Michel Laub

Do Datena à utopia

Algumas semanas atrás o Twitter se indignou por algo dito ou feito por José Luiz Datena. Foi uma coincidência irônica, já que a própria plataforma às vezes lembra os programas policiais de tevê: um circo de horrores (sempre haverá um crime ou frase hedionda à disposição na timeline) que alimenta e é alimentado pela reação furiosa (e compreensível, como é a da dona de casa ao saber da história de assassinos e estupradores).

A diferença poderia ser que Datena manipula emoções para reforçar o sentimento reacionário, enquanto no Twitter progressista estamos a serviço de causas emancipatórias. Mas o resultado é esse mesmo? Já tive menos dúvidas a respeito. As demandas são esquecidas em dois dias, quando surge o novo fato a nos chocar – e dar recompensa narcísica pelos likes recebidos, e dinheiro para corporações via aumento de audiência.

Não é difícil perceber como a dinâmica desses sinais duplos – raiva e inação, crítica e passividade – pode servir a estruturas de poder. A gritaria com Datena ocorreu enquanto eu lia Do Transe à Vertigem, do professor da PUC-RJ Rodrigo Nunes (Ubu, 208 págs.), que em alguns trechos fala disso: há uma relação entre o sistema que em grande escala destrói a natureza, deixando pelo caminho um legado de desigualdade e anomia, e afetos não ideologicamente neutros do nosso cotidiano.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 5-8-2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – The Assistant, Kitty Green.

Um curta – Superbarroco, Renata Pinheiro.

Uma montagem no Sesc Pompeia – As Três Irmãs.

Um artigo – Rebbeca Bengal sobre Dare Wright (aqui).

Um livro – Do Transe à Vertigem, Rodrigo Nunes (Ubu, 208 págs.).

Coisas que não deveriam acontecer

Um dos quatro filhos de Nick Cave morreu em maio último, aos 31 anos. Outro havia morrido em 2015, aos 15. É indevido especular sobre o reflexo dessas perdas nas letras do compositor e cantor australiano? No álbum Seven psalms, lançado no fim de junho, uma das faixas se chama Such things should never happen. Entre as coisas que não deveriam jamais acontecer, os versos falam de filhotes de andorinha indefesos, da mãe que chora ao lado de um pequeno caixão.

Texto publicado no Valor Econômico, 23-7-22, sobre Nick Cave e o romance Não Fossem as Sílabas do Sábado, de Mariana Salomão Carrara. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma reportagem – O STF e o golpe, Marina Dias (aqui).

Um texto – Biden e o fracasso, Adam Tooze (aqui).

Uma série – Pacto Brutal, Tatiana Issa e Guto Barra.

Um média metragem – North Terminal, Lucrecia Martel.

Uma coletânea – A Escravidão na Poesia Brasileira, org. Alexei Bueno (Record, 714 págs.).

Fim de semana

Uma série – Gaslit.

Um artigo – Darshana Narayan sobre Yuval N Harari (aqui).

Uma conversa – Bob Fernandes e Raquel Rolnik (aqui).

Um documentário – This Much I Know to be True, Andrew Dominik.

Um livro – Os Devaneios do Caminhante Solitário, Rousseau (Edipro, 128 págs.).

O que deveria estar ali?

Em 2001, o compositor alemão Karlheinz Stockhausen causou algum barulho ao dizer que os atentados do 11/9 eram a maior obra de arte já realizada. Pouco depois, pulando o debate sobre a inconveniência da frase naquele momento dramático, o escritor, curador e crítico Teixeira Coelho publicou um ensaio na revista Bravo sobre a presença do mal em pinturas, livros, filmes.

O texto não tratava de questões temáticas: obras sobre dor ou injustiça, por exemplo. Comentando sobre uma tela de Coopley (1778), na qual um tubarão está prestes a atacar uma mulher nua, Coelho escreve que nela “perigosa é a vida, não a arte”, pois essa “não ameaça nem seu observador, nem seu artista”. Já numa de J. Vanderlyn (1804), em que uma branca está prestes a ser morta por indígenas, o tom seria o do martírio – “e o martírio (…), ao menos para a vítima, pode ser o caminho do bem.”

O mal na arte é outra coisa: “Aquilo que não deveria estar ali (…), que não deveria ser desse modo”. Um dos casos citados no ensaio é Retrato da Família Gozzadini (1584), pintura da italiana Lavinia Fontana que põe em cena uma dinastia nobre de Bolonha, misturando personagens vivos e mortos. O incômodo que emerge da tela é mais difuso, menos suportável porque estático, “sempre igual a si mesmo”: “Não há torturas e mortes, apenas um retrato de grupo. Mas a escuridão prevalece, as feições são duras, as mãos se crispam num pálido balé ameaçador que as roupas suntuosas tornam ainda mais pesado.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8-7-2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um depoimento – Heloisa Jahn (aqui).

Uma conversa – Mano Brown e Zeca Pagodinho (Spotify).

Uma exposição no Tomie Ohtake – Anna Maria Maiolino.

Outra – Tomie Ohtake.

Uma graphic novel – Flying Couch, Amy Kurzweil (Catapult, 224 págs.).

Fim de semana

Um disco – Seven Psalms, Nick Cave.

Um filme – Crimes of the Future, David Cronenberg.

Uma série ok – Modern Love.

Uma entrevista – Leão Serva sobre guerra e imagens (aqui).

Um romance – Não Fossem as Sílabas do Sábado, Mariana Salomão Carrara (Todavia, 168 págs.).

Fim de semana

Um resumo – Roe vs. Wade no The Daily.

Uma peça – O poder do sim, David Hare (Temporal, 184 págs.).

Um filme – The Card Counter, Paul Schrader.

Um doc médio – Spielberg, Susan Lacy.

Uma série ok – Transparent.

Fim de semana

Um vídeo – A China e a vigilância (aqui).

Uma entrevista – Rodrigo Nunes e a esquerda (aqui).

Um depoimento – Aranha e o racismo (Piauí).

Um livro – O Corpo Crítico, Jean-Claude Bernardet (Companhia das Letras, 128 págs.).

Um filme bom, mas chato – Pleasure, Ninja Thyberg.

O furacão que tudo contém

Como explicar a tragédia política brasileira a partir da estética? A pergunta acompanha quem lê o clássico As Raízes do Romantismo, do filósofo anglo-russo Isaiah Berlin (1909-1997), que acaba de sair em nova edição pela Fósforo (246 págs., tradução de Isa Mara Lando). Baseado em palestras dadas em 1965, em Washington, o livro descreve uma “doutrina ardente, fanática, meio insana” que, em alguns aspectos, e ao menos na projeção imediata de quem lê, dialoga com o noticiário de 2022.

Berlin pena ao buscar uma definição do romantismo, a “maior mudança já ocorrida na consciência do Ocidente”. Afinal, esse movimento cujas origens remontam à Alemanha do século 18, um território isolado e ainda devastado pela derrota na Guerra dos 30 anos (1618-1638), é múltiplo e contraditório. Nele convivem a saúde e a doença, o misterioso e o familiar, o caos das revoluções e a dissolução pacífica no “eterno espírito que tudo contém”, entre dezenas de opostos listados.

Em determinado ponto, contudo, há uma tentativa de síntese. O que unira a fragmentação romântica nas artes, na moral, no pensamento e na ação política seria a vontade de “romper a natureza do que é dado”, aplicada a um alvo específico: a tradição racionalista ocidental, então encarnada pelo Iluminismo, com sua ideia de que a história anda rumo ao progresso, de que a vida é um quebra-cabeças cujas peças o método científico/analítico há de encaixar.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 22/4/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – Ilusões Perdidas, Xavier Giannoli.

Um podcast – Discoteca Básica.

Um texto – Juliana Cunha sobre Paul Simon (aqui).

Outro – Thomas Meaney sobre Lea Ypi e a Albânia (aqui).

Um livro de 2007 – 20 Poemas para o seu Walkman, Marília Garcia (Sete Letras. 90 págs.)

A célula idiota

“Não é difícil perceber o momento em que uma localidade começa a agir como célula idiota”, diz a escritora e ativista Jane Jacobs em seu Morte e Vida de Grandes Cidades (Martins Fontes, 510 págs., tradução de Carlos S. Mendes Rocha). A tendência de um morador da Zona Oeste de São Paulo é relacionar a metáfora, ligada a organismos cancerígenos produzindo incessantemente “material de que não necessitam”, com aquilo que vê todos os dias.

Nos últimos anos, por distorções na regulação e aplicação do bom Plano Diretor de 2014, lugares como Pinheiros, Pompeia e Vila Madalena dão razão a esse pessimismo. O que no jargão do texto oficial se chama adensamento, ou a ideia justa de que áreas próximas a transporte e emprego sejam ocupadas por mais pessoas, com prédios altos nos arredores de avenidas e preservação do miolo dos bairros, na prática está virando uma paisagem do mercado imobiliário.

Publicado no Valor Econômico, 10/6/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Bispo do Rosário, Itaú Cultural.

Um evento – Feira do Livro, Pacaembu.

Um livro – Só Nós, Claudia Rankine (Todavia, 352 págs.).

Outro – Engenheiro Fantasma, Fabricio Corsaletti (Companhia das Letras, 128 págs.).

Um documentário – Cinema Novo, Eryk Rocha.

Fim de semana

Um depoimento – Brizola sobre golpes e história (aqui).

Uma coletânea de ensaios – Situando Jane Jacobs (Annablume, 320 págs.).

Um documentário – Hitler, uma Carreira, Joachim Fest e Christian Herrendoerfer.

Um filme médio sobre Lyndon B. Johnson – LBJ, Rob Reiner.

Outro – Bastidores da Guerra, John Frankenheimer.

Um ramo das ações práticas

Em 1992, quando fui obrigado a servir no CPOR de Porto Alegre, ouvi muitas queixas dos militares sobre a então recente demarcação das terras Yanomâmi, na Amazônia. Um oficial dizia que era preciso conhecer a floresta num “avião de verdade”, um teco-teco que voasse em distância visual da copa das árvores, para ter a dimensão do que estava realmente em disputa ali: uma riqueza esperando “até a linha do horizonte” para ser “descoberta” e “salvar o país”.

Algumas semanas atrás tive experiência semelhante, mas sob outro ângulo. Estive no festival literário Navegar é Preciso, promovido pela Livraria da Vila/SP e a agência Auroraeco, que há dez anos leva escritores, artistas e público numa viagem magnífica pelo Rio Negro, partindo de Manaus. Da cabine do barco, a noção de espaço do teco-teco vira um outro tipo de infinito, compensando os limites do olhar que só chega a algumas centenas de metros: a paisagem mais ou menos monótona das margens do rio, com árvores não muito altas e não muito diferentes entre si, deixa na imaginação a marca de sua constância por horas, dias.

Ter contato com a floresta é pensar no tempo. No imaginário da região, as distâncias não são medidas em metros ou quilômetros, mas pela duração dos percursos a pé ou na água. Um dos guias da viagem, Auzenir Botelho de Souza, que passou a infância numa comunidade ribeirinha onde os vizinhos não enxergavam as casas uns dos outros, usa décadas de observação e treino em caçadas com o pai para ganhar o sustento. Capaz de imitar o assovio de mais de cinquenta pássaros, por muitos anos ele ajudou cientistas estrangeiros a identificar espécies na língua local (“Catitu”, “Chorona da Canarana”, “Surucuá do Rabo Branco”) e no inglês que estudou sozinho (“Musician Wren”, “Pigmy Screech Owl”).

Numa lancha à noite, horário de atividade da maioria dos animais, Souza reconhece o som de ratos do mato, mergulhões, corujas. Alguns cantam para se acasalar ou proteger o território, numa sinfonia exuberante de vida que revela, nos mesmos acordes, uma precariedade comovente: o equilíbrio ameaçado pela ação humana, como a beleza de um corpo jovem prestes a morrer.

Muita coisa continua igual de 1992 para cá, e muita coisa mudou. Aquele foi o ano da ECO, conferência mundial sobre o clima que fez chegar ao mainstream uma ideia romântica, transformada em urgência política pelos movimentos ecológicos dos anos 1960/1970: a de que havia algo a se aprender com a floresta, em vez de impor a ela a lógica sob a qual vivemos na cidade, no sistema capitalista.

Nas últimas décadas essa ideia se tornou dominante entre acadêmicos, ativistas e público sensível – vide a repercussão do que diz uma liderança Yanomâmi como Davi Kopenawa. Mas no mundo concreto quem venceu foi o oficial do CPOR, cujo discurso é o do governo brasileiro de turno: uma visão tributária da ditadura, que situa a Amazônia na geopolítica moldada pela Guerra Fria – com seu combate a ongues “vermelhas”, seu desenvolvimentismo local de curto prazo diante de uma emergência que é planetária, da espécie como um todo. Para quem está minimamente informado a respeito, o cenário é desolador. Mas há luzes aqui e ali.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/5/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Morte e Vida de Grandes Cidades, Jane Jacobs (Martins Fontes, 508 págs.).

Um disco – Motomami, Rosalia.

Uma entrevista – Gilberto Gil, 80 (aqui).

Uma exposição no IMS/SP – Daido Moriyana.

Outra – Walter Firmo.

Fim de semana

Um documentário – O Barato de Iacanga, Thiago Mattar.

Uma exposição no Sesc Pompeia – Amazônia, Sebastião Salgado

Uma série de reportagens na Piauí – Amazônia, João Moreira Salles.

Uma entrevista – Werner Herzog (aqui).

Um romanceBeatriz e o Poeta, Cristovão Tezza (Todavia, 188 págs.).

Egopress

– Nesta semana participo do Navegar é Preciso, cruzeiro da Livraria da Vila com escritores/as pelo Rio Negro, na Amazônia. Mais informações: https://www.navegarepreciso.org/

– Participação minha no lançamento de Diário da Queda na Polônia (Editora Pauza), no fim de 2021: https://cutt.ly/DGIM6xs

– Entrevistas mais ou menos recentes: para Natália Lopez Rico (Universidade del Chile), Joanna Moszczynska (Universität Regensurg) e Horst Nitschack (Universidad de Chile) na Revista de Humanidades: https://cutt.ly/rGI16t1; para Sergius Gonzaga no Livros de Nossa Vida, da Biblioteca Josué Guimarães/RS: https://cutt.ly/6GI1QPK; para Táki Cordás (Departamento de Psiquiatria/USP), Discutir Literatura: Para quê?: https://cutt.ly/bGI0ooH

– A partir do fim de maio, volto a fazer leituras de originais de ficção por encomenda. Mais informações pelo laub.michel@gmail.com

Fim de semana

Uma exposição no Masp – Luiz Zerbini.

Outra – Volpi.

Uma conversa – Mano Brown e Sidarta Ribeiro (Spotify).

Uma entrevista – Harvey Pekar e Joyce Brabner (aqui).

Uma memória – Roberto Muggiati sobre a revista Manchete (aqui).

Fim de semana

Um livro – Quando deixamos de entender o mundo, Benjamin Labatut (Todavia, 176 págs.).

Um doc/show – Shut Up and Play the Hits, Will Lovelace e Dylan Southern.

Um doc médio – Reading Susan Sontag, Nancy Kates.

Uma conversa – Susan Sontag e John Berger sobre ficção (aqui).

Uma entrevista – Robert Karo sobre biografias (aqui).

Fim de semana

Uma palestra – Lourenço Mutarelli sobre desenho e narrativa (aqui).

Um disco – Avenida Angélica, Vitor Ramil.

Um filme convencional – King Richard, Reinaldo Marcus Green.

Um filme de 1985 – Debaixo do Vulcão, John Huston.

Um livrinho – How to Start Writing (and When to Stop), Wislawa Szymborska (New Directions, 96 págs.).

Eu e o outro eu

A data da primeira entrada dos Diários de Andy Warhol é 27 de novembro de 1976, uma quarta-feira. A da última é 17 de fevereiro de 1987, uma terça, cinco dias antes da morte do artista americano. Em pouco mais de dez anos, o que iniciou como mera anotação de encontros e eventos, com a listagem dos respectivos gastos para controle de Imposto de Renda, virou um documento sui generis sobre a cultura do último meio século (L&PM, 851 págs, organização/seleção de Pat Hackett e tradução de Celso Loureiro Chaves).

Para chegar a essa conclusão, é preciso atravessar uma certa aridez do livro. À primeira vista, nele há apenas um registro em tom menor, composto de impressões ligeiras e adjetivadas. A agudez possível emerge de uma frase lapidar aqui, uma expressão venenosa ali, em meio a muitos momentos repetitivos, irrelevantes à sombra do tempo: “dedos muito delicados (…), do mesmo tamanho que os meus e metade da largura” (sobre Miles Davis); “calças hindus de pele de leopardo (…), parecia um domador de circo” (sobre Rainer W. Fassbinder); “é chato, um horror (…), mas aí vi o pessoal da imprensa se aproximando (…) e disse que tinha gostado demais” (sobre o filme “O Fundo do Coração”, de Francis F. Coppola).

É comum ver Warhol como figura visionária, que fundiu influências – de Marcel Duchamp a Marshall McLuhan – na construção de uma obra que, desde os anos 1960, por sua força e abrangência no retrato irônico/fascinado da fama e do consumo, antecipou a dinâmica do atual sistema de redes sociais e celebridades. Mas a motivação que gerou tal legado, presente em pinturas, fotografias, nos filmes produzidos no estúdio The Factory, na edição da revista Interview, segue motivo de disputa cultural. Se os Diários podiam soar frívolos em 1989, ano em que foram publicados, em 2022 servem para iluminar um debate mais amplo sobre identidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/4/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Adriana Varejão, Pinacoteca.

Outra – Beth Slamek, Galeria Pilar.

Um filme curioso – Andarilho, Cao Guimarães.

Uma reportagem – Clarissa Levy sobre o Ifood (aqui).

Uma entrevista em duas partes – Carlos Eduardo Miranda por Thunderbird (aqui e aqui).

Por que sósias são engraçados

Ariano Suassuna numa de suas aulas-espetáculo, Brasília, 2013.

“O grande pensador francês Henri Bergson dizia que o cômico é resultado da superposição do mecânico ao vivo (…). A gente ri quando espera um acontecimento ou uma história que tenha a inventividade e a graciosidade da vida (…) e, em vez disso, o que aparece é algo de mecanizado, grosseiro (…). Por que a gente acha graça numa queda? Ele dizia, porque se o espírito mergulhasse a carne de tal maneira que a carne também se espiritualizasse, nós nunca cairíamos. Ao escorregar, nós faríamos o movimento gracioso de recuperação. Mas a gente cai que nem uma tábua (risos) (…). Ele também perguntava, por que os gêmeos são engraçados? (…). Se eu tivesse dois irmãos gêmeos, eu entrava aqui agora e vocês aceitavam. Aí entrava outro igualzinho, e vocês iam ficar… Quando entrasse o terceiro vocês cairiam na gargalhada (risos). Porque daria impressão de que a gente tinha se fabricado em série, mecanicamente.”

Fim de semana

Uma série no Netflix – Trilogia Kanye.

Outra – Diários de Andy Warhol.

Um livro para consultar – Diários de Andy Warhol (L&PM, 851 págs.).

Um romance – Os Coadjuvantes, Clara Drummond (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um filme médio – Quebrando o Gelo, Peter Flinth.

Refugiados: presente e futuro

No início deste ano, tendo passado 2021 quase todo em Berlim, remexi documentos de família numa pasta antiga, que eu tinha aberto duas ou três vezes na vida. Nela estão os registros formais da vinda do meu pai ao Brasil, ele com oito anos, junto com a mãe e uma irmã, num dos últimos navios que deixaram o porto de Hamburgo trazendo judeus para a América do Sul em 1939.

É uma experiência curiosa voltar a ter contato com esse material depois de estudar um pouco de alemão. Há uma sensação ambígua, uma familiaridade incômoda, em reconhecer certos detalhes do idioma das autoridades nazistas aplicado a pessoas próximas – cuja sobrevivência determinou, entre tantas outras coisas, o fato de eu ter nascido.

A leitura dos documentos não desmentiu nenhum fato da grande história, claro, nem recontou uma saga de emigração forçada cujos pontos importantes eu já conhecia. Mas é como se os célebres eufemismos administrativos do Terceiro Reich, agora formalizados num vocabulário que não me soa mais tão estranho e repelente, trouxessem uma consciência mais específica de um horror nem sempre fácil de nomear: as vacinas listadas num certificado, o “passaporte estrangeiro” que a minha avó utilizava com um “Sara” acrescentado ao seu nome.

Em meio aos papeis da pasta encontrei algo inusitado, de que eu não sabia ou não lembrava: um processo do fim dos anos 1960, no qual meu pai pede indenização ao Estado alemão por traumas de guerra. A petição, os trâmites e a sentença estão vertidos para o português, e também aí se vê a distância entre a frieza da linguagem traduzida – o modo como burocratas recontam o dia-a-dia sob Hitler, o jargão de médicos chamados a dar pareceres – e o pesadelo que ela foi capaz de justificar tão poucas décadas antes.

Não vou entrar em maiores detalhes do processo. Talvez um dia o faça num texto de outro gênero, se a família não achar indevido. Apenas digo que nessas páginas há um debate sobre a natureza do dano psicológico em crianças refugiadas, o que se estende a adultos. No consenso cultural da época, era muito mais aceito falar em danos materiais, palpáveis segundo uma lógica de soma e subtração. Isso mudou de lá para cá, não há dúvida. Mas em que grau, e devido a quais instrumentos?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/3/2022, sobre meu pai, Stefan Zweig e a Ucrânia. Íntegra aqui.

A dinâmica das trevas

Em janeiro de 1998, num ensaio publicado na revista Bravo, Olavo de Carvalho sintetizou o que passaria as duas décadas seguintes martelando: a ideia de que o regime militar brasileiro havia sido negligente naquilo que ele já chamava de guerra cultural.  Enquanto a direita se preocupara apenas com o poder político e econômico, a esquerda teria lido Antonio Gramsci e buscado uma hegemonia mais efetiva, fixada no “subconsciente popular”.

Para quem acompanhava o articulista, não havia nada de novo no texto. A curiosidade era o último parágrafo: uma ideia atribuída a Roberto Campos, que estimava em trinta anos o tempo para uma guerra cultural se traduzir em ganhos políticos. Os exemplos citados eram os Estados Unidos e a Inglaterra, onde Ronald Reagan e Margaret Thatcher seriam frutos do longo combate intelectual promovido por nomes como Russel Kirk, Roger Scruton e Paul Johnson.

Lida hoje, a passagem tem algo de premonitório. Os tais trinta anos foram abreviados para vinte por atalhos que nem podiam estar no horizonte de Roberto Campos, como o surgimento das redes sociais e dos smartphones. Idem por eventos da economia e da política que misturam razões estruturais, atos individuais e acaso na ascensão do reacionarismo atual – da crise de 2008 aos métodos da Lava Jato, das jornadas de 2013 ao papel de Eduardo Cunha na queda de Dilma, da reação ao discurso das minorias à facada em Jair Bolsonaro.

Ao menos em parte, no entanto, não há como explicar o Brasil que desaguou em 2018 sem voltar a Olavo. A questão é: qual Olavo? A resposta talvez passe pelo ensaio de 1998: prevaleceram as ideias defendidas pelo seu autor ao longo de duas décadas, com a ajuda do atalho tecnológico, ou a barbárie que tomou o país tem menos a ver com conteúdo do que com forma, isto é, com o modo como essas ideias se espalham segundo a dinâmica da Internet?

Início de texto publicado no Valor Econômico, 18/2/2022. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma reportagem – Sabrina Tavernise sobre os refugiados da Ucrânia (aqui).

Uma entrevista – Antonio Gelis filho sobre Putin e a Rússia (aqui).

Outra – Paulo Cesar Araújo sobre Roberto Carlos (aqui).

Um texto de 1972 – Pauline Kael sobre O Poderoso Chefão (aqui).

Uma reprise – A Professora de Piano, Michael Haneke.

Fim de semana

Um filme – Licorice Pizza, Paul Thomas Anderson.

Um livro de contos – Visão Noturna, Tobias Carvalho (Todavia, 119 págs.).

Um podcast – 50 anos do Clube da Esquina (O Assunto).

Uma entrevista – Sérgio Miceli sobre Drummond e o Modernismo (Ilustríssima Conversa).

Uma entrevista sombria – Vladimir Putin a Oliver Stone (Nocaute).

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