Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (11)

por Michel Laub

Alexandre Soares Silva, autor de A coisa não-deus – “Escrevo com caneta, em folhas soltas. Me obrigo a escrever pelo menos uma linha por dia. Geralmente acabo escrevendo um parágrafo ou dois – num muito bom dia, uma página e meia. Se gosto do que escrevi no dia, fico andando em círculos pelo quarto, de puro contentamento, fazendo gestos absurdos. Idéias e frases surgem no meio da noite e tenho que acordar pra anotar. Gosto de escrever de madrugada, porque só consigo pensar quando todo mundo está dormindo. A sensação quando todo mundo está dormindo – três, quatro da manhã – é a de que todo mundo morreu faz tempo, e finalmente posso dizer a verdade, pensar a verdade.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

Cristóvão Tezza, autor de O filho eterno – “Se o livro já vai a meio, nada me perturba muito; reservo três horas da manhã para ele e toco em frente. Mas começar um livro novo é sempre torturante. O primeiro sintoma é uma síndrome de arrumação do escritório, que vai obsessiva ao último clipe perdido na última gaveta, até finalmente criar coragem e começar a olhar para a página em branco.”

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

Paulo Scott, autor de Voláteis “Embora seja um neurótico sem salvação, penso que não tenho grandes manias (diretas e decisivas) relacionadas ao momento de escrever. Gosto de escrever em casa, no meu desktop Dell de dois mil e três, que fica sobre uma mesa enorme que mandei fazer em noventa e sete e que batizei carinhosamente de Frankenstein e que vem me acompanhando deste então. Preciso de silêncio e que a mesa esteja sem aquelas pilhas de documentos e jornais e revistas que preciso ler com urgência, mas que acabo não lendo. Gosto de poder olhar as nuvens enquanto penso (e a parede à frente não pode ter quadro algum, nada que distraia, gosto de parede branca, vazia). Quase sempre digo pra mim mesmo que estou fazendo aquilo antes de tudo por prazer – claro, há muita angústia e pressão na exigência de produzir com qualidade, por isso, talvez, tenha de lembrar a mim mesmo que é preciso o mínimo de prazer. Há coisa de meses, não sei precisar, tenho desligado a internet, o que nem sempre é possível. Às vezes preciso de trilha sonora; o jazz prevalece, mas escuto muito os discos do Júpiter Maçã, Avalanches, King Crimson, Tom Waits, Julio Reny, Constantina, Radiohead. Gosto de selecionar uma faixa e deixá-la repetindo; sei que é estranho, mas, quando estou disperso demais, é o que mais ajuda a me concentrar.”