Michel Laub

Categoria: Aspas

A escuridão

A Segunda Vinda, de W.B. Yeats, tradução de Paulo Vizioli (Em Poemas, Companhia das Letras, 160 págs.)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?

 

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

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Liberalismo, tempo e espaço

Ivan Krastev e Stephen Holmes, na Piauí, sobre a escalada do autoritarismo no leste europeu:

“Um dos problemas cruciais do comunismo era o fato de seu ideal ser uma sociedade que jamais existira e que ninguém tinha certeza de que, algum dia, viria a existir. Um dos problemas centrais das revoluções ocidentalizantes, por sua vez, é que o modelo que almejam imitar está em constante transformação. A utopia socialista pode ter sido algo inalcançável, mas ao menos ela possuía uma reconfortante imutabilidade. A democracia liberal ocidental, ao contrário, tem se mostrado mutante e mutável ao extremo. Como a normalidade ocidental é definida não por um ideal, e sim por uma realidade existente, cada mudança nas sociedades ocidentais produz uma nova imagem do que seja normal. Assim como as empresas de tecnologia insistem em que compremos seu modelo mais novo e tornam difícil a confiança no anterior, o Ocidente insistiu em que o único modelo político pós-nacional europeu que valia a pena era o mais recente.

O efeito perturbador de uma “normalidade” fugidia e cambiante pode ser mais bem ilustrado pelo modo como europeus do Leste reagiram às normas culturais em constante mutação nas sociedades ocidentais ao longo das últimas duas décadas. Aos olhos dos poloneses conservadores da época da Guerra Fria, as sociedades ocidentais eram normais porque, ao contrário do que ocorria nos sistemas comunistas, valorizavam a tradição e acreditavam em Deus. Então, de repente, descobriram que a ‘normalidade’ ocidental hoje significa secularismo, multiculturalismo e casamento gay. Será motivo de surpresa que os poloneses e seus vizinhos tenham se sentido ‘enganados’ quando descobriram que a sociedade que queriam imitar tinha desaparecido, levada pela correnteza veloz da modernização?

Se, imediatamente após os acontecimentos de 1989, a ‘normalidade’ era entendida em termos políticos (eleições livres, separação dos poderes, propriedade privada e direito de ir e vir), ao longo da última década passou a ser cada vez mais interpretada em termos culturais. Como consequência disso, a Europa do Leste está se tornando mais desconfiadas das normas, agora ofensivas, provenientes do Ocidente. Ironicamente (…), está começando a se ver como o último bastião dos valores genuinamente europeus.

Com o intuito de reconciliar a ideia do ‘normal’ (no sentido daquilo que é disseminado) com o que é norma obrigatória nos países que almejam imitar, os europeus orientais começaram a, consciente ou inconscientemente, ‘normalizar’ os países que tomam como modelo, argumentando que o que é disseminado no Leste prevalece também no Oeste, embora os ocidentais, hipócritas, finjam que suas sociedades são diferentes. Com frequência, os europeus orientais atenuam sua dissonância normativa – entre, digamos, pagar suborno para sobreviver no Leste e combater a corrupção para serem aceitos pelo Ocidente – concluindo que o Ocidente, na verdade, é tão corrupto quanto o Leste, só que os ocidentais simplesmente se recusam a admiti-lo, escondendo a verdade.

Jamais se pensou numa revolução liberal da normalidade como um salto no tempo – de um passado sombrio rumo a um futuro radiante. Em vez disso, a revolução era imaginada como um movimento através do espaço físico, como se todo o Leste Europeu fosse ser transferido para a Europa Ocidental, antes conhecida apenas de fotografias e filmes. Analogias explícitas foram traçadas entre a Reunificação da Alemanha, após a queda do Muro de Berlim, e a ideia de uma Europa unificada. No começo da década de 90, muitos europeus orientais de fato ardiam de inveja dos alemães orientais, incrivelmente sortudos. Da noite para o dia, haviam passado coletivamente para o Ocidente e, por milagre, acordado com passaportes alemães ocidentais nas mãos e com as carteiras cheias (pensavam alguns) de marcos ocidentais nos bolsos. Se a revolução de 1989 era uma migração regional rumo ao Ocidente, então a questão central era saber que países do Leste Europeu chegariam primeiro a seu destino comum.”

Sobre decoro e loucura

Seymour Hersh em Repórter, seu livro de memórias (Todavia, 382 págs., tradução de Antônio Xerxenesky), sobre um episódio ocorrido em 1974, em meio ao caso Watergate:

“Na fita, que tinha sido gravada à noite, talvez Nixon estivesse se exibindo, ou talvez tivesse bebido Martinis demais, e entrou numa diatribe contra minorias. Falou várias vezes daqueles ‘judeuzinhos’ na Comissão de Títulos e Câmbio que ‘estão por toda parte. Não tem como segurá-los.’ Também disse algo parecido sobre ‘parar aqueles judeus na Procuradoria-Geral’ em Washington (…). Referiu-se ao juiz John Sirica, que lidou ceticamente com o caso original da invasão de Watergate, como ‘aquele carcamano’. Passei muitos dias comprovando que esse tipo de linguagem era comum no Salão Oval e estava longe de ser usado, como a Casa Branca declarou depois, ‘com bom humor entre amigos’.

A matéria saiu na capa do Times e gerou uma onda de protestos por parte da Casa Branca e de apoiadores do presidente (…). Tudo isso era esperado, mas não o que aconteceu na sequência. Tom Wicker, o maravilhoso repórter, editor e colunista do Times, puxou uma cadeira ao lado da minha mesa, no meio do barulho todo da redação, e perguntou se eu tinha um minutinho. É claro que sim. Ele (…) disse que a minha matéria (…) e as negativas exacerbadas (…) demonstravam o estado irracional em que Nixon se encontrava, e o lembraram de uma matéria que ele não tinha escrito (…). Em certo ponto do fim de 1965, quando a Guerra do Vietnã estava estagnada (já naquela época), Wicker escreveu um artigo com uma análise severa da guerra e de seus perigos um dia antes de ele e seus colegas da imprensa na Casa Branca viajarem para a estância do presidente [Lyndon] Johnson para passar um feriado prolongado (…). Houve um briefing para a imprensa no meio da manhã de sábado, e foi dito aos repórteres que tudo ali seria extraoficial (…). Em dado momento, o presidente, dirigindo um Lincoln conversível, como costumava fazer, avançou numa velocidade absurda até o local onde estava a imprensa, enfiou o pé no freio, abriu a porta da direita – todos os olhares estavam cravados nele –, gritou ‘Wicker’ e fez um sinal para que ele se aproximasse. Tom entrou no carro e os dois saíram pela estrada de terra. Não trocaram palavras. Depois de uns instantes, Johnson mais uma vez meteu o pé no freio, estacionando embaixo da copa de uma das árvores. Com o motor ligado, ele saiu do carro, caminhou um pouco entre as árvores, parou, abaixou as calças e defecou a olhos vistos. O presidente se limpou com folhas e grama, subiu as calças, voltou para o carro, deu meia-volta e retornou ao local da imprensa. Chegando lá, mais uma vez freou bruscamente e fez sinal para que Tom saísse do carro. Tudo isso sem dizer uma palavra (…).

Johnson estava dando um recado bem óbvio sobre o que ele pensava da análise jornalística de Wicker. Mas o que ele fez foi uma loucura, assim como o linguajar de Nixon e sua insistência, feita através de outras pessoas, de que as palavras eram afetuosas. ‘Foi quando eu soube’, Tom me contou, ‘que o filho da puta nunca ia dar um fim à guerra.’”

Um par de botas com cravos

W.G. Sebald em Os Emigrantes (Record, 236 págs., tradução de Lya Luft):

“No fim do período escolar, quando tirei a melhor nota de minha turma nos exames finais, parecia ter percorrido um trajeto imenso. Tinha chegado ao auge da autoestima e, como numa espécie de segunda confirmação, mudei meu nome de Hersch para Henry e o sobrenome de Seweryn para Selwyn. Singularmente, logo no começo de meus estudos de medicina, feitos em Cambridge mais uma vez com bolsa, senti que minha capacidade de estudar diminuíra sensivelmente, embora também em Cambridge meus exames tivessem obtido as melhores notas. O senhor já sabe como tudo continuou, disse o dr. Selwyn. Veio o ano na Suíça, a guerra, o primeiro ano de trabalho na Índia e o casamento com Heidi, a quem por muito tempo ainda escondi minha origem. Nos anos vinte e trinta vivemos em grande estilo, do qual o senhor viu o que restou. Gastamos nisso boa parte da fortuna dela. Eu trabalhava em meu consultório na cidade e como cirurgião no hospital, mas os meus ganhos não teriam permitido aquele padrão de vida. Nos meses de verão fazíamos passeios de carro pela Europa toda. Next to tennis, disse o dr. Selwyn, motoring was my greatest passion in those days. Todos os carros ainda continuam nas garagens e talvez valham algum dinheiro. Mas nunca consegui vender nada, except perhaps, at one point, my soul (…). Não cheguei sequer a providenciar uma aposentadoria para minha velhice. This is why I am now almost a pauper. Em compensação, Heidi administrou bem o resto de sua fortuna, nada desprezível, e hoje é com certeza uma mulher rica. Ainda não sei direito o que nos separou, o dinheiro ou o segredo de minha origem que ela finalmente descobriu, ou simplesmente o arrefecimento do amor. Os anos da Segunda Guerra e as décadas subsequentes foram para mim um tempo sem sentido e ruim, sobre o qual, mesmo que quisesse, nada teria a contar. Quando em 1960 tive de fechar meu consultório e despachar meus clientes, desfiz os últimos contatos com o chamado mundo real. Desde então quase só falo com plantas e animais. De algum modo me dou bem com eles, disse o dr. Selwyn com um sorriso meio enigmático. Finalizando o discurso, levantou-se e, o que foi altamente inusitado, ofereceu a mão em despedida.

Depois dessa visita o dr. Selwyn nos procurou cada vez menos e a intervalos cada vez maiores. Nós o vimos pela última vez no dia em que trouxe para Clara um ramo de rosas brancas com madressilvas, pouco antes de partirmos de férias para a França. Algumas semanas depois, no fim do verão, ele se matou com uma bala de sua pesada espingarda de caça. Como ficamos sabendo em nosso regresso, ele se sentara na beira da cama, botara a arma entre as pernas, pousara o queixo na ponta do cano e em seguida, pela primeira vez desde que comprara a arma antes de viajar para a Índia, disparara um tiro com intenção de matar. Quando recebemos a notícia não me foi difícil vencer o horror inicial. Mas, cada vez entendo melhor, certas coisas têm um jeito inesperado de retornar, muitas vezes depois de longo tempo ausentes. Pelo fim de julho de 1986 passei alguns dias na Suíça. Na manhã do dia 23 fui de trem de Zurique a Lausanne. Quando o trem cruzou lentamente a ponte do Aare, entrando em Berna, meu olhar viajou da cidade à cadeia de montanhas. Se não estou apenas imaginando agora, lembrei-me do dr. Selwyn nessa ocasião pela primeira vez depois de muito tempo. Quarenta e cinco minutos depois, para não perder a visão daquela magnífica paisagem do lago de Genebra, já ia deixando de lado um jornal de Lausanne, comprado em Zurique, que estivera folheando, quando uma notícia chamou minha atenção: dizia que os restos mortais do guia de montanhas Johannes Naegelli, desaparecido desde o verão de 1914, tinha sido devolvido depois de 72 anos pela geleira de Oberaar. Assim, pois, retornam os mortos. Às vezes depois de mais de sete décadas eles saem do gelo e ficam deitados na beira da morena, um montinho de ossos polidos e um par de botas com cravos.”

Um anel no chão do cinema

Isabela Figueiredo em Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 184 págs.), sobre a infância como filha de um eletricista português em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique:

“A enorme sala do Cine Machava dividia-se em três zonas bem definidas: bancos corridos de pau, à frente: primeira plateia; bancos individuais estofados, até ao fundo: segunda plateia; empoleirados metro e meio acima da última fila da segunda plateia, os camarotes, todos forrados a veludo vermelho, luxo dos luxos, só ocupados quando o filme era mesmo muito popular e a afluência o exigia. Filmes como O fado, A maluquinha de arroios. Cantinflas, Jerry Lewis e Trinitá enchiam camarotes.

Alguns negros iam ao cinema. Calçavam -se e vestiam roupa europeia remendada ou de imitação, costurada no caniço. Sentavam -se na primeira plateia, e, eventualmente, em dias pouco frequentados, na primeira fila da segunda plateia.

Não estava escrito em lado algum que os negros não tinham acesso normal à plateia ou ao balcão, mas raramente os vi ocupar essas zonas. Havia um entendimento tácito, não um acordo: os negros sabiam que lhes cabia sentarem-se à frente, nos bancos de pau: os brancos esperavam que a pretalhada se juntasse aí, a falar aquela língua deles, olhando para trás a cobiçar a mulher do branco, mas devidamente sentados no banco que lhes pertencia.

Para os brancos, um preto, lá da primeira plateia, nunca olhava para trás por bons motivos. Ou lançava o amarelo do olho contranatura às brancas, ou procurava o que roubar, ou destilava ódio. De forma geral, no cinema ou fora dele, o olhar dos negros nunca foi, para os colonos, inocente: olhar um branco, de frente, era provocação; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.

(…)

Ao domingo à tarde íamos ao cinema. Eu levava um anel. Não gostava de anéis.

Os lugares da segunda plateia do Cine Machava assentavam sobre um plano inclinado. Tudo o que caía rolava até à primeira plateia, e ninguém lá iria sem propósito; era o lugar dos pretos.

Eu teria sete anos. Usava aquele anel. Detestava -o. Apertava-me os dedos e eu não gostava de cadeias.

Pensei em ver-me livre da horrível joia, e ocorreu-me uma ideia infalível, que executei na primeira oportunidade. No cinema, na escuridão, a meio do filme, num momento de maior barulho da trama em curso, maior suspense, tirei o anel do dedo e lancei-o, com o possível impulso, por debaixo dos cadeirões, para que rolasse, inapelavelmente, até à primeira plateia, e desaparecesse, para sempre, nas mãos dos negros, que haviam de lhe chamar um figo.

Num domingo, fi-lo, e respirei de alívio. Adeus, anel. Adeus, suplício. Adeus para sempre. Respirei fundo. Ajeitei-me na cadeira. Havia de dizer que o tinha perdido, que me estava largo, que me tinha caído do dedo sem notar. E depois, nada a fazer. Um anel era caro. Realmente. Mas, paciência. Eu era tão distraída! Sempre a mesma. Sem tino algum.

Nesse domingo comi um Quibom no intervalo. Estava contente. Ninguém reparou que já não tinha o anel.

Nesse dia, já terminava o intervalo, quando uma cena deveras invulgar prendeu a atenção da segunda plateia: um negro tinha saído do seu lugar, lá à frente, e avançava pelo corredor lateral esquerdo, perguntando algo, de fila em fila. O que queria o gajo? Andava a pedir dinheiro, de certeza. E, quando chegasse à nossa fila, ninguém lhe ia dar nada, já se sabia. Que trabalhasse. Não se dava dinheiro a negros, a menos que trabalhassem, e o que se desse seria pouco, para não se acostumarem mal. Quando chegou à nossa fila, pudemos distinguir -lhe, entre o polegar e o indicador direitos, um minúsculo anel dourado com uma pedra vermelha, enquanto perguntava, ‘Este anel é daqui?’.

Olharam para mim sem compreender, enquanto me esforçava por me enterrar na cadeira, desaparecer.

A minha mãe ainda guarda esse anel, em casa, na caixa dos ouros.”

Telhados, névoa marrom, um sorriso

Manhã à Janela, de T.S.Eliot, em Prufrock e Outras Observações, que está na edição Poemas (Companhia das Letras, 438 págs, tradução de Caetano W.Galindo):

Eles batem pires nas cozinhas fundas,

Junto às bordas calcadas da rua

Percebo as almas úmidas das empregadas

Que brotam amuadas dos portões.

 

As vagas da névoa marrom me arremessam

Rostos contorcidos do fundo da rua

E arrancam da passante de saia enlameada

Um sorriso sem destino que flutua pelo ar

E some junto à linha dos telhados.

Jerusalém, guerra, Auschwitz

Poemas de Yehuda Amichai em Terra e Paz (Bazar do Tempo, 184 págs., tradução de Moacir Amâncio):

JERUSALÉM ESTÁ CHEIA DE JUDEUS USADOS – Jerusalém está cheia de judeus usados pela história,/ judeus de segunda mão, com leves defeitos, mais baratos./ O olho olha todo o tempo para Sion. Todos os olhos/ dos vivos e dos mortos são quebrados como ovos/ na beira da bacia para fazer uma/ cidade gorda e crescente// Jerusalém está cheia de judeus cansados,/ eles sempre são chicoteados nos memoriais e nas festas/ como ursos que dançam de dor nas patas.// Do que Jerusalém precisa? Ela não precisa de prefeito,/ ela precisa de um domador de circo, com o chicote na mão,/ para treinar profecias e ensinar profetas a galopar/ ao seu redor e ensinar as pedras a montar/ uma estrutura ousada e perigosa no último número.// Depois elas saltam para baixo, na terra,/ ao som de palmas e guerras./ O olho volta-se para Sion e chora.

O DIÂMETRO DA BOMBA – O diâmetro da bomba media trinta centímetros/ e o diâmetro da destruição, cerca de sete metros,/ nele, quatro mortos e onze feridos./ Ao redor, num círculo mais largo/ de dor e tempo há dois hospitais/ e um cemitério. Mas a jovem mulher,/ enterrada no local de onde viera/ à distância de mais de cem quilômetros,/ aumentou muito o círculo/ e o homem solitário que chora pela morte da moça/ no litoral de um país distante/ inclui o mundo inteiro no círculo./ Não direi nada sobre o grito dos órfãos/ que chega ao trono divino,/ e de lá abre o círculo/ até o infinito e o nada de Deus.

DEPOIS DE AUSCHWITZ – Depois de Auschwitz não há teologia;/ das chaminés do Vaticano sai fumaça branca,/ sinal de que os cardeais elegeram o seu papa./ Dos crematórios de Auschwitz sobe uma fumaça negra,/ sinal de que Deus ainda não decidiu sobre a escolha/ do povo eleito. Depois de Auschwitz não há teologia:/ os números nos antebraços dos prisioneiros do extermínio/ são os números do telefone de Deus,/ números dos quais não há resposta,/ agora eles estão cortados, um por um.// Depois de Auschwitz há uma nova teologia:/ os judeus que morreram na Shoá/ tornaram-se semelhantes ao seu Deus/ que não tem forma nem corpo./ Eles não têm imagem nem corpo.

(Outras versões e traduções de Amichai, por Millôr Fernandes: https://tinyurl.com/y7mvqayx)

O ideólogo

Ruy Fausto sobre Olavo de Carvalho na Piauí de janeiro:

O exemplo que introduzo é o da utilização que [Olavo] faz do conceito de “ideologia” e em particular da sua tese, que circula por todo lado, de que “Bolsonaro não é ideólogo” (ele teria apenas “opiniões”) (…). Na realidade, temos aí um raciocínio vicioso, o que os lógicos chamam de “sofisma”, raciocínio que não visa a ensinar a verdade, mas sim a enganar o interlocutor (…).

De fato, “ideólogo” pode significar, entre outras coisas: 1) um sujeito que aceita grandes sistemas de pensamento, como o liberalismo, o socialismo, o comunismo etc.; 2) alguém que, sem ser cultor bastante coerente de um grande sistema como os citados, tem projetos políticos bem precisos e, mais do que isso, se engaja com muito entusiasmo na sua realização (claro que esses projetos têm a “aura” de ideias políticas, éticas ou religiosas, só que não se fundamentam num “grande sistema”).

É fácil mostrar que Bolsonaro não entra na categoria (1), pois ele não tem nada de teorizante, menos que isso, não tem coerência teórica necessária para que o consideremos como cultor de um grande sistema. Em compensação, encaixa-se bem na categoria (2): é alguém que tem projetos políticos precisos e se engaja com entusiasmo e até com fanatismo na realização deles (projetos que remetem, claro, a um certo número de ideias políticas, éticas ou religiosas, mas não propriamente a um “grande sistema”).

Essa é a situação. Bolsonaro é ideólogo no segundo sentido, mas não no primeiro. Ora, explicitamente, Olavo trabalha com o primeiro sentido, não com o segundo. Explica, por exemplo, que as ideologias são grandes sistemas, e a figura de Bolsonaro não se encaixa como alguém que os cultua. Só que, por baixo do pano, ele trabalha também com o segundo. De fato, o sentido “secreto” da insistência em dizer que “Bolsonaro não tem ideologia” não é o de que ele está alheio às grandes ideologias, mas o de que não seria um sujeito fanatizado por projetos políticos, éticos ou religiosos.

Ora, se a afirmação explícita é verdadeira (“Bolsonaro não é ideólogo”, no sentido de que não cultua grandes sistemas), a segunda afirmação, que fica implícita, mas representa a essência da sua intervenção (“Bolsonaro não é um ideólogo”, no sentido de que não tem um projeto político inspirado por preconceitos morais e religiosos etc.), é evidentemente falsa. Bolsonaro é, sim, um ideólogo, nesse segundo sentido. Ele tem um projeto político, iluminado por preconceitos morais e religiosos, e se engaja com empenho (e até com fanatismo) na sua realização.

Assim, Olavo vende gato por lebre. O leitor desavisado só se dá conta da frase explícita, mas é empurrado sem querer, pelo jogo dos significados, a aceitar a ideia implícita: “Bolsonaro não é perigoso, é um candidato no qual se pode confiar” etc.

Eis aí um bom exemplo, talvez o exemplo-chave, do discurso de Olavo de Carvalho, utilizado também por seus partidários. Uma deputada eleita o empregou para justificar uma eventual “renovação” da equipe de juízes do Supremo Tribunal Federal. Os atuais juízes, segundo ela, eram movidos por motivos “ideológicos”, por isso seria preciso substituí-los (…).

A prosa de Olavo de Carvalho é uma colagem de sofismas, do tipo citado ou de outro. Que um discurso assim possa servir a objetivos políticos é coisa tão velha como o mundo. Já ocorreu na época da sofística grega, embora nesse caso seja preciso levar em conta outros elementos (há variações importantes, de sofista a sofista, e o sofista não era apenas um ilusionista). Mas pode-se dizer que, se considerados como tipos ideais, há uma oposição entre os filósofos, os quais visam a verdade, e os sofistas, que pretendem iludir. Carvalho pertence essencialmente à categoria dos ilusionistas. E tem-se a impressão de que praticou tanto essa arte que, mesmo quando parece querer dizer a verdade, ele não consegue.

Ao analisar discursos neototalitários de esquerda, encontrei neles sofismas do mesmo tipo (ver sobre isso meus artigos na revista eletrônica Fevereiro). Isso não é casual. Tanto nesse caso como no de Olavo, há um afã de inverdade, um esforço por impingir ao interlocutor teses – de extrema direita ou de extrema esquerda totalitária – que são falsas. E, nos dois casos, é pela mídia que a enganação se propaga (…). Às vezes, no caso de Olavo, pelo menos, ela vem recoberta por uma camada de impropérios, o que, paradoxalmente, a torna mais atraente e mais deglutível para o grande público.

Mentiras de Médio Porte

Anne Applebaum na Piauí de novembro (tradução de Alexandre Morales):

“De George Orwell a Arthur Koestler, os escritores europeus do século XX ficaram obcecados com a ideia da Grande Mentira. Os vastos construtos ideológicos que eram o comunismo e o fascismo, os cartazes a conclamar fidelidade ao Partido ou ao Líder, os camisas-pardas e os camisas-negras marchando em formação, as passeatas à luz de tochas, o terror policial – essas Grandes Mentiras tão absurdas e desumanas requeriam que se impusesse violência prolongada e se mantivesse a ameaça de violência. Requeriam doutrinação, controle absoluto da cultura, politização do jornalismo, dos esportes, da literatura e das artes.

Em comparação, os movimentos políticos polarizados da Europa do século XXI demandam bem menos de seus adeptos. Não requerem crença numa ideologia amadurecida, de maneira que não requerem uso de violência ou terror policial. Não forçam pessoas a acreditar que preto seja branco, que guerra seja paz e que estabelecimentos agrícolas estatais atingiram 1.000% da produção planejada. A maioria deles não se vale de propaganda conflitante com a realidade cotidiana. Ainda assim, todos dependem, senão de uma Grande Mentira, daquilo que o historiador Timothy Snyder certa vez me disse que caberia denominar Mentira de Médio Porte, ou talvez de um punhado de Mentiras de Médio Porte. Em outras palavras, todos esses movimentos incitam seus seguidores a se ocupar, pelo menos em parte, de uma realidade alternativa. Por vezes essa realidade alternativa se desenvolve de forma orgânica; no mais das vezes é formulada meticulosamente, recorrendo a modernas técnicas de marketing, segmentação de audiência e campanhas na mídia social.

Os norte-americanos estão decerto familiarizados com os meandros pelos quais uma mentira pode intensificar uma polarização e inflamar a xenofobia: Donald Trump ingressou na política americana graças à falsa suposição de que o presidente Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos – uma teoria conspiratória cuja força foi gravemente subestimada na ocasião e que abriu caminho para outras mentiras, desde a dos “estupradores mexicanos” até a do “Pizzagate”. Só que na Polônia, bem como na Hungria, agora temos exemplos do que acontece quando uma Mentira de Médio Porte – uma teoria conspiratória – é propagada por um partido político inicialmente como o principal item de sua campanha eleitoral e, depois, na gestão do governo, com toda a força de um aparato estatal moderno e centralizado a sustentá-la.

(…)

A divisão que tem despedaçado a Polônia guarda uma semelhança impressionante com a divisão que cindiu a França na esteira do caso Dreyfus. O linguajar empregado pela direita radical europeia – o chamado à “revolução” contra as “elites”, as fantasias de violência “purificante” e de um conflito cultural apocalíptico – é sinistramente semelhante ao linguajar outrora empregado pela esquerda radical europeia. A presença de intelectuais descontentes – gente para quem as regras não são justas e as pessoas erradas são influentes – nem é exclusivamente europeia. O escritor venezuelano Moisés Naím visitou Varsóvia poucos meses depois que o Lei e Justiça chegou ao poder. Pediu-me que descrevesse os novos dirigentes polacos: Pessoalmente, como eram? Enumerei alguns adjetivos: “raivosos”, “vingativos”, “rancorosos”. “Parecem”, ele disse, “ser iguaizinhos aos chavistas.”

Na verdade, a discussão sobre quem deve governar nunca termina, sobretudo numa era em que se rejeitou a aristocracia e deixou-se de supor que a liderança seja herdada do berço ou que a classe dominante seja endossada por Deus. Alguns de nós, na Europa e na América do Norte, temos optado pela ideia de que variadas formas de competição democrática e econômica sejam a alternativa mais correta ao poder legado ou imposto.

Contudo, não deveríamos nos assombrar – eu não deveria me assombrar – quando os princípios da meritocracia e da competitividade são contestados. Afinal de contas, regimes democráticos e livres mercados podem gerar resultados insatisfatórios, especialmente quando mal regulados, ou se ninguém confia nos reguladores, ou ainda quando agentes ingressam na disputa a partir de pontos de partida muito distintos. Mais cedo ou mais tarde os perdedores contestarão o mérito da competição em si.

Mais precisamente, mesmo quando incentivam o talento e geram mobilidade ascendente, os princípios da competitividade não necessariamente resolvem questões mais profundas sobre identidade nacional ou atendem o desejo humano de integração a uma comunidade moral. O regime autoritário ou mesmo o semi-autoritário – o regime de partido único, antiliberal – propiciam essa esperança: de que a nação será conduzida pelas melhores pessoas, as que merecem mandar, os quadros do partido, os que acreditam na Mentira de Médio Porte. Para tanto pode ser preciso subjugar a democracia, corromper a atividade empresarial ou arrasar o sistema judiciário. Mas nada disso é impossível para quem julga estar entre os que merecem mandar.”

Cistos e borboletas

Georges Didi-Huberman em Que Emoção! Que Emoção? (Editora 34, 92 págs., tradução de Cecília Ciscato):

“Faz alguns anos, meu pai morreu. É claro que eu estava muito emocionado. Acho, porém, que essa tristeza era ainda ‘maior’ que a tristeza solitária e pessoal de perder meu pai. Na hora de ir ao necrotério ou de organizar o enterro, por exemplo, tive que tomar decisões e adotar certas atitudes, executar gestos que não diziam respeito apenas a mim mesmo. Tive, portanto, que agir em sociedade – a começar pelo meu comportamento diante do meu próprio filho, ou de minha irmã, ou dos amigos do meu pai –, a despeito de toda a solidão que houvesse em minhas emoções. (…). Esses gestos são como fósseis em movimento (…). Eles sobrevivem em nós, ainda que sejamos incapazes de observá-los em nós mesmos. Darwin sem dúvida tinha razão ao dizer que as emoções são gestos primitivos. Mas, na sua ideia de ‘primitivo’, ele via somente a natureza (daí a relação estabelecida entre os chimpanzés que grunhem e as crianças que choram). O sentido de ‘primitivo’ foi melhor entendido no âmbito das ciências humanas a partir do momento em que os etnólogos e os sociólogos falaram das emoções sob o ângulo de uma história cultural.”

“Diante dos diferentes ritos em que as emoções coletivas se manifestam – e os enterros são bons exemplos disso –, o grande etnólogo Marcel Mauss falou de uma ‘expressão obrigatória dos sentimentos’ (…) Uma emoção que se expressa segundo certas formas coletivas seria menos intensa e sincera que outra? (…) Não, responde Marcel Mauss (…). Trata-se de emoções verdadeiras, mas elas passam, elas precisam passar, por sinais corporais – gestos – reconhecíveis por todos: ‘Todas essas expressões dos sentimentos do indivíduo e do grupo – coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória – são mais do que simples manifestações, são signos de expressões inteligíveis. Numa palavra, são uma linguagem. Esses gritos são como frases e palavras. É preciso pronunciá-los, mas, se é preciso pronunciá-los, é porque todo o grupo pode entende-los (…).’ Uma emoção que não se dirija a absolutamente ninguém, uma emoção totalmente solitária e incompreendida, não será sequer uma moção – um movimento –, será somente uma espécie de cisto morto dentro de nós mesmos (…).”

“Um chinês chora, mas não chora pelas mesmas coisas, nem nos mesmos momentos; as diferenças culturais são consideráveis. (…) O que importa, como na frase de Marcel Mauss, é a maneira como transmitimos as emoções aos outros, por meio de gestos, de mímicas, e segundo certas regras. Nesse sentido, a emoção é algo totalmente adquirido. Basta comparar os rituais de luto, eles são muito diferentes de um canto a outro do planeta, e não são sempre ‘tristes’ no sentido como nós o entendemos. No Ocidente, após um enterro, acontece de as pessoas se reunirem para comer e até mesmo celebrar. Nos Bálcãs, quando se reúnem para comer após um enterro, as pessoas às vezes fazem verdadeiras festas, cantam, tocam músicas e dançam de um jeito que pode ser chocante para nós (…).”

“A filosofia opõe a essência e a aparência, dizemos que a aparência é sem importância e que a essência é coisa séria. Eu não concordo com essa hierarquia filosófica, acredito que aquilo que se manifesta é um objeto de estudo tão sério quanto possível. Talvez você me diga que, se eu me interessar somente pelas aparências, não serei um filósofo, e eu talvez aceite sua objeção. De qualquer forma, eu não sei o que ‘é’ a emoção, eu não busco nunca o que ela é em absoluto. Existem duas maneiras de dizer que uma coisa ‘é’. Você pode dizer ‘eu estou emocionado’. Se você diz isso, fatalmente estará falando de um breve momento, pois hoje à noite você estará menos emocionado e amanhã já não será mais a mesma emoção. Depois, há o grande ‘é’ dos filósofos (…), o ‘é’ geral. Sócrates é bom em geral? Aristóteles respondia a essa pergunta com precisão: ‘Eu não posso saber se Sócrates é bom enquanto ele estiver vivo’, pois de uma hora para outra ele pode se tornar mau (…).  Eu prefiro que Sócrates continue vivo, que a borboleta continue voando, mesmo que eu não possa pregá-la em um pedaço de cortiça para dizer que a borboleta ‘é’ – decididamente – azul. Prefiro não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber. Eu vejo [algo] aparecer e tento pôr meu olhar em palavras, em frases. Mas esse é um olhar tão frágil e furtivo quanto são as minhas frases (…). É inevitável que a borboleta desapareça, já que é livre para ir aonde quiser e não precisa de mim para viver sua liberdade. Ao menos eu terei apanhado em pleno voo, sem guardar apenas para mim, um pouco de sua beleza.”

Solidão depois das migalhas

Natalia Ginzburg em Léxico Familiar, de 1963 (Companhia das Letras, 254 páginas, tradução de Homero Freitas de Andrade):

“O pós-guerra era um tempo em que todos pensavam ser poetas, e todos pensavam ser políticos; todos imaginavam que fosse possível e necessário antes fazer poesia de tudo, depois de tantos anos em que o mundo pareceu ter emudecido e petrificado, e a realidade fora olhada como que através de um vidro, numa vítrea, cristalina e muda imobilidade. Romancistas e poetas, nos anos do fascismo, tinham jejuado, por não existirem ao redor muitas palavras que fosse permitido usar; e os poucos que ainda tinham usado palavras escolheram-nas com todo o cuidado no magro patrimônio de migalhas que ainda restava. No tempo do fascismo, os poetas viram-se obrigados a exprimir somente o mundo árido, fechado e sibilino dos sonhos. Agora, havia de novo muitas palavras em circulação, e a realidade parecia de novo ao alcance da mão; por isso, esses antigos jejuadores puseram-se a vindimar com deleite. E a vindima foi geral, porque todos tiveram a ideia de participar dela; e determinou-se uma confusão de linguagem entre poesia e política, que apareceram misturadas. Mas depois aconteceu que a realidade se revelou complexa e secreta, indecifrável e obscura não menos que o mundo dos sonhos; e revelou-se ainda situada do outro lado do vidro, e a ilusão de ter quebrado esse vidro revelou-se efêmera. Assim, muitos logo se retraíram desanimados e desencorajados; e tornariam a mergulhar num jejum amargo e num silêncio profundo. Desse modo, o pós-guerra foi triste, cheio de desânimo após as alegres vindimas dos primeiros tempos. Muitos se apartaram e se isolaram novamente no mundo dos seus sonhos, ou num trabalho qualquer que desse para viver, um trabalho assumido ao acaso e depressa, e que parecia pequeno e cinzento depois de tanto clamor; de qualquer modo, todos esqueceram aquela breve, ilusória coparticipação na vida do próximo. Por muitos anos, decerto, ninguém praticou mais o próprio ofício, mas todos acreditaram que podiam e deviam praticar mil outros ao mesmo tempo; e muito tempo se passou antes que cada um retomasse sobre os ombros o próprio ofício e aceitasse seu peso e a fadiga cotidiana, e a solidão cotidiana, que é o único meio que temos de participar da vida do próximo, perdido e espremido numa solidão igual.”

Acrobatas e Leviatãs

Celso Rocha de Barros sobre o livro How Democracy Ends, de David Runciman, na Piauí:

“Runciman vê paralelos entre o período atual de crise democrática e a última década do século XIX, marcada por movimentos populistas, teorias da conspiração, mudanças tecnológicas, desigualdade crescente, e a falta de uma guerra (que ofereceria uma experiência de trauma coletivo semelhante àquela que o populismo encena).

Aquela crise da democracia deu origem a uma espetacular era de reformas, em que se consolidaram as duas bases de sustentação da democracia: a garantia de prosperidade futura, conseguida por meio da combinação entre capitalismo e estado de bem-estar social, e o reconhecimento da dignidade individual, pelo respeito aos direitos individuais e o direito ao voto. Nos lugares em que a democracia conseguiu se consolidar, a crise da democracia do final do século XIX a fez ressurgir mais forte do que nunca.

A crise atual, entretanto, dificilmente será resolvida como a do século XIX. Não há como expandir o estado de bem-estar social indefinidamente, e, nos países desenvolvidos, o direito ao voto é universal. Se esses limites já não bastassem, há uma outra característica, bastante particular, específica dos dias atuais, segundo Runciman: os problemas colocados diante da sociedade moderna talvez estejam se tornando ou grandes demais ou pequenos demais para serem resolvidos pela governança democrática.

Por um lado, há uma série de ameaças existenciais pairando sobre a espécie: o risco de guerra nuclear, o risco de catástrofe ambiental, e, talvez, em um futuro não tão distante, o risco de subjugação pela tecnologia.

Não é claro que a democracia consiga lidar bem com esses problemas de grande escala. Os governos democráticos deixaram o problema do aquecimento global chegar a um ponto em que talvez não seja mais possível evitar uma catástrofe. Poderíamos ter votado por limites ao nosso próprio consumo, mas, até agora, não votamos. Da mesma forma, devemos mesmo dar a Donald Trump o poder de destruir o mundo apertando um botão? Mas, se não o fizermos, quem deve ter esse poder? Os generais americanos provavelmente são mais confiáveis do que Trump, mas o quão confiáveis eles são?

Da mesma forma, há um risco real de que a mudança tecnológica comprometa a democracia. O caso mais evidente é a possibilidade de aprimoramento genético para quem puder pagar. Se os filhos dos ricos forem programados para serem superinteligentes ou supertalentosos, será que a igualdade jurídica ainda vai significar a mesma coisa? As possibilidades abertas pela tecnologia podem ser fascinantes: um futuro de automação total em que passemos nossa vida nos divertindo, por exemplo. Mas também podem ser terríveis – uma ditadura de super-homens geneticamente aprimorados, uma vida social destruída pela virtualidade e pela fragmentação da identidade que ela traz. Ainda não temos instrumentos analíticos para prever sequer que problemas teremos nesse front.

Essas ameaças grandes demais para a democracia transferem poder aos tecnocratas e outros tipos de especialistas, que, cada vez mais, também controlam áreas importantes da vida social, como a gestão macroeconômica. Isto é, a participação na gestão dos benefícios de longo prazo do desenvolvimento é cada vez menos decidida democraticamente.

E não basta simplesmente injetar o ruído da democracia na gestão tecnocrática: isso pode funcionar quando o problema é a insensibilidade social ou a inércia dos especialistas, mas e se a gestão do problema exigir o mínimo de turbulência possível? O acrobata será beneficiado se o público começar a urrar sua desaprovação no meio do trajeto? Como saber o que é insensibilidade e inércia e o que, de fato, exige deixar o acrobata em paz? Não é uma questão simples. Naturalmente, todo sujeito inerte e insensível vai mentir que é acrobata.

Por outro lado, a dimensão “dignidade pessoal” da democracia – o respeito aos direitos individuais e à livre expressão dos cidadãos – é cada vez mais privatizada, e cada vez mais deriva para o anarquismo das redes sociais. E esse espírito ultrademocrático das redes sociais, se tem um lado bom evidente, também traz riscos significativos. Runciman lembra que Tocqueville via nos linchamentos americanos uma manifestação deformada do espírito democrático: a maioria se sente autorizada a descontar suas frustrações nas minorias vulneráveis. Na democracia moderna esses impulsos são domesticados pelas instituições, pela presunção de inocência, pelos direitos das minorias. Mas ainda não há nada disso na democracia das redes. Na frase de Runciman, ‘nós não linchamos mais; a não ser no Twitter’.

O tipo de individualidade formado pelo anarquismo das redes sociais também desfavorece a política democrática. No Facebook, no Instagram ou no Twitter, as pessoas se acostumam a ter gratificações imediatas, na forma de likes, compartilhamentos, retuítes, comentários. A democracia representativa funciona de outra forma: não gera gratificação imediata, e, como nota Runciman, não foi feita para fazê-lo. O ritmo mais lento dos compromissos partidários, dos procedimentos parlamentares, das negociações e acordos, deveria servir de contrapeso aos vieses cognitivos que nos tornam míopes. Os partidos políticos, em especial, deveriam administrar esse processo de avanços e tréguas, o tempo longo do compromisso.

Daí a tendência recente à substituição do partido – incapaz de gerar gratificações imediatas – pelo movimento. O Podemos da Espanha começou como movimento, o En Marche! de Emmanuel Macron foi criado em torno de seu líder, e o trabalhismo de Jeremy Corbyn representou a tomada do Partido Trabalhista por um movimento. Esses movimentos, para Runciman, são como o Facebook: combinam máxima horizontalidade – as redes, a espontaneidade etc. – com lideranças fortemente verticais. O Facebook é uma rede horizontal, sem dúvida, mas é também, no fim das contas, o brinquedo do Mark Zuckerberg. É ele quem decide as regras do jogo, e as modifica como e quando quer. O mesmo vale para Macron no En Marche!

A conclusão do livro é a de que só a política pode resgatar a política. É preciso que as tentativas de manipulação tecnológica e o poder do mercado sejam enfrentadas por políticos com coragem de desafiar fortíssimos interesses econômicos. O próprio mercado global é uma máquina que saiu de controle, e — – como no New Deal, em reação à crise econômica da década de 30 – a solução é simples: só o exercício do poder político pode limitar o poder do mercado ou da técnica. Só o antigo Leviatã pode enfrentar o novo Leviatã.”

Licor de naufrágio

Spoiler, poema de Marcelo Montenegro em Forte Apache (Companhia das Letras, 116 páginas):

Lembro que você me contou

uma história incrível.

Embora não lembre a história,

sou capaz de soletrar,

inclusive, a brisa que,

por um microssegundo,

inflou a cortina da sala.

(Um pedacinho de uma tarde

dentre as trilhões de tardes

que existiram naquela tarde.)

Lembro as pausas,

a música dos seus braços,

o cabelo tirado do rosto

no momento exato.

(Um bombom de ternura

com licor de naufrágio.)

Invenções diabólicas contra idosos

Junichiro Tanizaki em Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin Companhia, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda):

“A maioria dos equipamentos modernos tende a favorecer os jovens e a produzir gradativamente uma era desumana para idosos. Vejam os leitores os semáforos, por exemplo: a partir do momento que tiverem de depender deles para atravessar cruzamentos, os idosos não poderão mais andar com confiança pelas ruas das cidades. Salvam-se apenas os velhos ricos que podem ser conduzidos de carro, mas eu mesmo fico com os nervos à flor da pele nas ocasiões em que tenho de ir a Osaka e, lá chegando, preciso atravessar uma rua. Para começar, o sinaleiro do tipo “Pare-Siga” é um foco de problemas: os instalados no meio da calçada são relativamente fáceis de ser visualizados, mas existem outros especialmente difíceis de ser detectados que ficam pisca-piscando luzes verdes e vermelhas em cantos inesperados, sem mencionar o perigo de confundi-los com os sinaleiros centrais em cruzamentos especialmente largos. E quando vi guardas ordenando o tráfego nas ruas de Kyoto, imaginei: este é o fim das cidades japonesas (…). Há quem preveja que, com o progresso da civilização, o sistema viário será transferido para o céu ou para baixo da terra, e que então as ruas voltarão a ser tranquilas como no passado. Mas é óbvio que se isso um dia acontecer, outros diabólicos inventos de tortura para idosos terão sido inventados. No final das contas, todos querem que idosos permaneçam quietos em seus lugares, e só nos resta ficar em casa ouvindo rádio, bebericando saquê e beliscando petiscos que nós mesmos preparamos.”

Eu, também, não gosto dela

Ben Lerner em Ódio Pela Poesia, no n.25 da Serrote, tradução de Leonardo Fróes:

“Na aula de inglês do nono ano, quando a professora x nos mandou decorar e recitar um poema, fui pedir à bibliotecária da Topeka High Scool que me indicasse o poema mais curto que ela conhecia, e ela então sugeriu ‘Poesia’ [Poetry], de Marianne Moore, que na versão de 1967 diz apenas isto: Eu, também, não gosto dela./ Lendo-a, entretanto, com um perfeito desprezo por ela,/ descobrimos nela, no final de tudo, um lugar para o genuíno. [I, too, dislike it./ Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in/ it, after all, a place for the genuine.].

Lembro de achar que meus colegas eram uns otários por terem decorado sobretudo o ‘Soneto 18’ de Shakespeare, enquanto eu tive de recitar apenas 24 palavras. Não importa que um esquema fixo de rimas e o pentâmetro iâmbico tornem os 14 versos de Shakespeare mais fáceis de decorar que os três de Moore, cada um dos quais sendo interrompido por um advérbio conjuntivo – um paralelismo desgracioso que está basicamente a serviço da forma. Isso, somado aos quatro empregos de it, faz Moore soar como um padre que admite com inveja que o sexo tem sua função, enquanto tenta evitar usar a palavra, um efeito ampliado pelo enjambement deliberadamente canhestro do segundo no terceiro verbo (in/it). Na verdade, ‘Poesia’ é um poema difícil para guardar de memória, como demonstrei por meu fracasso em dizê-lo certo, a cada uma das três chances que me foram dadas pela professora x, de olhos no texto a me seguir, com meus colegas caindo na risada (…).

‘Poesia’: que tipo de arte assume a aversão de sua audiência e que tipo de artista se alinha a essa aversão, até mesmo estimulando-a? (…) Quase todos os anos sai um ensaio num periódico mainstream denunciando a poesia ou proclamando a sua morte, geralmente para culpar os poetas vivos pela relativa marginalização da arte, e então as defesas se iluminam na blogosfera antes de a cultura, se pudermos dizer que é uma cultura, focar sua atenção, se pudermos dizer que isso é atenção, de volta para o futuro. Mas por que não perguntamos: que tipo de arte é definida – tem sido definida há milênios – por um tal ritmo de denúncia e defesa? Muito mais gente concorda que odeia poesia do que é capaz de concordar sobre o que é poesia. Eu, também, não gosto dela, mas em grande parte organizei minha vida ao seu redor (…), e não sinto isso como uma contradição, porque a poesia e o ódio pela poesia são para mim – e talvez para você – inextricáveis (…).

Grandes poetas se confrontam com os limites dos poemas reais, tacitamente vencem ou ao menos detêm essa realidade, parando às vezes de escrever e se tornando célebres por seu silêncio; poetas verdadeiramente horríveis proporcionam, sem o saber, um lampejo de possibilidade virtual pelo cúmulo de seu próprio fracasso; poetas vanguardistas odeiam poemas por permanecerem poemas em vez de se transformarem em bombas; e os saudosistas odeiam poemas por falharem em fazer aquilo que errônea e vagamente eles alegam que outrora a poesia fez. Há variedades de demandas que se interpenetram e estão subordinadas à palavra “poesia” – para vencer o tempo, para belamente acalmá-lo; para expressar uma individualidade irredutível de um modo que possa ser socialmente reconhecido ou, à la Whitman, para alcançar universalidade sendo irredutivelmente social, menos uma pessoa do que uma tecnologia nacional; para derrotar a língua e o valor da sociedade existente; para propor uma escala de valores que esteja além do dinheiro. Mas uma coisa que todas essas demandas partilham é que nunca se pode satisfazê-las com poemas. Odiar poemas reais é, portanto, não raro um modo irônico, e às vezes inconsciente, de expressar a persistência do ideal utópico de Poesia, e as lamúrias a respeito disso são também defesas.”

Ouvido e cultura

Sidarta Ribeiro sobre A Vida Secreta da Mente, de Mariano Sigman (Objetiva, 288 págs.), na edição de novembro da Quatro Cinco Um:

“O exame da evidência empírica mais robusta quase sempre resulta na quebra dos preconceitos e das expectativas construídas pelo senso comum. Sigman desconstrói, por exemplo, a noção de talento como dom inato que pode até ser desperdiçado, mas jamais é conquistado com doses adequadas de esforço. O ouvido absoluto (capacidade de identificar notas musicais sem ter um tom de referência) é uma valiosa raridade no Ocidente, mas chega a ser comum em chineses e vietnamitas. Pesquisas da neurocientista inglesa Diana Deutsch mostram que a origem dessa diferença é cultural. A maior parte das crianças pequenas tem ouvido quase absoluto, mas nas populações ocidentais essa capacidade se atrofia por falta de uso, exceto em crianças expostas à música desde muito cedo. Em vários povos orientais, as línguas codificam significados também de acordo com a prosódia, ou seja, mudam de sentido conforme o tom. Mesmo crianças chinesas e vietnamitas não expostas à música tendem a manter a capacidade de distinguir tons pela prática da linguagem, facilitando enormemente o trabalho dos caçadores de talento nos conservatórios.”

Um campo aparado cercado por bosques

Trechos de Imunidade, de Eula Biss (Todavia, 206 págs., tradução de Pedro Maia Soares):

“‘Toxicologia intuitiva’ é o termo que [Paul] Slovic usa para a forma como a maioria das pessoas avalia o risco dos produtos químicos. Sua pesquisa revela que essa abordagem é distinta dos métodos utilizados pelos toxicologistas, e tende a produzir resultados diferentes. Para os toxicologistas, ‘a dose faz o veneno’. Qualquer substância em excesso pode ser tóxica. A água, por exemplo, em doses muito elevadas é letal para os seres humanos, e o excesso de hidratação matou um corredor na maratona de Boston de 2002. Mas a maioria prefere pensar nas substâncias químicas como seguras ou perigosas, independentemente da dose. E expandimos essa ideia, na medida em que consideramos prejudicial qualquer exposição a produtos químicos, por mais breve ou limitada que seja.”

“Ao explorar essa ideia, Slovic sugere que pessoas que não são toxicologistas podem aplicar uma ‘lei do contágio’ à toxidade. Assim como a breve exposição a um vírus microscópico pode resultar em doença para o resto da vida, supomos que a exposição a qualquer quantidade de um produto químico nocivo contaminará nossos corpos para sempre. ‘Ser contaminado tem claramente um caráter de tudo ou nada, como estar vivo ou grávida.’”

“Um dos apelos da medicina alternativa é que ela oferece não apenas uma filosofia ou tratamento alternativo, mas também uma linguagem alternativa (…). Por mais verdadeira que seja, a ideia de que nosso remédio é tão defeituoso quanto nós não é reconfortante. E quando conforto é o que queremos, um dos mais poderosos tônicos que a medicina alternativa oferece é a palavra ‘natural’. Ela implica um remédio não perturbado pelas limitações humanas (…), que passou a significar para nós (…) ‘puro’, ‘seguro’ e ‘benigno’. Mas o uso de natural como sinônimo de ‘bom’ é quase certamente um produto de nossa profunda alienação do mundo natural.”

“Permitir que as crianças desenvolvam ‘naturalmente’ a imunidade a doenças contagiosas, sem vacinação, é uma ideia bastante atraente para alguns de nós. Grande parte dessa atração depende da crença de que as vacinas são inerentemente antinaturais. Mas as vacinas pertencem àquele lugar de transição entre os seres humanos e a natureza – um campo aparado (…) cercado por bosques. A vacinação é uma espécie de domesticação de uma coisa selvagem, na medida em que envolve nossa capacidade de atrelar um vírus e domá-lo como um cavalo, mas sua ação depende da resposta natural do corpo (…). O aspecto mais antinatural da vacinação é que, quando tudo corre bem, ela não provoca doença nem produz um mal.”

Faulkner e os caipiras de São Paulo e Minas

Paulo Henriques Britto sobre as dificuldades da tradução que fez de O Som e a Fúria, no posfácio da nova edição do romance (Companhia das Letras, 373 págs.):

“Como todas as personagens negras são também pessoas de pouca ou nenhuma instrução formal, seu dialeto pode ser diferenciado do falar das personagens brancas através do uso de marcas que caracterizem o português subpadrão. Em muitos casos, bastou o artifício de marcar o plural apenas no primeiro elemento de um sintagma, uma característica da fala dos brasileiros desprovidos de escolaridade que atravessa todas as fronteiras dialetais: ‘eles vai dizer’, ‘me meter na vida dos branco’ etc. Outros recursos foram empregados, como o uso de indicativo em lugar de subjuntivo (‘quer que eu levanto a persiana um pouquinho?’). Foram evitadas, porém, as marcas fonéticas, tão comuns no inglês, por vários motivos. O primeiro é que, no Brasil, as distorções de pronúncia são tradicionalmente usadas para criar efeito burlesco, com intenção cômica – e na figura digna de Disley [personagem negra do livro] nada há que justifique tal coisa. Outro problema associado (…) é que, em muitos casos, não se pode assinalar uma pronúncia de uma palavra desviante da norma culta brasileira sem ao mesmo tempo criar uma associação com um determinado dialeto geográfico. Não há um modelo de pronúncia subpadrão genericamente brasileiro, que não evoque nenhuma região em particular; e muitos leitores se sentiriam incomodados se Disley e seus descendentes falassem como caipiras de São Paulo ou de Minas Gerais, ou como a gente simples do interior da Bahia ou de Pernambuco. Por fim, se marcássemos fortemente todas as falas em black english, seriamos obrigados, por uma questão de coerência, a fazer o mesmo com muitas das dicções de personagens brancas – afinal, a de Jason também contém marcas fonéticas. Mas nesse caso estaríamos frustrando nosso propósito original, que era distinguir as falas dos negros dos brancos (…).

Por definição, o sabor específico do inglês sulista, branco ou negro, que constitui a matéria-prima da prosa de Faulkner, é algo que não pode existir fora do inglês – mais ainda, fora do inglês norte-americano. As associações que se fazem entre uma determinada expressão, forma sintática ou pronúncia, de um lado, e uma região geográfica e um momento histórico, de outro, são restritas ao universo mental dos falantes daquele idioma, e seria tão inviável reproduzi-as numa língua estrangeira quanto seria recriar os efeitos de instrumentação de uma peça sinfônica numa transcrição para piano (…). Mas se a obra conseguiu o reconhecimento internacional que hoje tem, e se ela fascinou tantos leitores em versões traduzidas para os mais variados idiomas, é porque há nela muito além de uma utilização brilhante de variantes dialetais.”

Faulkner: poesia e violência

Trechos de Luz em Agosto (Cosac Naify, 440 páginas, tradução de Celso Mauro Paciornik):

“A carroça se arrasta penosamente na direção dela na aura vagarosa e palpável de sonolência e poeira vermelha em que as patas persistentes das mulas se movem como num sonho, pontuadas pelo retinir esparso de arreios e o balouço ágil de orelhas de lebre”.

“Era um trem expresso e nem sempre parava em Jefferson. Ficou ali parado apenas o tempo suficiente para vomitar os dois cães: mil ricas toneladas de intrincadas e curiosas cintilações metálicas se precipitando com estrépito num silêncio quase chocante repleto de murmúrios humanos.”

“Uma parte do maquinário seria abandonada, já que peças novas sempre poderiam ser compradas a prestação – engrenagens gastas, emperradas, petrificadas, projetando-se dos montículos de tijolo quebrado e tufos de mato com uma aparência assombrosa, e caldeiras destruídas por dentro alçando as chaminés ferrugentas e inativas com um ar teimoso, frustrado e estúpido sobre uma paisagem postulada de tocos de silenciosa e profunda desolação, não arada, não semeada, esvaindo-se lentamente em ravinas vermelhas cunhadas debaixo das chuvas longas e mansas do outono e da fúria galopante dos equinócios primaveris.”

“Nesse período ele a veria de longe de vez em quando durante o dia nas dependências traseiras, onde ela se movimentava articulada sob as roupas limpas e austeras que usava, aquela opulência apodrecida pronta para transbordar em putrefação a um toque, como algo crescendo num pântano, sem olhar uma vez sequer para a cabana ou para ele. E quando pensava naquela outra personalidade que parecia existir em algum lugar da própria escuridão física, parecia-lhe que o que agora via à luz do dia era o fantasma de alguém a quem a irmã noturna havia assassinado e que agora perambulava a esmo pelos cenários da antiga paz, privado até do poder de se lamentar.”

“E quando Hightower se aproxima, o cheiro de carne flácida e sem banho e de roupas muito usadas – aquele odor de obstinado sedentarismo, de banhas lavadas sem muita frequência – é quase avassalador. Entrando, Byron pensa como já pensou antes: ‘É o seu direito. Pode não ser o meu jeito, mas é o seu jeito e o seu direito.’ E lembra que uma vez lhe pareceu ter encontrado uma resposta, como que por inspiração, por adivinhação: ‘É o odor da bondade. Claro que cheiraria mal para nós que somos maus e pecadores.’”

“É bem possível que tivesse a impressão de estar parado justo e firme como uma rocha e sem pressa nem ódio enquanto por todos os lados a sordidez da fraqueza humana se agitava num longo suspiro de terror diante do verdadeiro representante do Trono furioso e vingador. Talvez não tenham sido suas mãos que atingiram o rosto do jovem a quem ele alimentara e abrigara e vestira desde criança, e talvez quando o rosto se esquivou do golpe e se endireitou de novo não fosse o rosto daquela criança. Mas isso não poderia surpreendê-lo, pois não era com aquele rosto de criança que ele se preocupava; era com o rosto de Satã.”

“Começou a dizer e repetir para si mesmo Eu não como desde que não como desde tentando se lembrar de quantos dias haviam se passado desde a sexta-feira em Jefferson, no restaurante onde ele jantara, até algum tempo depois, naquele repouso mudo à espera de que os homens comessem e saíssem para o campo, o nome do dia da semana lhe pareceu mais importante que a comida. Porque quando os homens finalmente saíram e ele desceu, emergiu, na invariável claridade baça e foi para a porta da cozinha, não pediu comida. Pretendia pedir. Podia sentir as palavras rudes se armando em sua mente, logo atrás da boca. E então a mulher magra, coriácea, veio até a porta e olhou-o e dava para ver choque e reconhecimento e medo em seus olhos enquanto pensava Ela me conhece. Ela ficou sabendo também ouviu a própria boca falar com toda a calma: ‘Pode me dizer que dia é hoje? Só quero saber que dia é hoje’”

“Comeu algo de uma tigela invisível, com dedos invisíveis: comida invisível. Não se preocupou com o que seria. Nem soube que havia imaginado ou provado até a mandíbula parar subitamente no meio da mastigação e o pensamento voar para vintecinco anos antes na rua, para além de todas as esquinas imperceptíveis de amargas derrotas e mais amargas vitórias, e oito quilômetros além de uma esquina onde costumava esperar nos terríveis primeiros tempos de amor, por alguém cujo nome esquecera; oito quilômetros ainda mais além ele foi Saberei num minuto. Comi isso antes, em algum lugar. Num minuto saberei memória conectando sabendo eu vejo eu vejo eu mais do que vejo ouço eu ouço eu vejo minha cabeça curvar eu ouço a voz dogmática monótona que acho que jamais deixará de continuar e continuar para sempre e espiando eu vejo o projétil indomável a barba rente limpa eles também curvados e eu pensando Como ele pode estar tão sem fome e eu sentindo minha boca e língua gotejando o sal quente da espera meus olhos provando o vapor quente do prato ‘É ervilha’, disse em voz alta. ‘Santo Deus. Ervilhas silvestres cozidas com melaço.’”

“Na densa obscuridade carregada de perfume demulherrrosada atrás da cortina ele se acocorava, espumandorrosa, auscultando suas entranhas, esperando com atônito fatalismo o que estava para lhe acontecer. Então aconteceu. Ele disse para si mesmo com total e passiva rendição: ‘Bom, aqui estou’. Quando a cortina foi aberta ele não olhou para cima. Quando mãos o arrastaram violentamente de seu vômito, não resistiu. Pendia flácido das mãos, olhando com uma idiotia de olhos vidrados e queixo caído para um rosto não mais rosa e branco suave, emoldurado agora por cabelos selvagens e desgrenhados cujas tranças acetinadas antes o faziam pensar em doces. ‘Seu ratinho!’, sibilou a voz fina, enfurecida; ‘seu ratinho! Me espionando! Seu negrinho maldito!’”

“Ele correu diretamente para a cozinha e para a porta, já atirando, quase antes de ter podido ver a mesa virada e apoiada de lado no canto do recinto, e as mãos reluzentes e cintilantes do homem agachado atrás dela apoiadas na borda superior. Grimm esvaziou a câmara da automática na mesa. Mais tarde alguém cobriu todos os cinco tiros com um lenço dobrado (…). Quando os outros chegaram à cozinha, viram a mesa agora afastada para o lado e Grimm inclinado sobre o corpo. Quando se aproximaram para ver o que ele pretendia, viram que o homem ainda não estava morto, e quando perceberam o que Grimm estava fazendo um dos homens soltou um grito abafado e cambaleou para trás até a parede e começou a vomitar. Então Grimm também saltou para trás, atirando para trás a ensanguentada faca de açougueiro. ‘Agora você vai deixar mulheres brancas em paz, mesmo no inferno’, disse.”

“Então lhe parece que uma maldita torrente final dentro dele irrompe e se precipita para longe. Ele parece observá-la, sentindo perder contato com a terra, cada vez mais leve, esvaziando, flutuando. ‘Estou morrendo’, pensa. ‘Devia rezar. Devia tentar rezar,’ Mas não o faz. Não tenta. ‘Com todo o ar, todo o céu, cheio dos gritos perdidos e ignorados de todos os seres que já viveram, lamentando-se ainda como crianças perdidas entre as frias e terríveis estrelas… Eu queria tão pouco. Pedi tão pouco. Pareceria que…’ A roda segue rodando. Gira agora, diminuindo, sem progresso, como se girada por aquela torrente final que irrompera dele, deixando seu corpo vazio e mais leve que uma folha de árvore esquecida e ainda mais trivial que destroços de um naufrágio jazendo gastos e imóveis sobre o parapeito da janela que não tem solidez sob mãos que não têm peso; de modo que pode ser agora Agora É como se eles tivessem esperado até ele poder encontrar alguma coisa para palpitar, para serem reafirmados em triunfo e desejo, para este último resto de honra e orgulho e vida. Ele ouve acima do seu coração o estrondo crescer, múltiplo, retumbante. Como um longo suspiro de vento nas árvores ele começa, então surgem de repente, acompanhados agora por uma nuvem de poeira espectral. Passam em disparada, curvados para frente sobre as selas, brandindo as armas, embaixo de fitas agitadas de lanças inclinadas e impetuosas; com alvoroço e uma gritaria inaudível passam como uma onda cuja crista é recortada pelas cabeças selvagens de cavalos e os braços brandidos por homens como a cratera de um mundo em explosão.”

Gelo, poeira e um amigo

Conto de Lucia Berlin em Manual da Faxineira (Companhia das Letras, 532 páginas, tradução de Sonia Moreira):

“Quando fresco, parece caviar, faz um barulho de cacos de vidro, de alguém mordendo gelo.

Eu mordia gelo quando a limonada acabava, balançando com a minha avó no balanço da varanda. Ficávamos olhando lá para baixo, para o grupo de presidiários acorrentados que estava pavimentando a Upson Street. Um capataz derramava o macadame; os prisioneiros o calcavam com batidas fortes e ritmadas. As correntes retiniam; o macadame fazia barulho de aplausos.

Nós três dizíamos essa palavra com frequência. Minha mãe porque odiava o lugar onde morávamos, sujo e miserável, e agora pelo menos teríamos uma rua de macadame. Minha avó apenas porque queria muito que as coisas ficassem limpas – o macadame iria segurar a poeira. A poeira vermelha texana que o vento soprava para dentro de casa com resíduos cinza da fundição, formando dunas no piso encerado do hall, na mesa de mogno.

Eu dizia macadame em voz alta, para mim mesma, porque parecia um nome para um amigo.”

A via expressa da ficção

Yuval Noah Harari em Sapiens (L&PM, 459 págs., tradução de Janaína Marcantonio):

“A característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem (…). Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos.

Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?

A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente (…). Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida, e apenas com parentes próximos. Lobos e chimpanzés cooperam de forma muito mais versátil que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente (…). Dois católicos que nunca se cruzaram podem, no entanto, lutar juntos em uma cruzada ou levantar fundos para construir um hospital porque ambos acreditam que Deus encarnou em um corpo humano e foi crucificado para redimir nossos pecados (…). Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia. (…). Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos. As pessoas entendem facilmente que os ‘primitivos’ consolidam sua ordem social acreditando em deuses e espíritos se reunindo a cada lua cheia para dançar juntos em volta da fogueira. Mas não conseguimos avaliar que nossas instituições modernas funcionam exatamente sobre a mesma base (…).

Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se esses mitos – contando-se histórias diferentes (…). Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética.”

Os intelectuais e a pós-verdade, anos 1920-1930

Ainda Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (ver post anterior), que foi publicado em 1951. O termo ralé é usado no livro para definir os ‘refugos’ de todas as classes sociais que não acreditavam num modelo de democracia representativa posterior à Primeira Guerra:

“É desconcertante a atração que os movimentos totalitários exerceram sobre a elite, enquanto e onde não houvessem tomado o poder, porque as doutrinas patentemente vulgares, arbitrárias e dogmáticas do totalitarismo são mais visíveis para o espectador que está de fora. Essas doutrinas discrepavam tanto dos padrões intelectuais, culturais e morais geralmente aceitos que se podia concluir que somente um defeito básico, inerente do caráter do intelectual (…), explicava o prazer com que a elite aceitava as ‘ideias’ da ralé. O que os porta-vozes do humanismo e do liberalismo geralmente esquecem, no seu amargo desapontamento e no seu desconhecimento das experiências mais gerais da época, é que, numa atmosfera em que todos os valores e proposições tradicionais haviam se evaporado – e no século XIX as ideologias se haviam refutado umas às outras e esgotado o seu apelo vital –, era de certa forma mais fácil aceitar proposições patentemente absurdas do que as antigas verdades que haviam virado banalidades, exatamente porque não se esperava que ninguém levasse a sério os absurdos. A vulgaridade, com seu cínico repúdio dos padrões respeitados e das teorias aceitas, trazia em si um franco reconhecimento do que havia de pior e um desprezo por toda simulação que facilmente passava por bravura e novo estilo de vida. No crescente triunfo das atitudes e convicções da ralé – que não eram mais que as atitudes e convicções da burguesia despidas de fingimento – aqueles que tradicionalmente odiavam a burguesia e tinham voluntariamente abandonado a sociedade respeitável viam apenas a falta de hipocrisia e de respeitabilidade, não o seu conteúdo.

Desde que a burguesia afirmava ser a guardiã das tradições ocidentais e confundia todas as questões morais exibindo em público virtudes que não só não incorporava na vida privada e nos negócios, mas que realmente desprezava, parecia revolucionário admitir a crueldade, o descaso pelos valores humanos e a amoralidade geral, porque isso pelo menos destruía a duplicidade sobre a qual a sociedade existente parecia repousar. Como era tentador assumir atitudes extremas na meia-luz hipócrita dos duplos padrões de moral, colocar publicamente no rosto a máscara da crueldade quando todos fingiam ser bondosos e ostentar a maldade num mundo que nem sequer era de maldade, mas de mesquinhez! A elite intelectual dos anos 20, que pouco sabia da antiga relação entre a ralé e a burguesia, estava convencida de que o velho jogo de épater le bourgeois podia ser jogado com perfeição, se o primeiro lance fosse chocar a sociedade com a caricatura irônica da sua própria conduta.

Naquela época, ninguém podia imaginar que a verdadeira vítima dessa ironia seria a elite e não a burguesia. A avant-garde ignorava que estava investindo não contra paredes, mas contra portas abertas; o sucesso unânime desmentiria a sua pretensão de ser uma minoria revolucionária, e demonstraria que ela buscava apenas exprimir um novo espírito de massa, que era o espírito do seu tempo. A esse respeito, foi particularmente significativa a acolhida que a Ópera dos Três Vinténs de Brecht teve na Alemanha de antes de Hitler. A peça mostrava bandidos como respeitáveis negociantes e respeitáveis negociantes como bandidos. A ironia não atingiu o alvo, pois os respeitáveis negociantes da plateia enxergaram naquilo uma visão profunda das coisas do mundo, e a ralé tomou a peça como a aprovação artística do banditismo. O tema musical da peça, Antes vem a comida, depois vem a moral, recebeu o aplauso delirante de todos, embora de cada um por motivos diferentes. A ralé aplaudiu porque levou a sério a afirmação; a burguesia aplaudiu porque fora lograda durante tanto tempo por sua própria hipocrisia que se cansara do esforço e via profunda sabedoria na expressão da banalidade de sua vida; a elite aplaudia porque desmascarar a hipocrisia era um elevado e maravilhoso divertimento. O efeito da obra foi exatamente o oposto do que Brecht pretendia. A burguesia já não se chocava com coisa alguma; acolhia com prazer a denúncia da sua filosofia, cuja popularidade provava que sempre estivera certa, de sorte que o único resultado político da ‘revolução’ de Brecht foi encorajar todo o mundo a arrancar a máscara incômoda da hipocrisia e aceitar abertamente os padrões da ralé.

Cerca de dez anos mais tarde, na França, o Bagatelles pour um massacre, no qual Céline propunha que se massacrassem todos os judeus, provocou reação igualmente ambígua. André Gide expressou publicamente o seu deleite nas páginas da Nouvelle Revue Française, naturalmente não porque quisesse matar os judeus da França, mas porque exultava com a brutal confissão desse desejo e com a fascinante contradição entre a grosseria de Céline e a polidez hipócrita que cercava a questão judaica em todos os círculos respeitáveis. O desejo da elite de desmascarar a hipocrisia era tão irresistível que nem mesmo a perseguição muito real que Hitler promoveu contra os judeus chegou a prejudicar essa exultação – e a perseguição já estava em pleno andamento quando Céline escreveu o livro. A aversão contra o filo-semitismo dos liberais tinha muito mais a ver com essa reação do que o ódio aos judeus. O fato notável de que as conhecidas opiniões de Hitler e Stálin sobre arte, e a perseguição que ambos promoveram contra os artistas modernos, nunca eliminaram a atração que os movimentos totalitários exerciam sobre os artistas da avant-garde pode ser explicado por um estado de espírito semelhante – o que demonstra a falta de senso de realidade da elite e o seu pervertido desprendimento, muito afins do mundo fictício em que viviam e da falta de interesses das massas por si mesmas. A grande oportunidade dos movimentos totalitários, e o motivo pelo qual uma aliança temporária entre a elite intelectual e a ralé pôde ocorrer, foi que, de certo modo elementar e indistinto, os seus problemas se tornavam os mesmos e prefiguravam os problemas e a mentalidade das massas.”

Ideologia e terror

Trechos de Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs., tradução de Roberto Raposo):

– “As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico – os segredos do passado, as complexidade do presente, as incertezas do futuro – em virtude da lógica inerente de suas respectivas ideias. (…) A palavra ‘raça’ no racismo não significa qualquer curiosidade genuína acerca das raças humanas como campo de exploração científica, mas é a ‘ideia’ através da qual o movimento da história é explicado como um único processo coerente.”

– “O único movimento possível no terreno da lógica é o processo de dedução a partir de uma premissa. Nas mãos de uma ideologia, a lógica dialética, com o seu processo de ir da tese, através da antítese, para a síntese, que por sua vez se torna a tese do próximo movimento dialético, não difere em princípio; a primeira tese passa a ser a premissa, e a sua vantagem para a explicação ideológica é que esse expediente dialético pode fazer desaparecer as contradições factuais, explicando-as como estágios de um só movimento coerente e idêntico. Assim que se aplica a uma ideia a lógica como movimento de pensamento – e não como necessário controle do ato de pensar – essa ideia se transforma em premissa. As explicações ideológicas do mundo realizaram essa operação muito antes que ela se tornasse tão útil para o raciocínio totalitário.”

– “As ideologias do Século XIX não constituem por si mesmas o totalitarismo. Embora o racismo e o comunismo tenham se tornado as ideologias decisivas do Século XX, não eram, a princípio, ‘mais totalitárias’ do que as outras; isso aconteceu porque os elementos da experiência nos quais originalmente se baseavam – a luta entre as raças pelo domínio do mundo, e a luta entre as classes pelo poder político nos respectivos países – vieram a ser politicamente mais importantes que os das outras ideologias. Nesse sentido, a vitória ideológica do racismo e do comunismo sobre todos os outros ismos já estava definida antes que os movimentos totalitários se apoderassem precisamente dessas ideologias.”

– “Sob a crença nazista em leis raciais como expressão da lei da natureza, está a ideia de Darwin do homem como produto de uma evolução natural que não termina necessariamente na espécie atual de seres humanos, da mesma forma como, sob a crença bolchevista numa luta de classes como expressão da lei da história, está a noção de Marx da sociedade como produto de um gigantesco movimento histórico que se dirige, segundo a sua própria lei de dinâmica, para o fim dos tempos históricos, quando então se extinguirá a si mesmo (…). A diferença entre a atitude histórica de Marx e a atitude naturalista de Darwin já foi apontada muitas vezes, quase sempre, com justiça, a favor de Marx. Isso nos leva a esquecer o profundo e positivo interesse de Marx pelas teorias de Darwin; para Engels, o maior cumprimento à obra erudita de Marx era chama-lo de ‘Darwin da história’. Se considerarmos não a obra propriamente dita, mas as filosofias básicas de ambas, verificaremos que, afinal, o movimento da história e o movimento da natureza são um só. O fato de Darwin haver introduzido o conceito de evolução na natureza, sua insistência em que, pelo menos no terreno da biologia, o movimento natural não é circular, mas unilinear, numa direção que progride infinitamente, significa de fato que a natureza está, por assim dizer, sendo assimilada à história, que a vida natural deve ser vista como histórica. A lei ‘natural’ da sobrevivência dos mais aptos é tão histórica – e pôde ser usada como tal pelo racismo – quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista. Por outro lado, a luta de classes de Marx como força motriz da história é apenas a expressão externa do desenvolvimento de forças produtivas que, por sua vez, emanam da ‘energia trabalho’ dos homens. O trabalho, segundo Marx, não é uma força histórica, mas natural-biológica – produzida pelo ‘metabolismo [do homem] na natureza, através do qual ele conserva sua vida individual e reproduz a espécie’”

– “Engels viu com muita clareza a afinidade entre as convicções básicas dos dois homens [Marx e Darwin] porque compreendia o papel decisivo que o conceito de evolução desempenhava nas duas teorias. A tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do Século XIX constituiu na recusa de encarar qualquer coisa ‘como é’ e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior. Que a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou história tinha importância relativamente secundária. Nessas ideologias, o próprio termo ‘lei’ mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e movimentos humanos, para ser expressão do próprio movimento.”

– “A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada quando não se pudessem encontrar novas categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da história que, numa luta de classes, certas classes ‘fenecem’, a própria história humana chegaria ao fim se não se formassem novas classes que, por sua vez, pudessem ‘fenecer’ nas mãos dos governantes totalitários. Em outras palavras, a lei de matar, pela qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio.”

– “O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível à força da natureza ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura ‘estabilizar’ os homens a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do ‘inimigo objetivo’ da História ou da Natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; ‘culpado’ é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às ‘raças inferiores’, quando a quem é ‘indigno de viver’, quanto a ‘classes agonizantes e povos decadentes’. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis históricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lógica inerente. O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a natureza ou a história.”

Barbantes, tubarões, deuses impotentes

Poemas de Um Amor Feliz, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras, 327 págs.):

NATUREZA-MORTA COM UM BALÃOZINHO – Em vez da volta das lembranças/ na hora de morrer/ quero ter de volta/ as coisas perdidas.// Pela porta, janela, malas,/ sombrinhas, luvas, casaco,/ para que eu possa dizer:/ Para que tudo isso// Alfinetes, este e aquele pente,/ rosa de papel, barbante, faca,/ para que eu possa dizer:/ Nada disso me faz falta.// Esteja onde estiver, chave/ tente chegar a tempo,/ para que eu possa dizer:/ Ferrugem, minha cara, ferrugem./ Caia uma nuvem de atestados,/ licenças, enquetes,/ para que eu possa dizer:/ Que lindo sol se pondo./ Relógio, aflore do rio/ e permita que te segure na mão,/ para que eu possa dizer:/ Você finge ser a hora.// Vai aparecer também um balãozinho/ levado pelo vento,/ para que eu possa dizer:/ Aqui não há crianças.// Voe pela janela aberta,/ voe para o vasto mundo,/ que alguém grite: Ó!/ para que eu possa chorar.

UM ENCONTRO INESPERADO – Nos tratamos com muita cortesia,/ dizemos que é ótimo nos encontrarmos depois de anos.// Nossos tigres bebem leite./ Nossos falcões andam a pé./ Nossos tubarões se afogam n’água./ Nossos lobos bocejam junto à jaula aberta.// Nossas víboras livraram-se dos relâmpagos,/ os macacos da inspiração, os pavões das penas./ Os morcegos já há muito voaram dos nossos cabelos.// Silenciamos no meio da frase,/ impotentes, sorridentes./ Nossa gente/ não sabe se falar.

AS CARTAS DOS MORTOS – Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,/ mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores./ Sabemos quais dívidas não foram pagas./ Com quem as viúvas rapidamente se casaram./ Pobres mortos, mortos cegos,/ enganados, falíveis, canhestramente previdentes./ Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas./ Capturamos o som de testamentos sendo rasgados./ Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,/ ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça./ Seu mau gosto. Napoleão, vapor e eletricidade,/ seus remédios mortíferos para doenças curáveis,/ seu tolo apocalipse segundo são João,/ o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques…/ Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,/ só que movidos três casas à frente./ Tudo que previam aconteceu de modo totalmente diverso,/ ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso./ Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança/ porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição.

Sade, algoritmos e publicidade

Trechos da palestra de um publicitário em Meia-Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 202 págs.), citando o livro Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade:

“O que gostaria que vocês enxergassem nesse texto é a maneira como ele discrimina os diversos elementos de suas fantasias sexuais, cada ínfima unidade de tudo aquilo que excita sua imaginação, para depois organizar, combinar e recombinar tudo à exaustão. Ele concebeu nada menos que seiscentas dessas cenas. Teve tempo de desenvolver apenas cento e cinquenta, mas imaginou seiscentas variações de intensidade crescente, trabalhando com um conjunto de elementos recorrentes. Não se trata de uma estratégia narrativa comum. Nem tentem encontrar aqui alguma jornada do herói, arquétipos, realismo psicológico. Sade escreveu uma narrativa algorítmica (…). O que potencializa as ideias de Sade é um procedimento semelhante a uma análise combinatória. Sendo mais preciso, o que a forma do romance Saló evoca em nossa época é o processamento de informação realizado pelo computador. Todos estamos, hoje, familiarizados com essa lógica, a ponto de não repararmos nela. A pornografia que formata o imaginário sexual da minha geração e de todas que vieram depois é produzida e distribuída com base em gigantescos bancos de dados de hábitos de navegação e consumo online. Quando consumimos pornografia online, como todos aqui fazem de uma maneira ou outra, observamos e alimentamos essa lógica na produção do erotismo, mas ela se estende a todos os campos da experiência humana. É o que fazemos com o nosso próprio material genético, com a sucessão de dietas da moda, com o nosso comportamento enquanto espectadores e leitores, com o sono, com nossas rotinas de trabalho, com nossos ideais de felicidade, com a pesquisa científica, com aplicativos de dating ou que contam os passos e batimentos cardíacos do usuário. Estamos falando da quantificação total da existência. Estamos falando de converter para o formato digital todas as manifestações culturais imagináveis. O tratamento que Sade deu a seus desejos, confinado entre as paredes de pedra de uma cela no interior de um castelo, é o tratamento que damos aos nossos desejos no mundo livre”.

“Nossos clientes não são exatamente libertinos confinados numa torre. São hiper-consumidores condenados à liberdade no capitalismo cada vez mais acelerado. Mas a tecnologia digital os condiciona a converter seus desejos em informação recombinável, resultando nessa medição de tudo, nessa busca do esgotamento das possibilidades. Nenhuma experiência humana, nem mesmo a arte, escapa das mandíbulas desse processo. Essa profanação de tudo que antes era indistinto, inatingível e elevado é um procedimento sádico, não no sentido da crueldade que o senso comum atribui ao termo, mas no sentido do sonhar com o esgotamento metódico do desejo por meio de estratégias de processamento de informação (…). Sai a intensidade, entra a quantidade. Sai o sublime, entram os padrões. Como Sade nos ensina, isso não elimina o êxtase ou mesmo a beleza, mas certamente os transfigura em algo distinto. A beleza que surge é a beleza dos padrões, das formas de arquivamento, dos algoritmos, das montagens e dos contrastes extraídos do excesso de informação. Nesse novo mundo não existe a menor possibilidade de transcendência e transgressão. Não existe nenhuma verdade adormecida sob a superfície. As flores que podem nascer em tanto excesso morrem de um dia pro outro.”

O álibi do monstro

Uma personagem de Simpatia Pelo Demônio, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 236 págs.), falando do personagem Ivánov, da peça homônima de Tchekhov:

“Você não entendeu nada. Quando ele se diz culpado, não está assumindo culpa nenhuma, ao contrário. Quando ele diz que é culpado, está se eximindo da culpa. E está se pondo no centro da ação (…). Só pode dizer que é culpado porque no fundo não sente culpa nenhuma. ‘Sou culpado’ é a frase perfeita, automática e vazia do irresponsável; é seu álibi, sua desculpa, além de ser uma contradição em termos. É a frase que define quem tem da culpa uma compreensão exterior, intelectual. O que ele está dizendo é: ‘Não posso fazer nada; estou condenado a ser monstro; faz parte da minha natureza, que eu não posso contrariar’. O amor que ele diz sentir pelos outros tem perna curta e termina sendo um enfado, porque está sempre aquém do amor que ele sente por si mesmo. E o amor dos outros por ele é a própria banalidade, o próprio lugar-comum, porque é natural, ele espera que todo mundo o ame, claro, já que encarna o sedutor por excelência. É impossível não amá-lo, você entende? Ele só pode amar uma mulher enquanto não tiver certeza de que ela lhe corresponde, enquanto ela guardar algum mistério, alguma opacidade, enquanto ela não sucumbir à banalidade de amá-lo como todas as outras, enquanto ela não cair no lugar-comum de se declarar, na vulgaridade de tornar transparentes os seus sentimentos. Ele é só a depuração mais extrema do que acaba se reproduzindo em maior ou menor grau em todo mundo. Somos todos mais ou menos Ivánov.”

Vida além da vida

James Wood em Como Funciona a Ficção (Cosac Naify, 228 págs. Tradução de Denise Bottmann):

“O realismo, visto em termos amplos como veracidade em relação às coisas como são, não pode ser mera verossimilhança, não pode ser meramente parecido ou igual à vida; há de ser o que devo chamar de vida animada [lifeness]: a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças à mais elevada capacidade artística. E não pode ser um gênero; pelo contrário, ela faz com que as outras formas de ficção pareçam gêneros. Pois esse tipo de realismo – a vida animada – é a origem. É o mestre de todos os outros; ensina também os que cabulam suas aulas: é ele que permite existir o realismo mágico, o realismo histérico, a fantasia, a ficção científica e mesmo o suspense. Nada tem daquela ingenuidade que lhe imputam os adversários; quase todos os grandes romances realistas do século XX também refletem sobre sua própria elaboração e estão repletos de artifícios. Todos os maiores realistas, de Austen a Alice Munro, são ao mesmo tempo grandes formalistas. Mas essa questão será sempre difícil: pois o escritor tem de agir como se os métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções, e por isso ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. O verdadeiro escritor, aquele livre servidor da vida, precisa sempre agir como se a vida fosse uma categoria mais além de qualquer coisa já captada pelo romance, como se a própria vida sempre estivesse à beira de se tornar convencional.”

O mingau da destruição

Trechos da reportagem de Consuelo Dieguez sobre o desastre de Mariana/MG, na Piauí de julho:

“Quando as comportas se abriram, a onda desceu com força de catarata. Um mingau espesso da cor de mertiolate, impregnado de rejeito de minério, avançou pelo rio Doce, eliminando a vida existente: peixes, algas, micro-organismos, capivaras que passeavam nas margens, além de toda a vegetação ao redor, que desapareceu como se cortada por uma lâmina. Ao contaminar o rio, a lama, numa reação em cadeia, afetou toda a bacia do Doce, uma região de 86 mil quilômetros quadrados, território equivalente ao da Áustria. No total, 228 municípios foram impactados pelo desastre. Naqueles primeiros dias, seis deles seriam dramaticamente atingidos.

(…)

A 300 quilômetros dali, em Governador Valadares, o empresário Sandro Heringer acordou com a notícia de que a lama invadira o rio Doce. Conhecedor da região, deduziu que em breve a onda chegaria a sua cidade. Com 300 mil habitantes, Valadares é o maior município banhado pelo rio. A relação dos moradores com suas águas é tão estreita que Valadares é a única cidade brasileira a ter uma medalha olímpica de remo (…). No domingo, dia 8, três dias após o rompimento, conscientes de que a destruição do rio era inexorável, a turma do remo se juntou para uma melancólica despedida. Em silêncio, em seus caiaques, mais de 100 remadores, Heringer entre eles, entraram no rio, remaram por um longo tempo e atiraram-se em suas águas. Sabiam que seria a última vez, pelos próximos dez anos, no mínimo, que poderiam repetir aquele ritual.

(…)

Na manhã de terça-feira, dia 10, cinco dias após o desastre, a água em Valadares começou a escassear. No dia 11, com os reservatórios vazios, a cidade entrou em colapso. Os caminhões-pipa contratados pela prefeitura não davam conta de atender a todas as comunidades. A prefeitura exigiu da Samarco a doação de água mineral, o que só foi feito após ordem judicial, já que a empresa afirmava não ter logística para fazer a distribuição. Governador Valadares se transformou numa praça de guerra, com saques a lojas e supermercados, tiroteios e ataques aos caminhões-pipa. O Exército precisou ser acionado. Moradores armados obrigavam os motoristas a desviar os caminhões-pipa para bairros não assistidos. Pessoas com dificuldades de locomoção ficaram presas em casa, com as torneiras secas.

(…)

Vescovi de Aragão [Samarco] botou a culpa em seus subordinados, esquivando-se de suas atribuições. Como diretor-presidente, disse, não possuía ‘responsabilidade direta em relação às barragens de Fundão, Santarém e Germano’; não tinha conhecimento da obra de recuo, aprovada, em 2012, pelo gerente-geral de Projetos; não poderia informar a causa da ruptura porque isso era da alçada do diretor de Operações (…). Ele não tinha nada a ver com aquilo tudo. Mas ainda assim garantiu que no dia do acidente ‘passou suporte e confiança aos funcionários que estavam atuando com a Defesa Civil e os bombeiros’. Mentiu à polícia ao dizer que o plano de ações emergenciais fora colocado em prática, já que tal plano não existia.

(…)

Em dezembro, os agentes federais grampearam conversas telefônicas de alguns funcionários da Samarco e da empresa VOGBR. Pelo que ouviram, concluíram que os executivos de ambas sabiam dos problemas da barragem, mas assumiram o risco de mantê-la funcionando (…). O engenheiro da VOGBR, Samuel Paes Loures, por exemplo, em conversa com o sócio da empresa, Othávio Afonso Marchi, fez um comentário raivoso sobre Joaquim de Ávila, o dono da consultoria Pimenta de Ávila [que fez parecer apontando a falta de segurança da barragem]: ‘Ele foi o único que jogou merda no ventilador e levantou a bola para a polícia. O curso da investigação mudou por causa dele. A gente tem que sair fora dessa.’ E, mais adiante, admitiu a culpa. ‘O Pimenta tem razão, mas ele está contribuindo com a investigação e fodendo a gente.’

(…)

Dilma Roussef só visitou a região afetada pelo maior desastre ambiental da história brasileira uma semana depois. Nos Estados Unidos, o presidente George W. Bush esperara dois dias para sobrevoar Nova Orleans – em agosto de 2005, o furacão Katrina devastou 80% da cidade (…). A demora veio a ser considerada uma das mais graves omissões de responsabilidade da história da Presidência norte-americana. No dia 12, a assessoria de Dilma finalmente a convenceu a ir a Governador Valadares (…). O Ibama, ligado à pasta do Meio Ambiente, resolvera aplicar multas no valor de 250 milhões de reais à Samarco (…). Caberia à presidenta anunciar a medida. No aeroporto de Valadares, ela fez uma reunião de emergência com os prefeitos das cidades atingidas e em seguida discursou. Foi um constrangimento. Primeiro, atrapalhou-se com o nome da empresa, que chamou de ‘São Marcos’. Depois, como que desconhecendo a gravidade da situação, afirmou que o rio Doce seria recuperado e ficaria ‘muito melhor do que era’. Por fim, anunciou a multa, da qual a empresa recorreria (e nunca pagaria). E se retirou.”

2 + 2 = morte

O narrador de Dostoiévski em Notas do Subsolo (L&PM, 149 págs., tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares):

“As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si (…), o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida (…), mas o começo da morte.”

O imperador no Simba Safári

Claudio Angelo em A Espiral da Morte (Companhia das Letras, 489 págs.), livro sobre a mudança no clima, o derretimento dos polos, o fim do mundo como o conhecemos e uma de suas primeiras vítimas:

“Em alguns lugares, seria preciso matar os ursos e diminuir a população para que ela se tornasse viável, ou encher zoológicos de ursos-polares e cruzá-los em cativeiro até que as emissões de gases-estufa diminuíssem a ponto de permitir uma volta do gelo e sua devolução à natureza (o que pode levar décadas, séculos ou simplesmente não acontecer). Em outros, seria preciso atrair os ursos para as zonas de alimentação diferentes e acostumá-los a procurar comida nesses lugares (…). Em outros ainda, os ursos selvagens precisariam ser alimentados pelos humanos todos os anos, durante vários meses, para sobreviver (…). Essa medida traz uma série de questões políticas, econômicas, éticas e de conservação. Por exemplo: é ético caçar um mamífero [focas] para alimentar outro mamífero? O grupo [de pesquisadores] sugere que não, até porque o degelo também ameaça as populações de focas. Portanto, os ursos teriam de ser alimentados com ração especial, do tipo que é dada a animais no zoológico. O que traz outra dificuldade: como fazer isso? E quem vai pagar a conta? (…) O estudo conclui que, dada a importância econômica dos ursos-polares para algumas regiões, alimentá-los pode, sim, ser uma opção válida de conservação. Várias porções do Ártico seriam, dessa forma, convertidas numa espécie de Simba Safári gigante, onde um animal que simboliza tudo o que há de mais remoto e selvagem no imaginário do Homo sapiens seria convertido numa ‘semifera’ eternamente dependente daqueles que lhe roubaram a casa e a comida (…). Um final melancólico para o reinado de 6 milhões de anos do imperador do Ártico, o maior predador da terra.”