Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (19)

por Michel Laub

Armando Freitas Filho, autor de Lar, “Escrever o pensamento à mão./ Reescrever passando a limpo/ passando o pente grosso, riscar/ rabiscar na entrelinha, copiar/ segurando a cabeça, pelos cabelos/ batendo à máquina, passando o pente / fino furioso, corrigindo, suando/ e ouvindo o tempo da respiração./ Depois, digitar sem dor, apagando/ absolutamente o erro, errar.”

Maria José Silveira, autora de Com esse ódio e esse amor“Gosto de me considerar uma profissional da escrita. Desde 2002, quando meu primeiro romance foi publicado, escrever é a minha profissão. Então, levanto, tomo café, leio o jornal e vou trabalhar em meu computador até por volta das 13 horas. Adoro escrever e depois trabalhar o texto, reescrevendo quantas vezes achar necessário. À tarde, gosto de caminhar e voltar com novas ideias ou com a solução para algum problema. Quando estou escrevendo um romance – processo extremamente envolvente que me deixa muito focada em tudo que possa servir a ele – faço anotações durante o dia e mesmo à noite, entre a vigília e o sono. Mas escrever mesmo, só de manhã. E talvez a minha única quase-mania seja considerar janeiro – o novo ano se descortinando à frente – o momento ideal para começar a escrever um novo romance. Outra coisa: não escrevo com música ligada, nem com gente por perto. Fora isso, nada me incomoda: fico perfeitamente concentrada e levo susto quando o telefone toca. Assim, por exemplo, meu marido pode me ligar no meio da manhã e me perguntar, “Tudo bem?”, e eu responder, “Não sei: acabo de invadir o Nordeste”, ou “Estou no meio de uma discussão”, ou dizer “Estou ótima”, relendo a frase que por fim chegou à sua forma. São momentos preciosos do meu dia e desse trabalho que não troco por nenhum outro.”

Marcelo Ferroni, autor de Método prático da guerrilha “Quando começo a pensar em um romance, primeiro escrevo à mão cenas aleatórias em caderninhos sem pauta, e posso completar vários cadernos dessa forma. Depois passo para o computador, onde escrevo o mesmo livro quatro ou cinco vezes, até me parecer que ficou bom. Isso pode levar uns cinco anos. Sobre ambiente e horários, perdi minhas preferências por força das circunstâncias. Antes precisava de algum silêncio; agora, com dois guris que choram e gritam, me acostumei a escrever ao som de Carros 2 (Relâmpago McQueen para Francesco Bernoulli: Vai comer poeira!). Antes precisava de um tempo de concentração para entrar no texto, agora começo a escrever no meio de uma conversa. Gostava de escrever de manhã, agora escrevo majoritariamente à noite, a partir das 21h, 22h. Mas não escrevo em trânsito (aeroportos, cafés); escrevo de preferência em casa, numa ponta da sala (perdi o escritório para o mais novo), e às vezes na casa de familiares ou em hotéis, desde que eu me estabeleça ali por alguns dias.”

Nick Farewell, autor de Mr. Blues & Lady Jazz“Sou metódico. Deve ser por causa do meu passado engenheiro. Começo a escrever quando já sei o começo, meio e fim. Os meus esboços ou esqueletos se assemelham a um complexo desenho técnico. Quase um método Allan Poe. Escrevo direto no computador ou à mão. Gosto de escrever à mão quando a velocidade da escrita diminui. Curiosamente, eu me obrigo a frequentar os lugares ou cenários que poderiam ser do livro. Vou coletando e ouvindo histórias que posteriormente podem entrar para a narrativa. Muitas vezes eu acabo entrando até involuntariamente. Recentemente viajei para escrever o novo romance, e na casa de um casal de amigos onde me hospedei acabei me vendo envolvido na briga de casais que era o tema central do livro. O mais engraçado é que, mesmo depois de terminar, não é raro as histórias ficarem se repetindo na vida real. Penso à exaustão, deixo decantar por um tempo (muitas vezes por muito tempo) na tentativa do incorporar o inconsciente. Só depois escrevo.”

Ronaldo Correia de Brito, autor de Galiléia “Habituei-me a escrever olhando o quintal de casa, através de uma janela. Durante vinte e nove anos contemplei a paisagem de árvores e flores tropicais. Quando mudei para um apartamento, supus que nunca mais escreveria. Os edifícios substituíram mangueiras, coqueiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros e bananeiras. Mas os livros continuavam em volta. O costume de levantar-me em intervalos regulares, tomar um café e um copo d’água podia repetir-se. O novo escritório conservava móveis, quadros, fotografias e minha ordem silenciosa. Não consigo escrever fora desse lugar inventado por mim: a mesa de tampo de vidro, a cadeira de couro trazida do Ceará, o computador, agendas, dicionários, cadernos de anotações e a estante fabricada com tábuas de amarelo vinhático. Eis o meu espaço sagrado. Fora dele, apenas escuto, observo, anoto e vivo.”