Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana + quarentena (23)

Um perfil – Alan Dershowitz por Connie Bruck (aqui)

Um ensaio fotográfico – Glastonbury por Martin Parr (aqui).

Um livrinho – As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla (Planeta, 96 págs.)

Um curta – Luis Humberto: o Olhar Possível, Mariana Costa e Rafael Lobo.

Um documentário – Nomad, Werner Herzog.

Cem dias entre os tubarões e o tédio

Numa entrevista ao podcast da revista Quatro Cinco Um, que foi ao ar em abril, Amyr Klink relata a Paulo Werneck um experimento que fez durante a quarentena: tentar simular em terra a atmosfera que viveu ao cruzar o Oceano Atlântico a remo, em 1984. Com o velho barco da travessia pendurado numa estrutura geodésica no quintal de casa, em Paraty, o navegador achou que seria divertido lembrar por uma noite do balanço físico e da sensação de confinamento naquela “célula habitável” de 88 cm de altura, menos de um metro de largura e 2,20m de comprimento na qual dormiu, comeu e trabalhou por cem dias.

“Quase fiquei louco lá dentro”, diz Amyr, que desceu do barco em menos de seis horas. Não por claustrofobia ou solidão, problemas que ele evidentemente não tem, e sim pela angústia de estar “parado”, conceito familiar a todos os que atravessamos esses também cem dias em que o mundo deixou de ter novidades – ou, pior, nos sufoca com um excesso de notícias trágicas cujo conjunto causa um efeito de anestesia, ou então uma ansiedade tão difusa que não encontramos chão para enfrentá-la.

Na travessia de 1984, ao contrário, os eventos que se sucederam – tempestades, perrengues com equipamentos, sprays de baleia, arco-íris de lua – apontavam para um sentido narrativo no tempo e no espaço. “É mais fácil enfrentar tubarões do que o tédio?”, pergunta Werneck. A resposta do entrevistado, que lidou bem com as aflições psicológicas durante o percurso, não deixa dúvida: “Eu sentia que estava construindo uma obra, indo para algum lugar, e essa sensação é muito gratificante”.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26/6/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (20)

Um livro – Falso Espelho, Jia Tolentino (Todavia, 368 págs.).

Um artigo – Paulo Pachá e Thiago Krause sobre a derrubada de estátuas (aqui).

Um filmete – Sul do Brasil, 1942 (aqui).

Um documentário sobre Black Alien – Mr. Niteroi, Ton Gadioli (aqui).

Uma entrevista sobre Renato Russo – Carlos Trilha (aqui).

Fim de semana + quarentena (19)

Uma entrevista – Deborah Danovski sobre o fim do mundo (aqui).

Outra – Silvio Almeida sobre racismo (aqui).

Um podcast – Baldwin x Faulkner, no History of Literature.

Outro – Frantz Fanon, no History of Ideas.

Um romance – As Sobras de Ontem, Marcelo Vicintin (Companhia das Letras, 214 págs.).

Fim de semana + quarentena (18)

Um ensaio de 1977 – Why look at Animals?, John Berger.

Uma reportagem – A CNN brasileira, por Fabio Victor (aqui)

Uma performance – Flaming Lips (aqui).

Um documentário sobre música – Whitney, Kevin McDonald.

Uma série sobre cinema – Five Came Back.

Vida x obra, de novo

Volto a Nelson Rodrigues para refazer a antiga pergunta sobre como lidar com artistas ambivalentes, cuja obra confirma, reflete ou desmente uma atitude política e moral condenável na vida civil. É um assunto em voga no Brasil há alguns anos, com a tendência de se tornar incontornável à medida que o governo atual escancara – se alguém ainda não havia percebido – sua natureza anti-humana.

O projeto da barbárie brasileira foi e vem sendo apoiado por artistas de todo tipo, dos conhecidos (Regina Duarte) aos obscuros (Theo Becker), dos que tiveram relevância em sua área em algum período (Roger Moreira, Roberto Alvim) aos eternos candidatos a algo mais que a nulidade (Marcio Garcia, Mario Frias). Como o futuro julgará os atos políticos de todos eles me parece claro, se ainda restar alguma decência entre nós. Como julgará seus legados como atores, músicos, diretores teatrais e assim por diante é outra história.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/5/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (17)

Uma coletânea – As Ideias Fora do Lugar, Roberto Schwarz (Penguin, 152 págs.).

Uma entrevista – Paulo Henriques Britto sobre Elizabeth Bishop (aqui).

Um documentário – Quincy, Rashida Jones e Alan Hicks.

Outro – Sabotage: o maestro do Canão, Ivan 13P (aqui).

Uma série de fotos – SP na pandemia, por Karime Xavier (aqui).

Beleza na tragédia

“Deus prefere os suicidas.” “O povo não entende o perdão e prefere o tiro.” “A opinião pública é uma doente mental.” “Como é antigo, senil e mumificado o passado recente”.

O estilo não deixa dúvidas: estamos no mundo de Nelson Rodrigues. Algo nele se comunica com o que vivemos em 2020, como costuma ocorrer com grandes obras em relação a qualquer tempo. Por isso aproveito a quarentena para reler um livro que traz beleza em sua tragédia, humor em seu desalento, num paradoxo adequado a um momento tanto de horror quanto de reflexão: A Menina Sem Estrela, a autobiografia do dramaturgo, romancista e cronista pernambucano de nascimento, carioca em sua essência.

Como muita coisa na vida de Nelson, o livro surgiu de um acaso. Em 1967, conta Ruy Castro no prefácio da edição que a Companhia das Letras lançou nos anos 1990 (há uma mais recente, da Agir), o autor foi convidado pelo jornal Correio da Manhã para escrever suas memórias numa série de crônicas. Ele tinha então 55 anos, seu romance “O Casamento” recém havia sido proibido, e o jornal onde escrevia sobre futebol – o Globo, que manteve sua coluna em paralelo à série do Correio – apoiara a censura.

Um pouco por desforra, um pouco para aumentar a renda que pagava o tratamento caro de sua filha cega – a menina do título da coletânea –, Nelson aceitou o convite e publicou 80 pequenas joias que também trazem lembranças “do futuro e de várias alucinações”. O impacto delas no leitor de agora, claro, não precisa incluir afinidades de opinião: A Menina Sem Estrela corrobora uma visão às vezes obtusa, reacionária em termos de política e de costumes, que podemos condenar sem risco de anacronismo.

Como o efeito de tudo que escreveu, no entanto, o próprio Nelson sempre foi contraditório. É como se a exuberância de seu estilo, baseado numa sucessão de hipérboles, metáforas e adjetivos passionais, encharcados de fascínio e espanto, a cada momento dissesse o contrário do seu valor de face: há um profundo amor pela falibilidade humana, pelo gesto instintivo e efêmero, no que parece apenas a nostalgia de um passado mítico (onde ainda existem a castidade, o “pudor de véspera”, o luto “desgrenhado e siciliano” de viúvas em enterros). Não há como ler Nelson Rodrigues e não ser tocado por uma sensibilidade libertária: sua fé da “alma imortal” é também uma denúncia da nossa hipocrisia cotidiana, dos pequenos e grandes despotismos que governam nossa vida na política, no trabalho, na família.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 30/4/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (13)

Um texto – Kim Stanley Robinson sobre o corona e o futuro (aqui).

Outro – Nuno Ramos sobre o corona e a raiva (aqui).

Um romance – O que ela sussurra, Noemi Jaffe (Companhia das Letras, 160 págs.).

Um doc com umas cenas – Neville d’Almeida, Mario Abbade.

Um doc em 3 partes – Aldir Blanc, dois para cá, dois para lá (aqui).

Fim de semana + quarentena (9)

Uma entrevista – Ricardo Abramovay sobre o corona e o futuro (aqui).

Outra – Heloísa Starling sobre a gripe espanhola em BH (aqui).

Um livro difícil – Tortura, Henri Alleg (Todavia, 80 págs.).

Um documentário meio difícil – Honeyland, Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov.

Um disco – Gorecki Symphony number 3, Lisa Gerrard.

Fim de semana + quarentena (5)

Uma entrevista – Atila Iamarino sobre a pandemia (aqui)

Um artigo – Amanda Hess sobre celebridades e a pandemia (aqui)

Um romance – Esboço, Rachel Cusk (Todavia, 192 págs.).

Uma palestra – Sergio Augusto de Andrade sobre arte e sexo (aqui).

Uma conversa antiga dando uns descontos – Jorge Mautner e Julio Bressane (aqui).

Silêncio e crime

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”

Fim de semana + quarentena (2)

Uma entrevista – Richard J. Evans sobre doenças e cultura (aqui).

Outra – Raull Santiago sobre o coronavírus nas favelas (aqui).

Um filme inevitável – Contágio, Steven Soderbergh.

Um livro sobre mais ou menos esse tema – Dez Drogas, Thomas Hager (Todavia, 336 págs.)

Uma releitura idem – Morte em Veneza/Tonio Kröger, Thomas Mann (Nova Fronteira, 162 págs.).

Fim de semana + quarentena (1)

Uma peça – Praça dos Heróis, Thomas Bernhard (Temporal, 121 págs.)

Uma piada – What did Jack do?, David Lynch.

Um filme melhor do que parece – Um lindo dia na Vizinhança, Marielle Heller.

Um pior do que parece – Motherless Brooklyn, Edward Norton.

Um documentário – Get me Roger Stone, Daniel DiMauro, Moran Pehme, Dylan Bank.

Delicadeza contra o horror

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.

Pobreza, wi-fi, água limpa

Numa das boas cenas de Fome de Poder (2016), filme de resto médio sobre a trajetória do empresário americano Ray Crock (Michael Keaton), o protagonista sintetiza o conceito que faria sua então pequena rede de lanchonetes se tornar um império tão culturalmente simbólico quanto a Ford e a Disney: “McDonald’s é família”. Folheando Dignity, livro de textos e fotos de Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.), é difícil não pensar no quanto a frase tem de profético, a partir de sua ambiguidade involuntária, em relação ao modo como se vive hoje nos Estados Unidos.

Arnade percorreu bairros degradados de cidades como Nova York, Bakersfield (Califórnia) e Gary (Indiana) para documentar o dia-a-dia de viciados, prostitutas, gente que foi para a pobreza por variados motivos pessoais e públicos, da mudança estrutural do mercado de trabalho à crise dos opióides. Boa parte das entrevistas ocorreu, justamente, no McDonald’s. O local que Crock imaginou como uma espécie de templo do otimismo do pós-guerra, onde a classe média celebraria os valores do consumo e da eficiência como motores de prosperidade e inclusão, no Século XXI virou cenário de outro tipo de acolhimento: trata-se de um dos poucos espaços públicos americanos que não se constrange em abraçar quem ficou para trás no rali capitalista.

Ao preço de uma das comidas mais baratas do país, é ali que relatos sobre abandono, abuso e crime convergem para um arremedo de vida comunitária. No estacionamento há carros com os pertences de quem não consegue mais pagar o aluguel. Cada loja oferece wi fi grátis, aquecimento, mesas onde grupos de desempregados passam horas conversando. Mães dão banho nos filhos usando a água limpa nos banheiros. À diferença de albergues e instalações religiosas ou bancadas por governos, ninguém incomoda os frequentadores com normas e discursos morais.

Arnade trabalhou duas décadas no Citibank, em Wall Street, e sua própria história de mobilidade expõe os requisitos para quem quer sentar no que ele chama de “primeira fila” da sociedade: um lar estruturado, uma educação de alto nível, a inteligência emocional para fazer escolhas certas durante os anos de aprendizado que o tiraram de San Antonio, pequena cidade operária da Flórida, para o sucesso num dos setores mais competitivos da economia. A partir de 2011, no entanto, e na esteira do que viu acontecer ao seu redor depois da quebradeira de 2008, um desconforto pessoal e ideológico o fez entrar em contato com a realidade do “fundão”.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 6/3/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Uma Vida Oculta, Terrence Malick.

Um documentário – Miss Americana, Lana Wilson.

Um disco estranho – Mummer Love, Patti Smith.

Uma entrevista de 1989 – Décio Pignatari (aqui).

Um livro – Uma História da Tatuagem no Brasil, Silvana Jeha (Veneta, 354 págs.).

Olhos fechados, olhos abertos

Dormir pode ser um ato de resistência?  Essa é uma das conclusões que se pode tirar de 24/7, livro que o professor e ensaísta americano Jonathan Crary publicou em 2013. Lançado no Brasil pela Cosac Naify (144 págs, tradução de Joaquim Toledo Jr.), trata-se de um estudo erudito, apocalíptico e, sob alguns aspectos, premonitório daquilo que era menos possível enxergar na época do que é hoje, ao menos para o leigo: um mundo onde a tecnologia se tornou capaz de mapear cada um de nossos atos e emoções. O que, por sua vez, permite a quem domina tais meios uniformizar a vida social em níveis nunca antes pensados.

Crary identifica nas horas que passamos de olhos fechados um tempo alheio a esse controle. Conforme ele mostra em exemplos sinistros, incluindo tentativas de criar um soldado eficaz na vigília ou cidades com luz solar eterna, é lógico que o “escândalo do sono” – sua falta de valor sob uma perspectiva produtivista – seja combatido por empresas, indústria farmacêutica, indústria militar e similares. A ideia de um sistema em que trabalhadores/consumidores funcionem durante todas as horas do dia, todos os dias da semana (daí o título do livro), tem parentesco óbvio com distopias que se tornaram populares na literatura e no cinema do Século XX.

(…)

É curioso pensar em 24/7 ao ler Sonhos no Terceiro Reich (1966), da jornalista alemã Charlotte Beradt, que só agora sai no Brasil (Três Estrelas, 182 págs., tradução de Silvia Bittencourt). Resultado de uma pesquisa secreta conduzida entre 1933 e 1939, esse ensaio/reportagem analisa relatos oníricos que, em sua aparência fragmentária e ilógica, registram a consolidação do nazismo na subjetividade de cidadãos comuns alemães.

Assim, um médico sonha com um decreto que extingue as paredes nos apartamentos. Um funcionário público, com uma “voz suave” que o acorda no meio da noite dizendo ser do “Serviço de Controle de Telefonemas”. Uma mulher, com a proibição das palavras “lord” (“por precaução, devo ter sonhado em inglês”) e “eu”.

Na luta para encontrar uma “forma de expressão para o inexprimível”, os narradores também são premonitórios à sua maneira. A distopia presente em suas histórias, a partir das quais “o eco do dia ressoa de forma terrivelmente alta, terrivelmente baixa, radicalmente simplificada ou exagerada”, viraria realidade quase literal em poucos anos: na lição de Hannah Arendt, influência clara do livro junto com a psicanálise, uma das diferenças entre o totalitarismo do Século XX e tiranias anteriores – por mais sangrentas que elas fossem – foi, justamente, o apagamento das fronteiras entre experiência íntima e pública.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 24/11/2019. Íntegra aqui.

Música tardia

Em 1937, num ensaio sobre os anos derradeiros da carreira de Beethoven, Theodor Adorno fez considerações sobre o que chamou de “estilo tardio”. Mais tarde retomada numa coletânea homônima de Edward Said, que a aplicou a nomes como Wagner e Jean Genet, a expressão designa uma guinada formal radical que alguns artistas promovem diante da proximidade da morte – um tipo de maturidade estética que não passa pela harmonia, pela doçura serena que a técnica e a experiência poderiam oferecer. Diferentemente, tais obras se tornam “amargas”, “espinhosas”, uma espécie de procura pela “catástrofe” de quem não está mais interessado no “mero deleite” do público.

Num texto recente para a revista The New Yorker, o crítico Max Norman voltou ao tema comentando um livro do historiador Carel Blotkamp, que propõe uma hipótese interessante:  o conceito de estilo tardio não corresponderia, também, a projeções de nós leitores, ouvintes e espectadores? Isto é, não usamos supostos sentidos desses trabalhos finais para saciar nossa “fome por narrativas fechadas”, inclusive as que relacionam vida e obra, porque isso é mais fácil que aceitar o acaso – comum na arte, afinal – ou razões menos visíveis/previsíveis daquilo que queremos entender?

Se há algo que não costuma ser citado quando se fala de João Gilberto Noll, morto em 2017, são as teses de Adorno e Said. Não porque a obra de maturidade do ficcionista gaúcho seja pacífica/harmônica, pelo contrário, mas porque ela nunca se desviou de um caminho que parecia dado desde o início. Da estreia com os contos de O Cego e a Dançarina (1980) ao seu último romance publicado, Solidão Continental (2012), e a par do alto nível mantido em quase todos esses trabalhos, é possível ver no autor o mesmo tema se repetindo com pequenas variações de registro.

E, no entanto, não é absurdo falar numa mudança em nossa visão dessa obra, algo que se intensificou ao longo dos anos. Porque ler Noll em 2000-2010 não era mais como lê-lo em 1980-1990.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/2/2020. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um perfil – Jeff Bezos por Franklin Foer na Piauí.

Um artigo – O recomeço de Louis C.K. por Hilton Hals (aqui).

Um filme hollywoodiano meio bobo – Jojo Rabbit, Taika Waititi.

Um podcast – Gilberto Nascimento sobre Edir Macedo (aqui).

Um livro – Dignity, Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.).

As sombras de Tanizaki

É possível que a visão de mundo que impulsiona o melhor da obra do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) possa ser resumida numa imagem de seu ensaio Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda): “Da mesma forma que uma gema fosforescente brilha no escuro, mas perde o encanto quando exposta à luz solar, creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

Escrito numa época de grande choque entre o nacionalismo japonês e a modernidade ocidental, por um autor que parecia renunciar ao traço vanguardista/europeizante do início da carreira, Em Louvor… exalta o mistério que seria típico da cultura do país – ou daquilo que, segundo seus próprios termos, não seria óbvio, prático, útil de forma consumista e filistina. “[Talvez] não tivéssemos feito grandes progressos materiais se fôssemos deixados à mercê da nossa sorte nos últimos quinhentos anos”, diz um trecho. “Mas ao menos estaríamos seguindo um rumo que nos agrada. E um dia – impossível não seria – talvez viéssemos a descobrir, em lento e cuidadoso progresso, substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações”.

Ao longo das décadas desde a sua publicação, Em Louvor… gerou discussões sobre uma possível ambiguidade no conservadorismo que o inspirou. No posfácio da edição brasileira, o crítico e professor Pedro Erber retoma dessa hipótese, sugerindo que pode haver ironia no texto – e que sua suposta celebração da tradição seria, na verdade, uma alfinetada no tom laudatório do militarismo de sua época.

É uma hipótese generosa com o autor, que numa análise moral e política atualizada – e dando desconto para os aspectos anacrônicos do juízo – ficaria numa posição incômoda caso o texto fosse reduzido ao seu valor de face. Tanizaki fala de um arco vasto de temas, de pintura a arquitetura, da pele dos atores do teatro Nô ao material de tigelas de sopa, passando por vestidos, panos, vasos sanitários, arranjos de flores e toda sorte de objetos e fenômenos da cultura ameaçados pelo que considera imperdoável na vulgaridade moderna, tanto quanto parece lamentar alguns dos princípios democráticos que essa modernidade (às vezes) traz no pacote – como a busca por igualdade de classe, etnia e gênero.

Se no ensaio essa é uma discussão pertinente, por se tratar de um gênero que pode ter um traço programático, na ficção as coisas são mais complexas. Ao ser expressa na maioria de seus contos, novelas e romances, a idiossincrasia de Tanizaki ganha um sabor que – como em toda grande literatura, porque esta é sempre parcial, caprichosa – é notável em originalidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 10/1/2020, sobre as novelas A Ponte Flutuante dos Sonhos e Retrato de Shunkin, publicadas no Brasil pela Estação Liberdade. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um filme de 2015 – O Filho de Saul, Lásló Nemes.

Um documentário – Carta Para Além dos Muros, André Canto.

Uma trilha sonora – Joker, Hildur Guðnadóttir.

Uma montagem – Elizabeth Costello, Leonardo Ventura/Lavínia Pannuzio.

Um livro de poemas – O Tempo Adiado, Inbeborg Bachman (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um livro – As Pequenas Virtudes, Natalia Guinzburg (Companhia das Letras, 124 págs.).

Um livro de poesia – Mil Sóis, Primo Levi (Todavia, 160 págs.).

Um filme – Joias Raras, irmãos Safdie.

Um documentário – A Mulher com Cinco Elefantes, Vadim Jendreyko.

Uma entrevista – Roger Machado a Bob Fernandes (aqui).

Fim de semana

Um livro – Sonhos no Terceiro Reich, Charlotte Beradt (Três Estrelas, 182 págs.).

Um artigo – O cristianismo e o inferno, por David Bentley Hart (aqui).

Outro – Arte e estilo tardio, por Max Norman (aqui).

Uma série ruim – Don’t Fuck With Cats.

Um disco – Caetano & Ivan Sacerdote.

Retrospectiva do futuro

Ricardo Aleixo em Queridos Dias Difíceis, 2014 – “Queridos dias difíceis,/ acho que já deu – embora// eu considere prematuro/ um definitivo adeus.// Querendo, voltem. Minha/ casa é de vocês. Agora,// pensem bem se será mesmo/ saudável nos testarmos em// novos convívios tão longos/ (também não sou fácil) como// foi desta vez. Menos mal se/ vierem em grupos – tantos,// em tais e tais períodos do mês./ Topam correr o risco? Vão resistir// até o fim? Podem vir, eu insisto./ Mas contem primeiro até três.”

Ana Martins Marques em O Livro das Semelhanças, 2015 – “Há estes dias em que pressentimos na casa/ a ruina da casa/ e no corpo/ a morte do corpo/ e no amor/ o fim do amor/ estes dias/ em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo/ e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde/ não são coisas que se expliquem/ apenas são dias em que de repente sabemos/ o que sempre soubemos e todos sabem/ que a madeira é apenas o que vem logo antes/ da cinza”

Bruna Beber em Barragem, 2009 – “deve ser perigoso/ este gosto recorrente/ de incêndio na boca// mas não há saliva pra apagar/ e não há saliva que apague/ por isso falo pouco// não sei o que de fato queima/ fecho a boca e o fogo sai/ pelo nariz// respiro mal, meu ar é qualquer fumaça/ queria um gosto bom, queria pernas/ pra sair correndo.”

Julia de Souza em Aquele Furo, 2019 – “Aquela bandeira/ cravada na esfera/ perfurando o tempo/ ultrapassando antes/ da hora o século/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ aquela tela estrelada/ aquela nação/ o que diria/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ o que diria ela/ sobre a própria sombra/ sobre a duração?”

Daniel Pellizzari em A Fome é uma Coisa Molhada”, 2018 – “Existe alguma dignidade em ser o último, ou pelo menos alguma tristeza, e toda tristeza é digna. Mas não cheguei até aqui pra só chegar até aqui. Nasci cabrita e depois ganhei pênis, mas perdi esse privilégio. Sou fancha e branca, sou pobre e humana, sou negra e rica, sou hétero e cabra. Acho que sou judia também, e assexual, e ambidestra, e cigana e inseto. Eu sou escrota. Meu porão é uma arca morta. Eu sou maravilhosa (…). Ontem a gente vai cruzar o parque. Em frente.”

Trechos de coletânea com trechos inspiradores (dependendo do ponto de vista) para 2020, publicada no Valor. Íntegra aqui.

Diante da barbárie

“O sol é um astro frio. Seu coração, espinhos de gelo. Sua luz, sem perdão. Em fevereiro as árvores estão mortas, o rio petrificado, como se a nascente não vomitasse mais água e o mar não pudesse engolir mais. O tempo congela”.

Assim começa A Ordem do Dia, do francês Éric Vuillard, romance que ganhou o Prêmio Goncourt de 2017 (Tusquets, 140 págs., tradução de Sandra M. Stroparo). O trecho é menos solene e mais irônico do que parece, considerando o que pode haver de ironia numa tragédia histórica. Trata-se da ficcionalização de um encontro real, em 1933, entre dirigentes nazistas e barões alemães da indústria e das finanças.

O propósito era arrecadar fundos para o partido que recém chegara ao poder. Em alguma fresta das conversas, em meio à “neblina de seus ânimos e de seus cálculos”, esses senhores vetustos tiveram a chance de dizer não ao projeto claro que lhes foi apresentado – e não disseram. Premiadas pela adesão, empresas como Bayer, Siemens e Telefunken tiveram grande crescimento durante os anos de preparo e implantação da Segunda Guerra.

Vuillard não está preocupado com as justificativas individuais desse oportunismo. A pergunta central do romance é mais ampla, embora passe pelas pequenas peças que o ego e a consciência de classe pregaram nos envolvidos: em que medida as próprias regras da civilização, incluindo as leis, a linguagem, a etiqueta e o teatro do poder como um todo, não foram corresponsáveis pela vitória da barbárie? Além do encontro de 1933, o romance descreve eventos como um jantar em Londres no dia em que a Alemanha anexou a Áustria, em 1938, entre o ministro alemão das relações exteriores Joachim Von Ribbentrop e o primeiro ministro inglês Neville Chamberlain; e as tratativas sobre detalhes jurídicos e operacionais dessa anexação, em Berchtesgaden, na Baviera, entre o chanceler austríaco Kurt Schuschnigg e o próprio Adolf Hitler.

Trecho de artigo publicado no Valor Esonômico, 6/12/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – Sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk (Todavia, 256 págs.).

Duas novelas – A Ponte Flutuante dos Sonhos/Retrato de Shunkin, Junichiro Tanizaki (Estação Liberdade, 156 págs.).

Um filme obsoleto e bom – História de um Casamento, Noah Baumbach.

Um filme obsoleto e médio/ruim – Um Dia de Chuva em Nova York, Woody Allen.

Um documentário – Diego Maradona, Asif Kapadia.

Fim de semana

Um ensaio – Susan Sontag por A.O. Scott (aqui).

Outro – Ansiedade e remédios por Sasha Frere-Jones (aqui).

Um documentário – Bikram, Eva Orner.

Uma mostra pequena/derivada – William Blake, Casa das Rosas.

Um disco – MTV Unpluged, Courtney Barnett.

Fim de semana

Um romance – A Ordem do Dia, Éric Vuillard (Tusquets, 142 págs.).

Um artigo – Charlotte Beradt e os sonhos durante o nazismo (aqui.).

Outro – Daniel Galera sobre animais e crueldade (aqui).

Um filme – Parasita, Bong Joon-Ho.

Um vídeo – Bastidores de Os Bons Companheiros (aqui).

Apocalipse agora, depois e antes

“Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer esse mundo”, disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro numa entrevista a Eliane Brum publicada no El Pais, em 2014, citando ideias do pensador alemão Günther Anders. “Nós estamos virando o contrário (…). A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensá-la.”

Viveiros de Castro talvez não esteja se referindo à literatura “stricto senso”, mas poderia estar. Se o triunfalismo do discurso técnico nos aprisiona em parâmetros utilitários e amorais, algo que tanto pode nos salvar quanto destruir, a ficção tem o poder de ampliar esses limites – com perguntas inesperadas, eventualmente indigestas, que levam a respostas salvadoras ao menos no campo da sensibilidade. É o que faz um romance como A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (Todavia, 116 páginas), ao introduzir nuances do fator humano – no fim das contas, o único importante quando se fala de progresso – numa discussão sobre o futuro.

Situado por volta de 2030, depois de uma catástrofe que extinguiu a Amazônia, o livro é em parte narrado por um funcionário do governo mexicano a quem coube trazer ao seu país, como exilados políticos, os cinquenta últimos remanescentes da etnia indígena kaajapukugi. A tarefa lhe foi passada pelo sertanista Boaventura, primeiro a ter contato com esse povo então isolado, cujos costumes ele conheceu nos anos 1980 e registrou – é a segunda voz do romance – num depoimento em vídeo pouco antes de morrer.

A Morte… remete a Viveiros de Castro não só pela imaginação oceânica de Terron, capaz de pensar nos efeitos de muitas das bombas armadas por nossas escolhas políticas e culturais das últimas décadas, mas por juntar ao tradicional formato da distopia – a descrição de um futuro terrível a partir de elementos reconhecíveis da realidade próxima – uma ideia cara ao antropólogo: a de que o apocalipse também pode ser um evento do presente e do passado.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 22/11/2019. Íntegra aqui.