Michel Laub

Fim de semana

Um livro – Sobre Gatos, Doris Lessing (Autêntica, 192 págs.).

Um ensaio – Antonio Engelke sobre identitarismo, na Piauí.

Um vídeo – Rock Grande do Sul 30 anos depois (aqui).

Um filme médio – Norman, Joseph Cedar.

Um filme ruim – O Círculo, James Ponsoldt.

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Egopress

– Na próxima terça, 12/9, às 17h, participo com Ana Paula Maia de uma das mesas da Feira do Livro de Medellin/Colômbia. Programação completa: https://goo.gl/U9hmmH

– Na sequência (16/9, 19h), estarei com Eduardo Sabino, Marcia Denser e Maria Valéria Resende no Festival de Belo Horizonte. Programação: https://goo.gl/jyDdBU

O Tribunal da Quinta-Feira está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. O resultado sai em novembro. Mais informações: https://goo.gl/iSB6Lw

– Um texto meu saiu na revista inglesa Litro, que dedicou um número a autores latinos. A curadoria é da romancista mexicana Chloe Aridjis, e também participam no time brasileiro Antonio Xerxenesky e Fernanda Torres: https://goo.gl/XRZvL3

– Minha participação no Segundas Intenções/2017, na Biblioteca Villa-Lobos, em São Paulo: https://goo.gl/hv8UMn

Fim de semana

Um romance – O Vendido, Paul Beatty (Todavia, 320 págs.).

Um ensaio de provocação – Teoria King Kong, Virginie Despentes (N-1 Edições, 128 págs.).

Um filme simpático – O Filme da Minha Vida, Selton Mello.

Outro – The Invention of Lying, Ricky Gervais.

Um artigo – Fake news na época da invenção do rádio (aqui).

Fim de semana

Um filme – Bingo, o Rei das Manhãs, Daniel Rezende.

Um filme pretensioso – De Canção em Canção, Terrence Malick.

Um livro – As Perguntas, Antonio Xerxenesky (Companhia das Letras, 184 págs.).

Um projeto – Sesc 24 de maio.

Um depoimento – Ruy Castro sobre alcoolismo (aqui).

Relevo e silêncio

Orelha que escrevi para A Cena Interior, de Marcel Cohen (Ed 34, 152 págs.), publicada com pequenas modificações:

Qual era o perfume preferido dos oficiais da Gestapo? Muito provavelmente, escreve Marcel Cohen neste livro breve e perturbador, um certo Couro da Rússia. Originado da Ucrânia, extraído de um galho de bétula que deixava um rastro “violento” e “inebriante”, a fragrância sugeria o contrário das suaves águas de colônia fabricadas à beira do Reno, símbolos da civilização liberal que morreu com a República de Weimar.

Dos perfumes, Cohen parte para digressões sobre roupas, paisagens, comida, fiapos de conversas contadas por testemunhas em cidades e épocas diferentes. São evocações do que a memória só consegue reconstituir – ou reinventar – em fragmentos: a biografia e os traços pessoais dos pais, tios, avós e da irmã ainda bebê que foram mandados a campos de concentração em 1943.

O resgate inclui a breve convivência de todos com o autor, que tinha cinco anos quando foi salvo da prisão e da morte porque havia ido brincar no parque com a babá. Como um espelho feito de ausência e silêncio, o registro de quem sobreviveu por acaso teve repercussões. Não apenas no trauma individual, sobre o qual A Cena Interior fala de modo discreto e enviesado, mas também em questões éticas de quem se propõe a contar por escrito uma história assim. Como ordenar os fatos e atribuir juízos de valor a eles?, Cohen se pergunta na introdução. “Seria inaceitável acrescentar às monstruosidades passadas a injustiça de sugerir que os materiais eram magros demais, que a personalidade dos mortos era pouco distinta ou (…) ‘original’ para justificar um livro.”

O impasse acaba resolvido de forma engenhosa, mesmo que o tom do texto busque uma neutralidade que, sabemos, é utópica em qualquer relato – seja ele de jornalismo, de testemunho ou de autoficção. Por meio do fragmento, do detalhe de aparência insignificante, do gosto por coincidências e associações inusitadas, além de um cuidado quase documental com os trechos mais impactantes da tragédia, a aproximação afetiva entre narrador e objeto se dá evitando na medida do possível a arbitrariedade – ou o autoritarismo – das articulações de ritmo, tom, pathos e demais artifícios – ou “mentiras” – que formam o tecido romanesco tradicional.

Paradoxalmente, é o sabor e a força dessa narrativa cheia de arestas e fios soltos que devolve aos seus personagens aquilo que lhes foi retirado pela brutalidade nazista: o relevo humano. Que não é feito da grandeza das peripécias, e sim dos pequenos hábitos, dos rituais íntimos que não servem para nada, da dignidade que independe dos humores sombrios da história do Século XX. Já definido como “escritor de voz baixa”, Cohen obtém aqui um efeito oposto: faz a vida gritar em sua imperfeição aleatória, seu presente universal garantido pelo registro da convenção literária. Trata-se do melhor antídoto contra a dissolução da experiência na frieza das estatísticas.

 

Fim de semana

Uma HQ – Aqui, Richard McGuire (Companhia das Letras, 304 págs.).

Uma peça – Marte, você está aí?, Silvia Gomez.

Um filme – O Apartamento, Asghar Farhadi.

Outro – Afterimage, Andzrej Wajda.

Um vídeo – Charlottesville na Vice/HBO (aqui).

Egopress

– Neste sábado (12/8, 11h), estarei no projeto Segundas Intenções, na Biblioteca Villa-Lobos, em São Paulo, numa conversa com Manuel da Costa Pinto.

– Na sequência, como parte do programa Viagem Literária/SP, darei palestras em bibliotecas públicas de cinco cidades: Ilha Comprida (21/8, 19h), Itanhaém (22/8, 19h), Praia Grande (23/8, 13h), Cubatão (também em 23/8, 19h) e Diadema (24/8, 19h).

– Ainda em agosto, com mediação de Vivian Schlesinger, participo de uma mesa da Feira Literária do Clube Paulistano/SP (26/8, 19h).

– No novo número da revista Versalete, da UFPR, respondi a perguntas de Sandra M. Stroparo no estilo ‘Questionário Proust’. PDF da edição: https://goo.gl/nkiz7y

– Participação minha no Encontros de Interrogação do Itaú Cultural, em 2014 (o vídeo foi posto no ar este mês), no estilo TED (pediram para eu subir no palco e dizer o que quisesse): https://goo.gl/AtV2Kj

 

Fim de semana

Um filme – Wizard of Lies, Barry Levinnson.

Outro – Dunkirk, Christopher Nolan.

Uma exposição no Masp – Toulouse Lautrec.

Outra (com vidros que refletem) – Miguel Rio Branco.

Um obituário – Maria Emilia Bender sobre Elvira Vigna na Piauí.

Egopress

– Nesta quarta, 26/7, às 18h30, participo com Daniel Galera de uma das mesas do Festival de Inverno de Porto Alegre. Programação completa: https://goo.gl/iHcevo.

– No dia 1/8, 19h, converso com Lucrecia Zappi sobre o seu novo romance, Acre (Ed Todavia), na Livraria da Vila da Fradique Coutinho/SP.

Fim de semana

Um documentário – Metallica: Some Kind of Monster, Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

Um filme ruim – O Contador, Gavin O’Connor.

Uma série de culinária – Anthony Bourdain.

Uma peça – Jó ou a Tortura pelos Amigos, Fabrice Hadjaj (É Realizações, 80 págs.).

Uma releitura – O Instante Contínuo, Geoff Dyer (Companhia das Letras, 304 págs.).

Egopress

– Neste sábado, 8/7, falo do Diário da Queda no evento Leituras Obrigatórias da UFRGS, com alunos e professores de colégios e cursos pré-vestibulares no Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre. Serão duas conversas com o professor Sergius Gonzaga, de manhã e à tarde. https://goo.gl/VikZnJ.

Diário também acaba de sair na Turquia, pela Kafka Books: https://goo.gl/L4v53v.

– Já a edição inglesa do Maçã Envenenada, da Harvill Secker, chegou esta semana nas livrarias. Página da Amazon com  blurb de Adam Thirlwell: https://goo.gl/zVTW8o. Mais artigos acadêmicos recentes sobre o romance: da professora Leila Lehnen, da University of New Mexico/EUA (https://goo.gl/1Twdkf), e de Carolina Pina Rodrigues Maciel, da UERJ (https://goo.gl/xchXza).

Fim de semana

Uma série – Hip Hop Evolution.

Uma série ruim sobre o mesmo tema – The Get Down.

Um documentário – American Anarchist, Charlie Siskel.

Outro – Janis: Little Girl Blue, Amy Berg

Uma coletânea – Extras e gravações alternativas de Vauxhal and I, de Morrissey (aqui).

Faulkner: poesia e violência

Trechos de Luz em Agosto (Cosac Naify, 440 páginas, tradução de Celso Mauro Paciornik):

“A carroça se arrasta penosamente na direção dela na aura vagarosa e palpável de sonolência e poeira vermelha em que as patas persistentes das mulas se movem como num sonho, pontuadas pelo retinir esparso de arreios e o balouço ágil de orelhas de lebre”.

“Era um trem expresso e nem sempre parava em Jefferson. Ficou ali parado apenas o tempo suficiente para vomitar os dois cães: mil ricas toneladas de intrincadas e curiosas cintilações metálicas se precipitando com estrépito num silêncio quase chocante repleto de murmúrios humanos.”

“Uma parte do maquinário seria abandonada, já que peças novas sempre poderiam ser compradas a prestação – engrenagens gastas, emperradas, petrificadas, projetando-se dos montículos de tijolo quebrado e tufos de mato com uma aparência assombrosa, e caldeiras destruídas por dentro alçando as chaminés ferrugentas e inativas com um ar teimoso, frustrado e estúpido sobre uma paisagem postulada de tocos de silenciosa e profunda desolação, não arada, não semeada, esvaindo-se lentamente em ravinas vermelhas cunhadas debaixo das chuvas longas e mansas do outono e da fúria galopante dos equinócios primaveris.”

“Nesse período ele a veria de longe de vez em quando durante o dia nas dependências traseiras, onde ela se movimentava articulada sob as roupas limpas e austeras que usava, aquela opulência apodrecida pronta para transbordar em putrefação a um toque, como algo crescendo num pântano, sem olhar uma vez sequer para a cabana ou para ele. E quando pensava naquela outra personalidade que parecia existir em algum lugar da própria escuridão física, parecia-lhe que o que agora via à luz do dia era o fantasma de alguém a quem a irmã noturna havia assassinado e que agora perambulava a esmo pelos cenários da antiga paz, privado até do poder de se lamentar.”

“E quando Hightower se aproxima, o cheiro de carne flácida e sem banho e de roupas muito usadas – aquele odor de obstinado sedentarismo, de banhas lavadas sem muita frequência – é quase avassalador. Entrando, Byron pensa como já pensou antes: ‘É o seu direito. Pode não ser o meu jeito, mas é o seu jeito e o seu direito.’ E lembra que uma vez lhe pareceu ter encontrado uma resposta, como que por inspiração, por adivinhação: ‘É o odor da bondade. Claro que cheiraria mal para nós que somos maus e pecadores.’”

“É bem possível que tivesse a impressão de estar parado justo e firme como uma rocha e sem pressa nem ódio enquanto por todos os lados a sordidez da fraqueza humana se agitava num longo suspiro de terror diante do verdadeiro representante do Trono furioso e vingador. Talvez não tenham sido suas mãos que atingiram o rosto do jovem a quem ele alimentara e abrigara e vestira desde criança, e talvez quando o rosto se esquivou do golpe e se endireitou de novo não fosse o rosto daquela criança. Mas isso não poderia surpreendê-lo, pois não era com aquele rosto de criança que ele se preocupava; era com o rosto de Satã.”

“Começou a dizer e repetir para si mesmo Eu não como desde que não como desde tentando se lembrar de quantos dias haviam se passado desde a sexta-feira em Jefferson, no restaurante onde ele jantara, até algum tempo depois, naquele repouso mudo à espera de que os homens comessem e saíssem para o campo, o nome do dia da semana lhe pareceu mais importante que a comida. Porque quando os homens finalmente saíram e ele desceu, emergiu, na invariável claridade baça e foi para a porta da cozinha, não pediu comida. Pretendia pedir. Podia sentir as palavras rudes se armando em sua mente, logo atrás da boca. E então a mulher magra, coriácea, veio até a porta e olhou-o e dava para ver choque e reconhecimento e medo em seus olhos enquanto pensava Ela me conhece. Ela ficou sabendo também ouviu a própria boca falar com toda a calma: ‘Pode me dizer que dia é hoje? Só quero saber que dia é hoje’”

“Comeu algo de uma tigela invisível, com dedos invisíveis: comida invisível. Não se preocupou com o que seria. Nem soube que havia imaginado ou provado até a mandíbula parar subitamente no meio da mastigação e o pensamento voar para vintecinco anos antes na rua, para além de todas as esquinas imperceptíveis de amargas derrotas e mais amargas vitórias, e oito quilômetros além de uma esquina onde costumava esperar nos terríveis primeiros tempos de amor, por alguém cujo nome esquecera; oito quilômetros ainda mais além ele foi Saberei num minuto. Comi isso antes, em algum lugar. Num minuto saberei memória conectando sabendo eu vejo eu vejo eu mais do que vejo ouço eu ouço eu vejo minha cabeça curvar eu ouço a voz dogmática monótona que acho que jamais deixará de continuar e continuar para sempre e espiando eu vejo o projétil indomável a barba rente limpa eles também curvados e eu pensando Como ele pode estar tão sem fome e eu sentindo minha boca e língua gotejando o sal quente da espera meus olhos provando o vapor quente do prato ‘É ervilha’, disse em voz alta. ‘Santo Deus. Ervilhas silvestres cozidas com melaço.’”

“Na densa obscuridade carregada de perfume demulherrrosada atrás da cortina ele se acocorava, espumandorrosa, auscultando suas entranhas, esperando com atônito fatalismo o que estava para lhe acontecer. Então aconteceu. Ele disse para si mesmo com total e passiva rendição: ‘Bom, aqui estou’. Quando a cortina foi aberta ele não olhou para cima. Quando mãos o arrastaram violentamente de seu vômito, não resistiu. Pendia flácido das mãos, olhando com uma idiotia de olhos vidrados e queixo caído para um rosto não mais rosa e branco suave, emoldurado agora por cabelos selvagens e desgrenhados cujas tranças acetinadas antes o faziam pensar em doces. ‘Seu ratinho!’, sibilou a voz fina, enfurecida; ‘seu ratinho! Me espionando! Seu negrinho maldito!’”

“Ele correu diretamente para a cozinha e para a porta, já atirando, quase antes de ter podido ver a mesa virada e apoiada de lado no canto do recinto, e as mãos reluzentes e cintilantes do homem agachado atrás dela apoiadas na borda superior. Grimm esvaziou a câmara da automática na mesa. Mais tarde alguém cobriu todos os cinco tiros com um lenço dobrado (…). Quando os outros chegaram à cozinha, viram a mesa agora afastada para o lado e Grimm inclinado sobre o corpo. Quando se aproximaram para ver o que ele pretendia, viram que o homem ainda não estava morto, e quando perceberam o que Grimm estava fazendo um dos homens soltou um grito abafado e cambaleou para trás até a parede e começou a vomitar. Então Grimm também saltou para trás, atirando para trás a ensanguentada faca de açougueiro. ‘Agora você vai deixar mulheres brancas em paz, mesmo no inferno’, disse.”

“Então lhe parece que uma maldita torrente final dentro dele irrompe e se precipita para longe. Ele parece observá-la, sentindo perder contato com a terra, cada vez mais leve, esvaziando, flutuando. ‘Estou morrendo’, pensa. ‘Devia rezar. Devia tentar rezar,’ Mas não o faz. Não tenta. ‘Com todo o ar, todo o céu, cheio dos gritos perdidos e ignorados de todos os seres que já viveram, lamentando-se ainda como crianças perdidas entre as frias e terríveis estrelas… Eu queria tão pouco. Pedi tão pouco. Pareceria que…’ A roda segue rodando. Gira agora, diminuindo, sem progresso, como se girada por aquela torrente final que irrompera dele, deixando seu corpo vazio e mais leve que uma folha de árvore esquecida e ainda mais trivial que destroços de um naufrágio jazendo gastos e imóveis sobre o parapeito da janela que não tem solidez sob mãos que não têm peso; de modo que pode ser agora Agora É como se eles tivessem esperado até ele poder encontrar alguma coisa para palpitar, para serem reafirmados em triunfo e desejo, para este último resto de honra e orgulho e vida. Ele ouve acima do seu coração o estrondo crescer, múltiplo, retumbante. Como um longo suspiro de vento nas árvores ele começa, então surgem de repente, acompanhados agora por uma nuvem de poeira espectral. Passam em disparada, curvados para frente sobre as selas, brandindo as armas, embaixo de fitas agitadas de lanças inclinadas e impetuosas; com alvoroço e uma gritaria inaudível passam como uma onda cuja crista é recortada pelas cabeças selvagens de cavalos e os braços brandidos por homens como a cratera de um mundo em explosão.”

Gelo, poeira e um amigo

Conto de Lucia Berlin em Manual da Faxineira (Companhia das Letras, 532 páginas, tradução de Sonia Moreira):

“Quando fresco, parece caviar, faz um barulho de cacos de vidro, de alguém mordendo gelo.

Eu mordia gelo quando a limonada acabava, balançando com a minha avó no balanço da varanda. Ficávamos olhando lá para baixo, para o grupo de presidiários acorrentados que estava pavimentando a Upson Street. Um capataz derramava o macadame; os prisioneiros o calcavam com batidas fortes e ritmadas. As correntes retiniam; o macadame fazia barulho de aplausos.

Nós três dizíamos essa palavra com frequência. Minha mãe porque odiava o lugar onde morávamos, sujo e miserável, e agora pelo menos teríamos uma rua de macadame. Minha avó apenas porque queria muito que as coisas ficassem limpas – o macadame iria segurar a poeira. A poeira vermelha texana que o vento soprava para dentro de casa com resíduos cinza da fundição, formando dunas no piso encerado do hall, na mesa de mogno.

Eu dizia macadame em voz alta, para mim mesma, porque parecia um nome para um amigo.”

Fim de semana

Um disco – No Home of the Mind, Bing and Ruth.

Um filme simpático – Paterson, Jim Jarmusch.

Outro – O Cidadão Ilustre, Mariano Cohn e Gastón Duprat.

Uma série de depoimentos – Como a Guerra dos Seis Dias mudou a religião (aqui).

Uma série de fotos – Nazistas nos EUA, anos 30 (aqui).

Egopress

– Nesta quarta, 7/6, às 10h30, estarei numa das mesas da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Infos sobre a programação aqui.

– Um conto meu foi publicado na revista croata Knjizevna Smotra, que dedicou seu número mais recente à literatura brasileira. A organização da edição e tradução dos textos é de Tanja Tarbuk.

Shoah na Literatura, dissertação de mestrado de Mônica Klen de Azevedo sobre o narrador de Diário da Queda e a “memória traumática na ficção brasileira contemporânea”, saiu em livro pela Editora Prismas.

– Dois romances foram publicados com orelha e posfácio meus, respectivamente: A Cena Interior, de Marcel Cohen (Ed 34), e o clássico Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár (Companhia das Letras).

Fim de semana

Uma releitura – Luz em Agosto, William Faulkner (Cosac Naify, 440 págs.).

Outra – William Faulkner na Paris Review (aqui).

Um artigo – JM Coetzee e a religião (aqui).

Um filme – David Brent: Life on The Road, Ricky Gervais.

Uma nova temporada – Twin Peaks.

A via expressa da ficção

Yuval Noah Harari em Sapiens (L&PM, 459 págs., tradução de Janaína Marcantonio):

“A característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem (…). Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos.

Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?

A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente (…). Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida, e apenas com parentes próximos. Lobos e chimpanzés cooperam de forma muito mais versátil que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente (…). Dois católicos que nunca se cruzaram podem, no entanto, lutar juntos em uma cruzada ou levantar fundos para construir um hospital porque ambos acreditam que Deus encarnou em um corpo humano e foi crucificado para redimir nossos pecados (…). Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia. (…). Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos. As pessoas entendem facilmente que os ‘primitivos’ consolidam sua ordem social acreditando em deuses e espíritos se reunindo a cada lua cheia para dançar juntos em volta da fogueira. Mas não conseguimos avaliar que nossas instituições modernas funcionam exatamente sobre a mesma base (…).

Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se esses mitos – contando-se histórias diferentes (…). Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética.”

Fim de semana

Um documentário – Testemunha 4, Marcelo Grabowsky.

Outro – Laerte-se, Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum.

Um livro simpático – Romancista Como Vocação, Haruki Murakami (Alfaguara, 166 págs.).

Uma série ruim, mas boa – Designated Survivor.

Uma ruim e ruim – Billions

Fim de semana

Um livro – Manual da Faxineira, Lucia Berlin (Companhia das Letras, 536 págs.).

Um livro meio datado – A Segunda Profissão Mais Antiga do Mundo, Paulo Francis (Três Estrelas, 408 págs.).

Uma exposição datada – Yoko Ono no Tomie Ohtake.

Um disco – Slowdive, Slowdive.

Um filme médio – Stefan Zweig: Adeus à Europa, Maria Schrader.

Fim de semana

Um romance – Noite Dentro da Noite, Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 464 págs.).

Um perfil – Thomas Pynchon por Natália Portinari na Piauí.

Um artigo – Albert Speer Jr. e a Copa do Catar (aqui).

Uma exposição em SP – A Gentil Carioca Jaqueline Martins.

Um filme – Animais Noturnos, Tom Ford.

Uma animação – Anomalisa, Charlie Kaufman.

Fim de semana

Um disco – Stereoscope, Christina Vantzou.

Um filme – Vermelho Russo, Charly Braun.

Um filme médio – The Founder, John Lee Hancock.

Um livro – A Idade Viril, Michel Leiris (Cosac Naify, 208 págs.).

Um ensaio – Ben Lerner sobre poesia na Serrote.

Fim de semana

Um filme – Toni Erdmann, Maren Ade.

Outro – Miss Sloane, John Madden.

Um documentário – Era o Hotel Cambridge, Eliane Caffé.

Uma série média – OJ.

Outra – 13 Reasons Why.

Um livro – Meu Menino Vadio, Luiz Fernando Vianna (Intrínseca, 208 págs.).

Egopress

O Tribunal da Quinta-Feira teve os direitos vendidos para a Noruega (Ed. Gyldendal) e Holanda (Ed. Ambos Anthos). Mais sobre o livro: https://goo.gl/wEja3k

A Maçã Envenenada, que acaba de sair na França (Buchet-Chastel), sairá em junho no Reino Unido (Harvill-Secker).

Diário da Queda está na lista dos 10 livros indicados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul para o seu vestibular: https://goo.gl/L22DMr

– Um conto meu foi publicado no novo número da edição finlandesa da revista Granta.

– Nesta semana estarei em dois eventos em Porto Alegre: no Café Literário da Psicanalítica, na Saraiva do Shopping Moinhos, 11/4, às 19h30, e com os alunos de Criação Literária da PUC, no Delfos/prédio da Biblioteca (12/4, 14h). Até o fim do semestre, também estarei na Hebraica/SP (29/4), em Vitória/ES (19/5) e na Feira de Ribeirão Preto (7/6).

Fim de semana

Um livro – Sapiens, Yoval Noah Harari (L&PM, 521 págs.).

Outro – Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis (Boitempo, 244 págs.).

Um filme – Negação, Mick Jackson.

Outro – Hell or High Water, David Mackenzie.

Um documentário – I’m Not Your Negro, Raoul Peck.

Um disco – Goldberg Variations, Beatrice Rana.

Links

– O futuro sombrio da manipulação de notícias: https://goo.gl/mt3WHI

– Fake News ao longo da história, por Robert Darnton: https://goo.gl/CVLCqI

– O mercado de Fake News no Brasil, por Fabio Victor: https://goo.gl/RzXyHC

– Artistas, arquitetos e direitos humanos na construção de museus nos Emirados Árabes: https://goo.gl/1Mv70b

– Alejandro Chacoff sobre Reagan e Trump (e filosofia política, e infância nos EUA dos 1980): https://goo.gl/ZCyxmc

– O que alguns integrantes do ISIS acham de Trump: https://goo.gl/G6taSW

– Sobre decidir escrever ficção numa língua que não é a sua: https://goo.gl/ZBYyMU

– Utopias ontem e hoje: https://goo.gl/kgeyFW

– O passado e o futuro do PCC: https://goo.gl/mV40Bg

– Nate Silver e a impossibilidade de prever o imprevisível: https://goo.gl/mV40Bg

– 4h de podcast sobre um movimento messiânico em Munster, 1534: https://goo.gl/btTb9K

– Ideologia e cálculo na ascensão de Putin na Rússia e no Ocidente: https://goo.gl/zKgEXL

– Lenin e a literatura russa: https://goo.gl/aQx3Pv

– William Buckley Jr entrevista Carlos Lacerda, 1967: https://goo.gl/H5bI9h

– 200 discos clássicos (ou quase) da música brasileira para ouvir online: https://goo.gl/ExEEj2

Os intelectuais e a pós-verdade, anos 1920-1930

Ainda Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (ver post anterior), que foi publicado em 1951. O termo ralé é usado no livro para definir os ‘refugos’ de todas as classes sociais que não acreditavam num modelo de democracia representativa posterior à Primeira Guerra:

“É desconcertante a atração que os movimentos totalitários exerceram sobre a elite, enquanto e onde não houvessem tomado o poder, porque as doutrinas patentemente vulgares, arbitrárias e dogmáticas do totalitarismo são mais visíveis para o espectador que está de fora. Essas doutrinas discrepavam tanto dos padrões intelectuais, culturais e morais geralmente aceitos que se podia concluir que somente um defeito básico, inerente do caráter do intelectual (…), explicava o prazer com que a elite aceitava as ‘ideias’ da ralé. O que os porta-vozes do humanismo e do liberalismo geralmente esquecem, no seu amargo desapontamento e no seu desconhecimento das experiências mais gerais da época, é que, numa atmosfera em que todos os valores e proposições tradicionais haviam se evaporado – e no século XIX as ideologias se haviam refutado umas às outras e esgotado o seu apelo vital –, era de certa forma mais fácil aceitar proposições patentemente absurdas do que as antigas verdades que haviam virado banalidades, exatamente porque não se esperava que ninguém levasse a sério os absurdos. A vulgaridade, com seu cínico repúdio dos padrões respeitados e das teorias aceitas, trazia em si um franco reconhecimento do que havia de pior e um desprezo por toda simulação que facilmente passava por bravura e novo estilo de vida. No crescente triunfo das atitudes e convicções da ralé – que não eram mais que as atitudes e convicções da burguesia despidas de fingimento – aqueles que tradicionalmente odiavam a burguesia e tinham voluntariamente abandonado a sociedade respeitável viam apenas a falta de hipocrisia e de respeitabilidade, não o seu conteúdo.

Desde que a burguesia afirmava ser a guardiã das tradições ocidentais e confundia todas as questões morais exibindo em público virtudes que não só não incorporava na vida privada e nos negócios, mas que realmente desprezava, parecia revolucionário admitir a crueldade, o descaso pelos valores humanos e a amoralidade geral, porque isso pelo menos destruía a duplicidade sobre a qual a sociedade existente parecia repousar. Como era tentador assumir atitudes extremas na meia-luz hipócrita dos duplos padrões de moral, colocar publicamente no rosto a máscara da crueldade quando todos fingiam ser bondosos e ostentar a maldade num mundo que nem sequer era de maldade, mas de mesquinhez! A elite intelectual dos anos 20, que pouco sabia da antiga relação entre a ralé e a burguesia, estava convencida de que o velho jogo de épater le bourgeois podia ser jogado com perfeição, se o primeiro lance fosse chocar a sociedade com a caricatura irônica da sua própria conduta.

Naquela época, ninguém podia imaginar que a verdadeira vítima dessa ironia seria a elite e não a burguesia. A avant-garde ignorava que estava investindo não contra paredes, mas contra portas abertas; o sucesso unânime desmentiria a sua pretensão de ser uma minoria revolucionária, e demonstraria que ela buscava apenas exprimir um novo espírito de massa, que era o espírito do seu tempo. A esse respeito, foi particularmente significativa a acolhida que a Ópera dos Três Vinténs de Brecht teve na Alemanha de antes de Hitler. A peça mostrava bandidos como respeitáveis negociantes e respeitáveis negociantes como bandidos. A ironia não atingiu o alvo, pois os respeitáveis negociantes da plateia enxergaram naquilo uma visão profunda das coisas do mundo, e a ralé tomou a peça como a aprovação artística do banditismo. O tema musical da peça, Antes vem a comida, depois vem a moral, recebeu o aplauso delirante de todos, embora de cada um por motivos diferentes. A ralé aplaudiu porque levou a sério a afirmação; a burguesia aplaudiu porque fora lograda durante tanto tempo por sua própria hipocrisia que se cansara do esforço e via profunda sabedoria na expressão da banalidade de sua vida; a elite aplaudia porque desmascarar a hipocrisia era um elevado e maravilhoso divertimento. O efeito da obra foi exatamente o oposto do que Brecht pretendia. A burguesia já não se chocava com coisa alguma; acolhia com prazer a denúncia da sua filosofia, cuja popularidade provava que sempre estivera certa, de sorte que o único resultado político da ‘revolução’ de Brecht foi encorajar todo o mundo a arrancar a máscara incômoda da hipocrisia e aceitar abertamente os padrões da ralé.

Cerca de dez anos mais tarde, na França, o Bagatelles pour um massacre, no qual Céline propunha que se massacrassem todos os judeus, provocou reação igualmente ambígua. André Gide expressou publicamente o seu deleite nas páginas da Nouvelle Revue Française, naturalmente não porque quisesse matar os judeus da França, mas porque exultava com a brutal confissão desse desejo e com a fascinante contradição entre a grosseria de Céline e a polidez hipócrita que cercava a questão judaica em todos os círculos respeitáveis. O desejo da elite de desmascarar a hipocrisia era tão irresistível que nem mesmo a perseguição muito real que Hitler promoveu contra os judeus chegou a prejudicar essa exultação – e a perseguição já estava em pleno andamento quando Céline escreveu o livro. A aversão contra o filo-semitismo dos liberais tinha muito mais a ver com essa reação do que o ódio aos judeus. O fato notável de que as conhecidas opiniões de Hitler e Stálin sobre arte, e a perseguição que ambos promoveram contra os artistas modernos, nunca eliminaram a atração que os movimentos totalitários exerciam sobre os artistas da avant-garde pode ser explicado por um estado de espírito semelhante – o que demonstra a falta de senso de realidade da elite e o seu pervertido desprendimento, muito afins do mundo fictício em que viviam e da falta de interesses das massas por si mesmas. A grande oportunidade dos movimentos totalitários, e o motivo pelo qual uma aliança temporária entre a elite intelectual e a ralé pôde ocorrer, foi que, de certo modo elementar e indistinto, os seus problemas se tornavam os mesmos e prefiguravam os problemas e a mentalidade das massas.”

Ideologia e terror

Trechos de Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs., tradução de Roberto Raposo):

– “As ideologias pretendem conhecer os mistérios de todo o processo histórico – os segredos do passado, as complexidade do presente, as incertezas do futuro – em virtude da lógica inerente de suas respectivas ideias. (…) A palavra ‘raça’ no racismo não significa qualquer curiosidade genuína acerca das raças humanas como campo de exploração científica, mas é a ‘ideia’ através da qual o movimento da história é explicado como um único processo coerente.”

– “O único movimento possível no terreno da lógica é o processo de dedução a partir de uma premissa. Nas mãos de uma ideologia, a lógica dialética, com o seu processo de ir da tese, através da antítese, para a síntese, que por sua vez se torna a tese do próximo movimento dialético, não difere em princípio; a primeira tese passa a ser a premissa, e a sua vantagem para a explicação ideológica é que esse expediente dialético pode fazer desaparecer as contradições factuais, explicando-as como estágios de um só movimento coerente e idêntico. Assim que se aplica a uma ideia a lógica como movimento de pensamento – e não como necessário controle do ato de pensar – essa ideia se transforma em premissa. As explicações ideológicas do mundo realizaram essa operação muito antes que ela se tornasse tão útil para o raciocínio totalitário.”

– “As ideologias do Século XIX não constituem por si mesmas o totalitarismo. Embora o racismo e o comunismo tenham se tornado as ideologias decisivas do Século XX, não eram, a princípio, ‘mais totalitárias’ do que as outras; isso aconteceu porque os elementos da experiência nos quais originalmente se baseavam – a luta entre as raças pelo domínio do mundo, e a luta entre as classes pelo poder político nos respectivos países – vieram a ser politicamente mais importantes que os das outras ideologias. Nesse sentido, a vitória ideológica do racismo e do comunismo sobre todos os outros ismos já estava definida antes que os movimentos totalitários se apoderassem precisamente dessas ideologias.”

– “Sob a crença nazista em leis raciais como expressão da lei da natureza, está a ideia de Darwin do homem como produto de uma evolução natural que não termina necessariamente na espécie atual de seres humanos, da mesma forma como, sob a crença bolchevista numa luta de classes como expressão da lei da história, está a noção de Marx da sociedade como produto de um gigantesco movimento histórico que se dirige, segundo a sua própria lei de dinâmica, para o fim dos tempos históricos, quando então se extinguirá a si mesmo (…). A diferença entre a atitude histórica de Marx e a atitude naturalista de Darwin já foi apontada muitas vezes, quase sempre, com justiça, a favor de Marx. Isso nos leva a esquecer o profundo e positivo interesse de Marx pelas teorias de Darwin; para Engels, o maior cumprimento à obra erudita de Marx era chama-lo de ‘Darwin da história’. Se considerarmos não a obra propriamente dita, mas as filosofias básicas de ambas, verificaremos que, afinal, o movimento da história e o movimento da natureza são um só. O fato de Darwin haver introduzido o conceito de evolução na natureza, sua insistência em que, pelo menos no terreno da biologia, o movimento natural não é circular, mas unilinear, numa direção que progride infinitamente, significa de fato que a natureza está, por assim dizer, sendo assimilada à história, que a vida natural deve ser vista como histórica. A lei ‘natural’ da sobrevivência dos mais aptos é tão histórica – e pôde ser usada como tal pelo racismo – quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista. Por outro lado, a luta de classes de Marx como força motriz da história é apenas a expressão externa do desenvolvimento de forças produtivas que, por sua vez, emanam da ‘energia trabalho’ dos homens. O trabalho, segundo Marx, não é uma força histórica, mas natural-biológica – produzida pelo ‘metabolismo [do homem] na natureza, através do qual ele conserva sua vida individual e reproduz a espécie’”

– “Engels viu com muita clareza a afinidade entre as convicções básicas dos dois homens [Marx e Darwin] porque compreendia o papel decisivo que o conceito de evolução desempenhava nas duas teorias. A tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do Século XIX constituiu na recusa de encarar qualquer coisa ‘como é’ e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior. Que a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou história tinha importância relativamente secundária. Nessas ideologias, o próprio termo ‘lei’ mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e movimentos humanos, para ser expressão do próprio movimento.”

– “A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada quando não se pudessem encontrar novas categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da história que, numa luta de classes, certas classes ‘fenecem’, a própria história humana chegaria ao fim se não se formassem novas classes que, por sua vez, pudessem ‘fenecer’ nas mãos dos governantes totalitários. Em outras palavras, a lei de matar, pela qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio.”

– “O terror é a realização da lei do movimento. O seu principal objetivo é tornar possível à força da natureza ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Como tal, o terror procura ‘estabilizar’ os homens a fim de liberar as forças da natureza ou da história. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror, e não pode permitir que qualquer ação livre, de oposição ou de simpatia, interfira com a eliminação do ‘inimigo objetivo’ da História ou da Natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios; ‘culpado’ é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico que já emitiu julgamento quanto às ‘raças inferiores’, quando a quem é ‘indigno de viver’, quanto a ‘classes agonizantes e povos decadentes’. O terror manda cumprir esses julgamentos, mas no seu tribunal todos os interessados são subjetivamente inocentes: os assassinados porque nada fizeram contra o regime, e os assassinos porque realmente não assassinaram, mas executaram uma sentença de morte pronunciada por um tribunal superior. Os próprios governantes não afirmam serem justos ou sábios, mas apenas executores de leis históricas ou naturais; não aplicam leis, mas executam um movimento segundo a sua lógica inerente. O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana, seja a natureza ou a história.”

O Tribunal da Quinta-Feira – entrevistas, matérias, críticas

– Entrevista ao G1, por Luciano Trigo: http://goo.gl/u0npyw

– Entrevista à Brasileiros, por Daniel Benevides: https://goo.gl/7QQUs6

– Entrevista ao El País, por Camila Moraes: http://goo.gl/qBmtJl

– Entrevista ao Globo, por Emiliano Urbim: http://goo.gl/VilUjj

– Entrevista ao Estadão, por Guilherme Sobota: http://goo.gl/GhZVUa

– Entrevista à Bravo, por Almir de Freitas: http://goo.gl/xGI0hm

– Entrevista à Zero Hora, por Alexandre Lucchesi: http://goo.gl/LyGHdr

– Entrevista à Zero Hora (Caderno DOC), por Carlos André Moreira: https://goo.gl/FRnt3b

– Entrevista ao Estado de Minas, por Carlos Marcelo: http://goo.gl/cbOhAb

– Entrevista ao O Povo, por Henrique Araújo: http://goo.gl/3Fx0FX

– Entrevista ao Correiro Braziliense, por Nahima Maciel: http://goo.gl/OJdufW

– Entrevista à revista da OAB/CAASP, por Paulo Henrique Arantes: https://goo.gl/iJe2SP

– Entrevista ao Metrópolis, por Cunha Jr. (vídeo): http://goo.gl/u0l8cH

– Entrevista ao Arte 1, por Sheyla Miranda (vídeo): http://goo.gl/zziRzF

– Entrevista ao Clube do Livro/Veja, por Jerônimo Teixeira (vídeo): http://goo.gl/RIOjG6

– Entrevista à Globo News, por Edney Silvestre (vídeo): https://goo.gl/QVTwTt

– Entrevista à CBN, por Tania Morales (áudio): https://goo.gl/OvV0OW

– Entrevista à Rádio Nacional, por Paulliny Gualberto Tort (áudio): https://goo.gl/u5kYpf

– Entrevista à FM Cultura, por Alexandre Machado (áudio): http://goo.gl/8Q547v

– Resenha/comentário no Aprova Lendo, por Guilherme Shibata (vídeo): http://goo.gl/AbLVvM

– Resenha/comentário no canal Livrada, por Yuri Ra (vídeo): https://goo.gl/y5FSWj

– Resenha/comentário no Literatorios, por Roberta Carmona (vídeo): http://goo.gl/ABG7Lk

– Resenha/comentário no Agenda (Rede Minas), por Leticia Marad (vídeo): http://goo.gl/J85GAi

– Resenha/comentário no Cabe na Estante, por Ana Emilia (vídeo): https://goo.gl/ISWJNa

– Resenha/comentário no Redoma de Livros, por Clarissa Wolf (vídeo): https://goo.gl/mPL6H7

– Resenha/comentário no Livro Minuto, por André Aguiar (vídeo):  https://goo.gl/w0EFoK

–  Comentário na Eldorado FM, por Igor Muller (áudio): https://goo.gl/kaWkBY

– Crítica no Livros Abertos, por Camila Von Holdefer: http://goo.gl/2tfvQB

– Crítica no Posfácio, por Isadora Sinay: http://goo.gl/MQktUj

– Crítica no Confrariando, por Guilherme Nicesio: https://goo.gl/zcvpGa

– Crítica no Medium, por Wibsson: https://goo.gl/XdoDMR

– Crítica no Lombada Quebrada, por Zeno Queiroz: http://goo.gl/3dAhmu

– Crítica no Jornal do Commercio, por Diogo Guedes: http://goo.gl/v4lNJm

– Crítica na Escotilha, por Eder Alex: http://bit.ly/2gURbsl

– Crítica no Imparcial, por Zema Ribeiro: https://goo.gl/ZJdNQZ)

– Crítica no Resenha de Bolso: http://goo.gl/934Ukt

– Crítica no Meninas que Leem Livros, por Manuh Hitz: http://goo.gl/VPSiZ2

– Crítica no Cine Caboclo, por Bruno Garavello: https://goo.gl/VywDjP

– Crítica no Ler Para Divertir, por Rodolfo Euflazino: https://goo.gl/CAO6c0

– Crítica no Trendr, por Lucas Borges: https://goo.gl/pujALq

– Crítica no Dose Literária, por Maria Valéria: https://goo.gl/V3eWCp

– Crítica no Cassionei Lê e Escreve, por Cassionei Petry: https://goo.gl/flJxCD

– Crítica no Achados e Lidos, por Tainara Machado: https://goo.gl/ma7u02

– Crítica no Torpor Niilista, por Maria Valéria: https://goo.gl/IOCXhI

– Crítica no Beltrano, por André Nigri: https://goo.gl/Rs2RWv

– Crítica no Blog do Milton Ribeiro: https://goo.gl/brfl4G

– Crítica no Leitor Insuportável: https://goo.gl/H4RAIK

– Crítica no Our Brave New Blog, por Vitor Heliângelo: https://goo.gl/HdT8Kk

– Crítica no peregrina Cultural: https://goo.gl/DHYJkI

– Crítica na Folha de S.Paulo, por Francesca Angiollilo: http://goo.gl/i2VDZJ

– Crítica no Valor Econômico, por Cadão Volpato (para assinantes): https://goo.gl/RPD2Di

– Crítica na Veja, por Jeronimo Teixeira (impresso).

– Texto na Zero Hora, por Claudia Laitano: http://goo.gl/AeGkuA

– Texto na Zero Hora, por Luis Augusto Fischer: https://goo.gl/9l9ypd

– Texto na Zero Hora, por Cintia Moscovich: https://goo.gl/prDwXr

– Texto no Extra, por Felipe Pena: http://goo.gl/MLCGUF

– Texto no Sul 21, por Marcelo Carneiro da Cunha: http://goo.gl/qJdQYS

– Texto no O Dia, por Nelson Vasconcelos: http://goo.gl/Saamd2

– Texto na Folha de Londrina, por Marcos Losnak: http://goo.gl/2TFge3

– Texto no Segunda Opinião, por Osvaldo Euclides: https://goo.gl/XEB51y

– Texto no As Ordens da Desordem, por Breno Kummel: http://goo.gl/DsyPCo

– Texto no Extraliterário (sobre o Clube do Livro da Livraria da Vila), por Jéssica Carvalho: https://goo.gl/nH1KVD

– Texto no Valor Econômico, por Tatiana Salem Levy (para assinantes): http://goo.gl/jkj5or

– Textos que citam o livro: Mario Sergio Conti sobre livros políticos na Folha de S.Paulo (http://goo.gl/THPbJ8), Sérgio Sant’anna sobre literatura brasileira no Estadão (http://goo.gl/YCmvQR), Camila Von Holdefer sobre humor no IMS (http://goo.gl/a67zhw), Luciano Alabarse sobre 2016 na Zero Hora (http://goo.gl/tdQMBl), Equipe Segundo Caderno/ZH sobre 2016 (http://goo.gl/bM4VyR), Tati Bernardi sobre livros x séries na Folha de S.Paulo (http://goo.gl/PNX5ES), Leyla Perrone-Moisés sobre literatura contemporânea na Folha de S.Paulo (entrevista, https://goo.gl/W2dTD6), André Miranda sobre arte e politicamente correto no Globo (https://goo.gl/sRH9Xw), Jennifer Ann Thomas sobre haters virtuais na Veja (impresso).

– Listas de melhores de 2016: Zero Hora (http://goo.gl/TXu2Fv), Livros Abertos (http://goo.gl/6l7ENZ), Vip (http://goo.gl/ojAIFL), Escotilha (http://goo.gl/xJmwq3), Espanador (http://goo.gl/L2QQwR) revista Bula (http://goo.gl/DpWb2w), Rizzenhas (http://goo.gl/ep9D9E), Mondo Livro (http://goo.gl/KUdB9N), Dom Total (http://goo.gl/xrAbCL), Diário da Região (http://goo.gl/HXubWi), Blibliotecários sem Fronteiras (http://goo.gl/X9AHM3), Monte de Leituras (http://goo.gl/BnW826), Viver Bem (http://goo.gl/6YgDR7), Meninas que Leem Livros (http://goo.gl/aE8GuB), Scream&Yell (https://goo.gl/or0cp7).

– Resenhas e avaliações no Goodreads (http://goo.gl/kk5Iu3) e Skoob (http://goo.gl/KPxSXx). Trechos de alguns dos links acima e de comentários nas redes sociais: http://goo.gl/KJe1pw. Trecho do livro: http://goo.gl/iNlJQP

O Tribunal da Quinta-Feira

Orelha do meu novo romance, que chega às livrarias em 11 de novembro. Farei um lançamento dia 21, às 19h30, na Livraria da Vila da Lorena-SP.

Um publicitário conta segredos por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que ajudam a reconstituir uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as envia para meia dúzia de destinatários, tem início o escândalo que está no centro deste romance explosivo.

O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da aids. Mas não estamos diante de uma mera “história de doença”. Transposta dos anos 1980, quando causou um genocídio, para os tempos atuais, em que virou uma condição crônica controlada por medicamentos, a antiga “peste gay” segue como motor simbólico de implicações culturais e morais — e continua assunto tabu no humor de uma época de ideias políticas radicalizadas.

Autor com pleno domínio sobre sua linguagem e temas, Michel Laub percorre com coragem os delicados caminhos de O tribunal da quinta-feira. Numa dicção que brinca com jargões e clichês das mais diversas áreas — da medicina à pornografia, da autoajuda ao feminismo —, tem-se o aprimoramento da reflexão irônica e emocionada de seus dois livros anteriores, Diário da queda (2011) e A maçã envenenada (2013). O que está em jogo, mais uma vez, são os limites do que entendemos como tolerância. Para chegarmos a eles, contudo, é preciso ir além do que seria uma literatura palatável ou “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência. E também de empatia, desejo e liberdade.