Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (22)

por Michel Laub

Antonio Prata, autor de Meio intelectual, meio de esquerda“Havendo silêncio e Coca Zero, escrevo em qualquer lugar. O ideal é que seja logo cedo, com a cabeça fresca, mas nem sempre é possível. (Se você vive da escrita, acaba sendo agente literário, secretário e office boy de si mesmo, o que obriga a dedicar boa parte do dia a negociar valores, preencher formulários, ler contratos, emitir notas, frequentar papelarias e  agências dos correios. Curioso paradoxo: quanto mais escritor você se torna, menos tempo tem para escrever.) Além de silêncio, Coca Zero & cuca fresca, uma impressora é muito bem vinda. Não sei por que fenômenos óticos ou metafísicos, palavras repetidas, frases truncadas e erros ortográficos se escondem na tela do computador, mas revelam-se na pagina impressa. Para escrever uma crônica, portanto, consumo uma pequena floresta em celulose. Sem impressora o processo é mais lento, mas flui. Impossível mesmo é escrever com barulho ou sem Coca Zero. Aí, não tem jeito.”

Evandro Affonso Ferreira, autor de Minha mãe se matou sem dizer adeus “Escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias e cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim.”

Francisco Alvim, autor de O metro nenhum “Escrevo quando minhas resistências ao ato de escrever falecem.”

Luiz Bras, autor de Paraíso líquido“Perdi completamente o hábito de escrever em cadernos ou bloquinhos. Escrevo sempre direto no computador, e jamais longe de casa. Nas viagens eu gosto de ler, ouvir música, andar, ler mais um pouco, conversar, beber, ler mais um pouco, dormir, ir ao cinema… Uso pouco o iPad e a web. Meu escritório é amplo porque durante a escritura de um conto ou de um romance preciso sempre de muito espaço para as revistas, os livros, as graphic novels, os mangás, as gravuras, os recortes de jornal… Costumo trabalhar com seis ou sete publicações abertas. Também tenho à mão uma coleção de documentários em DVD, sobre ciência e tecnologia. Não conseguiria escrever nem um miniconto longe desse material de consulta. Minha filha já se ofereceu pra passar todo esse acervo, item por item, pra meu laptop. Eu disse que seria perda de tempo. Desconfio que em cinco ou dez anos ele já estará em meu cérebro, armazenado numa prótese neurológica japonesa.”

Lygia Fagundes Telles, autora de Invenção e memória“Gosto de escrever ouvindo música sem palavras, música clássica. As personagens já exigem muito do escritor, o tempo é delas, então não dá para fazer mais nada além de ouvi-las.”

Rubens Figueiredo, autor de Passageiro do fim do dia“A verdade é que, comigo, não há nada que pareça ritual. Nem mesmo encontro na memória algum gesto ou método que eu repita. A rigor, nem lembro direito como foi que escrevi meus livros! Parece que, quando as ideias se definem um pouco melhor, eu simplesmente sento e escrevo, como posso, como dá. Talvez o que mais se aproxime de uma mania é o fato de eu ficar reescrevendo tudo mil vezes. E mesmo depois de tudo pronto e o livro publicado, eu achar que tenho de reescrever. Mas talvez seja injusto com os verdadeiros maníacos chamar isso de mania.”