Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (5)

por Michel Laub

Carol Bensimon, autora de Sinuca embaixo d´água – “Quando quero criar uma cena, costumo pensar na trilha que estaria tocando caso a cena fosse a de um filme, e então saio para caminhar escutando essas músicas. Tomo notas e, quando sinto que já sei bastante sobre a cena, sento para escrevê-la. Nessa hora, é indispensável o chimarrão. Quase nunca escrevo sem estar tomando chimarrão. É o que segura minha vontade de ser fumante.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? – “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em  que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

Emilio Fraia, autor (com Vanessa Barbara) de O verão do Chibo – “Não consigo continuar nenhum texto se o fim da última linha de cada parágrafo não estiver alinhado o mais à direita possível na página – costumo inserir palavras ou frases para as linhas ficarem o mais à direita possível no arquivo, mesmo sabendo que a diagramação no livro (jornal ou revista) vai ser diferente depois. Durante um tempo eu só conseguia escrever se no Word o papel estivesse configurado para tamanho Letter (alguns dizem TOC). Voltei a escrever num caderninho. Letra cada vez menor. Se tudo vai mal, saio para andar ou leio trecho de algum livro (sempre que possível, Onetti). Escrever antes de escrever (cabeça) e escrever na hora de escrever (papel) são entidades distintas e complementares. Ler em voz alta: fundamento da vida na Terra.”

Luiz Paulo Faccioli, autor de Trocando em miúdos – “Escrever para mim é uma intimidade. Preciso de silêncio, conforto, concentração e isolamento. Se alguém estiver presente, mesmo sem saber o que estou escrevendo, sinto como se eu praticasse sexo em público. Sou mais produtivo à tarde e no começo da noite. De manhã sou preguiçoso, à noite tenho sono.” 

Vanessa Barbara, autora (com Emilio Fraia) de O verão do Chibo – “Gosto de escrever de madrugada (porque ninguém me interrompe) e costumo mudar a fonte de tipo e tamanho na hora de reler. É para ter uma ‘visão diferente’ do texto. Às vezes também releio em pé, meio de lado – é uma mania absolutamente idiota que nunca serve pra nada. Gosto de escrever de pijama ou com a roupa mais larga possível, que eu chamo de pijama social duplo.”

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