Michel Laub

Mês: outubro, 2014

Suando no apocalipse

Num ensaio sobre “Júlio César”, filme de Joseph Mankiewcz baseado em Shakespeare, Roland Barthes vê na transpiração dos personagens um sinal de moralidade. “Todos suam porque debatem algo consigo mesmos”, escreve o pensador francês. Homens até então virtuosos, como Brutus, demonstram o “enorme trabalho fisiológico” que dá abandonar princípios para cometer um crime.

Se há uma moral no suor derramado em São Paulo, que teve dias de 37 graus em meio a uma crise hídrica sem precedentes, ela também deveria vir de uma espécie de culpa: a lembrança de que o clima excêntrico dos últimos anos nasce de uma responsabilidade coletiva, dos danos que nosso estilo de vida causa à natureza segundo a quase unanimidade dos cientistas.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 24/10/2014. Íntegra aqui

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Fim de semana

Um livro – Jan Karski, Yannick Haenel (Record, 160 págs.).

Uma exposição em Porto Alegre – Moacyr Scliar no Santander.

Um peixe na Praia Grande – Caiçara.

Um filme médio – O juiz, David Dobkin

Um disco de 1971 – In my own time, Karen Dalton.

Egopress

– Nos próximos dias participo de eventos na Praia Grande (23/10, 19h, biblioteca Porto do Saber, com Alberto Martins, João Anzanello Carrascoza e Rogério Pereira), no Sesc Ipiranga/SP (26/10, 19h30, na cozinha da Ivana Arruda Leite) e na Casa das Rosas/SP (28 de outubro, 19h30, encontro com o grupo de estudos literários Jardim Alheio).

A palestra matemática perfeita

João Moreira Salles sobre o discurso de Artur Avila ao ganhar a Medalha Fields de matemática, maior prêmio já concedido à ciência brasileira (texto publicado na Piauí de setembro):

“Às duas da tarde de sexta-feira (…), Avila subiu ao palco. Na segunda fileira, um senhor se inclinou para a frente. Alto, magro, barba e cabelos imaculadamente brancos, olhos intensos e rosto afilado de zigomas pronunciados, lembrava um místico de novela russa. Era John Milnor. Pense num gigante matemático, salpique gênio a gosto e este será o americano Milnor, de 83 anos, Medalha Fields 1962 (e mais quantos prêmios relevantes existam na matemática). Em 2001, ele viajara ao Rio para integrar a banca de defesa de tese de Avila. Agora, segurava um bloco no qual se avistava uma folha virgem, pronta para receber anotações. Estava pronto para começar e, se tivesse um lápis, o levaria à ponta da língua.

Todo de preto, vestindo jeans e camiseta, Avila se dirigiu ao auditório lotado: ‘Tenho certa dificuldade em falar para tantas pessoas. Já tentei explicar meu trabalho várias vezes, sem muito sucesso, e hoje vou tentar pela última vez.’ Então projetou o primeiro slide. Dez minutos depois, Milnor largou discretamente o bloco na poltrona vazia a seu lado. A folha continuava limpinha, limpinha.

Um matemático russo certa vez descreveu a palestra matemática perfeita: no primeiro terço, palestrante e plateia compreendem o que está sendo dito; no segundo, o palestrante compreende e a plateia não; no terço final, ninguém compreende coisa nenhuma. Avila parecia ter entrado direto no segundo terço e prosseguira assim até o final. Welington de Melo, na condição de uma das raras almas na plateia que o compreendiam, balançou a cabeça. Horas depois, daria seu veredicto: ‘Foi uma porcaria… O Artur não pode fazer isso. Ele tem que ser um embaixador do campo. Precisa ir devagar.’

Avila não ligou. Aparentemente, outras pessoas também não: mal terminou de falar, foi cercado por dezenas e dezenas de jovens, todos querendo uma foto a seu lado.”

Fim de semana

Uma exposição em Londres – Turner.

Três em Gotemburgo – Vivian Maier, Gauguin/Van Gogh/Bernard, Gótico/Heavy metal,

Um filme ok – O último concerto, Yaron Zilberman

Outro – Mesmo se nada der certo, John Carney.

Um livro – The cat’s table, Michael Ondaatje (Alfred A. Knopf, 269 págs.).

Novo vocabulário político

A linguagem do poder democrático pode ser chata: porcentagens, orações adversativas sem glória. Um governo só consegue ser funcional com alguma reverência aos fatos. Talvez desse para contar a história brasileira dos últimos vinte anos pelo modo como nossos principais partidos sublinharam ou negaram – sem sucesso – tal monotonia.

Em tese, a social democracia petista é a primazia da política sobre a ação econômica. O social liberalismo do PSDB seria o contrário. No primeiro caso, o discurso foi temperado com algum getulismo e retórica grandiloquente setentista; no segundo, com toques de República Velha e jargão tecnocrata noventista.

Apesar das diferenças de sotaque, visão de Estado e visão da sociedade, ambos são partidos reformistas do fim do século 20. Seus governos têm em comum, ao menos, a ênfase na prosperidade como motor de justiça social. O que volta e meia leva a uma abordagem quantitativa: cidadania é igual a renda, educação é igual a número de alunos na escola ou na faculdade.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/10/2014. Íntegra aqui.

Debates atuais: roteiro básico

– A ataca B de modo agressivo. B responde de modo igualmente agressivo. A acusa B de baixar o nível da discussão.

– Figurão do meio cinematográfico ou teatral perde cargo numa secretaria. Dá entrevista denunciando dirigismo/patrulha ideológica. Figurão ligado à secretaria rebate denunciando as velhas panelas do setor. Um abaixo-assinado é feito. Notas saem em colunas sociais. Em uma coisa todos concordam: faltam verbas.

– Acontece alguma coisa estranha envolvendo Machado de Assis: editora recusa originais de um texto seu enviado com pseudônimo, celebridade diz que o considera chato ou cita frase de Brás Cubas fora de contexto. Cai uma tempestade na cabeça do(s) réu(s). Índices de leitura no país continuam ridículos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 26/9. Íntegra aqui.