Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana

Um perfil – Leonard Cohen por David Remnick (aqui).

Um texto – Ana Maria Bahiana sobre Bob Dylan (aqui).

Uma palestra – Bernardo Carvalho sobre criação literária (aqui).

Um disco – Love your Dam and Mad, Nadine Shah.

Um livro – A Filha Perdida, Elena Ferrante (Intrínseca, 174 págs.).

Barbantes, tubarões, deuses impotentes

Poemas de Um Amor Feliz, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 327 págs.):

NATUREZA-MORTA COM UM BALÃOZINHO – Em vez da volta das lembranças/ na hora de morrer/ quero ter de volta/ as coisas perdidas.// Pela porta, janela, malas,/ sombrinhas, luvas, casaco,/ para que eu possa dizer:/ Para que tudo isso// Alfinetes, este e aquele pente,/ rosa de papel, barbante, faca,/ para que eu possa dizer:/ Nada disso me faz falta.// Esteja onde estiver, chave/ tente chegar a tempo,/ para que eu possa dizer:/ Ferrugem, minha cara, ferrugem./ Caia uma nuvem de atestados,/ licenças, enquetes,/ para que eu possa dizer:/ Que lindo sol se pondo./ Relógio, aflore do rio/ e permita que te segure na mão,/ para que eu possa dizer:/ Você finge ser a hora.// Vai aparecer também um balãozinho/ levado pelo vento,/ para que eu possa dizer:/ Aqui não há crianças.// Voe pela janela aberta,/ voe para o vasto mundo,/ que alguém grite: Ó!/ para que eu possa chorar.

UM ENCONTRO INESPERADO – Nos tratamos com muita cortesia,/ dizemos que é ótimo nos encontrarmos depois de anos.// Nossos tigres bebem leite./ Nossos falcões andam a pé./ Nossos tubarões se afogam n’água./ Nossos lobos bocejam junto à jaula aberta.// Nossas víboras livraram-se dos relâmpagos,/ os macacos da inspiração, os pavões das penas./ Os morcegos já há muito voaram dos nossos cabelos.// Silenciamos no meio da frase,/ impotentes, sorridentes./ Nossa gente/ não sabe se falar.

AS CARTAS DOS MORTOS – Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,/ mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores./ Sabemos quais dívidas não foram pagas./ Com quem as viúvas rapidamente se casaram./ Pobres mortos, mortos cegos,/ enganados, falíveis, canhestramente previdentes./ Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas./ Capturamos o som de testamentos sendo rasgados./ Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,/ ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça./ Seu mau gosto. Napoleão, vapor e eletricidade,/ seus remédios mortíferos para doenças curáveis,/ seu tolo apocalipse segundo são João,/ o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…/ Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,/ só que movidos três casas à frente./ Tudo que previam aconteceu de modo totalmente diverso,/ ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso./ Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança/ porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição.

Fim de semana

Um livro – Um Amor Feliz, Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 327 págs.).

Uma edição – Os Meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnár (Cosac Naify, 262 págs.).

Outra – Berenice Corta o Cabelo, Scott Fitzgerald (Lote 42, 96 págs.).

Um artigo – Ariel Levy sobre o ayahuasca na New Yorker (aqui).

Um filme – O Silêncio do Céu, Marco Dutra.

Sade, algoritmos e publicidade

Trechos da palestra de um publicitário em Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 202 págs.), citando o livro Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade:

“O que gostaria que vocês enxergassem nesse texto é a maneira como ele discrimina os diversos elementos de suas fantasias sexuais, cada ínfima unidade de tudo aquilo que excita sua imaginação, para depois organizar, combinar e recombinar tudo à exaustão. Ele concebeu nada menos que seiscentas dessas cenas. Teve tempo de desenvolver apenas cento e cinquenta, mas imaginou seiscentas variações de intensidade crescente, trabalhando com um conjunto de elementos recorrentes. Não se trata de uma estratégia narrativa comum. Nem tentem encontrar aqui alguma jornada do herói, arquétipos, realismo psicológico. Sade escreveu uma narrativa algorítmica (…). O que potencializa as ideias de Sade é um procedimento semelhante a uma análise combinatória. Sendo mais preciso, o que a forma do romance Saló evoca em nossa época é o processamento de informação realizado pelo computador. Todos estamos, hoje, familiarizados com essa lógica, a ponto de não repararmos nela. A pornografia que formata o imaginário sexual da minha geração e de todas que vieram depois é produzida e distribuída com base em gigantescos bancos de dados de hábitos de navegação e consumo online. Quando consumimos pornografia online, como todos aqui fazem de uma maneira ou outra, observamos e alimentamos essa lógica na produção do erotismo, mas ela se estende a todos os campos da experiência humana. É o que fazemos com o nosso próprio material genético, com a sucessão de dietas da moda, com o nosso comportamento enquanto espectadores e leitores, com o sono, com nossas rotinas de trabalho, com nossos ideais de felicidade, com a pesquisa científica, com aplicativos de dating ou que contam os passos e batimentos cardíacos do usuário. Estamos falando da quantificação total da existência. Estamos falando de converter para o formato digital todas as manifestações culturais imagináveis. O tratamento que Sade deu a seus desejos, confinado entre as paredes de pedra de uma cela no interior de um castelo, é o tratamento que damos aos nossos desejos no mundo livre”.

“Nossos clientes não são exatamente libertinos confinados numa torre. São hiper-consumidores condenados à liberdade no capitalismo cada vez mais acelerado. Mas a tecnologia digital os condiciona a converter seus desejos em informação recombinável, resultando nessa medição de tudo, nessa busca do esgotamento das possibilidades. Nenhuma experiência humana, nem mesmo a arte, escapa das mandíbulas desse processo. Essa profanação de tudo que antes era indistinto, inatingível e elevado é um procedimento sádico, não no sentido da crueldade que o senso comum atribui ao termo, mas no sentido do sonhar com o esgotamento metódico do desejo por meio de estratégias de processamento de informação (…). Sai a intensidade, entra a quantidade. Sai o sublime, entram os padrões. Como Sade nos ensina, isso não elimina o êxtase ou mesmo a beleza, mas certamente os transfigura em algo distinto. A beleza que surge é a beleza dos padrões, das formas de arquivamento, dos algoritmos, das montagens e dos contrastes extraídos do excesso de informação. Nesse novo mundo não existe a menor possibilidade de transcendência e transgressão. Não existe nenhuma verdade adormecida sob a superfície. As flores que podem nascer em tanto excesso morrem de um dia pro outro.”

Fim de semana

Um livro – A ascensão do romance, Ian Watt (Companhia de Bolso, 352 págs.).

Um disco – Schmilco, Wilco.

Um filme – Café Society, Woody Allen.

Uma adaptação fraca – Breves entrevistas com homens hediondos, John Krasinski.

Um documentário triste – Weiner, Josh Kriegman e Elyse Steinberg.

O álibi do monstro

Uma personagem de Simpatia Pelo Demônio, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 236 págs.), falando do personagem Ivánov, da peça homônima de Tchekhov:

“Você não entendeu nada. Quando ele se diz culpado, não está assumindo culpa nenhuma, ao contrário. Quando ele diz que é culpado, está se eximindo da culpa. E está se pondo no centro da ação (…). Só pode dizer que é culpado porque no fundo não sente culpa nenhuma. ‘Sou culpado’ é a frase perfeita, automática e vazia do irresponsável; é seu álibi, sua desculpa, além de ser uma contradição em termos. É a frase que define quem tem da culpa uma compreensão exterior, intelectual. O que ele está dizendo é: ‘Não posso fazer nada; estou condenado a ser monstro; faz parte da minha natureza, que eu não posso contrariar’. O amor que ele diz sentir pelos outros tem perna curta e termina sendo um enfado, porque está sempre aquém do amor que ele sente por si mesmo. E o amor dos outros por ele é a própria banalidade, o próprio lugar-comum, porque é natural, ele espera que todo mundo o ame, claro, já que encarna o sedutor por excelência. É impossível não amá-lo, você entende? Ele só pode amar uma mulher enquanto não tiver certeza de que ela lhe corresponde, enquanto ela guardar algum mistério, alguma opacidade, enquanto ela não sucumbir à banalidade de amá-lo como todas as outras, enquanto ela não cair no lugar-comum de se declarar, na vulgaridade de tornar transparentes os seus sentimentos. Ele é só a depuração mais extrema do que acaba se reproduzindo em maior ou menor grau em todo mundo. Somos todos mais ou menos Ivánov.”

Fim de semana

Um livro – Simpatia pelo Demônio, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 236 págs.).

Outro – Como se Estivéssemos em Palimpsestos de Putas, Elvira Vigna (Companhia das Letras, 212 págs.).

Um disco – My Woman, Angel Olsen.

Um filme com uns poréns – Greenberg, Noah Baumbach.

Outro – Aquarius, Kleber Mendonça Filho.

Vida além da vida

James Wood em Como Funciona a Ficção (Cosac Naify, 228 págs. Tradução de Denise Bottmann):

“O realismo, visto em termos amplos como veracidade em relação às coisas como são, não pode ser mera verossimilhança, não pode ser meramente parecido ou igual à vida; há de ser o que devo chamar de vida animada [lifeness]: a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças à mais elevada capacidade artística. E não pode ser um gênero; pelo contrário, ela faz com que as outras formas de ficção pareçam gêneros. Pois esse tipo de realismo – a vida animada – é a origem. É o mestre de todos os outros; ensina também os que cabulam suas aulas: é ele que permite existir o realismo mágico, o realismo histérico, a fantasia, a ficção científica e mesmo o suspense. Nada tem daquela ingenuidade que lhe imputam os adversários; quase todos os grandes romances realistas do século XX também refletem sobre sua própria elaboração e estão repletos de artifícios. Todos os maiores realistas, de Austen a Alice Munro, são ao mesmo tempo grandes formalistas. Mas essa questão será sempre difícil: pois o escritor tem de agir como se os métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções, e por isso ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. O verdadeiro escritor, aquele livre servidor da vida, precisa sempre agir como se a vida fosse uma categoria mais além de qualquer coisa já captada pelo romance, como se a própria vida sempre estivesse à beira de se tornar convencional.”

Fim de semana

Um romance – O Encontro Marcado, Fernando Sabino (Record, 365 págs.).

Um filme para ver de novo – Michael Clayton, Tony Gilroy.

Um artigo – Matéria x consciência para homens e objetos (aqui)

Um perfil – Nan Goldin, 30 anos depois (aqui).

Um ensaio – Marcos Nobre e a volta do Brasil aos anos 80 (aqui).

Fim de semana

Uma entrevista – James Joyce, 1929/1930 (aqui).

Um disco – Good Morning, My Love, Jesu & Sun Kill Moon.

Um filme de estreia – Aspirantes, Ives Rosenfeld.

Um livro de estreia – Sobre Pessoas Normais, Marcela Dantés (Patuá, 126 págs.)

Uma HQ – Pílulas Azuis, Frederik Peeters (Nemo, 206 págs.).

2 + 2 = morte

O narrador de Dostoiévski em Notas do Subsolo (L&PM, 149 págs., tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares):

“As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si (…), o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida (…), mas o começo da morte.”

Fim de semana

Um filme – A Bruxa, Robert Eggers.

Outro – Boi Neon, Gabriel Mascaro.

Um artigo – Siddartha Mukherjee sobre esquizofrenia (aqui).

Outro – As guerras culturais nas universidades americanas (aqui).

Um livro – Entre Aspas 2, Fernando Eichenberg (L&PM, 480 págs.).

O imperador no Simba Safári

Claudio Angelo em A Espiral da Morte (Companhia das Letras, 489 págs.), livro sobre a mudança no clima, o derretimento dos polos, o fim do mundo como o conhecemos e uma de suas primeiras vítimas:

“Em alguns lugares, seria preciso matar os ursos e diminuir a população para que ela se tornasse viável, ou encher zoológicos de ursos-polares e cruzá-los em cativeiro até que as emissões de gases-estufa diminuíssem a ponto de permitir uma volta do gelo e sua devolução à natureza (o que pode levar décadas, séculos ou simplesmente não acontecer). Em outros, seria preciso atrair os ursos para as zonas de alimentação diferentes e acostumá-los a procurar comida nesses lugares (…). Em outros ainda, os ursos selvagens precisariam ser alimentados pelos humanos todos os anos, durante vários meses, para sobreviver (…). Essa medida traz uma série de questões políticas, econômicas, éticas e de conservação. Por exemplo: é ético caçar um mamífero [focas] para alimentar outro mamífero? O grupo [de pesquisadores] sugere que não, até porque o degelo também ameaça as populações de focas. Portanto, os ursos teriam de ser alimentados com ração especial, do tipo que é dada a animais no zoológico. O que traz outra dificuldade: como fazer isso? E quem vai pagar a conta? (…) O estudo conclui que, dada a importância econômica dos ursos-polares para algumas regiões, alimentá-los pode, sim, ser uma opção válida de conservação. Várias porções do Ártico seriam, dessa forma, convertidas numa espécie de Simba Safári gigante, onde um animal que simboliza tudo o que há de mais remoto e selvagem no imaginário do Homo sapiens seria convertido numa ‘semifera’ eternamente dependente daqueles que lhe roubaram a casa e a comida (…). Um final melancólico para o reinado de 6 milhões de anos do imperador do Ártico, o maior predador da terra.”

Fim de semana

Um livro – A espiral da morte, Claudio Angelo (Companhia das Letras, 489 págs.).

Um ensaio – Bernardo Carvalho sobre literatura e multiculturalismo (aqui).

Uma série mediana – The Affair.

Uma fraquinha – Love.

Uma temporada que só vi agora – Game of Thrones, 01.

Fim de semana

Uma série – The Jinx.

Um filme argentino – O Décimo Homem, Daniel Burman.

Um filme argentino/espanhol – Truman, Cesc Gay.

Um disco de 2014 – Bad Debt, Hiss Golden Messenger.

Um livro – Depois a Louca sou Eu, Tati Bernardi (Companhia das Letras, 140 págs.).

Algo chamado decoro mesmo quando estamos sozinhos

Junichiro Tanizaki em A Vida secreta do senhor de Musashi (Companhia das Letras, 218 págs., tradução de Dirce Miyamura:

“Damas nascidas numa família de daimyo (…) jamais permitiam que alguém, nem elas próprias, visse os sólidos excretados por seu corpo. Esse tipo de reserva era cumprido cavando-se abaixo do vaso sanitário uma fossa bem profunda que era preenchida com terra depois da morte da dama (…). A discrição sobre este assunto era compartilhada por todas as damas da alta sociedade. Em comparação, o vaso sanitário moderno com descarga automática, embora satisfaça no quesito limpeza e higiene, apresenta tudo abertamente à frente de nossos olhos, e assim (…) é um equipamento vulgar, grosseiro, cujo criador deve ter esquecido que existe algo chamado decoro mesmo quando estamos sozinhos.”

Fim de semana

Um filme – Straight Outta Compton, F. Gary Gray.

Um filme de Yorgos Lanthimos – The Lobster.

Outro – Dogtooth.

Um perfil – A vida de Coppola na Itália (aqui)

Um ensaio – Camila Von Holdefer sobre literatura x otimismo (aqui).

Links

– Como a manipulação do DNA mudará o mundo: http://goo.gl/hDUcDY

– Como é tirar João Gilberto no Violão: http://goo.gl/tTm891

– Por que o azul não é mencionado em relatos de civilizações antigas: http://goo.gl/QDfKHd

– Bactérias que curam tumores cerebrais: http://goo.gl/o6mfMQ

– O que sonham os doentes terminais (e como os médicos lidam com isso): http://goo.gl/QQMsvo

– Ideologia de quem vive mais ou menos como mendigo (e de quem aplaude): http://goo.gl/fqM1oo

– Javier Marías em defesa do passado: http://goo.gl/CUVseS

– Pulitzer para resenhas de heavy metal: http://goo.gl/tpV199

– História boa e horrível sobre uma mãe que perdeu a guarda do filho: http://goo.gl/HvraZ8

– Mishima falando: https://goo.gl/3O1Tja

– George Steiner falando: https://goo.gl/U4chvy

– Contos de fada são mais antigos do que se sabia: http://goo.gl/Kvg0LX

– Uma teoria original (e americana) sobre a desigualdade brasileira: http://goo.gl/U5iOGK

Fim de semana

Um filme – A grande aposta, Adam McKay.

Um documentário – Best of enemies, Robert Gordon e Morgan Neville.

Outro – Eu sou Carlos Imperial, Ricardo Calil e Renato Terra.

Um terceiro – A paixão de JL, Carlos Nader.

Um romance – A vida secreta do senhor de Musashi, Junichiro Tanizaki (Companhia das Letras, 218 págs.).

Um lagarto à espreita

Leonardo Padura em O Homem que amava os cachorros (Boitempo, 589 págs., tradução de Helena Pitta):

“Durante anos Stalin parecera-lhe tão insignificante que, por mais que esquadrinhasse a memória, nunca conseguira visualizá-lo naquele que deve ter sido o primeiro encontro entre os dois, em Londres, em 1907. Nessa altura ele era o Trotski que já tinha atrás de si a dramática participação na revolução de 1905, quando chegou a ser presidente do Soviete de Petrogrado: o orador e jornalista capaz de convencer Lenin, ou mesmo de enfrentá-lo, chamando-o de ditador incipiente, Robespierre russo. Era um revolucionário mundano, mimado e odiado, que deve ter olhado sem grande interesse para o georgiano que acabara de se juntar à emigração, inculto e sem história, com a pele do rosto marcada pela varíola. No entanto, conseguia se lembrar dele naquela coincidência fugaz em Viena, no decurso de 1913, quando alguém os apresentou formalmente, sem achar necessário dizer ao montanhês quem era Trotski, uma vez que nenhum revolucionário russo poderia deixar de conhecê-lo. Lembrava-se ainda que, nessa altura, Stalin apenas apertara a sua mão, voltando para a sua xícara de chá, como um animalzinho mal alimentado, que só conseguiria ficar na sua memória devido àquele olhar distante e amarelo, saído de uns olhos pequenos que, tal como os de um lagarto à espreita – foi esse o pormenor! –, não pestanejavam. Como não fora capaz de perceber que um homem com aquele olhar de réptil era um ser altamente perigoso?”

Fim de semana

Um romance – O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura (Boitempo, 589 págs.).

Uma série – Horace and Pete, Louis CK.

Um filme – Cemitério do esplendor, Apichatpong Weerasethakul.

Um filme simpático – Ave, César, irmãos Coen.

Um disco – The wilderness, Explosions in the Sky.

O Rei de Jerusalém em alto-mar

Joseph Conrad em A linha de sombra (Hemus, 165 págs., tradução de Maria Antonia Von Acker):

“Havia momentos em que eu sentia não só que iria enlouquecer, mas que já tinha enlouquecido; de modo que não ousava abrir a boca por medo de me trair com algum grito insano. Felizmente só tinha ordens a dar, e uma ordem tem uma influência estabilizadora sobre aquele que a deve dar. Além do mais, o marinheiro, o oficial de quarto dentro de mim, estava suficientemente são. Eu era como um carpinteiro louco fazendo uma caixa. Por mais que ele estivesse convencido de ser o Rei de Jerusalém, uma caixa que ele fizesse seria uma caixa sã.”

Cobras, gatos, netos

Francisco Alvim em O metro nenhum (Companhia das Letras, 89 págs.):

COBRA – a que continua viva/ depois de morta/ é a que pica mais forte// Por isso é mister/ esconder o pau/ (e não mostrá-lo/ como pensa o vulgo)// Assim nunca saberá/ a cobra/ de onde baixa o porrete/ eternidade afora

PIORA – Adotou um gatinho/ que ia visitar toda semana/ no asilo/ de gatinhos velhinhos/ Quis procurar o dono do cavalo/ cabisbaixo/ fincado nas quatro patas/ que via todo dia na beira/ do trilho/ quando passava no/ trem/ Uma vez quase desceu de sua sala/ para falar com o mendigo da praça/ dono de um cachorro/ mais estropiado do que o/ admissível/ cujo sofrimento era o dele/ cachorro/ e o dela

HISTÓRIAS DE NETO – São muito chatas/ Mas esta vale a pena/ A babá/ mocinha tinha treze catorze anos/ resistiu quanto pôde/ mas acabou que/ confessou tudo/ Só que o tudo era outra coisa/ muito pouco/ quase nada/ cinco reais um lençol um quilo de arroz/ o Cartier, negou/ Ele três aninhos só ouvindo/ e/ de repente:/ (nunca vi criança tão inteligente)/ Mas que perigo/ podiam ter roubado/ a minha chupeta

Fim de semana

Uma reportagem – Consuelo Dieguez sobre o BNDES na Piauí.

Um relato – Oliver Sacks sobre os últimos anos de Spalding Gray, idem.

Um documentário médio – Life itself, Steve James.

Outro – Keith Richards: under the influence, Morgan Neville.

Um livro – O oitavo selo, Heloisa Seixas (Cosac Naify, 192 págs.).

O universo é um eufemismo

Mathieu Lindon em O que amar quer dizer (Cosac Naify, 287 págs., tradução de Marília Garcia):

“Tenho tendência a dizer ‘Menti’ em vez de ‘Me enganei’, ‘Posso roubar seu lápis por um minuto?’ em vez de ‘Me empresta?’, porque é assim que gosto de brincar com a língua, como meu irmão adolescente dizia que era preciso ‘comer os remédios’, que é o que todo mundo faz, só que ninguém diz dessa forma. Gosto de injetar um pouco de inadequação, de brutalidade na linguagem porque não consigo evitar que, seja qual for a situação, mesmo a mais delicada, a brutalidade e a inadequação sejam sempre a melhor maneira de descrevê-la. O universo inteiro não passa de um eufemismo.”

Feriado

Um documentário – Amy, Asif Kapadia.

Outro –Who Is Harry Nilsson (And Why Is Everybody Talkin’ About Him)?, John Scheinfeld.

Um filme estranho – Jauja, Lisandro Alonso.

Um romance brasileiro – O ano em que vivi de literatura, Paulo Scott (Foz, 251 págs.).

Outro – Enquanto Deus não está olhando, Débora Ferraz (Record, 366 págs.).

Fim de semana

Uma coletânea de poesia – O Livro das semelhanças, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um romance – Pssica, Edyr Augusto (Boitempo, 94 págs.).

Um filme – A pele de vênus, Roman Polanski.

Um filme médio – Love, Gaspar Noé.

Um disco – B’lieve I’m goin down…, Kurt Vile.

Velhos

Microcontos de Dalton Trevisan em Pico na veia (Record, 239 págs.), Ah, é? (Record, 137 págs.) e 99 corruíras nanicas (L&PM, 112 págs.):

1.

O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente o velho:

– Sua diaba. Para de ficar ouvindo o meu pensamento!

2.

O velho:

– Acordo às três da manhã. Daí começo a brigar.

– Com quem?

– Com a minha cabeça.

3.

Como dormir se, para os mil olhos da insônia, você só tem duas pálpebras?

4.

A velha:

– Por que você abre a boca, João, quando olha para cima?

– Não sou eu. É o queixo que cai.

5.

Enfim sós, e a velhinha toda meiguice:

– Mais um dia em que me arrependo de ter casado com você.

6.

– Sempre vaidoso, o meu velho. Primeiro me fez ir ao alfaiate. Estreitar um palmo na cintura da calça.

–Tão acabadinho, coitado.

– Agora vou ao sapateiro. Mais três furos no cinto.

– Será que desconfia?

– Bem iludido, o pobre. Daquela cama se levanta nunca mais.

7.

O velho em agonia, no último gemido para a filha:

– Lá no caixão…

–Sim, paizinho.

–…Não deixe essa aí me beijar.

8.

– Se um de nós faltar… ai, João…

– Durma, velha.

– …o que vai ser de mim?

9.

– Por que ele está demorando tanto?

Se pergunta no fim do dia a viúva inconformada, sondando tristinha pela janela.

10.

Olhinho perdido na janela, suspira o velho:

– O que será que o meu canarinho anda fazendo?

Fim de semana

Um romance – Sérgio Y vai à America, Alexandre Vidal Porto (Companhia das Letras, 181 págs.).

Uma edição – Pais e filhos, Turguêniev (Cosac Naify, 352 págs.).

Uma reportagem – Kathryn Schultz sobre o Grande Terremoto Inevitável na New Yorker (aqui).

Um filme convencional bom – Mr. Turner, Mike Leigh.

Um filme convencional médio – Nocaute, Antoine Fuqua.

O oráculo divergente

No dia 19 de maio de 1990, a banda de rock Legião Urbana subiu ao palco do Gigantinho, em Porto Alegre, para um dos shows da turnê do LP As Quatro Estações, lançado no fim do ano anterior. Há um vídeo dessa apresentação no YouTube (https://goo.gl/xyUEzw), no qual os enquadramentos são um tanto estáticos para os padrões atuais desse tipo de transmissão. A imagem é ruim, o som é achatado, há cortes e um ligeiro delay em alguns trechos. Renato Russo, o vocalista, letrista e líder do grupo, usa um bigode e uma camisa de estampa abotoada no colarinho que poderiam ser transportados para uma caricatura hipster de 2015.

A precariedade e o anacronismo do que aparece na tela nos direcionam para uma apreciação irônica, condescendente. E, no entanto, minha memória daquela noite tem outro registro. Eu acabara de completar 17 anos e estava terminando o colégio. O ingresso que havia comprado era falso e, ao ser barrado na roleta, fui encaminhado para uma sala no Estádio Beira-Rio, do Internacional, que fica ao lado do Gigantinho. A produção manteve ali cerca de trinta vítimas do golpe, com a promessa de permitir nossa entrada caso não houvesse risco de segurança num ginásio já superlotado – o que acabou ocorrendo durante a terceira música do show.

Dois amigos estavam junto comigo. Começamos a beber cerveja no percurso de ida e continuamos ao longo da noite. Também cheiramos um pano embebido numa solução de éter. Fazia frio em Porto Alegre, e foi a última das três vezes em que vi Renato Russo se apresentar. Nas décadas seguintes, a frequência com que eu ouvia suas músicas foi diminuindo até quase desaparecer. O legado de sua obra teria sobrevivido apenas em um conjunto disforme de lembranças, ganhando os sentidos que a manipulação afetiva impõe a elas, se fatores culturais e tecnológicos não estimulassem a revisita a esse passado – e, como efeito, uma mudança na forma como vejo minha própria experiência.

Trecho inicial de texto publicado na revista Piauí, setembro de 2015. Íntegra para assinantes aqui.