Michel Laub

Mês: maio, 2014

Fim de semana

Um livro – O design brasileiro antes do design, org. Rafael Cardoso (Cosac Naify, 360 págs.)

Um livro rápido – O cofre do Dr. Rui, Tom Cardoso (Civilização Brasileira, 171 págs.).

Um libanês na Vila Sônia – Sainte Marie.

Uma história boa e meio mal filmada – Muhammad Ali’s greatest fight, Stephen Frears.

Outra – No, Pablo Larraín.

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Filmes que deveriam ser feitos

– Documentário sobre o hábito da leitura. Nenhuma frase do tipo “ler é um barato” ou “ler amplia o mundo”. Entrevistados numa poltrona, de óculos e com a postura ruim. Adolescentes contam como “O lobo da estepe” tornou sua vida social mais difícil. Temas correlatos: depressão, alergia. Depoimentos de tuiteiros furiosos e professoras que moram com a mãe.

– Refilmagem de “Ela”, de Spike Jonze, em que dão um monte de mato para todo mundo capinar.

Publicado na Folha de S.Paulo, 23/5/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Espelho da tauromaquia, Michel Leiris (Cosac Naify, 80 págs.).

Uma reportagem – Alec Wilkinson sobre a recuperação de gravações antigas (http://goo.gl/D80tDl).

Um show para talvez ir – Jesus & Mary Chain.

Um filme okzinho – Flores Raras, Bruno Barreto.

Uma entrevista – Edward Said a Salman Rushdie, circa 1986 (http://goo.gl/7fJrPP).

Houellebecq e uma ideia para decorar a sala

Trecho de O mapa e o território (Record, 399 págs., tradução de André Telles), que tem um personagem homônimo do autor (resenha do livro aqui):

“Tamborilou durante ao menos dois minutos na porta, fustigado pela chuva, antes que Houellebecq viesse abri-la. O autor de Partículas elementares vestia um pijama cinza listrado que o deixava parecido com um presidiário de novela; seus cabelos estavam desgrenhados e sujos; seu rosto, vermelho, quase um pimentão; e ele fedia um pouco. A incapacidade de cuidar da própria higiene é um dos sintomas mais claros da instalação de um estado depressivo, lembrou-se Jed (…).

– Trouxe uma garrafa de vinho. Uma boa garrafa… – exclamou Jed (…). Era um Château Ausone 1986 que, em todo caso, custara-lhe 400 euros: uma dúzia de voos Paris-Shannon pela Ryanair.

– Uma garrafa só? – perguntou o autor de Em busca da felicidade, espichando o pescoço para o rótulo (…). Então, sem dar uma palavra, deu-lhe as costas (…); Jed interpretou a atitude como um convite.

Ao que se lembrava, da última vez o cômodo principal, o living, estava vazio; agora, contava com uma cama e um televisor.

– É – disse Houellebecq –, depois da sua vinda, me dei conta de que o senhor era o primeiro visitante a voltar a esta casa, e que provavelmente será o último. Então, disse comigo, para que manter uma sala de visitas de fachada? Por que simplesmente não instalar meu quarto no cômodo principal? Afinal, passo a maior parte dos meus dias deitado; quase sempre como na cama, vendo desenhos na Fox TV; não é como se eu organizasse jantares.”

Fim de semana

Uma aula – Ricardo Piglia sobre Borges (http://goo.gl/2xKHFf).

Um romance – O professor,  Cristovão Tezza (Record, 240 págs.).

Um romance de estreia – Meu primeiro morto, Jaci Palma (Biblioteca Paraná, 124 págs.).

Um bar – Boca de ouro.

Um disco – Here and nowhere else, Cloud Nothings.

Egopress

– Nesta quinta, 15/5, às 19h, estarei com Daniel Pellizzari e Fábio Britto numa mesa da Bienal Rubem Braga, em Cachoeiro de Itapemirim (ES). Programação completa: http://www.cachoeiro.es.gov.br/bienal/Index.html

Dário da queda acaba de sair na Noruega: http://goo.gl/M6v6uG

– Um conto meu saiu na revista da Universidade de Antioquia, Colômbia.

– Entrevista minha à série Writers and Company, da rádio canadense CBC (a 32’33, depois de Karim Ainouz): http://goo.gl/ftWiBa. O programa ouviu outros brasileiros, entre eles Bernardo Carvalho, Luis Fernando Verissimo e Sérgio Rodrigues.

Nomes do horror

Poucas coisas são mais intensas que um pesadelo. E poucas coisas podem ser mais chatas que ouvir alguém contá-lo. Sensações não viram palavras com facilidade: um universo oceânico e abstrato de lembranças, que tem repercussão emocional direta para quem sonhou, só pode ser comunicado por um instrumento, a linguagem, naturalmente mais estreito. Ao acordar, tudo o que temos para evocar nossa angústia e medo são termos genéricos como “angústia” e “medo”.

O mesmo pode ocorrer quando tratamos de um pesadelo histórico. Uma reportagem de Philip Gourevitch na revista New Yorker (http://goo.gl/aGixBw) mostra como, vinte anos depois da guerra de Ruanda, quando hutus assassinaram 800 mil tutsis em cem dias, numa espiral de ódio fermentada pelo colonialismo – e pelo o olhar omisso da ONU –, ainda é difícil chegar a um consenso sobre como chamar o que aconteceu.

Publicado na Folha de S.Paulo, 9/5/2014. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Benji, Sun Kill Moon.

Um show – Eddie Vedder.

Uma exposição de fotos no MIS – Invasão 68 – Praga, Josef Koudelka

Outra – Por baixo das rosas, Gregory Crewdson.

Um livro – Ensaio sobre o entendimento humano, Caetano Galindo (Biblioteca Paraná, 88 págs.).

Música, amor e a alegria de morrer

Cioran em O livro das Ilusões (Rocco, 222 págs., tradução de José Thomaz Brum):

“Só na música e no amor existe a alegria de morrer, o espasmo voluptuoso de sentir que se morre por não poder mais suportar as vibrações internas. E nos regozija o pensamento de uma morte súbita que nos poupasse de sobreviver a esses momentos. A alegria de morrer, que não tem nenhuma relação com a ideia e a obsessiva consciência da morte, nasce nas grandes experiências de unicidade, quando se sente perfeitamente que esse estado não voltará mais. Na música e no amor só há sensações únicas; sentes com todo teu ser que estas não poderão mais voltar e lamentas com toda tua alma a vida cotidiana para a qual regressarás. Que admirável gozo gera a ideia de poder morrer em tais instantes, de que, por esse fato, não se perdeu o instante. Pois o retorno à existência cotidiana depois de tais instantes é uma perda infinitamente maior que a extinção definitiva. O desgosto por não morrer nos momentos culminantes do estado musical ou erótico nos ensina o quanto temos que perder vivendo (…). A música e o amor não podem vencer a morte porque, em sua essência, tendem a aproximar-se da morte à medida que ganham intensidade. Podem ser considerados como armas contra a morte só em suas fases menores. Uma música suave e um amor tranquilo constituem meios de luta contra ela. Não existe parentesco entre o amor e a morte, como tampouco o há entre a música e a morte; ao contrário, sua relação se estabelece através de um salto, que pode tratar-se apenas de uma impressão, mas que, interiormente, não é menos significativa que um salto. O salto erótico e o salto musical  para a morte! O primeiro te arremessa pelo insuportável de sua plenitude; e o segundo, pela soma de suas vibrações, que quebram as resistências da individualidade. O fato de que haja alguns homens que se suicidem ante a impossibilidade de continuar suportando as loucuras do amor reabilita o gênero humano, assim como o reabilitam as loucuras que experimenta o homem na vivência musical. Quem não entende e nem sente a música é tão criminoso quanto aquele que não sente que, em tais momentos, poderia cometer um crime.”