Michel Laub

Mês: setembro, 2009

Arnaldo Jabor, o AI-5 e o delírio

Sobre o tema do post de ontem, não é apenas a justificativa histórica, a circunstância de ter vivido tanto o nazismo quanto o comunismo, que dá autoridade e verossimilhança à prosa de um escritor como Imre Kertész, para quem a desolação da Hungria nos anos 1990, cenário do livro Liquidação (Companhia das Letras, 112 págs.), às vezes guarda aspectos de horror semelhantes aos da burocracia stalinista ou de um campo de extermínio.

No caso de Kertész, é por meio de uma solenidade até um pouco árida demais que o texto alcança essa “verdade”. No de Thomas Bernhard, como já cansei de dizer aqui, é por meio de uma falsa ênfase, que também traz em si um tipo particular de humor – recurso muito mais importante, por exemplo, do que o fato de ele enxergar a herança da Segunda Guerra por baixo da aparência ordeira da sociedade austríaca na segunda metade do Século 20.

De qualquer forma, são analogias construídas, nunca apenas declaradas. Um exemplo oposto é o texto que Arnaldo Jabor publicou no número dois da revista Granta (Alfaguara, 2008, 280 págs.), no qual descreve uma bad trip de ácido logo depois da decretação do AI-5, em 1968. Ninguém duvida da dureza daqueles tempos, mas seu retrato inevitavelmente se dilui na afetação de passagens como esta: “Eu buscara um desbunde alegre e florido como o dos americanos do flower power, mas saquei que ali a devastação de 68 nas ‘melhores cabeças da minha geração’ seria tão brutal como a tortura que enchia os quartéis de gritos”. Em pleno delírio, ele lembra: “Intuí, confusamente, que a história detesta indefinições e que, nos países miseráveis, ela sempre se define pelo pior”. E segue: “Entendi com horror que a política iria virar uma piada ridícula dali para a frente, um pesadelo cômico”.

Como Kertész ou Bernhard na ficção, Jabor encerra sua memória relacionando a opressão do passado e um suposto totalitarismo do presente: “Sinto também (estarei muito louco?) que essa liberdade maluca e sem objetivo, fetichizada, essa invasão de corporações globais, esse mundo dividido em deus do oriente e deus do ocidente, entre Bush e Obama, a massificação dos desejos e das culturas, tudo parece um Ato No 5 sem rostos militares, mas que deve estar matando outras coisas essenciais que sobraram em nós, como aquelas que a ditadura matou, quarenta anos atrás.”

No limite, e Jabor provavelmente concordaria, não há termos de comparação entre a ditadura militar e a vida brasileira de 2009. Assim como não há entre o nazismo e a Hungria ou a Áustria atuais. O fato de aceitarmos ou não que um escritor diga o contrário é uma questão estética, que se resume ao seu talento retórico e ficcional e prova, para o bem e para o mal, como a literatura sempre pode se distanciar da vida.

Anúncios

Terror no McDonald’s

Entre as observações que o protagonista de Austerlitz faz sobre paisagens e arquitetura (ver post de 24/8), há uma que poderia resumir todo um universo ao qual pertence a ficção de W. G. Sebald. “O átimo de terror de um flash”, diz o personagem sobre a iluminação branca de um McDonald’s em Londres, “fora ali perpetuado, e não havia mais nem dia nem noite”.

A abordagem é típica de uma linhagem de intelectuais para quem certos aspectos do mundo contemporâneo, como a vida burguesa e a cultura de massas, podem encarnar sintomas de um pesadelo totalitário. Por razões que mereceriam um ensaio à parte, essa acabou sendo uma visão mais comum em autores que viveram sob a presença ou a herança ainda forte do nazismo ou do comunismo. Não é a mesma coisa que J.M. Coetzee escrevendo sobre os rescaldos do Apartheid, ou António Lobo Antunes remoendo a herança do colonialismo português: em Sebald – como em Elias Canetti e Imre Kertész, antes, ou no próprio Thomas Bernhard depois –, a intensidade da experiência ou da memória do horror parece mais profunda e tem uma natureza imobilizante. No subtexto de suas obras, o passado se estende pelo presente até quase se confundir com ele, o que faz com que algo tão comum e doméstico para a maioria das pessoas – pense num quarteirão com queijo salvador antes de voltar para casa – possa ser equivalente, mesmo que em termos apenas sugestivos, a uma cena da Alemanha de 1942.

Música e clipe do dia

Fim de semana

Um discoThrough the devil softly, Hope Sandoval & the warm inventions.

Uma exposição na Pinacoteca – Matisse.

Outra exposição na Pinacoteca – Acervo em preto e branco, fotos.

Um livro brasileiroRelógio sem sol, de Cadão Volpato (Iluminuras, 120 págs.).

Um lançamento em DVD O homem que amava as mulheres, Truffaut, edição oficial.

Dois grandes filmes sem (quase) nenhuma mulher em cena

Soldado anônimo – Uma guerra movida a areia, máscaras de gás e Kanye West, onde a violência que nos acostumamos a ver nos cenários do Vietnã – em meio a selva, fumo e The Doors – é substituída por uma espera tediosa e igualmente absurda. O melhor filme de Sam Mendes, disparado, com uma sequência impressionante rodada no deserto – o encontro à noite, tão apocalíptico quanto as histórias do coronel Kurz em seu monólogo final, entre um jarhead e um cavalo encharcado de óleo.

Mestre dos mares – Com exceção de uma prostituta brasileira que aparece por algo como 15 segundos, o resto é o capitão Lucky Jack enquadrado por Peter Weir: seus mapas, seu violino, seus banquetes e sua obstinação maníaca em fugir e perseguir um navio da esquadra napoleônica. Ouvida no sistema de som de uma sala decente, nenhuma sonoplastia se compara à da batalha inicial, com o ranger das tábuas e o estrondo dos canhões em meio a um pesadelo de marujos correndo na neblina. E nenhuma aventura em alto mar tem cenas como as do biólogo que captura espécies novas em Galápagos, ou personagens com tanta sorte quanto Jonas – quer dizer, considerando as formas possíveis de escapar do escorbuto, do trabalho no convés e das pernas amputadas.

Música do dia

Via Lombardi.

Fim de semana (estendido)

Um livroMilagres da Vida, de J.G.Ballard (Companhia das Letras, 248 págs.).

Um lançamento em DVDThe office inglês, primeiras temporadas.

Uma peça para quem estiver em Porto AlegreQuartett, montagem de Bob Wilson.

Uma exposição no MASPOlhar e ser visto, retratos.

Outra exposição no MASPOnde a água encontra a terra, fotografias.

Um discoLive in London, Leonard Cohen.

Um restaurante – Rota do acarajé, na Martim Francisco.

Como falar dos livros que não lemos

Se Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard (Objetiva, 207 págs.), tivesse uma tese central, poderia ser a resumida neste trecho: “As pessoas cultas sabem – e, sobretudo, para sua desgraça, as pessoas incultas ignoram – que a cultura é antes de mais nada uma questão de orientação. Ser culto não é ter lido este ou aquele livro, é saber se orientar no conjunto e estar em condições de situar cada elemento em relação aos demais”.

Isso tanto em termos utilitários – o verniz que traz respeito social – quanto em relação à própria leitura: afinal, o que fica de um romance terminado há uma década, ou mesmo há uma semana, senão fragmentos processados de acordo com as idiossincrasias de nossa memória, que se confundem com nossos valores e preconceitos?

Bayard toca num ponto curioso: já que quase toda leitura está destinada a esse limbo relativista, não faria mais sentido desistir de tentar apreender a totalidade de uma obra, aproveitando o tempo para saber menos, mas o suficiente, sobre muitas outras? Faz diferença enfrentar Ulisses, algo que vai nos consumir meses ou anos, se o que “importa” é saber sobre o que o texto trata, qual sua relevância, quais foram suas inovações de linguagem, que lugar ele ocupa na história da literatura?

Se as perguntas fossem realmente a sério, uma crítica inevitável a Como falar… seria a de que o autor esquece aquilo que move a maioria dos leitores. Ou seja, o prazer, o medo, o impacto, o encantamento e todas as sensações que tiramos de um livro em si, concomitantemente à sua fruição, o que é imediato e anterior a qualquer elaboração intelectual. É isso o que ficou para mim, por exemplo, dos romances de mistério da Coleção Amarela que li pelos 12 ou 13 anos, dos quais é difícil lembrar até os títulos. Ou dos gibis de terror da editora Vecchi. Ou de centenas de histórias de Tio Patinhas, Bolinha e Marvel que deixaram a infância gloriosamente autista e colorida.

Mas Bayard está longe de ser tão óbvio. Mais que uma tese, seu livro é um exemplar acabado de prosa irônica, que usa um cinismo falso para, no fundo, fazer uma homenagem ao objeto que parece desconstruir. Argumentando o tempo todo que não é preciso ler, citando o tempo todo obras que supostamente só folheou ou ouviu a respeito – mas que, percebe-se logo, ele conhece em detalhes –, parecendo o tempo todo flertar com uma variante de auto-ajuda para emergentes culturais, o ensaio também pode ser interpretado como uma ode à natureza da leitura. Só que uma natureza nem sempre percebida: a de um conhecimento sempre individual, incomunicável, irredutível a qualquer fórmula, e que por isso mesmo é um dos mistérios mais fascinantes da vida.

Egopress

1) Domingo, 20/9, às 12h, estarei numa mesa da Bienal do Rio com Adriana Lunardi, Flávio Carneiro e Marcelo Moutinho.

2) Terça, 22/9, às 11h30, converso com os alunos da escola Móbile, de São Paulo, que leram dois livros meus.

3) Aqui, mini-entrevista que dei para o blog de Simone Magno, da CBN.

Bichinhos do dia

Três contos de David Foster Wallace, morto há um ano

Para sempre em cima – um garoto de 13 anos e o ritual de passagem mais leve e luminoso da literatura americana pós-Salinger: na fila de um trampolim, muitos metros acima do tanque de mergulho, do cheiro clorado e doce que é “uma flor de pétalas químicas”, das toalhas, do alto-falante e das mulheres de curvas e pele marrom brilhante que compõem o “sistema em movimento” da piscina, ele intui que a perda do mundo que conheceu até aqui é nada diante da promessa refrescante de sua queda.

A pessoa deprimida – mulher obcecada por um episódio de adolescência – a briga dos pais divorciados para decidir quem pagaria seu tratamento dentário – arrasta pessoas próximas numa espiral trágica e ridícula de autocomiseração. Como em várias outras de suas histórias, que frequentemente tratam da cultura americana da vitimização, Wallace prefere destilar ironia não sobre os culpados de praxe – a família, a autoridade, as corporações –, e sim sobre o lado oposto.

B.E. no 46 07-97 Nutley NJ – Num livro quase enciclopédico como Breves entrevistas com homens hediondos (Companhia das Letras, 373 págs.), um apanhado caudaloso de monólogos e relatos escritos num tom que brinca com clichês burocráticos, acadêmicos, psicológicos e metalinguísticos, nenhum trecho atinge a voltagem da fala deste paciente do que parece ser uma instituição psiquiátrica ou policial. É um monólogo dostoievskiano ao contrário: o que era a defesa racional e monstruosa do algoz, em Crime e Castigo, aqui vira uma espécie de elegia subversiva da vítima – a defesa das vantagens existenciais dos sobreviventes de campos de extermínio e das mulheres estupradas.

Fim de semana

Uma exposição de fotografia – SP Photo Fest.

Outra exposição de fotografia – SP – Arte/Foto.

Um filmeO grupo Baader Meinhof, de Uli Edel.

Um romance brasileiroSinuca embaixo d’água, de Carol Bensimon (Companhia das Letras, 144 págs.).

Uma músicaBe my wife, David Bowie.

Beleza e fogos de artifício

Em dois filmes que revi há pouco, exemplos opostos de como um cineasta aproveita o próprio virtuosismo estético.

No primeiro, O sol, de Aleksandr Sokúrov, as cores filtradas e os andamentos vagarosos, que realçam cada gesto dos personagens e cada detalhe do cenário, do tique-taque de um relógio aos passos coreografados de um ganso, ajudam a compor uma atmosfera de isolamento, em que os dias anteriores à rendição japonesa na Segunda Guerra são vividos como uma suspensão onírica, quase surreal. Se Hannah Harendt formulou o conceito de banalidade do mal em cima de um funcionário medíocre do nazismo, aqui o imperador Hiroito é mostrado como uma criança alheia ao fato de ter se associado a Hitler, enviando  milhares dos seus soldados para a morte. Uma inocência do mal, se é que dá para dizer assim, ideia que não existiria não fosse o esplêndido aparato cênico montado pelo diretor russo.

Já em Um beijo roubado, de Wong Kar Wai, a atmosfera está presente não para ajudar a contar a história, mas para ser notada e aplaudida como elemento autônomo. Por que uma cena é vista pela câmera de segurança de um café? Por que mostrar uma briga numa resolução de imagem noturna, com as cores saturadas e o efeito da velocidade mais lenta? Em filmes anteriores do diretor, especialmente Amor à flor da pele e o terceiro segmento de Eros, a beleza era ainda mais deslumbrante, mas estava sempre a serviço do roteiro. Em Um beijo roubado, embora as presenças de Norah Jones, Rachel Weisz e Natalie Portman, vira apenas fogo de artifício, a tentativa de nos distrair de uma trama e de personagens que não têm quase nada a dizer.

Dez motivos para um escritor iniciante cursar uma (boa) oficina literária

(O jornal Zero Hora me pediu e publicou esta lista numa matéria sobre o livro Oficinas Literárias: Fraude ou Negócio Sério?, de  José Hildebrando Dacanal):

1. Para quem está num nível ainda básico de texto, é a chance de queimar rapidamente etapas iniciais e obrigatórias do aprendizado.

2. Para quem nunca estudou letras nem gostou de ler crítica, é a chance de ter contato, mesmo que resumido, com as principais técnicas, discussões e correntes da história da literatura. Parece burocrático, mas evita a tentação de reinventar a roda.

3. Para quem só teve o texto avaliado pela mãe e pela irmã, é a chance de ouvir opiniões de gente com algum distanciamento e alguma afinidade com a literatura.

4. Para quem é indisciplinado ou tem dificuldade de se concentrar, é a chance de passar um tempo escrevendo regularmente, o que é sempre benéfico.

5. Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.

6. A oficina treina e melhora a leitura, o que é condição básica para fazer ficção.

7. Para muita gente esta é a primeira chance de conviver ao vivo com quem gosta de escrever. Isso pode ser importante em muitos aspectos, dos mais solenes – troca de experiências, leituras e opiniões – aos mais dramáticos e divertidos – contatos futuros, informações sobre o meio literário e editorial, observação do comportamento alheio em guerras de ego, etc.

8. Uma oficina decente faz exercícios com diversos estilos, narradores, registros e eventualmente gêneros. Isso pode ajudar a descobrir uma vocação escondida.

9. Ainda no item 8: a oficina não dá talento a ninguém, e sim melhora a técnica, que é o instrumento para levar o talento à página em branco. Não imagino como possa acontecer o contrário, isto é, as aulas castrarem o potencial de alguém.

10. Ainda no item 9: há um momento, depois de terminado o curso e passado algum tempo, em que o aluno precisa se libertar do que aprendeu em aula. Mas até para isso a oficina é útil: ela dá os instrumentos para que este aluno encontre sua própria voz, se ela existir em algum lugar.

Feriado

Uma exposição – Jean Dubuffet no Tomie Ohtake.

Um livro de quadrinhosSábado dos meus amores, de Marcelo Quintanilha (Conrad, 64 págs.).

Uma reportagem – Jean Hatzfeld e Jonathan Tornovnik (fotos) sobre Ruanda na Serrote 2.

Um filmeAmantes, de James Gray.

Uma músicaTen Million Slaves, Otis Taylor.

Resoluções antecipadas de ano novo (1)

1. Não ouvir nenhuma rádio FM.

2. Não assistir a nenhum trailer de filme.

3. Não escrever nenhuma crítica ou orelha anônima de livro ruim.

4. Não ler nenhum ensaio com enfoque sociológico sobre um romance.

5. Não ler nenhuma reportagem do assim chamado novo jornalismo, muito menos do assim chamado jornalismo literário.

6. Não participar de nenhum debate cujo tema é como fazer para incentivar a leitura no Brasil.

7. Não acessar nenhuma caixa de comentários de nenhum blog.

8. Não ir a nenhuma exposição de arte eletrônica, videoarte ou arte conceitual.

9. Não ir a nenhuma estreia de peça com atores amigos (para evitar as risadas de incentivo de outros atores amigos na platéia).

10. Não ir a nenhuma cabine de cinema para imprensa (para evitar as risadas dos críticos que, no caso de filmes que citam outros filmes e/ou não estão legendados, gostam de mostrar que entendem piadas metalinguísticas e/ou em outro idioma).

(ver Resoluções antecipadas 2)

Música do dia

Via Marcelo Ferla: