Michel Laub

Ausência

O blog volta em 2016.

Fim de semana

Um documentário – Joe Strummer, the future is unwritten, Julien Temple.

Um filme – Pasolini, Abel Ferrara.

Outro – Órfãos do Eldorado, Guilherme Coelho.

Uma reportagem – Megan Phelps-Roper e a deserção da Westboro Baptist Church (aqui).

Um livro – Brasil, uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling (Companhia das Letras, 792 págs.).

Egopress

1) Nesta sexta, 13/11, às 19h, estarei numa das mesas do EMIL (1º Encontro Internacional de Criação Literária), na Livraria Cultura do Shopping Market Place, em São Paulo. Mais informações aqui.

2) Dia 28/11, às 16h30, participo de uma mesa na Bienal do Livro de Alagoas. Programação completa do evento aqui.

Fim de semana

Uma resenha – Karl Ove Knausgaard sobre Michel Houellebecq (aqui).

Um artigo/entrevista – James Hambling/Alan Levinovitz sobre comida x moral (aqui).

Um filme médio – The end of the tour, James Ponsoldt.

Um documentário médio de TV – Richard Pryor, Icon.

Uma montagem (mas já saiu de cartaz) – Caesar, dir. Roberto Alvim.

O Rei de Jerusalém em alto-mar

Joseph Conrad em A linha de sombra (Hemus, 165 págs., tradução de Maria Antonia Von Acker):

“Havia momentos em que eu sentia não só que iria enlouquecer, mas que já tinha enlouquecido; de modo que não ousava abrir a boca por medo de me trair com algum grito insano. Felizmente só tinha ordens a dar, e uma ordem tem uma influência estabilizadora sobre aquele que a deve dar. Além do mais, o marinheiro, o oficial de quarto dentro de mim, estava suficientemente são. Eu era como um carpinteiro louco fazendo uma caixa. Por mais que ele estivesse convencido de ser o Rei de Jerusalém, uma caixa que ele fizesse seria uma caixa sã.”

Fim de semana

Um filme – Love & Mercy, Bill Pohlad.

Um documentário de 2011 – Page one: inside the New York Times, Andrew Rossi.

Uma reportagem – Vida, morte e pós-morte de um anônimo em NY (aqui).

Uma palestra – Gilberto Vasconcellos sobre Câmara Cascudo (aqui).

Um disco – Fading Frontier, Deerhunter.

Cobras, gatos, netos

Francisco Alvim em O metro nenhum (Companhia das Letras, 89 págs.):

COBRA – a que continua viva/ depois de morta/ é a que pica mais forte// Por isso é mister/ esconder o pau/ (e não mostrá-lo/ como pensa o vulgo)// Assim nunca saberá/ a cobra/ de onde baixa o porrete/ eternidade afora

PIORA – Adotou um gatinho/ que ia visitar toda semana/ no asilo/ de gatinhos velhinhos/ Quis procurar o dono do cavalo/ cabisbaixo/ fincado nas quatro patas/ que via todo dia na beira/ do trilho/ quando passava no/ trem/ Uma vez quase desceu de sua sala/ para falar com o mendigo da praça/ dono de um cachorro/ mais estropiado do que o/ admissível/ cujo sofrimento era o dele/ cachorro/ e o dela

HISTÓRIAS DE NETO – São muito chatas/ Mas esta vale a pena/ A babá/ mocinha tinha treze catorze anos/ resistiu quanto pôde/ mas acabou que/ confessou tudo/ Só que o tudo era outra coisa/ muito pouco/ quase nada/ cinco reais um lençol um quilo de arroz/ o Cartier, negou/ Ele três aninhos só ouvindo/ e/ de repente:/ (nunca vi criança tão inteligente)/ Mas que perigo/ podiam ter roubado/ a minha chupeta

Fim de semana

Uma reportagem – Consuelo Dieguez sobre o BNDES na Piauí.

Um relato – Oliver Sacks sobre os últimos anos de Spalding Gray, idem.

Um documentário médio – Life itself, Steve James.

Outro – Keith Richards: under the influence, Morgan Neville.

Um livro – O oitavo selo, Heloisa Seixas (Cosac Naify, 192 págs.).

O universo é um eufemismo

Mathieu Lindon em O que amar quer dizer (Cosac Naify, 287 págs., tradução de Marília Garcia):

“Tenho tendência a dizer ‘Menti’ em vez de ‘Me enganei’, ‘Posso roubar seu lápis por um minuto?’ em vez de ‘Me empresta?’, porque é assim que gosto de brincar com a língua, como meu irmão adolescente dizia que era preciso ‘comer os remédios’, que é o que todo mundo faz, só que ninguém diz dessa forma. Gosto de injetar um pouco de inadequação, de brutalidade na linguagem porque não consigo evitar que, seja qual for a situação, mesmo a mais delicada, a brutalidade e a inadequação sejam sempre a melhor maneira de descrevê-la. O universo inteiro não passa de um eufemismo.”

Feriado

Um documentário – Amy, Asif Kapadia.

Outro –Who Is Harry Nilsson (And Why Is Everybody Talkin’ About Him)?, John Scheinfeld.

Um filme estranho – Jauja, Lisandro Alonso.

Um romance brasileiro – O ano em que vivi de literatura, Paulo Scott (Foz, 251 págs.).

Outro – Enquanto Deus não está olhando, Débora Ferraz (Record, 366 págs.).

Egopress

Nesta sexta, 9/10, às 20h, estarei com a Clara Averbuck numa das mesas da Feira do Livro de São Luís/MA. Programação completa aqui.

Fim de semana

Uma coletânea de poesia – O Livro das semelhanças, Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 108 págs.).

Um romance – Pssica, Edyr Augusto (Boitempo, 94 págs.).

Um filme – A pele de vênus, Roman Polanski.

Um filme médio – Love, Gaspar Noé.

Um disco – B’lieve I’m goin down…, Kurt Vile.

Velhos

Microcontos de Dalton Trevisan em Pico na veia (Record, 239 págs.), Ah, é? (Record, 137 págs.) e 99 corruíras nanicas (L&PM, 112 págs.):

1.

O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente o velho:

– Sua diaba. Para de ficar ouvindo o meu pensamento!

2.

O velho:

– Acordo às três da manhã. Daí começo a brigar.

– Com quem?

– Com a minha cabeça.

3.

Como dormir se, para os mil olhos da insônia, você só tem duas pálpebras?

4.

A velha:

– Por que você abre a boca, João, quando olha para cima?

– Não sou eu. É o queixo que cai.

5.

Enfim sós, e a velhinha toda meiguice:

– Mais um dia em que me arrependo de ter casado com você.

6.

– Sempre vaidoso, o meu velho. Primeiro me fez ir ao alfaiate. Estreitar um palmo na cintura da calça.

–Tão acabadinho, coitado.

– Agora vou ao sapateiro. Mais três furos no cinto.

– Será que desconfia?

– Bem iludido, o pobre. Daquela cama se levanta nunca mais.

7.

O velho em agonia, no último gemido para a filha:

– Lá no caixão…

–Sim, paizinho.

–…Não deixe essa aí me beijar.

8.

– Se um de nós faltar… ai, João…

– Durma, velha.

– …o que vai ser de mim?

9.

– Por que ele está demorando tanto?

Se pergunta no fim do dia a viúva inconformada, sondando tristinha pela janela.

10.

Olhinho perdido na janela, suspira o velho:

– O que será que o meu canarinho anda fazendo?

Fim de semana

Um romance – Sérgio Y vai à America, Alexandre Vidal Porto (Companhia das Letras, 181 págs.).

Uma edição – Pais e filhos, Turguêniev (Cosac Naify, 352 págs.).

Uma reportagem – Kathryn Schultz sobre o Grande Terremoto Inevitável na New Yorker (aqui).

Um filme convencional bom – Mr. Turner, Mike Leigh.

Um filme convencional médio – Nocaute, Antoine Fuqua.

O oráculo divergente

No dia 19 de maio de 1990, a banda de rock Legião Urbana subiu ao palco do Gigantinho, em Porto Alegre, para um dos shows da turnê do LP As Quatro Estações, lançado no fim do ano anterior. Há um vídeo dessa apresentação no YouTube (https://goo.gl/xyUEzw), no qual os enquadramentos são um tanto estáticos para os padrões atuais desse tipo de transmissão. A imagem é ruim, o som é achatado, há cortes e um ligeiro delay em alguns trechos. Renato Russo, o vocalista, letrista e líder do grupo, usa um bigode e uma camisa de estampa abotoada no colarinho que poderiam ser transportados para uma caricatura hipster de 2015.

A precariedade e o anacronismo do que aparece na tela nos direcionam para uma apreciação irônica, condescendente. E, no entanto, minha memória daquela noite tem outro registro. Eu acabara de completar 17 anos e estava terminando o colégio. O ingresso que havia comprado era falso e, ao ser barrado na roleta, fui encaminhado para uma sala no Estádio Beira-Rio, do Internacional, que fica ao lado do Gigantinho. A produção manteve ali cerca de trinta vítimas do golpe, com a promessa de permitir nossa entrada caso não houvesse risco de segurança num ginásio já superlotado – o que acabou ocorrendo durante a terceira música do show.

Dois amigos estavam junto comigo. Começamos a beber cerveja no percurso de ida e continuamos ao longo da noite. Também cheiramos um pano embebido numa solução de éter. Fazia frio em Porto Alegre, e foi a última das três vezes em que vi Renato Russo se apresentar. Nas décadas seguintes, a frequência com que eu ouvia suas músicas foi diminuindo até quase desaparecer. O legado de sua obra teria sobrevivido apenas em um conjunto disforme de lembranças, ganhando os sentidos que a manipulação afetiva impõe a elas, se fatores culturais e tecnológicos não estimulassem a revisita a esse passado – e, como efeito, uma mudança na forma como vejo minha própria experiência.

Trecho inicial de texto publicado na revista Piauí, setembro de 2015. Íntegra para assinantes aqui.

Feriado

Um vídeo – Nelson Rodrigues sendo Nelson Rodrigues (aqui).

Um disco de 2004 – Le Fil, Camille.

Um disco de 2014 – Granada, Sílvia Pérez Cruz.

Um romance – Tirza, Arnon Grunberg (Rádio Londres, 460 págs.).

Uma série apesar de etc. etc. – Narcos.

Objetos

Poemas do livro Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques (Companhia das Letras, 83 págs.):

COLHER – Se o sol nela/ batesse/ em cheio/ por exemplo/ numa mesa posta/ no jardim/ imediatamente se formaria/ um pequeno lago/ de luz

GARFO – Em três ramos/ floresce/ o metal

FRUTEIRA –  Quem se lembrou de pôr sobre a mesa/ estas doces evidências/ da morte?

CANTEIRO – Onde a casa cresce/ sem projetos/ ao sabor do sol/ das sombras/ e atenta/ ao noticiário/ das nuvens

TORNEIRA – Quem abre a torneira/ convida a entrar/ o lago/ o rio/ o mar

Fim de semana

Uma entrevista de 1996 – Caetano Veloso no Roda Viva (https://goo.gl/PJQm11)

Um filme de 1981 – Meu jantar com André, Louis Malle.

Duas palestras – Esper Cavalheiro e José Miguel Wisnik sobre música e ciência (https://goo.gl/N8FDAx)

Um vídeo – Cor e narrativa no cinema (http://goo.gl/RLQl5n)

Uma exposição de fotos – Coletivo Rolê, Mirante 9.

Egopress

Nesta semana estarei em dois eventos do Café Amsterdã, que reúne escritores brasileiros e holandeses em São Paulo: quarta, 26/8, lendo trechos de livros sobre as duas cidades com Arnon Grunberg, Toine Heijmans, Tommy Wieringa, Daniel Galera e apresentação de Paulo Werneck (Casa das Rosas, 19h), e sexta, 28/8, num debate sobre literatura e moralidade com Arnon Grunberg e mediação de Arthur Dapieve (Livraria Martins Fontes, 19h). Programação completa do Café: http://goo.gl/IXG1N7

Fim de semana

Uma exposição – Artistas britânicos, Pinacoteca.

Um disco – Abyss, Chelsea Wolfe.

Outro – É, Duda Brack.

Um texto – Margaret Atwood e o fim do mundo (aqui).

Outro – Camila Von Holdefer sobre literatura e empatia (aqui).

Um casamento: preparativos, cerimônia e festa

Trechos de A amiga genial, de Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 331 págs., tradução de Maurício Santana Dias), que se passa em Nápoles, no pós-guerra:

“Jamais a tinha visto nua, me envergonhei. Hoje posso dizer que foi a vergonha de (…) ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes que Stephano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a (…). Imaginei-a (…) envolvida pelo marido, na cama da casa nova (…), e subitamente me pareceu que o único remédio contra a dor que eu estava sentindo, que sentiria, era achar um canto bem afastado para que Antonio fizesse em mim, naquela mesma hora, o mesmo e idêntico ato (…).

Na cozinha, esperando-nos com impaciência, prontos há um bom tempo, estavam Fernando e Nunzia. Nunca os tinha visto tão arrumados. Naquela época os pais dela, os meus, todos os pais me pareciam velhos. Eu não fazia grande distinção entre eles e os avós maternos, os paternos, criaturas que a meus olhos tinham todas uma espécie de vida fria, uma existência sem nada em comum com a minha, com a de Lila (…). As pessoas realmente devoradas pelo calor dos sentimentos, pela ânsia dos pensamentos, éramos nós. Somente agora, enquanto escrevo, me dou conta de que, naquela época, Fernando não devia ter mais de quarenta e cinco anos (…). A mesma coisa valia para os meus pais, cuja idade posso ser mais precisa: meu pai tinha trinta e nove anos, minha mãe, trinta e cinco. Olhei-os demoradamente naquele dia, na igreja. Senti com irritação que meu sucesso nos estudos não os consolava nem um pouco, ao contrário, sentiam – especialmente minha mãe – que se tratava de uma inútil perda de tempo (…). Minha mãe (…) me olhou para que eu sentisse o peso de estar ali, de óculos, distante do centro, enquanto minha amiga malvada conquistara um marido de posses, uma atividade econômica para a família, uma casa toda sua (…) com uma banheira, geladeira, televisão e telefone (…).

Era evidente que todos os que tinham recebido o convite não quiseram faltar ao casamento, e mais, se apresentaram vestidos com muita elegância, e isso significava (…) que não poucos (…) precisaram pedir dinheiro emprestado. Então olhei Silvio Solara, grande, em trajes escuros, de pé ao lado do noivo, muito ouro cintilante nos pulsos. Olhei sua esposa, Manuela, vestida de rosa, carregada de jóias, postada ao lado da noiva. O dinheiro de toda aquela ostentação vinha dali (…). O casamento de Lila era de fato um negócio não só para o florista, não só para o fotógrafo, mas sobretudo para aquele casal, que entre outras coisas também tinha fornecido os pratos da recepção, do antepasto ao bolo (…).

Foi durante o percurso que (…) comecei a me sentir claramente uma estranha, infeliz por meu próprio estranhamento. Eu tinha crescido com aqueles rapazes, considerava seu comportamento normal, a língua violenta deles era a minha. Mas seguia cotidianamente, já há seis anos, um percurso que eles ignoravam por completo, e que eu, ao contrário, trilhava de modo tão brilhante que chegava a ser a melhor. Com eles eu não podia usar nada daquilo que aprendia diariamente, tinha que me conter, de alguma maneira me autodegradar. O que eu era na escola, ali era obrigada a colocá-lo entre parêntesis ou a usá-lo à traição, para intimidá-los. Me perguntei o que estava fazendo naquele carro. Ali estavam meus amigos, certo, ali estava meu namorado, estávamos indo à festa de casamento de Lila. Mas justamente aquela festa ratificava que Lila, a única pessoa que eu sentia ainda necessária malgrado nossas vidas divergentes, não nos pertencia mais, e, com sua retirada, toda mediação entre mim e aqueles jovens, aquele carro correndo por aquelas ruas, se exaurira (…).

Havia um rumor de descontentamento no salão. Os convidados mais ressentidos logo começaram a notar os detalhes que não iam bem. O vinho não era da mesma qualidade para todas as mesas. Alguns já estavam no primeiro prato, enquanto outros não tinham sido sequer servidos do antepasto. Já havia quem dissesse em alto e bom som que, onde estavam sentados os parentes e amigos do noivo, o serviço era melhor do que onde se sentavam os parentes e amigos da noiva (…).

Dançavam jovens, adultos, crianças. Mas eu sentia o que realmente havia por trás da aparência de festa. As caras tortas dos parentes da noiva, especialmente das mulheres (…). Tinham se sacrificado pelo presente, pela roupa que estavam vestindo, tinham se endividado, e agora eram tratados como pedintes, com vinho ruim e atrasos intoleráveis no serviço? (…) Iriam conter a raiva por amor a Lila, mas no final da recepção (…) estouraria uma briga monumental, que originaria ódios de meses, de anos, despeitos e insultos que envolveriam maridos, filhos, todos com obrigação de mostrar a mães e irmãs e avós que sabiam bancar os machões. Eu os conhecia. Via os olhares ferozes dos rapazes voltados para o cantor, para os músicos que olhavam suas namoradas de modo deselegante, ou se dirigiam a elas com frasezinhas ambíguas. Via como Enzo e Carmela se falavam enquanto dançavam, via também Pasquale e Ada sentados à mesa: era evidente que, terminada a festa, eles ficariam juntos, mais tarde noivariam e com toda a probabilidade daqui a um ano, daqui a dez, estariam casados. Via Rino e Pinuccia. No caso deles tudo seria mais rápido: se a fábrica de calçados Cerullo realmente progredisse, no máximo daqui a um ano teriam uma festa de núpcias não menos luxuosa que aquela. Dançavam, se olhavam nos olhos, se apertavam com força. Amor e interesse. Charcutaria mais sapataria. Edifícios velhos mais edifícios novos. Eu era como eles? Ainda era?”

Fim de semana

Um romance – A amiga genial, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 331 págs.).

Uma reportagem – Dias de luta, Ricardo Alexandre (Arquipélago, 439 págs.).

Outra – Daniela Pinheiro sobre Roger Abdelmassih na Piauí.

Um documentário médio –  Winnebago man, Ben Steinbauer.

Outro – Dear Mr. Watterson, Joel Allen Schroeder.

O que está escondido em ‘Mad Men’

Trecho de um artigo que Enrique Vila-Matas publicou no El País em março (íntegra aqui):

“Ouvi [Matthew] Weiner [criador de Mad Men] dizer que era fascinado pela estrutura de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, onde o narrador sai em busca de Kurtz, mas no caminho se envolve em incontáveis digressões, e, na realidade, essas digressões são (…) o relato em si. (…). Era aí que eu queria chegar: possivelmente o século XIX foi o dos ‘grandes romances’, e o XX, por outro lado, a era do fragmento, o reencontro do narrativo com sua essência, com o conto, com o relato breve.

Depois de tudo, muitos dos grandes romances do século XX são construídos com a lógica do fragmento, como se seu verdadeiro coração fosse o relato, algo que, obviamente, não é fácil de demonstrar, embora possa chegar a ser quando se atenta para o ditado daquela Tese sobre o conto em que Ricardo Piglia afirma que um relato sempre conta duas histórias. O conto, diz Piglia, é um relato que encerra um relato secreto, é construído para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto: reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. ‘A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não em uma longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato’, dizia Rimbaud.

A tese de Piglia me faz pensar que se a densa trajetória do romance do século XX contivesse alguma história secreta, esta giraria em torno da hábil camuflagem do texto breve, do fragmento, da unidade de conto no interior da alma central de seu grande labirinto. Conrad, Cheever, já citados aqui, junto a Nabokov, Walser, Kafka, Ballard, Philip K. Dick, Sebald, Beckett e outros, seriam então alguns dos praticantes mais brilhantes de uma grande simulação que consiste em reabilitar secretamente o conto sob a falsa aparência de estar criando romances, ou seja, situá-lo o em uma linha de continuidade com relação aos grandes romances do século XIX.

Uma grande simulação que se compreende melhor quando se aplica a tese das duas histórias de Piglia, onde se explica que a variante fundamental que Borges introduziu na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada, da história que vai por baixo da supostamente principal, o tema do relato (…). Nas cenas de Mad Men (…) fui lentamente entrando em contato com o modo de trabalhar de Weiner e vi que também ele operava ao modo borgiano, isto é, que a história que em Mad Men ia por baixo da supostamente principal – a história aparentemente secundária ou segundona da batalhadora Peggy Olsen (Elisabeth Moss) e suas colegas de escritório – era na realidade a trama secreta, o centro da narrativa, o eixo verdadeiro de tudo. E também percebia que, acontecesse o que acontecesse, no fundo da cena sempre estava Peggy (…), que ela era não só a trama secreta, mas também o gênero segredo oculto no próprio eixo da narrativa. Então Peggy é um conto? Acredito que sim, que ela é a trama secreta, mas também – porque essa trama está repleta de unidades de contos – o próprio gênero camuflado dentro da estrutura geral de romance, o verdadeiro gênero utilizado para a narrativa global posta em marcha por Weiner.”

Fim de semana

Uma edição – Ficção completa, Bruno Schultz (Cosac Naify, 544 págs.).

Um livro sobre música – As quarto estações, Mariano Marovatto (Cobogó, 88 págs.).

Um documentário sobre música – Desagradável, Fernando Rick (aqui).

Um disco – Star wars, Wilco.

Um vídeo – O debate cultural surf x jiu-jitsu no Rio dos 70 (aqui).

Sobre a escrita

Não existem regras para se escrever ficção. Ou melhor, não existem regras gerais. Cada autor encontrará as que são invioláveis no próprio caso, digam elas respeito a gramática, horários, quantidade de luz na escrivaninha, ruína financeira e conjugal.

A metodologia também se adapta ao tipo de literatura almejada. Em “Sobre a escrita”, livro de 2000 lançado há pouco no Brasil pela Suma das Letras (256 págs., tradução de Michel Teixeira), Stephen King fala da necessidade de ler muito e ter autocrítica, dicas vagas o bastante para não estragar a diversidade literária do mundo nem o entusiasmo de ninguém. Mas parte do que é dito no texto serve mesmo para quem quer seguir o modelo de… Stephen King.

É fundamental, portanto, identificar onde está a autoridade de quem publica tratados do gênero. A do autor de “Sobre a Escrita” é diversa das de Mario Vargas Llosa (“Cartas a um jovem romancista”), Francine Prose (“Para ler como um escritor”), James Wood (“Como funciona a ficção”) e tantos outros.

Trecho de texto publicado na Folha de S.Paulo, 17/7/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um documentário sobre música – What Happened, Miss Simone?,  Liz Garbus.

Um livro sobre música – Memórias de um legionário, Dado Villa-Lobos (Mauadx, 256 págs.).

Um ensaio – Tage Rai sobre violência e moral (aqui)

Um obituário – Alejandro Chacoff sobre James Salter na Piauí.

Uma exposição em Brasília – León Ferrari, CCBB.

Os fins do arco-íris

No debate sobre discriminação, pregar a tolerância é o melhor caminho? Numa de suas provocações costumeiras, e citando o exemplo insuspeito de Martin Luther King, o filósofo esloveno Slavoj Zizek acredita que não. Segundo ele, a meta deveriam ser leis que concretamente protejam e emancipem grupos vitimados por religião, etnia, gênero e comportamento.

O problema seria mais de topo, digamos, do que de base. É um raciocínio atraente para a militância, pois dá a ela ferramentas e horizontes objetivos, em vez de limitar sua ação a apelos genéricos e cheios de coraçõezinhos na terra dos afetos de pelúcia.

Só que as coisas são mais complexas. Levado ao limite, e boas intenções à parte, o argumento ganha o sotaque autoritário que impõe condutas imunes a um dos preceitos da sociedade livre: o de que a lei surge do consenso (ou de um nível possível de consenso), e não o contrário (regras impostas de cima para baixo).

Melhor pensar que a democracia, sistema de maiorias feito também para proteger minorias, será mais saudável se cultivarmos valores – como a aceitação das diferenças – que tirem a noção de direito individual do campo formal/teórico. A história é triste e repetitiva ao mostrar que leis são inúteis quando não há prática social a sustentá-las.

Trecho de texto publicado na Folha de S.Paulo, 3/7/2015. Íntegra aqui.

Fim de semana

Um filme – O cidadão do ano, Hans Petter Moland.

Outro – Enquanto somos jovens, Noah Baumbach.

Uma segunda temporada até aqui – True detective.

Um bibimpap – Mirim.

Um melhor (sempre) – Bueno.

Egopress

– Na próxima segunda (29/6, 19h30), no CCBB/SP, participo de um debate do ciclo Arte e ciência, sobre memória e criatividade, com o neurocientista Ivan Izquierdo. Na semana seguinte (6/7, 20h), como parte do mesmo ciclo, converso no CCBB/Brasília com a também neurocientista Jociane Miskiw.

– Sou um dos 16 entrevistados da coletânea Um escritor na biblioteca 3 (Biblioteca Pública do Paraná, 248 págs), que faz parte de uma série promovida pelo jornal Cândido.

– Um dos textos de Literatura por tudo (UPF, 189 págs.), com organização de Luís Augusto Fischer e participação de convidados da Jornada de Literatura de Passo Fundo, é meu.

Selvagens e eternos

Assisto a Os bons companheiros desde o seu lançamento, em 1990. A Cassino, desde o seu, em 1995. É dos poucos hábitos que mantive nestas duas décadas e meia em que deixei para trás tantas certezas sobre tantas coisas.

No ano em que se comemoram aniversários redondos dos dois clássicos de Martin Scorsese, as lições de ambos se renovam a cada reprise. A principal, que soa óbvia, mas não costuma ser seguida, é a de que a liberdade é o bem mais precioso do artista – e se apegar a ela é a melhor forma de lidar com as regras de um gênero ou tradição.

Em vez de ser uma sombra intimidadora, o longo cânone americano de filmes de máfia, cujos realizadores vão de Howard Hawks e William Wellman a Brian De Palma e Francis Ford Coppola, funcionou de maneira paradoxal aqui. Já que as possibilidades de exibir esse universo pareciam esgotadas, Scorsese resolveu trabalhar sem amarras – fazendo homenagens e emulando o virtuosismo dos mestres, sim, mas dando às suas crias um tom de irreverência selvagem.

Trecho de artigo publicado na Folha de S.Paulo, 19/6/2015. Íntegra aqui.

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