Michel Laub

Machado de Assis e as cotas

Depoimento que colhi do escritor, curador e professor Ítalo Moriconi, da UERJ, às vésperas da eleição de 2018, sobre a experiência de dar aulas de literatura no período posterior à implantação da política de cotas nas universidades brasileiras. Publicado na versão online do Anuário Todavia 2018-2019 (Todavia, 160 págs.), que editei junto com André Conti.

Graduação – O curso de Letras da UERJ, onde dou aulas, é marcado pela política de cotas vigente há quinze anos e pela presença crescente de alunos ligados ao universo evangélico. As duas vertentes não necessariamente coincidem em cada indivíduo. Em paralelo, de 2008 até a crise financeira agravada em 2015, eu estimaria em 40% ou 50% a proporção dos alunos que ganharam algum tipo de bolsa ou auxílio para graduandos. Não sabemos se esse modelo vai perdurar depois do total colapso de 2016, quando bolsas deixaram de ser pagas, o bandejão foi fechado, etc. O fato concreto é que, pelo menos nas áreas de Ciências Sociais, Humanidades e Pedagogia, a UERJ é uma instituição muito social, foi a primeira pública do Rio a oferecer cursos noturnos e a maioria dos alunos de Letras não tem pais formados em curso superior. Nosso aluno de graduação é geralmente primeira geração a ter acesso ao ensino superior. 

Pós-graduação – A pós-graduação em Letras, por sua vez, tanto mestrado quanto doutorado, tem um perfil diferente. O público é formado por alunos e alunas já relativamente bem preparados, oriundos de backgrounds diversos. O perfil é menos “social” e mais de uma ¨elite acadêmica¨, mesmo que o nível de renda familiar não seja tão alto e inexista a experiência da viagem internacional. De qualquer modo, sendo de origem menos ou mais abonada, o pós-graduando em Letras é um ralador ou raladora por natureza. Todos são ou serão professores. O sistema funciona movido principalmente por calendários e verbas federais.

Identidades – Ao voltar a dar aula, depois de oito anos na editora da universidade, observei mudanças muito grandes em relação a 2007-2008. A percepção das políticas identitárias (raça, gênero, identidade sexual) está presente na maioria dos alunos. As leituras meramente formalistas não funcionam mais. A mudança também foi estabelecida por toda uma geração de professores que aprenderam, entre outros, com Silviano Santiago. Ficou claro que, se existe anacronismo em nossa mediana literatura do Século 19, ele vem mais da ideologia que da fraqueza ou ingenuidade das tramas sentimentais (sempre muito bem aproveitadas, no século 20, pelo folhetim  eletrônico). Os textos indianistas de Gonçalves Dias e de Alencar se conectam dramaticamente com as questões contemporâneas dos índios, do racismo, em primeiro plano, e da misoginia também. Isso impõe (ou somatiza) novas formas de texto e novas ênfases na crítica.

Léxico e lugar de fala – Meus esquemas de compreensão de textos de Alencar e Gonçalves Dias tiveram que ser estendidos, ampliados, para focar questões históricas e atuais de raça e gênero. Há uma estranheza grande dos alunos em relação ao léxico racista e misógino (ou patriarcal). Um Rubem Fonseca usando a palavra “crioulo” causa espécie nesses jovens negros engajados que se reúnem em coletivos e estão presentes nas salas de aula das ciências humanas, letras e educação da UERJ. Os alunos não estão necessariamente armados com conceitos como patriarcalismo, por exemplo: trata-se de uma leitura de conteúdo, e de como o texto afeta a questão subjetiva do leitor. O conceito de lugar de fala é crucial e veio para ficar.

Violência e marcas históricas – Acredito que esse movimento “politicamente correto” da crítica traz novas camadas de compreensão, que se agregam às anteriormente praticadas. Um exemplo é a leitura que fizemos do poema Marabá, de Gonçalves Dias. Eu sempre vi em Iracema, de José de Alencar, o caráter violento da colonização mostrado sem meias palavras – já que a pobre morre no final e a criança, o primeiro brasileiro, é levado sabe-se lá para onde numa jangada com o pai branco e um cão rafeiro. No caso de Marabá, o drama é o da mestiça. Gonçalves Dias inverte a situação e mostra o preconceito dos índios, que não a querem loura nem alva nem seus olhos verdes, que eles preferem bem pretos. É o drama da diferença – e, no entanto, a interpretação taxativa dos meus alunos é que o angustiante para os homens que rejeitam Marabá é o fato dela ser produto do estupro da índia pelo branco. A “diferença”, nesse sentido, não seria tanto uma questão de cor, e sim produto de marcas históricas. 

Evangélicos – Quando comecei, em fins dos anos 80, o clima era laico porque quase não se falava em religião. Com uma rapidez incrível, porém, nos anos 90 o alunado da UERJ foi se tornando cada vez mais evangélico. Mas a história deles era de errância religiosa: a maioria falava de trajetórias familiares em que tinham saído do catolicismo tradicional e passado por mais de uma igreja alternativa (há sempre a presença forte e silenciosa do espiritismo.) Passados vinte anos, não só há evangélicos de mais renda: também a maioria dos alunos dessa religião nasceu e cresceu na igreja que ainda frequenta. Está mais claro na cabeça deles o conceito de uma cultura laica, que não segue a bíblia, e que eles parecem interessados em entender. Vejo também que existe entre esses jovens maior abertura para questionarem seus pais e seus pastores, mas tudo de uma forma light e respeitosa.

Machado – Ainda em relação aos evangélicos, fica interessante lecionar Machado de Assis, por exemplo, porque os alunos conhecem as histórias bíblicas citadas, de maneira lacunar e enviesada. A verdade, porém, é que esses textos não descem bem junto a esse público. Brás Cubas é muito cético para eles. Eles no fundo esperam da literatura algo edificante, embora o realismo de um O Cortiço (Aluísio Azevedo) lhes agrade.

Redes sociais – O mundo digital tem uma presença forte na tecnologia da didática, digamos assim. Você pode deixar os detalhes enciclopédicos (datas, títulos, definições mínimas) para serem pesquisados no ato da aula, cada aluno com seus telefones googlando. Dá uma nova dinâmica. Mas ainda não me acostumei a lidar com os alunos lendo o texto nos seus telefones. Tenho a impressão de que romances, por exemplo, ou mesmo contos, nunca são lidos na totalidade linear – é uma leitura por espasmos de páginas e parágrafos.

Papel do professor – A autoridade do professor, e a própria formação dele, não são mais suficientes para ditar sozinhas o conteúdo ou o enfoque em sala de aula. Mas uma aula com bom conteúdo erudito ainda é uma necessidade e é desejada, inclusive e até principalmente, pelos mais ativistas e engajados. A aula é encarada como algo que está trazendo repertório relevante dentro de um interesse específico. A meu ver, essa situação se deve principalmente às condições gerais de produção e circulação do saber – a relativização dos cânones, o ensino universitário mais como prática de pesquisa que transmissão de conteúdo. Pelo menos na Uerj, o consumo cultural dos jovens da graduação é muito baixo, basicamente televisão aberta. Teatro e cinema nem pensar, por serem caros. Por isso eles valorizam muito o que podem aprender ou apreender na universidade.

Egopress

Solução de dois Estados é finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura. Os resultados saem em novembro.

– Nesta terça, 16/8, às 19h, estarei na livraria Najlepsza Księgarnia, em Varsóvia, conversando com Michał Nogaś e Wojtek Szot sobre a edição polonesa do Diário da Queda (Ed. Pauza).

Esquisitos no metrô

É difícil resumir a sequência vertiginosa de fragmentos que compõem este livro. Há contos completos, como o sobre o homem que se perde da esposa e da filha numa ilha croata. Há pequenos ensaios, fábulas, verbetes históricos sobre trens, hotéis, países. E há uma infinidade de trechos que valem por si, frases ou parágrafos que iluminam todo um universo com sua agudez de observação e humor: o clique de uma máquina fotográfica soa como “um amém falado numa nova língua digital”; um mapa tem a forma de “uma enorme mão materna (…) que mergulha na água conferindo se a temperatura está adequada para o banho.”

Trecho de texto sobre os livros Correntes, de Olga Tokarczuk, e Qualquer Lugar Menos Agora, de João Paulo Cuenca, publicado no Valor Econômico. Íntegra aqui.

Egopress

Solução de dois Estados é semifinalista do prêmio Oceanos de Literatura. O anúncio dos finalistas ocorre em novembro. Textos e falas recentes sobre o livro: Gabriel Meneses no podcast da Rita Couto (https://open.spotify.com/episode/0N8o1j03xRur3RuYO6oR0c), Tiago Bald no Picanha Cultural (https://cutt.ly/dmlTJ99) e Miguel Sanches Neto na NCG News (https://cutt.ly/eRB0iAn).

– Entrevistas-conversas recentes minhas: Revista Bula (https://cutt.ly/yRB0PTt), podcast Afinidades Eletivas (https://t.co/6C75Zl5bP4?amp=1), canal do Fábio Porchat no You Tube (https://cutt.ly/XRB0R1J), Clube de Leitura da Casa do Povo-SP (https://cutt.ly/TRB0Zgu), Clube de Leitura da Livraria Realejo (https://cutt.ly/PRB2u5d).

– Textos acadêmicos recentes (ou que li recentemente) sobre meus livros: Vera Lopes da Silva (PUC-Minas) e as vozes de Diário da Queda (https://cutt.ly/2RB2dqq); Lara Amaral (Unicamp) e a ideia de genocídio e suicídio em Diário… e A Maçã Envenenada (https://cutt.ly/YRB2jkZ).

– Tese de doutorado de Renata da Silva Dias Perera de Vargas, da UFSC, sobre Diário da Queda e o Anuário Todavia 2018 (que editei junto com André Conti): https://cutt.ly/bRB2A1V

– Escrevi o posfácio da nova edição de Luz em Agosto, de William Faulkner, e a orelha da coletânea Contos Morais, de JM Coetzee. Ambos os livros saíram pela Companhia das Letras.

Fim de semana

Um ensaio – Survival of the Fireflies, Georges Didi-Huberman (Univocal, 112 págs.).

Um ensaio para reler – O artigo dos Vagalumes, Pier Paolo Pasolini.

Um livro de contos – Erva Brava, Paulliny Tort (Fósforo, 104 págs.).

Um podcast – Sam Anderson sobre Laurie Anderson no The Daily.

Um disco – Apocalip se, Zé Nigro.

Um rim, duas histórias

Uma escritora iniciante de Iowa resolve doar um de seus rins. Ela escreve a respeito no Facebook e para um grupo de amigos também escritores, explicando o que aparenta ser um gesto altruísta radical: o beneficiário da cirurgia não é um parente ou pessoa próxima, e sim um judeu ortodoxo com quem ela até então jamais tivera contato. Esse é o início de uma história curiosa, cheia de reviravoltas cômicas e dramáticas, contada algumas semanas atrás numa ótima reportagem de Robert Kolker para o The New York Times.

A escritora se chama Dawn Dorland, e uma das integrantes do grupo que recebeu suas mensagens era Sonya Larson. Algum tempo depois, Sonya publicou um conto, The Kindest, que fala justamente sobre um transplante de rim. O texto fez sucesso a ponto de ser adotado por um programa de leitura do Boston Book Festival, cuja proposta era ter 30 mil cópias impressas e distribuídas, e isso foi a gota d’água para o que já tinha virado uma guerra de bastidores: Dorland veio a público e aos tribunais denunciar o que seria um misto de plágio – Sonya reproduz no conto uma carta de Dorland ao seu grupo – e de apropriação ficcional indevida de um fato biográfico alheio.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 28-10-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Síntese do Lance, Jards Macalé e João Donato.

Outro – Meu Coco, Caetano Veloso.

Uma exposição em Berlim – Suely Torres, Donnerstag Gallery.

Um doc pior que o seu tema – The Most Beautiful Boy in the World, Kristina Lindström e Kristian Petri.

Um filme – Adults in the Room, Costa-Gavras.

Um Brasil que morreu

Entrevistas de escritores costumam ter alguma dose de mentira. Sendo essa a prática do metiê, é até esperado que manipulemos o discurso para tornar mais interessante a imagem dos nossos livros, tanto para os outros – leitores, crítica – quanto para nós mesmos – porque é preciso renovar o estímulo e seguir numa luta por vezes inglória.

Ler as entrevistas de Sérgio Sant’Anna, ao menos as que estão reunidas no recém-lançado O Conto não Existe (Cepe, 195 págs., organização de André Nigri e Gustavo Pacheco), causa outra impressão. É possível que ela seja falsa também – quem vai saber? –, mas não importa: o fato de eu sempre ter encontrado verdades na obra deste autor clássico da ficção brasileira do fim do século 20, e que seguiu tendo momentos de vigor até sua morte por covid ano passado, como que contamina o julgamento daquilo que ele disse fora dela.  

Trecho inicial de texto sobre Sérgio e André Sant’Anna, publicado no Valor Econômico, 24-9-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário – The Velvet Underground, Todd Haynes.

Um livro – O Conto não Existe, Sérgio Sant’Anna (Cepe, 228 págs.).

Um trecho – Diários de Patricia Highsmith (aqui).

Um podcast – Juliana de Albuquerque e Isadora Sinay sobre Philip Roth (aqui).

Uma série – Succession.

Didê, cunete, tchatchatchá

“Para escrever, talvez seja necessário que a língua materna seja odiosa, mas de maneira tal que uma criação sintática trace aí uma espécie de língua estrangeira.”

A frase, de Gilles Deleuze, serve como epígrafe ao posfácio de Caia Maria Coelho para Neca + 20 poemas travessos, de Amara Moira (Editora O Sexo da Palavra, 64 págs., com ilustrações de Lino Arruda). Ela define a sensação que temos ao ler estes textos escritos em pajubá, o socioleto das travestis brasileiras. Neles se fala em “didê”, “cunete”, “necometragem do lixo”. De um mundo onde “quanto mais necão, mais lei aliás”, e “pele na pele é tia, faço a recheada não.”

O pajubá foi historicamente criado como defesa, um disfarce que ajudou na sobrevivência de uma das populações mais discriminadas e agredidas do país. Nele se misturam e recriam construções gramaticais do português de diferentes regiões, termos importados, vocabulário dos terreiros iorubás. Mas o que poderia ser mera negação – o estrangeirismo deleuziano criado a partir (e como devolução) do ódio – floresceu num registro musical vívido, de apelo tragicômico a quem ouve, o que é uma forma de empatia: “Tem umas que engana, até parece ocó, malão e tudo, aí cê vai na pira dela te tchacatchá, já arrebitando o edi, mas é piscar e, jesus, ela atacou.”

Neca não é bem uma história, e sim o monólogo de uma travesti prostituta que aguarda clientes numa calçada, dirigindo-se a uma colega iniciante. O assunto é a batalha diária da personagem, que se equilibra entre ameaças as mais variadas – violência, polícia, doenças – fazendo desabafos (“vontade de dar elza horrores só pra compensar, celular, carteira, o que for”), observações sobre os tipos com os quais se depara (“conheeeço. Edivaldo, edivaldo, cê não me engana nada”), dando conselhos ternos em meio ao sarcasmo e a tristeza (“Tô morta, gata. Cê fica? Então aqüenda uma taba odara pra esse frio e pra não estressar com as mariconas”).

Início de texto publicado no Valor Econômico, 8-10-21. Integra aqui.

Fim de semana

Uma história – Dawn Dorland x Sonya Larson (aqui).

Um livro – Neca, Amara Moira (O Sexo da Palavra, 64 págs.).

Um lugar em Berlim – HKW.

Outro – DAAD Galerie.

Um filme – Cuatreros, Albertina Carri.

Saudades do quê?

Existe um fenômeno curioso no YouTube. Nos vídeos de rock/pop nacional dos anos 1980/1990, por mais irrelevante que sejam a canção e o artista, os comentários costumam celebrá-los como emblemas de uma época de ouro, quando o cenário musical do país ainda não estaria tomado por marketing e vulgaridade estética. “Como pode tanta música legal numa década só?!!!”, pergunta um desses palpiteiros depois de ouvir Transas e Caretas (1984), do Trio Los Angeles. “As pessoas realmente se divertiam”, sentencia outro na página de um playback de Meu Ursinho Blau-Blau (1983), do Absyntho, apresentado no programa da Angélica. “Hj VC vê no alta horas o cantor tá cantando os jovens tudo parado, lesados, parecem zumbis, congelados, só se divertem se tiver bebidas e drogas.”

À primeira vista, trata-se de gosto pessoal. Ou de nostalgia. O que inclui, em alguns casos, um velho hábito da meia idade: confundir a própria decadência com a decadência objetiva do mundo. Mas não haveria outro sintoma aí, o sentimento cultural regressivo que vira um posicionamento político? Comecei a pensar a respeito ao notar como os internautas avaliam o legado de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana e figura central da minha adolescência, em faixas que vão de Será (“para lavar os ouvidos com tanta sujeira que é produzido hoje”) a Pais e Filhos (“como eu queria voltar no tempo em que o mundo ainda era bom”). Ou em comentários que falam de ideologia, sexualidade, comportamento: “Já zoava os jovens pseudo-revolucionários nos anos 80” (em Geração em Coca-Cola), “essa musica (…) fala sobre a Venezuela de hoje” (em La Maison Dieu), “gay sem mimimi” (em Que País é este?), “aí me chamam de homofóbico pq crítico o tal do cantora Pablo” (em Meninos e Meninas).

É claro que há de tudo nesses posts: zoeira, burrice, má-fé e até debates com ideias razoáveis, envolvendo fãs jovens e velhos, de esquerda ou da direita moderada. Mas para o que interessa aqui valem apenas os juízos vindos – ou que parecem vir, ou que não seria estranho se viessem – dos que têm posições reacionárias sobre costumes. Ou seja, dos que hoje chamamos de bolsonaristas. A princípio, o entusiasmo deles com a Legião Urbana é incompatível com o espírito da banda – que, ao menos no início da carreira, na transição entre a ditadura militar e a Nova República, fixou-se no imaginário da juventude como expressão de uma postura política contestatória, a favor da liberdade e da aceitação de diferenças. 

Só que talvez não seja tão simples. O inconformismo não é um valor em si, e seus alvos mudam com o tempo. O grito antissistema de uma letra como Que País é Este, composta em 1979 e gravada em 1987, com os célebres versos “nas favelas, no Senado/sujeira para todo lado”, pode acabar na boca de um democrata reformista ou na de alguém que prega a intervenção militar em 2021. No caso de Renato Russo, é tudo apenas questão subjetiva, como ocorre na interpretação de qualquer texto? Ou haverá algo em seu trabalho que fala de perto ao fã retrógrado – e o que lemos nas mensagens do You Tube faz mais sentido do que queremos reconhecer?

Início de texto publicado na revista Piauí, edição de setembro/2021. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um festival – Berlin Art Week.

Uma programação no festival – Planetário.

Um disco de 2019 – Pang, Caroline Polachek.

Um disco de 2018 – Cavala, Maria Beraldo.

Um livro – Qualquer lugar menos agora, JP Cuenca (Record, 240 págs.).

Formas de colaborar com o horror

O que a história faz com artistas que colaboram com o totalitarismo? Depende. Uma exposição em Berlim lembra que a carreira deles nem sempre termina com o fim dos regimes aos quais servem, como seria esperado. Die Liste der Gottbegnadeten, em cartaz até 5 de dezembro no Deutsches Historisches Museum, reúne pinturas e esculturas produzidas nas décadas seguintes à Segunda Guerra por nomes que, se no geral não fizeram propaganda nazista aberta, silenciaram por conveniência enquanto eram ajudados em encomendas e exposições do Terceiro Reich.

O título da mostra faz referência a uma lista elaborada em 1944 por Hitler e Goebbels, com gente das artes visuais, literatura, música e teatro que foi dispensada dos esforços militares alemães em função de um talento “dado por deus”. Seus trabalhos seriam o contraponto à “degeneração” do cubismo, surrealismo, dodecafonismo e outras correntes modernas, numa ideia que faz sentido dentro da lógica nacional-socialista: como se sabe, essa foi uma ideologia que tentou fundir política e estética, com a última representando simbolicamente os ideais arianos classicistas /regressivos.

Nas décadas posteriores à guerra, uma parte desses artistas se dedicou a justificar suas antigas escolhas. Num vídeo que está no Historisches Museum, por exemplo, o pintor Paul Mathias Padua cita pequenas negativas e divergências com prepostos do regime para se declarar uma espécie de resistente discreto (tão discreto que ninguém ficou sabendo), o que contradiz sua alegação de ignorância quanto aos crimes oficiais do período (no qual ele já tinha mais de 30 anos). A conversa não cola, claro, porque tudo é autoexplicativo num tempo em que alguns faziam sucesso enquanto outros eram perseguidos e mortos, mas isso não impediu que as obras do autor fossem compradas por coleções institucionais e privadas da segunda metade do Século XX.

Do mesmo modo, o conforto material e até um certo prestígio acompanhou as décadas finais de muitos integrantes da lista de Hitler. Josef Wackerle seguiu dando aulas até se aposentar. Joseph Enseling fez trabalhos para indústrias no Vale do Ruhr. Willy Meller teve projetos patrocinados pelo Correio Alemão e concebeu um monumento às vítimas da guerra em Frechen. Josef Wackerle ganhou um prêmio em Munique e novas encomendas, como a colaboração no design de um prédio da Siemens em Erlangen, do mesmo arquiteto com quem atuou na época de ouro do nazismo.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 10-9-21. Integra aqui.

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

Sofrimento e simpatia

Primeiro, uma fala do pintor Francis Bacon (1909-1992) no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs., tradução de Maria Theresa de Resende Costa): “O sofrimento das pessoas e a desigualdade entre elas é o que gerou a grande arte (…). Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? (…) É possível (…) que uma sociedade (…) seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”

Depois, um ataque do escritor Aimé Césaire (1913-2008) ao sociólogo Roger Caillois em Discurso sobre o Colonialismo, livro que comentei aqui meses atrás (Veneta, 136 págs., tradução de Rogério de Campos): “Os museus dos quais ele se envaidece, melhor seria, no geral, não precisar abri-los (…). A Europa [faria] melhor em tolerar ao seu lado civilizações vivas, dinâmicas e prósperas, inteiras e não mutiladas (…), em vez de nos permitir admirar, devidamente rotulados, os seus membros esparsos, os membros mortos (…). O próprio museu não é nada; ele não quer dizer nada (…) lá onde a beata satisfação consigo apodrece os olhos (…); onde, confessado ou não, o racismo silencia a simpatia (…). Não: na balança de conhecimento, o peso de todos os museus do mundo nunca será o mesmo de sequer uma centelha de simpatia humana.”

Penso nos dois trechos ao visitar o recém-inaugurado Humboldt Forum, de Berlim. Trata-se um museu que reúne acervos de etnografia, misturando ciência e arte, num antigo palácio prussiano cujo estilo arquitetônico original foi restaurado. A combinação entre forma e conteúdo do projeto, que demorou quase vinte anos para ser concluído, é motivo de polêmica há tempos: além das referências a glórias imperiais e cristãs na fachada do prédio, parte das coleções ali presentes foi montada durante o auge do colonialismo alemão e europeu.

O debate encontra eco num mundo crescentemente atento ao papel das instituições culturais – à não-neutralidade delas naquilo que adquirem, guardam e expõem. Muitas das peças do Forum, que está sendo visto como uma espécie de Museu Britânico berlinense e contemporâneo, têm a legitimidade contestada. Exemplo são cerca de 500 dos chamados Bronzes do Benim, produtos reconhecidos de saques ingleses no Século XIX que a Alemanha prometeu devolver à Nigéria nos próximos anos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13-8-21, sobre o Humboldt Forum e a estátua do Borba Gato. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma fala – Caetano Galindo sobre T.S. Eliot (aqui).

Uma coleção em Berlim – Hamburger Bahnhof

Um exposição no Hamburger Bahnhof – Pauline Curnier Jardin.

Um texto – Juliana Cunha sobre Anna Kariênina (aqui).

Outro – Camila von Holdefer sobre J.M. Coetzee (aqui).

Fim de semana

Um romance – Correntes, Olga Tokarczuk (Todavia, 400 págs.).

Um lugar em Berlim – Haus der Statistik.

Outro – Savvy.

Uma exposição em Berlim – Arte apoiada pelo nazismo, no Deutsches Historisches Museum.

Um curta – November, Hito Steyerl (aqui).

Fim de semana

Um documentário – Woodstock 99, Garret Price.

Outro – Das War Thomas Bernhard (aqui).

Um livro – Discurso sobre a Metástase, André Santana (Todavia, 216 págs.).

Um texto – Sarah E. Bond e Joel Christensen contra o mito do herói (aqui).

Uma série de fotos – Nova York e o pós-pandemia (aqui).

Com a ponta dos dedos

Logo no início de Pretend it’s a City, série que fez algum sucesso ano passado na Netflix, Fran Lebowitz conta que gosta de caminhar em Nova York olhando para o chão. Enquanto fala, a escritora americana mostra calçadas enfeitadas com grafites, informações sobre prédios públicos, placas de bronze com frases de grandes nomes da cultura. “Eles têm esperança de que alguém ainda repare nisso”, diz ela, ironizando o fato de que 100% da nossa atenção hoje é voltada não para baixo nem para cima nas cidades, e sim para uma tela de celular.          

Penso nos vários aspectos dessa ironia ao olhar para o chão de Berlim. Nas calçadas daqui, há pequenas placas em frente a prédios de onde vítimas do nazismo foram retiradas para serem mortas. Algumas avenidas só existem num espaço urbano aberto pelos bombardeios dos aliados. E há os vestígios dos trinta anos em que a capital foi dividida pela guerra fria. Na Bernauer Strasse, perto da minha casa, pisa-se o tempo todo em lembranças desse último período: marcas de ferro que indicam o lugar onde passava o muro (ele ia de uma ponta a outra da rua), a grama de praças onde antes era o campo de visão dos guardas procurando dissidentes em fuga.

A Bernauer é simbólica por ser a via dos prédios divididos: as fachadas davam para o lado capitalista, os fundos para a então República Democrática Alemã (RDA). Ao longo dos anos de comunismo, os vãos das janelas foram cobertos com tijolos, e os moradores forçados a se mudar. Em meio ao processo, houve dramas de todo tipo – de irmãos separados por décadas a uma grávida que pulou do segundo andar, caiu numa rede de bombeiros e teve o bebê dois dias depois, num hospital de Berlim Ocidental.

Em episódios menos espetaculares, contudo, vê-se também a natureza profunda da RDA: sua capacidade de interferir no cotidiano usando uma máquina de controle cinzenta, metódica. São memórias assim que compõem A Vida dos Outros e a Minha, de Claudia Cavalcanti, livro cujo interesse se deve, antes de mais nada, à perspectiva brasileira usada para narrar (Editora Cultura e Barbárie, 112 págs., lançamento neste mês).    

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 30-7-2021. Íntegra aqui.

Fim de Semana

Um disco – Happier Than Ever, Billie Eillish.

Um texto – Donna Ferguson sobre a biografia de WG Sebald (aqui).

Um livro – Susan Sontag: The Complete Rolling Stone Interview, Jonathan Cott (Yale University Press, 145 págs.).

Uma entrevista – Camila Rocha sobre a nova direita brasileira (aqui).

Um filme – As Estátuas Também Morrem, Chris Marker e Alain Resnais.

O julgamento do infinito

No final de 1912, a editora alemã Rowohlt Verlag publicou uma reunião de “poemas em prosa” chamada Contemplação, estreia na literatura de um jovem tcheco chamado Franz Kafka. A tiragem foi modesta, 800 exemplares, e a recepção um tanto morna, com exceção de uma resenha assinada por um compatriota e amigo, Max Brod. “Consigo facilmente imaginar alguém botando as mãos no livro e constatando que sua vida se alterou por inteiro dali por diante”, ele afirmou, num tom que tinha algo de profético para além da banalidade superlativa.

Brod foi um autor de algum sucesso, tendo publicado romances, contos, ensaios e memórias. Seu nome teria se apagado da história literária, contudo, não fosse a decisão célebre que tomou em 1924: desrespeitando a vontade de Kafka expressa pouco antes de morrer, ele se negou a queimar os manuscritos do amigo. Entre eles estavam textos inacabados, que depois de edições póstumas viraram O Processo e Carta ao Pai: obras que só conhecemos porque escaparam pela segunda vez da extinção em 1939, quando Brod fugiu do nazismo num périplo de trem e navio que o levou de Praga a Tel Aviv.

Se a história da fuga é aventuresca, seu final tardio traz uma nota burocrática: em 2016, a Suprema Corte israelense se debruçou sobre uma disputa pela guarda de parte dos papeis. Os litigantes eram as herdeiras da secretária de Brod, para quem ele deixou os direitos em testamento, o arquivo de Marbach, entidade pública alemã para onde elas queriam vender um lote do material, e a Biblioteca Nacional de Israel, interessada no legado de um autor marcado pelo antissemitismo na diáspora. Os detalhes do caso, incluindo as inevitáveis chicanas técnicas e morais dos envolvidos, são narrados no ótimo O Último Processo de Kafka (Arquipelago, 272 págs., tradução de Rodrigo Breunig).

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 2/7/2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Bolsonaro e os judeus, por Fábio Zuker e Pedro Beresin (aqui).

Uma entrevista – Rosa Freire Aguiar sobre Celso Furtado (aqui).

Uma conversa – Luís Augusto Fischer e Nelson Coelho de Castro (aqui).

Um disco lançado agora – Umbigos Modernos (1988), Nelson Coelho de Castro.

Um romance – O Riso dos Ratos, Joca Reiners Terron (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um disco – Convocations, Sufjan Stevens.

Um museu em Berlim – Humboldt Forum.

Um livro – A Vida dos Outros e a Minha, Claudia Cavalcanti (Cultura e Barbárie, 112 págs.).

Um texto – Leonardo Padura sobre Cuba (aqui)

Uma entrevista – Ana Penido e Suzeley Kalil sobre o Partido Militar (aqui).

Uma ofensa à morte

“Não faças poesia com o corpo”, escreve Carlos Drummond de Andrade num poema célebre de A Rosa do Povo (1945). “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”; “Não cantes tua cidade, deixa-a em paz”; “Não recomponhas/ tua sepultada e merencória infância”; “vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família/ desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.”

Os versos soam como um chega para lá em certa lírica derramada, uma defesa do rigor da forma contra o sentimentalismo flácido: “Penetra surdamente no reino das palavras/ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intacta./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.”

Penso em Drummond ao abrir o mais recente livro de Ana Martins Marques, sua conterrânea mineira e um dos nomes centrais da nova poesia no país. Em Risque esta palavra (Companhia das Letras, 120 págs.), há um pouco dessa ideia de que tudo começa e termina na linguagem. Num nível superficial de entendimento, claro, trata-se de uma obviedade. Mas na compreensão do que faz a raridade de um bom poema, aqui está a chave mestra: se a busca da palavra exata não é condição suficiente no processo, é o mais necessário dos passos. Identificar essa palavra, o lugar intransferível dela dentro de uma sintaxe igualmente intransferível, é obrigar o estado de dicionário a abrir suas “mil faces secretas sob a face neutra”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 16-7-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma distopia – O Último Gozo do Mundo, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um museu em Dresden – Albertinum.

Outro – Residenzschloss.

Um terceiro – Japanisches Palais.

Um filme – Shiva Baby, Emma Seligman.

Fim de semana

Um perfil – Júlio Lancellotti por Angélica Santa Cruz (aqui).

Um romance – O Deus das Avencas, Daniel Galera (Companhia das Letras, 177 págs.).

Uma exposição em Berlim – Loie Hollowell, König Galerie.

Outra – Marc Bauer, Berlinische Galerie.

Uma série média – Morte em Vermelho.

Como escrever sobre o horror

Como escrever sobre o horror? A pergunta atravessa Guerra Aérea e Literatura, livro que reúne palestras dadas pelo ficcionista alemão W.G. Sebald em Zurique, em 1997, tendo como tema os romances produzidos em seu país logo depois do fim do nazismo.

O conjunto forma um ensaio rigoroso, no qual o autor é implacável com a geração que lhe precedeu. Para ele, a literatura alemã dos anos 1940 e 1950 começa a fracassar em virtude de um constrangimento histórico: o sentimento de culpa e humilhação do povo que pouco tempo antes havia posto Hitler no poder. Afinal, o empenho em fazer um retrato honesto de ações como os bombardeios aliados no fim da guerra, que reduziram cidades a pó sem diferenciar alvos civis e militares, poderia se confundir com algum tipo de denúncia relativista – ou, mais grave, de lamento pela sorte do III Reich no conflito.

Mas Sebald vai além da hipótese psicológica. A originalidade de sua tese é relacionar o problema moral com o problema estético: identificar na prosa alemã do período um “gesto de defesa diante da recordação”, como se o “funcionamento continuado da linguagem normal” fosse incompatível com a autenticidade de textos sobre um passado recente e catastrófico. Clichês como “noite fatídica”, “labaredas do céu” e “o diabo estava à solta”, presentes nos testemunhos sobre os bombardeios, chegam à ficção em equivalentes cujo efeito seria “esconder e neutralizar os acontecimentos que extrapolam a capacidade de compreensão” – a saber, as “intermináveis e empoladas abstrações” na velha guarda de escritores que trataram do tema, o “sentimentalismo” e o “queixume” na nova.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 23-4-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Risque Esta Palavra, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um texto – Otavio Frias Filho sobre Janet Malcolm (aqui).

Outro – Emilio Fraia sobre Juan Carlos Onetti e Michel Leiris (aqui).

Uma série bem Fassbinder – Berlin Alexanderplatz.

Uma bem sala de roteiro – Mare of Easttown.

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