Michel Laub

Mês: setembro, 2012

‘Carnage’, de Roman Planski

Publicado na revista Bravo, junho/2012:

Existem vantagens em filmar uma peça de teatro de sucesso como Carnage, de Yasmina Reza. Uma delas é o enredo testado e aprovado. Outra, a produção relativamente barata, que precisa apenas de dois casais discutindo, num único ambiente e sem efeitos visuais, um episódio de violência envolvendo seus filhos.

Na transposição entre linguagens diversas, porém, o que Roman Polanski faz nesta mistura de drama e sátira, é comum que algo se perca. O teatro conta com a presença física do ator, por exemplo, o que ajuda a criar intimidade e pode compensar a monotonia de uma situação reiterada, cujo andamento é estabelecido por viradas às vezes bruscas, ou artificiais sob uma perspectiva realista, nas falas, gestos e atos.

No filme, essa intimidade quase não existe: o cenário é neutro, as atuações ficam entre o estridente (Jodie Foster) e o anódino (John C. Reilly), e as marcações de ritmo que poderíamos aceitar numa peça – como Christoph Waltz e Kate Winslet tentando deixar o apartamento onde se passa a história – na tela soam esquemáticas. Talvez porque esperemos do cinema aquilo que em Carnage aparece de forma tímida: os cortes, a composição de personagens que não se baseia apenas em diálogos, os recursos que os limites de um palco e de uma apresentação ao vivo não possibilitam.

Ainda assim, a versão seria menos decepcionante se houvesse mais consistência no texto que lhe deu origem. Nascida na França, Reza parece inspirada no teatro psicológico americano do Século 20, com suas jornadas de dissolução conjugal e familiar em meio ao conforto burguês. Não falta nem o uísque, elemento obrigatório nessa tradição, mas o estofo de autores como Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Edward Albee passa ao largo desta trama previsível, em que o sentido é revelar a hipocrisia por trás da polidez e dos eufemismos politicamente corretos.

Numa obra que recebeu o Tony Awards, um dos prêmios conceituados do teatro nos Estados Unidos, surpreende a diluição dos assuntos tratados – que vão do bullying à tecnologia, da sordidez da indústria farmacêutica ao massacre de Darfur – numa densidade de noticiário de TV. Ou não surpreende, porque é dali que tudo provavelmente foi tirado. Presa a um imaginário um tanto conhecido, e a par de momentos isolados de humor e inteligência, a dramaturgia da autora acaba aderindo a uma certa banalidade de seu objeto. Como um sintoma involuntário, e nem por isso menos importante, dos enganos da época que pretende denunciar.

Anúncios

Fim de semana

Um disco – Tempest, Bob Dylan.

Um filme – Cosmópolis, David Cronenberg.

Um programa de TV – Caos, History Channel.

Uma exposição – Autumn Sonnichsen, galeria Ava.

Uma peça – Rabbit, montagem da Companhia Delas.

Links

– Depoimentos de quem fala línguas em extinção: http://goo.gl/Ud14n

– Teixeira Coelho sobre passado e futuro da Bienal de SP: http://goo.gl/B6uN1

– Homem carregando um tubarão em Mogadishu: http://goo.gl/0CLKu

– A guerra na Wikipedia brasileira: http://goo.gl/iwz7G

– Escravas brancas numa campanha de arrecadação para escolas negras, EUA, 1863: http://goo.gl/gx12J , via @cydlos

– Por que expressões como LOL e WTF pegam e outras, não: http://goo.gl/Hy8hI

– Eduardo Pinheiro sobre física, imprensa e picaretagem: http://goo.gl/gKuAL

– Raiva, o vírus mais letal da natureza: http://goo.gl/zrxTK, via @ranchocarne

– O legado de Lester Bangs: http://goo.gl/fsZUd, via @giannetti @marcelo_orozco

– Duas visitas a Pequim separadas por meio século: http://goo.gl/0B5Fo

Links

– 100 casas abandonadas: http://goo.gl/hU9di, via @clara_caramujo

– @marvio sobre Nelson Rodrigues e o futebol do passado e de hj: http://goo.gl/sS46x

– Como melhorar as universidades brasileiras: http://goo.gl/D1huh

– Raduan Nassar larga a agricultura e doa sua fazenda: http://goo.gl/4E6te

– Ermitões contemporâneos: http://goo.gl/Fh2iY, via @parada

– Sobreviventes dos atentados de 2011 na Noruega: http://goo.gl/0wzir

– Stalingrado durante e depois da guerra: http://goo.gl/TME31

– Filmes brasileiros na íntegra: http://goo.gl/FmS6u , via @xroeder

– Como Kenneth Cooper mudou a preparação física da seleção de 1970 (e virou nome de esporte no Brasil): http://goo.gl/jP8mK

– Gêmeos: http://goo.gl/yBXCa

– O que um diretor de cinema precisa saber, por Elia Kazan: http://goo.gl/AaD8C

Fim de semana

Uma HQ – Pagando por sexo, Chester Brown (Martins Fontes, 296 págs.).

Um documentário – Tropicália, Marcelo Machado.

Um filme do ano passado – Trabalhar cansa, Juliana Rojas e Marco Dutra.

Um restaurante em Apucarana – Palmarys.

Um drink para não se beber em Londrina – Bombeirinho.

O turismo segundo David Foster Wallace

Trecho de Pense na lagosta, reportagem/ensaio publicada na Piauí deste mês (tradução de Daniel Pellizzari e Daniel Galera):

“É provável que ser turista faça mesmo algum bem para a alma, mesmo que apenas de vez em quando. Todavia, não que faça bem para a alma de algum modo revigorante ou alentador, mas de um jeito severo e obstinado de vamos-encara-os-fatos-com-honestidade-e-tentar-encontrar-um-modo-de-lidar-com-eles. Minha experiência pessoal não é a de que viajar pelo país seja relaxante ou amplie os horizontes, ou de que mudanças radicais de lugar e contexto tenham um efeito salutar, mas sim de que o turismo é radicalmente constritivo e humilhante da pior forma – hostil à minha fantasia de ser um indivíduo genuíno, de viver de algum modo fora e acima de todo o resto. Ser um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contemporâneo, alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá admitir. É macular, através de pura ontologia, a própria imaculabilidade que se foi experimentar. É se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores e mais verdadeiros sem a sua presença. É confrontar, em filas e engarrafamentos, transação após transação, uma dimensão de si mesmo tão inescapável quanto dolorosa: na condição de turista você se torna economicamente significativo mas existencialmente detestável.”

Fim de semana

Uma reportagem/ensaio – David Foster Wallace sobre lagostas na Piauí.

Um romance – A queda, Diogo Mainardi (Record, 152 págs.).

Uma música sobre o mesmo tema – T-bone, Neil Young.

Um filme médio – Aqui é o meu lugar, Paolo Sorrentino.

Uma exposição em Porto Alegre – Miguel Rio Branco.

Uma paleta de cordeiro + matambre – Portoalegrense.

Elogio aos livros difíceis e chatos

Publicado no Blog da Companhia das Letras, junho/2012:

Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática  que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti  por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa  ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta e da (bem-vinda) Geração subzero, voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano ViannaRaquel Cozer e Francisco Bosco se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida  em geral com mais competência  por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.