Michel Laub

Categoria: Livros

A escuridão

A Segunda Vinda, de W.B. Yeats, tradução de Paulo Vizioli (Em Poemas, Companhia das Letras, 160 págs.)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?

 

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

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Sutileza e grito

O que um romance político pode oferecer num país tão saturado de narrativas políticas? Há várias maneiras de enfrentar o problema, com suas óbvias gradações de intensidade e resultados. Uma delas é a aposta no discurso enviesado, mais estético do que sociológico, em que nas frestas de uma história individual enxergamos relances do que somos coletivamente.

É o caso de Cancún, estreia no gênero do carioca Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 166 págs.). Enquanto lida com a gravidez da mulher e a morte do pai, figura misteriosa envolvida com lavagem de dinheiro na cidade que dá título ao livro, um protagonista por volta de 30 anos rememora a juventude de classe média alta no Rio dos anos 1990: a rotina na escola, a inadequação da puberdade, a experiência com um grupo de estudantes que frequentava uma igreja evangélica.

Com eventuais traços autobiográficos, o livro junta pontas dramáticas diversas sob um único guarda-chuva: o de uma história de fragilidade masculina, de busca por uma afirmação acidentada que tem ressonâncias não apenas internas, relativas ao personagem. É nesse ponto que surge a política, apenas sem engajamento literal. Na realidade da ficção, e no modo como ela espelha a realidade aqui de fora, iluminam-se mecanismos de pertencimento social – via instituições como igreja e família – com nuances mais delicadas do que sugeririam acusações diretas de classe e gênero.

Se Cancún procura a sutileza, Marrom e Amarelo (Alfaguara, 168 páginas) é um soco no leitor. Décimo terceiro título do gaúcho Paulo Scott, seu enredo usa um expediente cronológico semelhante ao de Castillo: partir de um gatilho ocorrido na vida adulta do narrador – a prisão de sua sobrinha num protesto de estudantes – para revisitar um passado incômodo. No caso, o de um sujeito visto como branco enquanto era criado ao lado do irmão negro na Porto Alegre dos anos 1980.

Diferentemente de Cancún, em Marrom e Amarelo a política tem expressão ficcional aberta. Scott faz com que ela grite na trama, como elemento constante e corrosivo das relações íntimas e públicas. Seu narrador é um antigo militante de esquerda que integra a comissão de um governo distópico encarregada de discutir as cotas raciais no país. Os debates burocráticos/idealistas/equivocados de Brasília contrastam com a violência simbólica e real que o personagem sempre enxergou – e continuará enxergando quando, ao tentar ajudar a sobrinha, mais uma vez constatar a simbiose entre a discriminação no dia-a-dia da sociedade e a discriminação oficial de polícia e justiça.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13/9/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – a autobiografia de Prince (aqui).

Uma conversa – Sidarta Ribeiro e Bruno Torturra (aqui)

Um disco pop – Norman Fucking Rockwell, Lana Del Rey.

Uma edição – Francisco Alvim, 80 anos (Quelônio, 30 págs.).

Um romance – Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Otessa Moshfegh (Todavia, 240 págs.).

Fim de semana

Um filme – Era uma Vez em Hollywood, Quentin Tarantino.

Um filme com questões – Bacurau, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

Uma exposição no MAR/Rio – Rosana Paulino.

Outra – O Rio dos Navegantes.

Um livro – Cancún, Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 168 págs.).

O fim do desejo

“Eu ainda não tinha visto um romance mostrar que entrar no mundo do trabalho é como ir para a cova”, disse Michel Houellebecq numa entrevista à Paris Review, comentando o que o levou a escrever ficção. “Nem que há pessoas com e sem vida sexual não por razões morais, e sim porque umas são mais atraentes que as outras”.

A lacuna começaria a ser preenchida, claro, com Extensão do Domínio da Luta, estreia literária dessa figura francesa controversa, em 1994. À parte o exagero da entrevista – sempre houve livros sobre frustrações profissionais e amorosas de todo tipo –, é inegável que sua obra criou um elo original entre o tema fundador – as variações de um grande impasse do desejo – e todo um contexto político, econômico e cultural.

O arranjo está de novo presente em Serotonina, que acaba de sair no Brasil (Alfaguara, 240 páginas, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman). Na história de Florent-Claude Labrouste, engenheiro agrônomo que viaja por Espanha e França em busca de alento para o que vê como fim de linha existencial, ouvimos ecos de um outro fim – a apatia europeia, e especialmente branca, masculina, de classe média e meia idade, diante de crises como as do humanismo e do Estado de bem-estar social firmados a partir do pós-guerra.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 16/8/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Mulheres no Masp.

Um filme médio – Hotel Mumbai, Anthony Maras.

Uma série – Bandidos na TV.

Uma reportagem – Marie Declercq sobre os incels brasileiros (aqui).

Um romance – Marrom e Amarelo, Paulo Scott (Alfaguara, 158 págs.).

Fim de semana

Um depoimento – Arthur Nestrovski sobre João Gilberto (aqui).

Uma exposição no IMS – Sergio Larrain

Outra – Letizia Battaglia.

Uma reportagem – O racismo nas conversas de Reagan e Nixon (aqui).

Um romance – Serotonina, Michel Houellebecq (Alfaguara, 240 págs.).

Conrad no espelho

Talvez Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857–1924), cuja nova edição brasileira acaba de sair pela Ubu (224 págs., tradução de Paulo Schiller), ainda possa ser lido como mero romance de aventura. Afinal, algumas convenções do gênero – a descrição de ambientes exóticos, a narrativa que acumula peripécias – são honradas com brilho em suas páginas.

Mas é difícil não ver nos dilemas da história, inseridos numa prosa ao mesmo tempo rigorosa e exuberante, simbólica e documental, escrita por um autor de origem polonesa no inglês que só mais velho ele dominou por completo, uma tentativa de atingir os céus ingratos da alta ficção.

Ao longo do Século XX, a crítica parece ter entendido o jogo proposto por Conrad. A interpretação mais comum da trama, sobre a viagem de um marinheiro chamado Marlow para encontrar um sujeito chamado Kurtz, funcionário de uma companhia belga de extração de marfim no Congo, é a de uma espécie de testemunho histórico: a denúncia de um sistema de poder – o colonialismo – que torna tênue ou faz desaparecer a fronteira entre civilização e barbárie.

Há trechos em profusão para confirmar a tese. Considerada elusiva, elíptica, a ponto de não nomear nem o Congo e nem a Bélgica, a linguagem de Conrad é direta o suficiente ao descrever a ganância dos europeus na colônia (“a palavra ‘marfim’ ecoava no ar, sussurrada, suspirada […], como o cheiro de um cadáver”) ou na metrópole (um “sepulcro branqueado” com “pessoas correndo pelas ruas para surrupiar um pouco de dinheiro umas das outras”).

Igualmente direto é o diagnóstico sobre a justificação dessa ganância. O que às vezes chega a sínteses do próprio colonialismo: “A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la daqueles que têm uma pele diferente ou o nariz mais achatado que o nosso, não é uma coisa bonita quando vista muito de perto. O que a redime é (…) uma crença desprendida na ideia – alguma coisa que criamos para que diante dela nos curvemos e lhe ofereçamos um sacrifício.”

Por outro lado, a leitura à revelia de supostas intenções do narrador – ou do autor – é parte da fortuna crítica de um clássico. No caso de Conrad, e ao longo das últimas décadas, ela acabou jogando em seu colo uma discussão que faria pouco sentido em 1902. Se a citada definição de colonialismo desconstrói as teses racialistas da virada do Século XIX para o XX, por exemplo, nossa sensibilidade atual não pode deixar de ver em outros trechos o avesso disso – o etnocentrismo de quem considera africanos “selvagens”, repara no “rosto negro insolente” de um ajudante, não vê em nenhum deles um personagem de relevo (e sim “sombras negras de doença e fome, espalhadas confusamente na penumbra esverdeada”). Há racismo no livro?

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/8/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.

Salinger e a pureza americana

Entre 1945 e 1946, o nova-iorquino J.D. Salinger publicou fragmentos do que em 1951 ganharia forma ampliada e final no romance “O Apanhador no Campo de Centeio”. É um período historicamente simbólico: foi a partir do fim da Segunda Guerra, na esteira de um imenso triunfo geopolítico e econômico, que os Estados Unidos consolidaram sua posição de principal referência cultural no imaginário do Ocidente.

A coincidência é indissociável da maneira como foi e é lido esse clássico, que acaba de ser relançado em nova tradução de Caetano W. Galindo (Todavia, 256 págs). Se em boa parte a hegemonia dos valores americanos se fundou na ideia de ordem, em alicerces de uma sociedade rica e no geral estável – a família, a empresa, a religião –, por outro seu culto à liberdade e ao voluntarismo foi um estímulo inevitável à rebeldia.

Trata-se de uma ambivalência característica, bastante presente – por exemplo – no cinema de Hollywood. “O Apanhador” talvez seja a obra literária do Século XX que resumiu melhor esse espírito tendo como parâmetro o conflito de gerações. Uma novidade em 1945-1951, quando a figura do adolescente recém começava a ser vista como sujeito social autônomo: a voz que Salinger deu ao lendário narrador Holden Caulfield, de dezesseis/dezessete anos, com sua rapidez e oralidade irresistíveis, algo por si só contrário à formalidade engessada de qualquer poder em qualquer tempo, fixa premonitoriamente um tipo – aquele que mudaria o mundo (ou um determinado mundo) uma geração depois, durante as revoltas da década de 1960.

Dada a inconfiabilidade desse narrador, porém, é inevitável ver em seu discurso um caráter também ambíguo. No valor de face, as célebres expressões usadas por Caulfield denunciam uma sociedade baseada na opressão e na hipocrisia. Num longo feriado posterior à sua expulsão da escola, entre peripécias para se esconder dos pais, conversas desastradas com ex-professores e encontros amorosos frustrados, ele discorre sobre gente “fajuta” (“phony”) e “cafona” (“corny”), coisas que são “porcaria” (“lousy”) ou “cascata” (“the old bull”).

Já num nível menos imediato, Salinger joga com o que o leitor enxerga por trás do que vai sendo dito. O comovente em Caulfield é quase sempre sua certeza de estar correto, não sua correção real. Uma voz que talvez fale menos dos outros do que da própria inocência, de equívocos embalados em sentimentos de um momento instável – a raiva pela saída da escola, o ciúme de um estudante que atrai a moça em quem ele está interessado, a tristeza pela morte de um irmão.

(Início de texto publicado no Valor Econômico, 5/7/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui)

Fim de semana

Uma nova edição – Coração das Trevas, Joseph Conrad (Ubu, 224 págs.).

Uma fala/leitura – Susan Sontag sobre expressão pessoal e dor (aqui).

Um documentário – DeFalla – Sobre Amanhã, Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento (aqui).

Um filme ok – Rocket Man, Dexter Fletcher

Um disco de covers – California Son, Morrissey.

Fim de semana

Um documentário – Teenage, Matt Wolf.

Um filme inusitado – As Boas Maneiras, Juliana Rojas/Marco Dutra.

Um disco – Anima, Thom Yorke.

Um ensaio fotográfico – Frances F. Denny  e as bruxas (aqui).

Uma releitura – O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger (Todavia, 456 págs.).

O coro do Apocalipse

“Em apenas uma noite (…) demos um salto para uma realidade (…) acima do nosso saber e da nossa imaginação”, escreve a jornalista e prêmio Nobel de literatura Svetlana Aleksiévitch, referindo-se à explosão de um reator nuclear na usina de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986. “Nas altas esferas, decisões eram tomadas (…), os helicópteros subiam aos céus, uma enorme quantidade de caminhões militares se deslocava pelas estradas; embaixo, esperavam-se as ordens e (…) vivia-se de rumores, mas todos guardavam silêncio sobre o principal: o que de fato havia acontecido?”

A pergunta resume duas dificuldades que o acidente impôs à memória de quem sobreviveu. A primeira foi que, dada a censura imposta pelo governo soviético, que então controlava a Ucrânia e outras catorze repúblicas, demorou-se muito a ter informações confiáveis sobre o tamanho físico e simbólico do estrago. Chernobyl não foi apenas um dos maiores desastres do Século XX – também foi o início da queda de um império, a evidência de sua precariedade tecnológica e caos administrativo.

Em termos imediatos, a devastação estabeleceu cadeias de causa e efeito, responsabilidades individuais e difusas que não são estranhas às narrativas de guerras e catástrofes. Chernobyl, a boa série que recentemente fez sucesso no canal HBO, a par das discussões sobre a acuidade de sua reconstituição de época, foca nesse universo político e moral – os embates entre ideologia e conhecimento, o custo humano das grandes ideias diante da inflexibilidade da física, da química, da biologia.

Já Svetlana parece preocupada com outra dimensão. Seu Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 384 págs., tradução de Sonia Branco), que serviu de base para uma parte não creditada da série, dá conta da segunda dificuldade de quem relata o trauma daquele 26 de abril: o fato de que determinadas lembranças se situam ao mesmo tempo abaixo e acima do grande radar da história. Nesse registro impressionista, necessariamente singular, encontra-se a perplexidade do que a autora chamou de “ser humano no cosmo.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/6/2019. Íntegra aqui, para assinantes e cadastrados.

Fim de semana

Um livro – Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 384 págs.).

Uma reportagem – Como os algoritmos fazem os radicais de YouTube (aqui).

Uma exposição – Acervo em Transformação, MASP.

Um documentário sobre John Lennon – Só o Céu como Testemunha, Michael Epstein.

Um (não) documentário sobre Bob Dylan – Rolling Thunder Review, Martin Scorsese.

 

Figuras do desejo

Num texto publicado na revista Serrote, o escritor argentino César Aira define o que considera uma diferença básica entre ensaio e romance. Se no primeiro o tema “vem antes”, e sua escolha é decisiva para extrair o “tom literário” do desenvolvimento e conclusão, no último ele apenas “se revela ao final, como uma figura desenhada pelo que se escreveu (…) independentemente das intenções do autor.”

A síntese é boa para explicar por que tantas ficções parecem nascer inócuas, afogadas na ânsia de afirmar ou contestar determinadas ideias em voga. Com o assunto gritando a cada linha, há pouco espaço para os deslocamentos que, numa articulação particular entre forma (linguagem, arquitetura narrativa) e conteúdo (visão de mundo, sensibilidade), geram os imprevistos de resultado tão típicos da literatura.

O caso da americana Kristen Roupenian é exemplar do problema. Em 2017, ela causou enorme barulho ao publicar o conto “Cat Person” na revista The New Yorker. Imediatamente a editora Scout Press lhe ofereceu um contrato de estimados US$ 1,2 milhão por dois livros. Pelo mundo, incluindo o Brasil, para onde ela vem participar da Flip em julho, leitores se ocuparam em discutir o que o jornal inglês The Guardian chamou de “história que deu origem a mil teorias”.

Trecho do texto publicado no Valor Econômico, 7/6/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um relançamento – A Promessa/A Pane, Friedrich Dürrenmatt (Estação Liberdade, 224 págs.).

Uma série média – O Assassinato de Gianni Versace.

Um filme médio – 22 July, Paul Greengrass.

Um no máximo médio – Lords of Chaos, Jonas Akerlund.

Um documentário – Meet the Night Runners (aqui).

Fim de semana

Um romance – O Inferno dos Outros, David Grossman (Companhia das Letras, 208 págs.).

Uma reportagem – Rebecca Mead e a invasão do Airbnb em Barcelona (aqui).

Um disco – Remind me Tomorrow, Sharon Van Etten.

Um filme – The Mule, Clint Eastwood.

Um documentário – Andre the Giant, Jason Hehir.

Anticorpos contra a má fé

Ainda se faz grande jornalismo por aí, e na essência ele continua o mesmo. O que mudou foi o modo como as notícias são consumidas: na esteira da eleição de Trump, Bolsonaro e seus colegas populistas e autoritários mundo afora, já virou clichê falar da crise da informação diante do reinado da opinião e da propaganda.

É com algum sentido histórico, portanto, que lemos “Repórter”, as memórias do jornalista americano Seymour M. Hersh (Todavia, 384 págs, tradução de Antônio Xerxenesky). Em vários aspectos, trata-se de um documento sobre o que o autor chama de “era de ouro” – pré-redes sociais, em alguns casos pré-onipresença televisiva, quando as mentiras de governos, corporações e outras instâncias de poder eram combatidas com o simples relato dos fatos.

Antes de mais nada, o livro é um depoimento sobre a carpintaria e os dilemas éticos do ofício que tornou esse combate possível. Hersh fala de técnicas de apuração, das relações delicadas com fontes, da busca sempre acidentada por documentos e pessoas que confirmem histórias difíceis. Suas credenciais para a empreitada falam por si: entre outros furos, foi ele que revelou o massacre de civis por soldados em My Lai, durante a guerra do Vietnã, em 1968; a espionagem da CIA contra seus próprios cidadãos, sob a complacência dos governos Johnson e Nixon, nos anos 1960/1970; e as torturas sofridas por prisioneiros em Abu-Ghraib, na sequência da invasão do Iraque, em 2003.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 10/5/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma entrevista – Antunes Filho, 1998 (aqui).

Outra – Paulo Pachá sobre a Idade Média e o bolsonarismo (aqui).

Uma terceira – Henrique Carneiro sobre a história das drogas (aqui).

Um livro – Cat Person, Kristen Roupenian (Companhia das Letras, 256 págs.).

Um Filme – A Noite de Doze Anos, Álvaro Brechner.

Fim de semana

Uma exposição – Regina Parra, Anexo Millan.

Um documentário – Tunga, Miguel de Almeida.

Um relato – Colm Tóibín sobre o câncer (aqui).

Um ensaio – Joca Terron sobre John Frankenheimer e a meia-idade (aqui).

Um livro – Escrever Ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 394 págs.).

Sobre decoro e loucura

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”

Fim de semana

Um livro – Repórter, Seymour Hersh (Todavia, 382 págs.).

Outro – A Morte da Verdade, Michiku Kakutani (Intrínseca, 272 págs.).

Uma entrevista de 1973 – Hannah Arendt (aqui).

Uma de 1999 – Roberto Bolaño (aqui)

Uma exposição – Marc Ferrez, IMS.

A beleza e os ratos

Na época em que começou a escrever História Universal da Infâmia, reunião de falsas biografias de piratas, assassinos e outras figuras aventurescas que viraria um livro de contos em 1935, Jorge Luis Borges (1899–1986) publicava sátiras sobre figuras do mundo das letras de Buenos Aires no jornal Crítica. Os dois registros – a lenda de ação e o humor intelectualizado – parecem diversos, mas podem ser vistos como complementares de um mesmo projeto.

Como é fácil perceber na ficção posterior do autor argentino, há muito de irônico na justaposição frequente de ambos: a mescla entre o fascínio com a guerra, o crime e os duelos de um universo masculino ancestral e um certo enfado com a erudição de narradores (ou personagens) que nunca viverão algo tão solene – antes, estão presos a um jogo de simulacros onde a paródia livresca é o verdadeiro cenário.

O grande tema de Borges, portanto, acaba sendo o das relações entre arte e vida. Algo semelhante dá para dizer de Roberto Bolaño (1953–2003), autor chileno que se viu alçado a estrela da ficção latino americana e mundial só depois de sua morte. A diferença é que o sentido político da abordagem em Borges só aparecia em negativo, digamos. Seus textos foram acusados de esteticismo e alienação, como se refletissem o apoio velado (ou nem tanto) que deu a dois períodos ditatoriais de seu pais (1966–1973 e 1976–1981) sob a justificativa do antiperonismo.

Já Bolaño nunca foi ambíguo nessa área. Numa entrevista a Javier Campos em 2002, ele se diz “contra a poesia dirigida, a poesia do povo, a poesia da palavra de ordem, a poesia do partido”. Mas acrescenta, definindo o tipo de engajamento que marcaria a sua obra: “Acredito que de alguma forma a beleza, a beleza inútil sempre está – e essa é precisamente sua soberania, sua elegância extrema – ao lado dos despossuídos, dos enfermos, dos perdedores.”

Trecho de texto que escrevi para o Valor Econômico, 12/4/2019. Íntegra para assinantes e cadastrados aqui.

Fim de semana

Um disco – Westkust, Westkust.

Uma feira (para ryco) – SP Arte.

Um western – Rastro de Maldade, S. Craig Zahler.

Um filme farofa – The Dirt, Jeff Treimane.

Um livro – A Literatura Nazista na América, Roberto Bolaño (Companhia das Letras, 237 págs.).

Fim de semana

Uma exposição – Paul Klee, CCBB.

Uma reportagem – John Lee Anderson sobre Bolsonaro (aqui).

Um podcast – Paulo Henriques Britto sobre O Corvo (aqui).

Um ensaio – Lorenzo Mammì sobre Renoir, Proust e o nazismo (aqui).

Um filme – Culpa, Gustav Möller.

Fim de semana

Um filme – Imagem e Palavra, Jean-Luc Godard.

Outro – Can You Forgive Me?, Marielle Heller.

Uma série – After Life, Ricky Gervais.

Dois blocos de aço – Richard Serra, IMS.

Um livro – Verifique se o Mesmo, Nuno Ramos (Todavia, 304 págs.).

Os que não foram convidados

Dos anos 1930 aos 1960, o americano Joseph Mitchell renovou o jornalismo moderno ao escrever sobre pessoas comuns – ou bastante incomuns, mas anônimas – em longos perfis para a revista The New Yorker. Seu trabalho mais conhecido, O Segredo de Joe Gould (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), é composto por dois desses perfis. O primeiro, de 1942, trata de um mendigo formado em Harvard que dizia estar escrevendo a “História Oral” da humanidade, livro “onze vezes maior que a Bíblia” sobre “o que o povo tem a declarar sobre seus empregos, amores, comidas, pileques, problemas, tristezas”. No segundo, de 1964, Mitchell retoma os bastidores da reportagem para contar o fato mais importante da vida de Gould, descoberto só depois que a revista havia chegado às bancas.

O projeto da “História Oral”, como se sabe, acabou sendo realizado por outros anônimos do século seguinte: os bilhões de pessoas que passaram a depositar suas intimidades relevantes e irrelevantes nas redes sociais. Já o caminho indicado por Mitchell deu e dá frutos no melhor que o perfil jornalístico ainda tem a oferecer. Um exemplo recente, e curiosamente semelhante no caráter duplo da empreitada – duas grandes reportagens, a última a partir de informações que surgiram por causa da publicação da primeira –, é Ricardo e Vânia, livro de Chico Felitti escrito a partir de uma apuração em conjunto com sua mãe, Isabel Dias, e que acaba de sair pela Todavia.

Não se trata de uma comparação de estilo. O Segredo de Joe Gould e Ricardo e Vânia são textos de épocas diversas, com noções de originalidade e impacto literário diversas diante de públicos também diversos. Mitchell podia se dar ao luxo da lentidão, digamos assim, pois contava com um leitor disposto a destrinchar com paciência as sutilezas de sua prosa – o ritmo elegante que alterna descrições sumárias e detalhadas, drama contido e humor terno, punch lines espirituosos e longas aspas (hoje fora de uso porque soam inverossímeis) dos entrevistados. Felitti, por sua vez, escreve com mais urgência: há todo um diálogo entre a economia de atenção dos nossos dias e a quebra de seus parágrafos, por exemplo, cuja frequência alta torna a respiração do texto mais curta, familiar a um mundo em que a não-ficção precisa ser mais objetiva, ou gritar mais nas escolhas temáticas e de ponto de vista, para se destacar da infinita concorrência de narrativas ao redor.

Num nível menos formal, contudo, o que os dois livros têm em comum começa pelo respeito ao material humano que os compõe, algo visível no tempo que os autores dedicam a ouvir, fazer visitas, ir atrás de informações que parecem (e não são) meros detalhes. Há um sentido político nesse método, o de dar aos personagens a melhor chance de serem o que a pintora Sarah Berman enxergou em Joe Gould: uma espécie de “inconsciente” das sociedades que os abrigam a contragosto, a voz através da qual falam os que “nunca pertenceram a lugar nenhum”, os “magoados, amargos, loucos – gente que nunca recebeu seu quinhão (…), que nunca foi convidada.”

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 15/3/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.

Um par de botas com cravos

W.G. Sebald em Os Emigrantes (Record, 236 págs., tradução de Lya Luft):

“No fim do período escolar, quando tirei a melhor nota de minha turma nos exames finais, parecia ter percorrido um trajeto imenso. Tinha chegado ao auge da autoestima e, como numa espécie de segunda confirmação, mudei meu nome de Hersch para Henry e o sobrenome de Seweryn para Selwyn. Singularmente, logo no começo de meus estudos de medicina, feitos em Cambridge mais uma vez com bolsa, senti que minha capacidade de estudar diminuíra sensivelmente, embora também em Cambridge meus exames tivessem obtido as melhores notas. O senhor já sabe como tudo continuou, disse o dr. Selwyn. Veio o ano na Suíça, a guerra, o primeiro ano de trabalho na Índia e o casamento com Heidi, a quem por muito tempo ainda escondi minha origem. Nos anos vinte e trinta vivemos em grande estilo, do qual o senhor viu o que restou. Gastamos nisso boa parte da fortuna dela. Eu trabalhava em meu consultório na cidade e como cirurgião no hospital, mas os meus ganhos não teriam permitido aquele padrão de vida. Nos meses de verão fazíamos passeios de carro pela Europa toda. Next to tennis, disse o dr. Selwyn, motoring was my greatest passion in those days. Todos os carros ainda continuam nas garagens e talvez valham algum dinheiro. Mas nunca consegui vender nada, except perhaps, at one point, my soul (…). Não cheguei sequer a providenciar uma aposentadoria para minha velhice. This is why I am now almost a pauper. Em compensação, Heidi administrou bem o resto de sua fortuna, nada desprezível, e hoje é com certeza uma mulher rica. Ainda não sei direito o que nos separou, o dinheiro ou o segredo de minha origem que ela finalmente descobriu, ou simplesmente o arrefecimento do amor. Os anos da Segunda Guerra e as décadas subsequentes foram para mim um tempo sem sentido e ruim, sobre o qual, mesmo que quisesse, nada teria a contar. Quando em 1960 tive de fechar meu consultório e despachar meus clientes, desfiz os últimos contatos com o chamado mundo real. Desde então quase só falo com plantas e animais. De algum modo me dou bem com eles, disse o dr. Selwyn com um sorriso meio enigmático. Finalizando o discurso, levantou-se e, o que foi altamente inusitado, ofereceu a mão em despedida.

Depois dessa visita o dr. Selwyn nos procurou cada vez menos e a intervalos cada vez maiores. Nós o vimos pela última vez no dia em que trouxe para Clara um ramo de rosas brancas com madressilvas, pouco antes de partirmos de férias para a França. Algumas semanas depois, no fim do verão, ele se matou com uma bala de sua pesada espingarda de caça. Como ficamos sabendo em nosso regresso, ele se sentara na beira da cama, botara a arma entre as pernas, pousara o queixo na ponta do cano e em seguida, pela primeira vez desde que comprara a arma antes de viajar para a Índia, disparara um tiro com intenção de matar. Quando recebemos a notícia não me foi difícil vencer o horror inicial. Mas, cada vez entendo melhor, certas coisas têm um jeito inesperado de retornar, muitas vezes depois de longo tempo ausentes. Pelo fim de julho de 1986 passei alguns dias na Suíça. Na manhã do dia 23 fui de trem de Zurique a Lausanne. Quando o trem cruzou lentamente a ponte do Aare, entrando em Berna, meu olhar viajou da cidade à cadeia de montanhas. Se não estou apenas imaginando agora, lembrei-me do dr. Selwyn nessa ocasião pela primeira vez depois de muito tempo. Quarenta e cinco minutos depois, para não perder a visão daquela magnífica paisagem do lago de Genebra, já ia deixando de lado um jornal de Lausanne, comprado em Zurique, que estivera folheando, quando uma notícia chamou minha atenção: dizia que os restos mortais do guia de montanhas Johannes Naegelli, desaparecido desde o verão de 1914, tinha sido devolvido depois de 72 anos pela geleira de Oberaar. Assim, pois, retornam os mortos. Às vezes depois de mais de sete décadas eles saem do gelo e ficam deitados na beira da morena, um montinho de ossos polidos e um par de botas com cravos.”

Fim de semana

Uma releitura – O Segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (Companhia das Letras, 158 págs.)

Um filme ruim – The Green Book, Peter Farrelly.

Outro – Velvet Buzzshow, Dan Gilroy.

Um disco – Crushing, Julia Jacklin.

Um podcast de 2018 – João Silvério Trevisan e a história LGBTQ no Brasil (aqui).

Um anel no chão do cinema

Isabela Figueiredo em Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 184 págs.), sobre a infância como filha de um eletricista português em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique:

“A enorme sala do Cine Machava dividia-se em três zonas bem definidas: bancos corridos de pau, à frente: primeira plateia; bancos individuais estofados, até ao fundo: segunda plateia; empoleirados metro e meio acima da última fila da segunda plateia, os camarotes, todos forrados a veludo vermelho, luxo dos luxos, só ocupados quando o filme era mesmo muito popular e a afluência o exigia. Filmes como O fado, A maluquinha de arroios. Cantinflas, Jerry Lewis e Trinitá enchiam camarotes.

Alguns negros iam ao cinema. Calçavam -se e vestiam roupa europeia remendada ou de imitação, costurada no caniço. Sentavam -se na primeira plateia, e, eventualmente, em dias pouco frequentados, na primeira fila da segunda plateia.

Não estava escrito em lado algum que os negros não tinham acesso normal à plateia ou ao balcão, mas raramente os vi ocupar essas zonas. Havia um entendimento tácito, não um acordo: os negros sabiam que lhes cabia sentarem-se à frente, nos bancos de pau: os brancos esperavam que a pretalhada se juntasse aí, a falar aquela língua deles, olhando para trás a cobiçar a mulher do branco, mas devidamente sentados no banco que lhes pertencia.

Para os brancos, um preto, lá da primeira plateia, nunca olhava para trás por bons motivos. Ou lançava o amarelo do olho contranatura às brancas, ou procurava o que roubar, ou destilava ódio. De forma geral, no cinema ou fora dele, o olhar dos negros nunca foi, para os colonos, inocente: olhar um branco, de frente, era provocação; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.

(…)

Ao domingo à tarde íamos ao cinema. Eu levava um anel. Não gostava de anéis.

Os lugares da segunda plateia do Cine Machava assentavam sobre um plano inclinado. Tudo o que caía rolava até à primeira plateia, e ninguém lá iria sem propósito; era o lugar dos pretos.

Eu teria sete anos. Usava aquele anel. Detestava -o. Apertava-me os dedos e eu não gostava de cadeias.

Pensei em ver-me livre da horrível joia, e ocorreu-me uma ideia infalível, que executei na primeira oportunidade. No cinema, na escuridão, a meio do filme, num momento de maior barulho da trama em curso, maior suspense, tirei o anel do dedo e lancei-o, com o possível impulso, por debaixo dos cadeirões, para que rolasse, inapelavelmente, até à primeira plateia, e desaparecesse, para sempre, nas mãos dos negros, que haviam de lhe chamar um figo.

Num domingo, fi-lo, e respirei de alívio. Adeus, anel. Adeus, suplício. Adeus para sempre. Respirei fundo. Ajeitei-me na cadeira. Havia de dizer que o tinha perdido, que me estava largo, que me tinha caído do dedo sem notar. E depois, nada a fazer. Um anel era caro. Realmente. Mas, paciência. Eu era tão distraída! Sempre a mesma. Sem tino algum.

Nesse domingo comi um Quibom no intervalo. Estava contente. Ninguém reparou que já não tinha o anel.

Nesse dia, já terminava o intervalo, quando uma cena deveras invulgar prendeu a atenção da segunda plateia: um negro tinha saído do seu lugar, lá à frente, e avançava pelo corredor lateral esquerdo, perguntando algo, de fila em fila. O que queria o gajo? Andava a pedir dinheiro, de certeza. E, quando chegasse à nossa fila, ninguém lhe ia dar nada, já se sabia. Que trabalhasse. Não se dava dinheiro a negros, a menos que trabalhassem, e o que se desse seria pouco, para não se acostumarem mal. Quando chegou à nossa fila, pudemos distinguir -lhe, entre o polegar e o indicador direitos, um minúsculo anel dourado com uma pedra vermelha, enquanto perguntava, ‘Este anel é daqui?’.

Olharam para mim sem compreender, enquanto me esforçava por me enterrar na cadeira, desaparecer.

A minha mãe ainda guarda esse anel, em casa, na caixa dos ouros.”

Com o chicote da linguagem

Numa passagem de À Sombra dos Viadutos em Flor, seu livro de memórias recém-publicado (Sesi–SP, 143 págs.), o escritor, jornalista e músico Cadão Volpato narra uma conversa com um colega de trabalho que estava lendo A Menina Morta, de Cornélio Pena. “É um romance moderno”, o colega diz. “Nada acontece”. No que Cadão complementa, sem aspas, talvez se referindo à vida naquele início dos anos 1980, agora para o leitor de hoje: “E nada acontecia”.

A princípio, parece haver algo de errado na frase. Não dá para dizer que “nada acontecia” no período que mais ou menos coincide com a fundação do Fellini, uma banda independente e cultuada de São Paulo que tinha, além do próprio Cadão nos vocais, o baixista Ricardo Salvagni e os guitarristas Jair Marcos e Thomas Pappon. Era o início da redemocratização, com sua efervescência cultural e política tanto nos fatos públicos – da bomba no Riocentro à campanha das Diretas Já, do ocaso da censura ao boom da nova geração do rock – quanto nas expectativas, na imagem que o Brasil projetava para o próprio futuro social e institucional.

Mas essa estranheza é uma das qualidades do livro. Cadão não está falando apenas de um período histórico, nem apenas de uma banda de rock, nem apenas de um país. Toda boa autobiografia preserva a individualidade possível diante do que é mero contexto, ou mero clichê: o espírito do tempo sempre pronto para deformar a memória com imposições temáticas, ideológicas ou morais. Numa época em que o factual básico do passado está disponível online – há conteúdo interminável sobre a cultura brasileira dos 1980 no You Tube, por exemplo –, é preciso superar o pleonasmo de evocar um imaginário já bastante comum.

Trata-se de uma lição proustiana, a seu modo, que Cadão aproveita desde o título (uma brincadeira com À Sombra das Raparigas em Flor). Se a linguagem é naturalmente restrita ao evocar lembranças sensoriais e abstratas, que seja capaz de criar um objeto novo, cuja beleza também é nova. Sob as normas dessa reinvenção dá para dizer, sim, que o início da chamada década perdida foi tedioso – porque importa é a inquietude do autor diante do tédio, algo de sua personalidade e temperamento que não passa apenas por gatilhos externos. À diferença do que costumamos ver em histórias de roqueiros, nas quais o passado é sempre cheio de aventura e excessos, gerando anedotas divertidas sobre protagonistas e coadjuvantes então ou posteriormente famosos, o material de Cadão é menos direto, mais difícil de classificar.

Trecho inicial da minha coluna de estreia no Valor Econômico. Escreverei mensalmente sobre livros no caderno Eu&, que circula aos fins de semana. Íntegra do texto aqui, para quem é assinante ou fizer o cadastro.