Michel Laub

Mês: março, 2022

Por que sósias são engraçados

Ariano Suassuna numa de suas aulas-espetáculo, Brasília, 2013.

“O grande pensador francês Henri Bergson dizia que o cômico é resultado da superposição do mecânico ao vivo (…). A gente ri quando espera um acontecimento ou uma história que tenha a inventividade e a graciosidade da vida (…) e, em vez disso, o que aparece é algo de mecanizado, grosseiro (…). Por que a gente acha graça numa queda? Ele dizia, porque se o espírito mergulhasse a carne de tal maneira que a carne também se espiritualizasse, nós nunca cairíamos. Ao escorregar, nós faríamos o movimento gracioso de recuperação. Mas a gente cai que nem uma tábua (risos) (…). Ele também perguntava, por que os gêmeos são engraçados? (…). Se eu tivesse dois irmãos gêmeos, eu entrava aqui agora e vocês aceitavam. Aí entrava outro igualzinho, e vocês iam ficar… Quando entrasse o terceiro vocês cairiam na gargalhada (risos). Porque daria impressão de que a gente tinha se fabricado em série, mecanicamente.”

Fim de semana

Uma série no Netflix – Trilogia Kanye.

Outra – Diários de Andy Warhol.

Um livro para consultar – Diários de Andy Warhol (L&PM, 851 págs.).

Um romance – Os Coadjuvantes, Clara Drummond (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um filme médio – Quebrando o Gelo, Peter Flinth.

Refugiados: presente e futuro

No início deste ano, tendo passado 2021 quase todo em Berlim, remexi documentos de família numa pasta antiga, que eu tinha aberto duas ou três vezes na vida. Nela estão os registros formais da vinda do meu pai ao Brasil, ele com oito anos, junto com a mãe e uma irmã, num dos últimos navios que deixaram o porto de Hamburgo trazendo judeus para a América do Sul em 1939.

É uma experiência curiosa voltar a ter contato com esse material depois de estudar um pouco de alemão. Há uma sensação ambígua, uma familiaridade incômoda, em reconhecer certos detalhes do idioma das autoridades nazistas aplicado a pessoas próximas – cuja sobrevivência determinou, entre tantas outras coisas, o fato de eu ter nascido.

A leitura dos documentos não desmentiu nenhum fato da grande história, claro, nem recontou uma saga de emigração forçada cujos pontos importantes eu já conhecia. Mas é como se os célebres eufemismos administrativos do Terceiro Reich, agora formalizados num vocabulário que não me soa mais tão estranho e repelente, trouxessem uma consciência mais específica de um horror nem sempre fácil de nomear: as vacinas listadas num certificado, o “passaporte estrangeiro” que a minha avó utilizava com um “Sara” acrescentado ao seu nome.

Em meio aos papeis da pasta encontrei algo inusitado, de que eu não sabia ou não lembrava: um processo do fim dos anos 1960, no qual meu pai pede indenização ao Estado alemão por traumas de guerra. A petição, os trâmites e a sentença estão vertidos para o português, e também aí se vê a distância entre a frieza da linguagem traduzida – o modo como burocratas recontam o dia-a-dia sob Hitler, o jargão de médicos chamados a dar pareceres – e o pesadelo que ela foi capaz de justificar tão poucas décadas antes.

Não vou entrar em maiores detalhes do processo. Talvez um dia o faça num texto de outro gênero, se a família não achar indevido. Apenas digo que nessas páginas há um debate sobre a natureza do dano psicológico em crianças refugiadas, o que se estende a adultos. No consenso cultural da época, era muito mais aceito falar em danos materiais, palpáveis segundo uma lógica de soma e subtração. Isso mudou de lá para cá, não há dúvida. Mas em que grau, e devido a quais instrumentos?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/3/2022, sobre meu pai, Stefan Zweig e a Ucrânia. Íntegra aqui.

A dinâmica das trevas

Em janeiro de 1998, num ensaio publicado na revista Bravo, Olavo de Carvalho sintetizou o que passaria as duas décadas seguintes martelando: a ideia de que o regime militar brasileiro havia sido negligente naquilo que ele já chamava de guerra cultural.  Enquanto a direita se preocupara apenas com o poder político e econômico, a esquerda teria lido Antonio Gramsci e buscado uma hegemonia mais efetiva, fixada no “subconsciente popular”.

Para quem acompanhava o articulista, não havia nada de novo no texto. A curiosidade era o último parágrafo: uma ideia atribuída a Roberto Campos, que estimava em trinta anos o tempo para uma guerra cultural se traduzir em ganhos políticos. Os exemplos citados eram os Estados Unidos e a Inglaterra, onde Ronald Reagan e Margaret Thatcher seriam frutos do longo combate intelectual promovido por nomes como Russel Kirk, Roger Scruton e Paul Johnson.

Lida hoje, a passagem tem algo de premonitório. Os tais trinta anos foram abreviados para vinte por atalhos que nem podiam estar no horizonte de Roberto Campos, como o surgimento das redes sociais e dos smartphones. Idem por eventos da economia e da política que misturam razões estruturais, atos individuais e acaso na ascensão do reacionarismo atual – da crise de 2008 aos métodos da Lava Jato, das jornadas de 2013 ao papel de Eduardo Cunha na queda de Dilma, da reação ao discurso das minorias à facada em Jair Bolsonaro.

Ao menos em parte, no entanto, não há como explicar o Brasil que desaguou em 2018 sem voltar a Olavo. A questão é: qual Olavo? A resposta talvez passe pelo ensaio de 1998: prevaleceram as ideias defendidas pelo seu autor ao longo de duas décadas, com a ajuda do atalho tecnológico, ou a barbárie que tomou o país tem menos a ver com conteúdo do que com forma, isto é, com o modo como essas ideias se espalham segundo a dinâmica da Internet?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/2/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma reportagem – Sabrina Tavernise sobre os refugiados da Ucrânia (aqui).

Uma entrevista – Antonio Gelis filho sobre Putin e a Rússia (aqui).

Outra – Paulo Cesar Araújo sobre Roberto Carlos (aqui).

Um texto de 1972 – Pauline Kael sobre O Poderoso Chefão (aqui).

Uma reprise – A Professora de Piano, Michael Haneke.

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