Michel Laub

Mês: setembro, 2021

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

Sofrimento e simpatia

Primeiro, uma fala do pintor Francis Bacon (1909-1992) no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs., tradução de Maria Theresa de Resende Costa): “O sofrimento das pessoas e a desigualdade entre elas é o que gerou a grande arte (…). Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? (…) É possível (…) que uma sociedade (…) seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”

Depois, um ataque do escritor Aimé Césaire (1913-2008) ao sociólogo Roger Caillois em Discurso sobre o Colonialismo, livro que comentei aqui meses atrás (Veneta, 136 págs., tradução de Rogério de Campos): “Os museus dos quais ele se envaidece, melhor seria, no geral, não precisar abri-los (…). A Europa [faria] melhor em tolerar ao seu lado civilizações vivas, dinâmicas e prósperas, inteiras e não mutiladas (…), em vez de nos permitir admirar, devidamente rotulados, os seus membros esparsos, os membros mortos (…). O próprio museu não é nada; ele não quer dizer nada (…) lá onde a beata satisfação consigo apodrece os olhos (…); onde, confessado ou não, o racismo silencia a simpatia (…). Não: na balança de conhecimento, o peso de todos os museus do mundo nunca será o mesmo de sequer uma centelha de simpatia humana.”

Penso nos dois trechos ao visitar o recém-inaugurado Humboldt Forum, de Berlim. Trata-se um museu que reúne acervos de etnografia, misturando ciência e arte, num antigo palácio prussiano cujo estilo arquitetônico original foi restaurado. A combinação entre forma e conteúdo do projeto, que demorou quase vinte anos para ser concluído, é motivo de polêmica há tempos: além das referências a glórias imperiais e cristãs na fachada do prédio, parte das coleções ali presentes foi montada durante o auge do colonialismo alemão e europeu.

O debate encontra eco num mundo crescentemente atento ao papel das instituições culturais – à não-neutralidade delas naquilo que adquirem, guardam e expõem. Muitas das peças do Forum, que está sendo visto como uma espécie de Museu Britânico berlinense e contemporâneo, têm a legitimidade contestada. Exemplo são cerca de 500 dos chamados Bronzes do Benim, produtos reconhecidos de saques ingleses no Século XIX que a Alemanha prometeu devolver à Nigéria nos próximos anos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13-8-21, sobre o Humboldt Forum e a estátua do Borba Gato. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma fala – Caetano Galindo sobre T.S. Eliot (aqui).

Uma coleção em Berlim – Hamburger Bahnhof

Um exposição no Hamburger Bahnhof – Pauline Curnier Jardin.

Um texto – Juliana Cunha sobre Anna Kariênina (aqui).

Outro – Camila von Holdefer sobre J.M. Coetzee (aqui).