Michel Laub

Categoria: Livros

Fim de semana

Um documentário – O Barato de Iacanga, Thiago Mattar.

Uma exposição no Sesc Pompeia – Amazônia, Sebastião Salgado

Uma série de reportagens na Piauí – Amazônia, João Moreira Salles.

Uma entrevista – Werner Herzog (aqui).

Um romanceBeatriz e o Poeta, Cristovão Tezza (Todavia, 188 págs.).

Fim de semana

Uma exposição no Masp – Luiz Zerbini.

Outra – Volpi.

Uma conversa – Mano Brown e Sidarta Ribeiro (Spotify).

Uma entrevista – Harvey Pekar e Joyce Brabner (aqui).

Uma memória – Roberto Muggiati sobre a revista Manchete (aqui).

Fim de semana

Um livro – Quando deixamos de entender o mundo, Benjamin Labatut (Todavia, 176 págs.).

Um doc/show – Shut Up and Play the Hits, Will Lovelace e Dylan Southern.

Um doc médio – Reading Susan Sontag, Nancy Kates.

Uma conversa – Susan Sontag e John Berger sobre ficção (aqui).

Uma entrevista – Robert Karo sobre biografias (aqui).

Fim de semana

Uma palestra – Lourenço Mutarelli sobre desenho e narrativa (aqui).

Um disco – Avenida Angélica, Vitor Ramil.

Um filme convencional – King Richard, Reinaldo Marcus Green.

Um filme de 1985 – Debaixo do Vulcão, John Huston.

Um livrinho – How to Start Writing (and When to Stop), Wislawa Szymborska (New Directions, 96 págs.).

Eu e o outro eu

A data da primeira entrada dos Diários de Andy Warhol é 27 de novembro de 1976, uma quarta-feira. A da última é 17 de fevereiro de 1987, uma terça, cinco dias antes da morte do artista americano. Em pouco mais de dez anos, o que iniciou como mera anotação de encontros e eventos, com a listagem dos respectivos gastos para controle de Imposto de Renda, virou um documento sui generis sobre a cultura do último meio século (L&PM, 851 págs, organização/seleção de Pat Hackett e tradução de Celso Loureiro Chaves).

Para chegar a essa conclusão, é preciso atravessar uma certa aridez do livro. À primeira vista, nele há apenas um registro em tom menor, composto de impressões ligeiras e adjetivadas. A agudez possível emerge de uma frase lapidar aqui, uma expressão venenosa ali, em meio a muitos momentos repetitivos, irrelevantes à sombra do tempo: “dedos muito delicados (…), do mesmo tamanho que os meus e metade da largura” (sobre Miles Davis); “calças hindus de pele de leopardo (…), parecia um domador de circo” (sobre Rainer W. Fassbinder); “é chato, um horror (…), mas aí vi o pessoal da imprensa se aproximando (…) e disse que tinha gostado demais” (sobre o filme “O Fundo do Coração”, de Francis F. Coppola).

É comum ver Warhol como figura visionária, que fundiu influências – de Marcel Duchamp a Marshall McLuhan – na construção de uma obra que, desde os anos 1960, por sua força e abrangência no retrato irônico/fascinado da fama e do consumo, antecipou a dinâmica do atual sistema de redes sociais e celebridades. Mas a motivação que gerou tal legado, presente em pinturas, fotografias, nos filmes produzidos no estúdio The Factory, na edição da revista Interview, segue motivo de disputa cultural. Se os Diários podiam soar frívolos em 1989, ano em que foram publicados, em 2022 servem para iluminar um debate mais amplo sobre identidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/4/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série no Netflix – Trilogia Kanye.

Outra – Diários de Andy Warhol.

Um livro para consultar – Diários de Andy Warhol (L&PM, 851 págs.).

Um romance – Os Coadjuvantes, Clara Drummond (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um filme médio – Quebrando o Gelo, Peter Flinth.

Refugiados: presente e futuro

No início deste ano, tendo passado 2021 quase todo em Berlim, remexi documentos de família numa pasta antiga, que eu tinha aberto duas ou três vezes na vida. Nela estão os registros formais da vinda do meu pai ao Brasil, ele com oito anos, junto com a mãe e uma irmã, num dos últimos navios que deixaram o porto de Hamburgo trazendo judeus para a América do Sul em 1939.

É uma experiência curiosa voltar a ter contato com esse material depois de estudar um pouco de alemão. Há uma sensação ambígua, uma familiaridade incômoda, em reconhecer certos detalhes do idioma das autoridades nazistas aplicado a pessoas próximas – cuja sobrevivência determinou, entre tantas outras coisas, o fato de eu ter nascido.

A leitura dos documentos não desmentiu nenhum fato da grande história, claro, nem recontou uma saga de emigração forçada cujos pontos importantes eu já conhecia. Mas é como se os célebres eufemismos administrativos do Terceiro Reich, agora formalizados num vocabulário que não me soa mais tão estranho e repelente, trouxessem uma consciência mais específica de um horror nem sempre fácil de nomear: as vacinas listadas num certificado, o “passaporte estrangeiro” que a minha avó utilizava com um “Sara” acrescentado ao seu nome.

Em meio aos papeis da pasta encontrei algo inusitado, de que eu não sabia ou não lembrava: um processo do fim dos anos 1960, no qual meu pai pede indenização ao Estado alemão por traumas de guerra. A petição, os trâmites e a sentença estão vertidos para o português, e também aí se vê a distância entre a frieza da linguagem traduzida – o modo como burocratas recontam o dia-a-dia sob Hitler, o jargão de médicos chamados a dar pareceres – e o pesadelo que ela foi capaz de justificar tão poucas décadas antes.

Não vou entrar em maiores detalhes do processo. Talvez um dia o faça num texto de outro gênero, se a família não achar indevido. Apenas digo que nessas páginas há um debate sobre a natureza do dano psicológico em crianças refugiadas, o que se estende a adultos. No consenso cultural da época, era muito mais aceito falar em danos materiais, palpáveis segundo uma lógica de soma e subtração. Isso mudou de lá para cá, não há dúvida. Mas em que grau, e devido a quais instrumentos?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/3/2022, sobre meu pai, Stefan Zweig e a Ucrânia. Íntegra aqui.

A dinâmica das trevas

Em janeiro de 1998, num ensaio publicado na revista Bravo, Olavo de Carvalho sintetizou o que passaria as duas décadas seguintes martelando: a ideia de que o regime militar brasileiro havia sido negligente naquilo que ele já chamava de guerra cultural.  Enquanto a direita se preocupara apenas com o poder político e econômico, a esquerda teria lido Antonio Gramsci e buscado uma hegemonia mais efetiva, fixada no “subconsciente popular”.

Para quem acompanhava o articulista, não havia nada de novo no texto. A curiosidade era o último parágrafo: uma ideia atribuída a Roberto Campos, que estimava em trinta anos o tempo para uma guerra cultural se traduzir em ganhos políticos. Os exemplos citados eram os Estados Unidos e a Inglaterra, onde Ronald Reagan e Margaret Thatcher seriam frutos do longo combate intelectual promovido por nomes como Russel Kirk, Roger Scruton e Paul Johnson.

Lida hoje, a passagem tem algo de premonitório. Os tais trinta anos foram abreviados para vinte por atalhos que nem podiam estar no horizonte de Roberto Campos, como o surgimento das redes sociais e dos smartphones. Idem por eventos da economia e da política que misturam razões estruturais, atos individuais e acaso na ascensão do reacionarismo atual – da crise de 2008 aos métodos da Lava Jato, das jornadas de 2013 ao papel de Eduardo Cunha na queda de Dilma, da reação ao discurso das minorias à facada em Jair Bolsonaro.

Ao menos em parte, no entanto, não há como explicar o Brasil que desaguou em 2018 sem voltar a Olavo. A questão é: qual Olavo? A resposta talvez passe pelo ensaio de 1998: prevaleceram as ideias defendidas pelo seu autor ao longo de duas décadas, com a ajuda do atalho tecnológico, ou a barbárie que tomou o país tem menos a ver com conteúdo do que com forma, isto é, com o modo como essas ideias se espalham segundo a dinâmica da Internet?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/2/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Licorice Pizza, Paul Thomas Anderson.

Um livro de contos – Visão Noturna, Tobias Carvalho (Todavia, 119 págs.).

Um podcast – 50 anos do Clube da Esquina (O Assunto).

Uma entrevista – Sérgio Miceli sobre Drummond e o Modernismo (Ilustríssima Conversa).

Uma entrevista sombria – Vladimir Putin a Oliver Stone (Nocaute).

Neblina em Varsóvia

Em Varsóvia há ruelas e avenidas de escala monumental. No bairro antigo veem-se pequenas casas reconstruídas depois da Segunda Guerra, e no centro prédios enormes posteriores à queda do comunismo. Recentemente a cidade viveu um florescimento hipster, o que em algumas regiões dá a ela um ar simpático de ironia sobre si mesma – por exemplo, num mercado farto de carnes, queijos e bebidas que mantém a decoração  dos tempos escassos da Cortina de Ferro.

Tudo parece dentro dos parâmetros europeus atuais, ao menos para quem passa alguns dias por ali – no meu caso, caminhando a esmo, indo a museus e frequentando bares entre os compromissos de um pequeno evento do pequeno mundo literário. Seria possível terminar o relatório da visita à Polônia com mais meia dúzia de impressões ligeiras, dando algum toque pessoal aos palpites sobre arquitetura, economia e costumes, mas algo estaria faltando – justamente o mais importante quando se fala de um país governado pelo extremismo do Século XXI.

Qual a paisagem do horror hoje em dia? Para um turista, não é algo semelhante ao que ditaduras do passado nos acostumaram a ver. Em Varsóvia não há policiamento ostensivo, e na fronteira da Polônia (eu vindo de trem de Berlim) não me foi pedido nem passaporte. Na capital de um país que foi invadido por nazistas e soviéticos, com uma história longa de cercos, bombardeios, levantes e pogroms, uma noite de inverno de 2021 parece festivamente acolhedora. Há torcedores com apitos e bandeiras nas calçadas – a seleção nacional enfrentava a Hungria pelas eliminatórias da Copa –, e é bom respirar o ar gelado caminhando em meio à neblina.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 3-12-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma releitura – Confissões de uma Máscara, Yukio Mishima (Companhia das Letras, 225 págs.).

Um filme – Drive My Car, Ryusuke Hamaguchi.

Um filme ok – Spencer, Pablo Larraín.

Uma exposição em São Paulo – Tunga.

Uma entrevista – Eddie Vedder no NYT (aqui).

Fim de semana

Um livro – As Raízes do Romantismo, Isaiah Berlin (Fósforo, 256 págs.).

Uma releitura – Pela Noite, Caio Fernando Abreu.

Um filme de 1978 – Tudo Bem, Arnaldo Jabor.

Um de 2009 – Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, Karim Ainouz e Marcelo Gomes.

Um de 2005 – The Devil and Daniel Johnston, Jeff Feuerzeig.

Fim de semana

Um lugar em São Paulo – Museu Judaico.

Um filme – The Tragedy of Macbeth, Joel Coen.

Outro – Tick, Tick… Boom, Lin-Manuel Miranda.

Uma entrevista boa a partir da metade – Guilherme Arantes no B3.

Uma releitura – Como Vencer um Debate sem precisar ter Razão, Arthur Schopenhauer (Topbooks, 258 págs.).

Faulkner e Kendall Roy

Cada época tem seus clichês de estimação. Na nossa, um dos mais fortes é o elogio aos chamados personagens complexos. Para se opor ao maniqueísmo da Hollywood clássica ou das novelas brasileiras, por exemplo, tornou-se imperioso defender um modelo de caractere ficcional com defeitos e virtudes conflitantes, que cumpre arcos narrativos longos onde um gesto pode contradizer o outro à vontade, tudo para que ao final não caiamos na armadilha – o tabu que acompanha o clichê – de considerá-lo apenas “bom”, “mau” ou qualquer definição peremptória.

Início de texto sobre William Faulkner e a série Succession, publicado no Valor Econômico em 7-1-2022. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um livro – Escute as Feras, Nastassja Martin (Ed 34, 112 págs.).

Um disco – Once Twice Melody, Beach House.

Uma entrevista de 1986 – Pietro Maria Bardi (aqui).

Um filme meio datado – The French Dispach, Wes Anderson.

Uma série meio banal – Neymar, Netflix.

Pão de leite no Titanic

De volta a São Paulo depois de passar 2021 quase todo fora, constato a piora de tudo que dependia do poder público: preços, miséria, prédios novos e horrendos alheios a qualquer relação com o seu entorno, o que torna a cidade ainda mais segregada nas vizinhanças de classe média e alta. A vida melhorou com as vacinas, claro, mas elas são como um acidente no modo brasileiro de governar: uma iniciativa quase heroica de estados e municípios, a par da dança da morte no baile federal.

Diante de um quadro assim, restam as pequenas alegrias privadas. Há pessoas, memórias, a alegria de abrir um livro na estante de casa. Mesmo com a mão na roda do Kindle, com suas dezenas, centenas de itens arquivados, essa foi uma experiência ausente em Berlim: me deparar com aquele trecho salvador vindo de um título fora de moda, que chama atenção por motivos intermináveis – porque deu saudade das capas daquela editora falida, porque a leitura combina com o chá que acabamos de esquentar, porque algo remete a algo que remete a algo que de repente está diante dos olhos.

Nas últimas semanas voltei a esse universo aleatório e maravilhoso. Num dia, algumas páginas da estreia ruim de um amigo que não melhorou nos trabalhos seguintes. Em outro, um conto que me encantou vinte anos atrás e hoje soa piegas. Durante alguns minutos de intervalo do trabalho, lendo o pdf de um paper enfadonho, um nome me leva a uma personagem que não lembro se está no romance x ou y de um autor inglês superestimado, então procrastino o serviço para conferir a resposta entre meia dúzia de volumes cobertos de pó.

Tudo é alegria numa biblioteca, até os livros errados. Mas nada se compara ao milagre da página certa: ao fuçar na estante de poesia do escritório, me deparei com uma coletânea da americana Elizabeth Bishop (1911-1979).

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 21/1/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal.

Outro – A Mão de Deus, Paolo Sorrentino.

Um podcast – ABFP.

Um episódio de podcast – Lota/Bishop no 451.

Um livro – Toda Poesia, Leonardo Fróes (Ed 34, 424 págs.).

2021, 2022

Louise Glück em Parábola da Fera (Tradução de Pedro Gonzaga): “O gato anda em círculos na cozinha/ com o passarinho morto,/ sua nova possessão./ Alguém deveria discutir/ ética com o gato enquanto ele/ perscruta o débil passarinho:/ nesta casa/ nós não exercemos/ a força deste jeito./ Diga isso ao animal,/ seus dentes já/ fundos na carne de outro animal.”

Ingeborg Bachmann em Um lugar de Incidências (tradução de Claudia Cavalcanti): “A loucura também pode vir de fora para atingir as pessoas, ou seja, muito antes caminhou de dentro das pessoas para fora, para fazer o caminho de volta em situações para nós corriqueiras, nos legados deste tempo. Pois não esqueço que estou no país de vocês, com suas incidências que (…) comunicam uma visão e um ouvido submetido (…) ao pesadelo e sua consequência.”

Leonardo Fróes em Tambores da Madrugada: “Que teme o coração na hora incerta/ em que o corpo desperta, e é madrugada? (…)// Nada ele sabe, o tolo coração disparado,/ senão que às portas da manhã/ seu horror terminou pausadamente./ Passado o aperto, a brisa, por contraste,/ o acaricia, restaura, consola e fortalece/ para enfrentar novos testes de agonia,/ iguais desabamentos de estrutura/ que outras noites lhe tragam, qualquer dia.”

Charles Simic em Poema (Tradução de Sylvio Fraga Neto): “Toda manhã esqueço como é./ Vejo a fumaça avançar/ a passos largos sobre a cidade./ Não pertenço a ninguém./ / Depois lembro dos meus sapatos,/ Que preciso calçá-los,/ Que ao agachar para amarrá-los/ Irei olhar para dentro da terra.”

Excerto de coluna publicada no Valor Econômico em 17-12-2021, com trechos inspiradores (ou não) para a virada do ano. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um museu em Varsóvia – Polin.

Um em Berlim – Memorial do Muro, Bernauer.

Um filme – Benedetta, Paul Verhoeven.

Um doc triste – Roadrunner, Morgan Neville.

Um romance – A Pediatra, Andréa del Fuego (Companhia das Letras, 160 págs.).

Fim de semana

Um documentário – Get Back, Peter Jackson.

Um filme – Ataque dos Cães, Jane Campion.

Outro – Casa Gucci, Ridley Scott.

Um texto – Max Norman sobre W.G. Sebald (aqui).

Um livro – Caro Michele, Natalia Ginzburg (Companhia das Letras, 194 págs.).

Machado de Assis e as cotas

Depoimento que colhi do escritor, curador e professor Ítalo Moriconi, da UERJ, às vésperas da eleição de 2018, sobre a experiência de dar aulas de literatura no período posterior à implantação da política de cotas nas universidades brasileiras. Publicado na versão online do Anuário Todavia 2018-2019 (Todavia, 160 págs.), que editei junto com André Conti.

Graduação – O curso de Letras da UERJ, onde dou aulas, é marcado pela política de cotas vigente há quinze anos e pela presença crescente de alunos ligados ao universo evangélico. As duas vertentes não necessariamente coincidem em cada indivíduo. Em paralelo, de 2008 até a crise financeira agravada em 2015, eu estimaria em 40% ou 50% a proporção dos alunos que ganharam algum tipo de bolsa ou auxílio para graduandos. Não sabemos se esse modelo vai perdurar depois do total colapso de 2016, quando bolsas deixaram de ser pagas, o bandejão foi fechado, etc. O fato concreto é que, pelo menos nas áreas de Ciências Sociais, Humanidades e Pedagogia, a UERJ é uma instituição muito social, foi a primeira pública do Rio a oferecer cursos noturnos e a maioria dos alunos de Letras não tem pais formados em curso superior. Nosso aluno de graduação é geralmente primeira geração a ter acesso ao ensino superior. 

Pós-graduação – A pós-graduação em Letras, por sua vez, tanto mestrado quanto doutorado, tem um perfil diferente. O público é formado por alunos e alunas já relativamente bem preparados, oriundos de backgrounds diversos. O perfil é menos “social” e mais de uma ¨elite acadêmica¨, mesmo que o nível de renda familiar não seja tão alto e inexista a experiência da viagem internacional. De qualquer modo, sendo de origem menos ou mais abonada, o pós-graduando em Letras é um ralador ou raladora por natureza. Todos são ou serão professores. O sistema funciona movido principalmente por calendários e verbas federais.

Identidades – Ao voltar a dar aula, depois de oito anos na editora da universidade, observei mudanças muito grandes em relação a 2007-2008. A percepção das políticas identitárias (raça, gênero, identidade sexual) está presente na maioria dos alunos. As leituras meramente formalistas não funcionam mais. A mudança também foi estabelecida por toda uma geração de professores que aprenderam, entre outros, com Silviano Santiago. Ficou claro que, se existe anacronismo em nossa mediana literatura do Século 19, ele vem mais da ideologia que da fraqueza ou ingenuidade das tramas sentimentais (sempre muito bem aproveitadas, no século 20, pelo folhetim  eletrônico). Os textos indianistas de Gonçalves Dias e de Alencar se conectam dramaticamente com as questões contemporâneas dos índios, do racismo, em primeiro plano, e da misoginia também. Isso impõe (ou somatiza) novas formas de texto e novas ênfases na crítica.

Léxico e lugar de fala – Meus esquemas de compreensão de textos de Alencar e Gonçalves Dias tiveram que ser estendidos, ampliados, para focar questões históricas e atuais de raça e gênero. Há uma estranheza grande dos alunos em relação ao léxico racista e misógino (ou patriarcal). Um Rubem Fonseca usando a palavra “crioulo” causa espécie nesses jovens negros engajados que se reúnem em coletivos e estão presentes nas salas de aula das ciências humanas, letras e educação da UERJ. Os alunos não estão necessariamente armados com conceitos como patriarcalismo, por exemplo: trata-se de uma leitura de conteúdo, e de como o texto afeta a questão subjetiva do leitor. O conceito de lugar de fala é crucial e veio para ficar.

Violência e marcas históricas – Acredito que esse movimento “politicamente correto” da crítica traz novas camadas de compreensão, que se agregam às anteriormente praticadas. Um exemplo é a leitura que fizemos do poema Marabá, de Gonçalves Dias. Eu sempre vi em Iracema, de José de Alencar, o caráter violento da colonização mostrado sem meias palavras – já que a pobre morre no final e a criança, o primeiro brasileiro, é levado sabe-se lá para onde numa jangada com o pai branco e um cão rafeiro. No caso de Marabá, o drama é o da mestiça. Gonçalves Dias inverte a situação e mostra o preconceito dos índios, que não a querem loura nem alva nem seus olhos verdes, que eles preferem bem pretos. É o drama da diferença – e, no entanto, a interpretação taxativa dos meus alunos é que o angustiante para os homens que rejeitam Marabá é o fato dela ser produto do estupro da índia pelo branco. A “diferença”, nesse sentido, não seria tanto uma questão de cor, e sim produto de marcas históricas. 

Evangélicos – Quando comecei, em fins dos anos 80, o clima era laico porque quase não se falava em religião. Com uma rapidez incrível, porém, nos anos 90 o alunado da UERJ foi se tornando cada vez mais evangélico. Mas a história deles era de errância religiosa: a maioria falava de trajetórias familiares em que tinham saído do catolicismo tradicional e passado por mais de uma igreja alternativa (há sempre a presença forte e silenciosa do espiritismo.) Passados vinte anos, não só há evangélicos de mais renda: também a maioria dos alunos dessa religião nasceu e cresceu na igreja que ainda frequenta. Está mais claro na cabeça deles o conceito de uma cultura laica, que não segue a bíblia, e que eles parecem interessados em entender. Vejo também que existe entre esses jovens maior abertura para questionarem seus pais e seus pastores, mas tudo de uma forma light e respeitosa.

Machado – Ainda em relação aos evangélicos, fica interessante lecionar Machado de Assis, por exemplo, porque os alunos conhecem as histórias bíblicas citadas, de maneira lacunar e enviesada. A verdade, porém, é que esses textos não descem bem junto a esse público. Brás Cubas é muito cético para eles. Eles no fundo esperam da literatura algo edificante, embora o realismo de um O Cortiço (Aluísio Azevedo) lhes agrade.

Redes sociais – O mundo digital tem uma presença forte na tecnologia da didática, digamos assim. Você pode deixar os detalhes enciclopédicos (datas, títulos, definições mínimas) para serem pesquisados no ato da aula, cada aluno com seus telefones googlando. Dá uma nova dinâmica. Mas ainda não me acostumei a lidar com os alunos lendo o texto nos seus telefones. Tenho a impressão de que romances, por exemplo, ou mesmo contos, nunca são lidos na totalidade linear – é uma leitura por espasmos de páginas e parágrafos.

Papel do professor – A autoridade do professor, e a própria formação dele, não são mais suficientes para ditar sozinhas o conteúdo ou o enfoque em sala de aula. Mas uma aula com bom conteúdo erudito ainda é uma necessidade e é desejada, inclusive e até principalmente, pelos mais ativistas e engajados. A aula é encarada como algo que está trazendo repertório relevante dentro de um interesse específico. A meu ver, essa situação se deve principalmente às condições gerais de produção e circulação do saber – a relativização dos cânones, o ensino universitário mais como prática de pesquisa que transmissão de conteúdo. Pelo menos na Uerj, o consumo cultural dos jovens da graduação é muito baixo, basicamente televisão aberta. Teatro e cinema nem pensar, por serem caros. Por isso eles valorizam muito o que podem aprender ou apreender na universidade.

Esquisitos no metrô

É difícil resumir a sequência vertiginosa de fragmentos que compõem este livro. Há contos completos, como o sobre o homem que se perde da esposa e da filha numa ilha croata. Há pequenos ensaios, fábulas, verbetes históricos sobre trens, hotéis, países. E há uma infinidade de trechos que valem por si, frases ou parágrafos que iluminam todo um universo com sua agudez de observação e humor: o clique de uma máquina fotográfica soa como “um amém falado numa nova língua digital”; um mapa tem a forma de “uma enorme mão materna (…) que mergulha na água conferindo se a temperatura está adequada para o banho.”

Trecho de texto sobre os livros Correntes, de Olga Tokarczuk, e Qualquer Lugar Menos Agora, de João Paulo Cuenca, publicado no Valor Econômico. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um ensaio – Survival of the Fireflies, Georges Didi-Huberman (Univocal, 112 págs.).

Um ensaio para reler – O artigo dos Vagalumes, Pier Paolo Pasolini.

Um livro de contos – Erva Brava, Paulliny Tort (Fósforo, 104 págs.).

Um podcast – Sam Anderson sobre Laurie Anderson no The Daily.

Um disco – Apocalip se, Zé Nigro.

Um Brasil que morreu

Entrevistas de escritores costumam ter alguma dose de mentira. Sendo essa a prática do metiê, é até esperado que manipulemos o discurso para tornar mais interessante a imagem dos nossos livros, tanto para os outros – leitores, crítica – quanto para nós mesmos – porque é preciso renovar o estímulo e seguir numa luta por vezes inglória.

Ler as entrevistas de Sérgio Sant’Anna, ao menos as que estão reunidas no recém-lançado O Conto não Existe (Cepe, 195 págs., organização de André Nigri e Gustavo Pacheco), causa outra impressão. É possível que ela seja falsa também – quem vai saber? –, mas não importa: o fato de eu sempre ter encontrado verdades na obra deste autor clássico da ficção brasileira do fim do século 20, e que seguiu tendo momentos de vigor até sua morte por covid ano passado, como que contamina o julgamento daquilo que ele disse fora dela.  

Trecho inicial de texto sobre Sérgio e André Sant’Anna, publicado no Valor Econômico, 24-9-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário – The Velvet Underground, Todd Haynes.

Um livro – O Conto não Existe, Sérgio Sant’Anna (Cepe, 228 págs.).

Um trecho – Diários de Patricia Highsmith (aqui).

Um podcast – Juliana de Albuquerque e Isadora Sinay sobre Philip Roth (aqui).

Uma série – Succession.

Didê, cunete, tchatchatchá

“Para escrever, talvez seja necessário que a língua materna seja odiosa, mas de maneira tal que uma criação sintática trace aí uma espécie de língua estrangeira.”

A frase, de Gilles Deleuze, serve como epígrafe ao posfácio de Caia Maria Coelho para Neca + 20 poemas travessos, de Amara Moira (Editora O Sexo da Palavra, 64 págs., com ilustrações de Lino Arruda). Ela define a sensação que temos ao ler estes textos escritos em pajubá, o socioleto das travestis brasileiras. Neles se fala em “didê”, “cunete”, “necometragem do lixo”. De um mundo onde “quanto mais necão, mais lei aliás”, e “pele na pele é tia, faço a recheada não.”

O pajubá foi historicamente criado como defesa, um disfarce que ajudou na sobrevivência de uma das populações mais discriminadas e agredidas do país. Nele se misturam e recriam construções gramaticais do português de diferentes regiões, termos importados, vocabulário dos terreiros iorubás. Mas o que poderia ser mera negação – o estrangeirismo deleuziano criado a partir (e como devolução) do ódio – floresceu num registro musical vívido, de apelo tragicômico a quem ouve, o que é uma forma de empatia: “Tem umas que engana, até parece ocó, malão e tudo, aí cê vai na pira dela te tchacatchá, já arrebitando o edi, mas é piscar e, jesus, ela atacou.”

Neca não é bem uma história, e sim o monólogo de uma travesti prostituta que aguarda clientes numa calçada, dirigindo-se a uma colega iniciante. O assunto é a batalha diária da personagem, que se equilibra entre ameaças as mais variadas – violência, polícia, doenças – fazendo desabafos (“vontade de dar elza horrores só pra compensar, celular, carteira, o que for”), observações sobre os tipos com os quais se depara (“conheeeço. Edivaldo, edivaldo, cê não me engana nada”), dando conselhos ternos em meio ao sarcasmo e a tristeza (“Tô morta, gata. Cê fica? Então aqüenda uma taba odara pra esse frio e pra não estressar com as mariconas”).

Início de texto publicado no Valor Econômico, 8-10-21. Integra aqui.

Fim de semana

Uma história – Dawn Dorland x Sonya Larson (aqui).

Um livro – Neca, Amara Moira (O Sexo da Palavra, 64 págs.).

Um lugar em Berlim – HKW.

Outro – DAAD Galerie.

Um filme – Cuatreros, Albertina Carri.

Fim de semana

Um festival – Berlin Art Week.

Uma programação no festival – Planetário.

Um disco de 2019 – Pang, Caroline Polachek.

Um disco de 2018 – Cavala, Maria Beraldo.

Um livro – Qualquer lugar menos agora, JP Cuenca (Record, 240 págs.).

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

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