Michel Laub

Mês: junho, 2021

Como escrever sobre o horror

Como escrever sobre o horror? A pergunta atravessa Guerra Aérea e Literatura, livro que reúne palestras dadas pelo ficcionista alemão W.G. Sebald em Zurique, em 1997, tendo como tema os romances produzidos em seu país logo depois do fim do nazismo.

O conjunto forma um ensaio rigoroso, no qual o autor é implacável com a geração que lhe precedeu. Para ele, a literatura alemã dos anos 1940 e 1950 começa a fracassar em virtude de um constrangimento histórico: o sentimento de culpa e humilhação do povo que pouco tempo antes havia posto Hitler no poder. Afinal, o empenho em fazer um retrato honesto de ações como os bombardeios aliados no fim da guerra, que reduziram cidades a pó sem diferenciar alvos civis e militares, poderia se confundir com algum tipo de denúncia relativista – ou, mais grave, de lamento pela sorte do III Reich no conflito.

Mas Sebald vai além da hipótese psicológica. A originalidade de sua tese é relacionar o problema moral com o problema estético: identificar na prosa alemã do período um “gesto de defesa diante da recordação”, como se o “funcionamento continuado da linguagem normal” fosse incompatível com a autenticidade de textos sobre um passado recente e catastrófico. Clichês como “noite fatídica”, “labaredas do céu” e “o diabo estava à solta”, presentes nos testemunhos sobre os bombardeios, chegam à ficção em equivalentes cujo efeito seria “esconder e neutralizar os acontecimentos que extrapolam a capacidade de compreensão” – a saber, as “intermináveis e empoladas abstrações” na velha guarda de escritores que trataram do tema, o “sentimentalismo” e o “queixume” na nova.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 23-4-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Risque Esta Palavra, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um texto – Otavio Frias Filho sobre Janet Malcolm (aqui).

Outro – Emilio Fraia sobre Juan Carlos Onetti e Michel Leiris (aqui).

Uma série bem Fassbinder – Berlin Alexanderplatz.

Uma bem sala de roteiro – Mare of Easttown.

Riso e horror no espelho

Um dos melhores romances do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) fala de um sujeito chamado Reger, que há trinta anos cumpre o mesmo ritual: “a cada dois dias, com exceção das segundas”, postar-se por uma hora diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, numa sala de um museu em Viena. A história é hilária não pelo que (não) acontece, e sim pelo modo como é narrada por um amigo do protagonista, Atzbacher: sua voz imita a de Regel xingando os alvos mais diversos da cultura de sua época, num monólogo reiterativo e exuberante tipicamente bernhardiano (Old Masters, The University of Chicago Press, 156 págs., tradução para o inglês de Ewald Osers).

Numa análise rápida, dá para dizer que o livro fala de muitas coisas, mas não do próprio Homem de Barba Branca. A pintura é apenas um nome citado de passagem aqui e ali. A biografia e as questões formais que preocuparam Tintoretto são tópicos ignorados. Em vez disso, a apreciação estética no discurso de Reger/Atzenbacher tem um tom radicalmente generalizante: “Os historiadores da arte são os verdadeiros assassinos da arte”; “O negócio dos historiadores da arte é o mais vil dos negócios”; “Um historiador de arte tagarela, e só há historiadores da arte tagarelas, deve ser expulso do mundo da arte a chicotadas.” Na moral convicta dessa voz, que é a moral irônica de Bernhard, a hipocrisia e obtusidade do mundo moderno desvirtuariam uma espécie de ideal – a verdade que pode estar num livro, numa peça de música, numa tela.

O que Reger vê no museu, contudo, e sem comunicar isso a Atzbacher, que por sua vez não comunica ao leitor, talvez seja a representação possível dessa verdade. A obra de Tintoretto funciona no livro como referência quase subliminar, o ponto na comparação com o qual se degrada a cultura que Bernhard satiriza. Não sei por que Homem de Barba Branca foi usado como mote de Old Masters, mas a razão poderia ser até literal: afinal, o que mais chama a atenção no quadro pintado pelo italiano são os olhos do retratado. Por causa da severidade deles, da assertividade inegociável com que eles conduzem e fixam nossa atenção, esta imagem de 1545 jamais foi nem será passiva. Olhar para ela traz sempre um incômodo: nos tornamos também objeto de escrutínio, assim como a sociedade da qual fazemos parte, do mesmo modo que acontece – bingo – ao lermos romances como os de Thomas Bernhard.

Trecho inicial de texto sobre Bernhard, Gerhard Richter e o nazismo, publicado no Valor Econômico, 18.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série – Babylon Berlin.

Uma exposição em Berlim – Yael Bartana no Museu Judaico.

Uma entrevista – Marcos Nobre sobre Bolsonaro 2022 (aqui).

Um programa – Netanyahu x Israel, no The Daily.

Um filme de 1988 – Chocolat, Claire Denis.

Alemão aos oitoequarenta

Meu pai era de Berlim. Nasceu em 1930 e saiu pouco antes da Segunda Guerra, num daqueles últimos navios que serviram de fuga aos judeus. Durante uns bons 30 anos, ele manteve com a Alemanha uma relação desconfiada por motivos óbvios, e só foi se reconciliar com as próprias origens em algum ponto dos anos 1970 – quando a situação financeira lhe permitiu fazer a primeira das muitas viagens que faria à terra natal até morrer, em 2010.

Conto essa história porque em 1994 apresentei meu pai a um amigo de Hamburgo, e os dois conversaram no idioma que acabei não aprendendo na infância (um pouco, quem sabe, por causa dessa desconfiança familiar) e nem mais tarde (aí por preguiça mesmo). Esse amigo comentou depois: “Seu pai fala um alemão que não existe mais”. De fato: a exemplo da Berlim e do mundo dos anos 1930, certos detalhes do vocabulário e da prosódia usada na época viraram ruínas – persistindo apenas na memória de quem não teve contato com as mudanças na expressão oral corrente do país ao longo das décadas.

Gosto de pensar na língua como uma espécie de museu. Transportando o exemplo para o português, é nele que ainda estão gírias de época, antigos bordões de novelas, apelidos usados por casais que deixaram de se ver. No meu caso, e em vários sentidos, a Porto Alegre onde fui criado e de onde saí há quase vinte e cinco anos – a evocação de suas pessoas, lugares, fatos – sobrevive em determinadas expressões, determinadas sílabas de um sotaque que só à distância aprendi a identificar com clareza.

A imagem do museu, contudo, refere-se ao que essa instituição passou a ser em décadas recentes: não apenas um guardião do passado, mas um instrumento capaz de reinventar a história sobre a qual se debruça, discutindo suas repercussões na vida dos que foram e serão tocados por ela. É uma operação que também aponta para o futuro: é na língua que começam debates sobre certas heranças da barbárie – em termos como “mulato” ou “judiação” –, sobre vieses políticos – chamar alguém de “manifestante” ou “vândalo”, de “combatente” ou “terrorista” – a serem ou não reproduzidos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 4.6.2021. Íntegra aqui.

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