Michel Laub

Mês: setembro, 2021

Saudades do quê?

Existe um fenômeno curioso no YouTube. Nos vídeos de rock/pop nacional dos anos 1980/1990, por mais irrelevante que sejam a canção e o artista, os comentários costumam celebrá-los como emblemas de uma época de ouro, quando o cenário musical do país ainda não estaria tomado por marketing e vulgaridade estética. “Como pode tanta música legal numa década só?!!!”, pergunta um desses palpiteiros depois de ouvir Transas e Caretas (1984), do Trio Los Angeles. “As pessoas realmente se divertiam”, sentencia outro na página de um playback de Meu Ursinho Blau-Blau (1983), do Absyntho, apresentado no programa da Angélica. “Hj VC vê no alta horas o cantor tá cantando os jovens tudo parado, lesados, parecem zumbis, congelados, só se divertem se tiver bebidas e drogas.”

À primeira vista, trata-se de gosto pessoal. Ou de nostalgia. O que inclui, em alguns casos, um velho hábito da meia idade: confundir a própria decadência com a decadência objetiva do mundo. Mas não haveria outro sintoma aí, o sentimento cultural regressivo que vira um posicionamento político? Comecei a pensar a respeito ao notar como os internautas avaliam o legado de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana e figura central da minha adolescência, em faixas que vão de Será (“para lavar os ouvidos com tanta sujeira que é produzido hoje”) a Pais e Filhos (“como eu queria voltar no tempo em que o mundo ainda era bom”). Ou em comentários que falam de ideologia, sexualidade, comportamento: “Já zoava os jovens pseudo-revolucionários nos anos 80” (em Geração em Coca-Cola), “essa musica (…) fala sobre a Venezuela de hoje” (em La Maison Dieu), “gay sem mimimi” (em Que País é este?), “aí me chamam de homofóbico pq crítico o tal do cantora Pablo” (em Meninos e Meninas).

É claro que há de tudo nesses posts: zoeira, burrice, má-fé e até debates com ideias razoáveis, envolvendo fãs jovens e velhos, de esquerda ou da direita moderada. Mas para o que interessa aqui valem apenas os juízos vindos – ou que parecem vir, ou que não seria estranho se viessem – dos que têm posições reacionárias sobre costumes. Ou seja, dos que hoje chamamos de bolsonaristas. A princípio, o entusiasmo deles com a Legião Urbana é incompatível com o espírito da banda – que, ao menos no início da carreira, na transição entre a ditadura militar e a Nova República, fixou-se no imaginário da juventude como expressão de uma postura política contestatória, a favor da liberdade e da aceitação de diferenças. 

Só que talvez não seja tão simples. O inconformismo não é um valor em si, e seus alvos mudam com o tempo. O grito antissistema de uma letra como Que País é Este, composta em 1979 e gravada em 1987, com os célebres versos “nas favelas, no Senado/sujeira para todo lado”, pode acabar na boca de um democrata reformista ou na de alguém que prega a intervenção militar em 2021. No caso de Renato Russo, é tudo apenas questão subjetiva, como ocorre na interpretação de qualquer texto? Ou haverá algo em seu trabalho que fala de perto ao fã retrógrado – e o que lemos nas mensagens do You Tube faz mais sentido do que queremos reconhecer?

Início de texto publicado na revista Piauí, edição de setembro/2021. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um festival – Berlin Art Week.

Uma programação no festival – Planetário.

Um disco de 2019 – Pang, Caroline Polachek.

Um disco de 2018 – Cavala, Maria Beraldo.

Um livro – Qualquer lugar menos agora, JP Cuenca (Record, 240 págs.).

Formas de colaborar com o horror

O que a história faz com artistas que colaboram com o totalitarismo? Depende. Uma exposição em Berlim lembra que a carreira deles nem sempre termina com o fim dos regimes aos quais servem, como seria esperado. Die Liste der Gottbegnadeten, em cartaz até 5 de dezembro no Deutsches Historisches Museum, reúne pinturas e esculturas produzidas nas décadas seguintes à Segunda Guerra por nomes que, se no geral não fizeram propaganda nazista aberta, silenciaram por conveniência enquanto eram ajudados em encomendas e exposições do Terceiro Reich.

O título da mostra faz referência a uma lista elaborada em 1944 por Hitler e Goebbels, com gente das artes visuais, literatura, música e teatro que foi dispensada dos esforços militares alemães em função de um talento “dado por deus”. Seus trabalhos seriam o contraponto à “degeneração” do cubismo, surrealismo, dodecafonismo e outras correntes modernas, numa ideia que faz sentido dentro da lógica nacional-socialista: como se sabe, essa foi uma ideologia que tentou fundir política e estética, com a última representando simbolicamente os ideais arianos classicistas /regressivos.

Nas décadas posteriores à guerra, uma parte desses artistas se dedicou a justificar suas antigas escolhas. Num vídeo que está no Historisches Museum, por exemplo, o pintor Paul Mathias Padua cita pequenas negativas e divergências com prepostos do regime para se declarar uma espécie de resistente discreto (tão discreto que ninguém ficou sabendo), o que contradiz sua alegação de ignorância quanto aos crimes oficiais do período (no qual ele já tinha mais de 30 anos). A conversa não cola, claro, porque tudo é autoexplicativo num tempo em que alguns faziam sucesso enquanto outros eram perseguidos e mortos, mas isso não impediu que as obras do autor fossem compradas por coleções institucionais e privadas da segunda metade do Século XX.

Do mesmo modo, o conforto material e até um certo prestígio acompanhou as décadas finais de muitos integrantes da lista de Hitler. Josef Wackerle seguiu dando aulas até se aposentar. Joseph Enseling fez trabalhos para indústrias no Vale do Ruhr. Willy Meller teve projetos patrocinados pelo Correio Alemão e concebeu um monumento às vítimas da guerra em Frechen. Josef Wackerle ganhou um prêmio em Munique e novas encomendas, como a colaboração no design de um prédio da Siemens em Erlangen, do mesmo arquiteto com quem atuou na época de ouro do nazismo.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 10-9-21. Integra aqui.

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

Sofrimento e simpatia

Primeiro, uma fala do pintor Francis Bacon (1909-1992) no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs., tradução de Maria Theresa de Resende Costa): “O sofrimento das pessoas e a desigualdade entre elas é o que gerou a grande arte (…). Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? (…) É possível (…) que uma sociedade (…) seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”

Depois, um ataque do escritor Aimé Césaire (1913-2008) ao sociólogo Roger Caillois em Discurso sobre o Colonialismo, livro que comentei aqui meses atrás (Veneta, 136 págs., tradução de Rogério de Campos): “Os museus dos quais ele se envaidece, melhor seria, no geral, não precisar abri-los (…). A Europa [faria] melhor em tolerar ao seu lado civilizações vivas, dinâmicas e prósperas, inteiras e não mutiladas (…), em vez de nos permitir admirar, devidamente rotulados, os seus membros esparsos, os membros mortos (…). O próprio museu não é nada; ele não quer dizer nada (…) lá onde a beata satisfação consigo apodrece os olhos (…); onde, confessado ou não, o racismo silencia a simpatia (…). Não: na balança de conhecimento, o peso de todos os museus do mundo nunca será o mesmo de sequer uma centelha de simpatia humana.”

Penso nos dois trechos ao visitar o recém-inaugurado Humboldt Forum, de Berlim. Trata-se um museu que reúne acervos de etnografia, misturando ciência e arte, num antigo palácio prussiano cujo estilo arquitetônico original foi restaurado. A combinação entre forma e conteúdo do projeto, que demorou quase vinte anos para ser concluído, é motivo de polêmica há tempos: além das referências a glórias imperiais e cristãs na fachada do prédio, parte das coleções ali presentes foi montada durante o auge do colonialismo alemão e europeu.

O debate encontra eco num mundo crescentemente atento ao papel das instituições culturais – à não-neutralidade delas naquilo que adquirem, guardam e expõem. Muitas das peças do Forum, que está sendo visto como uma espécie de Museu Britânico berlinense e contemporâneo, têm a legitimidade contestada. Exemplo são cerca de 500 dos chamados Bronzes do Benim, produtos reconhecidos de saques ingleses no Século XIX que a Alemanha prometeu devolver à Nigéria nos próximos anos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13-8-21, sobre o Humboldt Forum e a estátua do Borba Gato. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma fala – Caetano Galindo sobre T.S. Eliot (aqui).

Uma coleção em Berlim – Hamburger Bahnhof

Um exposição no Hamburger Bahnhof – Pauline Curnier Jardin.

Um texto – Juliana Cunha sobre Anna Kariênina (aqui).

Outro – Camila von Holdefer sobre J.M. Coetzee (aqui).

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