Michel Laub

Fim de semana + quarentena (23)

Um perfil – Alan Dershowitz por Connie Bruck (aqui)

Um ensaio fotográfico – Glastonbury por Martin Parr (aqui).

Um livrinho – As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Carlo Cipolla (Planeta, 96 págs.)

Um curta – Luis Humberto: o Olhar Possível, Mariana Costa e Rafael Lobo.

Um documentário – Nomad, Werner Herzog.

Egopress

– Nesta sexta, 3/7, às 18h, participo de uma das mesas do Festival de Finos Filmes, no FB do MIS/SP, com Christiane Jatahy, Silvana Bahia e Rita Mattar. Programação completa: www.shorturl.at/qzJUX

– Vídeo do debate que participei no fórum sobre imagem digital e memória no site do IMS: www.shorturl.at/benGN

– Texto que publiquei sobre a quarentena, o Brasil atual e a literatura no site da Fundação Passa Porta, de Bruxelas. Ao final, em vídeo, um debate do qual participei durante uma residência na Fundação, em outubro/novembro de 2018.  www.shorturl.at/qtAU9

Cem dias entre os tubarões e o tédio

Numa entrevista ao podcast da revista Quatro Cinco Um, que foi ao ar em abril, Amyr Klink relata a Paulo Werneck um experimento que fez durante a quarentena: tentar simular em terra a atmosfera que viveu ao cruzar o Oceano Atlântico a remo, em 1984. Com o velho barco da travessia pendurado numa estrutura geodésica no quintal de casa, em Paraty, o navegador achou que seria divertido lembrar por uma noite do balanço físico e da sensação de confinamento naquela “célula habitável” de 88 cm de altura, menos de um metro de largura e 2,20m de comprimento na qual dormiu, comeu e trabalhou por cem dias.

“Quase fiquei louco lá dentro”, diz Amyr, que desceu do barco em menos de seis horas. Não por claustrofobia ou solidão, problemas que ele evidentemente não tem, e sim pela angústia de estar “parado”, conceito familiar a todos os que atravessamos esses também cem dias em que o mundo deixou de ter novidades – ou, pior, nos sufoca com um excesso de notícias trágicas cujo conjunto causa um efeito de anestesia, ou então uma ansiedade tão difusa que não encontramos chão para enfrentá-la.

Na travessia de 1984, ao contrário, os eventos que se sucederam – tempestades, perrengues com equipamentos, sprays de baleia, arco-íris de lua – apontavam para um sentido narrativo no tempo e no espaço. “É mais fácil enfrentar tubarões do que o tédio?”, pergunta Werneck. A resposta do entrevistado, que lidou bem com as aflições psicológicas durante o percurso, não deixa dúvida: “Eu sentia que estava construindo uma obra, indo para algum lugar, e essa sensação é muito gratificante”.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 26/6/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (22)

Uma entrevista – Angela Davis sobre os protestos nos EUA (aqui).

Um texto – Mark Bray sobre antifascismo e história (aqui).

Uma série – Olhos que Condenam.

Uma reprise – Malcolm X, Spike Lee.

Um documentário – Geraldinos, Renato Martins e Pedro Asbeg (aqui).

 

Fim de semana + quarentena (21)

Um documentário – Bully, Coward, Victim, Ivi Meerpol.

Uma entrevista – Ivi Meerpol sobre Roy Cohn (aqui).

Um texto – Michael Ignatieff sobre Raphael Lemkin e o genocídio (aqui).

Um disco – Consummation, Katie Von Schleicher.

Um audiolivro – Cem Dias entre o Céu e o Mar, Amyr Klink.

Fim de semana + quarentena (20)

Um livro – Falso Espelho, Jia Tolentino (Todavia, 368 págs.).

Um artigo – Paulo Pachá e Thiago Krause sobre a derrubada de estátuas (aqui).

Um filmete – Sul do Brasil, 1942 (aqui).

Um documentário sobre Black Alien – Mr. Niteroi, Ton Gadioli (aqui).

Uma entrevista sobre Renato Russo – Carlos Trilha (aqui).

Fim de semana + quarentena (19)

Uma entrevista – Deborah Danovski sobre o fim do mundo (aqui).

Outra – Silvio Almeida sobre racismo (aqui).

Um podcast – Baldwin x Faulkner, no History of Literature.

Outro – Frantz Fanon, no History of Ideas.

Um romance – As Sobras de Ontem, Marcelo Vicintin (Companhia das Letras, 214 págs.).

Fim de semana + quarentena (18)

Um ensaio de 1977 – Why look at Animals?, John Berger.

Uma reportagem – A CNN brasileira, por Fabio Victor (aqui)

Uma performance – Flaming Lips (aqui).

Um documentário sobre música – Whitney, Kevin McDonald.

Uma série sobre cinema – Five Came Back.

Vida x obra, de novo

Volto a Nelson Rodrigues para refazer a antiga pergunta sobre como lidar com artistas ambivalentes, cuja obra confirma, reflete ou desmente uma atitude política e moral condenável na vida civil. É um assunto em voga no Brasil há alguns anos, com a tendência de se tornar incontornável à medida que o governo atual escancara – se alguém ainda não havia percebido – sua natureza anti-humana.

O projeto da barbárie brasileira foi e vem sendo apoiado por artistas de todo tipo, dos conhecidos (Regina Duarte) aos obscuros (Theo Becker), dos que tiveram relevância em sua área em algum período (Roger Moreira, Roberto Alvim) aos eternos candidatos a algo mais que a nulidade (Marcio Garcia, Mario Frias). Como o futuro julgará os atos políticos de todos eles me parece claro, se ainda restar alguma decência entre nós. Como julgará seus legados como atores, músicos, diretores teatrais e assim por diante é outra história.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 29/5/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (17)

Uma coletânea – As Ideias Fora do Lugar, Roberto Schwarz (Penguin, 152 págs.).

Uma entrevista – Paulo Henriques Britto sobre Elizabeth Bishop (aqui).

Um documentário – Quincy, Rashida Jones e Alan Hicks.

Outro – Sabotage: o maestro do Canão, Ivan 13P (aqui).

Uma série de fotos – SP na pandemia, por Karime Xavier (aqui).

Fim de semana + quarentena (16)

Uma entrevista – David Arrigucci sobre Manuel Bandeira e a morte (aqui).

Um ensaio – Dara Horn sobre Auschwitz e metáforas (aqui).

Um ensaio visual – Fotos pré-corona (aqui).

Uma série – The Looming Tower.

Uma releitura – O Anjo Pornográfico, Ruy Castro (Companhia das letras, 458 págs.).

Fim de semana + quarentena (15)

Um ensaio – Adam Tooze sobre a memória errada da Segunda Guerra (aqui).

Outro – Heloisa Starling sobre Hannah Arendt (aqui).

Um minidoc – Berlim, 1959 (aqui).

Uma série de 2016 – Fleabag.

Um podcast – Noites Gregas, Claudio Moreno.

Beleza na tragédia

“Deus prefere os suicidas.” “O povo não entende o perdão e prefere o tiro.” “A opinião pública é uma doente mental.” “Como é antigo, senil e mumificado o passado recente”.

O estilo não deixa dúvidas: estamos no mundo de Nelson Rodrigues. Algo nele se comunica com o que vivemos em 2020, como costuma ocorrer com grandes obras em relação a qualquer tempo. Por isso aproveito a quarentena para reler um livro que traz beleza em sua tragédia, humor em seu desalento, num paradoxo adequado a um momento tanto de horror quanto de reflexão: A Menina Sem Estrela, a autobiografia do dramaturgo, romancista e cronista pernambucano de nascimento, carioca em sua essência.

Como muita coisa na vida de Nelson, o livro surgiu de um acaso. Em 1967, conta Ruy Castro no prefácio da edição que a Companhia das Letras lançou nos anos 1990 (há uma mais recente, da Agir), o autor foi convidado pelo jornal Correio da Manhã para escrever suas memórias numa série de crônicas. Ele tinha então 55 anos, seu romance “O Casamento” recém havia sido proibido, e o jornal onde escrevia sobre futebol – o Globo, que manteve sua coluna em paralelo à série do Correio – apoiara a censura.

Um pouco por desforra, um pouco para aumentar a renda que pagava o tratamento caro de sua filha cega – a menina do título da coletânea –, Nelson aceitou o convite e publicou 80 pequenas joias que também trazem lembranças “do futuro e de várias alucinações”. O impacto delas no leitor de agora, claro, não precisa incluir afinidades de opinião: A Menina Sem Estrela corrobora uma visão às vezes obtusa, reacionária em termos de política e de costumes, que podemos condenar sem risco de anacronismo.

Como o efeito de tudo que escreveu, no entanto, o próprio Nelson sempre foi contraditório. É como se a exuberância de seu estilo, baseado numa sucessão de hipérboles, metáforas e adjetivos passionais, encharcados de fascínio e espanto, a cada momento dissesse o contrário do seu valor de face: há um profundo amor pela falibilidade humana, pelo gesto instintivo e efêmero, no que parece apenas a nostalgia de um passado mítico (onde ainda existem a castidade, o “pudor de véspera”, o luto “desgrenhado e siciliano” de viúvas em enterros). Não há como ler Nelson Rodrigues e não ser tocado por uma sensibilidade libertária: sua fé da “alma imortal” é também uma denúncia da nossa hipocrisia cotidiana, dos pequenos e grandes despotismos que governam nossa vida na política, no trabalho, na família.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 30/4/2020. Íntegra aqui.

Fim de semana + quarentena (14)

Um podcast – Sidney Chalhoub sobre epidemias e exclusão (aqui).

Um texto – Gabrielle Hamilton sobre o fechamento de seu restaurante em NY (aqui).

Uma segunda temporada – After Life.

Um filme – Bad Education, Cory Finley.

Um filme de 1996 – City Hall, Harold Becker.

Fim de semana + quarentena (13)

Um texto – Kim Stanley Robinson sobre o corona e o futuro (aqui).

Outro – Nuno Ramos sobre o corona e a raiva (aqui).

Um romance – O que ela sussurra, Noemi Jaffe (Companhia das Letras, 160 págs.).

Um doc com umas cenas – Neville d’Almeida, Mario Abbade.

Um doc em 3 partes – Aldir Blanc, dois para cá, dois para lá (aqui).

Egopress

– Neste sábado, 25/4, às 17h, participo de uma conversa online com a Carol Bensimon no festival Na Janela, da Companhia das Letras. Mais informações e programação completa aqui.

– Na segunda, 4/5, 20h, participo de uma live sobre meus livros no Instagram do Carreira Literária.

Diário da Queda teve os direitos vendidos para a editora Pauza, da Polônia. É o 14o país no qual sai o romance, e o 11o idioma.

Diário… agora também está disponível em audiobook (todas as plataformas). A narração é minha.

– Algumas matérias com palpites meus durante a quarentena: Estadão, sobre escritores em casa, por Fernanda Boldrin (aqui); Correio Brasiliense, sobre dicas de leitura no confinamento, por Nahima Maciel (aqui); Zero Hora, sobre o Gre-Nal do Século, que inspirou O Segundo Tempo, por Rafael Diverio (aqui).

Fim de semana + quarentena (12)

Um artigo – Os experimentos psicológicos e o corona (aqui).

Um vídeo – A publicidade e o corona (aqui).

Um doc cortado – Novos Baianos, 1973 (aqui)

Uma memória – Braulio Tavares sobre Moraes Moreira (aqui).

Uma live sobre e sob o cajado de Deus – Baby Consuelo (aqui).

Fim de semana + quarentena (11)

Um disco – Fetch The Bolt Cutters, Fiona Apple.

Um ensaio – A Imaginação Pornográfica, Susan Sontag.

Um artigo – Os 150 anos do Metropolitan (aqui).

Um filme – Good Time, irmãos Safdie.

Outro – Tangerine, Sean Baker.

Fim de semana + quarentena (10)

Um artigo – Simon Schama sobre pandemia e história (aqui).

Uma resposta – Nick Cave sobre pandemia e arte (aqui)

Uma exposição – Filmes caseiros no Moma (aqui)

Uma série bem-intencionada – Nada Ortodoxa, Maria Schrader.

Um disco – The New Abnormal, Strokes.

Fim de semana + quarentena (9)

Uma entrevista – Ricardo Abramovay sobre o corona e o futuro (aqui).

Outra – Heloísa Starling sobre a gripe espanhola em BH (aqui).

Um livro difícil – Tortura, Henri Alleg (Todavia, 80 págs.).

Um documentário meio difícil – Honeyland, Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov.

Um disco – Gorecki Symphony number 3, Lisa Gerrard.

Fim de semana + quarentena (8)

Um ensaio visual – Fotógrafos durante a quarentena (aqui).

Uma releitura – A Menina sem Estrela, Nelson Rodrigues (Companhia das Letras, 280 págs.).

Um vídeo – O mundo de Nelson Rodrigues (aqui).

Um filme para ver em partes – Satantango, Béla Tarr.

Um documentário – Santiago, Itália, Nanni Moretti.

Fim de semana + quarentena (7)

Um texto – Rob Horning sobre as imagens do corona (aqui).

Outro – Marina Silva sobre sarampo e corona (aqui).

Um filme sobre um mundo novo – Stalker, Andrei Tarkovski.

Um doc sobre um mundo antigo – Uma Outra Cidade, Ugo Giorgetti (aqui).

Um podcast – Eliane Robert Moraes sobre arte e censura (aqui).

Fim de semana + quarentena (6)

Uma reprise – Gandhi, Richard Attenborough.

Outra – O Reverso da fortuna, Barbet Schroeder.

Uma música – Murder Most Foul, Bob Dylan.

Uma série sobre animais – Tiger King, Rebecca Chaiklin e Eric Goode.

Um texto sobre sobreviventes – Ginia Bellafante sobre a gripe e o Holocausto (aqui).

Fim de semana + quarentena (5)

Uma entrevista – Atila Iamarino sobre a pandemia (aqui)

Um artigo – Amanda Hess sobre celebridades e a pandemia (aqui)

Um romance – Esboço, Rachel Cusk (Todavia, 192 págs.).

Uma palestra – Sergio Augusto de Andrade sobre arte e sexo (aqui).

Uma conversa antiga dando uns descontos – Jorge Mautner e Julio Bressane (aqui).

Fim de semana + quarentena (4)

Um artigo – Como a pandemia pode terminar, por Ed Young (aqui)

Outro – As epidemias e a história brasileira, por Ian Read (aqui).

Uma releitura – Aids e suas Metáforas, Susan Sontag (Companhia das Letras, 112 págs.).

Um documentário sobre Miles Davis – The Birth of Cool, Stanley Nelson.

Um (médio) sobre Lil Peep – Everybody’s Everything, Sebastian Jones e Ramez Silyan.

Fim de semana + quarentena (3)

Um ensaio fotográfico – Cidades vazias, New York Times (aqui).

Um curso rápido e grátis – Nietzsche por Maria Lúcia Cacciola (app Casa do Saber).

Um disco de 2019 – All About Eve, PJ Harvey.

Um filme de 2019 – 1917, Sam Mendes.

Um de 1993 – And the Band Played On, Roger Spottiswoode.

Silêncio e crime

O início de uma epidemia de cólera em Morte e Veneza, de Thomas Mann (Nova Fronteira, tradução de Eloisa Ferreira Araújo Silva):

“No início de junho, os barracões de isolamento do Ospedale Civico foram lotados em sigilo. Nos dois abrigos já começava a faltar lugar, e um tráfego de uma intensidade macabra se instaurara entre o cais dos Novos Fundamentos e San Michele, a ilha-cemitério. Mas o temor de um prejuízo geral, a ponderação de que acabava de ser inaugurada a exposição de pinturas do Jardim Público e de que, caso se espalhassem a difamação e o pânico, perdas consideráveis ameaçavam os hotéis, o comércio, toda a complexa indústria do turismo, sobrepujava na cidade o amor à verdade e o respeito às convenções internacionais, levando as autoridades a persistir obstinadamente em sua política de silencio e desmentido (…). O povo estava a par de tudo isso, e a corrupção dos superiores, somada à insegurança reinante, ao estado de exceção em que a ronda da morte mergulhara a cidade (…), constituía um incentivo a impulsos tenebrosos e anti-sociais que se manifestavam sob forma de intemperança, descaramento e um recrudescimento da criminalidade.”

Fim de semana + quarentena (2)

Uma entrevista – Richard J. Evans sobre doenças e cultura (aqui).

Outra – Raull Santiago sobre o coronavírus nas favelas (aqui).

Um filme inevitável – Contágio, Steven Soderbergh.

Um livro sobre mais ou menos esse tema – Dez Drogas, Thomas Hager (Todavia, 336 págs.)

Uma releitura idem – Morte em Veneza/Tonio Kröger, Thomas Mann (Nova Fronteira, 162 págs.).

Fim de semana + quarentena (1)

Uma peça – Praça dos Heróis, Thomas Bernhard (Temporal, 121 págs.)

Uma piada – What did Jack do?, David Lynch.

Um filme melhor do que parece – Um lindo dia na Vizinhança, Marielle Heller.

Um pior do que parece – Motherless Brooklyn, Edward Norton.

Um documentário – Get me Roger Stone, Daniel DiMauro, Moran Pehme, Dylan Bank.

Delicadeza contra o horror

Existem muitas classificações possíveis para livros de ficção, não apenas de gênero (romance, conto, poesia) ou escola/tom (realismo, fantasia, sátira). A exemplo do que o crítico inglês Geoff Dyer fez em relação à fotografia, seria ótimo se alguém se dispusesse a contar a história da literatura usando critérios menos formais e históricos, digamos, submetendo estilos, épocas e contexto político das obras aos filtros idiossincráticos que qualquer leitor tem: livros de imaginação ou de esforço, de razão ou de emoção, que se entregam abertamente ou resistem a serem entendidos, e assim por diante.

Particularmente, gosto da classificação feita pelo escritor chileno Alejandro Zambra no prefácio de Léxico Familiar, romance da italiana Natalia Ginzburg (1916-1991), numa edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras (254 págs., tradução de Homero Freitas de Andrade): “Há livros que provocam em seus leitores o desejo de escrever, e outros que antes bloqueiam esse desejo”. Os da autora sempre foram do primeiro tipo, com um achado que parece estar ao alcance de todos: procurar a originalidade “na própria natureza da experiência”. “Qualquer pessoa quando vista de perto revela sua condição única”, completa Zambra. “Ou não a revela, mas não a nega: mostra sua opacidade, seu recanto impossível, a evidência de seu segredo.”

Com o relançamento de As Pequenas Virtudes, coleção de ensaios memorialísticos escritos por Natalia entre 1944 e 1962 (Companhia das Letras, 124 págs., tradução de Maurício Santana Dias), a ideia de Zambra ao mesmo tempo se confirma e é negada. Por um lado, a opção por assuntos próximos do universo da autora segue o mesmo modelo de Léxico…: aqui estão novamente as miudezas do cotidiano, as relações amorosas e de amizade, o modo como lidamos com dinheiro. Por outro, é enganoso acharmos que se chega onde Natalia chegou emulando apenas uma escrita “fácil”, “natural”, sobre o que experimentamos pessoalmente ontem e hoje.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 21/2/2020. Íntegra aqui.