Michel Laub

Egopress

– Nas próximas semanas participo de uma residência da fundação Passa Porta em Bruxelas. Farei leituras e participarei de eventos na Bélgica e em Amsterdã aproveitando o lançamento da edição holandesa do Tribunal da Quinta-Feira (Ambos/Anthos, tradução de Harrie Lemmens).

– As edições francesa de A Maçã Envenenada (Buchet/Chastel) e turca de Diário da Queda (Kafka) estão entre os finalistas da categoria Livro Publicado no Exterior do Prêmio Jabuti.

Diário da Queda, que já era leitura indicada na UFRGS, agora é também na Universidade de Santa Catarina (UCS).

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Fim de semana

Uma exposição – Mulheres na Pinacoteca.

Uma primeira temporada – Atlanta.

Um livro de contos – Sebastopol, Emilio Fraia (Alfaguara, 120 págs.).

Um de poemas – Bigorna, Yasmin Nigri (34, 116 págs.)

Uma releitura (sempre) – Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt (Companhia das Letras, 562 págs.).

Fim de semana

Um perfil – Wolfgang Tillmans por Emily Witt (aqui).

Um site – Crônica brasileira no IMS (aqui).

Um best-seller que vale – O Carrasco do Amor, Irwin D.Yalom (Harper Collins Brasil, 336 págs.).

Um documentário – Active Measures, Jack Bryan.

Um filme – O Paciente, Sergio Rezende.

Egopress

– Esta semana chega às livrarias o primeiro Anuário Todavia, que editei junto com o André Conti e a equipe da Todavia Livros. São ficções, reportagens e ensaios de mais de 40 nomes brasileiros e estrangeiros sobre os vários sentidos do termo “apocalipse”. Mais informações e vendas: https://goo.gl/JFDJfL

– Na próxima segunda, 17/9, 11h40, falo para os alunos da escola Villare, em São Caetano do Sul, sobre o Diário da Queda.

– Resenha da edição inglesa do A Maçã Envenenada no Minor Literature[s]: https://goo.gl/P5pU44. E uma do Tribunal da Quinta-Feira no Homo Literatus: https://goo.gl/XdbKWh

– Entrevista minha para a seção Inquérito do jornal Rascunho: https://goo.gl/tH3GVx.

Fim de semana

Um romance A Vida Escolar de Jesus, J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 259 págs.).

Um ensaio – Contra os Filhos, Lina Meruane (Todavia, 176 págs.).

Um filme – You Were Never Really Here, Lynne Ramsay.

Um clipe – Suspirium, Thom Yorke (aqui).

Uma exposição – Bienal.

Fim de semana

Uma exposição – Irving Penn no IMS.

Um adaptação competente – De amor e Trevas, Natalie Portman.

Um disco de 2016 – Post Pop Depression, Iggy Pop.

Um ensaio – Carol Bensimon sobre o apartamento dos avôs (aqui)

Um relançamento – Fun Home, Alison Bechdel (Todavia, 234 págs.).

Egopress

O Tribunal da Quinta-Feira teve os direitos para o cinema vendidos ao diretor Miguel Faria Jr.

– O livro também acaba de sair na Holanda, pela Ambos/Anthos, com tradução de Harrie Lemmens. Primeira resenha (segundo consta, positiva): https://goo.gl/LFdnci

– A série Viagem de Bolso, da Mira Filmes, sobre cidades que são cenários para livros brasileiros, estreia este mês no CineTVBrasil. Um dos episódios é sobre o meu romance O Segundo Tempo. A apresentação é de Reinaldo Moraes, e a direção de Lia Kulakauskas. Mais informações: https://goo.gl/3WY5fu

Fim de semana

Um livro – A Guerra: a Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil, Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias (Todavia, 344 págs.).

Um ensaio – Zadie Smith sobre Henry Taylor (aqui).

Um documentário ok – Robin Williams: Come Inside My Mind, Marina Zenovich.

Um filme simpático – England is Mine, Mark Gill.

Um disco simpático – Call the Comet, Johnny Marr.

Fim de semana

Um romance – Hoje Estarás Comigo no Paraíso, Bruno Vieira Amaral (Quetzal, 368 págs.).

Um artigo – Lendo David Foster Wallace em 2018 (aqui).

Um documentário – Como Fotografei os Yanomami, Otavio Cury.

Um documentário médio – Bergman – 100 anos, Jane Magnusson.

Uma adaptação bem média – O Som e a Fúria, James Franco.

Fim de semana

Uma releitura – Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq (Sulina, 142 págs.).

Um filme – A Morte de Stalin, Armando Iannucci.

Um filme médio – O Super Lobista, George Hickenlooper.

Um stand-up com ups and downs – Nanette.

Uma exposição – Histórias Afro-Atlânticas.

Fim de semana

Um livro – Garotas Mortas, Selva Almada (Todavia, 128 págs.).

Um conto – Writing Teacher, John Edgar Wideman (aqui).

Uma exposição – Jac Leirner, Fortes D’Aloia & Gabriel.

Outra – Powerpaola, Sala Aberta.

Um disco – Ofertório, Caetano Veloso e filhos.

Egopress

– Nesta quarta, 6/6, 8h30, falarei sobre Diário da Queda para os alunos do Instituto Rio Branco, de São Leopoldo/RS. Na sequência terei encontros nas escolas Província de São Pedro (7/6, a confirmar) e La Salles Dores (8/6), em Porto Alegre.

– Em 5/7, 19h, participo do projeto Meu Filme Preferido, com Roger Lerina, no Instituto Ling, em Porto Alegre. O tema será Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese.

– Em 17/7, 18h, falo no Clube do Livro da Biblioteca da Porto Seguro sobre O Tribunal da Quinta-Feira.

– O UOL encomendou a escritores textos sobre as copas. Fiz sobre 1958 (https://bit.ly/2J9MWaV), 1986 (https://bit.ly/2JrGY4k) e 1990 (https://bit.ly/2LZaLQr).

– Entrevista que dei para a Clarissa Wolff, da Carta Capital: https://bit.ly/2FNKW1c

– Vídeo do meu debate com Ana Paula Maia na Feira de Medellin: https://bit.ly/2Jt0AFs

Fim de semana

Um disco – Sparkle Hard, Stephen Malkmus & The Jicks.

Uma montagem – Eu Sou Essa Outra, Sesc Pinheiros.

Um filme pior que os anteriores da série – The Trip to Spain, Michael Winterbottom.

Uma HQ – Sem Volta, Charles Burns (Quadrinhos na Cia, 176 págs.).

Um artigo – Jenny Uglow e a pintura realista em Londres, Século 20 (aqui).

Cistos e borboletas

Georges Didi-Huberman em Que Emoção! Que Emoção? (Editora 34, 92 págs., tradução de Cecília Ciscato):

“Faz alguns anos, meu pai morreu. É claro que eu estava muito emocionado. Acho, porém, que essa tristeza era ainda ‘maior’ que a tristeza solitária e pessoal de perder meu pai. Na hora de ir ao necrotério ou de organizar o enterro, por exemplo, tive que tomar decisões e adotar certas atitudes, executar gestos que não diziam respeito apenas a mim mesmo. Tive, portanto, que agir em sociedade – a começar pelo meu comportamento diante do meu próprio filho, ou de minha irmã, ou dos amigos do meu pai –, a despeito de toda a solidão que houvesse em minhas emoções. (…). Esses gestos são como fósseis em movimento (…). Eles sobrevivem em nós, ainda que sejamos incapazes de observá-los em nós mesmos. Darwin sem dúvida tinha razão ao dizer que as emoções são gestos primitivos. Mas, na sua ideia de ‘primitivo’, ele via somente a natureza (daí a relação estabelecida entre os chimpanzés que grunhem e as crianças que choram). O sentido de ‘primitivo’ foi melhor entendido no âmbito das ciências humanas a partir do momento em que os etnólogos e os sociólogos falaram das emoções sob o ângulo de uma história cultural.”

“Diante dos diferentes ritos em que as emoções coletivas se manifestam – e os enterros são bons exemplos disso –, o grande etnólogo Marcel Mauss falou de uma ‘expressão obrigatória dos sentimentos’ (…) Uma emoção que se expressa segundo certas formas coletivas seria menos intensa e sincera que outra? (…) Não, responde Marcel Mauss (…). Trata-se de emoções verdadeiras, mas elas passam, elas precisam passar, por sinais corporais – gestos – reconhecíveis por todos: ‘Todas essas expressões dos sentimentos do indivíduo e do grupo – coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória – são mais do que simples manifestações, são signos de expressões inteligíveis. Numa palavra, são uma linguagem. Esses gritos são como frases e palavras. É preciso pronunciá-los, mas, se é preciso pronunciá-los, é porque todo o grupo pode entende-los (…).’ Uma emoção que não se dirija a absolutamente ninguém, uma emoção totalmente solitária e incompreendida, não será sequer uma moção – um movimento –, será somente uma espécie de cisto morto dentro de nós mesmos (…).”

“Um chinês chora, mas não chora pelas mesmas coisas, nem nos mesmos momentos; as diferenças culturais são consideráveis. (…) O que importa, como na frase de Marcel Mauss, é a maneira como transmitimos as emoções aos outros, por meio de gestos, de mímicas, e segundo certas regras. Nesse sentido, a emoção é algo totalmente adquirido. Basta comparar os rituais de luto, eles são muito diferentes de um canto a outro do planeta, e não são sempre ‘tristes’ no sentido como nós o entendemos. No Ocidente, após um enterro, acontece de as pessoas se reunirem para comer e até mesmo celebrar. Nos Bálcãs, quando se reúnem para comer após um enterro, as pessoas às vezes fazem verdadeiras festas, cantam, tocam músicas e dançam de um jeito que pode ser chocante para nós (…).”

“A filosofia opõe a essência e a aparência, dizemos que a aparência é sem importância e que a essência é coisa séria. Eu não concordo com essa hierarquia filosófica, acredito que aquilo que se manifesta é um objeto de estudo tão sério quanto possível. Talvez você me diga que, se eu me interessar somente pelas aparências, não serei um filósofo, e eu talvez aceite sua objeção. De qualquer forma, eu não sei o que ‘é’ a emoção, eu não busco nunca o que ela é em absoluto. Existem duas maneiras de dizer que uma coisa ‘é’. Você pode dizer ‘eu estou emocionado’. Se você diz isso, fatalmente estará falando de um breve momento, pois hoje à noite você estará menos emocionado e amanhã já não será mais a mesma emoção. Depois, há o grande ‘é’ dos filósofos (…), o ‘é’ geral. Sócrates é bom em geral? Aristóteles respondia a essa pergunta com precisão: ‘Eu não posso saber se Sócrates é bom enquanto ele estiver vivo’, pois de uma hora para outra ele pode se tornar mau (…).  Eu prefiro que Sócrates continue vivo, que a borboleta continue voando, mesmo que eu não possa pregá-la em um pedaço de cortiça para dizer que a borboleta ‘é’ – decididamente – azul. Prefiro não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber. Eu vejo [algo] aparecer e tento pôr meu olhar em palavras, em frases. Mas esse é um olhar tão frágil e furtivo quanto são as minhas frases (…). É inevitável que a borboleta desapareça, já que é livre para ir aonde quiser e não precisa de mim para viver sua liberdade. Ao menos eu terei apanhado em pleno voo, sem guardar apenas para mim, um pouco de sua beleza.”

Fim de semana

Uma reportagem – Allan de Abreu sobre o PCC, na Piauí.

Um livro de provocação – Manifesto Contrassexual, Paul B.Preciado (N-1, 224 págs.).

Um documentário médio/bom – The Reagan Show, Sierra Pettengill e Pacho Velez.

Um médio/médio – A Verdade sobre Marlon Brando, Stevan Riley.

Um disco – Deus é Mulher, Elza Soares.

Fim de semana

Um livro – Que emoção! Que emoção?, Georges Didi-Huberman (34, 72 págs.).

Um artigo – A relação entre liberalismo econômico e fascismo (aqui).

Uma exposição – Conflitos brasileiros, IMS.

Uma montagem irregular – Extinção, Denise Stocklos.

Uma série ok  – Bobby Kennedy para Presidente, Dawn Porter.

Solidão depois das migalhas

Natalia Ginzburg em Léxico Familiar, de 1963 (Companhia das Letras, 254 páginas, tradução de Homero Freitas de Andrade):

“O pós-guerra era um tempo em que todos pensavam ser poetas, e todos pensavam ser políticos; todos imaginavam que fosse possível e necessário antes fazer poesia de tudo, depois de tantos anos em que o mundo pareceu ter emudecido e petrificado, e a realidade fora olhada como que através de um vidro, numa vítrea, cristalina e muda imobilidade. Romancistas e poetas, nos anos do fascismo, tinham jejuado, por não existirem ao redor muitas palavras que fosse permitido usar; e os poucos que ainda tinham usado palavras escolheram-nas com todo o cuidado no magro patrimônio de migalhas que ainda restava. No tempo do fascismo, os poetas viram-se obrigados a exprimir somente o mundo árido, fechado e sibilino dos sonhos. Agora, havia de novo muitas palavras em circulação, e a realidade parecia de novo ao alcance da mão; por isso, esses antigos jejuadores puseram-se a vindimar com deleite. E a vindima foi geral, porque todos tiveram a ideia de participar dela; e determinou-se uma confusão de linguagem entre poesia e política, que apareceram misturadas. Mas depois aconteceu que a realidade se revelou complexa e secreta, indecifrável e obscura não menos que o mundo dos sonhos; e revelou-se ainda situada do outro lado do vidro, e a ilusão de ter quebrado esse vidro revelou-se efêmera. Assim, muitos logo se retraíram desanimados e desencorajados; e tornariam a mergulhar num jejum amargo e num silêncio profundo. Desse modo, o pós-guerra foi triste, cheio de desânimo após as alegres vindimas dos primeiros tempos. Muitos se apartaram e se isolaram novamente no mundo dos seus sonhos, ou num trabalho qualquer que desse para viver, um trabalho assumido ao acaso e depressa, e que parecia pequeno e cinzento depois de tanto clamor; de qualquer modo, todos esqueceram aquela breve, ilusória coparticipação na vida do próximo. Por muitos anos, decerto, ninguém praticou mais o próprio ofício, mas todos acreditaram que podiam e deviam praticar mil outros ao mesmo tempo; e muito tempo se passou antes que cada um retomasse sobre os ombros o próprio ofício e aceitasse seu peso e a fadiga cotidiana, e a solidão cotidiana, que é o único meio que temos de participar da vida do próximo, perdido e espremido numa solidão igual.”

Fim de semana

Um livro – Strangers in Their Own Land, Arlie Russell Hochschild (The New Press, 368 págs.).

Um livro de fotografia – Sleeping by the Mississippi, Alec Soth (Mack, 120 págs.).

Um livro de contos – Reserva Natural, Rodrigo Lacerda (Companhia das Letras, 184 págs.).

Um ensaio – Jonathan Franzen sobre aquecimento global na Serrote.

Um filme – O Cavalo de Turim, Béla Tarr.

Egopress

– Neste sábado, 28/4, a partir das 16h, na Mercearia São Pedro/SP, será lançada a coletânea Saideira, com epitáfios escritos para si mesmos por 50 autores, eu entre eles, em homenagem aos 50 anos do bar. A organização é de Joca Terron e Marcelino Freire.

– Saiu um conto meu no novo número da revista Grotta, dos Açores, que tem um dossiê sobre literatura de Porto Alegre organizado por Diego Grando e Márcia Ivana de Lima e Silva.

– Já a revista Intervalo Analítico, da Sociedade Brasileira de Psicanálise/RJ, publicou uma entrevista minha a Tiago Franco. PDF da edição: https://goo.gl/UyeFUf

– Tese de mestrado do Gabriel Felipe Pautz Munsberg, da UFRGS, sobre Diário da Queda e Passo de Caranguejo (Gunter Grass): https://goo.gl/cK2r8t

– Tese de doutorado de Rafael Barreto do Prado, da USP, sobre língua e romances brasileiros contemporâneos, A Maçã Envenenada entre eles: https://goo.gl/GGX9FQ

– Participação minha no programa do Pedro Bial, com Wagner Schwartz e Carolina Jabor, discutindo linchamentos virtuais: https://goo.gl/gTMZp4

Fim de semana

Uma exposição – Mira Schendel no MAM.

Um romance – A Tirania do Amor, Cristovão Tezza (Todavia, 176 págs.).

Um livro de contos – O Sol na Cabeça, Giovani Martins (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um documentário – Panteras Negras: a Vanguarda da Revolução, Stanley Nelson.

Um filme meio bobo – Baseado em Fatos Reais, Roman Polanski.

Acrobatas e Leviatãs

Celso Rocha de Barros sobre o livro How Democracy Ends, de David Runciman, na Piauí:

“Runciman vê paralelos entre o período atual de crise democrática e a última década do século XIX, marcada por movimentos populistas, teorias da conspiração, mudanças tecnológicas, desigualdade crescente, e a falta de uma guerra (que ofereceria uma experiência de trauma coletivo semelhante àquela que o populismo encena).

Aquela crise da democracia deu origem a uma espetacular era de reformas, em que se consolidaram as duas bases de sustentação da democracia: a garantia de prosperidade futura, conseguida por meio da combinação entre capitalismo e estado de bem-estar social, e o reconhecimento da dignidade individual, pelo respeito aos direitos individuais e o direito ao voto. Nos lugares em que a democracia conseguiu se consolidar, a crise da democracia do final do século XIX a fez ressurgir mais forte do que nunca.

A crise atual, entretanto, dificilmente será resolvida como a do século XIX. Não há como expandir o estado de bem-estar social indefinidamente, e, nos países desenvolvidos, o direito ao voto é universal. Se esses limites já não bastassem, há uma outra característica, bastante particular, específica dos dias atuais, segundo Runciman: os problemas colocados diante da sociedade moderna talvez estejam se tornando ou grandes demais ou pequenos demais para serem resolvidos pela governança democrática.

Por um lado, há uma série de ameaças existenciais pairando sobre a espécie: o risco de guerra nuclear, o risco de catástrofe ambiental, e, talvez, em um futuro não tão distante, o risco de subjugação pela tecnologia.

Não é claro que a democracia consiga lidar bem com esses problemas de grande escala. Os governos democráticos deixaram o problema do aquecimento global chegar a um ponto em que talvez não seja mais possível evitar uma catástrofe. Poderíamos ter votado por limites ao nosso próprio consumo, mas, até agora, não votamos. Da mesma forma, devemos mesmo dar a Donald Trump o poder de destruir o mundo apertando um botão? Mas, se não o fizermos, quem deve ter esse poder? Os generais americanos provavelmente são mais confiáveis do que Trump, mas o quão confiáveis eles são?

Da mesma forma, há um risco real de que a mudança tecnológica comprometa a democracia. O caso mais evidente é a possibilidade de aprimoramento genético para quem puder pagar. Se os filhos dos ricos forem programados para serem superinteligentes ou supertalentosos, será que a igualdade jurídica ainda vai significar a mesma coisa? As possibilidades abertas pela tecnologia podem ser fascinantes: um futuro de automação total em que passemos nossa vida nos divertindo, por exemplo. Mas também podem ser terríveis – uma ditadura de super-homens geneticamente aprimorados, uma vida social destruída pela virtualidade e pela fragmentação da identidade que ela traz. Ainda não temos instrumentos analíticos para prever sequer que problemas teremos nesse front.

Essas ameaças grandes demais para a democracia transferem poder aos tecnocratas e outros tipos de especialistas, que, cada vez mais, também controlam áreas importantes da vida social, como a gestão macroeconômica. Isto é, a participação na gestão dos benefícios de longo prazo do desenvolvimento é cada vez menos decidida democraticamente.

E não basta simplesmente injetar o ruído da democracia na gestão tecnocrática: isso pode funcionar quando o problema é a insensibilidade social ou a inércia dos especialistas, mas e se a gestão do problema exigir o mínimo de turbulência possível? O acrobata será beneficiado se o público começar a urrar sua desaprovação no meio do trajeto? Como saber o que é insensibilidade e inércia e o que, de fato, exige deixar o acrobata em paz? Não é uma questão simples. Naturalmente, todo sujeito inerte e insensível vai mentir que é acrobata.

Por outro lado, a dimensão “dignidade pessoal” da democracia – o respeito aos direitos individuais e à livre expressão dos cidadãos – é cada vez mais privatizada, e cada vez mais deriva para o anarquismo das redes sociais. E esse espírito ultrademocrático das redes sociais, se tem um lado bom evidente, também traz riscos significativos. Runciman lembra que Tocqueville via nos linchamentos americanos uma manifestação deformada do espírito democrático: a maioria se sente autorizada a descontar suas frustrações nas minorias vulneráveis. Na democracia moderna esses impulsos são domesticados pelas instituições, pela presunção de inocência, pelos direitos das minorias. Mas ainda não há nada disso na democracia das redes. Na frase de Runciman, ‘nós não linchamos mais; a não ser no Twitter’.

O tipo de individualidade formado pelo anarquismo das redes sociais também desfavorece a política democrática. No Facebook, no Instagram ou no Twitter, as pessoas se acostumam a ter gratificações imediatas, na forma de likes, compartilhamentos, retuítes, comentários. A democracia representativa funciona de outra forma: não gera gratificação imediata, e, como nota Runciman, não foi feita para fazê-lo. O ritmo mais lento dos compromissos partidários, dos procedimentos parlamentares, das negociações e acordos, deveria servir de contrapeso aos vieses cognitivos que nos tornam míopes. Os partidos políticos, em especial, deveriam administrar esse processo de avanços e tréguas, o tempo longo do compromisso.

Daí a tendência recente à substituição do partido – incapaz de gerar gratificações imediatas – pelo movimento. O Podemos da Espanha começou como movimento, o En Marche! de Emmanuel Macron foi criado em torno de seu líder, e o trabalhismo de Jeremy Corbyn representou a tomada do Partido Trabalhista por um movimento. Esses movimentos, para Runciman, são como o Facebook: combinam máxima horizontalidade – as redes, a espontaneidade etc. – com lideranças fortemente verticais. O Facebook é uma rede horizontal, sem dúvida, mas é também, no fim das contas, o brinquedo do Mark Zuckerberg. É ele quem decide as regras do jogo, e as modifica como e quando quer. O mesmo vale para Macron no En Marche!

A conclusão do livro é a de que só a política pode resgatar a política. É preciso que as tentativas de manipulação tecnológica e o poder do mercado sejam enfrentadas por políticos com coragem de desafiar fortíssimos interesses econômicos. O próprio mercado global é uma máquina que saiu de controle, e — – como no New Deal, em reação à crise econômica da década de 30 – a solução é simples: só o exercício do poder político pode limitar o poder do mercado ou da técnica. Só o antigo Leviatã pode enfrentar o novo Leviatã.”

Fim de semana

Um romance – Léxico Particular, Natalia Ginzburg (Companhia das Letras, 254 págs.).

Um livro jurídico – Memória e Esquecimento na Internet, Sérgio Branco (Arquipélago, 208 págs.).

Um ensaio – Celso Rocha de Barros sobre democracia na Piauí.

Outro – Ricardo Teperman sobre rap e MPB na Serrote 25 (aqui).

Um filme – Aos Teus Olhos, Carolina Jabor.

Fim de semana

Uma série – Wild Wild Country.

Um disco – Every Country’s Sun, Mogwai.

Uma exposição no Tomie Ohtake – Cecily Brown.

Outra – Paulo Pasta.

Um perfil – Marianne Elliott e a nova montagem de Angels in America (aqui).

Fim de semana

Um filme – Projeto Flórida, Sean Baker.

Um documentário – Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, Eduardo Ades e Marcus Fernando

Um livro – Marlene Dumas: the Image as Burden (Tate/D.A.P., 176 págs.).

Uma novela média – Pinball, 1973, Haruki Murakami.

Um ensaio de provocação – Literatura de Esquerda, Damián Tabarovsky (aqui).

Fim de semana

Um artigo – O fim do liberalismo racial nos EUA (aqui).

Uma reportagem – O desastre estratégico da intervenção no Rio (aqui).

Um livro – Citizen, Claudia Rankine (Graywolf Press, 174 págs.).

Uma exposição – Erwin Olaf no MIS.

Um disco – Beneath the Redwoods, Morrison Kincannon.

Notas sobre o fígado

Um livro bom pode demorar a se revelar, em dezenas ou centenas de páginas de aparência apenas competente. Já a ruindade literária é imediata: meia dúzia de frases são suficientes para percebermos o amadorismo de um texto.

Integrar júris de prêmios para escritores, como fiz algumas vezes nos últimos anos, é reafirmar essa norma com poucas exceções. Ali está o grosso da produção ficcional do país, em diversos níveis de acabamento. No extinto Talentos da Maturidade, do Santander – voltado para candidatos acima dos 60 anos, diletantes em sua quase totalidade –, não era incomum encontrar na categoria conto uma oração de agradecimento a Jeová ou uma carta de saudades a uma tia morta. Já no do Sesc, que reúne concorrentes inéditos com mais noção de caminho artístico e profissional, as principais fontes de emulação do cânone brasileiro – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Rubem Fonseca – e discursos emprestados de fontes não literárias – como o jornalismo e a autoajuda – ainda são um parâmetro seguro para a eliminação rápida de candidatos.

As coisas se tornam mais complexas em concursos de livros publicados. Em 2015, fui um dos dez jurados da etapa inicial do Prêmio São Paulo de Literatura, que distribuiu 400 mil reais em três categorias de autores cujos romances saíram em 2014. Um cachê de 4 500 reais foi pago para que eu avaliasse 215 títulos em pouco menos de dois meses, e a aparente impossibilidade da tarefa é desmentida pela norma da ruindade: uma triagem sem grande esforço fez sobrar sessenta deles. Dos sessenta, separei 25 ou 30, muitos dos quais eu já havia lido no ano anterior, para olhar mais de perto. Numa reunião, somam-se as notas de cada juiz, faz-se uma média, debate-se uma ou outra controvérsia e tem-se um ranking cujos primeiros colocados – dez não estreantes, sete estreantes com mais de 40 anos, quatro estreantes até 40 – viram finalistas. Na etapa seguinte, um outro júri, do qual não participei, decidiu os vencedores.

Trecho inicial de texto que publiquei na revista Piauí, edição de março. Íntegra para assinantes: https://goo.gl/3LmEH2

Fim de semana

Uma revista – Baiacu.

Um filme – O artista do Desastre, James Franco.

Outro – Get Out, Jordan Peele.

Um curta – Nelson Cavaquinho, Leon Hirszman (aqui).

Uma releitura Diário de um Ladrão, Jean Genet (Rio Gráfica, 260 págs.).

Licor de naufrágio

Spoiler, poema de Marcelo Montenegro em Forte Apache (Companhia das Letras, 116 páginas):

Lembro que você me contou

uma história incrível.

Embora não lembre a história,

sou capaz de soletrar,

inclusive, a brisa que,

por um microssegundo,

inflou a cortina da sala.

(Um pedacinho de uma tarde

dentre as trilhões de tardes

que existiram naquela tarde.)

Lembro as pausas,

a música dos seus braços,

o cabelo tirado do rosto

no momento exato.

(Um bombom de ternura

com licor de naufrágio.)

Fim de semana

Um filme – Trama Fantasma, Paul Thomas Anderson.

Outro – Lady Bird, Greta Gerwig.

Mais outro – Eu, Tonya, Craig Gillespie.

Um filme ruim – Três Anúncios para um Crime, Martin McDonagh.

Um livro de poesia – Forte Apache, Marcelo Montenegro (Companhia das Letras, 120 págs.).

Invenções diabólicas contra idosos

Junichiro Tanizaki em Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin Companhia, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda):

“A maioria dos equipamentos modernos tende a favorecer os jovens e a produzir gradativamente uma era desumana para idosos. Vejam os leitores os semáforos, por exemplo: a partir do momento que tiverem de depender deles para atravessar cruzamentos, os idosos não poderão mais andar com confiança pelas ruas das cidades. Salvam-se apenas os velhos ricos que podem ser conduzidos de carro, mas eu mesmo fico com os nervos à flor da pele nas ocasiões em que tenho de ir a Osaka e, lá chegando, preciso atravessar uma rua. Para começar, o sinaleiro do tipo “Pare-Siga” é um foco de problemas: os instalados no meio da calçada são relativamente fáceis de ser visualizados, mas existem outros especialmente difíceis de ser detectados que ficam pisca-piscando luzes verdes e vermelhas em cantos inesperados, sem mencionar o perigo de confundi-los com os sinaleiros centrais em cruzamentos especialmente largos. E quando vi guardas ordenando o tráfego nas ruas de Kyoto, imaginei: este é o fim das cidades japonesas (…). Há quem preveja que, com o progresso da civilização, o sistema viário será transferido para o céu ou para baixo da terra, e que então as ruas voltarão a ser tranquilas como no passado. Mas é óbvio que se isso um dia acontecer, outros diabólicos inventos de tortura para idosos terão sido inventados. No final das contas, todos querem que idosos permaneçam quietos em seus lugares, e só nos resta ficar em casa ouvindo rádio, bebericando saquê e beliscando petiscos que nós mesmos preparamos.”