Michel Laub

Mês: março, 2012

Fim de semana

Uma série – The wire.

Um documentário – Raul, Walter Carvalho.

Uma confeitaria no Sírio Libanês – Dulca.

Um livro – Poemas, Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 165 págs.).

Um disco – Hold beginers, M.Ward.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (22)

Antonio Prata, autor de Meio intelectual, meio de esquerda“Havendo silêncio e Coca Zero, escrevo em qualquer lugar. O ideal é que seja logo cedo, com a cabeça fresca, mas nem sempre é possível. (Se você vive da escrita, acaba sendo agente literário, secretário e office boy de si mesmo, o que obriga a dedicar boa parte do dia a negociar valores, preencher formulários, ler contratos, emitir notas, frequentar papelarias e  agências dos correios. Curioso paradoxo: quanto mais escritor você se torna, menos tempo tem para escrever.) Além de silêncio, Coca Zero & cuca fresca, uma impressora é muito bem vinda. Não sei por que fenômenos óticos ou metafísicos, palavras repetidas, frases truncadas e erros ortográficos se escondem na tela do computador, mas revelam-se na pagina impressa. Para escrever uma crônica, portanto, consumo uma pequena floresta em celulose. Sem impressora o processo é mais lento, mas flui. Impossível mesmo é escrever com barulho ou sem Coca Zero. Aí, não tem jeito.”

Evandro Affonso Ferreira, autor de Minha mãe se matou sem dizer adeus “Escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias e cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim.”

Francisco Alvim, autor de O metro nenhum “Escrevo quando minhas resistências ao ato de escrever falecem.”

Luiz Bras, autor de Paraíso líquido“Perdi completamente o hábito de escrever em cadernos ou bloquinhos. Escrevo sempre direto no computador, e jamais longe de casa. Nas viagens eu gosto de ler, ouvir música, andar, ler mais um pouco, conversar, beber, ler mais um pouco, dormir, ir ao cinema… Uso pouco o iPad e a web. Meu escritório é amplo porque durante a escritura de um conto ou de um romance preciso sempre de muito espaço para as revistas, os livros, as graphic novels, os mangás, as gravuras, os recortes de jornal… Costumo trabalhar com seis ou sete publicações abertas. Também tenho à mão uma coleção de documentários em DVD, sobre ciência e tecnologia. Não conseguiria escrever nem um miniconto longe desse material de consulta. Minha filha já se ofereceu pra passar todo esse acervo, item por item, pra meu laptop. Eu disse que seria perda de tempo. Desconfio que em cinco ou dez anos ele já estará em meu cérebro, armazenado numa prótese neurológica japonesa.”

Lygia Fagundes Telles, autora de Invenção e memória“Gosto de escrever ouvindo música sem palavras, música clássica. As personagens já exigem muito do escritor, o tempo é delas, então não dá para fazer mais nada além de ouvi-las.”

Rubens Figueiredo, autor de Passageiro do fim do dia“A verdade é que, comigo, não há nada que pareça ritual. Nem mesmo encontro na memória algum gesto ou método que eu repita. A rigor, nem lembro direito como foi que escrevi meus livros! Parece que, quando as ideias se definem um pouco melhor, eu simplesmente sento e escrevo, como posso, como dá. Talvez o que mais se aproxime de uma mania é o fato de eu ficar reescrevendo tudo mil vezes. E mesmo depois de tudo pronto e o livro publicado, eu achar que tenho de reescrever. Mas talvez seja injusto com os verdadeiros maníacos chamar isso de mania.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (21)

Alberto Mussa, autor de O senhor do lado esquerdo“Não sei se são manias, no sentido estrito, mas há certas condições indispensáveis ao meu processo criativo. Primeiro, só escrevo em casa, principalmente na minha mesa, embora possa mudar de ambiente de vez em quando. Isso porque escrevo à mão e posso carregar meu caderno pautado para o quarto, a cozinha ou o banheiro. Se estou escrevendo, ando com ele pela casa, debaixo do braço, o dia todo. Este caderno, é claro, nunca sai do apartamento.  Antes, porém, de começar a escrever, tenho que fazer o projeto integral do livro, faço mapas, esquemas, lista das personagens, com suas características e principais intervenções na história. Só depois do livro todo estruturado é que começo a escrever. Talvez minha grande mania seja, durante essa fase de estruturação, a de contar, oralmente, a história do livro, para as pessoas próximas (que muitas vezes não têm nenhuma relação com o mundo literário). Só me sinto capaz de escrever quando a história amadurece a ponto de poder ser verbalizada.”

Ignácio de Loyola Brandão, autor de A altura e a largura do nada “Mania é fechar todas as portas de armários e a porta do estúdio. Arrumo a mesa. Deixo um dicionário analógico do lado direito. Um bloco de anotações também fica próximo. Nele anoto andamento, duvidas, problemas, palavras consultadas, sinônimos.

As vezes nem toco nele, mas preciso dele ali. Meus cadernos e cadernetinhas são todas Claire Fontaine, aquela que os estudantes franceses usam no dia a dia do liceu. Quando vou, compro. Quando vão, peço, me trazem. Quando salvo um texto, preciso escrever o nome do arquivo, se não esqueço no dia seguinte. Talvez seja o Alzheimer chegando, talvez seja praticidade.

Faço minhas crônicas para o Estado e para a Tribuna, de Araraquara. Faço crônicas eventuais para house organs. Tenho os livros institucionais. As cartas. Ah, não consigo começar nada sem limpar os e-mails. Nisso levo, às vezes, meia hora. Por isso começo cedo, cerca de 6 da manhã. Quando escrevo um romance, ou algo meu mais longo, começo às 5 e vou até mais ou menos 10”.

João Almino, autor de Cidade livre “Não tenho manias ou superstições para escrever e, sim, rotina. Há décadas descobri que sem disciplina seria difícil produzir. Escrevo diariamente durante duas ou três horas tão logo acordo, antes de tomar café ou fazer qualquer outra coisa. Se não tiver o que escrever, revejo o que escrevi. Posso escrever num jato e dedico muitíssimo mais tempo depois às revisões. Não ponho despertador, mas isso é em geral muito cedo. No começo tinha o hábito de andar com um caderninho no bolso para anotar ideias ao longo do dia. Hoje no máximo levo uma folhinha de papel em branco no bolso, onde raramente anoto uma ou outra ideia. Nunca escrevo ficção fora dessas horas da manhã. O resto do dia está dedicado a outras atividades. À noite, sempre que posso, leio e, apenas quando absolutamente necessário, vou a bibliotecas, aos sábados, para fazer alguma pesquisa.”

Juliana Frank, autora de Quenga de plástico“Tenho poucas manias. Escrever é uma delas. Eu crio manias em cima dessa mania. Só escrevo roteiro com fonte courier. E literatura, fonte verdana. Daí eu respiro, paro em frente a folha branca, ameaçadora, estendo as mãos e agito os dedos nervosamente pelos teclados. Enfim, sai uma primeira frase. Acredito que ganhei o caminho e me levanto da mesa, tomo um banho, porque só escrevo se eu estiver limpa e com a franja imperiosamente penteada. Quando acerto muito na produção, resolvo logo ir para o bar. Sento lá na mesa, toda entusiasmada, sei que faço parte da confraria. As vezes grito: hoje quem paga sou eu. Com todos à minha volta, amigos, desconhecidos, cachorros perdigueiros e mulheres de batons comunistas vermelhos, penso: tudo isso é muito chato. Começo a me coçar. Saco meu caderno do bolso e rabisco. Em poucos minutos estou no táxi. Num tom de urgência, peço uma caneta pro motorista e reclamo que a minha já não presta mais. Saio batendo a porta do carro e as vezes esqueço de pagar. Sento em frente ao computador e recomeço de onde parei, com as devidas anotações. No começo, é proibido falar com os outros e atender telefone. Mas, assim que eu tenho a história já posso ligar pros meus amigos do bar e convidá-los para terminarem a noite na minha casa. E é assim, no meio da festa, que eu me divido entre o texto e os acontecimentos reais. Todos vão embora e eu continuo. Horas e horas mexendo e remexendo. Se eu tenho a história, posso escrever na banheiro, em casamentos e funerais, a menos que o padre não fale muito. Quer dizer, escrever é muito difícil. Porque é difícil começar, tomar coragem. Mais difícil é parar. A melhor parte é olhar o feito, e depois dormir, vinte das vinte e quatro horas do dia. E acordar com um semblante melhor do que o dos gatos.”

Paloma Vidal, autora de Algum lugar“Eu preciso criar um espaço – ritual, nenhum. Mas esse espaço, o que é? Qualquer lugar, qualquer hora, qualquer caneta e papel. Esse desleixo foram meus filhos que me deram, um sem-frescura que eu fico tentando domar explicando que é “o meu trabalho”, que aqui, onde não há, eles têm que imaginar uma porta, que agora está fechada e eu estou do outro lado, fazendo “as minhas coisas”.  É uma espécie, então, de espaço imaginário, que pode acontecer – e como é bom quando acontece! – aqui em casa, na sala de espera da fonoaudióloga do Antonio (Lia, obrigada, tão amável com o seu cafezinho pontual), numa reunião de departamento da universidade…”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (20)

Adriana Lunardi, autora de A vendedora de fósforos “Passo dias e dias sem sair de casa. Preciso de isolamento. Preciso saber que tenho horas pela frente, sem nenhum compromisso agendado. Preciso de silêncio. No último livro, havia duas obras no meu edifício. Quando vi, estava de pijama, num final de tarde, esmurrando a porta do vizinho. Tive de alugar o quarto de uma amiga. Preciso da minha biblioteca por perto, serendipity só acontece durante a escrita. Preciso de cadernetas para anotar uma ideia que vá ser útil lá na frente ou para me dar recados sobre as personagens. Não gosto de escrever com o estômago cheio. No máximo, tenho um copo d’água por perto. No início de um novo livro, tiro pó da escrivaninha e seleciono alguns títulos para ficarem à mão. Desinstalo o jogo de xadrez do computador, pois já passei doze horas seguidas jogando em vez de escrever. Uso caixas de roupas, aquelas que vêm com elástico, para guardar as versões impressas e anotadas. Reescrevo mais do que escrevo. Só paro quando começo a destruir.”

Carlos Henrique Schroeder, autor de As certezas e as palavras“Eu tenho dois amuletos: são dois lápis. Chacoalho insistentemente dois lápis, em qualquer pausa de escrita, por isso sempre carrego dois lápis sem ponta comigo. Uso esses lápis até eles se partirem, aí substituo por outros. Sim, eu sou louco, eu sei. Anexo uma foto dos meus dois últimos livros. E como acredito que somos a soma das nossas referências, também gosto de escrever de frente para minha estante de livros, para no caso de qualquer bloqueio, uma simples olhadela na lombada dos livros me alivia.”

Marcelo Benvenutti, autor de Arquivo morto“Quando vou escrever sempre sai tudo de uma vez só. Quase sempre rola de dar um tempo e se possível, e for dia, caminhar sem nenhum destino por uma meia hora. Escrevo em silêncio no escritório onde trabalho antes do meio-dia, pois a fome acelera o pensamento, mas também não é o padrão. Outras vezes tampo o cérebro nos fones de ouvido e deixo rolar algo que funcione como um paredão. Já foi Sabbath, Beethoven, Supergrass, tem sido Oasis, mas pode rolar Neil Young, então me alieno de vez do que rola à volta e escrevo. Café ajuda, mas vinho, na dose certa, é bem melhor. Não chapa a ponto de escrever muita bobagem, poesia quase sempre, e deixa a cabeça se libertar de certas amarras. Já escrevi tomando cerveja, mas, admito, tenho que limpar quase tudo depois. Vira igual festa de guri, lata de ceva e bagana pra todo lado. Sem falar na dor de cabeça; certa vez vi uma entrevista de um físico, português, não é piada, e ele disse ter ideias libertadoras de suas experiências quando está de ressaca. A ressaca limpa a mente do que nos atrapalha. Só resta o que nos interessa. Mas isso foi antes de eu ser pai. Agora escrevo quando o Lorenzo deixa. Por exemplo, ele está acordado, 3 e meia da manhã, e eu me pilho a escrever sobre minhas manhas pra escrever escutando o Axl Rose desafinar no show do Guns’N Roses ao vivo pela internet. Pode? Pode. O escritor também é um ser que se adapta ao habitat. Foda é o habitat se adaptar. Mas o habitat, afinal, que se dane, não é?”

Menalton Braff, autor de Tapete de silêncio“Não tenho manias e meus costumes são bastante simples. Escrevo de manhã, umas duas horas, e à noite, outro tanto. Escrevo diretamente no computador, o que me exige um canto da casa em que me espalho com minhas coisas. Trabalho todos os dias, quando estou em um romance e produzo muito lentamente. Gosto de estar sozinho, em silêncio, sem qualquer desconforto físico. Quando me envolvo com algum conto, o processo é mais nervoso, mais rápido, porque o conto como ideia já está inteiro na mente, e o trabalho é apenas a transformar a matéria em palavras. Entre um romance e outro ou entre esse e um conto, escrevo todos os dias, nem que seja um depoimento como este aqui. Não produzo muito, mas produzo diariamente. Durante a escrita do romance Bolero de Ravel tive minha primeira experiência de escrever ouvindo música: o Bolero de Ravel.”

Tony Belloto, autor de No buraco“Desde que saí do armário e assumi que sim, eu era um escritor, e lá se vão quase vinte anos, meu “processo” de escrita sofreu grandes transformações. Na primeira fase eu emburacava e virava noites, numa demonstração de inexperiência, que me custou dias perdidos, terrores noturnos e quase um colapso nervoso. A segunda fase, inspirada em Hemingway, foi a de levantar cedo (antes de o sol, aquele que também se levanta, nascer) e escrever até o meio da manhã, com a cabeça descansada e despoluída, e depois atravessar o dia e a noite em distrações mundanas até chegar a hora de escrever de novo, na manhã seguinte. Para um músico de rock, casado e com filhos pequenos, não preciso dizer que o método foi um fracasso total. Como acordar antes de o sol nascer se meia hora atrás eu ainda estava no palco, tocando? E ao nascer do sol o caçula acordou, cheio de gás, gritando “papai”? Hoje em dia acho que alcancei uma espécie de equilíbrio, e escrevo nos dias da semana em que não faço shows. Escrevo por umas duas horas de manhã, paro para almoçar, durmo um pouco depois do almoço, e retomo o trabalho lá pelas 16:00hs. Escrevo até às 18:00hs, por aí, e depois pratico algum exercício físico, única forma de despoluir minha mente das obsessões e manias que um livro desperta. Nos fins de semana, quando viajo com a banda pra tocar, releio e reviso o que escrevi durante a semana. Minha única “mania”, quando escrevo, é, seguindo o conselho de García Márquez, sempre parar a narrativa num lugar em que eu saiba pra onde ela vai, no dia seguinte.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (19)

Armando Freitas Filho, autor de Lar, “Escrever o pensamento à mão./ Reescrever passando a limpo/ passando o pente grosso, riscar/ rabiscar na entrelinha, copiar/ segurando a cabeça, pelos cabelos/ batendo à máquina, passando o pente / fino furioso, corrigindo, suando/ e ouvindo o tempo da respiração./ Depois, digitar sem dor, apagando/ absolutamente o erro, errar.”

Maria José Silveira, autora de Com esse ódio e esse amor“Gosto de me considerar uma profissional da escrita. Desde 2002, quando meu primeiro romance foi publicado, escrever é a minha profissão. Então, levanto, tomo café, leio o jornal e vou trabalhar em meu computador até por volta das 13 horas. Adoro escrever e depois trabalhar o texto, reescrevendo quantas vezes achar necessário. À tarde, gosto de caminhar e voltar com novas ideias ou com a solução para algum problema. Quando estou escrevendo um romance – processo extremamente envolvente que me deixa muito focada em tudo que possa servir a ele – faço anotações durante o dia e mesmo à noite, entre a vigília e o sono. Mas escrever mesmo, só de manhã. E talvez a minha única quase-mania seja considerar janeiro – o novo ano se descortinando à frente – o momento ideal para começar a escrever um novo romance. Outra coisa: não escrevo com música ligada, nem com gente por perto. Fora isso, nada me incomoda: fico perfeitamente concentrada e levo susto quando o telefone toca. Assim, por exemplo, meu marido pode me ligar no meio da manhã e me perguntar, “Tudo bem?”, e eu responder, “Não sei: acabo de invadir o Nordeste”, ou “Estou no meio de uma discussão”, ou dizer “Estou ótima”, relendo a frase que por fim chegou à sua forma. São momentos preciosos do meu dia e desse trabalho que não troco por nenhum outro.”

Marcelo Ferroni, autor de Método prático da guerrilha “Quando começo a pensar em um romance, primeiro escrevo à mão cenas aleatórias em caderninhos sem pauta, e posso completar vários cadernos dessa forma. Depois passo para o computador, onde escrevo o mesmo livro quatro ou cinco vezes, até me parecer que ficou bom. Isso pode levar uns cinco anos. Sobre ambiente e horários, perdi minhas preferências por força das circunstâncias. Antes precisava de algum silêncio; agora, com dois guris que choram e gritam, me acostumei a escrever ao som de Carros 2 (Relâmpago McQueen para Francesco Bernoulli: Vai comer poeira!). Antes precisava de um tempo de concentração para entrar no texto, agora começo a escrever no meio de uma conversa. Gostava de escrever de manhã, agora escrevo majoritariamente à noite, a partir das 21h, 22h. Mas não escrevo em trânsito (aeroportos, cafés); escrevo de preferência em casa, numa ponta da sala (perdi o escritório para o mais novo), e às vezes na casa de familiares ou em hotéis, desde que eu me estabeleça ali por alguns dias.”

Nick Farewell, autor de Mr. Blues & Lady Jazz“Sou metódico. Deve ser por causa do meu passado engenheiro. Começo a escrever quando já sei o começo, meio e fim. Os meus esboços ou esqueletos se assemelham a um complexo desenho técnico. Quase um método Allan Poe. Escrevo direto no computador ou à mão. Gosto de escrever à mão quando a velocidade da escrita diminui. Curiosamente, eu me obrigo a frequentar os lugares ou cenários que poderiam ser do livro. Vou coletando e ouvindo histórias que posteriormente podem entrar para a narrativa. Muitas vezes eu acabo entrando até involuntariamente. Recentemente viajei para escrever o novo romance, e na casa de um casal de amigos onde me hospedei acabei me vendo envolvido na briga de casais que era o tema central do livro. O mais engraçado é que, mesmo depois de terminar, não é raro as histórias ficarem se repetindo na vida real. Penso à exaustão, deixo decantar por um tempo (muitas vezes por muito tempo) na tentativa do incorporar o inconsciente. Só depois escrevo.”

Ronaldo Correia de Brito, autor de Galiléia “Habituei-me a escrever olhando o quintal de casa, através de uma janela. Durante vinte e nove anos contemplei a paisagem de árvores e flores tropicais. Quando mudei para um apartamento, supus que nunca mais escreveria. Os edifícios substituíram mangueiras, coqueiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros e bananeiras. Mas os livros continuavam em volta. O costume de levantar-me em intervalos regulares, tomar um café e um copo d’água podia repetir-se. O novo escritório conservava móveis, quadros, fotografias e minha ordem silenciosa. Não consigo escrever fora desse lugar inventado por mim: a mesa de tampo de vidro, a cadeira de couro trazida do Ceará, o computador, agendas, dicionários, cadernos de anotações e a estante fabricada com tábuas de amarelo vinhático. Eis o meu espaço sagrado. Fora dele, apenas escuto, observo, anoto e vivo.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (18)

Chico Mattoso, autor de Nunca vai embora “Prefiro escrever de manhã, mas raramente consigo. Há alguns anos abandonei meu quartinho e comecei a sair pra trabalhar, primeiro num escritório alugado, mais recentemente em bibliotecas e cafés. Quando engreno num conto ou romance, tenho o hábito de anotar frases em papéis soltos e superfícies aleatórias — uma vez, num ônibus, escrevi dois longos parágrafos numa embalagem de Novalgina. Resolvo muita coisa nesses momentos, quando não estou “oficialmente” escrevendo — é aí, em geral, que as melhores ideias aparecem. Não existe prazer maior que passar pro computador um bom trecho de prosa rascunhado num pedaço de guardanapo. Parece que o mundo se organiza. E minha gasolina é o café, forte e sem açúcar, de preferência recém-passado no coador.”

Eucanaã Ferraz, autor de Cinemateca “Escrevo poemas em cadernos, agendas, folhas soltas. Sempre papel. A lápis ou a caneta, escrevo, rabisco, anoto, faço setas; quando há versos ou estrofes que se interpõem, numero, ponho asteriscos; e lá vão ficando as idas e vindas. Quando o rascunho se faz difícil de entender pelo excesso de riscos (mesmo a lápis, não uso borracha, ainda que haja uma na ponta oposta ao grafite), reescrevo todo o poema em outra folha, na qual recomeço a mexer, cortar, acrescentar etc. O resultado mais próximo do final chega, por vezes, ainda nesses primeiros passos. Depois, vou para o computador. Preciso ver o poema mais limpo, mais próximo da cara que ele teria numa hipotética publicação. A digitação costuma dar vez a outras mudanças. Depois, imprimo, faço uma pausa – de tempo indeterminado – e volto a reler. Outra vez diante do papel, costumo fazer novas mudanças, cortes, acréscimos. A duração de tal processo é imprevisível.

Tenho, além disso, um hábito que me parece particular ou, pelo menos, não me parece ser uma prática comum a todos que escrevem poesia. Durante todo o tempo da escrita, leio e releio em voz baixa, sussurrando. Preciso ouvir o poema. Então, vou lendo os versos para mim naquela altura mínima, como se testasse o ritmo. Talvez o volume baixo da voz tenha a ver com o fato de eu considerar o poema, sempre, uma voz baixa, uma maneira de inserção sutil no mundo, uma presença oblíqua, estranha, quase invisível. Nunca me impus essa prática. E, curiosamente, só após alguns anos tomei consciência dela, que não chega a ser um método, sendo talvez um instrumento, ou menos, mera idiossincrasia.”

Julián Fuks, autor de Procura do romance “Em dias bons, quando já esgotei todo o arsenal possível de procrastinações, cruzo a casa vazia e me entrego ao derradeiro ritual. Estou agora no sofá, ainda a uns quantos metros da tela branca, que me espreita com paciência e atenção, e me ponho a ler um poema qualquer, de um livro sorteado ao léu, Bandeira, Borges, Brossa, Cabral. Não é preciso que o entenda, ou que me encante, ou me enterneça; essencial é que me deixe imergir em seu silêncio, silêncio que é pura iminência, silêncio que é a ausência das palavras que virão. Sento-me então ante a tela, abro o dicionário em outra janela, mas não o consulto ainda. Escrevo apenas, mesquinhamente, em dias bons.”

Ramon Mello, autor de Vinis mofados “Escrevo no meu conjugado, em Copacabana, na companhia dos meus gatos Borges e Silêncio. Quando se trata de escrever poemas, fico à disposição. Não há hora certa para a escrita, no entanto as madrugadas são generosas para a concentração. Gosto de escrever primeiro no papel, pode ser até um guardanapo. Muitas vezes um poema surge a partir da leitura de um livro, é uma euforia. Em seguida, passo o poema para o computador, vou trabalhando devagar. Quando estou a escrever prosa, vou direto para o micro e trabalho a ideia sem descanso. Depois envio o texto para ser lido por amigos com senso crítico apurado. A cada livro vou redescobrindo o meu processo de criação.”

Tony Monti, autor de eXato acidente “Não tenho manias para escrever, mas tenho algumas tendências. Gosto de escrever de manhã. É quando meu cérebro parece mais ativo. Há (raras) épocas em que começo cedo e fico em frente ao computador até escurecer. Costumo escrever os textos mais longos fora de casa, como se eu fosse ao escritório para cumprir um turno fixo de trabalho. Procuro, em geral, bibliotecas, mas às vezes vou a bares e cafés. Escrevo e apago. Insisto por uma, duas horas. Faço intervalos para comer, caminhar e olhar o mundo. Talvez haja uma recompensa inconsciente em expor em ambiente público minha dificuldade de encontrar as palavras e as ideias, como se fosse importante que as outras pessoas aprovassem o esforço. A recompensa consciente é que, para amenizar a solidão característica do trabalho do escritor, na biblioteca é possível desfrutar daquela estranha convivência silenciosa entre os que estudam. Além disso, nos intervalos que às vezes se estendem pelo dia todo, posso encontrar um conhecido e conversar.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (17)

Ademir Assunção, autor de Adorável criatura Frankenstein “Não tenho nenhuma mania ou superstição para escrever, apenas dois processos bem diferentes. Poesia acontece de um jeito mais anárquico. Ao longo do tempo percebi que os melhores versos surgem quando eles querem. Não adianta forçar a barra. Mas como tenho alguma familiaridade com a prática zen, procuro me manter concentradamente distraído ou distraidamente concentrado o tempo todo. Os versos vão surgindo sem hora marcada e em qualquer lugar, no trânsito, no metrô, no banho, em conversas com amigos ou mesmo desconhecidos, às vezes até em sonhos. Vivo fazendo listas também de palavras antipoéticas que gostaria de usar em poemas. Por exemplo: moquifo, cafofo, bangue bangue, espelunca, mísseis. Tenho dezenas de cadernetas com retalhos de versos e palavras que depois vou trabalhando, ajustando à minha linguagem. Não sou de reescrever. Sou de escrever. Trabalho muito as cadências sonoras, os ritmos, a pulsação – e a minha medida é a própria pulsação sanguinea. Com a prosa é diferente. Quando estou escrevendo uma história curta ou uma narrativa mais longa, consigo me disciplinar. Aí, escrevo diariamente, quase sempre de madrugada. Mas até hoje não tenho a menor ideia de como os livros surgem. Quando começo uma narrativa, nunca sei como ela vai terminar. Vou escrevendo e tudo começa a acontecer. Não planejo os capítulos, não tenho escaninhos, nada disso. É como se fosse uma massa altamente condensada que, de repente, explode e vai se expandindo. Escrevendo prosa eu me divirto. Poesia é mais cansativo. Prazeroso, mas cansativo.”

Carol Teixeira, autora de Verdades e mentiras “Escrevo muito na minha cabeça. Crio contos inteiros enquanto estou no supermercado, sala de espera da psicóloga, no trânsito infernal de SP ou voltando de alguma noite, bêbada. Daí anoto as ideias de forma fragmentada num dos vários mini Moleskines que tenho ou no bloco de notas do iphone (uma vez escrevi um conto inteiro no iphone, sentada no salão, enquanto pintavam meu cabelo). Tenho medo de escrever, sempre. Nunca é algo tranquilo pra mim. Então as melhores coisas surgem quando estou distraída. Como tenho pânico de perder ideias, felizmente esses lapsos de criatividade raramente são perdidos. Quando decido sentar pra escrever de forma mais disciplinada em casa, preciso de muito silêncio, estar muito confortável, desconectada da internet e sóbria. E de preferência de dia (o que é curioso considerando que sou uma das pessoas mais boêmias e insones que conheço). Entro numa espécie de universo paralelo. E quando acabo um conto me sinto a pessoa mais feliz do mundo todo.”

Juliano Garcia Pessanha, autor de Certeza do agora “Tenho escrito pouco por inúmeras razões. Mas quando escrevo faço isso no quarto e tomo muita água pois já não fumo mais. Quando eu era fumante pensava que seria impossível escrever sem pitar. Escrevo sempre com caneta bic preta. Essa é uma regra que ainda sigo e data de 1984, época em que comecei a redigir diários. Escrevo no máximo uma página por vez, por empreitada. Na sessão seguinte copio tudo novamente para poder seguir. Não consigo seguir se não copio o que veio antes. É aflitivo e sofrido, em geral fico sem camisa e com taquicardia. O telefone é um problema terrível, nunca sei se desligo ele da tomada ou se interrompo a escrita para falar com alguém. Se é algum amigo, ele é obrigado a escutar o que estou escrevendo. Mas faz algum tempo que ando de mal com a escrita. Acho que sigo escrevendo dentro de mim, mas me falta energia para anotar… Ando um tanto entristecido com minhas próprias zonas matriciais.”

Lorena Martins, autora de Água para viagem “Escrevo geralmente em casa, em silêncio, sem dia nem horário pré-estabelecidos. A poesia acontece. muitas vezes após um filme, uma leitura, uma foto, uma pintura. Às vezes com vinho, outras com chá; ou simplesmente com uma insônia desejada. E então é um mundo de cadernos, blocos, papeis soltos, pastas, emails. Escrevo quase sempre à mão, e em seguida passo o poema para o computador. Aí é hora de trabalhá-lo, lapidá-lo. Salvo todas as versões no meu email. O que finalmente permanecer, se impuser, em algum momento vai para uma pasta “de poemas” que sempre temo perder  – por isso não me desfaço das cópias no email, que me parece mais seguro. É um processo meio caótico, mas no fim das contas o que eu quero está lá, em algum lugar.”

Rodrigo Garcia Lopes, autor de Nômada “Costumo escrever todos os dias. Na mente estamos, de certa forma, escrevendo o tempo todo, não é? Quando é um romance policial-histórico, como o que passei os últimos cinco anos escrevendo, é como se vivesse dentro do livro. Literalmente. Leituras, anotações, insights, frases ouvidas, tudo pode vir junto com a escrita. Música é ótimo, principalmente instrumental. Clássica, jazz… Já para escrever poesia não tem hora. Com o advento do computador, comecei a escrever direto na tela. Nos últimos anos retomei o hábito das cadernetas. Minha favorita é a velha Moleskine. Gosto de escrever na praia, olhando o mar ou a fumaça. Ajuda a me concentrar naquele pedaço de papel que tenho à minha frente, lutando contra a areia e o vento (e muitas vezes perdendo o poema). Na prosa, as manhãs para se reler o capítulo da noite anterior também ajuda a centrar o foco e dar o impulso para a próxima cena. Poesia já pode pintar a qualquer hora do dia. Embora um mesmo poema possa levar anos para ser concluído, um ou outro nascem prontos. Quando isso ocorre, é a felicidade.”

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (16)

Angélica Freitas, autora de Rilke shake “Quando era repórter, escrevia os poemas no computador, entre uma matéria e outra. Muitas vezes escrevi direto no blog. Depois passei um tempo viajando e comecei a escrever em cadernos. Gosto de cadernos do tipo composition book, com ou sem pauta, depende da safra. Sempre compro cadernos quando viajo. Adoro terminar um caderno, mas a primeira página me intimida. Por isso, costumo começar na segunda ou na terceira. Para mim, o ideal é escrever todos os dias, de manhã cedo, tomando café. Gosto de escrever e me esquecer dos poemas. Se me lembrar deles depois, pode ser um bom sinal. Minha caneta favorita ainda é a Bic.”

Marcia Tiburi, autora de Magnólia “Escrevo literatura para não enlouquecer. Pode parecer exagero, coisa de escritor. Só eu sei quando o morcego branco pousa em meu ombro e muda de cor várias vezes até escorrer aquele filete de sangue ao andar de baixo enquanto parece saltar sobre mim. Para me proteger tenho a minha santa cujo nome não conto para qualquer um, um copo de vinho do porto, água ou café que nem sempre bebo, fotos das minhas irmãs, São Jorge, flores num vaso, os livros do dia a dia ao meu redor, a ordem musical do espaço vazio, a companhia dos meus mortos e dos mortos de outros. Quando, depois de dias, a imaginação ameaça cortar-me em mil pedaços, sei que é a hora de sentar e demorar sem medo no silêncio que ampara a perdição dos narradores.”

Marcio Renato dos Santos, autor de Minda-Au “Escrevo o tempo todo, principalmente quando não estou diante do computador. Caminhar. Sinto necessidade de seguir pelas ruas, todo dia, até na chuva – e em Curitiba chove. São seis, sete quilômetros de onde moro até um parque, e retorno. No trajeto, 90 ou 100 minutos, faço literatura. Penso nas personagens, na trama, na linguagem, elaboro cenas, frases, diálogos. Volto. Moro no quarto andar. Sigo pelos degraus. Abro a porta, fecho e vou até o escritório. O computador está ligado, sento na cadeira, pronto. Começo a escrever, e todo o plano anterior, da caminhada, se desfaz. O que sai é outra prosa. Daí, tenho café, que me acalma, água com gás pra me estimular. Escrevo, reescrevo. Sigo, se for em silêncio, melhor. Mas se houver som, dança de tamancos no andar de cima, solo de tuba, no de baixo, sai do mesmo jeito. Sai. De manhã ou à noite. Também no horário do almoço, entre os turnos do trabalho. E trabalho a fazer textos, oito horas todo dia. Descanso do trabalho a escrever ficção, a reescrever. Sonho com meus textos. Minda-Au, publicado pela Record em 2010, surgiu das madrugadas. Você tem à disposição todas as cores, mas pode escolher o azul, o segundo livro, do ano passado, é fruto da insônia. O terceiro, 934, que saiu pela Tulipas Negras, e teve toda a tiragem distribuída dia 25 de fevereiro em Curitiba, durante a Quadra Cultural 2012, é do mundo dos sonhos. Escrevo durante as férias, com caneta em cadernos. Se viajo, uso as máquinas do hotel. Tenho de escrever. Se não? Dá vontade de derrubar postes, atropelar carros com meus sapatos ou arrancar paralelepípedos e atirar por aí. Mas não. Escrevo, escrevo e escrevo assim, sem manias, de qualquer jeito, e o texto acontece.”

Paulo Roberto Pires, autor de Se um de nós dois morrer “É de se supor que um sujeito que leva onze anos entre a publicação de uma novela e um romance não tenha qualquer ritual para escrever – já que, também como se pode imaginar, não há exatamente um rotina de trabalho. Ou que, ao contrário,  tenha todas as manias  possíveis e imagináveis – o que faz dos preparativos para a escrita uma rotina que eventualmente não deixa tempo para a escrita. Queria ser Bartleby para não escolher nada, mas aqui tenho que marcar as duas opções. Quando acho algo para trabalhar, um fiapo de ideia, e em geral é fiapo mesmo, vem o ritual particular: fico me alimentado de leituras, as mais diversas, quase sempre de não-ficção, que só na minha cabeça podem nutrir aquela sugestão para ficção. Não é pesquisa, é vagabundagem mesmo – que inclui muita caminhada na praia matutando as conexões possíveis e impossíveis entre essas leituras e, eventualmente, a forma de uma frase. Escrever, propriamente, escrevo em qualquer lugar – quem trabalhou ou trabalha em redação consegue se isolar sem silêncio ou carneirinhos em volta – e, ultimamente, em caderninhos que sempre colecionei e, sabe-se lá porque, pouco usava. Neles, misturo tudo: lista de tarefas do dia, contas, compromissos de trabalho, ideias, citações copiadas e até trechos quase prontos. Um dia, sem muito aviso, tudo isso vai se juntar a arquivos de Word e emails. E aí começa o trabalho.”

Ronaldo Cagiano, autor de Dicionário de pequenas solidões “Desde os remotos tempos de minha adolescência, quando esbocei meus primeiros textos de prosa ou poesia, não me flagrei escravo de nenhum método ou mania; não recordo de estipular qualquer disciplina, horário, obrigação, nem mesmo um sistema de orientação para meu processo criativo que resultem numa condição pré-estabelecida para que as coisas funcionem. Nau sem rumo e sem ritmo, vou em busca do desconhecido, do insondável e sempre há um porto para atracar. E aí, uma palavra, uma ideia, um insight, um pequeno acontecimento ou flagrante quotidiano, algo remoto no inconsciente ou na memória, ou mesmo uma conversa entreouvida do acaso num cenário doméstico ou urbano, são capazes de me fornecerem algumas pegadas,  provocando em mim a necessidade de escrever uma história ou construir um poema. São essas nuances que acabam deflagrando a centelha inicial, que culmina numa frase jogada a esmo num pequeno bloco de anotações que sempre carrego, ou num fluxo hemorrágico de palavras que migram logo para a tela branca do computador. Muitas vezes, esse impulso inicial não se converte necessária ou imediatamente num texto. E isso pode ficar hibernado certo tempo até ganhar corpo, identidade e fluidez narrativa.  Escrevo em qualquer situação, tempo e lugar: durante o trabalho (sou bancário, e uma das formas de exorcizar essa vida bovina confinada em currais de vidro é a literatura);  durante meus deslocamentos diários (a pé, de metrô, de ônibus),  assistindo a um filme, num café ou numa livraria;  ou ainda enquanto durmo, quando faíscam no sono e nos sonhos mundos e situações que me sopram nos ouvidos e então tenho a necessidade de levantar e anotar para não perder a ideia. A literatura surge do imprevisivel e as histórias e seus personagens é que me conduzem e ditam as regras. Depois, vem o acabamento, o crucial processo de leitura, releitura, autocrítica, estilete.”

Ver depoimentos anteriores.

Fim de semana

Uma edição – Carlos e Mário, org. Silviano Santiago (Bem-te-vi, 616 págs.).

Uma nova edição – Patrimônio, Philip Roth (Companhia das Letras, 192 págs.).

Um filme bom, principalmente até a metade – Habemus Papam, Nanni Moretti.

Um filme bom só até a metade – Shame, Steve McQueen.

Um disco – Between the times and the tides, Lee Ranaldo.

Egopress

Quinta, 29/3, às 20h30, participo do projeto Cabeça de escritor, no Sesc Pompeia (São Paulo). Tema: livros importantes na infância, influências etc..

Links

(@michellaub):

– A Bíblia em patoá jamaicano: http://goo.gl/RiE1e, via @cabrapreta

– 10 motivos para gostar de matemática, por Alex Bellos: http://goo.gl/B7p51

– Coca-cola chegando à França, 1950: http://goo.gl/sWXnH, via @cydlos

– Bill Morris e a hesitação antes de elogiar o livro de um amigo: http://t.co/aPbidRaO

– Como é ter síndrome de Tourette e dizer a palavra ‘biscuit’ 900 vezes em uma hora: http://t.co/2XDpTEqC

– Fotos da Guerra Civil Americana: http://goo.gl/c4Es1, via @trasel

– Hotel de aposentados em Miami, por Naomi Harris: http://t.co/eMNYzoEg

– Vladimir Safatle sobre Pollock e autonomia da arte: http://goo.gl/Onu5z

– Delfim Netto e sua biblioteca de 130 mil livros, que vai para a USP: http://goo.gl/fd127

– Hélio Schwartsman sobre razão, emoção e como o cérebro faz escolhas (assinantes FSP): http://goo.gl/LUeCr

Links

(@michellaub):

– Bia Abramo e um show dos vizinhos Caetano e Gil em Salvador, 1969: http://t.co/YMYOLGDt

– Íntegra do documentário de Cameron Crowe sobre o Pearl Jam: http://goo.gl/j8Jlv, via @rlevino

– Vantagens de ler os próprios textos em voz alta, por @carolbensimon: http://t.co/RLk8HVOV

– A diferença entre poliglota e tradutor: http://goo.gl/eNAOw

– O livro esquecido de Martin Amis sobre games: http://goo.gl/u0Vo1, via @alexandrerodrig

– Los Angeles inundada em 1938: http://goo.gl/ZB2KM

– Um diário visual da depressão: http://t.co/WCjKTJVD

– Formigas: http://goo.gl/LYiRn, via @freiherman

– Tetos brancos para baixar a temperatura de Nova York: http://goo.gl/tTUnU, via @delreydelfin

– Nelson Rodrigues conversa por 2h (em áudio) com Fernanda Montenegro, Sabato Magaldi e Gilberto Braga: http://goo.gl/xsvPa, via @mmoutinho

Fim de semana

Um livro – Viagem ao fim da noite, Céline (Companhia das Letras, 506 págs.).

Um disco – Narrow, Soap and skin.

Um espetáculo (na terça) – Satyros sons e fúria no Zé Presidente.

Três filmes bons – Tudo pelo poder, George Clooney; O espião que sabia demais, Tomas Alfredson; O garoto da bicicleta, irmãos Dardenne.

Um filme médio – A dama de ferro, Phyllida Lloyd.

Uma definição de romantismo

Teixeira Coelho no posfácio de A obra-prima ignorada, de Balzac (Comunique, 141 págs.):

“Dedicação a um ideal pelo qual vale a pena sacrificar o que se tem ou é; decisão de não negociar com o que se opuser a essa busca; desinteresse pela felicidade: o anseio é por outra coisa; indiferença diante dos padrões formatadores da sociedade e dos códigos todos; independência frente ao poder, desprezo pelo senso comum; decisão de lutar incessantemente pelo que importa, capacidade de suportar o martírio; opção pela minoria não pela maioria, idealismo em seu sentido mais comum; uma convicção interna que não cede aos argumentos banais, nem aos mais fortes (…), mesmo diante da acusação mais terrível: a de que essa convicção é loucura; uma das hastes leves do frágil tripé romantismo-revolta-revolução; desejo de romper os limites estreitos da individualidade e do aqui-agora e expandir-se infinitamente e o contrário disso também: esgotar-se no aqui-agora, em si mesmo ou no grupo; a inexprimível delícia de brincar com a própria alma; ou de esquecê-la totalmente; energia vital mas também auto-aniquilamento, suicídio, dandismo, exibicionismo, excentricidade, tédio, a morte na alma, o sursis, visões diabólicas, visões divinas, fidelidade ao detalhe tanto quanto a busca do oceânico indiferenciado; opacidade e obscurecimento como também deslumbramento; esquerda e direita; não aceitação do conhecimento como virtude, a criação de valores no lugar do estudo dos valores, a criação a partir do nada; operar sabendo que não existe o objeto, apenas o sujeito; o marginal, o exilado, o super-homem, a autenticidade existencialista, a certeza de que nada existe no mundo que possa amparar você e que você é responsável por tudo o que é ou possa ser e fazer; a recusa de uma estrutura metafísica para o universo, e o inverso; o mergulho no místico; o vazio como o grande dado, portanto a valoração do aqui-agora; a certeza de que os valores são muitos e incompatíveis; a noção de pluralidade e diversidade; o liberalismo; a recusa das teorias explicativas perfeitas e incontestáveis, recusa do determinismo, da razão da história; a certeza de imprevisibilidade do comportamento humano, tudo isso e muito do que contraria tudo isso cabe na forma do romantismo, ao lado e por cima dos valores românticos banalmente descritos nos manuais de arte e literatura. Na opção por um resumo da essência do romantismo avançada por Isaiah Berlin, (…) é a vontade de fazer e a afirmação de que não existe uma estrutura imutável das coisas, e que portanto é possível com elas fazer o que se decidir, quase; no mínimo, a certeza de que vale a pena tentar. A vontade e o homem como atividade (Lenz: é preciso agir, agir sempre), isso é o romantismo (…). Numa outra versão (…), é o reconhecimento e a convocação da vontade (as teorias formatadoras, unitaristas e integradoras convergentes, quase todas fundamentalistas, chamam a isso voluntarismo). Desdobrando desempacotando cultivando a vontade (que nos termos de hoje se poderia traduzir por exercer a escolha), romantismo é o homem como atividade continuamente se criando e recriando e não tão preocupado assim com a identidade, com sua identidade, ao contrário do que aparece descrito nas versões rudimentares do romantismo ou como aparece nos romantismos rudimentares e nas versões rudimentares das interpretações do romantismo. Homem não preocupado com isso porque sabe que a única coisa que existe e a única coisa que conta é o movimento. Essa é a sua autenticidade – que custa alcançar, custa enormemente a alcançar, num esforço diante do qual habitualmente se costuma considerar que é melhor entrar num compromisso: acertar um compromisso com a própria vontade, com a própria vida, com o costume; e ceder. O romantismo como atitude não simbólica, quer dizer não normativa, não generalizante e não abstrata; e atitude tampouco baseada no pragmatismo embora atitude que possa ter o pragmatismo como fim; o romantismo, antes, como atitude abdutiva diante da vida e do mundo, uma atitude tipo pode ser, atitude icônica. Atitude mágica, no limite, caso se prefira que a palavra seja pronunciada – porque essa é a atitude da arte.”

Fim de semana

Um show – Morrissey.

Dois metafilmes bonzinhos – A invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese; O artista, Michel Hazanavicius.

Um filme de gênero XXY (metagênero) – Tomboy, Céline Sciamma.

Um livro – O romancista ingênuo e o sentimental, Orhan Pamuk (Companhia das Letras, 152 págs.).

Outro livro – A obra-prima ignorada, Balzac (Comunique, 141 páginas).

Links

(@michellaub)

– Eduardo Pinheiro sobre internet, leitura e escrita: http://goo.gl/uTsl4

– Steven Johnson sobre semiótica e memórias da faculdade: http://goo.gl/N2HKy

– Cormac McCarthy e Werner Herzog conversam na rádio: http://goo.gl/8ZpYL

– Os 100 anos da guerra às drogas: http://goo.gl/AEFHZ

– As apostas da Wallpaper em arquitetura, moda, design, fotografia: http://migre.me/79bdz

– Chuck Palahniuk ensina a apanhar ladrões de livros (e a roubar): http://goo.gl/Aagja

– John Dolan e uma defesa de Ted Hughes: http://migre.me/79aPP, via @cabrapreta

– Cachorros puxando trenó na Groenlândia: http://goo.gl/Ktvb0

– Fotos que serviram de base para pinturas impressionistas: http://goo.gl/DKTzm

– Documentos do arquivo soviético, 1890-1991: http://migre.me/6hrq5

Links

(@michellaub)

– Crítica literária antes e depois das redes sociais, por @miguelsanchesnt: http://goo.gl/zdwlG

– Médicos fumando, armas para toda a família, mulheres levando surra: comerciais antigos. http://goo.gl/0IBRh

– Entrevista com David Lynch: http://goo.gl/bcM5p, via @ricardolombardi

– Truman Capote e Groucho Marx na TV, 1971: http://goo.gl/cv1oR, via @ivan_scarpelli

– Tom Wolfe sobre um jantar com Hunter Thompson: http://goo.gl/vKmcx

– Roda Viva com Amós Oz (e uma pergunta minha): http://goo.gl/sHdhM

– Povo dos trailers: http://goo.gl/rNkyP

– Gente embaixo d’água: http://goo.gl/uD0Gs

– ‘Memorial de Aires’ em hipertexto: http://goo.gl/aHOvr, via @sergiotodoprosa

– Onde botar as mãos em fotos com mulheres, um análise histórica: http://goo.gl/haLZp, via @lordass

Fim de semana

Um filme ótimo – Drive, Nicolas Winding Refn.

Um filme bom – A separação, Jodaeiye Nader az Simin.

Três filmes médios – J.Edgar, Clint Eastwood; Os descendentes, Alexander Payne; Millennium, David Fincher.

Um livro – A arte e a ciência de memorizar tudo, Joshua Foer (Nova Fronteira, 310 págs.).

Um disco – Old ideas, Leonard Cohen.