Michel Laub

Categoria: Livros

Sonhos, imaginação, futuro

Qual a função de um sonho? Para chefes militares do passado, podia ser escolher estratégias de batalha. Para Kekulé, foi visualizar a estrutura do benzeno. Para Elias Howe, perceber que uma pequena mudança no uso da agulha permitiria inventar a máquina de costura. Para Paul McCartney, ouvir pela primeira vez os acordes de Yesterday.

Em O Oráculo da Noite (Companhia das Letras, 459 págs.), Sidarta Ribeiro conta essas e outras histórias dentro de uma grande história científica e cultural do que acontece quando estamos de olhos fechados, esse “modo de consciência off-line” que estaria na origem – por exemplo – da criação dos deuses e da religião.

Escrito por um dos cientistas brasileiros de maior prestígio hoje, trata-se de um apanhado longo e erudito que passa por diferentes épocas e culturas, dos primeiros mamíferos aos ocidentais pós-neurociência, dos sumérios, egípcios e babilônios aos ciborgues da era da informática, usando a experiência pessoal na pesquisa de ponta e ferramentas de áreas como biologia, antropologia, psicanálise e literatura.

O oráculo do título tem pouco de esotérico. Sidarta relaciona mecanismos de fixação e reestruturação da memória – que ocorrem em fases diferentes do sono – com aspectos importantes de nossa evolução como espécie. Enredos oníricos, remetam eles a episódios que ocorreram de fato ou a sentidos que parecem incoerentes, funcionariam como simulações preparatórias para situações que enfrentaremos acordados. Ou seja, uma mistura de consolidação do conhecimento e, se o sonho certo conseguir ser interpretado do modo certo, profecia que interfere no futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8/11/2019, sobre os livros O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, e Sapiens, de Yuval Noah Harari. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição no IMS – Harun Farocki.

Outra – Susan Meiselas.

Um filme – Divertida Mente, Pete Docter.

Uma remontagem – Os Sete Afluentes do Rio Ota, Monique Gardenberg.

Um romance – A Morte e o Meteoro, Joca Reiners Terron (Todavia, 120 págs.).

Fim de semana

Um livro – O Oráculo da Noite, Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras, 460 págs.).

Um filme – Meu Nome é Dolemite, Craig Brewer.

Um filme ok – A Lavanderia, Steven Soderbergh.

Uma exposição – Cildo Meirelles, Sesc Pompeia.

Um disco – Ode to Joy, Wilco.

O máximo possível

Nos anos 1950, em São Paulo, numa das muitas jogadas para a torcida que seriam típicas de sua trajetória, o então prefeito Jânio Quadros considerou prioritário ressuscitar uma norma infame dos anos 1930: a que exigia de atores e atrizes uma certa carteira da Segurança Pública, emitida por autoridades para registrar e controlar prostitutas e outros tipos considerados perigosos.

Uma das profissionais que usaram o documento foi Fernanda Montenegro. O que torna a história ainda mais bizarra: nas memórias recém-lançadas da atriz (Prólogo, Ato, Epílogo, Companhia das Letras, 342 págs., em colaboração com Marta Góes), poucas coisas são tão louvadas quanto o sentimento comunitário, familiar, e sua consequente ética do trabalho.

Neta de imigrantes portugueses e italianos muito pobres, filha de um operário técnico especializado e uma dona de casa, Fernanda saiu dos subúrbios do Rio para o estrelato no teatro, no cinema e na TV sem jamais desmentir – na postura pública ou, atestam os que a conhecem, na privada – as bases dessa ética: “Sou pragmática, faço o que tiver que fazer (…). Se o resultado for bom, ótimo, se não for, segue a vida.”

A pertinência do livro começa por aí. Em cada linha se dissolve a ideia filistina, e tão típica de nossa época, de artistas como figuras preguiçosas penduradas em mamatas de governo, esteticismos tolos ou conspirações ideológicas/pervertidas. Em algum momento dos últimos anos a arte, de maneira torta, voltou a ser relevante nessa guerra cultural regressiva – com batalhas envolvendo nudez em museus, beijo gay em gibis e outros espantalhos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 25/10/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – All Mirrors, Angel Olsen.

Um vídeo – Nando Reis sobre seus violões (aqui).

Um filme – A vida Invisível, Karim Ainouz.

Um filme de 2017 – First Reformed, Paul Schrader.

Um ensaio – Zadie Smith e uma defesa da ficção (aqui).

Fim de semana

Um filme – Joker, Todd Philips.

Outro – Midsommar, Ari Aster.

Um disco – Two Hands, Big Thief.

Um livro – Prólogo, Ato, Epílogo, Fernanda Montenegro (Companhia das Letras, 342 págs.).

Uma série – Sintonia.

‘Morangos Mofados’, 2019

Quando Caio Fernando Abreu (1948-1996) lançou Morangos Mofados, em 1982, não havia como dissociar o livro do momento vivido pelo país. Em plena transição entre a Anistia de 1979 e o fim formal da ditadura em 1985, era natural que a recepção crítica fosse pautada pelo viés histórico/político. Como se o tom em geral amargo desses 19 contos, que acabam de ganhar nova edição (Companhia das Letras, 188 págs.), refletisse diretamente os tempos duros em que eles foram concebidos.

A leitura não estava errada, mas não era suficiente. Como então notou Heloísa Buarque de Holanda, o autor havia feito um retrato mais íntimo, e ao mesmo tempo mais amplo, de uma experiência de geração que não estava restrita ao grande tabuleiro do poder institucional: “Ao contrário da maioria dos relatos recentes sobre a opção guerrilheira, cuja palavra de ordem é a autocrítica irônica, e que apresentam, às vezes até didaticamente, novos e seguros rumos (…), [o livro] não deixa de revelar uma enorme perplexidade diante da falência de um sonho.”

Dividido em dois grandes blocos, o primeiro bastante pessimista, o segundo com acenos discretos a possibilidades de futuro para os personagens, Morangos Mofados é e não é um documento de época (…). Em Os Sobreviventes, talvez o melhor conto do livro, ou ao menos o mais simbólico, uma personagem reflete sobre o que é abandonar “Marcuse, depois Reich, depois Castanheda”, o culto então já obsoleto à Paris de Sartre nos 1950, à psicodelia na Londres dos 1960, ao hedonismo na Nova York dos 1970. O tom é de algum modo oitentista, na voz de quem tentou de “drogas acupuntura suicídio” a “marxismo candomblé boate gay ecologia”, mas a sensação de queda por trás de tudo não datou: no geral, ainda é possível que isso toque o leitor jovem que tem o primeiro contato com a ficção de Caio. Há vários motivos para tanto.

(Trecho condensado de artigo publicado no Valor Econômico, 11/10/2019. Íntegra aqui).

Sono versus bombardeio

“Não consigo reconhecer nada que justifique minha decisão”, diz a narradora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento, terceiro romance da americana Ottessa Moshfegh (Todavia, 238 págs., tradução de Juliana Cunha), sobre os meses em que se entupiu de remédios para dormir quase vinte e quatro horas por dia. “No começo, eu só queria uns tranquilizantes para abafar meus pensamentos e juízos, já que o bombardeio constante tornava difícil a tarefa de não odiar a tudo e a todos.”

Culta, inteligente e bonita, vivendo de uma herança em meio ao esplendor nova-iorquino da virada do milênio, essa mulher de vinte e sete anos que dá as costas para o trabalho numa galeria de arte e as relações afetivas próximas não é, a princípio, uma personagem a ser gostada. Sua escolha por uma hibernação química que parece um fim em si mesmo, e não um caminho reflexivo, o que seria esperado numa jornada sabática para melhora espiritual (ou de saúde, ou de outro aspecto visto como nobre pela ortodoxia do nosso tempo), soa como mero capricho bem-nascido.

Mas claro que há um truque no discurso. A justificativa busca a cumplicidade de um leitor que, como qualquer pessoa sã a par do noticiário em 2000 ou 2019, também se sente esmagado pelo “bombardeio” – de informação, de estímulo, das cobranças pessoais e profissionais típicas do nosso século. O ideal de escape alienado, que a ideia do sono representa bem, é um tema relativamente comum no mercado contemporâneo dos desejos.

Ou seja, trata-se de um romance concebido para fazer o leitor alternar entre distanciamento e proximidade – entre a repulsa, dadas as várias atitudes condenáveis da protagonista, e uma certa admiração por sua coragem e desprendimento. Num presente que se repete entre lembranças de um passado sem lições a seguir, ela espelha/enfrenta tipos que são faces diversas do mesmo vazio: Reva, a amiga bulímica presa a noções vulgares de beleza; Trevor, o ex-namorado propenso a abusar e ser abusado; Tattle, a terapeuta sarcástica, irresponsável e incapaz de gestos de empatia.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/10/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um show – Vitor Ramil + Angélica Freitas.

Um disco – i,i, Bom Iver.

Um filme – Rainha de Copas, May el-Toukhy.

Um filme anacrônico – Yesterday, Danny Boyle.

Um livro de poesia – As Durações da Casa, Julia de Sousa (7 Letras, 80 págs.).

Fim de semana

Uma exposição – Alfons Mucha, Fiesp.

Um disco – Free, Iggy Pop.

Um espetáculo bem Zé Celso – Roda Viva.

Um livrinho – A Doença e o Tempo, Eduardo Jardim (Bazar do Tempo, 80 págs.).

Um documentário longo – Frank Sinatra, All or Nothing at All.

A escuridão

A Segunda Vinda, de W.B. Yeats, tradução de Paulo Vizioli (Em Poemas, Companhia das Letras, 160 págs.)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?

 

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

Sutileza e grito

O que um romance político pode oferecer num país tão saturado de narrativas políticas? Há várias maneiras de enfrentar o problema, com suas óbvias gradações de intensidade e resultados. Uma delas é a aposta no discurso enviesado, mais estético do que sociológico, em que nas frestas de uma história individual enxergamos relances do que somos coletivamente.

É o caso de Cancún, estreia no gênero do carioca Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 166 págs.). Enquanto lida com a gravidez da mulher e a morte do pai, figura misteriosa envolvida com lavagem de dinheiro na cidade que dá título ao livro, um protagonista por volta de 30 anos rememora a juventude de classe média alta no Rio dos anos 1990: a rotina na escola, a inadequação da puberdade, a experiência com um grupo de estudantes que frequentava uma igreja evangélica.

Com eventuais traços autobiográficos, o livro junta pontas dramáticas diversas sob um único guarda-chuva: o de uma história de fragilidade masculina, de busca por uma afirmação acidentada que tem ressonâncias não apenas internas, relativas ao personagem. É nesse ponto que surge a política, apenas sem engajamento literal. Na realidade da ficção, e no modo como ela espelha a realidade aqui de fora, iluminam-se mecanismos de pertencimento social – via instituições como igreja e família – com nuances mais delicadas do que sugeririam acusações diretas de classe e gênero.

Se Cancún procura a sutileza, Marrom e Amarelo (Alfaguara, 168 páginas) é um soco no leitor. Décimo terceiro título do gaúcho Paulo Scott, seu enredo usa um expediente cronológico semelhante ao de Castillo: partir de um gatilho ocorrido na vida adulta do narrador – a prisão de sua sobrinha num protesto de estudantes – para revisitar um passado incômodo. No caso, o de um sujeito visto como branco enquanto era criado ao lado do irmão negro na Porto Alegre dos anos 1980.

Diferentemente de Cancún, em Marrom e Amarelo a política tem expressão ficcional aberta. Scott faz com que ela grite na trama, como elemento constante e corrosivo das relações íntimas e públicas. Seu narrador é um antigo militante de esquerda que integra a comissão de um governo distópico encarregada de discutir as cotas raciais no país. Os debates burocráticos/idealistas/equivocados de Brasília contrastam com a violência simbólica e real que o personagem sempre enxergou – e continuará enxergando quando, ao tentar ajudar a sobrinha, mais uma vez constatar a simbiose entre a discriminação no dia-a-dia da sociedade e a discriminação oficial de polícia e justiça.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13/9/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – a autobiografia de Prince (aqui).

Uma conversa – Sidarta Ribeiro e Bruno Torturra (aqui)

Um disco pop – Norman Fucking Rockwell, Lana Del Rey.

Uma edição – Francisco Alvim, 80 anos (Quelônio, 30 págs.).

Um romance – Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Otessa Moshfegh (Todavia, 240 págs.).

Fim de semana

Um filme – Era uma Vez em Hollywood, Quentin Tarantino.

Um filme com questões – Bacurau, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

Uma exposição no MAR/Rio – Rosana Paulino.

Outra – O Rio dos Navegantes.

Um livro – Cancún, Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 168 págs.).

O fim do desejo

“Eu ainda não tinha visto um romance mostrar que entrar no mundo do trabalho é como ir para a cova”, disse Michel Houellebecq numa entrevista à Paris Review, comentando o que o levou a escrever ficção. “Nem que há pessoas com e sem vida sexual não por razões morais, e sim porque umas são mais atraentes que as outras”.

A lacuna começaria a ser preenchida, claro, com Extensão do Domínio da Luta, estreia literária dessa figura francesa controversa, em 1994. À parte o exagero da entrevista – sempre houve livros sobre frustrações profissionais e amorosas de todo tipo –, é inegável que sua obra criou um elo original entre o tema fundador – as variações de um grande impasse do desejo – e todo um contexto político, econômico e cultural.

O arranjo está de novo presente em Serotonina, que acaba de sair no Brasil (Alfaguara, 240 páginas, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman). Na história de Florent-Claude Labrouste, engenheiro agrônomo que viaja por Espanha e França em busca de alento para o que vê como fim de linha existencial, ouvimos ecos de um outro fim – a apatia europeia, e especialmente branca, masculina, de classe média e meia idade, diante de crises como as do humanismo e do Estado de bem-estar social firmados a partir do pós-guerra.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 16/8/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Mulheres no Masp.

Um filme médio – Hotel Mumbai, Anthony Maras.

Uma série – Bandidos na TV.

Uma reportagem – Marie Declercq sobre os incels brasileiros (aqui).

Um romance – Marrom e Amarelo, Paulo Scott (Alfaguara, 158 págs.).

Fim de semana

Um depoimento – Arthur Nestrovski sobre João Gilberto (aqui).

Uma exposição no IMS – Sergio Larrain

Outra – Letizia Battaglia.

Uma reportagem – O racismo nas conversas de Reagan e Nixon (aqui).

Um romance – Serotonina, Michel Houellebecq (Alfaguara, 240 págs.).

Conrad no espelho

Talvez Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857–1924), cuja nova edição brasileira acaba de sair pela Ubu (224 págs., tradução de Paulo Schiller), ainda possa ser lido como mero romance de aventura. Afinal, algumas convenções do gênero – a descrição de ambientes exóticos, a narrativa que acumula peripécias – são honradas com brilho em suas páginas.

Mas é difícil não ver nos dilemas da história, inseridos numa prosa ao mesmo tempo rigorosa e exuberante, simbólica e documental, escrita por um autor de origem polonesa no inglês que só mais velho ele dominou por completo, uma tentativa de atingir os céus ingratos da alta ficção.

Ao longo do Século XX, a crítica parece ter entendido o jogo proposto por Conrad. A interpretação mais comum da trama, sobre a viagem de um marinheiro chamado Marlow para encontrar um sujeito chamado Kurtz, funcionário de uma companhia belga de extração de marfim no Congo, é a de uma espécie de testemunho histórico: a denúncia de um sistema de poder – o colonialismo – que torna tênue ou faz desaparecer a fronteira entre civilização e barbárie.

Há trechos em profusão para confirmar a tese. Considerada elusiva, elíptica, a ponto de não nomear nem o Congo e nem a Bélgica, a linguagem de Conrad é direta o suficiente ao descrever a ganância dos europeus na colônia (“a palavra ‘marfim’ ecoava no ar, sussurrada, suspirada […], como o cheiro de um cadáver”) ou na metrópole (um “sepulcro branqueado” com “pessoas correndo pelas ruas para surrupiar um pouco de dinheiro umas das outras”).

Igualmente direto é o diagnóstico sobre a justificação dessa ganância. O que às vezes chega a sínteses do próprio colonialismo: “A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la daqueles que têm uma pele diferente ou o nariz mais achatado que o nosso, não é uma coisa bonita quando vista muito de perto. O que a redime é (…) uma crença desprendida na ideia – alguma coisa que criamos para que diante dela nos curvemos e lhe ofereçamos um sacrifício.”

Por outro lado, a leitura à revelia de supostas intenções do narrador – ou do autor – é parte da fortuna crítica de um clássico. No caso de Conrad, e ao longo das últimas décadas, ela acabou jogando em seu colo uma discussão que faria pouco sentido em 1902. Se a citada definição de colonialismo desconstrói as teses racialistas da virada do Século XIX para o XX, por exemplo, nossa sensibilidade atual não pode deixar de ver em outros trechos o avesso disso – o etnocentrismo de quem considera africanos “selvagens”, repara no “rosto negro insolente” de um ajudante, não vê em nenhum deles um personagem de relevo (e sim “sombras negras de doença e fome, espalhadas confusamente na penumbra esverdeada”). Há racismo no livro?

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/8/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.

Salinger e a pureza americana

Entre 1945 e 1946, o nova-iorquino J.D. Salinger publicou fragmentos do que em 1951 ganharia forma ampliada e final no romance “O Apanhador no Campo de Centeio”. É um período historicamente simbólico: foi a partir do fim da Segunda Guerra, na esteira de um imenso triunfo geopolítico e econômico, que os Estados Unidos consolidaram sua posição de principal referência cultural no imaginário do Ocidente.

A coincidência é indissociável da maneira como foi e é lido esse clássico, que acaba de ser relançado em nova tradução de Caetano W. Galindo (Todavia, 256 págs). Se em boa parte a hegemonia dos valores americanos se fundou na ideia de ordem, em alicerces de uma sociedade rica e no geral estável – a família, a empresa, a religião –, por outro seu culto à liberdade e ao voluntarismo foi um estímulo inevitável à rebeldia.

Trata-se de uma ambivalência característica, bastante presente – por exemplo – no cinema de Hollywood. “O Apanhador” talvez seja a obra literária do Século XX que resumiu melhor esse espírito tendo como parâmetro o conflito de gerações. Uma novidade em 1945-1951, quando a figura do adolescente recém começava a ser vista como sujeito social autônomo: a voz que Salinger deu ao lendário narrador Holden Caulfield, de dezesseis/dezessete anos, com sua rapidez e oralidade irresistíveis, algo por si só contrário à formalidade engessada de qualquer poder em qualquer tempo, fixa premonitoriamente um tipo – aquele que mudaria o mundo (ou um determinado mundo) uma geração depois, durante as revoltas da década de 1960.

Dada a inconfiabilidade desse narrador, porém, é inevitável ver em seu discurso um caráter também ambíguo. No valor de face, as célebres expressões usadas por Caulfield denunciam uma sociedade baseada na opressão e na hipocrisia. Num longo feriado posterior à sua expulsão da escola, entre peripécias para se esconder dos pais, conversas desastradas com ex-professores e encontros amorosos frustrados, ele discorre sobre gente “fajuta” (“phony”) e “cafona” (“corny”), coisas que são “porcaria” (“lousy”) ou “cascata” (“the old bull”).

Já num nível menos imediato, Salinger joga com o que o leitor enxerga por trás do que vai sendo dito. O comovente em Caulfield é quase sempre sua certeza de estar correto, não sua correção real. Uma voz que talvez fale menos dos outros do que da própria inocência, de equívocos embalados em sentimentos de um momento instável – a raiva pela saída da escola, o ciúme de um estudante que atrai a moça em quem ele está interessado, a tristeza pela morte de um irmão.

(Início de texto publicado no Valor Econômico, 5/7/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui)

Fim de semana

Uma nova edição – Coração das Trevas, Joseph Conrad (Ubu, 224 págs.).

Uma fala/leitura – Susan Sontag sobre expressão pessoal e dor (aqui).

Um documentário – DeFalla – Sobre Amanhã, Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento (aqui).

Um filme ok – Rocket Man, Dexter Fletcher

Um disco de covers – California Son, Morrissey.

Fim de semana

Um documentário – Teenage, Matt Wolf.

Um filme inusitado – As Boas Maneiras, Juliana Rojas/Marco Dutra.

Um disco – Anima, Thom Yorke.

Um ensaio fotográfico – Frances F. Denny  e as bruxas (aqui).

Uma releitura – O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger (Todavia, 456 págs.).

O coro do Apocalipse

“Em apenas uma noite (…) demos um salto para uma realidade (…) acima do nosso saber e da nossa imaginação”, escreve a jornalista e prêmio Nobel de literatura Svetlana Aleksiévitch, referindo-se à explosão de um reator nuclear na usina de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986. “Nas altas esferas, decisões eram tomadas (…), os helicópteros subiam aos céus, uma enorme quantidade de caminhões militares se deslocava pelas estradas; embaixo, esperavam-se as ordens e (…) vivia-se de rumores, mas todos guardavam silêncio sobre o principal: o que de fato havia acontecido?”

A pergunta resume duas dificuldades que o acidente impôs à memória de quem sobreviveu. A primeira foi que, dada a censura imposta pelo governo soviético, que então controlava a Ucrânia e outras catorze repúblicas, demorou-se muito a ter informações confiáveis sobre o tamanho físico e simbólico do estrago. Chernobyl não foi apenas um dos maiores desastres do Século XX – também foi o início da queda de um império, a evidência de sua precariedade tecnológica e caos administrativo.

Em termos imediatos, a devastação estabeleceu cadeias de causa e efeito, responsabilidades individuais e difusas que não são estranhas às narrativas de guerras e catástrofes. Chernobyl, a boa série que recentemente fez sucesso no canal HBO, a par das discussões sobre a acuidade de sua reconstituição de época, foca nesse universo político e moral – os embates entre ideologia e conhecimento, o custo humano das grandes ideias diante da inflexibilidade da física, da química, da biologia.

Já Svetlana parece preocupada com outra dimensão. Seu Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras, 384 págs., tradução de Sonia Branco), que serviu de base para uma parte não creditada da série, dá conta da segunda dificuldade de quem relata o trauma daquele 26 de abril: o fato de que determinadas lembranças se situam ao mesmo tempo abaixo e acima do grande radar da história. Nesse registro impressionista, necessariamente singular, encontra-se a perplexidade do que a autora chamou de “ser humano no cosmo.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/6/2019. Íntegra aqui, para assinantes e cadastrados.

Fim de semana

Um livro – Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 384 págs.).

Uma reportagem – Como os algoritmos fazem os radicais de YouTube (aqui).

Uma exposição – Acervo em Transformação, MASP.

Um documentário sobre John Lennon – Só o Céu como Testemunha, Michael Epstein.

Um (não) documentário sobre Bob Dylan – Rolling Thunder Review, Martin Scorsese.

 

Figuras do desejo

Num texto publicado na revista Serrote, o escritor argentino César Aira define o que considera uma diferença básica entre ensaio e romance. Se no primeiro o tema “vem antes”, e sua escolha é decisiva para extrair o “tom literário” do desenvolvimento e conclusão, no último ele apenas “se revela ao final, como uma figura desenhada pelo que se escreveu (…) independentemente das intenções do autor.”

A síntese é boa para explicar por que tantas ficções parecem nascer inócuas, afogadas na ânsia de afirmar ou contestar determinadas ideias em voga. Com o assunto gritando a cada linha, há pouco espaço para os deslocamentos que, numa articulação particular entre forma (linguagem, arquitetura narrativa) e conteúdo (visão de mundo, sensibilidade), geram os imprevistos de resultado tão típicos da literatura.

O caso da americana Kristen Roupenian é exemplar do problema. Em 2017, ela causou enorme barulho ao publicar o conto “Cat Person” na revista The New Yorker. Imediatamente a editora Scout Press lhe ofereceu um contrato de estimados US$ 1,2 milhão por dois livros. Pelo mundo, incluindo o Brasil, para onde ela vem participar da Flip em julho, leitores se ocuparam em discutir o que o jornal inglês The Guardian chamou de “história que deu origem a mil teorias”.

Trecho do texto publicado no Valor Econômico, 7/6/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um relançamento – A Promessa/A Pane, Friedrich Dürrenmatt (Estação Liberdade, 224 págs.).

Uma série média – O Assassinato de Gianni Versace.

Um filme médio – 22 July, Paul Greengrass.

Um no máximo médio – Lords of Chaos, Jonas Akerlund.

Um documentário – Meet the Night Runners (aqui).

Fim de semana

Um romance – O Inferno dos Outros, David Grossman (Companhia das Letras, 208 págs.).

Uma reportagem – Rebecca Mead e a invasão do Airbnb em Barcelona (aqui).

Um disco – Remind me Tomorrow, Sharon Van Etten.

Um filme – The Mule, Clint Eastwood.

Um documentário – Andre the Giant, Jason Hehir.

Anticorpos contra a má fé

Ainda se faz grande jornalismo por aí, e na essência ele continua o mesmo. O que mudou foi o modo como as notícias são consumidas: na esteira da eleição de Trump, Bolsonaro e seus colegas populistas e autoritários mundo afora, já virou clichê falar da crise da informação diante do reinado da opinião e da propaganda.

É com algum sentido histórico, portanto, que lemos “Repórter”, as memórias do jornalista americano Seymour M. Hersh (Todavia, 384 págs, tradução de Antônio Xerxenesky). Em vários aspectos, trata-se de um documento sobre o que o autor chama de “era de ouro” – pré-redes sociais, em alguns casos pré-onipresença televisiva, quando as mentiras de governos, corporações e outras instâncias de poder eram combatidas com o simples relato dos fatos.

Antes de mais nada, o livro é um depoimento sobre a carpintaria e os dilemas éticos do ofício que tornou esse combate possível. Hersh fala de técnicas de apuração, das relações delicadas com fontes, da busca sempre acidentada por documentos e pessoas que confirmem histórias difíceis. Suas credenciais para a empreitada falam por si: entre outros furos, foi ele que revelou o massacre de civis por soldados em My Lai, durante a guerra do Vietnã, em 1968; a espionagem da CIA contra seus próprios cidadãos, sob a complacência dos governos Johnson e Nixon, nos anos 1960/1970; e as torturas sofridas por prisioneiros em Abu-Ghraib, na sequência da invasão do Iraque, em 2003.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 10/5/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma entrevista – Antunes Filho, 1998 (aqui).

Outra – Paulo Pachá sobre a Idade Média e o bolsonarismo (aqui).

Uma terceira – Henrique Carneiro sobre a história das drogas (aqui).

Um livro – Cat Person, Kristen Roupenian (Companhia das Letras, 256 págs.).

Um Filme – A Noite de Doze Anos, Álvaro Brechner.

Fim de semana

Uma exposição – Regina Parra, Anexo Millan.

Um documentário – Tunga, Miguel de Almeida.

Um relato – Colm Tóibín sobre o câncer (aqui).

Um ensaio – Joca Terron sobre John Frankenheimer e a meia-idade (aqui).

Um livro – Escrever Ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 394 págs.).

Sobre decoro e loucura

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”