Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (2)

por Michel Laub

Edward Pimenta, autor de O homem que não gostava de beijos – “Só escrevo quando todos dormem. Levanto da cadeira várias vezes e vou à geladeira para renovar o copo de coca light. Fumo um Marlboro cremoso quando boto o ponto final. Word for Windows, espaço duplo, arial. Se não for assim, não consigo levar a sério o que sai na tela.”

Índigo, autora de A maldição da moleira “Acordo, tomo café e já vou para o computador. Sem pentear cabelo e sem tirar o pijama, senão estraga tudo. Escrevo até as 10:30h no máximo. Daí não escrevo mais. Só no dia seguinte. A exceção a isso é se eu  dormir depois do almoço, ou no meio da tarde e, ao acordar, for direto para o computador. Basicamente eu só consigo começar a escrever em estado de sonolência. Acordo junto com o texto.

Fora isso: só consigo escrever se estiver sem sapatos, anéis, pulseiras e maquiagem. O texto tem que estar em Times New Roman, 12, espaço 1,5. Não consigo escrever se tiver gente por perto. Não escrevo com música. Não consigo escrever no papel, só no computador.”

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro – “Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.”

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Nelson de Oliveira, autor de Poeira: demônios e maldições – “Eu não tenho nenhum ritual interessante… Quem é que escrevia pelado, o Rimbaud? O Truman Capote? O Fernando Sabino? Mas tenho uma leve mania, não sei se posso chamar assim. Eu preciso escrever todos os dias. É uma de minhas mais fortes necessidades. No entanto, escrever demais é algo mental e fisicamente insuportável. Trinta minutos é o tempo ideal. Menos do que isso, não fico saciado. Mais, começo a ficar empapuçado. Então, posso dizer que sou um prosador homeopático.”

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