andamento quando Céline escreveu o livro. A aversão contra o filo-semitismo dos liberais tinha muito mais a ver com essa reação do que o ódio aos judeus. O fato notável de que as conhecidas opiniões de Hitler e Stálin sobre arte, e a perseguição que ambos promoveram contra os artistas modernos, nunca eliminaram a atração que os movimentos totalitários exerciam sobre os artistas da avant-garde pode ser explicado por um estado de espírito semelhante – o que demonstra a falta de senso de realidade da elite e o seu pervertido desprendimento, muito afins do mundo fictício em que viviam e da falta de interesses das massas por si mesmas. A grande oportunidade dos movimentos totalitários, e o motivo pelo qual uma aliança temporária entre a elite intelectual e a ralé pôde ocorrer, foi que, de certo modo elementar e indistinto, os seus problemas se tornavam os mesmos e prefiguravam os problemas e a mentalidade das massas.”

Ideologia e terror

Trechos de Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs., tradução de Roberto Raposo):

– “As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico – os segredos do passado, as complexidade do presente, as incertezas do futuro – em virtude da lógica inerente de suas respectivas ideias. (…) A palavra ‘raça’ no racismo não significa qualquer curiosidade genuína acerca das raças humanas como campo de exploração científica, mas é a ‘ideia’ através da qual o movimento da história é explicado como um único processo coerente.”

– “O único movimento possível no terreno da lógica é o processo de dedução a partir de uma premissa. Nas mãos de uma ideologia, a lógica dialética, com o seu processo de ir da tese, através da antítese, para a síntese, que por sua vez se torna a tese do próximo movimento dialético, não difere em princípio; a primeira tese passa a ser a premissa, e a sua vantagem para a explicação ideológica é que esse expediente dialético pode fazer desaparecer as contradições factuais, explicando-as como estágios de um só movimento coerente e idêntico. Assim que se aplica a uma ideia a lógica como movimento de pensamento – e não como necessário controle do ato de pensar – essa ideia se transforma em premissa. As explicações ideológicas do mundo realizaram essa operação muito antes que ela se tornasse tão útil para o raciocínio totalitário.”

– “As ideologias do Século XIX não constituem por si mesmas o totalitarismo. Embora o racismo e o comunismo tenham se tornado as ideologias decisivas do Século XX, não eram, a princípio, ‘mais totalitárias’ do que as outras; isso aconteceu porque os elementos da experiência nos quais originalmente se baseavam – a luta entre as raças pelo domínio do mundo, e a luta entre as classes pelo poder político nos respectivos países – vieram a ser politicamente mais importantes que os das outras ideologias. Nesse sentido, a vitória ideológica do racismo e do comunismo sobre todos os outros ismos já estava definida antes que os movimentos totalitários se apoderassem precisamente dessas ideologias.”

– “Sob a crença nazista em leis raciais como expressão da lei da natureza, está a ideia de Darwin do homem como produto de uma evolução natural que não termina necessariamente na espécie atual de seres humanos, da mesma forma como, sob a crença bolchevista numa luta de classes como expressão da lei da história, está a noção de Marx da sociedade como produto de um gigantesco movimento histórico que se dirige, segundo a sua própria lei de dinâmica, para o fim dos tempos históricos, quando então se extinguirá a si mesmo (…). A diferença entre a atitude histórica de Marx e a atitude naturalista de Darwin já foi apontada muitas vezes, quase sempre, com justiça, a favor de Marx. Isso nos leva a esquecer o profundo e positivo interesse de Marx pelas teorias de Darwin; para Engels, o maior cumprimento à obra erudita de Marx era chama-lo de ‘Darwin da história’. Se considerarmos não a obra propriamente dita, mas as filosofias básicas de ambas, verificaremos que, afinal, o movimento da história e o movimento da natureza são um só. O fato de Darwin haver introduzido o conceito de evolução na natureza, sua insistência em que, pelo menos no terreno da biologia, o movimento natural não é circular, mas unilinear, numa direção que progride infinitamente, significa de fato que a natureza está, por assim dizer, sendo assimilada à história, que a vida natural deve ser vista como histórica. A lei ‘natural’ da sobrevivência dos mais aptos é tão histórica – e pôde ser usada como tal pelo racismo – quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista. Por outro lado, a luta de classes de Marx como força motriz da história é apenas a expressão externa do desenvolvimento de forças produtivas que, por sua vez, emanam da ‘energia trabalho’ dos homens. O trabalho, segundo Marx, não é uma força histórica, mas natural-biológica – produzida pelo ‘metabolismo [do homem] na natureza, através do qual ele conserva sua vida individual e reproduz a espécie’”

– “Engels viu com muita clareza a afinidade entre as convicções básicas dos dois homens [Marx e Darwin] porque compreendia o papel decisivo que o conceito de evolução desempenhava nas duas teorias. A tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do Século XIX constituiu na recusa de encarar qualquer coisa ‘como é’ e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior. Que a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou história tinha importância relativamente secundária. Nessas ideologias, o próprio termo ‘lei’ mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e movimentos humanos, para ser expressão do próprio movimento.”

– “A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada quando não se pudessem encontrar novas categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da história que, numa luta de classes, certas classes ‘fenecem’, a própria história humana chegaria ao fim se não se formassem novas classes que, por sua vez, pudessem ‘fenecer’ nas mãos dos governantes totalitários. Em outras palavras, a lei de matar, pela qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio.”

– “O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível à força da natureza ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura ‘estabilizar’ os homens a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do ‘inimigo objetivo’ da História ou da Natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; ‘culpado’ é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às ‘raças inferiores’, quando a quem é ‘indigno de viver’, quanto a ‘classes agonizantes e povos decadentes’. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis históricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lógica inerente. O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a natureza ou a história.”

Fim de semana

Um perfil – Leonard Cohen por David Remnick (aqui).

Um texto – Ana Maria Bahiana sobre Bob Dylan (aqui).

Uma palestra – Bernardo Carvalho sobre criação literária (aqui).

Um disco – Love your Dam and Mad, Nadine Shah.

Um livro – A Filha Perdida, Elena Ferrante (Intrínseca, 174 págs.).

Barbantes, tubarões, deuses impotentes

Poemas de Um Amor Feliz, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 327 págs.):

NATUREZA-MORTA COM UM BALÃOZINHO – Em vez da volta das lembranças/ na hora de morrer/ quero ter de volta/ as coisas perdidas.// Pela porta, janela, malas,/ sombrinhas, luvas, casaco,/ para que eu possa dizer:/ Para que tudo isso// Alfinetes, este e aquele pente,/ rosa de papel, barbante, faca,/ para que eu possa dizer:/ Nada disso me faz falta.// Esteja onde estiver, chave/ tente chegar a tempo,/ para que eu possa dizer:/ Ferrugem, minha cara, ferrugem./ Caia uma nuvem de atestados,/ licenças, enquetes,/ para que eu possa dizer:/ Que lindo sol se pondo./ Relógio, aflore do rio/ e permita que te segure na mão,/ para que eu possa dizer:/ Você finge ser a hora.// Vai aparecer também um balãozinho/ levado pelo vento,/ para que eu possa dizer:/ Aqui não há crianças.// Voe pela janela aberta,/ voe para o vasto mundo,/ que alguém grite: Ó!/ para que eu possa chorar.

UM ENCONTRO INESPERADO – Nos tratamos com muita cortesia,/ dizemos que é ótimo nos encontrarmos depois de anos.// Nossos tigres bebem leite./ Nossos falcões andam a pé./ Nossos tubarões se afogam n’água./ Nossos lobos bocejam junto à jaula aberta.// Nossas víboras livraram-se dos relâmpagos,/ os macacos da inspiração, os pavões das penas./ Os morcegos já há muito voaram dos nossos cabelos.// Silenciamos no meio da frase,/ impotentes, sorridentes./ Nossa gente/ não sabe se falar.

AS CARTAS DOS MORTOS – Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,/ mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores./ Sabemos quais dívidas não foram pagas./ Com quem as viúvas rapidamente se casaram./ Pobres mortos, mortos cegos,/ enganados, falíveis, canhestramente previdentes./ Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas./ Capturamos o som de testamentos sendo rasgados./ Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,/ ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça./ Seu mau gosto. Napoleão, vapor e eletricidade,/ seus remédios mortíferos para doenças curáveis,/ seu tolo apocalipse segundo são João,/ o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…/ Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,/ só que movidos três casas à frente./ Tudo que previam aconteceu de modo totalmente diverso,/ ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso./ Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança/ porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição.

Fim de semana

Um livro – Um Amor Feliz, Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 327 págs.).

Uma edição – Os Meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnár (Cosac Naify, 262 págs.).

Outra – Berenice Corta o Cabelo, Scott Fitzgerald (Lote 42, 96 págs.).

Um artigo – Ariel Levy sobre o ayahuasca na New Yorker (aqui).

Um filme – O Silêncio do Céu, Marco Dutra.

Sade, algoritmos e publicidade

Trechos da palestra de um publicitário em Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 202 págs.), citando o livro Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade:

“O que gostaria que vocês enxergassem nesse texto é a maneira como ele discrimina os diversos elementos de suas fantasias sexuais, cada ínfima unidade de tudo aquilo que excita sua imaginação, para depois organizar, combinar e recombinar tudo à exaustão. Ele concebeu nada menos que seiscentas dessas cenas. Teve tempo de desenvolver apenas cento e cinquenta, mas imaginou seiscentas variações de intensidade crescente, trabalhando com um conjunto de elementos recorrentes. Não se trata de uma estratégia narrativa comum. Nem tentem encontrar aqui alguma jornada do herói, arquétipos, realismo psicológico. Sade escreveu uma narrativa algorítmica (…). O que potencializa as ideias de Sade é um procedimento semelhante a uma análise combinatória. Sendo mais preciso, o que a forma do romance Saló evoca em nossa época é o processamento de informação realizado pelo computador. Todos estamos, hoje, familiarizados com essa lógica, a ponto de não repararmos nela. A pornografia que formata o imaginário sexual da minha geração e de todas que vieram depois é produzida e distribuída com base em gigantescos bancos de dados de hábitos de navegação e consumo online. Quando consumimos pornografia online, como todos aqui fazem de uma maneira ou outra, observamos e alimentamos essa lógica na produção do erotismo, mas ela se estende a todos os campos da experiência humana. É o que fazemos com o nosso próprio material genético, com a sucessão de dietas da moda, com o nosso comportamento enquanto espectadores e leitores, com o sono, com nossas rotinas de trabalho, com nossos ideais de felicidade, com a pesquisa científica, com aplicativos de dating ou que contam os passos e batimentos cardíacos do usuário. Estamos falando da quantificação total da existência. Estamos falando de converter para o formato digital todas as manifestações culturais imagináveis. O tratamento que Sade deu a seus desejos, confinado entre as paredes de pedra de uma cela no interior de um castelo, é o tratamento que damos aos nossos desejos no mundo livre”.

“Nossos clientes não são exatamente libertinos confinados numa torre. São hiper-consumidores condenados à liberdade no capitalismo cada vez mais acelerado. Mas a tecnologia digital os condiciona a converter seus desejos em informação recombinável, resultando nessa medição de tudo, nessa busca do esgotamento das possibilidades. Nenhuma experiência humana, nem mesmo a arte, escapa das mandíbulas desse processo. Essa profanação de tudo que antes era indistinto, inatingível e elevado é um procedimento sádico, não no sentido da crueldade que o senso comum atribui ao termo, mas no sentido do sonhar com o esgotamento metódico do desejo por meio de estratégias de processamento de informação (…). Sai a intensidade, entra a quantidade. Sai o sublime, entram os padrões. Como Sade nos ensina, isso não elimina o êxtase ou mesmo a beleza, mas certamente os transfigura em algo distinto. A beleza que surge é a beleza dos padrões, das formas de arquivamento, dos algoritmos, das montagens e dos contrastes extraídos do excesso de informação. Nesse novo mundo não existe a menor possibilidade de transcendência e transgressão. Não existe nenhuma verdade adormecida sob a superfície. As flores que podem nascer em tanto excesso morrem de um dia pro outro.”