Michel Laub

Fim de semana

Um disco – Síntese do Lance, Jards Macalé e João Donato.

Outro – Meu Coco, Caetano Veloso.

Uma exposição em Berlim – Suely Torres, Donnerstag Gallery.

Um doc pior do que o tema – The Most Beautiful Boy in the World, Kristina Lindström e Kristian Petri.

Um filme – Adults in the Room, Costa-Gavras.

Um Brasil que morreu

Entrevistas de escritores costumam ter alguma dose de mentira. Sendo essa a prática do metiê, é até esperado que manipulemos o discurso para tornar mais interessante a imagem dos nossos livros, tanto para os outros – leitores, crítica – quanto para nós mesmos – porque é preciso renovar o estímulo e seguir numa luta por vezes inglória.

Ler as entrevistas de Sérgio Sant’Anna, ao menos as que estão reunidas no recém-lançado O Conto não Existe (Cepe, 195 págs., organização de André Nigri e Gustavo Pacheco), causa outra impressão. É possível que ela seja falsa também – quem vai saber? –, mas não importa: o fato de eu sempre ter encontrado verdades na obra deste autor clássico da ficção brasileira do fim do século 20, e que seguiu tendo momentos de vigor até sua morte por covid ano passado, como que contamina o julgamento daquilo que ele disse fora dela.  

Trecho inicial de texto sobre Sérgio e André Sant’Anna, publicado no Valor Econômico, 24-9-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário – The Velvet Underground, Todd Haynes.

Um livro – O Conto não Existe, Sérgio Sant’Anna (Cepe, 228 págs.).

Um trecho – Diários de Patricia Highsmith (aqui).

Um podcast – Juliana de Albuquerque e Isadora Sinay sobre Philip Roth (aqui).

Uma série – Succession.

Didê, cunete, tchatchatchá

“Para escrever, talvez seja necessário que a língua materna seja odiosa, mas de maneira tal que uma criação sintática trace aí uma espécie de língua estrangeira.”

A frase, de Gilles Deleuze, serve como epígrafe ao posfácio de Caia Maria Coelho para Neca + 20 poemas travessos, de Amara Moira (Editora O Sexo da Palavra, 64 págs., com ilustrações de Lino Arruda). Ela define a sensação que temos ao ler estes textos escritos em pajubá, o socioleto das travestis brasileiras. Neles se fala em “didê”, “cunete”, “necometragem do lixo”. De um mundo onde “quanto mais necão, mais lei aliás”, e “pele na pele é tia, faço a recheada não.”

O pajubá foi historicamente criado como defesa, um disfarce que ajudou na sobrevivência de uma das populações mais discriminadas e agredidas do país. Nele se misturam e recriam construções gramaticais do português de diferentes regiões, termos importados, vocabulário dos terreiros iorubás. Mas o que poderia ser mera negação – o estrangeirismo deleuziano criado a partir (e como devolução) do ódio – floresceu num registro musical vívido, de apelo tragicômico a quem ouve, o que é uma forma de empatia: “Tem umas que engana, até parece ocó, malão e tudo, aí cê vai na pira dela te tchacatchá, já arrebitando o edi, mas é piscar e, jesus, ela atacou.”

Neca não é bem uma história, e sim o monólogo de uma travesti prostituta que aguarda clientes numa calçada, dirigindo-se a uma colega iniciante. O assunto é a batalha diária da personagem, que se equilibra entre ameaças as mais variadas – violência, polícia, doenças – fazendo desabafos (“vontade de dar elza horrores só pra compensar, celular, carteira, o que for”), observações sobre os tipos com os quais se depara (“conheeeço. Edivaldo, edivaldo, cê não me engana nada”), dando conselhos ternos em meio ao sarcasmo e a tristeza (“Tô morta, gata. Cê fica? Então aqüenda uma taba odara pra esse frio e pra não estressar com as mariconas”).

Início de texto publicado no Valor Econômico, 8-10-21. Integra aqui.

Fim de semana

Uma história – Dawn Dorland x Sonya Larson (aqui).

Um livro – Neca, Amara Moira (O Sexo da Palavra, 64 págs.).

Um lugar em Berlim – HKW.

Outro – DAAD Galerie.

Um filme – Cuatreros, Albertina Carri.

Saudades do quê?

Existe um fenômeno curioso no YouTube. Nos vídeos de rock/pop nacional dos anos 1980/1990, por mais irrelevante que sejam a canção e o artista, os comentários costumam celebrá-los como emblemas de uma época de ouro, quando o cenário musical do país ainda não estaria tomado por marketing e vulgaridade estética. “Como pode tanta música legal numa década só?!!!”, pergunta um desses palpiteiros depois de ouvir Transas e Caretas (1984), do Trio Los Angeles. “As pessoas realmente se divertiam”, sentencia outro na página de um playback de Meu Ursinho Blau-Blau (1983), do Absyntho, apresentado no programa da Angélica. “Hj VC vê no alta horas o cantor tá cantando os jovens tudo parado, lesados, parecem zumbis, congelados, só se divertem se tiver bebidas e drogas.”

À primeira vista, trata-se de gosto pessoal. Ou de nostalgia. O que inclui, em alguns casos, um velho hábito da meia idade: confundir a própria decadência com a decadência objetiva do mundo. Mas não haveria outro sintoma aí, o sentimento cultural regressivo que vira um posicionamento político? Comecei a pensar a respeito ao notar como os internautas avaliam o legado de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana e figura central da minha adolescência, em faixas que vão de Será (“para lavar os ouvidos com tanta sujeira que é produzido hoje”) a Pais e Filhos (“como eu queria voltar no tempo em que o mundo ainda era bom”). Ou em comentários que falam de ideologia, sexualidade, comportamento: “Já zoava os jovens pseudo-revolucionários nos anos 80” (em Geração em Coca-Cola), “essa musica (…) fala sobre a Venezuela de hoje” (em La Maison Dieu), “gay sem mimimi” (em Que País é este?), “aí me chamam de homofóbico pq crítico o tal do cantora Pablo” (em Meninos e Meninas).

É claro que há de tudo nesses posts: zoeira, burrice, má-fé e até debates com ideias razoáveis, envolvendo fãs jovens e velhos, de esquerda ou da direita moderada. Mas para o que interessa aqui valem apenas os juízos vindos – ou que parecem vir, ou que não seria estranho se viessem – dos que têm posições reacionárias sobre costumes. Ou seja, dos que hoje chamamos de bolsonaristas. A princípio, o entusiasmo deles com a Legião Urbana é incompatível com o espírito da banda – que, ao menos no início da carreira, na transição entre a ditadura militar e a Nova República, fixou-se no imaginário da juventude como expressão de uma postura política contestatória, a favor da liberdade e da aceitação de diferenças. 

Só que talvez não seja tão simples. O inconformismo não é um valor em si, e seus alvos mudam com o tempo. O grito antissistema de uma letra como Que País é Este, composta em 1979 e gravada em 1987, com os célebres versos “nas favelas, no Senado/sujeira para todo lado”, pode acabar na boca de um democrata reformista ou na de alguém que prega a intervenção militar em 2021. No caso de Renato Russo, é tudo apenas questão subjetiva, como ocorre na interpretação de qualquer texto? Ou haverá algo em seu trabalho que fala de perto ao fã retrógrado – e o que lemos nas mensagens do You Tube faz mais sentido do que queremos reconhecer?

Início de texto publicado na revista Piauí, edição de setembro/2021. Íntegra para assinantes aqui.

Fim de semana

Um festival – Berlin Art Week.

Uma programação no festival – Planetário.

Um disco de 2019 – Pang, Caroline Polachek.

Um disco de 2018 – Cavala, Maria Beraldo.

Um livro – Qualquer lugar menos agora, JP Cuenca (Record, 240 págs.).

Formas de colaborar com o horror

O que a história faz com artistas que colaboram com o totalitarismo? Depende. Uma exposição em Berlim lembra que a carreira deles nem sempre termina com o fim dos regimes aos quais servem, como seria esperado. Die Liste der Gottbegnadeten, em cartaz até 5 de dezembro no Deutsches Historisches Museum, reúne pinturas e esculturas produzidas nas décadas seguintes à Segunda Guerra por nomes que, se no geral não fizeram propaganda nazista aberta, silenciaram por conveniência enquanto eram ajudados em encomendas e exposições do Terceiro Reich.

O título da mostra faz referência a uma lista elaborada em 1944 por Hitler e Goebbels, com gente das artes visuais, literatura, música e teatro que foi dispensada dos esforços militares alemães em função de um talento “dado por deus”. Seus trabalhos seriam o contraponto à “degeneração” do cubismo, surrealismo, dodecafonismo e outras correntes modernas, numa ideia que faz sentido dentro da lógica nacional-socialista: como se sabe, essa foi uma ideologia que tentou fundir política e estética, com a última representando simbolicamente os ideais arianos classicistas /regressivos.

Nas décadas posteriores à guerra, uma parte desses artistas se dedicou a justificar suas antigas escolhas. Num vídeo que está no Historisches Museum, por exemplo, o pintor Paul Mathias Padua cita pequenas negativas e divergências com prepostos do regime para se declarar uma espécie de resistente discreto (tão discreto que ninguém ficou sabendo), o que contradiz sua alegação de ignorância quanto aos crimes oficiais do período (no qual ele já tinha mais de 30 anos). A conversa não cola, claro, porque tudo é autoexplicativo num tempo em que alguns faziam sucesso enquanto outros eram perseguidos e mortos, mas isso não impediu que as obras do autor fossem compradas por coleções institucionais e privadas da segunda metade do Século XX.

Do mesmo modo, o conforto material e até um certo prestígio acompanhou as décadas finais de muitos integrantes da lista de Hitler. Josef Wackerle seguiu dando aulas até se aposentar. Joseph Enseling fez trabalhos para indústrias no Vale do Ruhr. Willy Meller teve projetos patrocinados pelo Correio Alemão e concebeu um monumento às vítimas da guerra em Frechen. Josef Wackerle ganhou um prêmio em Munique e novas encomendas, como a colaboração no design de um prédio da Siemens em Erlangen, do mesmo arquiteto com quem atuou na época de ouro do nazismo.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 10-9-21. Integra aqui.

Fim de semana

Um livro – Casta, Isabel Wilkerson (Zahar, 556 págs.).

Um podcast – Mano a Mano.

Um memorial em Berlim – Topographie des Terrors.

Um documentário – The Collector, Pelin Esmer.

Outro –Val, Ting Poo e Leo Scott.

Sobre vírus e ratos

Susan Sontag dizia que existem dois polos no sentimento moderno, a utopia e a nostalgia. Se o primeiro foi dominante nos anos 1960, período que mais definiu a persona cultural e moral da escritora americana, em 2021 é o oposto: pouca gente consegue vislumbrar um amanhã alvissareiro em meio ao atual desastre político, sanitário, social e ecológico.

Contraditoriamente, a opção de olhar para trás – a única que nos restou – não tem dado um sentido histórico à realidade. Espremidos entre o mundo virtual, onde o passado é gerido seletivamente por corporações, e os desmandos de um governo retrógrado, cuja única noção de memória é a fantasia de uma ordem redentora na pior acepção do termo, vivemos num presente contínuo em que nada se move, nada se aprende.

Trecho inicial de texto sobre os novos romances de Bernardo Carvalho e Joca Terron, publicado no Valor Econômico em 27-8-21. Íntegra aqui.

Sofrimento e simpatia

Primeiro, uma fala do pintor Francis Bacon (1909-1992) no livro Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester (Cosacnaify, 208 págs., tradução de Maria Theresa de Resende Costa): “O sofrimento das pessoas e a desigualdade entre elas é o que gerou a grande arte (…). Quem se importa com um povo feliz ou se lembra dele? (…) É possível (…) que uma sociedade (…) seja lembrada pela perfeição de sua igualdade. Mas ela ainda não surgiu, e até agora, tanto quanto se sabe, quando lembramos de um povo é por aquilo que ele criou.”

Depois, um ataque do escritor Aimé Césaire (1913-2008) ao sociólogo Roger Caillois em Discurso sobre o Colonialismo, livro que comentei aqui meses atrás (Veneta, 136 págs., tradução de Rogério de Campos): “Os museus dos quais ele se envaidece, melhor seria, no geral, não precisar abri-los (…). A Europa [faria] melhor em tolerar ao seu lado civilizações vivas, dinâmicas e prósperas, inteiras e não mutiladas (…), em vez de nos permitir admirar, devidamente rotulados, os seus membros esparsos, os membros mortos (…). O próprio museu não é nada; ele não quer dizer nada (…) lá onde a beata satisfação consigo apodrece os olhos (…); onde, confessado ou não, o racismo silencia a simpatia (…). Não: na balança de conhecimento, o peso de todos os museus do mundo nunca será o mesmo de sequer uma centelha de simpatia humana.”

Penso nos dois trechos ao visitar o recém-inaugurado Humboldt Forum, de Berlim. Trata-se um museu que reúne acervos de etnografia, misturando ciência e arte, num antigo palácio prussiano cujo estilo arquitetônico original foi restaurado. A combinação entre forma e conteúdo do projeto, que demorou quase vinte anos para ser concluído, é motivo de polêmica há tempos: além das referências a glórias imperiais e cristãs na fachada do prédio, parte das coleções ali presentes foi montada durante o auge do colonialismo alemão e europeu.

O debate encontra eco num mundo crescentemente atento ao papel das instituições culturais – à não-neutralidade delas naquilo que adquirem, guardam e expõem. Muitas das peças do Forum, que está sendo visto como uma espécie de Museu Britânico berlinense e contemporâneo, têm a legitimidade contestada. Exemplo são cerca de 500 dos chamados Bronzes do Benim, produtos reconhecidos de saques ingleses no Século XIX que a Alemanha prometeu devolver à Nigéria nos próximos anos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 13-8-21, sobre o Humboldt Forum e a estátua do Borba Gato. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma fala – Caetano Galindo sobre T.S. Eliot (aqui).

Uma coleção em Berlim – Hamburger Bahnhof

Um exposição no Hamburger Bahnhof – Pauline Curnier Jardin.

Um texto – Juliana Cunha sobre Anna Kariênina (aqui).

Outro – Camila von Holdefer sobre J.M. Coetzee (aqui).

Fim de semana

Um romance – Correntes, Olga Tokarczuk (Todavia, 400 págs.).

Um lugar em Berlim – Haus der Statistik.

Outro – Savvy.

Uma exposição em Berlim – Arte apoiada pelo nazismo, no Deutsches Historisches Museum.

Um curta – November, Hito Steyerl (aqui).

Fim de semana

Um documentário – Woodstock 99, Garret Price.

Outro – Das War Thomas Bernhard (aqui).

Um livro – Discurso sobre a Metástase, André Santana (Todavia, 216 págs.).

Um texto – Sarah E. Bond e Joel Christensen contra o mito do herói (aqui).

Uma série de fotos – Nova York e o pós-pandemia (aqui).

Com a ponta dos dedos

Logo no início de Pretend it’s a City, série que fez algum sucesso ano passado na Netflix, Fran Lebowitz conta que gosta de caminhar em Nova York olhando para o chão. Enquanto fala, a escritora americana mostra calçadas enfeitadas com grafites, informações sobre prédios públicos, placas de bronze com frases de grandes nomes da cultura. “Eles têm esperança de que alguém ainda repare nisso”, diz ela, ironizando o fato de que 100% da nossa atenção hoje é voltada não para baixo nem para cima nas cidades, e sim para uma tela de celular.          

Penso nos vários aspectos dessa ironia ao olhar para o chão de Berlim. Nas calçadas daqui, há pequenas placas em frente a prédios de onde vítimas do nazismo foram retiradas para serem mortas. Algumas avenidas só existem num espaço urbano aberto pelos bombardeios dos aliados. E há os vestígios dos trinta anos em que a capital foi dividida pela guerra fria. Na Bernauer Strasse, perto da minha casa, pisa-se o tempo todo em lembranças desse último período: marcas de ferro que indicam o lugar onde passava o muro (ele ia de uma ponta a outra da rua), a grama de praças onde antes era o campo de visão dos guardas procurando dissidentes em fuga.

A Bernauer é simbólica por ser a via dos prédios divididos: as fachadas davam para o lado capitalista, os fundos para a então República Democrática Alemã (RDA). Ao longo dos anos de comunismo, os vãos das janelas foram cobertos com tijolos, e os moradores forçados a se mudar. Em meio ao processo, houve dramas de todo tipo – de irmãos separados por décadas a uma grávida que pulou do segundo andar, caiu numa rede de bombeiros e teve o bebê dois dias depois, num hospital de Berlim Ocidental.

Em episódios menos espetaculares, contudo, vê-se também a natureza profunda da RDA: sua capacidade de interferir no cotidiano usando uma máquina de controle cinzenta, metódica. São memórias assim que compõem A Vida dos Outros e a Minha, de Claudia Cavalcanti, livro cujo interesse se deve, antes de mais nada, à perspectiva brasileira usada para narrar (Editora Cultura e Barbárie, 112 págs., lançamento neste mês).    

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 30-7-2021. Íntegra aqui.

Fim de Semana

Um disco – Happier Than Ever, Billie Eillish.

Um texto – Donna Ferguson sobre a biografia de WG Sebald (aqui).

Um livro – Susan Sontag: The Complete Rolling Stone Interview, Jonathan Cott (Yale University Press, 145 págs.).

Uma entrevista – Camila Rocha sobre a nova direita brasileira (aqui).

Um filme – As Estátuas Também Morrem, Chris Marker e Alain Resnais.

O julgamento do infinito

No final de 1912, a editora alemã Rowohlt Verlag publicou uma reunião de “poemas em prosa” chamada Contemplação, estreia na literatura de um jovem tcheco chamado Franz Kafka. A tiragem foi modesta, 800 exemplares, e a recepção um tanto morna, com exceção de uma resenha assinada por um compatriota e amigo, Max Brod. “Consigo facilmente imaginar alguém botando as mãos no livro e constatando que sua vida se alterou por inteiro dali por diante”, ele afirmou, num tom que tinha algo de profético para além da banalidade superlativa.

Brod foi um autor de algum sucesso, tendo publicado romances, contos, ensaios e memórias. Seu nome teria se apagado da história literária, contudo, não fosse a decisão célebre que tomou em 1924: desrespeitando a vontade de Kafka expressa pouco antes de morrer, ele se negou a queimar os manuscritos do amigo. Entre eles estavam textos inacabados, que depois de edições póstumas viraram O Processo e Carta ao Pai: obras que só conhecemos porque escaparam pela segunda vez da extinção em 1939, quando Brod fugiu do nazismo num périplo de trem e navio que o levou de Praga a Tel Aviv.

Se a história da fuga é aventuresca, seu final tardio traz uma nota burocrática: em 2016, a Suprema Corte israelense se debruçou sobre uma disputa pela guarda de parte dos papeis. Os litigantes eram as herdeiras da secretária de Brod, para quem ele deixou os direitos em testamento, o arquivo de Marbach, entidade pública alemã para onde elas queriam vender um lote do material, e a Biblioteca Nacional de Israel, interessada no legado de um autor marcado pelo antissemitismo na diáspora. Os detalhes do caso, incluindo as inevitáveis chicanas técnicas e morais dos envolvidos, são narrados no ótimo O Último Processo de Kafka (Arquipelago, 272 págs., tradução de Rodrigo Breunig).

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 2/7/2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um texto – Bolsonaro e os judeus, por Fábio Zuker e Pedro Beresin (aqui).

Uma entrevista – Rosa Freire Aguiar sobre Celso Furtado (aqui).

Uma conversa – Luís Augusto Fischer e Nelson Coelho de Castro (aqui).

Um disco lançado agora – Umbigos Modernos (1988), Nelson Coelho de Castro.

Um romance – O Riso dos Ratos, Joca Reiners Terron (Todavia, 208 págs.).

Fim de semana

Um disco – Convocations, Sufjan Stevens.

Um museu em Berlim – Humboldt Forum.

Um livro – A Vida dos Outros e a Minha, Claudia Cavalcanti (Cultura e Barbárie, 112 págs.).

Um texto – Leonardo Padura sobre Cuba (aqui)

Uma entrevista – Ana Penido e Suzeley Kalil sobre o Partido Militar (aqui).

Uma ofensa à morte

“Não faças poesia com o corpo”, escreve Carlos Drummond de Andrade num poema célebre de A Rosa do Povo (1945). “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”; “Não cantes tua cidade, deixa-a em paz”; “Não recomponhas/ tua sepultada e merencória infância”; “vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família/ desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.”

Os versos soam como um chega para lá em certa lírica derramada, uma defesa do rigor da forma contra o sentimentalismo flácido: “Penetra surdamente no reino das palavras/ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intacta./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.”

Penso em Drummond ao abrir o mais recente livro de Ana Martins Marques, sua conterrânea mineira e um dos nomes centrais da nova poesia no país. Em Risque esta palavra (Companhia das Letras, 120 págs.), há um pouco dessa ideia de que tudo começa e termina na linguagem. Num nível superficial de entendimento, claro, trata-se de uma obviedade. Mas na compreensão do que faz a raridade de um bom poema, aqui está a chave mestra: se a busca da palavra exata não é condição suficiente no processo, é o mais necessário dos passos. Identificar essa palavra, o lugar intransferível dela dentro de uma sintaxe igualmente intransferível, é obrigar o estado de dicionário a abrir suas “mil faces secretas sob a face neutra”.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 16-7-2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma distopia – O Último Gozo do Mundo, Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 144 págs.).

Um museu em Dresden – Albertinum.

Outro – Residenzschloss.

Um terceiro – Japanisches Palais.

Um filme – Shiva Baby, Emma Seligman.

Fim de semana

Um perfil – Júlio Lancellotti por Angélica Santa Cruz (aqui).

Um romance – O Deus das Avencas, Daniel Galera (Companhia das Letras, 177 págs.).

Uma exposição em Berlim – Loie Hollowell, König Galerie.

Outra – Marc Bauer, Berlinische Galerie.

Uma série média – Morte em Vermelho.

Como escrever sobre o horror

Como escrever sobre o horror? A pergunta atravessa Guerra Aérea e Literatura, livro que reúne palestras dadas pelo ficcionista alemão W.G. Sebald em Zurique, em 1997, tendo como tema os romances produzidos em seu país logo depois do fim do nazismo.

O conjunto forma um ensaio rigoroso, no qual o autor é implacável com a geração que lhe precedeu. Para ele, a literatura alemã dos anos 1940 e 1950 começa a fracassar em virtude de um constrangimento histórico: o sentimento de culpa e humilhação do povo que pouco tempo antes havia posto Hitler no poder. Afinal, o empenho em fazer um retrato honesto de ações como os bombardeios aliados no fim da guerra, que reduziram cidades a pó sem diferenciar alvos civis e militares, poderia se confundir com algum tipo de denúncia relativista – ou, mais grave, de lamento pela sorte do III Reich no conflito.

Mas Sebald vai além da hipótese psicológica. A originalidade de sua tese é relacionar o problema moral com o problema estético: identificar na prosa alemã do período um “gesto de defesa diante da recordação”, como se o “funcionamento continuado da linguagem normal” fosse incompatível com a autenticidade de textos sobre um passado recente e catastrófico. Clichês como “noite fatídica”, “labaredas do céu” e “o diabo estava à solta”, presentes nos testemunhos sobre os bombardeios, chegam à ficção em equivalentes cujo efeito seria “esconder e neutralizar os acontecimentos que extrapolam a capacidade de compreensão” – a saber, as “intermináveis e empoladas abstrações” na velha guarda de escritores que trataram do tema, o “sentimentalismo” e o “queixume” na nova.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 23-4-21. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – Risque Esta Palavra, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 120 págs.).

Um texto – Otavio Frias Filho sobre Janet Malcolm (aqui).

Outro – Emilio Fraia sobre Juan Carlos Onetti e Michel Leiris (aqui).

Uma série bem Fassbinder – Berlin Alexanderplatz.

Uma bem sala de roteiro – Mare of Easttown.

Riso e horror no espelho

Um dos melhores romances do austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) fala de um sujeito chamado Reger, que há trinta anos cumpre o mesmo ritual: “a cada dois dias, com exceção das segundas”, postar-se por uma hora diante da pintura Homem de barba branca, de Tintoretto, numa sala de um museu em Viena. A história é hilária não pelo que (não) acontece, e sim pelo modo como é narrada por um amigo do protagonista, Atzbacher: sua voz imita a de Regel xingando os alvos mais diversos da cultura de sua época, num monólogo reiterativo e exuberante tipicamente bernhardiano (Old Masters, The University of Chicago Press, 156 págs., tradução para o inglês de Ewald Osers).

Numa análise rápida, dá para dizer que o livro fala de muitas coisas, mas não do próprio Homem de Barba Branca. A pintura é apenas um nome citado de passagem aqui e ali. A biografia e as questões formais que preocuparam Tintoretto são tópicos ignorados. Em vez disso, a apreciação estética no discurso de Reger/Atzenbacher tem um tom radicalmente generalizante: “Os historiadores da arte são os verdadeiros assassinos da arte”; “O negócio dos historiadores da arte é o mais vil dos negócios”; “Um historiador de arte tagarela, e só há historiadores da arte tagarelas, deve ser expulso do mundo da arte a chicotadas.” Na moral convicta dessa voz, que é a moral irônica de Bernhard, a hipocrisia e obtusidade do mundo moderno desvirtuariam uma espécie de ideal – a verdade que pode estar num livro, numa peça de música, numa tela.

O que Reger vê no museu, contudo, e sem comunicar isso a Atzbacher, que por sua vez não comunica ao leitor, talvez seja a representação possível dessa verdade. A obra de Tintoretto funciona no livro como referência quase subliminar, o ponto na comparação com o qual se degrada a cultura que Bernhard satiriza. Não sei por que Homem de Barba Branca foi usado como mote de Old Masters, mas a razão poderia ser até literal: afinal, o que mais chama a atenção no quadro pintado pelo italiano são os olhos do retratado. Por causa da severidade deles, da assertividade inegociável com que eles conduzem e fixam nossa atenção, esta imagem de 1545 jamais foi nem será passiva. Olhar para ela traz sempre um incômodo: nos tornamos também objeto de escrutínio, assim como a sociedade da qual fazemos parte, do mesmo modo que acontece – bingo – ao lermos romances como os de Thomas Bernhard.

Trecho inicial de texto sobre Bernhard, Gerhard Richter e o nazismo, publicado no Valor Econômico, 18.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Uma série – Babylon Berlin.

Uma exposição em Berlim – Yael Bartana no Museu Judaico.

Uma entrevista – Marcos Nobre sobre Bolsonaro 2022 (aqui).

Um programa – Netanyahu x Israel, no The Daily.

Um filme de 1988 – Chocolat, Claire Denis.

Alemão aos oitoequarenta

Meu pai era de Berlim. Nasceu em 1930 e saiu pouco antes da Segunda Guerra, num daqueles últimos navios que serviram de fuga aos judeus. Durante uns bons 30 anos, ele manteve com a Alemanha uma relação desconfiada por motivos óbvios, e só foi se reconciliar com as próprias origens em algum ponto dos anos 1970 – quando a situação financeira lhe permitiu fazer a primeira das muitas viagens que faria à terra natal até morrer, em 2010.

Conto essa história porque em 1994 apresentei meu pai a um amigo de Hamburgo, e os dois conversaram no idioma que acabei não aprendendo na infância (um pouco, quem sabe, por causa dessa desconfiança familiar) e nem mais tarde (aí por preguiça mesmo). Esse amigo comentou depois: “Seu pai fala um alemão que não existe mais”. De fato: a exemplo da Berlim e do mundo dos anos 1930, certos detalhes do vocabulário e da prosódia usada na época viraram ruínas – persistindo apenas na memória de quem não teve contato com as mudanças na expressão oral corrente do país ao longo das décadas.

Gosto de pensar na língua como uma espécie de museu. Transportando o exemplo para o português, é nele que ainda estão gírias de época, antigos bordões de novelas, apelidos usados por casais que deixaram de se ver. No meu caso, e em vários sentidos, a Porto Alegre onde fui criado e de onde saí há quase vinte e cinco anos – a evocação de suas pessoas, lugares, fatos – sobrevive em determinadas expressões, determinadas sílabas de um sotaque que só à distância aprendi a identificar com clareza.

A imagem do museu, contudo, refere-se ao que essa instituição passou a ser em décadas recentes: não apenas um guardião do passado, mas um instrumento capaz de reinventar a história sobre a qual se debruça, discutindo suas repercussões na vida dos que foram e serão tocados por ela. É uma operação que também aponta para o futuro: é na língua que começam debates sobre certas heranças da barbárie – em termos como “mulato” ou “judiação” –, sobre vieses políticos – chamar alguém de “manifestante” ou “vândalo”, de “combatente” ou “terrorista” – a serem ou não reproduzidos.

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 4.6.2021. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um livro – O Último Processo de Kafka, Benjamin Balint (Arquipélago, 272 págs.).

Um capítulo de livro – Isabel Wilkerson sobre os EUA e o nazismo (aqui).

Um podcast – Lawrence da Arábia no História FM.

Uma exposição em Berlim – Gerhard Richter na Alte Nationalgalerie.

Outra – Gerhard Richter na Max Liebermann Haus.

Egopress

Neste sábado, 29/5, às 11h, participo de uma conversa sobre judaísmo contemporâneo no Zoom da Casa do Povo/SP. Link para entrada: Bit.ly/circulo40

Solução de dois Estados é o livro do mês num dos clubes de leitura da Escrevedeira, coordenados por Luciana Gerbovic e Flavio Cafiero. Informações aqui.

Artigos acadêmicos sobre meus livros que só fui ler agora: Maria Malka, da UFRGS, sobre Solução de Dois Estados (https://cutt.ly/0xSBMe0); Marcio Markendorf e Marthina Baldwin, da UFSC, sobre O Tribunal da Quinta-Feira (https://cutt.ly/RxSVmZ7); Felicio Dias, da Unicamp, sobre A Maçã Envenenada (https://cutt.ly/7xSVZid); Pedro Kalil, da UFU, sobre O Segundo Tempo (https://cutt.ly/Anuj7Kl).

Entrevistas recentes: para a Przekroj Magazine, da Polônia, por Aleksandra Lipczak (https://cutt.ly/xb4di9y), e para o Bemdito, por Jáder Santana (https://cutt.ly/tnukaDf).

Arquitetura, inteligência e desastre

Entrevista que fiz com Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) para a revista Bravo, edição de setembro de 2003:

O que a arquitetura pode fazer diante do caos contemporâneo?

Se você pensar na África e em outros lugares, o problema é muito mais social que arquitetônico, evidentemente. Só que eu digo que a arquitetura pode resolver os problemas como forma de abrir a discussão. Essa questão encerra o conflito básico dos dias de hoje, a inteligência contra a estupidez, contra a “rota do desastre”. Há muito engano quando se diz que a arquitetura pretende fazer isso ou aquilo. Na verdade, ela vem, desde a origem do homem, numa posição de resolver problemas. Ocorre que os “problemas” não existem previamente: eles são criados. O homem acrescenta a ideia de desejo às suas necessidades básicas, e a arquitetura é o sucesso da realização de desejos. O que nós estamos vendo no mundo de hoje é a degenerescência, mas ela só pode surgir a partir do que é bom. Há a especulação imobiliária, que é negativa, mas ela parte do edifício vertical, uma maravilha de êxito humano, do ponto de vista da mecânica dos fluidos, sólidos etc. É maravilhoso você poder abrir uma torneirinha no 15º andar em Copacabana e lavar roupa, enquanto suas crianças tomam banho de mar a um quarteirão de distância.

A existência do caos se deve ao progresso, no bom sentido?

Sim, são os contratempos que o homem sempre enfrentou entre êxito e degenerescência. Claro que pode ser o desastre final, como no caso da energia atômica, coisas assim. Temos de ser cuidadosos. Mas pode -se ainda ter esperança de algum consenso pra corrigir esta rota do desastre. A ideia da ecologia, por exemplo, gera a noção de futuro, porque é uma ideia popular de consciência sobre a natureza. Nós não estamos aqui para nenhuma missão extraordinária que não seja possibilitar a permanência do ser humano no universo.

O conceito de arquitetura como algo que deva resolver os problemas está errado? A arquitetura deve se preocupar em planejar algo novo ou trabalhar sobre o que já existe?

O conceito está certo. É tudo o que temos. A arquitetura navega no âmbito da política. A ideia de uma justa urbanização, de organização dos homens nesse desejo da cidade contemporânea, não pode ser concretizada se não for planejando, experimentando, acertando e errando para fazer algo que possa ser exitoso. O que já existe deve ser tomado como experiência. É o caso dessa história de “reviver” os centros. Mas por que eles devem ser “revividos”, se ali está a matriz, a base? O centro deveria ser a suprema experiência do êxito. E de fato é, porque ali estão concentradas as melhores instalações de água, esgoto, telefonia, transporte etc. O centro é abandonado por uma rejeição da própria cidade — que, ao surgir, é democrática. Se você deitar numa calçada do centro por 15 minutos, ninguém vai importuná-lo. Tente fazer isso num bairro rico, e um jagunço logo estará no seu encalço. A cidade é um desenho que existe na cabeça do homem antes de sua concretização. Portanto, ela pode ser justamente projetada. Essa expectativa de êxito da técnica, da ciência e das artes a um tempo só, e isso é arquitetura, é perfeitamente plausível. Tanto que há exemplos banais de mais ou menos êxito. Para ficarmos em São Paulo, na avenida Paulista a melhor quadra é a do (centro comercial) Conjunto Nacional. É a única em que você não encontra automóvel saindo na calçada — eles saem pela rua secundária. É bastante simples, uma questão de disposição espacial. O Conjunto Nacional é misto, ficaram escritórios e habitações, e ali há comércio e metrô. Então, é possível. Mas é preciso um grande consenso. O urbanismo é menos coisa feita do que associação de homens.

Quem está pensando a arquitetura hoje?

O mundo inteiro. A ideia de revitalização das áreas centrais é mundial, e também pode se degenerar por causa da visão ideológica de certos valores de nossa existência. Por exemplo, a cultura. Fazendo uma caricatura, a cultura ficou como uma ideia de vaguidão específica. Fazem- se centros culturais, e ninguém sabe o que eles são. E ao mesmo tempo é uma batalha conseguir uma sede adequada para um corpo de baile da cidade, para a orquestra sinfônica. Esses centros não são genéricos, são especificamente dirigidos a uma parte da população. Pegar a sede de um banco, por exemplo, e transformar em centro cultural é absurdo. Era melhor que o banco continuasse banco, e que você construísse o adequado centro cultural. Você deixa de inventar para construir de forma indevida. Não dá pra generalizar tudo: antigos armazéns industriais podem virar ótimos pavilhões artísticos etc. Só que também não se deve generalizar para o outro lado, no sentido de que esses projetos sejam sempre “bons”.

Você fala de motivação ideológica. Existem a esquerda e a direita na arquitetura?

O que talvez mais caracterize essa separação é a exclusão: alimentar a ideia de bairros exclusivamente assim ou assado; você desenvolver de modo exacerbado, como elemento de exclusão, a ideia da insegurança ou da violência, como se ela pudesse ser resolvida apenas pela repressão. A cidade é feita com casas. Só a exclusão da moradia simples, popular, das áreas centrais já é um absurdo. O prédio Copan, em São Paulo, é um exemplo lindo de uma perspectiva de novos espaços realizados no centro da cidade. Há apartamentos de 50 m2, de 100 m2. Não é o pequeno que caracteriza a pobreza: você pode ser sozinho e viver muito bem num apartamento de 50 m2. Pode ser o primeiro violoncelista da Orquestra Sinfônica e ir a pé para o trabalho. Ter a coragem de ver na pobreza aspectos invejáveis de liberdade, por exemplo, de independência em relação à propriedade. A propriedade pode ser, hoje, um grande absurdo. A ideia de comprar um pedaço do território do planeta é um pouco absurda. Você vive na cidade. A parte pública deveria ser muito mais a sua casa do que esse espaçozinho, cuja imagem querem vender ao pobre como algo ideal, um índice de felicidade que deve ser perseguido.

Quais são os inimigos dessa vida pública? O que impede as pessoas de aproveitar mais a vida fora de casa?

Tenho impressão de que é a falta de curiosidade para saber como funcionam as coisas do mundo. A conversa, o bar, o botequim, o cinema, o teatro, o jornalismo são as principais riquezas que a cidade tem a oferecer — ela mesma como a grande universidade do conhecimento.

Como a arquitetura entra aí?

A arquitetura deseja construir essa cidade que é tecnicamente rigorosa, para que o prédio não caia e o sistema de transporte funcione, mas que não quer subordinar a vida de ninguém a nenhuma disciplina. Muito pelo contrário. Essa excelência técnica é para possibilitar uma espacialidade que torne possível a imprevisibilidade da vida, da liberdade de cada um.

A relação entre arquitetura e Estado tem funcionado?

Em geral, muito pouco.

E com a iniciativa privada?

Não gosto de dividir as coisas entre Estado e iniciativa privada. Esses cortes são esquizofrênicos, porque é impossível abolir o privado, e improvável que o mundo ande apenas pelas iniciativas privadas. Essa iniciativa surge por sedução de projetos que não são dessa esfera — na telefonia, na comunicação etc. Ninguém “privado” inventou o transporte; a ideia é pública. Essa divisão, do modo como é explorada hoje, para cristalizar ideologicamente, é tola.

Da época em que você começou a dar aula até hoje, como a ideia do que seria bom para a cidade evoluiu na universidade?

Houve até uma sadia atualização, e no mundo inteiro. Essa questão é muito interessante para nós, da América. Na Europa, de modo geral, passou-se por um processo de reconsideração urgente da questão porque eles estavam reconstruindo cidades bombardeadas. E nós, que não tivemos guerra, tivemos e temos que construir cidades na natureza, que não existiam e não existem. É um contraponto que nos dá uma importância muito grande no plano do conhecimento universal. O prestígio que a arquitetura brasileira tem no mundo talvez venha muito daí, da manifestação que expusemos da consciência de fundar cidades na natureza. E não é só Brasília: há Maringá, Londrina, Belo Horizonte. Elas não são maravilhas por si só, mas, como tentativas, são. Porque são experimentações, e são melhores que as outras, mesmo que já estejam ficando degeneradas. A visão de que tínhamos e teremos como fundar cidades, da maneira como queremos, fora das construções coloniais, é belíssima. E também a de São Paulo como algo que tem de ser feito e refeito sobre si mesma é interessante.

E como deveria ser a cidade do futuro?

É impossível saber, mas, como exercício, eu diria que o parâmetro seria a tranquilidade das pessoas. A aflição liquida com a liberdade e a capacidade criativa do homem. Por que se põe a população pobre na periferia? Para que ela não tenha tempo para nada. O tempo livre ela gasta em transporte, no cuidado com a saúde dos filhos etc. A cidade feliz apaziguaria esses problemas, que são frutos de uma mecânica. O transporte público, por exemplo, é fundamental. O automóvel teria de ser abolido como transporte principal. Você pode imaginar um pronto-socorro sobre rodas, mas não o transporte de cada um. Ele é uma estupidez. E o homem que assiste à própria estupidez é um homem que tende rapidamente à degenerescência. O transporte público será um prazer para o homem, que poderá ler o seu jornal, que poderá até perder o próximo trem, porque haverá vários em intervalos pequenos, poderá tomar uma cerveja com um amigo. Isso faz um novo cidadão. Um homem senhor de seus tempos de vida, de seus minutos. Não será mais questão de perguntar “o que você fez nos últimos dez anos”, e sim “o que você fez nos últimos dez minutos”.

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