Michel Laub

Mês: dezembro, 2011

10 pedidos de fim de ano para o meio literário

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

1. Escritores: parem de achar (ou pensar que os outros acham) que literatura é um sacerdócio/missão de espíritos privilegiados ou um trabalho qualquer. Sabemos que não é uma coisa e nem a outra.

2. Aproveitem e parem de explicar a própria obra usando definições externas a ela, em geral cunhadas pela crítica.

3. Críticos: aceitem que o número de autores e lançamentos os impede de acompanhar a produção contemporânea, ao menos de forma a construir teorias unificadoras num artigo de duas laudas.

4. Críticos da crítica: superar as considerações generalizantes sobre os resenhistas de jornal (que seriam superficiais), a academia (“encastelada entre seus muros”) e a internet (que teria igualado as vozes opinativas). Cada crítico é um caso, e quem tem algo a dizer continuará a ser ouvido (só não me perguntem como).

5. Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”.

6. Polemistas: quando confrontados, a não ser que seus familiares e animais domésticos sejam nominalmente referidos, não acusem o adversário de estar levando para o lado pessoal. Admitam que alguém pode achar estúpido o que vocês afirmam — e, no limite, não há forma mais honesta de dizer isso do que usar a palavra “estúpido”.

7. Produtores culturais, professores, bibliotecários: deixem uma pequena parte dos debates em feiras, festivais e eventos literários para a literatura em si, em vez de dedicar 100% de suas intervenções ao problema da educação, às políticas públicas para compras de livros e ao mercado.

8. Conselho do item 7 aplicado a jornalistas: só algumas perguntas a menos, e se isso não der muito trabalho de pesquisa, sobre e-books, blogs, redes sociais e influência da internet na ficção.

9. Pessoal dos itens anteriores que é contra renúncia fiscal no âmbito da literatura: nada contra seus argumentos — até concordo com muitos deles —, mas não deixem de explicar por que a ajuda a um escritor é moralmente diversa de casos que vocês em geral defendem (ou não criticam em público). Exemplos: bolsas para estudantes de letras, principalmente se você se enquadra nessa categoria, e subsídios à imprensa, principalmente se a empresa onde você trabalha tiver feito uso deles no passado (ou, mais provável, ainda faça no presente).

10. Pessoal dos itens anteriores que também é iniciante e/ou tuiteiro: não tentem parecer mais cultos, irônicos, céticos e rigorosos do que são. Contradições e defeitos também têm seu charme, acreditem.

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Mao, a bomba, os EUA e Deus

Trechos de falas de Mao Zedong em Sobre a China, de Henry Kissinger (Objetiva, 556 págs.):

1954 – “O povo chinês não vai se deixar acovardar pela chantagem atômica norte-americana. Nosso país tem uma população de 600 milhões e uma área de 9.600.000 quilômetros quadrados. Os Estados Unidos não podem aniquilar a nação chinesa com sua pequena pilha de bombas atômicas. Mesmo que as bombas (…) fossem tão poderosas que (…) abrissem um buraco até o centro da Terra, ou explodissem o planeta, isso não significaria praticamente nada para o universo como um todo, embora pudesse ser um evento de magnitude para o sistema solar (…). Se os Estados Unidos com seus aviões, mais a bomba atômica, lançarem uma guerra de agressão contra a China, então a China, com seu painço, mais seus fuzis, sem dúvida emergirá vitoriosa.”

1957 – “Não devemos ter medo de bombas e mísseis atômicos. Não importa o tipo de guerra que possa vir – convencional ou termonuclear –, vamos vencer. Quanto à China, se os imperialistas deflagrarem a guerra contra nós, podemos perder mais de 300 milhões. E daí? Guerra é guerra. Os anos vão passar, e vamos trabalhar para produzir mais bebês do que nunca.”

Para Khruschev, em 1958, referindo-se à visita que fez a Moscou em 1949-1950 – “Stalin não quis concluir um tratado de amizade conosco e não quis anular o antigo tratado com o Kuomitang (partido nacionalista chinês que se opunha aos comunistas). Lembro que (…) me transmitiram o conselho [de Stalin] de empreender uma viagem pelo país para dar uma olhada. Mas eu disse a eles, tenho apenas três tarefas: comer, dormir e cagar. Não vim a Moscou só para dar os parabéns a Stalin por seu aniversário.”

Na primeira conversa com Richard Nixon, em 1972, ao comentar que teria votado nele nas eleições presidenciais norte-americanas – “Gosto de direitistas. As pessoas dizem que vocês são direitistas, que o Partido Republicano é de direita (…) Também dizem que o Partido Democrático Cristão da Alemanha Ocidental é de direita. Fico relativamente feliz quando essas pessoas de direita chegam ao poder.”

1973, para Kissinger – “Só porque vocês ficaram atolados no Vietnã e encontraram tantas dificuldades, vocês acham que eles [os soviéticos] iam se sentir bem se ficassem atolados na China? (…) E então vocês podem deixar que se atolem na China, por meio ano, ou um, ou dois, ou três, ou quatro anos. E depois podem cutucar as costas da União Soviética. E seu slogan então será pela paz, de que precisam derrotar o imperialismo socialista em nome da paz. E talvez comecem a ajudá-los a realizar negócios (…). Seu objetivo em fazer isso seria derrubar a União Soviética.”

1975, para Kissinger – “É melhor que (Taiwan) esteja na mão de vocês. E, se fossem me devovê-la, eu não iria querer, porque não é desejável. Há um bando enorme de contrarrevolucionários por lá. Daqui a cem anos nós vamos querê-la (…) e vamos lutar por ela (…). Cinco anos, dez, vinte, cem anos. É difícil dizer. [Aponta para o teto] E quando eu for para o céu me encontrar com Deus, vou dizer a ele que é melhor deixar Taiwan aos cuidados dos Estados Unidos agora (…). Deus abençoou vocês, não nós. Deus não gosta de nós [acena com as mãos] porque eu sou um militante belicoso, e também um comunista (…) [Apontando para os três americanos] Ele gosta de você, de você e de você.”

Ainda em 1975, para o substituto de Nixon, Gerald Ford – “Seu secretário de Estado [Kissinger] andou interferindo em meus assuntos internos (…). Ele não deixa que eu parta e me encontre com Deus. Diz até mesmo para eu desobedecer à ordem que Deus me deu. Deus me enviou um convite, mas ele diz: não vá (…). Ele [Kissinger] é um ateu. Ele se opõe a Deus. E também está estragando minha relação com Deus. É um homem muito feroz e não me resta outra coisa a não ser obedecer suas ordens.”

E, claro, o diálogo – que não está no livro – em que Mao propõe a Kissinger enviar 10 milhões de chinesas para “inundar com desastres” os Estados Unidos: http://migre.me/77jip

Fim de semana

Um disco – Bad as me, Tom Waits.

Um filme – Margin call, J.C.Chandor.

Outro – As canções, Eduardo Coutinho.

Um restaurante – 348.

Outro – Espírito Santo.

Um livro brasileiro – Habitante irreal, Paulo Scott (Alfaguara, 264 págs.).

Outro – Quenga de plástico, Juliana Frank (7 Letras, 68 págs.).

Egopress

1) Já está circulando o número da Revista 18, do Centro de Cultura Judaica, cujo tema é ‘exílios’ e no qual trabalhei como editor-convidado.

2) Sou um dos escritores entrevistados no livro Mercado de pulgas, de Renato Alessandro dos Santos (Download blogs, 269 págs.), que traz textos do http://www.tertuliaonline.com.br.

Bloqueios e desbloqueios

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Há muitos tipos de bloqueio literário. Num ensaio publicado na New Yorker em 2004, Joan Acocella associa a noção moderna do problema ao romantismo do século 19: ali se consolidou a figura do artista atormentado pelas forças caprichosas da inspiração, que a qualquer momento e sem motivo aparente poderia abandoná-lo. Ver na criação um trabalho como qualquer outro, dependente apenas da vontade, passou a ser coisa de escritores superficiais. Desconfiança que dura até hoje, apesar de experiências como a descrita pela neurocientista Alice Flaherty ― uma nova técnica de desbloqueio chamada “Estimulação Magnética Transcraniana” ― ou de sites ― vale uma visita, ao menos para ver a foto ― como o www.unblock.org.

Acocella lista os clássicos do tema, tanto em termos de escrita quanto de publicação: de Coleridge, que chamou a própria paralisia de “terror indefinido e indescritível”, a J.D. Salinger, que passou suas últimas cinco décadas considerando a hipótese de lançar livros novos uma “invasão terrível de privacidade”. Os motivos internos, digamos assim, variam: falta de assunto, ansiedade e drogas, ambição inatingível, pudor associado a pessoas próximas ou a si mesmo. Exemplo constante é o do autor asfixiado pelo sucesso do primeiro ou primeiros livros: Ralph Ellison morreu em 1994 deixando 2 mil páginas inéditas do que seria o sucessor de O homem invisível (1952). Já Harper Lee, que publicou To kill a mockinbird em 1960, disse no ano seguinte estar trabalhando num novo manuscrito ― que ainda pode sair, embora hoje ela esteja com 84.

Deixando de lado razões existenciais, o fato é que a escrita sempre opera contra algum tipo de resistência. O primeiro obstáculo é a linguagem: como vencer as camadas de clichês, fórmulas e ideias genéricas para chegar ao que Paul Valéry, que viveu longos períodos de inatividade, chamava de “natureza da experiência”. No meu caso, dois exemplos diferentes entre si: o tempo em que precisei me desintoxicar do vocabulário e da sintaxe ― formal e mental ― do texto jurídico, com o qual lidei durante anos de faculdade hedonista e advocacia desastrosa, e o tempo ― em vigor até hoje ― em que precisei esquecer do jornalismo a cada vez que tento fazer ficção. Tanto a pompa do direito quanto a objetividade da reportagem são inimigos diretos da literatura: mesmo que se aproveite o jargão legal de forma ilustrativa ou irônica, ou que as técnicas de concisão e edição de texto possam servir para dar ritmo a um romance, no momento em que ambos entram no terreno ficcional alteram sua natureza e obedecem a regras diversas de uso.

Profissões são um capítulo à parte na história do bloqueio. Ou na da gestação de livros ruins, que pode ser outra face do mesmo problema. Um publicitário acostumado a agradar e/ou mentir para vender um produto ou comportamento só poderá ser bom escritor se entender que literatura é o contrário disso. É o velho paradoxo: a ficção mente para dizer a verdade, enquanto o jornalismo, por exemplo, muitas vezes diz uma suposta verdade para no fundo mentir. E haveria muito a dizer sobre desdobramentos práticos do trabalho em determinadas obras: Drummond foi funcionário público numa época em que isso era (ainda) mais tranquilo; Borges foi bibliotecário e (ao que parece) tinha tempo e paz para escrever; Faulkner declarou sobre a época em que foi zelador de bordel: “Para um artista, é o melhor lugar. Tem-se liberdade econômica, um teto e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar a polícia local”.

De maneira oposta, Raymond Carver considerava o fato de ter tido filhos cedo, e muita dificuldade de sustentá-los com bicos subalternos, a razão por que se especializou no conto, gênero que exige uma dedicação menos contínua que o romance. Para mim, os anos passados em redação e escritório ajudaram no hábito de aproveitar brechas de tempo, em horários de almoço ou truques um tanto engenhosos durante o expediente, para escrever de forma concentrada: como eu nunca sabia quando teria outra chance daquelas, e até que tivesse era bem provável que esquecesse o que queria dizer, passei a dividir histórias longas em capítulos breves, que pudessem ter ao menos um rascunho concluído numa única sessão de trabalho.

As duas soluções, que a partir de gênero e forma acabaram determinando conteúdos diversos ― inclusive na qualidade, claro ―, são vitórias possíveis contra a tendência universal à procrastinação e auto-sabotagem. Em seu melhor e mais divertido livro, Bartleby e companhia, Enrique Vila-Matas usa o personagem de Melville ― outro bloqueado célebre ― e seu bordão “prefiro não fazê-lo” para discorrer sobre escritores reais e imaginários que tiveram a “elegância de se calar”. Cada um lê essa mistura de romance e ensaio de um jeito, mas para mim Vila-Matas está falando de depressão. Ou, num sentido menos médico e restritivo, de esgotamento. Se precisasse resumir num termo o sentimento para onde convergem a maioria das aparentes causas do bloqueio, seria este. Afinal, na definição de Elizabeth Hardwick, e considerando a preguiça, a melancolia e o pânico que podem surgir quando precisamos começar um livro do zero, ou tirar uma coluna da cartola no último dia de prazo: “Escrever é tão duro por ser o único momento da vida em que você tem de pensar”.

Fim de semana

Um livro – Sobre a China, Henry Kissinger (Objetiva, 556 págs.).

Outro livro – Conversas com Scorsese, Richard Schickel (Cosac Naify, 528 págs.).

Um bar em Porto Alegre – D.O.M.

Um disco – Recanto, Gal Costa.

Um filme em DVD – Jogos de poder, Mike Nichols.