Michel Laub

Mês: fevereiro, 2011

Moacyr Scliar (1937-2011)

Aqui, texto meu sobre o escritor publicado na folha.com.

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Fim de semana

Um livroAsterios Polyp, David Mazzuchelli (Pantheon Books, 344 págs.).

Um filmeTio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, Apichatpong Weerasethakul.

Um documentárioPilar e José, Miguel Gonçalves Mendes.

Uma costela (desculpe, Daniel) – Vento Haragano.

Um disco médioThe king of limbs, Radiohead.

Um disco bomLet England shake, PJ Harvey.

Três filmes em cartaz

Bravura indômita – Homenagem ao filme original e à mitologia do western: whisky, decadência física, tribunais mambembes, tiro ao alvo em frutas no meio do nada. De quebra, diálogos ásperos e estranhamente melódicos sobre cavalos, veneno de cobra, um cadáver trocado por dois espelhos, enfim, a vida dura de quem precisa buscar água à noite porque pela manhã o rio estará sempre congelado.

O vencedor – Mais mitologia, desta vez sobre os ringues: peras, cordas, dentes quebrados. Sugar Ray é lembrado numa luta controversa, e Rocky Balboa é a sombra por trás do momento inevitável em que todos resolvem treinar a sério. Só que o filme é Christian Bale, seus tiques de viciado e improvável autoconfiança, plasmada num carisma que transcende o personagem, seu irmão, sua cunhada, sua família e a história até certo ponto convencional de sua queda e redenção.

Cisne negro – Há algo falso aqui, e não é a falsidade proposital da intriga e da abordagem. Talvez a presença sem ironia de dois clichês majoritários do cinema: o personagem psicótico/paranóico/histérico que não sabe o que é “real” ou não, com o público sendo obrigado a embarcar nesse trem da Grande Dúvida, e o mito romântico do artista que só atinge o sublime de sua arte se viver de verdade (a.k.a. bebida, sexo, rompimento com a família e via-crúcis nas mãos de algum treinador/maestro/diretor/coreógrafo tirano). Ou talvez a sensação de que o diretor propõe uma espécie de suborno: dar pistas não muito sutis disso tudo, fazendo parte da plateia se sentir sofisticada por entender, e em troca ganhar seu agradecimento silencioso. Uma pena, porque as cenas de balé são boas e, enfim, Natalie Portman.

Horários para beber em Los Angeles

Trecho de Despedida em Las Vegas, de John O’Brien (Eidouro, 208 págs., tradução de Aulyde Soares Rodrigues), antes de Ben partir rumo à cidade onde tudo funciona 24 horas:

“Os bares corajosos abrem às seis da manhã e as lojas podem vender, embora às vezes prefiram não vender, impondo a própria moralidade a algum pobre e trêmulo lixo humano à procura da dose salvadora. Nove é considerada a hora segura para os bares que não querem admitir que as pessoas possam começar a beber tão cedo, mas ao mesmo tempo não querem perder por completo a freguesia; os bartenders, nesses lugares, em geral fazem uma pausa breve, quase impercepível, demonstrando sua desaprovação, antes de servir um drinque. A marca seguinte é a das onze e meia. Às onze e meia todos estão dispostos a admitir que o dia dos drinques começou e abrem orgulhosamente suas portas e servem seus drinques com generosidade. Tudo navega em mar calmo até a meia noite, quando, se já não o fizeram, os bares respeitáveis fecham as portas. Qualquer lugar que fique aberto depois da meia noite provavelmente funciona até as duas – na verdade, até uma e quarenta e cinco –, o tempo mais importante de todos. Nunca deixe chegar duas horas, a não ser que haja mais bebida na casa do que se possa beber em quatro horas – uma quantidade respeitável.”

Egopress

1) Amanhã estreia a coluna mensal que escreverei no blog da Companhia das Letras.

2) Aqui, minha entrevista para a série 20 escritores brasileiros com menos de 40, do blog Casmurros.

3) Aqui, matéria sobre internet e literatura da revista Língua portuguesa, com umas aspas minhas.

Música do dia

Fim de semana

Um livroPornopopéia, Reinaldo Moraes (Objetiva, 480 págs.).

Um show – LCD Soundsystem.

Um filme não muito original, mas okO discurso do rei, Tom Hooper.

Outro filme não muito original, mas okUm lugar qualquer, Sofia Coppola.

Uma exposição – rótulos de cachaça no Tomie Ohtake.

Links

(@michellaub):

– Entrevista com Thomas Bernhard: http://tinyurl.com/nng82e

– JG Ballard como ator num filme baseado em Crash: http://tinyurl.com/34n8nhd

– O cardápio diário de 16 pessoas na Europa, África, Ásia e América: http://tinyurl.com/37hyzur

– Desenhos de animais imaginários: http://tinyurl.com/32oa5ov, via @LordAss

– Diagramas do que seria a invasão dos EUA pela Alemanha, 1942: http://tinyurl.com/22pokjn

– Vodca, gangsterismo e chinelagem na Rússia: http://tinyurl.com/38zero5. Fotos: http://tinyurl.com/2uum5yp

– “O mistério da consciência”: http://tinyurl.com/326ohg7

– Manuel Bandeira tossindo, bebendo leite e caminhando pelo Rio: http://tinyurl.com/2667rj8, via @naterciapontes

– Mulheres em pôsteres de filmes B, anos 1950: http://tinyurl.com/323pegk

– Como WG Sebald descreve o cinza em seus romances, por @almirdefreitashttp://nblo.gs/c8cmj

Links

(@michellaub):

– Rascunho de carta de Kubrick, 1971, sobre Napoleão, que acabou nunca sendo filmado: http://tinyurl.com/4fpcs2a

– Paulo Francis, 10/12/1980, sobre John Lennon: http://tinyurl.com/2f6ce5l, via @jpcuenca

– Primórdios da aviação: http://tinyurl.com/24cmb9v

– Mapa/história do heavy metal, com áudios: http://tinyurl.com/36gbmsl, via @cabrapreta

– Desenhos de quadrúpedes, cobras e dragões, 1607: http://tinyurl.com/3923k9d

– Aeroportos bizarros: http://tinyurl.com/2d6e552

– Gente bebendo: http://tinyurl.com/272h6hw

– Fotos antigas de criminosos: http://tinyurl.com/lk8ssy, via @alexandrerodrig

– Ceia de Natal com Hitler, 1941: http://tinyurl.com/2flamfz

– A insônia, por Caco Galhardo: http://tinyurl.com/37tkbtc

Um casamento

Trecho do diário de John Cheever publicado na Piauí (tradução de Daniel Galera):

“A cachorra de Ben caga três montinhos no chão da biblioteca. Eu a castigo de manhã com uma revista enrolada. Uma hora depois, Ben pergunta: ‘Você reparou que Flora está com dificuldade para andar? Parece que ela sente muita dor quando levanta.’ Concluo, então, que quebrei a espinha do amado bichinho de estimação do meu filho. Sou do tipo de homem que pensa duas vezes antes de esmagar uma mosca e quando piso numa formiga o faço com cuidado, para não lhe causar dor. Machucar um animal me afeta profundamente; machucar um animal que o meu filho ama é devastador. Mary parece aprovar o meu sofrimento. Vem me informar que meu filho está agonizando; que posso ter aleijado a cadela, pois os quadris dela são muito frágeis. Bebo um pouco de scotch, cato um pedaço de pão com queijo, saio de casa e caminho pelo mato. Estou convencido de que matei o cachorro do meu filho. Veja só, esse homem de 51 anos deitado no campo, mastigando um pedaço de pão, com os olhos cheios de lágrimas. Matei o cachorro do meu filho; matei a afeição do meu filho. Foi um acidente, mas isso não é nenhum consolo. Sigo pela trilha até a represa, e esse simples exercício renova o meu bom-senso. Pode ser que também faça o uísque descer da minha cabeça. Quando volto, a cadela está melhor e, quando a levamos ao veterinário, aparentemente não há nada de errado com ela. Uma boa parte da nossa vitalidade é gasta com alarmes falsos; e penso, talvez injustamente, que Mary conseguiu criar um clima de ansiedade mórbida, algo semelhante ao poder que o pai dela tinha de estender um sentimento de condenação e ruína sobre seus domínios. Será uma neurose ou, como pensei certa vez, uma força perceptível das trevas? O correio vespertino traz uma carta dizendo que compraram dois textos meus. Fico feliz da vida, mas quando conto as boas-novas a Mary ela pergunta, da forma mais mesquinha: ‘Eles se deram ao trabalho de incluir um cheque?’ Para mim isso é sacanagem, pura sacanagem, e grito: ‘Que diabo você quer? Em três semanas eu ganho 5 mil, reviso um romance, limpo a casa, cozinho e cuido do jardim, e quando tudo dá certo você vem e me diz: ‘Eles se deram ao trabalho de incluir um cheque?’’ Quando responde, a voz dela soa mais aguda do que nunca: ‘Parece que eu nunca consigo dizer a coisa certa, não é?’ Ela desaparece pelo acesso da garagem. Não entendo essas viradas de maré, embora as estude há 25 anos. Tivemos três semanas de paixão, amor e bom humor transcendentes. Agora essa mesquinharia. Está além do meu controle – um telefonema ao acaso ou um sonho podem ser o estopim. E assim ela se afasta não apenas de mim, mas de todos nós.”

Fim de semana

Um livroEasy riders, raging bulls, Peter Biskind (Intrínseca, 502 páginas).

Um diário – John Cheever na Piauí.

Um filme melhorzinho do que andam falandoAlém da vida, Clint Eastwood.

Um filme pior do que andam falandoCisne negro, Darren Aronofsky.

Um filme tão ruim quanto muita gente anda falandoBiutiful, Alejandro Iñárritu.

Um disco ­– Hardcore will never die, but you will, Mogway.

Trecho

Aqui, o primeiro capítulo do meu novo livro, Diário da queda, que sai em março pela Companhia das Letras.