Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (16)

por Michel Laub

Angélica Freitas, autora de Rilke shake “Quando era repórter, escrevia os poemas no computador, entre uma matéria e outra. Muitas vezes escrevi direto no blog. Depois passei um tempo viajando e comecei a escrever em cadernos. Gosto de cadernos do tipo composition book, com ou sem pauta, depende da safra. Sempre compro cadernos quando viajo. Adoro terminar um caderno, mas a primeira página me intimida. Por isso, costumo começar na segunda ou na terceira. Para mim, o ideal é escrever todos os dias, de manhã cedo, tomando café. Gosto de escrever e me esquecer dos poemas. Se me lembrar deles depois, pode ser um bom sinal. Minha caneta favorita ainda é a Bic.”

Marcia Tiburi, autora de Magnólia “Escrevo literatura para não enlouquecer. Pode parecer exagero, coisa de escritor. Só eu sei quando o morcego branco pousa em meu ombro e muda de cor várias vezes até escorrer aquele filete de sangue ao andar de baixo enquanto parece saltar sobre mim. Para me proteger tenho a minha santa cujo nome não conto para qualquer um, um copo de vinho do porto, água ou café que nem sempre bebo, fotos das minhas irmãs, São Jorge, flores num vaso, os livros do dia a dia ao meu redor, a ordem musical do espaço vazio, a companhia dos meus mortos e dos mortos de outros. Quando, depois de dias, a imaginação ameaça cortar-me em mil pedaços, sei que é a hora de sentar e demorar sem medo no silêncio que ampara a perdição dos narradores.”

Marcio Renato dos Santos, autor de Minda-Au “Escrevo o tempo todo, principalmente quando não estou diante do computador. Caminhar. Sinto necessidade de seguir pelas ruas, todo dia, até na chuva – e em Curitiba chove. São seis, sete quilômetros de onde moro até um parque, e retorno. No trajeto, 90 ou 100 minutos, faço literatura. Penso nas personagens, na trama, na linguagem, elaboro cenas, frases, diálogos. Volto. Moro no quarto andar. Sigo pelos degraus. Abro a porta, fecho e vou até o escritório. O computador está ligado, sento na cadeira, pronto. Começo a escrever, e todo o plano anterior, da caminhada, se desfaz. O que sai é outra prosa. Daí, tenho café, que me acalma, água com gás pra me estimular. Escrevo, reescrevo. Sigo, se for em silêncio, melhor. Mas se houver som, dança de tamancos no andar de cima, solo de tuba, no de baixo, sai do mesmo jeito. Sai. De manhã ou à noite. Também no horário do almoço, entre os turnos do trabalho. E trabalho a fazer textos, oito horas todo dia. Descanso do trabalho a escrever ficção, a reescrever. Sonho com meus textos. Minda-Au, publicado pela Record em 2010, surgiu das madrugadas. Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul, o segundo livro, do ano passado, é fruto da insônia. O terceiro, 934, que saiu pela Tulipas Negras, e teve toda a tiragem distribuída dia 25 de fevereiro em Curitiba, durante a Quadra Cultural 2012, é do mundo dos sonhos. Escrevo durante as férias, com caneta em cadernos. Se viajo, uso as máquinas do hotel. Tenho de escrever. Se não? Dá vontade de derrubar postes, atropelar carros com meus sapatos ou arrancar paralelepípedos e atirar por aí. Mas não. Escrevo, escrevo e escrevo assim, sem manias, de qualquer jeito, e o texto acontece.”

Paulo Roberto Pires, autor de Se um de nós dois morrer “É de se supor que um sujeito que leva onze anos entre a publicação de uma novela e um romance não tenha qualquer ritual para escrever – já que, também como se pode imaginar, não há exatamente um rotina de trabalho. Ou que, ao contrário,  tenha todas as manias  possíveis e imagináveis – o que faz dos preparativos para a escrita uma rotina que eventualmente não deixa tempo para a escrita. Queria ser Bartleby para não escolher nada, mas aqui tenho que marcar as duas opções. Quando acho algo para trabalhar, um fiapo de ideia, e em geral é fiapo mesmo, vem o ritual particular: fico me alimentado de leituras, as mais diversas, quase sempre de não-ficção, que só na minha cabeça podem nutrir aquela sugestão para ficção. Não é pesquisa, é vagabundagem mesmo – que inclui muita caminhada na praia matutando as conexões possíveis e impossíveis entre essas leituras e, eventualmente, a forma de uma frase. Escrever, propriamente, escrevo em qualquer lugar – quem trabalhou ou trabalha em redação consegue se isolar sem silêncio ou carneirinhos em volta – e, ultimamente, em caderninhos que sempre colecionei e, sabe-se lá porque, pouco usava. Neles, misturo tudo: lista de tarefas do dia, contas, compromissos de trabalho, ideias, citações copiadas e até trechos quase prontos. Um dia, sem muito aviso, tudo isso vai se juntar a arquivos de Word e emails. E aí começa o trabalho.”

Ronaldo Cagiano, autor de Dicionário de pequenas solidões “Desde os remotos tempos de minha adolescência, quando esbocei meus primeiros textos de prosa ou poesia, não me flagrei escravo de nenhum método ou mania; não recordo de estipular qualquer disciplina, horário, obrigação, nem mesmo um sistema de orientação para meu processo criativo que resultem numa condição pré-estabelecida para que as coisas funcionem. Nau sem rumo e sem ritmo, vou em busca do desconhecido, do insondável e sempre há um porto para atracar. E aí, uma palavra, uma ideia, um insight, um pequeno acontecimento ou flagrante quotidiano, algo remoto no inconsciente ou na memória, ou mesmo uma conversa entreouvida do acaso num cenário doméstico ou urbano, são capazes de me fornecerem algumas pegadas,  provocando em mim a necessidade de escrever uma história ou construir um poema. São essas nuances que acabam deflagrando a centelha inicial, que culmina numa frase jogada a esmo num pequeno bloco de anotações que sempre carrego, ou num fluxo hemorrágico de palavras que migram logo para a tela branca do computador. Muitas vezes, esse impulso inicial não se converte necessária ou imediatamente num texto. E isso pode ficar hibernado certo tempo até ganhar corpo, identidade e fluidez narrativa.  Escrevo em qualquer situação, tempo e lugar: durante o trabalho (sou bancário, e uma das formas de exorcizar essa vida bovina confinada em currais de vidro é a literatura);  durante meus deslocamentos diários (a pé, de metrô, de ônibus),  assistindo a um filme, num café ou numa livraria;  ou ainda enquanto durmo, quando faíscam no sono e nos sonhos mundos e situações que me sopram nos ouvidos e então tenho a necessidade de levantar e anotar para não perder a ideia. A literatura surge do imprevisivel e as histórias e seus personagens é que me conduzem e ditam as regras. Depois, vem o acabamento, o crucial processo de leitura, releitura, autocrítica, estilete.”

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