Michel Laub

Música tardia

Em 1937, num ensaio sobre os anos derradeiros da carreira de Beethoven, Theodor Adorno fez considerações sobre o que chamou de “estilo tardio”. Mais tarde retomada numa coletânea homônima de Edward Said, que a aplicou a nomes como Wagner e Jean Genet, a expressão designa uma guinada formal radical que alguns artistas promovem diante da proximidade da morte – um tipo de maturidade estética que não passa pela harmonia, pela doçura serena que a técnica e a experiência poderiam oferecer. Diferentemente, tais obras se tornam “amargas”, “espinhosas”, uma espécie de procura pela “catástrofe” de quem não está mais interessado no “mero deleite” do público.

Num texto recente para a revista The New Yorker, o crítico Max Norman voltou ao tema comentando um livro do historiador Carel Blotkamp, que propõe uma hipótese interessante:  o conceito de estilo tardio não corresponderia, também, a projeções de nós leitores, ouvintes e espectadores? Isto é, não usamos supostos sentidos desses trabalhos finais para saciar nossa “fome por narrativas fechadas”, inclusive as que relacionam vida e obra, porque isso é mais fácil que aceitar o acaso – comum na arte, afinal – ou razões menos visíveis/previsíveis daquilo que queremos entender?

Se há algo que não costuma ser citado quando se fala de João Gilberto Noll, morto em 2017, são as teses de Adorno e Said. Não porque a obra de maturidade do ficcionista gaúcho seja pacífica/harmônica, pelo contrário, mas porque ela nunca se desviou de um caminho que parecia dado desde o início. Da estreia com os contos de O Cego e a Dançarina (1980) ao seu último romance publicado, Solidão Continental (2012), e a par do alto nível mantido em quase todos esses trabalhos, é possível ver no autor o mesmo tema se repetindo com pequenas variações de registro.

E, no entanto, não é absurdo falar numa mudança em nossa visão dessa obra, algo que se intensificou ao longo dos anos. Porque ler Noll em 2000-2010 não era mais como lê-lo em 1980-1990.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/2/2020. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um perfil – Jeff Bezos por Franklin Foer na Piauí.

Um artigo – O recomeço de Louis C.K. por Hilton Hals (aqui).

Um filme hollywoodiano meio bobo – Jojo Rabbit, Taika Waititi.

Um podcast – Gilberto Nascimento sobre Edir Macedo (aqui).

Um livro – Dignity, Chris Arnade (Sentinel, 288 págs.).

As sombras de Tanizaki

É possível que a visão de mundo que impulsiona o melhor da obra do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) possa ser resumida numa imagem de seu ensaio Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda): “Da mesma forma que uma gema fosforescente brilha no escuro, mas perde o encanto quando exposta à luz solar, creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

Escrito numa época de grande choque entre o nacionalismo japonês e a modernidade ocidental, por um autor que parecia renunciar ao traço vanguardista/europeizante do início da carreira, Em Louvor… exalta o mistério que seria típico da cultura do país – ou daquilo que, segundo seus próprios termos, não seria óbvio, prático, útil de forma consumista e filistina. “[Talvez] não tivéssemos feito grandes progressos materiais se fôssemos deixados à mercê da nossa sorte nos últimos quinhentos anos”, diz um trecho. “Mas ao menos estaríamos seguindo um rumo que nos agrada. E um dia – impossível não seria – talvez viéssemos a descobrir, em lento e cuidadoso progresso, substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações”.

Ao longo das décadas desde a sua publicação, Em Louvor… gerou discussões sobre uma possível ambiguidade no conservadorismo que o inspirou. No posfácio da edição brasileira, o crítico e professor Pedro Erber retoma dessa hipótese, sugerindo que pode haver ironia no texto – e que sua suposta celebração da tradição seria, na verdade, uma alfinetada no tom laudatório do militarismo de sua época.

É uma hipótese generosa com o autor, que numa análise moral e política atualizada – e dando desconto para os aspectos anacrônicos do juízo – ficaria numa posição incômoda caso o texto fosse reduzido ao seu valor de face. Tanizaki fala de um arco vasto de temas, de pintura a arquitetura, da pele dos atores do teatro Nô ao material de tigelas de sopa, passando por vestidos, panos, vasos sanitários, arranjos de flores e toda sorte de objetos e fenômenos da cultura ameaçados pelo que considera imperdoável na vulgaridade moderna, tanto quanto parece lamentar alguns dos princípios democráticos que essa modernidade (às vezes) traz no pacote – como a busca por igualdade de classe, etnia e gênero.

Se no ensaio essa é uma discussão pertinente, por se tratar de um gênero que pode ter um traço programático, na ficção as coisas são mais complexas. Ao ser expressa na maioria de seus contos, novelas e romances, a idiossincrasia de Tanizaki ganha um sabor que – como em toda grande literatura, porque esta é sempre parcial, caprichosa – é notável em originalidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 10/1/2020, sobre as novelas A Ponte Flutuante dos Sonhos e Retrato de Shunkin, publicadas no Brasil pela Estação Liberdade. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um filme de 2015 – O Filho de Saul, Lásló Nemes.

Um documentário – Carta Para Além dos Muros, André Canto.

Uma trilha sonora – Joker, Hildur Guðnadóttir.

Uma montagem – Elizabeth Costello, Leonardo Ventura/Lavínia Pannuzio.

Um livro de poemas – O Tempo Adiado, Inbeborg Bachman (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um livro – As Pequenas Virtudes, Natalia Guinzburg (Companhia das Letras, 124 págs.).

Um livro de poesia – Mil Sóis, Primo Levi (Todavia, 160 págs.).

Um filme – Joias Raras, irmãos Safdie.

Um documentário – A Mulher com Cinco Elefantes, Vadim Jendreyko.

Uma entrevista – Roger Machado a Bob Fernandes (aqui).

Egopress

– A revista Bula fez uma enquete com 2 mil leitores sobre os 10 melhores romances brasileiros da última década. O Tribunal da Quinta-Feira está na lista (aqui).

Diário da Queda numa questão do vestibular da UFRGS/2020 (aqui).

– Entrevista que dei para a revista da Livraria da Vila, na qual falo do livro que estou tentando terminar (aqui).

– Tese de doutorado de Gisele Frighetto, da USP, sobre Diário da Queda e O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho (aqui).

Fim de semana

Um livro – Sonhos no Terceiro Reich, Charlotte Beradt (Três Estrelas, 182 págs.).

Um artigo – O cristianismo e o inferno, por David Bentley Hart (aqui).

Outro – Arte e estilo tardio, por Max Norman (aqui).

Uma série ruim – Don’t Fuck With Cats.

Um disco – Caetano & Ivan Sacerdote.

Retrospectiva do futuro

Ricardo Aleixo em Queridos Dias Difíceis, 2014 – “Queridos dias difíceis,/ acho que já deu – embora// eu considere prematuro/ um definitivo adeus.// Querendo, voltem. Minha/ casa é de vocês. Agora,// pensem bem se será mesmo/ saudável nos testarmos em// novos convívios tão longos/ (também não sou fácil) como// foi desta vez. Menos mal se/ vierem em grupos – tantos,// em tais e tais períodos do mês./ Topam correr o risco? Vão resistir// até o fim? Podem vir, eu insisto./ Mas contem primeiro até três.”

Ana Martins Marques em O Livro das Semelhanças, 2015 – “Há estes dias em que pressentimos na casa/ a ruina da casa/ e no corpo/ a morte do corpo/ e no amor/ o fim do amor/ estes dias/ em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo/ e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde/ não são coisas que se expliquem/ apenas são dias em que de repente sabemos/ o que sempre soubemos e todos sabem/ que a madeira é apenas o que vem logo antes/ da cinza”

Bruna Beber em Barragem, 2009 – “deve ser perigoso/ este gosto recorrente/ de incêndio na boca// mas não há saliva pra apagar/ e não há saliva que apague/ por isso falo pouco// não sei o que de fato queima/ fecho a boca e o fogo sai/ pelo nariz// respiro mal, meu ar é qualquer fumaça/ queria um gosto bom, queria pernas/ pra sair correndo.”

Julia de Souza em Aquele Furo, 2019 – “Aquela bandeira/ cravada na esfera/ perfurando o tempo/ ultrapassando antes/ da hora o século/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ aquela tela estrelada/ aquela nação/ o que diria/ aquela bandeira/ aquela bandeira ainda/ o que diria ela/ sobre a própria sombra/ sobre a duração?”

Daniel Pellizzari em A Fome é uma Coisa Molhada”, 2018 – “Existe alguma dignidade em ser o último, ou pelo menos alguma tristeza, e toda tristeza é digna. Mas não cheguei até aqui pra só chegar até aqui. Nasci cabrita e depois ganhei pênis, mas perdi esse privilégio. Sou fancha e branca, sou pobre e humana, sou negra e rica, sou hétero e cabra. Acho que sou judia também, e assexual, e ambidestra, e cigana e inseto. Eu sou escrota. Meu porão é uma arca morta. Eu sou maravilhosa (…). Ontem a gente vai cruzar o parque. Em frente.”

Trechos de coletânea com trechos inspiradores (dependendo do ponto de vista) para 2020, publicada no Valor. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série – A Segunda Guerra em Cores.

Um documentário – Mystify, Richard Lowenstein.

Um filme dando um desconto – Dois Papas, Fernando Meirelles.

Um texto – Jia Tolentino sobre Instagram e clínicas estéticas (aqui).

Um texto de 1996 – Modesto Carone sobre Thomas Bernhard (aqui).

Diante da barbárie

“O sol é um astro frio. Seu coração, espinhos de gelo. Sua luz, sem perdão. Em fevereiro as árvores estão mortas, o rio petrificado, como se a nascente não vomitasse mais água e o mar não pudesse engolir mais. O tempo congela”.

Assim começa A Ordem do Dia, do francês Éric Vuillard, romance que ganhou o Prêmio Goncourt de 2017 (Tusquets, 140 págs., tradução de Sandra M. Stroparo). O trecho é menos solene e mais irônico do que parece, considerando o que pode haver de ironia numa tragédia histórica. Trata-se da ficcionalização de um encontro real, em 1933, entre dirigentes nazistas e barões alemães da indústria e das finanças.

O propósito era arrecadar fundos para o partido que recém chegara ao poder. Em alguma fresta das conversas, em meio à “neblina de seus ânimos e de seus cálculos”, esses senhores vetustos tiveram a chance de dizer não ao projeto claro que lhes foi apresentado – e não disseram. Premiadas pela adesão, empresas como Bayer, Siemens e Telefunken tiveram grande crescimento durante os anos de preparo e implantação da Segunda Guerra.

Vuillard não está preocupado com as justificativas individuais desse oportunismo. A pergunta central do romance é mais ampla, embora passe pelas pequenas peças que o ego e a consciência de classe pregaram nos envolvidos: em que medida as próprias regras da civilização, incluindo as leis, a linguagem, a etiqueta e o teatro do poder como um todo, não foram corresponsáveis pela vitória da barbárie? Além do encontro de 1933, o romance descreve eventos como um jantar em Londres no dia em que a Alemanha anexou a Áustria, em 1938, entre o ministro alemão das relações exteriores Joachim Von Ribbentrop e o primeiro ministro inglês Neville Chamberlain; e as tratativas sobre detalhes jurídicos e operacionais dessa anexação, em Berchtesgaden, na Baviera, entre o chanceler austríaco Kurt Schuschnigg e o próprio Adolf Hitler.

Trecho de artigo publicado no Valor Esonômico, 6/12/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um romance – Sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk (Todavia, 256 págs.).

Duas novelas – A Ponte Flutuante dos Sonhos/Retrato de Shunkin, Junichiro Tanizaki (Estação Liberdade, 156 págs.).

Um filme obsoleto e bom – História de um Casamento, Noah Baumbach.

Um filme obsoleto e médio/ruim – Um Dia de Chuva em Nova York, Woody Allen.

Um documentário – Diego Maradona, Asif Kapadia.

Fim de semana

Um ensaio – Susan Sontag por A.O. Scott (aqui).

Outro – Ansiedade e remédios por Sasha Frere-Jones (aqui).

Um documentário – Bikram, Eva Orner.

Uma mostra pequena/derivada – William Blake, Casa das Rosas.

Um disco – MTV Unpluged, Courtney Barnett.

Fim de semana

Um romance – A Ordem do Dia, Éric Vuillard (Tusquets, 142 págs.).

Um artigo – Charlotte Beradt e os sonhos durante o nazismo (aqui.).

Outro – Daniel Galera sobre animais e crueldade (aqui).

Um filme – Parasita, Bong Joon-Ho.

Um vídeo – Bastidores de Os Bons Companheiros (aqui).

Apocalipse agora, depois e antes

“Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer esse mundo”, disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro numa entrevista a Eliane Brum publicada no El Pais, em 2014, citando ideias do pensador alemão Günther Anders. “Nós estamos virando o contrário (…). A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensá-la.”

Viveiros de Castro talvez não esteja se referindo à literatura “stricto senso”, mas poderia estar. Se o triunfalismo do discurso técnico nos aprisiona em parâmetros utilitários e amorais, algo que tanto pode nos salvar quanto destruir, a ficção tem o poder de ampliar esses limites – com perguntas inesperadas, eventualmente indigestas, que levam a respostas salvadoras ao menos no campo da sensibilidade. É o que faz um romance como A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (Todavia, 116 páginas), ao introduzir nuances do fator humano – no fim das contas, o único importante quando se fala de progresso – numa discussão sobre o futuro.

Situado por volta de 2030, depois de uma catástrofe que extinguiu a Amazônia, o livro é em parte narrado por um funcionário do governo mexicano a quem coube trazer ao seu país, como exilados políticos, os cinquenta últimos remanescentes da etnia indígena kaajapukugi. A tarefa lhe foi passada pelo sertanista Boaventura, primeiro a ter contato com esse povo então isolado, cujos costumes ele conheceu nos anos 1980 e registrou – é a segunda voz do romance – num depoimento em vídeo pouco antes de morrer.

A Morte… remete a Viveiros de Castro não só pela imaginação oceânica de Terron, capaz de pensar nos efeitos de muitas das bombas armadas por nossas escolhas políticas e culturais das últimas décadas, mas por juntar ao tradicional formato da distopia – a descrição de um futuro terrível a partir de elementos reconhecíveis da realidade próxima – uma ideia cara ao antropólogo: a de que o apocalipse também pode ser um evento do presente e do passado.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 22/11/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – O Irlandês, Martin Scorsese.

Um filme médio de 1988 – Tucker, Francis Ford Coppola.

Um documentário – Fyre Festival, Chris Smith.

Uma série – Euphoria.

Um livro – Os Vendedores de Cigarro da Praça Três Cruzes, Joseph Zieman (Três Estrelas, 210 págs.).

Sonhos, imaginação, futuro

Qual a função de um sonho? Para chefes militares do passado, podia ser escolher estratégias de batalha. Para Kekulé, foi visualizar a estrutura do benzeno. Para Elias Howe, perceber que uma pequena mudança no uso da agulha permitiria inventar a máquina de costura. Para Paul McCartney, ouvir pela primeira vez os acordes de Yesterday.

Em O Oráculo da Noite (Companhia das Letras, 459 págs.), Sidarta Ribeiro conta essas e outras histórias dentro de uma grande história científica e cultural do que acontece quando estamos de olhos fechados, esse “modo de consciência off-line” que estaria na origem – por exemplo – da criação dos deuses e da religião.

Escrito por um dos cientistas brasileiros de maior prestígio hoje, trata-se de um apanhado longo e erudito que passa por diferentes épocas e culturas, dos primeiros mamíferos aos ocidentais pós-neurociência, dos sumérios, egípcios e babilônios aos ciborgues da era da informática, usando a experiência pessoal na pesquisa de ponta e ferramentas de áreas como biologia, antropologia, psicanálise e literatura.

O oráculo do título tem pouco de esotérico. Sidarta relaciona mecanismos de fixação e reestruturação da memória – que ocorrem em fases diferentes do sono – com aspectos importantes de nossa evolução como espécie. Enredos oníricos, remetam eles a episódios que ocorreram de fato ou a sentidos que parecem incoerentes, funcionariam como simulações preparatórias para situações que enfrentaremos acordados. Ou seja, uma mistura de consolidação do conhecimento e, se o sonho certo conseguir ser interpretado do modo certo, profecia que interfere no futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8/11/2019, sobre os livros O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, e Sapiens, de Yuval Noah Harari. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição no IMS – Harun Farocki.

Outra – Susan Meiselas.

Um filme – Divertida Mente, Pete Docter.

Uma remontagem – Os Sete Afluentes do Rio Ota, Monique Gardenberg.

Um romance – A Morte e o Meteoro, Joca Reiners Terron (Todavia, 120 págs.).

Egopress

– Nesta terça, 5/11/, às 19h30, na FFLCH/USP, estarei com a Noemi Jaffe numa das mesas do seminário “O escritor como historiador do seu tempo”. Programação completa: shorturl.at/jkF56

– O número de novembro da revista italiana The Passenger, dedicado ao Brasil, tem um texto meu sobre literatura e diversidade: https://iperborea.com/titolo/543/

– Artigo de Emily Baker, da Universidade de Cambridge, sobre Diário da Queda: shorturl.at/gwFS6

– Podcast de Antônio Fagundes sobre livros, com recomendação do Tribunal da Quinta-Feira: shorturl.at/fmwzX

– Vídeo da série Livro de Cabeceira, em que falo de Menina Sem Estrela, do Nelson Rodrigues: shorturl.at/sARW8

Fim de semana

Um livro – O Oráculo da Noite, Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras, 460 págs.).

Um filme – Meu Nome é Dolemite, Craig Brewer.

Um filme ok – A Lavanderia, Steven Soderbergh.

Uma exposição – Cildo Meirelles, Sesc Pompeia.

Um disco – Ode to Joy, Wilco.

O máximo possível

Nos anos 1950, em São Paulo, numa das muitas jogadas para a torcida que seriam típicas de sua trajetória, o então prefeito Jânio Quadros considerou prioritário ressuscitar uma norma infame dos anos 1930: a que exigia de atores e atrizes uma certa carteira da Segurança Pública, emitida por autoridades para registrar e controlar prostitutas e outros tipos considerados perigosos.

Uma das profissionais que usaram o documento foi Fernanda Montenegro. O que torna a história ainda mais bizarra: nas memórias recém-lançadas da atriz (Prólogo, Ato, Epílogo, Companhia das Letras, 342 págs., em colaboração com Marta Góes), poucas coisas são tão louvadas quanto o sentimento comunitário, familiar, e sua consequente ética do trabalho.

Neta de imigrantes portugueses e italianos muito pobres, filha de um operário técnico especializado e uma dona de casa, Fernanda saiu dos subúrbios do Rio para o estrelato no teatro, no cinema e na TV sem jamais desmentir – na postura pública ou, atestam os que a conhecem, na privada – as bases dessa ética: “Sou pragmática, faço o que tiver que fazer (…). Se o resultado for bom, ótimo, se não for, segue a vida.”

A pertinência do livro começa por aí. Em cada linha se dissolve a ideia filistina, e tão típica de nossa época, de artistas como figuras preguiçosas penduradas em mamatas de governo, esteticismos tolos ou conspirações ideológicas/pervertidas. Em algum momento dos últimos anos a arte, de maneira torta, voltou a ser relevante nessa guerra cultural regressiva – com batalhas envolvendo nudez em museus, beijo gay em gibis e outros espantalhos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 25/10/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – All Mirrors, Angel Olsen.

Um vídeo – Nando Reis sobre seus violões (aqui).

Um filme – A vida Invisível, Karim Ainouz.

Um filme de 2017 – First Reformed, Paul Schrader.

Um ensaio – Zadie Smith e uma defesa da ficção (aqui).

Fim de semana

Um filme – Joker, Todd Philips.

Outro – Midsommar, Ari Aster.

Um disco – Two Hands, Big Thief.

Um livro – Prólogo, Ato, Epílogo, Fernanda Montenegro (Companhia das Letras, 342 págs.).

Uma série – Sintonia.

‘Morangos Mofados’, 2019

Quando Caio Fernando Abreu (1948-1996) lançou Morangos Mofados, em 1982, não havia como dissociar o livro do momento vivido pelo país. Em plena transição entre a Anistia de 1979 e o fim formal da ditadura em 1985, era natural que a recepção crítica fosse pautada pelo viés histórico/político. Como se o tom em geral amargo desses 19 contos, que acabam de ganhar nova edição (Companhia das Letras, 188 págs.), refletisse diretamente os tempos duros em que eles foram concebidos.

A leitura não estava errada, mas não era suficiente. Como então notou Heloísa Buarque de Holanda, o autor havia feito um retrato mais íntimo, e ao mesmo tempo mais amplo, de uma experiência de geração que não estava restrita ao grande tabuleiro do poder institucional: “Ao contrário da maioria dos relatos recentes sobre a opção guerrilheira, cuja palavra de ordem é a autocrítica irônica, e que apresentam, às vezes até didaticamente, novos e seguros rumos (…), [o livro] não deixa de revelar uma enorme perplexidade diante da falência de um sonho.”

Dividido em dois grandes blocos, o primeiro bastante pessimista, o segundo com acenos discretos a possibilidades de futuro para os personagens, Morangos Mofados é e não é um documento de época (…). Em Os Sobreviventes, talvez o melhor conto do livro, ou ao menos o mais simbólico, uma personagem reflete sobre o que é abandonar “Marcuse, depois Reich, depois Castanheda”, o culto então já obsoleto à Paris de Sartre nos 1950, à psicodelia na Londres dos 1960, ao hedonismo na Nova York dos 1970. O tom é de algum modo oitentista, na voz de quem tentou de “drogas acupuntura suicídio” a “marxismo candomblé boate gay ecologia”, mas a sensação de queda por trás de tudo não datou: no geral, ainda é possível que isso toque o leitor jovem que tem o primeiro contato com a ficção de Caio. Há vários motivos para tanto.

(Trecho condensado de artigo publicado no Valor Econômico, 11/10/2019. Íntegra aqui).

Fim de semana

Um disco – Ghosteen, Nick Cave.

Outro – Lúcio Maia.

Um artigo – George Packer sobre Roy Cohn e Trump (aqui)

Um vídeo antigo – Roy Cohn x Gore Vidal (aqui)

Um podcast – Thom Yorke sobre música numa ilha deserta (aqui).

Sono versus bombardeio

“Não consigo reconhecer nada que justifique minha decisão”, diz a narradora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento, terceiro romance da americana Ottessa Moshfegh (Todavia, 238 págs., tradução de Juliana Cunha), sobre os meses em que se entupiu de remédios para dormir quase vinte e quatro horas por dia. “No começo, eu só queria uns tranquilizantes para abafar meus pensamentos e juízos, já que o bombardeio constante tornava difícil a tarefa de não odiar a tudo e a todos.”

Culta, inteligente e bonita, vivendo de uma herança em meio ao esplendor nova-iorquino da virada do milênio, essa mulher de vinte e sete anos que dá as costas para o trabalho numa galeria de arte e as relações afetivas próximas não é, a princípio, uma personagem a ser gostada. Sua escolha por uma hibernação química que parece um fim em si mesmo, e não um caminho reflexivo, o que seria esperado numa jornada sabática para melhora espiritual (ou de saúde, ou de outro aspecto visto como nobre pela ortodoxia do nosso tempo), soa como mero capricho bem-nascido.

Mas claro que há um truque no discurso. A justificativa busca a cumplicidade de um leitor que, como qualquer pessoa sã a par do noticiário em 2000 ou 2019, também se sente esmagado pelo “bombardeio” – de informação, de estímulo, das cobranças pessoais e profissionais típicas do nosso século. O ideal de escape alienado, que a ideia do sono representa bem, é um tema relativamente comum no mercado contemporâneo dos desejos.

Ou seja, trata-se de um romance concebido para fazer o leitor alternar entre distanciamento e proximidade – entre a repulsa, dadas as várias atitudes condenáveis da protagonista, e uma certa admiração por sua coragem e desprendimento. Num presente que se repete entre lembranças de um passado sem lições a seguir, ela espelha/enfrenta tipos que são faces diversas do mesmo vazio: Reva, a amiga bulímica presa a noções vulgares de beleza; Trevor, o ex-namorado propenso a abusar e ser abusado; Tattle, a terapeuta sarcástica, irresponsável e incapaz de gestos de empatia.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/10/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um show – Vitor Ramil + Angélica Freitas.

Um disco – i,i, Bom Iver.

Um filme – Rainha de Copas, May el-Toukhy.

Um filme anacrônico – Yesterday, Danny Boyle.

Um livro de poesia – As Durações da Casa, Julia de Sousa (7 Letras, 80 págs.).

Fim de semana

Uma exposição – Alfons Mucha, Fiesp.

Um disco – Free, Iggy Pop.

Um espetáculo bem Zé Celso – Roda Viva.

Um livrinho – A Doença e o Tempo, Eduardo Jardim (Bazar do Tempo, 80 págs.).

Um documentário longo – Frank Sinatra, All or Nothing at All.

A escuridão

A Segunda Vinda, de W.B. Yeats, tradução de Paulo Vizioli (Em Poemas, Companhia das Letras, 160 págs.)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?

 

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

Sutileza e grito

O que um romance político pode oferecer num país tão saturado de narrativas políticas? Há várias maneiras de enfrentar o problema, com suas óbvias gradações de intensidade e resultados. Uma delas é a aposta no discurso enviesado, mais estético do que sociológico, em que nas frestas de uma história individual enxergamos relances do que somos coletivamente.

É o caso de Cancún, estreia no gênero do carioca Miguel Del Castillo (Companhia das Letras, 166 págs.). Enquanto lida com a gravidez da mulher e a morte do pai, figura misteriosa envolvida com lavagem de dinheiro na cidade que dá título ao livro, um protagonista por volta de 30 anos rememora a juventude de classe média alta no Rio dos anos 1990: a rotina na escola, a inadequação da puberdade, a experiência com um grupo de estudantes que frequentava uma igreja evangélica.

Com eventuais traços autobiográficos, o livro junta pontas dramáticas diversas sob um único guarda-chuva: o de uma história de fragilidade masculina, de busca por uma afirmação acidentada que tem ressonâncias não apenas internas, relativas ao personagem. É nesse ponto que surge a política, apenas sem engajamento literal. Na realidade da ficção, e no modo como ela espelha a realidade aqui de fora, iluminam-se mecanismos de pertencimento social – via instituições como igreja e família – com nuances mais delicadas do que sugeririam acusações diretas de classe e gênero.

Se Cancún procura a sutileza, Marrom e Amarelo (Alfaguara, 168 páginas) é um soco no leitor. Décimo terceiro título do gaúcho Paulo Scott, seu enredo usa um expediente cronológico semelhante ao de Castillo: partir de um gatilho ocorrido na vida adulta do narrador – a prisão de sua sobrinha num protesto de estudantes – para revisitar um passado incômodo. No caso, o de um sujeito visto como branco enquanto era criado ao lado do irmão negro na Porto Alegre dos anos 1980.

Diferentemente de Cancún, em Marrom e Amarelo a política tem expressão ficcional aberta. Scott faz com que ela grite na trama, como elemento constante e corrosivo das relações íntimas e públicas. Seu narrador é um antigo militante de esquerda que integra a comissão de um governo distópico encarregada de discutir as cotas raciais no país. Os debates burocráticos/idealistas/equivocados de Brasília contrastam com a violência simbólica e real que o personagem sempre enxergou – e continuará enxergando quando, ao tentar ajudar a sobrinha, mais uma vez constatar a simbiose entre a discriminação no dia-a-dia da sociedade e a discriminação oficial de polícia e justiça.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13/9/2019. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um artigo – a autobiografia de Prince (aqui).

Uma conversa – Sidarta Ribeiro e Bruno Torturra (aqui)

Um disco pop – Norman Fucking Rockwell, Lana Del Rey.

Uma edição – Francisco Alvim, 80 anos (Quelônio, 30 págs.).

Um romance – Meu Ano de Descanso e Relaxamento, Otessa Moshfegh (Todavia, 240 págs.).