Michel Laub

Fim de semana

Uma entrevista antiga – Caetano Veloso no Roda Viva, 1996 (https://goo.gl/PJQm11)

Um filme de 1981 – Meu jantar com André, Louis Malle.

Duas palestras –Esper Cavalheiro e José Miguel Wisnik sobre música e ciência (https://goo.gl/N8FDAx)

Um vídeo – Cor e narrativa no cinema (http://goo.gl/RLQl5n)

Uma exposição de fotos – Coletivo Rolê, Mirante 9.

Egopress

Nesta semana estarei em dois eventos do Café Amsterdã, que reúne escritores brasileiros e holandeses em São Paulo: quarta, 26/8, lendo trechos de livros sobre as duas cidades com Arnon Grunberg, Toine Heijmans, Tommy Wieringa, Daniel Galera e apresentação de Paulo Werneck (Casa das Rosas, 19h), e sexta, 28/8, num debate sobre literatura e moralidade com Arnon Grunberg e mediação de Arthur Dapieve (Livraria Martins Fontes, 19h). Programação completa do Café: http://goo.gl/IXG1N7

Fim de semana

Uma exposição – Artistas britânicos, Pinacoteca.

Um disco – Abyss, Chelsea Wolfe.

Outro – É, Duda Brack.

Um texto – Margaret Atwood e o fim do mundo (aqui).

Outro – Camila Von Holdefer sobre literatura e empatia (aqui).

Um casamento: preparativos, cerimônia e festa

Trechos de A amiga genial, de Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 331 págs., tradução de Maurício Santana Dias), que se passa em Nápoles, no pós-guerra:

“Jamais a tinha visto nua, me envergonhei. Hoje posso dizer que foi a vergonha de (…) ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes que Stephano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a (…). Imaginei-a (…) envolvida pelo marido, na cama da casa nova (…), e subitamente me pareceu que o único remédio contra a dor que eu estava sentindo, que sentiria, era achar um canto bem afastado para que Antonio fizesse em mim, naquela mesma hora, o mesmo e idêntico ato (…).

Na cozinha, esperando-nos com impaciência, prontos há um bom tempo, estavam Fernando e Nunzia. Nunca os tinha visto tão arrumados. Naquela época os pais dela, os meus, todos os pais me pareciam velhos. Eu não fazia grande distinção entre eles e os avós maternos, os paternos, criaturas que a meus olhos tinham todas uma espécie de vida fria, uma existência sem nada em comum com a minha, com a de Lila (…). As pessoas realmente devoradas pelo calor dos sentimentos, pela ânsia dos pensamentos, éramos nós. Somente agora, enquanto escrevo, me dou conta de que, naquela época, Fernando não devia ter mais de quarenta e cinco anos (…). A mesma coisa valia para os meus pais, cuja idade posso ser mais precisa: meu pai tinha trinta e nove anos, minha mãe, trinta e cinco. Olhei-os demoradamente naquele dia, na igreja. Senti com irritação que meu sucesso nos estudos não os consolava nem um pouco, ao contrário, sentiam – especialmente minha mãe – que se tratava de uma inútil perda de tempo (…). Minha mãe (…) me olhou para que eu sentisse o peso de estar ali, de óculos, distante do centro, enquanto minha amiga malvada conquistara um marido de posses, uma atividade econômica para a família, uma casa toda sua (…) com uma banheira, geladeira, televisão e telefone (…).

Era evidente que todos os que tinham recebido o convite não quiseram faltar ao casamento, e mais, se apresentaram vestidos com muita elegância, e isso significava (…) que não poucos (…) precisaram pedir dinheiro emprestado. Então olhei Silvio Solara, grande, em trajes escuros, de pé ao lado do noivo, muito ouro cintilante nos pulsos. Olhei sua esposa, Manuela, vestida de rosa, carregada de jóias, postada ao lado da noiva. O dinheiro de toda aquela ostentação vinha dali (…). O casamento de Lila era de fato um negócio não só para o florista, não só para o fotógrafo, mas sobretudo para aquele casal, que entre outras coisas também tinha fornecido os pratos da recepção, do antepasto ao bolo (…).

Foi durante o percurso que (…) comecei a me sentir claramente uma estranha, infeliz por meu próprio estranhamento. Eu tinha crescido com aqueles rapazes, considerava seu comportamento normal, a língua violenta deles era a minha. Mas seguia cotidianamente, já há seis anos, um percurso que eles ignoravam por completo, e que eu, ao contrário, trilhava de modo tão brilhante que chegava a ser a melhor. Com eles eu não podia usar nada daquilo que aprendia diariamente, tinha que me conter, de alguma maneira me autodegradar. O que eu era na escola, ali era obrigada a colocá-lo entre parêntesis ou a usá-lo à traição, para intimidá-los. Me perguntei o que estava fazendo naquele carro. Ali estavam meus amigos, certo, ali estava meu namorado, estávamos indo à festa de casamento de Lila. Mas justamente aquela festa ratificava que Lila, a única pessoa que eu sentia ainda necessária malgrado nossas vidas divergentes, não nos pertencia mais, e, com sua retirada, toda mediação entre mim e aqueles jovens, aquele carro correndo por aquelas ruas, se exaurira (…).

Havia um rumor de descontentamento no salão. Os convidados mais ressentidos logo começaram a notar os detalhes que não iam bem. O vinho não era da mesma qualidade para todas as mesas. Alguns já estavam no primeiro prato, enquanto outros não tinham sido sequer servidos do antepasto. Já havia quem dissesse em alto e bom som que, onde estavam sentados os parentes e amigos do noivo, o serviço era melhor do que onde se sentavam os parentes e amigos da noiva (…).

Dançavam jovens, adultos, crianças. Mas eu sentia o que realmente havia por trás da aparência de festa. As caras tortas dos parentes da noiva, especialmente das mulheres (…). Tinham se sacrificado pelo presente, pela roupa que estavam vestindo, tinham se endividado, e agora eram tratados como pedintes, com vinho ruim e atrasos intoleráveis no serviço? (…) Iriam conter a raiva por amor a Lila, mas no final da recepção (…) estouraria uma briga monumental, que originaria ódios de meses, de anos, despeitos e insultos que envolveriam maridos, filhos, todos com obrigação de mostrar a mães e irmãs e avós que sabiam bancar os machões. Eu os conhecia. Via os olhares ferozes dos rapazes voltados para o cantor, para os músicos que olhavam suas namoradas de modo deselegante, ou se dirigiam a elas com frasezinhas ambíguas. Via como Enzo e Carmela se falavam enquanto dançavam, via também Pasquale e Ada sentados à mesa: era evidente que, terminada a festa, eles ficariam juntos, mais tarde noivariam e com toda a probabilidade daqui a um ano, daqui a dez, estariam casados. Via Rino e Pinuccia. No caso deles tudo seria mais rápido: se a fábrica de calçados Cerullo realmente progredisse, no máximo daqui a um ano teriam uma festa de núpcias não menos luxuosa que aquela. Dançavam, se olhavam nos olhos, se apertavam com força. Amor e interesse. Charcutaria mais sapataria. Edifícios velhos mais edifícios novos. Eu era como eles? Ainda era?”

Fim de semana

Um romance – A amiga genial, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 331 págs.).

Uma reportagem – Dias de luta, Ricardo Alexandre (Arquipélago, 439 págs.).

Outra – Daniela Pinheiro sobre Roger Abdelmassih na Piauí.

Um documentário médio –  Winnebago man, Ben Steinbauer.

Outro – Dear Mr. Watterson, Joel Allen Schroeder.

O que está escondido em ‘Mad Men’

Trecho de um artigo que Enrique Vila-Matas publicou no El País em março (íntegra aqui):

“Ouvi [Matthew] Weiner [criador de Mad Men] dizer que era fascinado pela estrutura de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, onde o narrador sai em busca de Kurtz, mas no caminho se envolve em incontáveis digressões, e, na realidade, essas digressões são (…) o relato em si. (…). Era aí que eu queria chegar: possivelmente o século XIX foi o dos ‘grandes romances’, e o XX, por outro lado, a era do fragmento, o reencontro do narrativo com sua essência, com o conto, com o relato breve.

Depois de tudo, muitos dos grandes romances do século XX são construídos com a lógica do fragmento, como se seu verdadeiro coração fosse o relato, algo que, obviamente, não é fácil de demonstrar, embora possa chegar a ser quando se atenta para o ditado daquela Tese sobre o conto em que Ricardo Piglia afirma que um relato sempre conta duas histórias. O conto, diz Piglia, é um relato que encerra um relato secreto, é construído para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto: reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. ‘A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não em uma longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato’, dizia Rimbaud.

A tese de Piglia me faz pensar que se a densa trajetória do romance do século XX contivesse alguma história secreta, esta giraria em torno da hábil camuflagem do texto breve, do fragmento, da unidade de conto no interior da alma central de seu grande labirinto. Conrad, Cheever, já citados aqui, junto a Nabokov, Walser, Kafka, Ballard, Philip K. Dick, Sebald, Beckett e outros, seriam então alguns dos praticantes mais brilhantes de uma grande simulação que consiste em reabilitar secretamente o conto sob a falsa aparência de estar criando romances, ou seja, situá-lo o em uma linha de continuidade com relação aos grandes romances do século XIX.

Uma grande simulação que se compreende melhor quando se aplica a tese das duas histórias de Piglia, onde se explica que a variante fundamental que Borges introduziu na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada, da história que vai por baixo da supostamente principal, o tema do relato (…). Nas cenas de Mad Men (…) fui lentamente entrando em contato com o modo de trabalhar de Weiner e vi que também ele operava ao modo borgiano, isto é, que a história que em Mad Men ia por baixo da supostamente principal – a história aparentemente secundária ou segundona da batalhadora Peggy Olsen (Elisabeth Moss) e suas colegas de escritório – era na realidade a trama secreta, o centro da narrativa, o eixo verdadeiro de tudo. E também percebia que, acontecesse o que acontecesse, no fundo da cena sempre estava Peggy (…), que ela era não só a trama secreta, mas também o gênero segredo oculto no próprio eixo da narrativa. Então Peggy é um conto? Acredito que sim, que ela é a trama secreta, mas também – porque essa trama está repleta de unidades de contos – o próprio gênero camuflado dentro da estrutura geral de romance, o verdadeiro gênero utilizado para a narrativa global posta em marcha por Weiner.”

Fim de semana

Uma edição – Ficção completa, Bruno Schultz (Cosac Naify, 544 págs.).

Um livro sobre música – As quarto estações, Mariano Marovatto (Cobogó, 88 págs.).

Um documentário sobre música – Desagradável, Fernando Rick (aqui).

Um disco – Star wars, Wilco.

Um vídeo – O debate cultural surf x jiu-jitsu no Rio dos 70 (aqui).

Sobre a escrita

Não existem regras para se escrever ficção. Ou melhor, não existem regras gerais. Cada autor encontrará as que são invioláveis no próprio caso, digam elas respeito a gramática, horários, quantidade de luz na escrivaninha, ruína financeira e conjugal.

A metodologia também se adapta ao tipo de literatura almejada. Em “Sobre a escrita”, livro de 2000 lançado há pouco no Brasil pela Suma das Letras (256 págs., tradução de Michel Teixeira), Stephen King fala da necessidade de ler muito e ter autocrítica, dicas vagas o bastante para não estragar a diversidade literária do mundo nem o entusiasmo de ninguém. Mas parte do que é dito no texto serve mesmo para quem quer seguir o modelo de… Stephen King.

É fundamental, portanto, identificar onde está a autoridade de quem publica tratados do gênero. A do autor de “Sobre a Escrita” é diversa das de Mario Vargas Llosa (“Cartas a um jovem romancista”), Francine Prose (“Para ler como um escritor”), James Wood (“Como funciona a ficção”) e tantos outros.

Trecho de texto publicado na Folha de S.Paulo, 17/7/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário sobre música – What Happened, Miss Simone?,  Liz Garbus.

Um livro sobre música – Memórias de um legionário, Dado Villa-Lobos (Mauadx, 256 págs.).

Um ensaio – Tage Rai sobre violência e moral (aqui)

Um obituário – Alejandro Chacoff sobre James Salter na Piauí.

Uma exposição em Brasília – León Ferrari, CCBB.

Os fins do arco-íris

No debate sobre discriminação, pregar a tolerância é o melhor caminho? Numa de suas provocações costumeiras, e citando o exemplo insuspeito de Martin Luther King, o filósofo esloveno Slavoj Zizek acredita que não. Segundo ele, a meta deveriam ser leis que concretamente protejam e emancipem grupos vitimados por religião, etnia, gênero e comportamento.

O problema seria mais de topo, digamos, do que de base. É um raciocínio atraente para a militância, pois dá a ela ferramentas e horizontes objetivos, em vez de limitar sua ação a apelos genéricos e cheios de coraçõezinhos na terra dos afetos de pelúcia.

Só que as coisas são mais complexas. Levado ao limite, e boas intenções à parte, o argumento ganha o sotaque autoritário que impõe condutas imunes a um dos preceitos da sociedade livre: o de que a lei surge do consenso (ou de um nível possível de consenso), e não o contrário (regras impostas de cima para baixo).

Melhor pensar que a democracia, sistema de maiorias feito também para proteger minorias, será mais saudável se cultivarmos valores – como a aceitação das diferenças – que tirem a noção de direito individual do campo formal/teórico. A história é triste e repetitiva ao mostrar que leis são inúteis quando não há prática social a sustentá-las.

Trecho de texto publicado na Folha de S.Paulo, 3/7/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – O cidadão do ano, Hans Petter Moland.

Outro – Enquanto somos jovens, Noah Baumbach.

Uma segunda temporada até aqui – True detective.

Um bibimpap – Mirim.

Um melhor (sempre) – Bueno.

Egopress

– Na próxima segunda (29/6, 19h30), no CCBB/SP, participo de um debate do ciclo Arte e ciência, sobre memória e criatividade, com o neurocientista Ivan Izquierdo. Na semana seguinte (6/7, 20h), como parte do mesmo ciclo, converso no CCBB/Brasília com a também neurocientista Jociane Miskiw.

– Sou um dos 16 entrevistados da coletânea Um escritor na biblioteca 3 (Biblioteca Pública do Paraná, 248 págs), que faz parte de uma série promovida pelo jornal Cândido.

– Um dos textos de Literatura por tudo (UPF, 189 págs.), com organização de Luís Augusto Fischer e participação de convidados da Jornada de Literatura de Passo Fundo, é meu.

Selvagens e eternos

Assisto a Os bons companheiros desde o seu lançamento, em 1990. A Cassino, desde o seu, em 1995. É dos poucos hábitos que mantive nestas duas décadas e meia em que deixei para trás tantas certezas sobre tantas coisas.

No ano em que se comemoram aniversários redondos dos dois clássicos de Martin Scorsese, as lições de ambos se renovam a cada reprise. A principal, que soa óbvia, mas não costuma ser seguida, é a de que a liberdade é o bem mais precioso do artista – e se apegar a ela é a melhor forma de lidar com as regras de um gênero ou tradição.

Em vez de ser uma sombra intimidadora, o longo cânone americano de filmes de máfia, cujos realizadores vão de Howard Hawks e William Wellman a Brian De Palma e Francis Ford Coppola, funcionou de maneira paradoxal aqui. Já que as possibilidades de exibir esse universo pareciam esgotadas, Scorsese resolveu trabalhar sem amarras – fazendo homenagens e emulando o virtuosismo dos mestres, sim, mas dando às suas crias um tom de irreverência selvagem.

Trecho de artigo publicado na Folha de S.Paulo, 19/6/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário sobre música – Anvil, Sacha Gervasi.

Outro – Lemmy, Greg Olliver e Wes Orshoski.

Um disco de 1970 – Barret, Syd Barret.

Um romance de 2000 relançado – A coisa não-Deus, Alexandre Soares Silva (Record, 208 págs.).

Um artigo – A crise dos museus, por Hal Foster (aqui, para assinantes).

Ciúme, telecatch, estelionato, jabá

Trechos de Pavões misteriosos, de André Barcinski (Três estrelas, 239 págs.), livro sobre a música pop brasileira no período 1974-1983.

Créditos (1) – “Na semana de lançamento do LP internacional de Água viva [em 1980], um disco parecido chegou às lojas. Não era da Som Livre, mas da Continental. Água viva – temas internacionais da novela (…) tinha um repertório idêntico ao do LP da Som Livre (…). Escondida no canto da capa, em fonte pequena, constava esta palavra: Covers (…). Hélio Costa Manso [diretor da Som Livre] (…) não teve dúvidas: aquilo só podia ser obra dos Carbonos (…). Muita gente chegava na loja e pedia o ‘disco da novela’ e saía de lá, feliz da vida, com a versão cover (…). Trinta e três anos depois do episódio (…) Beto Carezzato, baixista dos Carbonos, bate os olhos na capa (…) e diz: ‘É, acho que participamos desse estelionato!’.”

Créditos (2) – No fim dos anos 1970, auge do mercado de versões no Brasil, a indústria do disco virou um ringue de telecatch, onde vencia quem era mais esperto. E ninguém era mais esperto do que Carlos Imperial. Alguns anos antes, ele descobrira o lucrativo e inesperado filão das músicas de domínio público e passou a registrar várias em seu nome. Na biografia Dez! Nota dez: eu sou Carlos Imperial, o autor, Denilson Monteiro, conta que até a mãe de Imperial se indignou quando ele registrou Meu limão, meu limoeiro: ‘Carlos Eduardo, como você tem coragem de dizer que essa música é tua? Meu filho, eu cansei de te embalar cantando ela quando você era recém-nascido!’. Imperial respondia: ‘Comigo é assim: mulher e música, se não tiver dono, eu vou lá e apanho.’”

Critérios – “O jabá, ou jabaculê, era visto como uma coisa normal (…). Porém, de vez em quando, o olho grande de alguém provocava atritos. Quando André Midani soube quanto Chacrinha estava exigindo para apresentar Baby Consuelo e Pepeu Gomes em seu programa, resolveu ir à imprensa e protestar. (…). ‘Eu disse para André: pelo amor de Deus, não faça isso, vai acabar com a gente’, lembra [Marco] Mazzola, que trabalhava com Midani na Warner. ‘Dito e feito: quando cheguei à empresa, na segunda feira, o departamento de divulgação inteiro estava me esperando (…). As rádios cortaram todas as nossas músicas da programação. A gravadora levou uns quatro ou cinco anos para se levantar.’ (…) O filho de Chacrinha, Leleco Barbosa, disse à Folha de S.Paulo, em 2003, que o que havia não era ‘jabá’ (…): ‘A gravadora queria botar no programa o artista tal. Se papai gostasse, botava. Mas, como produzia shows com artistas, chacretes e calouros, a ‘caravana’, fazia uma troca (…). Era uma coisa mais que justa. Se o cara queria se lançar no programa, ia ao show em contrapartida.’”

Casting – “O carioca Sidney Magalhães era apenas mais um cantor de bares e restaurantes do Rio de Janeiro. Foi em uma churrascaria da Barra da Tijuca que o produtor musical Roberto Livi o viu pela primeira vez (…). Livi, um cantor argentino que gravara sucessos no Brasil na época da Jovem Guarda (…), tinha planos de criar um clone brasileiro de um grande astro pop do seu país, o cigano Sandro (…) O cantor (…) passou a se apresentar com a camisa aberta no peito, mangas bufantes, colares e uma vasta cabeleira cacheada (…). Livi decidia tudo: repertório, figurinos e até o que Magal deveria dizer em entrevistas (…). Quando o Fantástico produziu um clipe da música [Sandra Rosa Madalena], apresentou Magal como ‘descendente de ciganos’.”

Casting (2) – “Além de Simony, a CBS contratou [para integrar o Balão Mágico] um menino chamado Vimerson Benedito, de dez anos (…). Como Vimerson não era o nome mais apropriado para um pop star, a gravadora rapidamente arranjou-lhe um outro: Tob. O grupo se completou com Mike, de seis anos, filho do inglês Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador (…). Em abril de 1981, [Biggs] foi sequestrado por um grupo de mercenários britânicos que queria leva-lo de volta à Inglaterra e exigir uma recompensa do governo do país. Mike apareceu na TV fazendo um apelo emocionado pela libertação do pai. Os executivos da CBS ficaram impressionados com o carisma do menino e o contrataram.”

Apoio – “Desde Secos & molhados, nenhum disco de estreia no Brasil fizera tanto sucesso quanto Voo de coração [de Ritchie]. Quando foi gravar o segundo disco, E a vida continua, o cantor sentiu certa má vontade por parte da CBS (…). Não entendia como havia passado, em tão pouco tempo, de prioridade a estorvo. Até que leu uma entrevista de Tim Maia à revista Isto É, em que o ‘Síndico’ afirmava que Roberto Carlos, o maior nome da gravadora, havia ‘puxado o tapete’ de Ritchie (…). Claudio Condé, da CBS, nega: ‘Isto é viagem. O Roberto nunca teve esse tipo de ciúme.’ (…) Anos depois, quando fazia um show em Angra dos Reis, o cantor foi procurado por um homem, que se apresentou como radialista e lhe disse: ‘Há anos quero te contar isto. Quando você lançou A mulher invisível, aconteceu algo que eu nunca tinha presenciado em mais de trinta anos de carreira no rádio: eu ganhei um jabá da sua própria gravadora para não tocar a sua música!’.”

Fim de semana

Um livro – Pavões misteriosos, André Barcinski (Três estrelas, 239 págs.).

Um documentário – Kurt Cobain: montage of heck, Brett Morgen.

Um disco – The magic whip, Blur.

Um texto – Bernardo Carvalho e a poesia sob o jihadismo (aqui).

Outro – Elias Thomé Saliba e o humor sob o stalinismo (aqui).

Desastre literal

Com o deslocamento da cultura visual da TV para a expressão escrita da internet, os índices de leitura no país devem ter dado um salto na última década e meia. Em termos de qualidade, porém, como sabe quem alguma vez entrou numa caixa de comentários de grande portal, o cenário está mais para desastre.

As causas não são difíceis de achar, e não estão apenas nas escolas. Vejam a Jornada de Literatura de Passo Fundo, cuja edição 2015 acaba de ser cancelada. A opção de governos, empresas e entidades que poderiam ajudar foi clara: em nome de uma economia mesquinha (o filme “Qualquer Gato Vira-Lata 2” custou mais que o dobro do que custaria o evento), abre-se mão de um dos poucos modelos vitoriosos que temos na formação de leitores.

Os exemplos poderiam seguir ao infinito: da “Pátria Educadora” que deixou de comprar livros às goteiras da Biblioteca Nacional, do fascínio por celebridades ignorantes aos “guias de lazer” que dão dicas sobre brechós e passeios com o pet, desconhecendo a hipótese de alguém preferir ler num sábado ou domingo, o futuro está contratado no que valorizamos no presente.

Pensei nas consequências desse desprezo à atividade intelectual ao saber que Antonio Prata, colunista da Folha, foi processado por um texto obviamente satírico (http://goo.gl/751HQj). Também ao acompanhar a polêmica em torno de “A mulher no trem”, peça do grupo Os Fofos Encenam suspensa depois de protestos pelo uso de “blackface” – o expediente de pintar de negro o rosto dos atores, que foi típico no teatro e cinema racistas dos Estados Unidos.

Publicado na Folha de S.Paulo, 5/6/2015. Íntegra aqui.

Egopress

– Na próxima terça, 9/6, às 19h30, farei uma palestra sobre literatura e linguagem digital na abertura do Enletrarte (Encontro Nacional de Professores de Letras e Artes), em Campos dos Goytacazes/RJ.

– Na semana seguinte, em 16/6, às 19h, na Livraria da Vila da Lorena (SP), conversarei com o Alexandre Soares Silva sobre o relançamento do seu romance A coisa não-deus (Ed. Record).

Fim de semana

Um filme – Mad Max 4, George Miller.

Um personagem do filme – o guitarrista.

Um artigo – Adam Gopnik sobre remuneração no mercado de arte (aqui).

Outro – Eliane Brum e o debate sobre blackface no teatro (aqui).

Um disco – Estratosférica, Gal Costa.

Um clássico das coisas

Num “Roda Viva” recente, Amyr Klink parecia tão entusiasmado ao falar de viagens quanto ao falar sobre design. Faz sentido. A aventura de enfrentar tempestades em alto mar ou conversar com os pinguins na Antártica começa na escolha dos materiais do barco, no projeto que determinará uma jornada estilo Arca de Noé ou Titanic.

É mais comum achar que vivemos cercados de ideias erradas do que de objetos errados. E talvez a verdade seja o oposto, ao menos do ponto de vista mesquinho do dia-a-dia. Dá para evitar discutir a reforma fiscal no buffet por quilo, mas não nos livramos de sentar em cadeiras desconfortáveis, de lidar com embalagens que exigem um plano de engenharia para serem abertas.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 22/05/2015. Íntegra aqui.

Um treinamento para enfrentar a crítica literária

Stephen King em Sobre a escrita (Suma das Letras, 256 páginas, tradução de Michel Teixeira):

“Quando vejo imagens de câmeras escondidas mostrando babás da vida real que, de repente, começam a molestar e bater em crianças, sempre me lembro dos dias com Eula-Beulah (…). Era comum [ela] estar ao telefone, rindo com alguém, e gesticular para que eu me aproximasse. Ela me abraçava, me fazia cócegas até que eu risse e depois, ainda rindo, me dava um cascudo tão forte que eu desabava. Depois me fazia cócegas com os pés descalços até que nós dois ríssemos de novo.

Eula-Beulah era dada a peidos — daqueles barulhentos e fedidos. Às vezes, quando estava atacada, ela me jogava no sofá, colava a bunda coberta por uma saia de lã na minha cara e mandava ver. — Pou! — gritava ela, se divertindo. Era como ser soterrado por fogos de artifício de metano. Eu me lembro da escuridão, da sensação de estar sufocando, e me lembro de gargalhar. Porque, embora aquilo fosse, de certa forma, horrível, também era, de alguma forma, engraçado. De várias maneiras, Eula-Beulah estava me preparando para a crítica literária. Depois que uma babá de 90 quilos peida na sua cara e grita ‘Pou!’, o jornal The Village Voice fica bem menos aterrorizante.”

Fim de semana

Um disco de 2014 – Burn your fire for no witness, Angel Olsen.

Um ensaio de 2014 – Lorenzo Mammi sobre a música e o vinil, na Piauí (aqui).

Uma reportagem de 1983 – Tom Wolfe sobre a criação do Vale do Silício, na Esquire (aqui).

Uma série de fotos de 1880 a 1970 –  Porto Alegre (aqui).

Um filme – Take shelter, Jeff Nichols.

Olho por dente

Diferentemente da imagem que tem hoje, a Lei de Talião foi um avanço no direito penal. Ao menos no da Babilônia do Século 18 a.C.: antes do “olho por olho, dente por dente”, as punições tinham pouco a ver com a gravidade aos crimes. Se alguém roubasse um boi do vizinho, poderia ter a casa incendiada com o rebanho e a família dentro.

Dado o tipo de justiça que anda sendo praticada na Internet, uma versão 2015 do Talião não seria má ideia. Se há algo em falta nas redes sociais, é proporcionalidade. Nos dois sentidos do termo: para alguns notórios políticos e formadores de opinião, nada do que for dito constrangerá uma trajetória de venalidade orgulhosa.

Já para quem tem alguma vergonha na cara, mas erra como qualquer humano, as penas podem ganhar dimensões de Velho Testamento. É sobre esses indivíduos até então anônimos, ou no máximo conhecidos em nichos, que escreve o jornalista britânico Jon Ronson em seu novo livro.

Publicado na Folha de S.Paulo, 8-5-2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma exposição – Anselm Kiefer, White Cube.

Um filme – O abutre, Dan Gilroy.

Um filme ok – The humbling, Barry Levinson.

Um disco extremo – Bestial burden, Pharmakon.

Um livro – Sobre a escrita, Stephen King (Suma das Letras, 256 págs.).

Conversa com um amigo morto

Michel Houellebecq em Submissão (Alfaguara, 256 págs., tradução de Rosa Freire d’Aguiar):

“Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo — por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido. Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros (é estranho que uma condição tão simples, na aparência tão pouco discriminatória, na realidade o seja tanto, e que esse fato evidente, facilmente observável, tenha sido tão pouco explorado pelos filósofos de diversas vertentes: como os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes; porém, não é esta a impressão que dão, com alguns séculos de distância, e é frequente vermos se esfiapar, páginas a fio, que sentimos ditadas mais pelo espírito do tempo do que por uma individualidade própria, um ser incerto, cada vez mais fantasmático e anônimo). Da mesma maneira, um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.”

Houellebecq, estômago e submissão

Em 1998, o filme “Nova York sitiada” antecipou parte do que aconteceria com o mundo a partir de 2001: 1) novo e descentralizado tipo de jihadismo, treinado pela CIA em sua origem, causa grande tragédia numa metrópole americana; 2) em pânico justificado, cidadãos exigem reação do governo; 3) Opta-se pelo caminho militar/policialesco, que estimula a intolerância étnica/religiosa e avança sobre direitos civis.

Tanta acuidade histórica, no entanto, não gerou uma obra esteticamente relevante. Talvez porque as boas ideias do roteiro, escrito pelo prêmio Pulitzer Lawrence Wright, precisassem ser traduzidas pelo esquematismo hollywoodiano de Bruce Willis e companhia. Uma coisa é o que se diz, outra é como se diz. Embora as duas dimensões se misturem em algum nível na arte, é na segunda que está a possibilidade de transcender o que já se sabe assistindo ao noticiário ou lendo os especialistas.

Publicado na Folha de S.Paulo, 24/4/15. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um disco – Sound and collor, Alabama Shakes.

Outro – Singles, Future Islands.

Um documentário com momentos – André Midani, Conspiração Filmes.

Um filme – Acima das nuvens, Olivier Assayas.

Um livro – Submissão, Michel Houellebecq (Alfaguara, 256 págs.).

Egopress

A maçã envenenada teve os direitos vendidos para o francês (Buchet Chastel) e para o inglês (Harvill Secker).

Diário da queda, cuja edição em paperback acaba de sair na Inglaterra pela Harvill/Vintage, com tradução da Margaret Jull Costa, ganhou o prêmio JQ Wingate (http://goo.gl/pncS1s).

Feriado

Um livro – So you’ve been publicly shamed, Jon Ronson (Riverhead Books, 304 págs.).

Um disco – Carrie and Lowell, Sufjan Stevens.

Uma série ok – The americans.

Um cachorro quente – Imbiss.

Um filme – Leviatã, Andrey Zvyagintsev.

Viagens invisíveis

Muito antes do Instagram e das poses de Francisco Cuoco na piscina de Caras, com um pouquinho mais de ênfase que a dos pensadores dedicados ao tema nas últimas décadas, o escritor e dramaturgo Thomas Bernhard definiu a fotografia como “mania sórdida”, uma “doença que acometeu toda a humanidade” e, em suma, “a maior desgraça do Século 20”.

Em certas circunstâncias, é difícil não ver na sátira do trecho – tirado do romance “Extinção”, de 1986 – algo de profético. Nas atuais viagens, por exemplo: se há algo que não está em falta no Século 21, ao menos quando falamos do turismo de classe média/alta no Ocidente, são imagens de metrópoles cada vez mais parecidas nos costumes, no comércio, nas atrações culturais.

Publicado na Folha de S.Paulo, 10/4/2015. Íntegra aqui.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 253 outros seguidores